Categoria: Agricultura

  • Chocolate vai ficar mais caro? Super El Niño preocupa produtores

    Chocolate vai ficar mais caro? Super El Niño preocupa produtores

    O avanço do El Niño voltou a colocar a produção de cacau no radar de produtores e fabricantes de chocolate. Apesar dos riscos climáticos, representantes do setor avaliam que a expansão do cultivo para novas áreas pode ajudar a reduzir os efeitos de uma eventual quebra de safra sobre a oferta da matéria-prima.

    Para Arcelia Gallardo, fundadora da Mission Chocolate, uma repetição da forte escalada de preços observada anteriormente não é inevitável.

    “No Equador, os produtores plantaram milhares de pés de cacau há quatro anos porque eles estavam entendendo o que iria acontecer. Por causa dos efeitos do clima, agora temos cacau também em São Paulo”, afirma. “Onde antes não tinha cacau, agora tem.”

    A avaliação de Gallardo é que a ampliação das regiões produtoras pode funcionar como um contraponto aos problemas provocados pelo clima. Isso, porém, não elimina os riscos que o El Niño representa para a cultura.

    Alta do cacau já mudou os chocolates

    Filha de agricultores mexicanos e nascida na Califórnia, nos Estados Unidos, Gallardo trabalha com o modelo bean-to-bar, expressão usada para fabricantes que compram os grãos de cacau e controlam sua transformação até a produção das barras.

    Com a forte valorização do cacau registrada no fim de 2024, a Mission Chocolate precisou rever parte de sua estratégia. Segundo Gallardo, algumas fórmulas foram modificadas e determinados produtos passaram a ter versões menores para absorver parte do aumento dos custos.

    Arcelia Gallardo é fundadora da Mission Chocolate (Foto: Divulgação)

    Além disso, outra alternativa foi aumentar a variedade do portfólio.

    “Conseguimos pensar em outros produtos que poderíamos fazer, como confeitos banhados em chocolate, que deram muito certo.”

    Segundo a empresária, essas mudanças ajudaram a evitar que toda a elevação dos custos fosse repassada ao consumidor.

    Caso uma nova onda de valorização da matéria-prima aconteça, a Mission também aposta em cookies e produtos banhados, que demandam uma quantidade menor de chocolate do que as barras tradicionais.

    Nestlé aposta em manejo para diminuir perdas

    Entre as grandes indústrias, uma das estratégias para reduzir a vulnerabilidade da cadeia está no preparo das propriedades rurais.

    A diretora de marketing de chocolates da Nestlé, Paula Munhoz, afirma que a prevenção de perdas passa pela adoção de melhores práticas pelos fornecedores de cacau.

    Entre as medidas mencionadas estão:

    • melhoria da gestão da água;
    • distribuição de mudas com maior potencial produtivo;
    • adoção correta de técnicas de poda;
    • orientação técnica aos produtores.

    Essas ações fazem parte da estratégia da empresa para aumentar a resiliência das propriedades diante de condições climáticas adversas.

    Por meio do Nestlé Cocoa Plan, a companhia mantém uma rede de mais de 6,5 mil fazendas parceiras no Brasil, com iniciativas de assistência técnica, capacitação e adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis.

    Com o El Niño no radar, produtores e fabricantes passam a acompanhar não apenas as cotações do cacau, mas também a distribuição das chuvas e o comportamento das lavouras nas principais regiões produtoras.

  • Governo avalia criar lista de ‘agrotóxicos altamente perigosos’

    Governo avalia criar lista de ‘agrotóxicos altamente perigosos’

    O governo federal avalia a criação de uma lista de Agrotóxicos Altamente Perigosos (AAP) baseada em critérios internacionais relacionados à toxicidade para seres humanos e aos riscos para o meio ambiente.

    A proposta, porém, ainda está em análise e não significaria automaticamente a proibição dos produtos enquadrados na lista. Mesmo assim, representantes de produtores e fabricantes de defensivos temem que a classificação provoque restrições indiretas e impactos econômicos sobre a agricultura brasileira.

    Uma minuta de portaria conjunta dos ministérios do Meio Ambiente e da Saúde, do Ibama e da Anvisa reúne 42 ingredientes ativos já proibidos no Brasil e outros 39 registrados e atualmente utilizados no país, segundo informações publicadas pelo Valor Econômico.

    Lista atingiria centenas de defensivos agrícolas

    De acordo com a Associação Nacional das Empresas de Produtos Fitossanitários (Aenda), os 39 ingredientes ativos registrados aparecem em 864 produtos comerciais de 89 fabricantes.

    Segundo nota técnica da entidade citada pelo Valor, eles representam 26,3% das formulações comerciais de herbicidas, inseticidas e fungicidas disponíveis no país.

    Esses defensivos são utilizados no manejo de diferentes problemas fitossanitários, entre eles:

    • ferrugem asiática da soja;
    • bicudo-do-algodoeiro;
    • antracnose;
    • mofo-branco no feijão;
    • percevejos;
    • cigarrinha-do-milho.

    Governo diz que classificação não significa proibição

    Segundo o material-base, a minuta foi assinada em abril pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Ibama. Desde então, entidades ligadas ao agronegócio vêm se mobilizando contra a publicação.

    A Casa Civil informou que avaliações técnicas e jurídicas continuam sendo realizadas e que, diante da complexidade do assunto, a proposta permanece sob análise do governo federal.

