Tag: chocolate

  • Cacau do Pará domina o principal concurso de chocolate fino do Brasil em 2026

    Cacau do Pará domina o principal concurso de chocolate fino do Brasil em 2026

    O Pará confirmou mais uma vez sua hegemonia no mundo do chocolate fino. Na edição 2026 do Prêmio Bean to Bar Brasil, considerado o principal concurso do setor no país, seis das onze barras finalistas usaram cacau paraense. Os organizadores divulgaram os vencedores na última semana.

    A medalha de ouro na categoria chocolates intensos ficou com a Invento Chocolates, de Santa Catarina, que produziu um 70% cacau com amêndoas do assentamento Tuerê, no município de Novo Repartimento, na Região de Integração do Lago Tucuruí. Com essa conquista, o assentamento chega a 44 premiações nacionais e internacionais. Portanto, um histórico que consolida a região entre os endereços de referência para o cacau de excelência no Brasil.

    O Pará lidera a produção nacional de cacau, com a região da Transamazônica respondendo por 86,3% da produção estadual. O estado produz cerca de 152 mil toneladas de amêndoas por ano. A força na quantidade reflete diretamente na qualidade: municípios como Medicilândia, Brasil Novo e Novo Repartimento indicam a procedência das melhores amêndoas do Brasil.

    Sítio Ascurra e Medicilândia brilham em múltiplas categorias

    Outro destaque da edição foi o Sítio Ascurra, do produtor Robson Brogni, em Medicilândia, na Região de Integração do Xingu. O sítio aparece em dois chocolates premiados da Invento Chocolates. Um bronze nos intensos e uma prata no ao leite, repetindo o reconhecimento que já havia recebido na edição anterior do concurso.

    Medicilândia é o maior município produtor de cacau do Pará, com 37.564 toneladas, seguida por Uruará (21.426 toneladas) e Placas (17.052 toneladas).

    Avaliação às cegas garante imparcialidade

    No concurso, todos os chocolates tomam a forma de barras idênticas e os jurados os avaliam sem saber a origem ou a marca. Portanto, uma metodologia que garante imparcialidade total na avaliação. Os ingredientes permitidos são apenas cacau, açúcar, manteiga de cacau e lecitina (no caso do ao leite), também leite em pó, sem gorduras vegetais, aromatizantes ou terceirização de qualquer etapa da produção.

    O coordenador do Procacau da Sedap, Ivaldo Santana, destacou que a premiação reforça a liderança das amêndoas paraenses no mercado nacional. Para ele, o momento também serve de convite: o Festival Internacional do Chocolate e do Cacau de Altamira, entre os dias 11 e 14 de junho, vai levar ao público os mesmos cacaus que brilharam no concurso.

    “Essa amêndoa utilizada em alguns desses chocolates que se destacaram na premiação estará presente nos diferentes produtos que serão ofertados no festival. É uma ótima oportunidade do público conferir essa excelência das nossas amêndoas, não apenas produzidas na Transamazônica como em outras regiões do Pará”, afirmou Santana.

    Confira a lista completa dos vencedores — Bean to Bar Brasil 2026

    Chocolates Intensos (70–80% cacau)

    • Ouro: Invento Chocolates 70% — Tuerê, PA
    • Prata: Magian Cacao 70% — Medicilândia, PA (Robson Brogni)
    • Prata: Magian Cacao 70% catongo — Uruará, PA (Gilmar Batista)
    • Bronze + Escolha do Público: Monjolo Chocolates 70% — Medicilândia, PA
    • Bronze: Invento Chocolates 70% Sítio Ascurra — Medicilândia, PA
    • Bronze: Mission Chocolate 70% — Castelo Novo, Ilhéus, BA

    Chocolates ao Leite

    • Ouro + Escolha do Público: Mission Chocolate 43% — Castelo Novo, Ilhéus, BA
    • Prata: Invento Chocolates 45% Sítio Ascurra — Medicilândia, PA
    • Bronze: Alma Chocolates 55% — Bahia
    • Bronze: Ocan Chocolate Bean to Bar 52% — Espírito Santo
    • Bronze: Alma Chocolates 44% — Espírito Santo
  • Mercado de cacau oscila com risco climático e avanço do El Niño

    Mercado de cacau oscila com risco climático e avanço do El Niño

    O mercado global de cacau mantém pressão de fatores técnicos e da expectativa de superávit, mas segue altamente sensível ao clima nas principais regiões produtoras. A combinação entre fundamentos baixistas e riscos climáticos deve sustentar a volatilidade nas próximas semanas.

    Dados da Hedgepoint Global Markets indicam que previsões de chuvas abaixo da média na África Ocidental e o avanço das chances de El Niño podem alterar o comportamento dos preços, mesmo com sinais de maior oferta global.

    Na semana encerrada em 29 de maio, os contratos futuros do cacau fecharam a US$ 3.923 por tonelada em Nova York e £ 2.975 por tonelada em Londres. No acumulado do mês, as cotações subiram 12,3% e 13,5%, respectivamente.

