A Câmara dos Deputados analisa um projeto de lei que inclui o cacau e seus derivados, como o chocolate, na merenda escolar. O Projeto de Lei 69/26 acrescenta esse estímulo às diretrizes da Política Nacional de Incentivo à Produção de Cacau de Qualidade.
A proposta modifica a Lei 13.710/18, que já incentiva o uso do chocolate na alimentação dos estudantes. Com a mudança, o texto passa a abranger também o fruto e outros derivados.
Deputado Zé Neto (PT-BA). Foto: Bruno Spada / Agência Câmara de Notícias
O deputado Zé Neto (PT-BA), autor do projeto, afirma que a medida fortalece a cadeia econômica do cacau, especialmente a agricultura familiar. Ele também destaca os benefícios do consumo moderado do alimento.
“A medida poderá gerar benefícios tanto para os produtores locais que se empenham diariamente nessa atividade quanto para os jovens brasileiros em idade escolar”, declarou Zé Neto.
Próximos passos do projeto
O texto seguirá para análise em caráter conclusivo de duas comissões da Câmara: a de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; e a de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Para se tornar lei, o projeto precisará da aprovação da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
A aproximação da Páscoa aquece não só as vendas de ovos de chocolate, mas também o comércio exterior do principal insumo da data: o cacau. E, neste ano, o consumidor brasileiro sente esse movimento no bolso com mais intensidade. O chocolate em barra e bombom acumula alta de 24,77% em 12 meses até janeiro de 2026. Mais de cinco vezes acima da inflação geral de 4,44%, segundo o IPCA.
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Para Ahmed El Khatib, professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FECAP, o aumento não é pontual nem exclusivamente sazonal. “Antes mesmo do efeito Páscoa, o chocolate já vinha encarecendo forte no Brasil. Isso revela que o problema é estrutural, envolvendo matéria-prima, energia, frete e embalagens”, explica.
O choque do cacau em 2024 ainda ressoa
O principal gatilho foi a crise histórica no mercado de cacau em 2024, quando a cotação internacional ultrapassou US$ 10 mil por tonelada, mais que o triplo da média histórica. Quebras sucessivas de safra na África Ocidental, sobretudo na Costa do Marfim e em Gana, responsáveis por cerca de 60% da produção mundial, derrubaram a oferta global.
“Doenças nas lavouras, eventos climáticos extremos associados ao El Niño e o envelhecimento dos cacaueiros reduziram drasticamente a oferta. Como o cacau representa entre 30% e 40% do custo industrial do chocolate, o repasse foi inevitável”, afirma Ahmed.
Mesmo com a correção dos preços internacionais para a faixa de US$ 5 mil por tonelada, o consumidor ainda não sente alívio. “A indústria trabalha com contratos futuros e estoques. Muitas empresas travaram preços quando o cacau estava muito caro. O reflexo na gôndola ocorre com defasagem”, explica. Outro fator que amplifica o custo doméstico: o cacau tem cotação em dólar, e qualquer desvalorização do real encarece ainda mais a matéria-prima para a indústria nacional.
Brasil exporta cacau, mas ainda depende de importações
Esse cenário global se conecta diretamente à posição contraditória do Brasil no comércio exterior do setor. Embora o país figure como produtor e exportador relevante de cacau e derivados,com exportações que cresceram mais de 86% entre 2021 e 2025, aproximando-se de US$ 1 bilhão, ele ainda recorre ao mercado externo para abastecer a própria indústria.
Em 2024, o Brasil importou cerca de 41 mil toneladas de derivados de cacau, entre manteiga, pó e pasta, com investimento superior a US$ 160 milhões. Costa do Marfim, Gana e Malásia lideraram o fornecimento. No segmento de chocolates prontos, o país importou mais de 20 mil toneladas, vindas principalmente de países europeus e da Argentina.
Para a CEO da Accrom Consultoria em Logística Internacional, Cristiane Fais, a Páscoa escancarou a complexidade dessa cadeia. “O Brasil exporta derivados, mas ainda depende da importação para equilibrar a produção interna. Em datas como esta, a logística precisa ser ainda mais eficiente para evitar rupturas no abastecimento e aumento de custos.”
Cristiane Fais, CEO da Accrom Consultoria em Logística Internacional. Foto: Divulgação
Ela destaca que câmbio, frete e instabilidades climáticas nos países produtores pressionam diretamente o preço final ao consumidor. “Qualquer oscilação na produção internacional ou no transporte pode refletir rapidamente nas prateleiras. Empresas que atuam com importação e exportação precisam estar preparadas para cenários voláteis.”