    O Ministério do Meio Ambiente também afirmou que a inclusão de um ingrediente ativo na lista não implicaria vedação automática de seu uso.

    “A categorização de ingredientes ativos de agrotóxicos constitui importante subsídio para a formulação e o aprimoramento de políticas públicas voltadas à redução da exposição a agrotóxicos altamente perigosos ao meio ambiente e à saúde no Brasil”, afirmou a Pasta.

    O Ministério da Saúde informou que ainda não havia recebido o documento.

    Proposta está ligada ao Pronara

    A iniciativa está relacionada ao Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), política federal voltada à redução progressiva do uso desses produtos e ao estímulo a alternativas de menor impacto.

    O programa foi instituído pelo Decreto 12.538/2025 e prevê ações como monitoramento de resíduos em alimentos, incentivo à produção de base ecológica, pesquisa e desenvolvimento de bioinsumos.

    A discussão sobre os chamados Highly Hazardous Pesticides (HHPs) utiliza como referência critérios adotados internacionalmente pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), conforme o material analisado.

    Uma ata do comitê gestor do Pronara também aponta que a classificação poderia auxiliar na priorização de alternativas e no incentivo à inovação tecnológica.

    Produtores temem restrições indiretas

    A Aprosoja Brasil classificou a proposta como um “banimento indireto disfarçado”.

    Segundo a entidade, mesmo sem uma proibição formal, a utilização da lista em políticas públicas poderia provocar consequências em áreas como:

    • crédito rural;
    • seguros agrícolas;
    • programas de certificação;
    • compras públicas;
    • comércio exterior;
    • cadeias de exportação.

    A associação também considera possível o surgimento de novas restrições estaduais ou municipais.

    A posição recebeu apoio de aproximadamente 50 entidades ligadas ao Instituto Pensar Agropecuária (IPA).

    Parte do setor também questiona a participação do Ministério da Agricultura na elaboração da medida e a compatibilidade da proposta com a Lei 14.785/2023, que estabeleceu novas regras para registro, controle e fiscalização de agrotóxicos no país.

    A legislação de 2023 efetivamente disciplina pesquisa, produção, registro, classificação, controle, inspeção e fiscalização dos agrotóxicos no Brasil.

    Setor estima impacto bilionário sobre soja e milho

    Um dos principais argumentos contrários à medida envolve eventuais efeitos sobre a produtividade agrícola.

    Em estudo apresentado ao Ministério da Agricultura, a CropLife Brasil estimou que um cenário de restrição significativa na eficácia do controle fitossanitário poderia provocar perda de 12,8 milhões de toneladas de soja, com impacto financeiro de aproximadamente R$ 23,5 bilhões.

    Para o milho, a entidade projetou redução potencial de 92,9 milhões de toneladas, equivalente a cerca de R$ 102 bilhões.

    Somadas, as projeções chegam a R$ 125,5 bilhões.

    Os números, no entanto, são estimativas produzidas pelo setor de defensivos para um cenário hipotético de restrição relevante e não representam uma previsão oficial do governo ou uma consequência já estabelecida da criação da lista.

    Exportações também preocupam o setor

    A CropLife argumenta ainda que a classificação poderia produzir efeitos comerciais e reputacionais sobre produtos agrícolas brasileiros em mercados com regras ambientais mais rígidas, como a União Europeia.

    Segundo a entidade, a existência da lista poderia alimentar novos questionamentos sobre sustentabilidade e padrões produtivos brasileiros durante negociações comerciais e relações com compradores internacionais.

    Em manifestação técnica encaminhada à Casa Civil, o Ministério da Agricultura apresentou críticas à minuta.

    Segundo o documento, a Pasta avaliou que a proposta “apresenta graves inconsistências técnicas, jurídicas e institucionais, configurando risco a um sistema regulatório consolidado, ameaçando a segurança jurídica e a competitividade do agronegócio brasileiro”.

    Já o Ministério do Desenvolvimento Agrário se posicionou favoravelmente à publicação da portaria em manifestação técnica mencionada no processo.

  • Operação apreende 217 toneladas de fertilizantes adulterados em MT

    Operação apreende 217 toneladas de fertilizantes adulterados em MT

    Uma operação realizada em Mato Grosso apreendeu aproximadamente 217 toneladas de fertilizantes adulterados, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).

    A Operação Safra Paralela foi deflagrada na terça-feira (18) e os produtos apreendidos foram avaliados em cerca de R$ 645 mil.

    A ação faz parte da Operação Ronda Agro CXLVI, realizada no âmbito do Programa de Vigilância em Defesa Agropecuária para Fronteiras Internacionais (Vigifronteiras), do MAPA.

    Fiscalização encontrou irregularidades nos fertilizantes

    Durante a fiscalização, as equipes constataram que o estabelecimento envolvido não tinha registro junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária.

    Também foram identificadas irregularidades relacionadas à rotulagem e à rastreabilidade dos fertilizantes.

    De acordo com o Mapa, havia ainda indícios de manipulação dos produtos com componentes não autorizados, além da utilização de sacarias pertencentes a terceiros.

    Amostras dos materiais foram coletadas e serão encaminhadas ao Laboratório Federal de Defesa Agropecuária (LFDA) para análise.