    Apesar de projeções de safra maior na Costa do Marfim e preocupações com a qualidade das amêndoas na África Ocidental, os fundamentos do mercado não registraram mudanças relevantes.

    Carolina França, analista de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets. Foto: divulgação

    Segundo Carolina França, analista de Inteligência de Mercado da Hedgepoint, o mercado reage rapidamente a ajustes técnicos e ao cenário macroeconômico. Movimentos como cobertura de posições vendidas e reposicionamento de investidores continuam influenciando os preços.

    Clima na África Ocidental entra no radar

    As condições climáticas seguem no centro das atenções. Na Costa do Marfim, maior produtor mundial, as chuvas permanecem acima do ciclo anterior e próximas da média histórica. Em Gana, o volume de precipitação também supera a média, o que favorece o desenvolvimento das lavouras, mas eleva o risco de doenças e impactos na colheita.

    Mesmo com cenário positivo até agora, previsões indicam redução das chuvas em partes da África Ocidental nas próximas semanas. O período é decisivo para a safra 2026/27, pois coincide com a fase de florescimento das plantas.

    Caso a estiagem avance ao longo de junho, o desenvolvimento das lavouras pode sofrer impacto direto, o que tende a dar suporte aos preços internacionais do cacau.

    El Niño aumenta incerteza no mercado

    Outro fator de atenção é o avanço das projeções para o El Niño. A NOAA elevou para 82% a probabilidade de formação do fenômeno entre maio e julho. Com possibilidade de continuidade durante o inverno 2026/27 no Hemisfério Norte.

    As projeções indicam que a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 pode ultrapassar 1,5°C e atingir até 2°C a partir de setembro, caracterizando um evento forte.

    Os impactos variam por região. Mas o padrão climático tende a provocar condições mais secas em áreas da África Ocidental e Central, além da América Central e do norte do Brasil. Por outro lado, países como Peru e Equador podem registrar aumento das chuvas.

    O fenômeno também pode intensificar ondas de calor na América do Sul e na África. A intensidade do El Niño, aliada a fatores locais como o Harmattan e a monção da África Ocidental, deve determinar os efeitos sobre a produção.

    Fatores técnicos e clima devem guiar preços

    No curto prazo, o mercado deve continuar reagindo à combinação entre fatores técnicos e notícias climáticas. A expectativa de superávit global e os estoques elevados em Nova York mantêm o viés baixista.

    No entanto, qualquer mudança nas condições climáticas pode gerar correções rápidas nos preços.

    Portanto, o mercado de cacau segue em alerta. A evolução do clima na África Ocidental, o comportamento do El Niño e a demanda global devem continuar como principais vetores para produtores, exportadores e investidores.

  • Cacau nativo da Amazônia dá ao Pará vantagem sobre nova legislação do chocolate

    Cacau nativo da Amazônia dá ao Pará vantagem sobre nova legislação do chocolate

    O Pará produz chocolate com teor de cacau que vai de 56% a 90%. Isso é bem acima do mínimo de 35% que o Governo Federal acaba de tornar obrigatório para o setor. A nova legislação, que também fixa 25% como piso para o chocolate ao leite, chega tarde para os produtores paraenses, mas abre uma janela de oportunidade: com a indústria obrigada a usar mais cacau, a demanda por amêndoas da região deve crescer.

    Festival Internacional do Chocolate e do Cacau recebeu 100 mil visitantes e gerou R$ 15 milhões em negócios

    Durante o Festival Internacional do Chocolate e do Cacau, realizado pelo Governo do Estado no final de abril, o público degustou produtos com teores entre 40% e 90% de cacau. Ou seja, uma vitrine da produção local que contrasta com o padrão industrial que a lei agora pretende combater.

    Fábrica familiar produz acima do exigido

    A Da Cruz Chocolate, única fábrica do segmento na Região Metropolitana de Belém, fica no bairro do Atalaia, em Ananindeua. O chocolateiro e agrônomo Flávio Cruz afirma que o produto com menor percentual de cacau que a empresa fabrica chega a 56%. Para ele, a nova lei beneficia tanto o produtor quanto o consumidor.

    O filho Samuel Cruz, responsável pela área comercial e pelas visitas guiadas à fábrica, diz que a legislação muda pouco na rotina deles. “O chocolate de verdade tem propriedades importantes para a saúde. Chocolate não é só porcentagem. É origem, é terroir, é fermentação bem feita, é respeito ao produtor e sabor real”, afirma.

    Ao lado da fábrica, a família mantém uma área de cultivo de cacau livre de agrotóxicos e enriquecida com espécies florestais nativas. A diretora-geral Chiara Cruz explica que a maior parte da amêndoa vem de produtores externos que adotam os mesmos critérios. “Compramos de produtores que tratam a amêndoa da forma como a gente trabalha”, diz.

    Estado já colhe prêmios internacionais

    O secretário de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca, Giovanni Queiroz, lembra que o cacau paraense cultivado em sistema agroflorestal já rendeu ao estado premiações nacionais e internacionais. Ele destaca que o principal impacto da lei para o Pará não está nas exigências de fabricação, que os produtores locais já cumprem. Mas no aumento da demanda por amêndoas.

