Categoria: Entrevistas

  • Brasil amplia protagonismo na segurança energética

    Brasil amplia protagonismo na segurança energética

    As recentes tensões geopolíticas em importantes rotas globais de transporte de petróleo reacenderam o debate sobre segurança energética. Em um cenário de incertezas, países capazes de combinar produção agrícola em larga escala e fontes renováveis de energia ganham relevância estratégica.

    O Brasil aparece entre os protagonistas dessa discussão. Com previsão de safra recorde de grãos em 2025/26, liderança mundial na produção de soja e avanço dos biocombustíveis, o país reúne condições para ampliar sua participação na transição energética global.

    Para Daniel Barbosa, CEO da FEX Agro, o desafio vai além de produzir mais alimentos. Segundo ele, o setor precisa transformar sua escala produtiva em ganhos sustentáveis de competitividade, renda e segurança energética. Em entrevista, o executivo analisa as oportunidades e os desafios para o agronegócio brasileiro nos próximos anos.

    A safra brasileira de grãos deve atingir um novo recorde em 2025/26. Qual é a importância desse resultado para o agronegócio?

    A projeção de 358 milhões de toneladas mostra a capacidade produtiva do agronegócio brasileiro. Mais do que um número expressivo, ela demonstra a eficiência do setor e sua capacidade de atender tanto a demanda por alimentos quanto por matérias-primas destinadas à produção de energia renovável.

    De que forma essa produção recorde pode fortalecer o setor energético brasileiro?

    A expansão da produção agrícola fortalece cadeias ligadas ao biodiesel, etanol, biometano e combustível sustentável de aviação, o SAF. À medida que o mundo busca reduzir emissões e diversificar fontes de energia, o Brasil reúne condições favoráveis para ampliar sua participação nesse mercado.

    O que diferencia o Brasil nesse cenário global?

    Poucos países conseguem combinar liderança agrícola, disponibilidade de recursos naturais, matriz energética renovável e capacidade crescente de produção de biocombustíveis. Essa combinação coloca o Brasil em uma posição privilegiada diante das transformações que estão ocorrendo no mercado global de energia.

    Qual é o papel da soja nessa estratégia?

    A soja tem enorme relevância porque o Brasil é o maior produtor mundial. Além da exportação do grão, ela é uma matéria-prima fundamental para a cadeia do biodiesel. Isso amplia sua importância não apenas para o agronegócio, mas também para a agenda energética.

    E qual é a importância do milho nesse contexto?

    O milho vem ganhando protagonismo com o crescimento das usinas de etanol de cereais, especialmente no Centro-Oeste. Esse movimento agrega valor à produção dentro do país, fortalece a indústria de biocombustíveis e contribui para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

    O Plano Safra 2025/26 é aguardado com expectativa pelo setor. O que está em jogo para os produtores?

    O Plano Safra será determinante para a próxima temporada. O setor aguarda definições sobre volume de recursos, taxas de financiamento, linhas de investimento e mecanismos de apoio à modernização tecnológica. Em um cenário de juros elevados, essas definições influenciam diretamente a capacidade de financiamento da atividade agrícola.

    Daniel Barbosa, CEO da FEX Agro – Foto: Arquivo Pessoal

    O seguro rural também tem sido tema recorrente nas discussões do agro. Por quê?

    Os eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes. Por isso, fortalecer instrumentos de gestão de risco é fundamental. O seguro rural oferece mais previsibilidade ao produtor e contribui para preservar a estabilidade produtiva e a segurança dos investimentos.

    Apesar da perspectiva positiva para a produção, quais desafios permanecem para o produtor rural?

    Os custos continuam sendo um fator importante. Fertilizantes, defensivos, logística e despesas financeiras ainda pressionam as margens. Além disso, o mercado internacional vive uma fase de maior oferta e recomposição de estoques, o que exige mais eficiência operacional e gestão de risco.

    Crédito mais seletivo

    O acesso ao crédito mudou nos últimos anos?

    Sim. O capital continua disponível, mas as instituições financeiras passaram a adotar critérios mais rigorosos de análise. Hoje, governança, capacidade de gestão e qualidade das garantias fazem cada vez mais diferença na obtenção de recursos.