    Investigação apura possíveis crimes

    Além das irregularidades encontradas nos produtos, a investigação apura a possível ocorrência de crimes relacionados às atividades investigadas, como organização criminosa, furto qualificado e estelionato.

    Segundo o Mapa, o nome Safra Paralela faz referência à suspeita da existência de um mercado clandestino relacionado à adulteração de fertilizantes e à subtração de grãos.

    Operação reuniu forças de segurança em Mato Grosso

    A operação foi conduzida pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado em Mato Grosso (FICCO/MT).

    A ação contou ainda com apoio do Comando Regional da Polícia Militar de Mato Grosso, em Primavera do Leste, e da Polícia Rodoviária Federal, em Rondonópolis.

    A fiscalização integra as ações de defesa agropecuária voltadas à regularidade da cadeia produtiva e ao controle dos insumos comercializados no setor rural.

  • Ondas de calor preocupam; saiba como evitar incêndios

    Ondas de calor preocupam; saiba como evitar incêndios

    A onda de calor que atinge o Estado de São Paulo deve permanecer pelo menos até o fim desta quarta-feira (19/8), segundo a Defesa Civil paulista.

    No interior de São Paulo, onde as temperaturas podem ficar até 7°C acima da média, o cenário exige atenção redobrada dos produtores rurais.

    A combinação de ar quente e seco, baixa umidade relativa e vegetação ressecada aumenta as condições favoráveis à ocorrência e propagação de incêndios florestais e queimadas em áreas rurais.

    Diante do risco, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo reuniu recomendações para reduzir as chances de incêndios e proteger as propriedades rurais.

    Áreas em vermelho têm risco perigosíssimo de incêndio, segundo Instituto Nacional de Meteorologia (Foto: Inmet)

    Mantenha os aceiros limpos

    Uma das principais medidas é manter os aceiros limpos e conservados. Essas faixas sem vegetação funcionam como barreiras para dificultar que o fogo avance de uma área para outra.

    A orientação citada pela Secretaria prevê largura mínima de 3 metros entre talhões no interior da propriedade, 5 metros em cada lado de cercas e divisas e 6 metros no entorno de vegetação nativa.

    A manutenção deve ocorrer durante toda a estiagem. Quando tomado por vegetação seca, o aceiro perde eficiência como barreira contra a propagação do fogo.

    A legislação paulista também estabelece aceiros mínimos em situações envolvendo queima controlada e prevê que as dimensões sejam ampliadas quando condições ambientais, climáticas ou topográficas exigirem maior proteção.

    Vegetação seca aumenta o risco

    Outra recomendação é manter a vegetação bem roçada, principalmente nos limites da propriedade rural durante períodos de calor intenso.

    Mato alto e seco funciona como material combustível, facilitando a propagação das chamas e permitindo que um foco iniciado fora da propriedade alcance áreas produtivas.

    Redobre o cuidado com fontes de calor

    Durante a onda de calor, produtores e trabalhadores rurais devem redobrar os cuidados com qualquer fonte capaz de iniciar um incêndio.

    A recomendação é evitar churrasqueiras, fogueiras e velas próximas à vegetação, além de garantir o descarte adequado de cigarros, fósforos e cinzas de fornos a lenha.

    A queima de resíduos vegetais também exige atenção. O emprego de fogo em queima controlada está sujeito às regras ambientais e à autorização correspondente. A Cetesb mantém procedimento específico para autorização de queima controlada utilizada como fator de produção, manejo agrícola e florestal e para determinadas finalidades fitossanitárias e científicas.

    Em períodos de risco elevado de incêndios, autorizações também podem sofrer restrições ou suspensões, como já ocorreu no Estado em situações críticas.

    Reforce as rondas pela propriedade

    Nos dias mais quentes, a Secretaria de Agricultura recomenda aumentar a frequência do monitoramento das áreas consideradas mais vulneráveis.

    A atenção deve ser maior em locais com vegetação seca, divisas das propriedades e áreas próximas a estradas, onde um foco de incêndio pode se espalhar rapidamente.

    Identificar fumaça ou fogo ainda no início pode reduzir o tempo necessário para acionar as equipes responsáveis pelo combate.

    Se precisar, acione os bombeiros

    Focos de incêndio devem ser enfrentados apenas por pessoas treinadas e com equipamentos adequados. Tentar controlar as chamas sem preparo pode colocar trabalhadores e moradores em risco.

    Ao identificar fumaça suspeita ou um princípio de incêndio, a orientação é acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193 ou a Defesa Civil pelo 199.

  • Super El Niño pressiona safra brasileira, mas favorece agricultura dos EUA

    Super El Niño pressiona safra brasileira, mas favorece agricultura dos EUA

    O El Niño deve ganhar força nos próximos meses, mas seus efeitos sobre a agricultura não serão iguais em todo o mundo. Enquanto o fenômeno pode aumentar os riscos para a produção de grãos no Brasil, os Estados Unidos tendem a encontrar condições mais favoráveis para a próxima temporada agrícola.

    A diferença está no comportamento das chuvas provocado pelo fenômeno em cada região. No Brasil, áreas importantes para a produção de soja e milho podem enfrentar períodos mais secos, enquanto o Sul tende a registrar condições mais úmidas.