Alta apareceu nas prateleiras
Levantamentos em grandes varejistas confirmam o impacto. Um ovo de 277g que custava em média R$ 45 passou para R$ 56,99, alta superior a 26%. Outros produtos registraram aumentos entre 16% e 25%.
O consumidor pode perceber essa pressão de três formas, segundo Ahmed: aumento nominal do preço, redução da gramatura com valor semelhante, ou promoções mais seletivas. O professor lembra ainda que o ovo de Páscoa concentra custos além do chocolate. “O consumidor não paga apenas pelo chocolate, mas por toda a estrutura sazonal que envolve o produto” (embalagem especial, marketing e logística refrigerada).
A antecipação das vendas, cada vez mais comum desde janeiro, também segue uma lógica clara. “A Páscoa representa de 25% a 30% do faturamento anual do setor de chocolates. Antecipar as vendas dilui risco, melhora o giro de estoque e ajuda no fluxo de caixa”, explica Ahmed.
Quando os preços podem cair?
Há expectativa de superávit global de cacau até o fim de 2026. Se o cenário se confirmar, parte do alívio pode chegar ao consumidor ao longo de 2027. Mas sem retorno aos patamares anteriores ao choque.
Ahmed Sameer El Khatib é professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP). Foto: Divulgação
Ahmed ilustra a dimensão desse possível alívio: em um ovo de R$ 70, cerca de 30% do preço final tem ligação direta com o cacau. “Se o preço internacional cair 30% e o movimento for totalmente repassado, o impacto máximo seria cerca de R$ 6 de redução. Na prática, como o repasse costuma ser parcial, a queda poderia ser de aproximadamente R$ 3, levando o produto de R$ 70 para cerca de R$ 67. “Mesmo com superávit, dificilmente veremos uma volta aos preços antigos. Há rigidez para baixo no varejo e outros custos continuam elevados”, conclui.
Como economizar nesta Páscoa
Apesar do cenário adverso, o consumidor pode adotar estratégias simples. A principal dica do professor é comparar o preço por grama, não o valor total do ovo. “Comparar alternativas como barras e caixas de bombom pode gerar economia relevante.”
Outra saída é montar kits alternativos. “Combinar uma barra de chocolate com uma caixa menor e um mimo adicional costuma sair mais barato do que um ovo grande, que concentra custo de embalagem e sazonalidade.” Pesquisar em supermercados, atacarejos e e-commerce também ajuda, já que a dispersão de preços tende a crescer em anos de alta.
Ahmed encerra com um alerta direto: “A última semana antes da Páscoa costuma ser emocionalmente mais cara. Em um cenário de preços elevados, planejamento deixa de ser apenas uma boa prática e passa a ser uma necessidade financeira.”
O consumidor brasileiro vai pagar mais pelo chocolate nesta Páscoa. E a queda de cerca de 60% nos preços internacionais do cacau ainda não explica o contrário. O mercado vive um cenário agridoce em 2026: as cotações das amêndoas recuaram nas bolsas, mas os efeitos não chegaram às prateleiras. A razão é direta; boa parte da indústria comprou a matéria-prima quando os preços ainda estavam nas máximas históricas.
Ao longo de 2025, fabricantes reajustaram portfólios, reformularam produtos e repassaram custos ao consumidor. Com a demanda ainda pressionada, o setor entra na principal data do calendário chocolateiro sem folga de margem.
Os dados confirmam o movimento. Na Europa, produtos à base de cacau atingem os maiores preços dos últimos anos. Nos Estados Unidos, os índices de preços ao produtor e ao consumidor seguem elevados, mesmo com correções recentes. No Brasil, chocolates em barra e doces registraram variações acima do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). Um sinal claro de que o consumidor vai sentir o impacto no bolso.
O país ocupa a oitava posição no ranking mundial de processamento de cacau, posição que mantém nas últimas cinco safras. Esse peso global torna ainda mais relevantes as discussões sobre abastecimento e fluxo comercial. Especialmente agora, quando o setor acumula desafios em diversas frentes.
A capacidade de processamento brasileira supera a produção doméstica. Para cobrir a diferença, o país recorre às importações: em média, 17% das amêndoas processadas vieram do exterior nos últimos cinco anos, com cerca de 80% originárias da Costa do Marfim.