    “A legislação trouxe boas expectativas aos produtores do Pará. Quanto maior o consumo, maior a participação no lucro do chocolate vendido. Isso favorece o consumidor e o pequeno produtor”, observa. O secretário também aponta uma mudança no perfil do consumidor: “Muita gente hoje opta por chocolates com percentuais entre 40% e 80%. Essa legislação é boa para quem produz e para quem consome.”

    Indústria terá que reformular produtos

    Para o professor Jesus Nazareno Souza, coordenador do Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA), da UFPA, a lei atinge principalmente a grande indústria, não os chocolateiros artesanais, que já trabalham com chocolate fino. “A indústria vai ter que usar mais cacau. E não vai ter mais aquele negócio de ‘sabor chocolate’: terão que colocar cacau de verdade para poder usar o nome”, ressalta.

    O engenheiro agrônomo Ivaldo Santana, coordenador do Procacau da Sedap e do Festival Internacional do Chocolate e do Cacau, reforça a avaliação. “A legislação beneficia o produtor de amêndoa, pois quem fabrica chocolate terá que comprar mais para garantir os 35% mínimos. Isso beneficia muito o produtor paraense e o brasileiro como um todo”, diz. Santana é direto ao apontar o alvo real da lei: “Essa legislação só serve para aquelas grandes marcas que usam pouco chocolate nos seus produtos. O nosso chocolate artesanal produzido no Pará nunca usou menos de 35%.”

  • Cacau avança no agro brasileiro, mas crédito rural ainda limita expansão do setor

    Cacau avança no agro brasileiro, mas crédito rural ainda limita expansão do setor

    O cacau voltou a ganhar força no agronegócio brasileiro nos últimos anos. Impulsionada pela alta dos preços no mercado internacional, a cultura registrou avanço na produção nacional e despertou maior interesse dos produtores. Ainda assim, o acesso ao crédito rural segue limitado e representa um dos principais obstáculos para a expansão do setor.

    De acordo com dados do IBGE, a produção brasileira da amêndoa cresceu 9% entre 2020 e 2025, alcançando uma estimativa de 294 mil toneladas. Apesar do avanço, especialistas apontam que o volume de financiamento disponível para os cacauicultores ainda é pequeno quando comparado a outras cadeias do agro.

    Um levantamento realizado pelo CocoaAction Brasil, iniciativa público-privada voltada ao fortalecimento sustentável da cadeia produtiva do cacau, mostra que o valor do crédito rural destinado ao setor saltou de R$ 143 milhões, em 2018, para quase R$ 445 milhões em 2025. Além disso, os recursos liberados pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) avançaram de R$ 20 milhões para R$ 206 milhões no mesmo período.

    Mesmo com o crescimento, o montante ainda é considerado reduzido. Em 2025, por exemplo, o Brasil disponibilizou cerca de R$ 357 bilhões em crédito agrícola, mas apenas 0,12% desse total foi direcionado à cacauicultura.

    Crise da vassoura-de-bruxa ainda afeta o setor

    Segundo Guilherme Salata, coordenador do CocoaAction Brasil, a principal dificuldade para ampliar o crédito está relacionada ao histórico da vassoura-de-bruxa, doença causada por fungos que devastou plantações e deixou muitos produtores endividados durante décadas.

    Além disso, ele afirma que a lembrança da crise ainda gera insegurança entre instituições financeiras, dificultando a aprovação de novos financiamentos para o cultivo.

    Ao mesmo tempo, medidas recentes do governo indicam um cenário favorável para o crescimento da atividade. A mais recente delas foi a aprovação da Lei nº 15.404, que elevou o percentual mínimo de cacau necessário para que um produto seja considerado chocolate no Brasil.

    Agora, os chocolates precisam conter pelo menos 35% de sólidos de cacau, enquanto anteriormente o mínimo exigido era de 25%. Já no caso do chocolate branco, permanece o teor mínimo de 20% de manteiga de cacau, porém com acréscimo de 14% de sólidos totais de leite.

    Crédito para o cacau ainda fica atrás de outras culturas

    Salata destaca que o crédito destinado aos produtores de cacau continua abaixo do observado em outras cadeias ligadas aos sistemas agroflorestais. Segundo ele, culturas como mandioca e banana praticamente dobraram o volume financiado em comparação ao cacau.

    Enquanto a mandioca recebeu cerca de R$ 760 milhões e a banana obteve R$ 745 milhões, o cacau acessou R$ 445 milhões. O açaí, por sua vez, movimentou aproximadamente R$ 341 milhões, mesmo possuindo, segundo Salata, uma cadeia produtiva menos estruturada.

    Mesmo com o crescimento da demanda por chocolate no Brasil, a cacauicultura ainda recebe uma fatia pequena do crédito agrícola nacional — (Foto: iStock)

    Produtora baiana conseguiu implantar lavoura com apoio do Pronaf

    Na cidade de Camamu, na Bahia, a produtora Shirlei Duarte conseguiu acessar crédito rural pela primeira vez após procurar apoio do Consórcio Intermunicipal de Águas e Resíduos do Baixo Sul da Bahia (Ciapra) em julho de 2025.