    Já nos Estados Unidos, o El Niño costuma favorecer o aumento das chuvas em parte do território, principalmente no Sul, o que pode melhorar a disponibilidade de água para a temporada seguinte.

    El Niño deve ficar mais forte no fim de 2026

    O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e pode modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.

    A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) prevê que o fenômeno continue se fortalecendo ao longo de 2026.

    El Niño é causado pelo aquecimento acima da média das águas na região Equatorial do Oceano Pacífico. Mapa mostra o padrão de temperatura direcionado pelo fenômeno climático (Foto: NOAA/Via MetSul)

    Na atualização mais recente, a agência apontou 81% de probabilidade de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro. A NOAA também estimou em 97% a possibilidade de o fenômeno persistir até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte.

    A intensidade do El Niño, porém, não significa que todos os países enfrentarão os mesmos efeitos. O impacto depende da região, da época do ano e das condições climáticas locais.

    Brasil pode enfrentar maior risco para soja e milho

    O cenário preocupa o agronegócio brasileiro porque a intensificação do fenômeno ocorre justamente em um período importante para a safra 2026/27.

    No Cerrado, Centro-Oeste, regiões produtoras do Norte e na Amazônia, o El Niño tende a favorecer condições mais secas. Esse cenário pode reduzir a disponibilidade de água para as lavouras e aumentar o risco de períodos de estiagem.

    O problema é especialmente relevante para culturas como soja e milho, que dependem de uma distribuição adequada das chuvas durante diferentes fases do ciclo.

    No Sul do país, o comportamento tende a ser diferente. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul podem registrar condições mais úmidas associadas ao fenômeno.

    Isso, porém, não significa que todo o Sul terá uma safra melhor. O excesso de chuva também pode prejudicar o plantio, o desenvolvimento das plantas e a colheita.

    Pesquisador estima perda de até 10% na safra brasileira

    O pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa e da FGV Agro, avalia que um El Niño muito forte pode provocar perdas relevantes na produção brasileira.

    Segundo Assad, o cenário pode resultar em uma redução estimada de até 10% na produção de soja e milho do Brasil.

    A projeção, entretanto, deve ser interpretada como uma estimativa de risco, e não como uma previsão oficial de quebra da safra 2026/27.

    O resultado dependerá da intensidade do fenômeno, da distribuição das chuvas e das temperaturas observadas em cada região produtora.

    Por que os EUA podem ser favorecidos pelo El Niño?

    Nos Estados Unidos, o cenário tende a ser diferente.

    O período de maior influência do El Niño costuma ocorrer entre setembro e março. Para boa parte das culturas norte-americanas, essa época coincide com a entressafra ou com um período de menor atividade agrícola.

    Além disso, o fenômeno costuma aumentar a umidade em áreas do Sul dos Estados Unidos, desde a Califórnia até as Planícies Centro-Sul e o Sudeste.

    A maior quantidade de chuva pode reduzir o risco de seca e melhorar os níveis de água em rios, reservatórios e outras fontes utilizadas na agricultura.

    Dessa forma, o El Niño pode deixar os Estados Unidos em uma posição mais favorável para a próxima temporada de cultivo.

    Efeito do El Niño muda de acordo com o país

    Os impactos sobre a agricultura também podem ser diferentes em outras partes do mundo.

    Na América Central, países como Guatemala, Panamá, El Salvador e Costa Rica podem enfrentar condições menos favoráveis para culturas como milho e arroz.

    Na América do Sul, Paraguai e Uruguai podem encontrar condições mais favoráveis em determinadas áreas. Já Peru, Equador e parte da Colômbia podem registrar períodos de chuva acima do normal.

    Na África, o fenômeno tende a reduzir as precipitações em algumas regiões.

    Na Austrália, por outro lado, a irregularidade das chuvas pode prejudicar as pastagens e aumentar o risco de veranicos e estiagens.

    “Neste momento, os impactos mais imediatos do El Niño provavelmente estão sendo sentidos na Indonésia, Filipinas, América Central, parte da África e Índia, onde a chuva tem estado abaixo do normal nos últimos um ou dois meses. Também notamos um aumento nas chuvas em partes do Chile. Todos esses impactos são condizentes com as condições do El Niño”, afirma a cientista física do Centro de Previsão Climática da NOAA e líder da equipe de El Niño, Michelle L’Heureux.

  • Mudanças climáticas aumentam pressão por irrigação no agro

    Mudanças climáticas aumentam pressão por irrigação no agro

    As mudanças climáticas devem aumentar a importância da irrigação para o agronegócio brasileiro. A avaliação foi apresentada por pesquisadores durante o Fórum Mais Milho, realizado pela Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), em Brasília, nesta quarta-feira (12).

    Segundo os especialistas, a maior frequência de eventos climáticos extremos pode elevar os riscos para produtores que dependem exclusivamente das chuvas para conduzir suas lavouras.

    Mudanças climáticas aumentam importância da irrigação

    Lineu Rodrigues, pesquisador da Embrapa Cerrados e um dos idealizadores da Rede Nacional de Irrigantes (Renai), afirmou que o cenário da produção agrícola brasileira está mudando.

    “O cenário está mudando, vamos ter que irrigar mais”, afirmou.

    O pesquisador destacou que, até agora, a produção de grãos em sistema de sequeiro (que depende principalmente das chuvas) manteve a competitividade do Brasil. No entanto, a mudança no comportamento do clima aumenta a necessidade de estratégias para reduzir os impactos da irregularidade hídrica.