É justamente nesse ponto que o cenário se complica. A suspensão das importações de amêndoas do principal fornecedor africano, combinada com mudanças no regime de drawback, aumenta as preocupações com a atividade de moagem no país e eleva as incertezas sobre o abastecimento de médio e longo prazo.
Exportações mostram comportamento misto em 2026
No comércio exterior, os primeiros dois meses do ano revelam um quadro dividido. As exportações de pó de cacau caíram 23% entre janeiro e fevereiro na comparação com o mesmo período de 2025, enquanto as de manteiga avançaram 37%. O movimento é inverso ao do ano passado, quando o pó cresceu 21% e a manteiga recuou 13%.
Mesmo com exportações de manteiga e pó ainda acima da média histórica em fevereiro, o setor opera sob pressão crescente.
“A Páscoa deste ano reforça um cenário agridoce para o mercado de cacau. Embora a recente correção das cotações internacionais possa sinalizar algum alívio adiante, os efeitos ainda não chegam de forma clara ao consumidor final”, afirma Carolina França, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets. “Enquanto isso, a indústria segue lidando com um ambiente de demanda fragilizada e desafios adicionais para o abastecimento e a operação no Brasil.”
As vendas de produtos de Páscoa nos supermercados paulistas devem crescer 2,7% em 2026, segundo o Índice de Preços dos Supermercados (IPS), levantamento da Associação Paulista de Supermercados (APAS) em parceria com a FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). O aumento reflete a melhora do mercado de trabalho e o avanço da renda real da população.
O cenário econômico mais favorável impulsiona o consumo, mesmo com o impacto da alta do chocolate. Segundo o estudo, o preço médio da cesta de Páscoa deve subir 4,7% neste ano, a segunda menor variação registrada nos últimos cinco anos.
Queda de preços em itens tradicionais
Vários produtos típicos da Páscoa registram queda de preço e ajudam a equilibrar os custos da cesta em 2026. Entre eles estão azeite de oliva (-22%), frutas da estação (-11,38%), batata (-13,62%), ovos (-12,24%) e queijo muçarela (-8,05%).
Essas reduções compensam parcialmente a alta de 20% no preço do chocolate, pressionada pela escalada do cacau no mercado internacional, que enfrenta quebras de safra e efeitos das mudanças climáticas.
Impactos do setor e da economia
Para o economista-chefe da APAS, Felipe Queiroz, os diferentes comportamentos de preços refletem as particularidades de cada cadeia produtiva.
“Quando analisamos itens essenciais, como o chocolate, percebemos o impacto direto das oscilações do cacau, afetadas por alterações climáticas e pela oferta limitada no mercado global”, explica.
Mesmo com o aumento moderado da cesta e projeção positiva para o faturamento, o setor ainda enfrenta obstáculos como juros elevados e endividamento das famílias, fatores que limitam uma expansão mais acelerada das vendas.
Pescados sobem com a Quaresma
O levantamento também destaca o comportamento dos produtos consumidos durante a Quaresma, que registram alta de preços típica do período devido ao aumento da demanda. O estudo aponta elevação média de 9,13% nos pescados, com destaque para sardinha (5,85%), cação (11,16%), merluza (4,46%), bacalhau (8,58%) e atum em lata (4,27%).
Segundo Queiroz, o movimento é esperado. “Durante a Quaresma, a maior procura por pescados eleva temporariamente os preços. Esse padrão cíclico se repete praticamente todos os anos”, afirma.
O Brasil pode estar a um passo de mudar definitivamente o padrão do chocolate comercializado no país. A Câmara dos Deputados aprovou, na noite de terça-feira (17), o Projeto de Lei 1769/19, que regulamenta os percentuais mínimos de cacau na composição de chocolates produzidos e vendidos no território nacional, incluindo produtos importados. O texto, que recebeu alterações pelos deputados, retorna agora ao Senado antes de seguir à sanção presidencial.
Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar
A proposta vai além de uma questão técnica: ela toca em um ponto sensível para consumidores, fabricantes e varejistas; a transparência sobre o que, de fato, está dentro de cada barra, bombom ou ovo de Páscoa vendido nas prateleiras.
O que muda na composição
O texto determina que o chocolate deve conter ao menos 35% de sólidos totais de cacau. Desse total, o produto precisa apresentar no mínimo 18% de manteiga de cacau e 14% de sólidos isentos de gordura. A lei limita o uso de outras gorduras vegetais a, no máximo, 5%.