    A China segue como um fator importante para o mercado brasileiro de soja?

    Sem dúvida. A China continua sendo o principal destino das exportações brasileiras de soja. Isso faz com que o mercado acompanhe com atenção fatores como decisões de compra, questões diplomáticas e movimentos geopolíticos.

    O Brasil está preparado para assumir um papel ainda mais relevante na segurança energética global?

    O país já demonstrou capacidade de expandir sua produção agrícola e consolidar sua liderança em biocombustíveis. O próximo desafio é transformar essa escala produtiva em ganhos sustentáveis de competitividade, renda e segurança energética. Se conseguir avançar nessa direção, o Brasil poderá ocupar uma posição ainda mais estratégica em um mundo que busca fontes de energia mais seguras e de menor emissão de carbono.

  • Eficiência redefine o lucro no agro brasileiro

    Eficiência redefine o lucro no agro brasileiro

    O agronegócio brasileiro atravessa, em 2026, uma mudança estrutural no modelo de crescimento. Embora a projeção aponte uma safra recorde de 354,4 milhões de toneladas, produzir mais deixou de ser garantia de maior rentabilidade. Isso ocorre porque o aumento dos custos de insumos, os juros elevados e a maior complexidade operacional comprimem as margens. Assim, uma nova lógica se impõe ao setor: a busca por eficiência.

    Nesse contexto, tecnologia e gestão baseada em dados passam a ocupar papel central na estratégia de produtores e agroindústrias. Além disso, a necessidade de controle mais rigoroso altera a forma como decisões são tomadas no campo.

    Para entender essa virada e seus impactos práticos, o Agro em Campo conversou com Fabiano Ferreira, CEO do Grupo Komvos. Segundo ele, o momento exige uma mudança de mentalidade para sustentar resultados.

    Mudança de lógica no campo

    O que mudou no agronegócio brasileiro nos últimos anos?

    De acordo com Ferreira, a principal mudança é conceitual. Durante muito tempo, o crescimento esteve diretamente ligado ao aumento da produção. No entanto, esse modelo deixou de se sustentar. Hoje, o produtor pode colher mais e, ainda assim, ganhar menos. Portanto, o foco saiu da expansão e passou para a preservação de margem.

    Por que produzir mais já não garante lucro?

    Os custos cresceram em ritmo acelerado. Insumos, crédito e operação ficaram mais caros. Além disso, o ambiente se tornou mais complexo, com maior exigência de controle e eficiência. Como resultado, o impacto positivo do aumento de produção sobre o resultado final diminuiu.

    Qual é o novo foco estratégico do setor?

    A eficiência operacional passou a ser prioridade. Isso significa controlar custos, reduzir perdas e melhorar a qualidade das decisões. Ou seja, não basta produzir bem; é preciso operar com precisão. Caso contrário, a competitividade tende a cair.

    Como a tecnologia entra nesse cenário?

    A tecnologia deixa de ser suporte e assume papel protagonista. Sistemas integrados de gestão conectam campo, financeiro, logística e pessoas. Dessa forma, o produtor ganha visão ampla do negócio e consegue agir com mais rapidez.

    Fabiano Ferreira, CEO do Grupo Komvos – Foto: Arquivo Pessoal/ Divulgação

    A gestão baseada em dados já é realidade no campo?

    Ela avança rapidamente. Empresas mais estruturadas já operam com dados em tempo real. Por outro lado, quem ainda depende apenas de percepção ou experiência isolada começa a perder espaço.

    Decisão antecipada e previsibilidade

    Quais são as principais inovações tecnológicas?

    Ferramentas de inteligência artificial e simulação de cenários ganham destaque. Com elas, é possível antecipar decisões antes mesmo da execução. Por exemplo, o produtor pode avaliar riscos climáticos, operacionais e financeiros antes do plantio.

    Isso muda o nível de risco da atividade?

    Sim, e de forma significativa. Quando cenários são antecipados, as incertezas diminuem. Consequentemente, a eficiência aumenta e a margem fica mais protegida.