    “Até hoje, a produção do Brasil em sequeiro era competitiva, mas agora o clima está mudando. A irrigação vai ser cada vez mais importante.”

    Para Rodrigues, além da expansão da irrigação, o setor precisa ampliar o monitoramento climático e a geração de dados.

    A medida permitiria aos produtores fazer um planejamento mais preciso das atividades e tomar decisões com maior antecedência diante das condições meteorológicas.

    Estresse hídrico aumenta risco para produtores

    Ronaldo Torres, pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), destacou a relação entre as perdas provocadas pelo clima e o endividamento no campo.

    Segundo ele, parte das dificuldades financeiras enfrentadas pelos produtores está relacionada às frustrações de safra causadas pelo estresse hídrico.

    “A irrigação pode ser uma solução para problemas decorrentes de estresse hídrico e eventos climáticos, como El Niño e La Niña, cada vez mais recorrentes”, apontou.

    A irrigação, nesse contexto, pode funcionar como uma ferramenta para reduzir a dependência exclusiva das chuvas e aumentar a previsibilidade da produção.

    Brasil pode ampliar área irrigada

    Durante o evento, Durval Dourado Neto, professor da Esalq, afirmou que o Brasil possui potencial para ampliar significativamente a área irrigada.

    Segundo ele, o país poderia acrescentar 53,4 milhões de hectares de área irrigada no longo prazo, ultrapassando a marca de 60 milhões de hectares.

    O professor também defendeu a expansão da agricultura irrigada como uma estratégia relacionada à segurança alimentar.

    De acordo com estudos apresentados por ele, seria possível desenvolver, no médio prazo, um plano nacional de segurança alimentar com o objetivo de ampliar a área irrigada em 15,5 milhões de hectares nos próximos 30 anos.

    Desse total, 6,4 milhões de hectares estariam em áreas consideradas mais favoráveis à implantação de projetos de irrigação.

    Além disso, o professor também afirmou que seria possível ampliar em 2,1 milhões de hectares a área irrigada a cada quatro anos em regiões próximas aos oito principais polos agrícolas irrigados do país.

    Irrigação exige investimento e infraestrutura

    Para Dourado Neto, a expansão da irrigação precisa ser acompanhada por planejamento e sustentabilidade.

    “É importante ter a ciência norteando a agricultura. O Plano Nacional de Irrigação pode dobrar área adicional irrigável nos próximos anos e fazer isso com sustentabilidade, preservando água e floresta”, disse.

    Gustavo Goretti, pesquisador das áreas de irrigação e conservação do solo, avaliou que a expansão potencial da área irrigada exigiria entre R$ 100 bilhões e R$ 150 bilhões em investimentos privados no longo prazo.

    Segundo Goretti, alguns dos principais obstáculos para a expansão da irrigação continuam semelhantes aos enfrentados pelo setor há duas décadas.

    Entre eles estão:

    • dificuldades relacionadas ao licenciamento ambiental;
    • regras para armazenamento e outorga de água;
    • disponibilidade de energia elétrica;
    • qualidade do fornecimento de energia.

    O pesquisador também apontou que a irrigação ainda é tratada, em determinadas situações, como uma atividade sujeita a licenciamento, em vez de ser considerada uma tecnologia capaz de contribuir para a produção agrícola.

    Setor defende melhor uso dos recursos hídricos

    Bernhard Kiep, diretor da Abramilho e membro da Câmara de Irrigação (CSEI) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), afirmou que o Brasil ainda utiliza de forma limitada seu potencial produtivo e seus recursos naturais.

    “Temos 12% da água doce do mundo, usamos menos de 1%. Somos campeões mundiais de desperdício de água doce do mundo. Precisamos usar melhor para o bem da humanidade.”

    As discussões realizadas no Fórum Mais Milho mostram que a irrigação tende a ganhar espaço na estratégia do agronegócio brasileiro diante das mudanças no regime de chuvas e do aumento dos riscos climáticos.

    Para os pesquisadores, a expansão, porém, depende de investimentos, planejamento, disponibilidade de água, infraestrutura energética, segurança jurídica e uso de dados para orientar as decisões no campo.

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  • Produtores de cana do Nordeste receberão subvenção via Pix

    Produtores de cana do Nordeste receberão subvenção via Pix

    O governo federal regulamentou nesta terça-feira (11) a subvenção econômica destinada a produtores independentes de cana-de-açúcar da Região Nordeste afetados pela tributação adicional dos Estados Unidos sobre exportações brasileiras ou por eventos climáticos extremos.

    O benefício poderá chegar a R$ 270 milhões e foi autorizado pela Medida Provisória 1.374/2026, que tem como objetivo preservar a renda dos produtores, a produção de cana e os empregos do setor sucroenergético.

    O pagamento será feito pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), via Pix, após a comprovação das perdas e o atendimento aos critérios estabelecidos pelo governo.

    Quanto será pago aos produtores de cana

    A subvenção será de R$ 12 por tonelada de cana-de-açúcar comercializada durante a safra 2025/26.

    O período considerado vai de 1º de agosto de 2025 a 31 de julho de 2026.

    Quem poderá receber?