As regras variam por tipo de produto. Para o chocolate ao leite, passa a ser exigido o mínimo de 25% de sólidos totais de cacau e 14% de sólidos de leite ou derivados. O chocolate em pó deve conter ao menos 32% de sólidos totais de cacau. Já o chocolate branco deve ter no mínimo 20% de manteiga de cacau e 14% de sólidos totais de leite. Para os achocolatados, o projeto impõe pelo menos 15% de sólidos ou manteiga de cacau.
O projeto cria ainda uma nova categoria denominada “chocolate doce”, para produtos com mínimo de 25% de sólidos totais de cacau, dos quais pelo menos 18 pontos percentuais devem ser de manteiga de cacau e 12 pontos percentuais isentos de gordura.
Rótulo na frente, sem letra miúda
Um dos pontos centrais da proposta é a obrigatoriedade de rotulagem clara. A informação sobre o percentual de cacau deverá constar na embalagem frontal do produto, em tamanho não inferior a 15% da área, em caracteres legíveis para fácil visualização.
O relator do projeto, deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), destacou no plenário que o problema não é apenas a falta de cacau, é a falta de informação. Segundo ele, não são raros os casos de produtos com baixíssimo teor de cacau que se apresentam como “chocolates de verdade”, ou que tentam confundir o consumidor rotulando-se como “sabor chocolate”. Para o deputado, a medida busca equilibrar as relações de consumo e garantir que o consumidor exerça sua liberdade de escolha de forma informada.
A norma tem prazo de adaptação: as regras entram em vigor 360 dias após a publicação. Empresas que descumprirem estarão sujeitas às sanções previstas no Código de Defesa do Consumidor e na legislação sanitária, sem prejuízo de penalidades civis ou penais.
Um mercado bilionário sob pressão
A aprovação ocorre em um momento de turbulência no setor. Em 2025, o mercado de chocolates movimentou R$ 26 bilhões no Brasil, mas a indústria enfrentou o ciclo de alta do cacau mais intenso em décadas. Os contratos internacionais de cacau chegaram a ultrapassar US$ 11 mil por tonelada em abril de 2024, um recorde histórico.
A crise impactou diretamente a oferta. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), na Páscoa de 2025, o aumento médio nos preços dos chocolates foi de 18,9%, o maior em 13 anos, o que levou a uma queda de 22% na produção de ovos de Páscoa em relação ao ano anterior.
A boa notícia para o setor é que o cenário começa a mudar. Mais recentemente, a commodity recuou para pouco mais de US$ 3 mil por tonelada no fim de fevereiro de 2026. Mas a queda não elimina os desafios imediatos: o CEO da Cacau Show, Alexandre Costa, afirmou à em entrevista recente que 2025 foi um dos anos mais difíceis para o setor em termos de lucratividade.
A pressão por qualidade e o consumidor mais exigente
Paradoxalmente, a crise do cacau acelerou exatamente o debate que a nova lei pretende endereçar. Com o aumento dos custos, parte da indústria passou a substituir chocolate puro por misturas mais baratas, o que afeta o sabor e a percepção do consumidor, segundo especialistas.
Foto: Divulgação – Mapa
Ao mesmo tempo, o consumidor demonstra crescente interesse por produtos de maior qualidade. Dados mostram que mesmo com a alta de preços, a classe C manteve o interesse por marcas premium, com crescimento de 9,4% no consumo desse segmento.
Esse movimento dialoga com uma tendência estrutural no setor exportador. As exportações brasileiras de chocolate, cacau e derivados avançaram 86,1% entre 2021 e 2025, somando quase US$ 1 bilhão. Foram impulsionadas por um salto na qualidade da produção nacional e por programas que promovem chocolates finos do tipo “bean to bar”, do grão à barra, nos mercados internacionais.
Impacto para fabricantes e varejo
A nova regulação exigirá reformulações de produto para marcas que hoje operam abaixo dos percentuais mínimos estabelecidos. Além disso, o prazo de 360 dias para adequação é considerado apertado por parte do setor, especialmente para fabricantes menores, que dependem de fornecedores e têm menor capacidade de absorver custos de reformulação.
Por outro lado, marcas que já operam com teores elevados de cacau podem se beneficiar da nova lei como diferencial competitivo. Já que o rótulo frontal obrigatório tornará a comparação entre produtos mais simples e direta para o consumidor.