    O mercado também está mais exigente?

    Sem dúvida. Rastreabilidade, conformidade e sustentabilidade deixaram de ser diferenciais. Agora, são exigências. Nesse sentido, cresce a necessidade de controle sobre toda a operação.

    Qual é o impacto para o produtor?

    Ele precisa profissionalizar a gestão. Hoje, decisões sem base em dados representam risco direto à rentabilidade. Em outras palavras, quem não mede, perde margem.

    E para as agroindústrias?

    O desafio está na integração da cadeia. Desde a produção até a entrega, tudo precisa estar conectado. Assim, a previsibilidade se torna um ativo estratégico.

    Competitividade e futuro do setor

    Os números do agro ainda são positivos?

    Sim. Em 2025, o setor movimentou US$ 169,2 bilhões em exportações. Esse resultado reforça a relevância econômica. No entanto, faturamento alto não significa, necessariamente, rentabilidade elevada.

    Onde está a nova vantagem competitiva?

    Na capacidade de operar melhor. Integrar dados, antecipar cenários e decidir com velocidade e precisão são fatores determinantes. Portanto, eficiência se torna o principal diferencial competitivo.

    Eficiência virou regra?

    Mais do que isso. Virou condição de sobrevivência. Não se trata mais de tendência, mas do mínimo necessário para permanecer no mercado.

    Qual é o papel das empresas de tecnologia?

    Garantir controle e previsibilidade. Não basta oferecer sistemas. É fundamental permitir decisões mais qualificadas em tempo real.

    Eventos do setor ajudam?

    Sim. Feiras e encontros ampliam o acesso à inovação. Além disso, aceleram a adoção de novas práticas, pois permitem visualizar aplicações concretas no dia a dia. Assim, a transformação em curso reposiciona o agronegócio brasileiro diante de um ambiente mais desafiador

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  • Agro sob ataque: Selic alta e custos não dão trégua no campo

    Agro sob ataque: Selic alta e custos não dão trégua no campo

    A desaceleração no ritmo de queda da taxa básica de juros no Brasil, combinada à pressão internacional sobre insumos e ao ambiente fiscal doméstico mais sensível, já impacta o planejamento do agronegócio para 2026. A avaliação é de Wolney Arruda, administrador de empresas e presidente da Plantae Agrocrédito, com atuação no mercado de crédito rural há mais de duas décadas.

    Em entrevista ao Agro em Campo ele aponta para um cenário de crédito mais caro, custos elevados e maior incerteza para o produtor rural.

    Segundo o especialista, a combinação entre tensões geopolíticas, sobretudo envolvendo o Irã, e a limitação fiscal do governo brasileiro tende a manter o custo do dinheiro elevado por mais tempo. Isso afeta diretamente o acesso ao crédito rural e amplia os desafios para a próxima safra.

    Juros, cenário macro e crédito

    A redução menor da Selic muda o cenário para o agro em 2026?

    Muda bastante. O mercado esperava cortes mais agressivos, o que ajudaria a aliviar o custo do crédito. Com um ritmo mais lento, o produtor precisa se preparar para juros elevados por mais tempo.

    O que pesa mais hoje: risco fiscal ou cenário externo?

    Os dois fatores são relevantes, mas o fiscal tem um peso estrutural. Ele influencia diretamente a percepção de risco do país e limita a atuação do Banco Central.

    Existe risco de interrupção no ciclo de queda dos juros?

    Existe, principalmente se houver nova pressão inflacionária vinda de energia ou insumos agrícolas.

    Como esse cenário impacta o custo do dinheiro no campo?

    Ele encarece todas as linhas, tanto subsidiadas quanto livres, e reduz o acesso ao crédito em condições favoráveis.

    Geopolítica e custo dos insumos

    Como o conflito envolvendo o Irã impacta os fertilizantes?

    O Irã é um player relevante na produção de nitrogenados. Qualquer restrição de oferta pressiona os preços globais.

    O Brasil está muito dependente de insumos externos?

    Sim, especialmente em fertilizantes. Isso torna o país vulnerável a choques internacionais.

    Há alternativa no curto prazo?

