Autor: José Vicente Caixeta Filho

  • Artigo: Logística demanda otimização

    Artigo: Logística demanda otimização

    Um dos mais marcantes fenômenos observados na economia agrícola brasileira nas últimas décadas, e de forma acelerada nos anos mais recentes, é a verdadeira revolução no seu arranjo espacial. Os negócios agropecuários foram ocupando áreas de fronteiras, como o Norte e o Centro-Oeste, além de vastas áreas do Nordeste, em geral através de atividades que incorporam modernas tecnologias de produção. Paralelamente, fornecedores de insumos, armazenadores e indústrias de processamento vão se aglomerando ao redor das zonas de produção, visando principalmente a minimização dos custos de transporte envolvidos, atendendo assim aos princípios de racionalidade econômica.

    Ressalte-se que a motivação fundamental para a busca dessa otimização é a necessidade de se incrementar a competitividade dos produtos nacionais face à concorrência externa resultante, o que implicará não somente a redução de custos referentes às operações de exportação mas também a diminuição de espaços para as tentativas de avanço dos produtos importados.

    Os projetos de infraestrutura de transportes, em particular, têm dito respeito a basicamente quatro vertentes: o modelo intermodal, a descentralização da malha rodoviária federal, a integração continental e a privatização da operação portuária.

    É interessante notar que a maioria dos novos projetos de infraestrutura de transporte se apoiam em projeções de movimentação de grãos e de seus derivados, tanto em regiões tradicionais quanto nas chamadas novas fronteiras agrícolas. Há de certa forma uma relação de dependência da viabilidade/sucesso desse novos empreendimentos para com um negócio tipicamente monocultural. Por outro lado, são claras as preocupações, e ações, das empresas dos complexos de grãos, relacionadas a questões logísticas.

    Potenciais de crescimento

    Se a vantagem logística pode ser um diferencial significativo de competitividade, há também que se considerar os potenciais de crescimento tanto de produção quanto de demanda pelos produtos específicos.

    Note-se também que, em muitas situações, os embarcadores exigem, mas não querem pagar mais pela qualidade. E nem sempre qualidade deverá custar mais. Quando o embarcador começa a exigir qualidade de uma transportadora (ou de um operador logístico), poderá também nascer uma maior parceria, que poderá gerar ganhos tanto no volume de carga quanto em termos de redução de custos, ou seja, um transportador (por exemplo) passa a exigir um maior volume de carga em troca de valores menores de frete.

    Algumas agroindústrias, ao optarem pela terceirização de seus serviços de transportes, cuidam para que seus colaboradores sintam-se protegidos, formando um elenco de agregados que prestam serviços exclusivos à empresa. Uma das maneiras de “conquistar” esses transportadores diz respeito ao esforço da empresa embarcadora para conseguir cargas de retorno, mesmo que isso venha a implicar algum tipo de triangulação.

    Há que se ressaltar que, ainda que a opção pelo transporte exclusivamente rodoviário não deva ser algo desejável economicamente, é de extrema importância que a estrutura física das rodovias esteja em plenas condições de uso, pois essa modalidade de transporte é a única que permite o transporte chamado “ponto-a-ponto”, função esta extremamente importante.

    Redução de custos

    Vale ressaltar que, num provável contexto intermodal, será de fundamental importância a ágil e eficiente manipulação de cargas através de embalagens com características unitizadas, tais como os contêineres e afins.

    Em termos de novos paradigmas a serem observados, chama a atenção a expectativa das medidas referentes à redução dos custos de transporte, no curto prazo, que devem dizer respeito ao aumento da produtividade dos veículos diversos, visando a melhoria dos processos de carga e descarga, incrementando a segurança e gerenciando de forma eficiente as eventuais cargas de retorno.

    Lembre-se também que políticas regulatórias não devem impor custos excessivos. Leis federais, estaduais e municipais pertinentes devem tratar cuidadosamente de: avaliação de custos e benefícios de investimentos em transporte; comparações entre todas as alternativas; efeitos na competição entre modalidades de transportes; efeitos na competição internacional; evitar inconsistências / duplicações.

    A visão sistêmica dos diversos eixos viários de nosso País deve ser clara e também atualizada sistematicamente. Isto favorecerá não só a identificação de investimentos apropriados em infraestrutura (essenciais para a competitividade, desde que  voltados para o incremento da produtividade de serviços que se revelem, efetivamente, viáveis economicamente), assim como a detecção de desinvestimentos em infraestrutura que não mais venha a contribuir para o crescimento econômico (o que poderá envolver inclusive a desativação de ramais ferroviários, ou até mesmo de trechos rodoviários, dentro de um plano bem consubstanciado de manutenção e conservação do sistema viário brasileiro).