O relator defendeu que a regulamentação tende a valorizar o cacau brasileiro, que tem ganhado destaque no mercado internacional nos últimos anos. E também afirmou que a medida contribui para o crescimento equilibrado da economia e para a soberania nacional.
O projeto retorna agora ao Senado Federal, que deverá analisar as mudanças feitas pelos deputados. Caso seja aprovado novamente, o texto seguirá para sanção presidencial. O calendário legislativo ainda é uma incógnita, mas o setor já monitora o trâmite com atenção. E começa a calcular o impacto de uma transformação que pode redefinir, de vez, o que o brasileiro chama de chocolate.
O mercado global de cacau enfrenta sua pior crise em anos. Depois de um pico histórico em 2024, os preços desabaram em 2025 e colocaram em risco o sustento de milhares de famílias produtoras em Gana e na Costa do Marfim, responsáveis por mais de 60% da produção mundial.
O contraste entre o preço crescente do chocolate nas prateleiras e a queda do valor do cacau pago aos agricultores evidencia o desequilíbrio da cadeia de valor. Em muitas comunidades rurais da África Ocidental, produtores não recebem há meses e já enfrentam escassez de recursos básicos.
Em Gana, a Ghana Cocoa Board (Cocobod) fixou em outubro passado o preço de compra em quase US$ 5.300 por tonelada, mas a cotação internacional despencou para menos de US$ 3.500. A diferença gerou uma dívida estimada em US$ 3 bilhões e atrasou pagamentos a cerca de 800 mil produtores, comprometendo a renda de centenas de vilarejos agrícolas.
Com as empresas exportadoras incapazes de vender os grãos, a Cocobod interveio para evitar o colapso completo do setor. Mesmo assim, muitos agricultores seguem sem receber. A instituição reduziu em fevereiro o salário de sua diretoria em até 20% e anunciou que os pagamentos estão sendo regularizados gradualmente.
O cacau representa aproximadamente 7% do PIB de Gana e responde por cerca de 15% das receitas de exportação do país. Diante da crise, o governo planeja ampliar o processamento interno dos grãos para agregar valor e reduzir a dependência das exportações brutas.
Custos altos e incerteza no campo
Os produtores enfrentam dificuldades para manter as lavouras. Cultivar um hectare de cacau em Gana custa, em média, US$ 1.000 por ano, valor que inclui mão de obra e insumos agrícolas. Com a queda no preço pago por tonelada, muitos temem ficar no prejuízo em 2026.
Lideranças rurais criticam as medidas adotadas até agora e defendem o reajuste do preço mínimo garantido aos produtores. “Os custos não reduziram, mas o valor do cacau caiu. Isso inviabiliza nossa sobrevivência”, afirmou um agricultor da região de Suhenso.
Situação semelhante na Costa do Marfim
Na vizinha Costa do Marfim, maior produtora mundial de cacau, o cenário é parecido. Armazéns estão lotados de sacas que as cooperativas não conseguem vender, já que o preço interno fixado pelo Conselho do Café e do Cacau ficou muito acima do valor internacional.
Na tentativa de destravar o mercado, o governo anunciou um corte de 50% no preço pago aos agricultores. Ainda assim, produtores relatam dificuldades para escoar a safra e sustentar suas famílias.
Com a falta de compradores, estima-se que até o fim de março o país acumule mais de 200 mil toneladas de cacau sem destino. Agricultores afirmam que escolas, comércios e transportes locais já sentem o impacto da crise econômica gerada pela paralisação das exportações.
“Quando não há dinheiro, não há paz nas famílias. E hoje, o cacau é o que nos mantém vivos”, resumiu um produtor da região de Bangolo.
O mercado global de cacau voltou a operar em níveis reais próximos e, em alguns casos, inferiores, aos registrados antes da crise de 2023. A recente correção nas cotações internacionais reduziu parte dos prêmios acumulados nos últimos dois anos e melhorou a relação de risco para indústrias que buscam previsibilidade de custos em 2026.
Segundo Caio Santos, consultor em gerenciamento de riscos da StoneX, o principal fator dessa retração veio de Gana, que reformulou seu sistema de financiamento das compras internas de cacau. “O novo modelo estabelece o pagamento de 70% do valor FOB ao produtor e usa títulos domésticos para financiar o fluxo comercial”, afirma. A medida tende a destravar o escoamento da safra e a reduzir a retenção de grãos, diminuindo os riscos de originação no curto prazo. Aspecto essencial para indústrias que dependem de fornecimento contínuo.