    O financiamento foi liberado em janeiro deste ano por meio do Pronaf. Com os R$ 89 mil obtidos, ela investiu em análise de solo, limpeza da área, compra de mudas, adubação e contratação de mão de obra para implantar dois hectares de cacau.

    “Eu já tinha a área, mas não tinha recurso para começar. Se não fosse esse crédito, não conseguiria implementar minha lavoura agora. E daqui três anos eu vou estar produzindo”, relata a produtora.

    O empréstimo foi contratado junto ao Banco do Nordeste, com juros de 3% ao ano e período de carência de três anos, prazo estimado para o início da produção da lavoura.

    Falta de informação também dificulta financiamentos

    Além do impacto histórico da vassoura-de-bruxa, Salata afirma que muitas instituições financeiras ainda possuem pouco conhecimento técnico sobre o cultivo do cacau. “Eles têm dificuldade de avaliar se um projeto é viável ou não”, explica.

    Por isso, ele considera a assistência técnica essencial para aproximar produtores do crédito rural. Segundo o coordenador, o suporte ajuda agricultores a identificarem as linhas disponíveis, compreenderem as finalidades de cada modalidade e avaliarem a viabilidade econômica dos investimentos.

    Rotas de Integração Nacional impulsionam a produção de cacau no Brasil — (Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil)

    Atualmente, quatro modalidades concentram mais de 95% dos R$ 445 milhões financiados na cadeia do cacau em 2025. O Microcrédito Produtivo Rural representa mais de um terço do valor total, enquanto o Pronaf Floresta responde por quase outro terço. Já as linhas Mais Alimentos e Custeio completam o restante dos recursos liberados.

    Apesar dos desafios, Salata avalia que o setor vive um momento positivo e ainda possui amplo espaço para crescer.

    “Claramente houve um avanço expressivo no acesso ao crédito. Em culturas como a soja, que já concentram volumes muito elevados de financiamento, é mais difícil ampliar significativamente. No cacau, tanto o crédito quanto a produtividade ainda têm potencial de expansão relevante”, afirma.

  • Lula sanciona lei que estabelece o que pode ser chamado de chocolate

    Lula sanciona lei que estabelece o que pode ser chamado de chocolate

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta segunda-feira (11) a Lei nº 15.404, que define os padrões técnicos dos produtos derivados de cacau, estabelece o percentual mínimo de cacau no chocolate e obriga fabricantes a informar esse percentual nos rótulos. A norma vale para produtos nacionais e importados comercializados no Brasil. E foi publicada no Diário Oficial da União (DOU).

    Para um produto circular no mercado com o nome “chocolate”, a lei exige composição mínima de 35% de sólidos totais de cacau, sendo ao menos 18% de manteiga de cacau e 14% de sólidos isentos de gordura. O uso de outras gorduras vegetais autorizadas fica limitado a 5% do total do produto.

    A legislação também define padrões específicos para chocolate ao leite, chocolate branco, achocolatado, bombom de chocolate e chocolate recheado.

    Derivados de cacau ganham definição legal

    A nova lei mapeia tecnicamente cada derivado do cacau. Os nibs de cacau passam a ser definidos como os cotilédones limpos da amêndoa. A massa, pasta ou liquor de cacau corresponde ao produto obtido a partir da transformação das amêndoas limpas e descascadas. Já a manteiga de cacau é a fração lipídica extraída dessa massa.

    Imagem gerada por IA/LM Notebook

    O cacau em pó deve conter no mínimo 10% de manteiga de cacau em relação à matéria seca e no máximo 9% de umidade. O cacau solúvel é o cacau em pó acrescido de ingredientes que promovem a dissolução em líquidos. O chocolate em pó precisa ter ao menos 32% de sólidos totais de cacau.

    Rótulo enganoso vira infração

    A lei torna obrigatória a informação do percentual total de cacau nos rótulos de todos os produtos que a norma define. Produtos que não cumprirem os requisitos técnicos precisarão adotar denominação de venda específica e não poderão usar imagens, expressões, cores ou elementos gráficos que induzam o consumidor a erro — especialmente quanto à identificação como chocolate.

    A Lei nº 15.404 entra em vigor 360 dias após a publicação oficial, dando tempo à indústria para adequar formulações e embalagens às novas exigências.

  • Cursos no sul da Bahia impulsionam produção de cacau especial e chocolate artesanal

    Cursos no sul da Bahia impulsionam produção de cacau especial e chocolate artesanal

    O sul da Bahia amplia a oferta de qualificação profissional para a cadeia do cacau de alto valor, em resposta ao crescimento acelerado do mercado de chocolates especiais e bean to bar no Brasil. A demanda por profissionais capacitados já supera a oferta, em um segmento que exige domínio técnico em todas as etapas da produção.