    Moral da história?

    Sim, vamos ter que continuar a fazer o uso predominante da modalidade de transporte rodoviário para a movimentação das nossas cargas agrícolas ao longo dos próximos 15, 20 anos… Por quê? Porque mudanças estruturais demandam médio e longo prazos. Porque tudo é muito demorado quando se fala, se pensa e se planeja a reorientação de nossa matriz de transportes. E mesmo com todas as ressalvas e incertezas que estão por trás de qualquer exercício de previsão, essa reorientação – mesmo que no longo prazo –parece clara e inevitável, tanto para embarcadores quanto para transportadores.

    Nesse sentido, o uso de ferramentas (de Inteligência Artificial, inclusive) de modelagem, para cenários diversos, estão se tornando imprescindíveis na referenciação das tomadas de decisões de agentes representativos de mercado.

    José Vicente Caixeta Filho ([email protected]) é ex-diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e consultor na empresa cAIxeta Inteligência Logística

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

  • Artigo: o diesel e a opção por ferrovias

    Artigo: o diesel e a opção por ferrovias

    O Brasil ainda apresenta uma forte dependência para com o transporte rodoviário. Nessa modalidade de transporte, o principal veículo é o caminhão, movido majoritariamente a diesel.

    Essa dependência torna o sistema econômico brasileiro mais vulnerável a oscilações no preço do combustível. Discute-se a diversificação da matriz energética, com o uso de outros combustíveis e tecnologias mas, no transporte de cargas, esse movimento ainda avança lentamente, sobretudo no curto prazo.

    A dependência do Brasil de importações de diesel tem variado ao longo do tempo, mas existe um padrão relativamente claro nos últimos anos: de forma geral, entre 20% e 30% do diesel consumido no país é importado.

    E por que o Brasil importa diesel? Mesmo sendo um importante produtor de petróleo (via Petrobras), o país ainda precisa importar por alguns motivos estruturais. Incluindo o fato de as refinarias brasileiras não produzirem diesel suficiente para atender a toda a demanda do mercado interno. O petróleo brasileiro (pré-sal) nem sempre é ideal para maximizar a produção de diesel sem ajustes/refino mais complexo (o que poderia significar custos mais expressivos, se comparados com as despesas de se importar de países como os Estados Unidos e a própria Rússia).

    Investimentos

    Para o médio e longo prazos, tem-se reforçado a necessidade de investimentos em outras modalidades de transporte, como ferrovias, hidrovias e cabotagem. São investimentos estruturais, de maior prazo, mas que podem contribuir para uma logística mais eficiente e menos dependente do diesel.

    Particularmente com relação às ferrovias brasileiras, a maioria delas também se utiliza do diesel, tendo em vista o baixo nível de eletrificação (menos de 2% da malha). Mesmo sendo diesel, muitas locomotivas são diesel-elétricas: o motor a combustão gera eletricidade que alimenta motores elétricos nas rodas.

    De qualquer forma, seria de se esperar uma maior economia com o consumo de diesel a partir do crescimento do uso de ferrovias? A partir da contabilização da chamada eficiência energética (tonelada-km por litro), além da economia a partir do uso da ferrovia, tem-se a confirmação daquela velha premissa que “um comboio ferroviário pode vir a substituir dezenas de caminhões”. A malha ferroviária brasileira é ainda incipiente em termos de capilaridade. Mas mesmo se houvesse algo em torno de 5% a 10% de incremento no uso dessa modalidade, já poderiam ser observados impactos relevantes no consumo nacional de diesel.

    A ferrovia não só seria uma opção mais eficiente, mas também estrategicamente importante para se reduzir importação de diesel.

    Diversificação

    Para o mundo em geral, há previsões de expansão contínua da eletrificação e até uso de hidrogênio e baterias. Para o Brasil, têm sido analisados cenários futuros com predomínio do diesel, mas com discussões sobre eletrificação em corredores estratégicos (especialmente para exportação).

    Implicações logísticas  bem significativas  dão conta de que a dependência de importação continuará a impactar o custo do frete (rodoviário e ferroviário diesel). E a afetar as taxas de inflação (combustível influencia alimentos e transporte), o que certamente atestaria a vulnerabilidade do País a choques internacionais.

    José Vicente Caixeta Filho ([email protected]) é ex-diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e consultor na empresa cAIxeta Inteligência Logística