Na Costa do Marfim, o governo manteve o preço mínimo em CFA 2.800/kg até o fim da safra principal, em 31 de março. Assim, criando um contraste com o corte aplicado por Gana. Esse descompasso entre os dois maiores produtores globais pode estimular o comércio informal nas fronteiras e alterar o ritmo dos embarques, com impacto direto sobre os diferenciais regionais, monitorados de perto por compradores industriais.
As condições climáticas na África Ocidental permanecem favoráveis ao desenvolvimento da safra intermediária, com chuvas dentro da média histórica. No entanto, a StoneX alerta que a possível transição de La Niña para neutralidade climática pode elevar as temperaturas na região produtora. Portanto, mantendo o risco climático no radar para o segundo semestre de 2026.
Fora do eixo africano, o Equador registrou em janeiro uma queda de 36,8% nas exportações, totalizando 34.519 toneladas. Apesar da retração mensal, o acumulado da temporada segue acima do resultado do ano anterior, sinalizando uma recomposição gradual das origens secundárias. Ainda que marcada por alta volatilidade. Para indústrias que diversificam fornecedores, esse ajuste reforça a importância de estratégias geográficas mais amplas.
Na ponta da demanda, as moagens de cacau na Costa do Marfim caíram 2,1% em janeiro, refletindo a sensibilidade do consumo a preços elevados. A análise deflacionada pelo índice global de alimentos da FAO mostra, contudo, que as cotações atuais já retornaram à faixa histórica, ficando abaixo dos picos registrados em 2010, 2015 e 2002.
Com o realinhamento global, o momento favorece indústrias que desejam travar contratos de compra para 2026 a preços mais equilibrados. Especialistas sugerem o uso de instrumentos de proteção, como opções e swaps, para garantir flexibilidade tática diante de possíveis mudanças climáticas, políticas de preço ou distorções nos diferenciais regionais.
O mercado global de cacau encerra um período de escassez e começa um novo ciclo de superávit. A consultoria StoneX, em seu Relatório de Saldo Global de Cacau, projeta um excedente de 287 mil toneladas na safra 2025/26 e de 267 mil toneladas na safra seguinte. As duas projeções indicam que a oferta supera a demanda pela primeira vez em dois anos.
A recuperação da oferta depende principalmente de quatro países: Costa do Marfim, Equador, Gana e Indonésia. Cada um deles aumenta a produção por razões específicas, desde investimentos em área plantada até condições climáticas favoráveis.
Rafael Borges, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, explica que a consultoria revisou a safra 2025/26 com base no aumento da oferta na Costa do Marfim, ajuste negativo em Gana e redução da demanda global. A produção mundial e a demanda foram revisadas para baixo, mas o saldo global permanece em 287 mil toneladas.
O cenário pressiona os preços do cacau, que chegam atualmente a US$ 4.185 por tonelada. Os efeitos no preço do chocolate ao consumidor devem aparecer gradualmente, à medida que os estoques se normalizam após a forte destruição registrada em 2023/24.
Gana: otimismo crescente com a safra
Até a primeira metade de novembro, cerca de 220 mil toneladas de cacau já chegaram aos portos de Gana, alimentando um clima de otimismo para a safra 2025/26. As expectativas iniciais apontavam para uma produção abaixo de 600 mil toneladas, mas as boas condições das lavouras levaram analistas a revisar essa estimativa para cima.
Foto: Divulgação – Mapa
O preço farmgate pago aos produtores ganenses representa outro fator relevante. O valor superou as cotações internacionais e alcançou patamares acima de US$ 5.000 por tonelada, dependendo da taxa de câmbio do cedi ganense. Esse diferencial reduz o incentivo ao contrabando para países vizinhos e sustenta a perspectiva de uma safra volumosa.
Equador consolida expansão produtiva
O Equador destaca-se como um dos principais produtores fora da África. Borges aponta que a expansão da produção reflete condições climáticas favoráveis nos últimos dois anos, além da maturação de investimentos em ampliação de área e uso intensivo de fertilizantes. Além disso, a predominância de variedades híbridas, mais resistentes a pragas e doenças, também contribui para maior estabilidade dos rendimentos.
Os altos preços internacionais estimularam novos investimentos no país, com apoio dos setores público e privado. Estimativas oficiais indicam que a produção equatoriana pode superar 650 mil toneladas em 2026/27, com potencial de crescimento adicional ao longo da década.