    Processos como fermentação, secagem, torra, rastreabilidade e análise sensorial impactam diretamente o valor final do produto. Nesse cenário, o conhecimento técnico deixou de ser diferencial e passou a determinar a competitividade de produtores e empresas.

    Para atender essa demanda, o Centro de Inovação do Cacau (CIC), localizado no Parque Científico e Tecnológico do Sul da Bahia (PCTSul), em Ilhéus, lançou sua programação de cursos para 2026. A iniciativa busca qualificar produtores, classificadores, técnicos, empreendedores, estudantes e profissionais da indústria.

    A nova agenda cobre diferentes etapas da cadeia produtiva, da produção ao sensorial. Os cursos combinam teoria aplicada, práticas em laboratório e experiências técnicas. O objetivo é formar profissionais capazes de tratar o cacau como produto de origem, preservando atributos que agregam valor ao longo do processo.

    Segundo Adriana Reis, gerente de Educação e Inteligência do CIC, o foco está na qualidade e na valorização do cacau brasileiro. “Nosso diferencial é oferecer formação aprofundada sobre a origem Brasil, uma região complexa que ganha reconhecimento no mercado de alta qualidade, com potencial também no cenário internacional”, afirma.

    Mudanças no comportamento do consumidor

    A expansão da qualificação acompanha mudanças no comportamento do consumidor. Chocolates industrializados perdem espaço para produtos com identidade, rastreabilidade, menor processamento e destaque para a origem. Nesse contexto, o chocolate bean to bar, produzido do grão à barra, se consolida como um dos principais segmentos de valor agregado.

    Foto: Divulgação

    Para ingressar nesse mercado, dominar técnicas de produção se tornou essencial. Etapas como seleção de amêndoas, torra, moagem, conchagem, temperagem e moldagem influenciam diretamente aroma, sabor, textura e estabilidade do chocolate.

    A trajetória do produtor Gabriel Menna, de Itacaré (BA), mostra o impacto da capacitação técnica. Ele aprimorou a qualidade das amêndoas após participar do curso de Análise Sensorial com reconhecimento de defeitos, oferecido pelo CIC. “Foi a chave para avançarmos na qualidade”, afirma.

    O conhecimento adquirido também orientou decisões no campo. Menna renovou a área produtiva e adotou o clone BN34, com base em estudos do próprio centro que destacam atributos sensoriais da variedade. A escolha conecta informação técnica, manejo e estratégia de mercado.

    Conteúdo dos cursos

    A programação inclui formações em:

    • Produção de chocolate bean to bar
    • Operação de máquinas
    • Posicionamento de marca e precificação
    • Classificação física do cacau
    • Legislação do setor
    • Análise sensorial e identificação de defeitos
    • Reconhecimento de qualidade
    • Genética e análise de solo

    Os cursos atendem tanto iniciantes quanto profissionais que já atuam na cadeia e buscam aprofundar conhecimentos, padronizar processos e ampliar a competitividade.

    As informações sobre datas, inscrições e ementas estão disponíveis na nova plataforma do CIC.

    Para o diretor-presidente do PCTSul, Cristiano Villela, a qualificação também contribui para integrar os diferentes elos da cadeia. “Mais do que ensinar técnicas, os cursos ajudam a criar uma linguagem comum entre produtores, classificadores, fabricantes e compradores”, afirma.

    Segundo ele, essa transformação pode fortalecer a presença do Brasil nos segmentos de maior valor agregado do mercado global de cacau e chocolate.

  • Kunhã Arã: chocolate indígena chega ao mercado produzido pela comunidade Juruna

    Kunhã Arã: chocolate indígena chega ao mercado produzido pela comunidade Juruna

    Uma associação indígena de Altamira, no sudoeste do Pará, acaba de lançar o primeiro chocolate artesanal integralmente fabricado dentro de uma comunidade indígena brasileira. O Kunhã Arã, expressão tupi que significa “Guerreira da Luz” ou “Guerreira da Vida”, chegou ao mercado durante o Chocolat Amazônia 2026, Festival Internacional do Chocolate e Cacau, encerrado no último domingo (26) no Hangar Centro de Convenções, em Belém.

    O produto nasce na região do Médio Xingu, que, junto com o restante do Pará, responde por mais da metade da produção nacional de cacau. Mas o que diferencia o Kunhã Arã da maioria dos chocolates amazônicos disponíveis no mercado é o controle total da cadeia produtiva pela própria comunidade: do plantio de cerca de 19.000 pés de cacau em sistema agroflorestal sustentável, passando pela fermentação, secagem e torra, até a formulação e embalagem das barras, tudo acontece dentro do território Juruna.

    Um projeto de mulheres indígenas

    A Associação Indígena Tubyá, formada por 51 famílias de indígenas Juruna de contexto urbano e rural, comanda toda a operação. Oito famílias atuam diretamente nas etapas de campo, e a iniciativa tem liderança explicitamente feminina: Irasilda Morais Pereira Fernandez Juruna encabeça o projeto, que nasceu com foco no empoderamento e complementação de renda das mulheres da comunidade.