    No curto prazo, não. A dependência é estrutural e exige tempo e investimento para ser reduzida.

    O risco no Estreito de Ormuz já afeta o diesel?

    Ainda de forma indireta, mas o mercado já precifica essa possibilidade, o que sustenta a volatilidade.

    Wolney Arruda, presidente da Plantae Agrocrédito

    Custos, produção e margens

    Qual é hoje o principal fator de pressão de custos?

    É um conjunto: fertilizantes, diesel e crédito. Todos estão pressionados ao mesmo tempo.

    Esse cenário pode mudar decisões do produtor?

    Sem dúvida. Pode levar à redução de área ou à escolha de culturas menos intensivas em insumos.

    Quais culturas são mais sensíveis?

    Milho e trigo, por exemplo, dependem mais de fertilizantes nitrogenados.

    O produtor está preparado para margens menores?

    Os mais capitalizados sim, mas uma parcela relevante ainda opera com pouca margem de segurança.

    Crédito rural e financiamento

    Como a Selic mais alta afeta o Plano Safra?

    Aumenta o custo de equalização para o governo, o que pode limitar a oferta de crédito subsidiado.

    A migração para crédito livre deve crescer?

    Sim, é uma tendência, principalmente entre produtores de maior porte.

    Quais os riscos dessa migração?

    Maior exposição à volatilidade dos juros e menor previsibilidade no custo financeiro.

    Pequenos e médios produtores serão mais impactados?

    Devem ser os mais afetados, porque têm menos acesso a alternativas de financiamento.

    Estratégia e perspectivas

    Como o produtor deve se posicionar agora?

    Com mais cautela, planejamento financeiro rigoroso e atenção ao custo de produção.

    Ferramentas de proteção ganham mais importância?

    Sim, hedge e gestão de risco passam a ser essenciais nesse ambiente.

    O agro brasileiro perde competitividade?

    Não necessariamente, mas enfrenta um ambiente mais desafiador.

    Esse cenário é conjuntural ou estrutural?

    Tem elementos dos dois. A geopolítica pode se ajustar, mas a questão fiscal tende a ser mais persistente.

    O que esperar para 2026 no campo?

    Um ano de decisões mais complexas, margens apertadas e maior necessidade de gestão profissional.

  • Brasil pode chegar a 100 mil drones agrícolas em 3 anos

    Brasil pode chegar a 100 mil drones agrícolas em 3 anos

    O crescimento acelerado dos drones de pulverização no Brasil preocupa o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag). Em entrevista durante a Expodireto Cotrijal 2026, o diretor executivo da entidade, Gabriel Colle, afirmou que o setor vive uma expansão inédita, mas sem acompanhamento proporcional da legislação e da fiscalização. Segundo ele, a prioridade agora é organizar o mercado e evitar riscos operacionais no campo e no espaço aéreo.

    Colle atua no sindicato há 11 anos e acompanhou de perto a chegada dos drones à aviação agrícola. Segundo ele, a decisão estratégica do Sindag foi incorporar a tecnologia ao setor, em vez de combatê-la.

    “A primeira decisão que tivemos que tomar foi se iríamos brigar com os drones ou trazê-los para dentro da nossa atividade. Optamos por incorporar essa tecnologia, imaginando que ela teria crescimento. O que não imaginávamos era que esse crescimento seria tão rápido”, afirma.

    A evolução impressiona. Em 2021, o Brasil tinha apenas 355 drones agrícolas registrados. Ao final de 2025, esse número ultrapassou 40 mil equipamentos.

    “Entraram cerca de 40 mil drones em quatro anos. Hoje o Brasil só perde para a China, que tem algo em torno de 300 mil equipamentos. Se continuarmos nesse ritmo, podemos chegar perto de 100 mil drones de pulverização nos próximos três anos”, diz.

    Mercado cresce sem controle

    Apesar da expansão, o principal desafio apontado pelo Sindag é a falta de organização do mercado. Segundo estimativas da entidade, cerca de 75% dos drones de pulverização em operação no país podem estar irregulares.