    Poderão ter acesso ao benefício:

    • Produtores rurais independentes, pessoas físicas ou jurídicas;
    • Cooperativas e associações, em relação à produção de seus cooperados ou associados que sejam produtores independentes.

    A regra, porém, não contempla produtores que tenham participação societária, direta ou indireta, nas usinas, destilarias ou cooperativas que recebem a cana fornecida.

    A MP 1.374/2026 estabelece que o apoio pode ser concedido diretamente aos produtores ou por meio de cooperativas e associações, conforme a quantidade de cana comercializada.

    Prazo para apresentar a documentação

    Os produtores deverão comprovar a comercialização da cana por meio de documentação fiscal eletrônica.

    Segundo o decreto, os documentos deverão ser encaminhados à Conab até 30 de outubro de 2026.

    Poderão ser utilizados documentos fiscais emitidos pelo próprio produtor ou pela unidade que adquiriu a cana, conforme as regras tributárias de cada Estado.

    Também serão consideradas operações realizadas por cooperativas ou associações.

    Como será feita a análise

    A Conab será responsável por receber e analisar a documentação apresentada pelos produtores.

    Caso sejam encontradas inconsistências, o beneficiário será notificado para fazer as correções necessárias.

    A estatal também deverá disponibilizar informações sobre o processo de operacionalização da subvenção, incluindo o endereço para envio dos documentos e a relação dos beneficiários, conforme os critérios estabelecidos no programa.

    Pagamento será feito via Pix

    Após a análise e aprovação da documentação, a Conab fará o pagamento da subvenção diretamente ao beneficiário por Pix.

    O valor será calculado de acordo com a quantidade de cana comercializada que estiver dentro dos critérios do programa.

    Produtores poderão ser fiscalizados

    O decreto também prevê a possibilidade de fiscalização dos produtores beneficiados pela Conab.

    A fiscalização poderá ocorrer a qualquer tempo e em qualquer fase da operação, segundo as regras estabelecidas pelo governo.

    O recebimento irregular do benefício poderá resultar na devolução integral dos valores, com atualização pela taxa Selic ou por outro índice que venha a substituí-la.

  • Tomates ancestrais conquistam agricultores e chefs de cozinha

    Tomates ancestrais conquistam agricultores e chefs de cozinha

    Já pensou poder experimentar o mesmo sabor de tomate que seus avós colhiam, comiam — e, depois de décadas, elogiam? É justamente essa experiência que variedades antigas de tomate estão proporcionando no Rio de Janeiro.

    Conhecidos como tomates históricos, tradicionais ou heirloom, esses frutos carregam características que foram preservadas ao longo de gerações. Muitos apresentam formatos, cores e sabores bem diferentes dos tomates encontrados atualmente nos supermercados.

    Há exemplares amarelos, alaranjados, rosados e até frutos com combinações de cores. Os formatos também chamam atenção. Alguns são pequenos e arredondados. Outros podem ser grandes, achatados ou bastante irregulares.

    Mas a aparência não é o único diferencial.

    Sabor que atravessa gerações

    O principal atrativo dessas variedades está no sabor. Muitos tomates antigos são conhecidos pelo aroma intenso, pela polpa suculenta e pelo equilíbrio entre doçura e acidez.

    Na cozinha, os frutos ganham espaço em saladas, entradas, molhos e outras receitas. Assim, ingredientes que durante anos ficaram restritos a pequenas plantações voltam a aparecer em restaurantes.

    Para os agricultores, a procura também cria uma nova oportunidade.

    Em vez de competir apenas pelo volume produzido, o produtor pode apostar em variedades diferenciadas. Nesse caso, sabor, aparência, origem e exclusividade passam a ter valor.

    Acervo com mais de mil variedades

    Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), um acervo com mais de mil variedades do fruto chama atenção pela diversidade. Segundo o professor Antônio Carlos de Souza Abboud, os cultivos resultam em frutos de diferentes cores, formatos, sabores e texturas.

    Tudo começou quando Abboud, professor e agrônomo especializado em ciência do solo, recebeu uma pequena coleção de sementes da França. Ele decidiu plantá-las e, o que começou como um hobby, ganhou novas proporções.

    Com o tempo, chegaram novas sementes por meio de doações, trocas com outras instituições e coletas realizadas no Brasil e no exterior. Assim, a coleção foi crescendo e passou a reunir materiais de diferentes origens.

    Coleção da UFRRJ é algo raro no Brasil e impressiona pela diversidade de tons, sabores, formatos e aromas (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/Antônio Carlos de Souza Abboud)

    Hoje, segundo Abboud, o acervo reúne tomates históricos provenientes de países como Itália, França, Espanha e Estados Unidos. Também há variedades coletadas em diferentes regiões brasileiras, incluindo a Bahia, a Amazônia e Roraima.

    “Tem tomate doce, azedo, frutado, mais ácido, com pouca semente, com textura crocante, textura macia. A gente tem todas as nuances de sabor, de gosto e de textura.”

    Rio de Janeiro tem tradição na produção

    O estado do Rio de Janeiro possui uma longa relação com o cultivo desse fruto.

    Um dos destaques é Paty do Alferes, município localizado na região Centro-Sul Fluminense. A cidade é tradicionalmente ligada à produção do tomate e mantém a agricultura como uma atividade importante.