    “O que temos hoje na comunidade é inexplicável. Começou com o Chocodjá, antigo nome do chocolate, e logo deu certo, com muita saída”, conta Irasilda. “É um projeto voltado para as mulheres, com o objetivo de complementar a renda das famílias. Antes não tínhamos apoio. Pedimos a ajuda da Norte Energia e recebemos mais do que um apoio. Hoje temos uma parceria em tudo. Nossa expectativa é ampliar o alcance e levar o produto para outros estados  e até para fora do Brasil. Para quem começou do zero, eu sei que chegaremos lá.”

    O Kunhã Arã chega às prateleiras em três versões: chocolate ao leite com 50%, 70% e 100% de cacau. A fórmula artesanal leva manteiga de cacau e não contém conservantes nem aromatizantes.

    Apoio estrutural e identidade cultural

    O produto é o sexto de uma linha de chocolates indígenas apoiada pela Norte Energia, concessionária da Usina Hidrelétrica Belo Monte. O suporte veio do Plano Básico Ambiental do Componente Indígena da usina e incluiu o fornecimento de mais de 11.000 mudas de cacau, assistência técnica, construção de cinco secadores solares, um melangê (equipamento de refino do cacau) e formas para moldagem das barras, equipamentos que tornaram possível a fabricação local. A empresa também custeou mil embalagens iniciais e participou da elaboração do plano de identidade visual da marca.

    “Temos o compromisso de fortalecer a agricultura familiar indígena, promovendo sustentabilidade, empreendedorismo e empoderamento feminino nas comunidades da região”, afirma Thomás Sottili, gerente de Projetos de Sustentabilidade da Norte Energia. “Iniciativas como essa geram impacto positivo duradouro ao criar oportunidades de renda, valorizar saberes tradicionais e contribuir para a qualidade de vida das famílias.”

    A identidade visual do Kunhã Arã dialoga diretamente com o esforço de resgate cultural dos Juruna, povo que perdeu parte de sua língua e de seus grafismos tradicionais após o contato com não indígenas em 1750. A logomarca traz uma figura feminina que representa a guerreira guardiã da floresta, coroada por um cocar em forma de sol, referência ao cacau como fruto sagrado e ancestral.

    Próximos passos: merenda escolar e exportação

    Com capacidade de produção inicial de 50 kg de chocolate por mês, a Associação Tubyá já projeta expansão. Os planos incluem o fornecimento do Kunhã Arã para a merenda escolar por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a busca por mercados em outros estados brasileiros e no exterior.

    O chocolate indígena do Médio Xingu chega, portanto, carregando muito mais do que cacau. Traz consigo uma história de autonomia, resistência cultural e empreendedorismo feminino que começa a ganhar escala e visibilidade nacional.

  • Nova lei do cacau pode aumentar renda e consumo no mercado brasileiro

    Nova lei do cacau pode aumentar renda e consumo no mercado brasileiro

    O Senado Federal aprovou na última semana o Projeto de Lei nº 1.769/2019, que define regras para a produção e comercialização de derivados do cacau no Brasil. O texto já seguiu para sanção presidencial e deve impulsionar a cacauicultura na Bahia, um dos principais polos produtores do país.

    Foto: Fernando Vivas / GOVBA

    A proposta, construída com apoio do Governo da Bahia, reuniu representantes da Secretaria da Agricultura (Seagri), produtores e entidades do setor. O objetivo é fortalecer a produção nacional, ampliar a renda no campo e garantir mais qualidade aos produtos à base de cacau.

    A nova legislação estabelece critérios técnicos para derivados do cacau. O chocolate em pó, por exemplo, deverá conter pelo menos 32% de sólidos totais de cacau. Já o cacau em pó precisa ter no mínimo 10% de manteiga de cacau e até 9% de umidade. Produtos como achocolatados e coberturas sabor chocolate deverão apresentar ao menos 15% de sólidos ou manteiga de cacau.

    Outro ponto importante é a obrigatoriedade de informar, nos rótulos e nas peças publicitárias, o percentual de cacau presente nos produtos, sejam eles nacionais ou importados. A medida amplia a transparência e permite que o consumidor identifique a qualidade dos itens com mais facilidade.

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    Avanço estratégico

    Para o secretário da Seagri, Vivaldo Gois, a aprovação representa um avanço estratégico para o setor. Segundo ele, a medida valoriza o cacau baiano, reconhecido pela qualidade, pelo rigor fitossanitário e pelo sistema cabruca, modelo que preserva a Mata Atlântica. O secretário também destacou o impacto positivo para milhares de famílias que dependem da cadeia produtiva.

    Atualmente, o Brasil ocupa a sexta posição na produção mundial de cacau. A Bahia se destaca no cenário nacional, com mais de 137 mil toneladas colhidas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que o valor bruto da produção alcance R$ 6,5 bilhões em 2025.

    As projeções indicam crescimento contínuo. Em 2026, a produção de cacau deve avançar 5,3% na Bahia. Somente em março deste ano, o volume chegou a 125.360 toneladas, aumento de 5,6% em relação ao mesmo período de 2025.