Indonésia e Peru avançam com cautela
Na Indonésia, a StoneX projeta uma recuperação moderada, com produção em torno de 230 mil toneladas nas próximas duas safras. Os elevados preços ampliaram a capacidade de investimento dos produtores, mas o declínio estrutural do parque cacaueiro limita ganhos mais expressivos. Chuvas acima da média e o risco de um evento de El Niño em 2026 permanecem como fatores de atenção.
O Peru compartilha características estruturais com o Equador, como clima tropical úmido e desafios fitossanitários semelhantes. A safra 2024/25 já beneficiou-se de chuvas regulares e preços elevados, que impulsionaram investimentos em manejo e fertilização. As perspectivas para as próximas temporadas permanecem favoráveis.
Demanda segue pressionada, mas mostra sinais de estabilização
Os dados de moagem, o principal indicador de consumo de cacau, registraram forte queda nos últimos três trimestres. No primeiro trimestre da safra 2025/26, a moagem recuou 7,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Ainda assim, o trimestre apresentou moagem superior ao período imediatamente anterior, contrariando a sazonalidade histórica. A StoneX avalia que a recente queda nos preços pode permitir uma estabilização ou leve recuperação do consumo até o final de 2026. A consultoria estima uma moagem global de 4,663 milhões de toneladas em 2025/26, com avanço de 2,4% na safra seguinte, para 4,774 milhões de toneladas.
Estoques caminham para normalização
Os superávits estimados devem elevar a relação entre estoques e demanda para patamares próximos de 40% ao final de 2026/27. Portanto, indicando uma recomposição gradual após a crise do ano anterior.
Rafael Borges, analista de Inteligência de Mercado. Foto: Divulgação
Borges conclui que o mercado global de cacau passa por um processo de reorganização e caminha para uma nova normalidade de preços. Essa normalidade depende do equilíbrio entre atratividade e destruição da demanda, além dos incentivos e desestímulos aos investimentos no cultivo, não apenas na África, mas também em países como o Equador.
Os preços internacionais do cacau seguem pressionados no início de 2026, refletindo a continuidade do enfraquecimento da demanda global após as quedas registradas no final de 2025. De acordo com análise da Hedgepoint Global Markets, os contratos futuros de cacau encerraram a última semana cotados a US$ 5.076 por tonelada em Nova York e £ 3.712 por tonelada em Londres, acumulando mais uma semana de baixa.
O movimento foi influenciado pelos resultados de moagem do quarto trimestre de 2025. Que indicaram menor atividade nas principais regiões processadoras. Na Europa, maior polo mundial de processamento de cacau, dados da Associação Europeia do Cacau apontaram uma queda de 8,3% na moagem do período frente ao mesmo trimestre de 2024, encerrando o ano com retração acumulada de 6,1%. As leituras vieram acima das estimativas do mercado, reforçando o cenário de demanda enfraquecida e pressionando as cotações, que chegaram a cair para US$ 4.839/t em Nova York e £ 3.572/t em Londres no dia 15 de janeiro.
Importações europeias caem
Segundo Carolina França, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint, as reduções nas importações europeias corroboram a tendência de ajuste da demanda. “As importações líquidas de amêndoas de cacau na região recuaram 5,6% em 2025. Com queda de 8,9% apenas no quarto trimestre, após uma alta de 6,4% no trimestre anterior”, afirma.
Embora o impacto direto sobre a moagem seja amortecido por estoques ainda relevantes, o ambiente de preços historicamente elevados e restrição de oferta limita a recomposição de estoques. A Hedgepoint destaca que, historicamente, o terceiro trimestre do ano tende a registrar entradas líquidas positivas, mas desde 2023 esse padrão se quebrou. Em 2025, o fluxo do T3 permaneceu negativo, ainda que atenuado pelo aumento das importações.
“Os preços elevados restringem a recomposição dos estoques. E tornam a moagem mais sensível à oferta de matéria-prima, mantendo a postura cautelosa do lado da demanda”, explica França. A Ásia também seguiu essa tendência, com queda de 4,82% na moagem do quarto trimestre, puxada pela Malásia, que apresentou resultados abaixo das expectativas.
Avanço na moagem
Na direção oposta, os números da Associação Nacional de Confeiteiros (NCA) mostram leve avanço na moagem da América do Norte. Ela subiu 0,35% no quarto trimestre na comparação anual. Nos Estados Unidos, as importações líquidas de cacau permaneceram firmes, somando 238,7 mil toneladas até outubro de 2025. Frente a apenas 42,5 mil toneladas no mesmo período de 2024.