    Portanto, a valorização dos tomates históricos cria uma possibilidade de diversificação. Pequenos produtores podem cultivar variedades específicas e estabelecer relações mais próximas com restaurantes, feiras e consumidores.

    A estratégia também acompanha uma mudança no comportamento na gastronomia:  Cada vez mais, chefs procuram ingredientes com história, identidade e origem conhecida. O tomate deixa, então, de ser apenas um acompanhamento e passa a contar uma história.

  • Agricultores usam táticas para encarar El Niño mais forte da história

    Agricultores usam táticas para encarar El Niño mais forte da história

    Na safra 2026/27, agricultores brasileiros devem enfrentar um El Niño de intensidade muito elevada — um dos mais fortes já vistos, na verdade. A previsão considera os fenômenos registrados desde 1950 e aumenta a preocupação com o clima durante o período de plantio e desenvolvimento das lavouras.

    O último episódio classificado como “muito forte” ocorreu na safra 2015/16. Na ocasião, 16 culturas diferentes registraram perdas de produtividade.

    O fenômeno começou em junho de 2026 e está evoluindo rapidamente. A expectativa é que o pico ocorra entre novembro e janeiro de 2027, embora ainda não exista uma previsão exata para o fim do evento.

    El Niño pode atrasar o plantio da soja

    Um dos principais pontos de atenção está no calendário da soja, especialmente nas regiões Centro-Oeste, Norte e no Matopiba.

    Especialistas avaliam que a combinação de pouca chuva e temperaturas elevadas pode atrasar o início da semeadura. Caso isso aconteça, o calendário do milho, normalmente plantado entre fevereiro e março, também poderá ser afetado.

    Além disso, o risco existe também para outras culturas. Café e citros podem enfrentar dificuldades durante a floração, enquanto a cana-de-açúcar pode ser beneficiada por um aumento das precipitações no Sudeste.

    Segundo Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagens do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o aquecimento global tem contribuído para uma maior frequência e intensidade dos episódios de El Niño.

    O especialista destaca que, nas últimas décadas, houve mais ocorrências do fenômeno e episódios de maior intensidade.

    O que é o Niño 3.4?

    O Niño 3.4 é uma região do Oceano Pacífico utilizada pelos meteorologistas como uma das principais referências para medir a intensidade do El Niño e da La Niña.

    Ela fica entre 5 graus ao norte e 5 graus ao sul da linha do Equador, entre os meridianos 170° e 120° a oeste.

    Na última atualização mencionada no material-base, a temperatura na região chegou a 1,3 °C, nível associado a um El Niño moderado naquele momento.

    Imagens do satélite mostram variações no nível do mar em junho de 2026; áreas em vermelho indicando águas mais elevadas no Pacífico equatorial, sinal típico associado ao desenvolvimento do El Niño — Foto: Sentinel-6 Michael Freilich/NASA/NOAA

    Para a agrometeorologista Ana Maria Heuminski de Ávila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, a velocidade de aquecimento do Pacífico aumentou a expectativa de um fenômeno mais intenso.

    Ela ressalta, porém, que um El Niño mais forte aumenta a probabilidade de eventos extremos, mas não significa que todas as regiões brasileiras serão afetadas da mesma maneira.

    Soja concentra uma das maiores preocupações

    A soja está entre as culturas que mais preocupam os especialistas por causa da possibilidade de alterações no calendário agrícola.

    Eduardo Martins, diretor do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), considera que os danos podem ser maiores caso a falta de chuva se intensifique em áreas mais vulneráveis.

    “Se a falta de chuva for ampliada, pegar o Matopiba [confluência entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que é mais exposto ao clima, tem solos mais arenosos, e o Centro-Oeste, há possibilidade de 20% de perda a nível nacional, pegando a safra 2015/16 como base”, estima Martins, que foi presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no governo Fernando Henrique Cardoso.

    Chuvas podem beneficiar o Sul

    Os efeitos do El Niño não serão iguais em todo o território brasileiro.

    No Sul do Brasil, o fenômeno costuma estar associado a volumes de chuva acima da média. Por isso, a preocupação durante a implantação das lavouras de verão é justamente o excesso de precipitação.

    Para Ana Maria Heuminski de Ávila, do Cepagri, a chuva pode até favorecer a produtividade de soja e milho no Rio Grande do Sul, desde que não seja excessiva.

    O excesso de precipitação, como observado em 2024, pode provocar problemas para as lavouras.

    Manejo do solo é uma das estratégias

    Diante de um cenário de maior variabilidade climática, o planejamento passa a ter papel importante na preparação das propriedades.

    O seguro rural é, sem dúvidas, uma ferramenta que pode ajudar os produtores a enfrentar possíveis perdas. No entanto, outra estratégia está relacionada ao manejo do solo.

    Marco Antonio dos Santos, agrometeorologista da Rural Clima, destaca a importância de manter uma boa cobertura vegetal e uma estrutura adequada do solo.

     “Ele (produtor) tem que primeiro fazer o que a gente chama de lição de casa: manter uma boa palhada, o solo com uma boa cobertura vegetal, com boa estrutura química e física, para que, quando chover, a água consiga penetrar em todo o solo e formar uma camada maior de água.”

    Assim, diante da possibilidade de um El Niño intenso na safra 2026/27, produtores precisam considerar não apenas o calendário de plantio, mas também o manejo do solo, o planejamento da propriedade e mecanismos de proteção contra perdas.