    O sul do estado mantém a tradição na cultura do cacau, enquanto o oeste baiano desponta como nova fronteira agrícola, com ganhos de produtividade impulsionados pela irrigação e pela integração com lavouras como soja e algodão. A região sul também avança nas discussões para obter a Indicação Geográfica (IG) do cacau Cabruca.

    Além disso, no mercado interno, o consumo de chocolate segue elevado. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab) mostram que o brasileiro consumiu, em média, 3,9 kg de chocolate por habitante em 2024.

  • O que está acontecendo com o chocolate e o cacau no mundo

    O que está acontecendo com o chocolate e o cacau no mundo

    O mercado global de cacau vive um momento de inflexão raro: depois de atravessar o pior ciclo de escassez das últimas décadas, a commodity começa a 2026 com uma virada de roteiro. Os contratos futuros negociados em Nova York, que chegaram a ultrapassar US$ 11 mil por tonelada em abril de 2024, um recorde histórico, recuaram para pouco mais de US$ 3 mil por tonelada no fim de fevereiro de 2026. A queda ultrapassa 70% em relação ao pico. Para a indústria, o alívio é real. Para o consumidor, ainda é cedo para comemorar.

    A tempestade perfeita que sacudiu o mercado do cacau começou a se formar em 2023. Uma combinação de eventos climáticos e doenças afetou a produção global, especialmente em Gana e Costa do Marfim, países que juntos respondem por cerca de 70% da oferta mundial. Com lavouras envelhecidas e baixa adoção tecnológica, a África Ocidental não conseguiu responder à demanda crescente, e os preços dispararam. O efeito chegou às prateleiras brasileiras: o preço do chocolate já havia subido 11,9% em 2024, segundo o IPCA.

    A virada da oferta

    O que mudou nos últimos meses foi uma combinação de fatores no lado da produção. A safra 2024/25 registrou crescimento de cerca de 11% na produção mundial, favorecida por melhores condições climáticas na África e na América do Sul, fazendo o balanço global retornar ao campo positivo, com superávit estimado em 82 mil toneladas em 2024/25 e expectativa de 287 mil toneladas em 2025/26. O Equador emergiu como protagonista dessa virada: o país registrou exportação recorde de 568 mil toneladas na última safra e projeta embarques de 600 mil toneladas em 2025/26.

    No Brasil, o cenário também aponta para crescimento, ainda que modesto. Dados preliminares do IBGE indicam que, na Bahia, principal polo nacional da cultura, a previsão é de crescimento do volume produzido de cacau em 5,3% em 2026.

    O problema da demanda

    A queda nos preços futuros, porém, esconde uma realidade incômoda: boa parte do reequilíbrio do mercado não veio da recuperação da oferta, mas do colapso da demanda. A moagem, considerada um termômetro do consumo industrial, apresentou queda significativa nos principais centros. Na Europa, o volume processado caiu 5,9% em 2025, atingindo o menor nível desde 2015. No Brasil, a retração foi ainda mais severa: a moagem recuou 14,6% em 2025.

    Foto: Frank Nery /Secom – Governo de Rondônia

    Segundo analistas, a demanda global segue enfraquecida após os preços praticamente triplicarem em 2024. O encarecimento levou fabricantes de chocolate a reformular produtos e reduzir o tamanho das embalagens, o que resultou em acúmulo de estoques não vendidos na África Ocidental. Em outras palavras: o mercado voltou ao equilíbrio mais pela desistência do consumidor do que pela abundância do produto.

    O chocolate mais barato ainda não chegou

    A pergunta que mais interessa ao consumidor final, que é quando o preço das barras de chocolate vai cair, não tem resposta rápida. As empresas ainda estão liquidando estoques adquiridos no auge da crise. A Nestlé, fabricante do Kit Kat, afirmou que, embora as recentes mudanças nos preços sejam encorajadoras, ainda é muito cedo para comentar sobre mudanças específicas. A Hershey esperava que alguma “deflação” começasse a ocorrer apenas mais para o final de 2026.

    O dado mais revelador do descompasso entre o mercado futuro e o bolso do consumidor é este: em fevereiro de 2026, a inflação do chocolate no Brasil atingiu 26,4% em 12 meses, bem acima do índice geral de preços. Os grãos mais baratos ainda estão percorrendo a cadeia de suprimentos, e as indústrias não têm pressa em repassar a queda quando ainda podem escoar estoques caros.

    Riscos que persistem

    Mesmo com o superávit projetado, especialistas alertam que a tranquilidade pode ser ilusória. Anna Paula Losi, presidente executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), destaca que extremos climáticos continuam impactando fortemente a cultura do cacau, e que esse quadro pode mudar de uma hora para outra. A concentração geográfica da produção é o principal ponto frágil: a África Ocidental ainda responde por mais de 70% da oferta mundial, e o mercado permanece sensível a oscilações climáticas e revisões de safra.

    Além disso, Gana reduziu o preço pago ao produtor em 28,6%, enquanto a Costa do Marfim cortou quase 60%, acompanhando a queda das cotações internacionais. Movimentos que podem desmotivar investimentos nas lavouras e preparar o terreno para um novo ciclo de escassez no médio prazo.