De forma geral, o mercado de cacau mantém viés baixista diante da fraqueza do consumo global e das expectativas de melhora na produção no ciclo 2025/26. O aumento das posições líquidas vendidas nos mercados de Nova York e Londres confirma o tom mais cauteloso dos investidores.
Ainda assim, análises técnicas indicam que o Índice de Força Relativa (RSI) permanece próximo à zona de sobrevenda. O que abre espaço para correções pontuais de curto prazo. “Mudanças nas posições dos fundos, fatores técnicos ou variações climáticas nas origens produtoras podem gerar volatilidade e ajustes pontuais nos preços, mas não sinalizam, por ora, uma reversão estrutural da tendência de baixa”, conclui França.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou nesta quinta-feira (22/01) o recolhimento de diversos produtos que vão desde itens essenciais para o churrasco até sobremesas tradicionais brasileiras.
As suspensões incluem sal grosso, azeite de oliva, doce de leite, chocolate e até glitter comestível, todos com irregularidades que colocam em risco a saúde dos consumidores.
Sal grosso Marfim reprovado em teste de iodo
O Sal Marinho Grosso Iodado da marca Marfim, fabricado pela empresa M Gomes Praxedes Ltda, teve sua comercialização, distribuição e consumo suspensos. A medida vale exclusivamente para o lote 901124.
A suspensão ocorreu após o produto ser reprovado no teste de teor de iodo pelo Laboratório Central de Saúde Pública do Distrito Federal (LACEN-DF). O iodo é um mineral essencial adicionado ao sal para prevenir problemas graves de saúde, como bócio (aumento da tireoide) e complicações no desenvolvimento fetal durante a gestação.
A obrigatoriedade de adicionar iodo ao sal destinado ao consumo humano existe no Brasil desde 1953, estabelecida pela Lei 1944/1953, sancionada pelo então presidente Café Filho.
Doce de leite sem identificação adequada
O Doce de Leite em Pedaços da marca São Benedito, produzido pela JF Indústria Comércio de Doces e Laticínios Ltda, também entrou na lista de recolhimentos. O produto foi fabricado em 25 de junho de 2025 e teve comercialização, distribuição e consumo suspensos.
As irregularidades identificadas foram a falta de identificação do lote e a reprovação no teste de determinação de ácido sórbico, conservante essencial para evitar a deterioração do alimento por microrganismos.
Chocolate Laka com embalagem trocada oferece risco a celíacos
O lote CC28525493 do Chocolate Branco Laka está suspenso após falha técnica grave. A fabricante Mondelez Brasil Ltda comunicou o recolhimento voluntário ao constatar que o produto Laka Oreo foi embalado incorretamente com rótulo do Chocolate Branco Laka.
O erro faz com que os ingredientes descritos não correspondam ao produto real, resultando na ausência da declaração obrigatória de presença de glúten. Para pessoas com doença celíaca ou alergia ao glúten, a falta dessa informação representa sério risco à saúde.
Glitter decorativo impróprio para consumo
A Anvisa também determinou o recolhimento do Glitter e Glitter Holográfico da marca Flex Fest, produtos da empresa AP Viola Artes e Festas Ltda. A comercialização, distribuição, fabricação, divulgação e uso foram suspensos.
Os produtos contêm materiais plásticos em sua composição, tornando-os impróprios e perigosos para consumo em alimentos, apesar de serem vendidos para decoração alimentícia.
Azeite de oliva com origem desconhecida é proibido
O Azeite de Oliva Extravirgem da marca Terra das Oliveiras foi totalmente proibido pela Anvisa. O produto não pode mais ser comercializado, distribuído, fabricado, importado, divulgado ou consumido.
A proibição se deve à origem desconhecida do azeite, que estava sendo vendido pela plataforma Shopee. Além disso, a empresa JJ – Comercial de Alimentos Limitada (CNPJ: 37.815.395/0001-90), identificada no rótulo como importadora, teve seu CNPJ extinto em 8 de janeiro de 2025, após encerramento voluntário das atividades.
O que fazer se você comprou algum desses produtos
Consumidores que adquiriram qualquer um dos produtos suspensos devem interromper imediatamente o consumo e procurar o local de compra para solicitar troca ou reembolso. Em caso de problemas de saúde relacionados ao consumo, recomenda-se buscar atendimento médico e notificar a Anvisa através dos canais oficiais da agência.