    O impacto, porém, dependerá da intensidade do fenômeno e, principalmente, de como chuva e temperatura vão se comportar em cada região produtora do país.

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  • Lavoura: como calibrar um pulverizador agrícola

    Lavoura: como calibrar um pulverizador agrícola

    A eficiência de uma pulverização não depende apenas do produto utilizado. O desempenho do equipamento também pesa, e muito, no resultado final. Um pulverizador agrícola desregulado pode provocar falhas na cobertura das plantas, aumentar o desperdício de defensivos e comprometer o controle de pragas, doenças e plantas daninhas.

    É justamente por isso que a calibração faz parte da rotina das propriedades mais tecnificadas. O procedimento ajusta o equipamento para que ele aplique a quantidade de calda prevista pelo agrônomo, com uniformidade e dentro das condições recomendadas para cada cultura.

    Embora muitos produtores associem a calibração a equipamentos sofisticados, ela também é indispensável em pulverizadores costais e máquinas de menor porte.

    O que significa calibrar um pulverizador?

    Calibrar um pulverizador é ajustar todos os componentes responsáveis pela aplicação para que o volume distribuído na lavoura corresponda ao planejado.

    Na prática, isso envolve verificar a vazão dos bicos, regular a pressão de trabalho, conferir a velocidade de deslocamento da máquina e observar a altura correta da barra de pulverização.

    Quando um desses fatores está fora do padrão, a aplicação perde eficiência. Em alguns pontos da área, o produto pode ser aplicado em excesso. Em outros, a cobertura pode não ser suficiente para controlar o problema.

    Por que a calibração é importante?

    Uma regulagem adequada reduz desperdícios e melhora o aproveitamento dos defensivos agrícolas, que representam uma parcela significativa do custo de produção.

    Além da economia, a calibração ajuda a diminuir riscos de deriva, evita sobreposição de aplicações e contribui para uma cobertura mais uniforme das plantas.

    O resultado costuma aparecer não apenas na qualidade do manejo, mas também no bolso do produtor.

    Quando fazer a calibração?

    A recomendação é nunca iniciar uma pulverização sem conferir o equipamento.

    Sempre que houver troca de bicos, alteração na pressão de trabalho, mudança de velocidade, substituição da bomba ou manutenção no sistema hidráulico, uma nova calibração deve ser realizada.

    Também vale repetir o procedimento quando o pulverizador permanecer parado por longos períodos ou antes do início de uma nova safra.

    O que deve ser conferido antes da aplicação?

    Homem trabalhando com pulverizador agrícola
    Foto: Embrapa/Ronaldo Rosa

    Antes de levar a máquina para o campo, alguns itens merecem atenção especial.

    Verifique se existem bicos desgastados ou entupidos, observe possíveis vazamentos em mangueiras e conexões, confira a limpeza dos filtros e certifique-se de que a pressão indicada no manômetro corresponde à regulagem prevista para o trabalho.

    Também é importante avaliar o estado da barra de pulverização. Barras desniveladas ou com folgas podem comprometer a distribuição da calda.

    O clima também interfere na pulverização

    Mesmo um equipamento perfeitamente regulado pode apresentar baixo desempenho quando as condições climáticas não são favoráveis.

    Ventos fortes aumentam o risco de deriva. Temperaturas elevadas aceleram a evaporação das gotas. Já a baixa umidade reduz a eficiência da aplicação.

    Por isso, técnicos costumam recomendar que a pulverização seja realizada nos horários mais amenos do dia, sempre respeitando as orientações técnicas para cada cultura.

    Os erros mais comuns durante a calibração

    Pulverizador agrícola em ação em plnatação de pêssegos
    Foto: Embrapa/Paulo Lanzetta

    Algumas falhas aparecem com frequência no campo e acabam reduzindo a eficiência da operação.

    Uma delas é utilizar bicos com desgaste acima do recomendado. Como a vazão aumenta ao longo do tempo, o equipamento passa a aplicar mais produto do que o previsto, elevando o custo da operação.

    Outro erro recorrente é aumentar a velocidade da máquina para ganhar produtividade sem corrigir os demais parâmetros da pulverização. A consequência costuma ser uma cobertura irregular das plantas.

    Também é comum encontrar produtores que deixam de conferir a pressão de trabalho ou utilizam bicos diferentes na mesma barra, situação que compromete a uniformidade da aplicação.

    A tecnologia facilita o processo

    Os pulverizadores mais modernos contam com recursos que simplificam a calibração.

    Controladores eletrônicos ajustam automaticamente a vazão durante o deslocamento da máquina. Sensores monitoram a altura da barra em tempo real e sistemas de agricultura de precisão registram todas as informações da operação.

    Mesmo assim, esses equipamentos continuam dependendo de inspeções periódicas e manutenção preventiva para entregar o desempenho esperado.

    Calibrar custa pouco e pode evitar grandes prejuízos

    Em muitas propriedades, a calibração leva menos de uma hora. Ainda assim, o procedimento costuma ser um dos que oferecem maior retorno ao produtor.

    Uma aplicação bem regulada reduz desperdícios, melhora o controle fitossanitário e aumenta a eficiência dos produtos utilizados na lavoura.

    No fim da safra, essa diferença pode representar economia de insumos, menor necessidade de reaplicações e uma produção mais eficiente.