    O horizonte

    O mercado de cacau em 2026 é o de uma indústria que sobreviveu a um choque severo e agora tenta recalibrar. O Itaú BBA avalia que o mercado global entrou em transição para um novo ciclo, marcado pela saída de um período de escassez para um cenário de recomposição da oferta, mas com o ajuste ocorrendo principalmente via retração da demanda. Para a commodity voltar a crescer de forma sustentável, será preciso mais do que preços em queda. Segundo a AIPC, tecnologia, novos produtos, novos usos e acesso a mercados internacionais são fundamentais para que o crescimento da oferta se traduza em demanda real.

    Por ora, o chocolate mais barato segue sendo uma promessa. Pode ser real no mercado futuro, mas ainda distante das gôndolas dos supermercados.

  • O que tinha no seu chocolate que a lei agora proíbe esconder

    O que tinha no seu chocolate que a lei agora proíbe esconder

    O plenário do Senado aprovou nesta quarta-feira, 15 de abril, em regime de urgência, o projeto de lei que estabelece percentuais mínimos de cacau em chocolates e derivados. A matéria segue agora para a sanção do presidente Lula.

    Na prática, a lei muda o que pode e o que não pode se chamar de chocolate no Brasil. Ela define percentuais mínimos de cacau para cada categoria de produto e, além disso, obriga fabricantes a informar esse percentual nos rótulos de forma clara, tanto em produtos nacionais quanto importados.

    A informação deve constar na parte frontal da embalagem, com a expressão “Contém X% de cacau”, ocupando ao menos 15% dessa área, em caracteres legíveis e com contraste que facilite a visualização pelo consumidor. Ou seja, sem letrinhas miúdas nem truques gráficos.

    Com exigência de transparência, produtos que não atingirem os índices não poderão mais usar o nome chocolate
    (Foto: Reprodução/Agência Brasil)

    Quanto cacau precisa ter em cada produto?

    Os percentuais ficaram assim definidos:

    Chocolate em pó precisa ter no mínimo 32% de sólidos totais de cacau. Ao leite exige pelo menos 25% de sólidos totais de cacau e 14% de sólidos totais de leite ou derivados. Chocolate branco deve conter no mínimo 20% de manteiga de cacau e 14% de sólidos totais de leite. Achocolatados, chocolates fantasia, compostos e coberturas sabor chocolate precisam ter ao menos 15% de sólidos de cacau ou 15% de manteiga de cacau.

    Há ainda uma regra específica para o chocolate sem classificação mais precisa: a lei exige um mínimo de 35% de sólidos totais, sendo pelo menos 18% de manteiga de cacau e 14% isentos de gordura, com um limite de 5% para outras gorduras vegetais autorizadas.

    Produtos que não atingirem esses índices não poderão mais usar a palavra “chocolate” nem imagens que remetam a ele. Os fabricantes deverão adotar denominações claras e ficam proibidos de utilizar elementos visuais que possam induzir o consumidor ao erro. Quem descumprir responde pelo Código de Defesa do Consumidor e pela legislação sanitária.

    O argumento que veio do campo

    O senador Angelo Coronel (Republicanos-BA), relator da proposta, não deixou dúvida sobre o que estava em jogo para além do consumidor urbano. “Os produtores têm sofrido com os preços. O governo não faz previsão de safra e libera importação de cacau da África, que não tem controle fitossanitário. A gente tem que ter sempre a previsão de safra para que, com essa previsão, possa aferir se realmente precisaremos importar ou não, porque nós temos que valorizar o produtor nacional, especialmente da agricultura familiar,” afirmou.

    A fala resume bem a pressão que vem de baixo. Agricultores familiares da Bahia e do Pará convivem com importações sem rastreabilidade, preços instáveis e ausência de planejamento de safra. A nova lei não resolve tudo isso, mas cria um mecanismo indireto de valorização: se a indústria precisa de mais cacau real nos produtos, a demanda pela matéria-prima nacional tende a crescer.

    O Brasil produz cacau, mas vende pouco do que poderia

    Os números ajudam a entender a dimensão do mercado que está sendo regulado. Dados da FAO indicam que o Brasil é o sexto maior produtor de cacau do mundo, com Bahia e Pará respondendo por mais de 90% da produção nacional. Ao mesmo tempo, a presença do chocolate nos lares brasileiros passou de 85,5% em 2020 para 92,9% em 2024, com consumo médio de 3,9 quilos por pessoa ao ano, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas.

    É um mercado enorme, crescente e que até agora operava sem uma definição legal clara do que é, afinal, um chocolate. Essa lacuna beneficiava quem colocava menos cacau nos produtos sem precisar admitir isso em lugar algum da embalagem.

    Quando as regras entram em vigor?

    As normas entrarão em vigor 360 dias após a publicação da lei. Isso dá à indústria cerca de um ano para adaptar formulações, embalagens e peças publicitárias. É um prazo razoável, mas que também sinaliza que mudanças de prateleira estão a caminho.