    “Muita gente compra um drone e começa a operar imediatamente. Não faz cadastro na ANAC, não registra a operação no Ministério da Agricultura e não tem acompanhamento agronômico. Nesses casos, estamos diante de uma atividade ilegal”, afirma Colle.

    Grande parte dos equipamentos utilizados no Brasil é importada da China. Segundo o executivo, cerca de 95% do mercado nacional é composto por drones fabricados naquele país, muitas vezes adquiridos por importação direta ou até mesmo via Paraguai.

    Gabriel Colle – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    O crescimento desordenado também traz preocupações relacionadas à segurança aérea. A operação irregular de drones pode provocar acidentes com aeronaves tripuladas.

    “Se um drone estiver operando de forma ilegal e uma aeronave agrícola entrar naquela área sem saber da presença dele, pode acontecer uma colisão. Já tivemos casos de aeroportos fechados por causa de drones operando irregularmente”, alerta.

    No campo, o problema também já aparece com frequência. O Sindag criou um canal para que empresas associadas relatem avistamentos de drones durante operações aéreas.

    “Somente entre janeiro e fevereiro deste ano recebemos quase 100 relatos de pilotos que precisaram pousar o avião de pulverização porque havia drones operando na área”, conta.

    Profissionalização é o principal desafio

    Segundo Colle, o crescimento da tecnologia é positivo, mas precisa vir acompanhado de profissionalização.

    “Não somos contra os drones. Pelo contrário, queremos proteger esse mercado. O que defendemos é que a atividade seja exercida de forma profissional, com operadores qualificados e dentro da legislação”, explica.

    Uma das propostas do Sindag é que a venda de drones de pulverização passe a ter algum nível de rastreabilidade. A ideia é identificar quem compra os equipamentos e garantir que o operador esteja apto a utilizá-los.

    “Não se trata de controle de mercado, mas de segurança. Precisamos saber quem está operando e garantir que essa pessoa tenha formação adequada”, afirma.

    Outra proposta é tornar o contratante corresponsável pela operação.

    “Se alguém contratar uma empresa ilegal e houver deriva ou algum problema na aplicação, esse contratante também deveria responder. Estamos falando de um possível crime ambiental.”

    Falta de experiência técnica preocupa

    Uma pesquisa realizada pelo Sindag em 2025 revelou que grande parte dos novos operadores de drones não tem experiência no setor agrícola.

    “Cerca de 70% das pessoas que estão entrando nesse mercado não têm ligação com a agricultura. Existe uma diferença enorme entre pilotar um drone e fazer uma aplicação agrícola eficiente”, afirma.

    Segundo Colle, o desafio técnico é grande. A pulverização exige controle preciso da gota e conhecimento agronômico.

    “Na aviação agrícola levamos mais de 60 anos para dominar completamente a tecnologia de aplicação. Controlar uma gota que sai de uma aeronave a 300 km/h e fazê-la chegar no alvo correto exige muita técnica.”

    Ele destaca que a curva de aprendizado dos drones ainda está em andamento.

    “Hoje há muitos curiosos operando equipamentos sem conhecimento técnico. Isso pode gerar aplicações mal feitas e prejudicar a imagem da tecnologia.”

    Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    Mercado passa por seleção natural

    O crescimento acelerado também gerou um fenômeno curioso: um grande número de drones fora de operação.

    Segundo Colle, muitos operadores entraram no mercado sem planejamento e acabaram abandonando a atividade.

    “Muita gente achou que seria fácil ganhar dinheiro com drone. Mas a operação exige escala, manutenção e conhecimento técnico. Temos hoje um verdadeiro cemitério de drones no Brasil.”

    Outro fator é a evolução rápida da tecnologia.

    “Em apenas quatro anos já tivemos duas gerações de drones. É um equipamento muito diferente da aviação agrícola tradicional. Temos aviões da década de 1970 operando perfeitamente. Já os drones precisam ser substituídos com frequência.”

    Cada tecnologia tem seu espaço

    Apesar do avanço dos drones, Colle acredita que as diferentes tecnologias de aplicação continuarão coexistindo no campo.

    Enquanto um drone de 40 litros consegue pulverizar cerca de 35 a 40 hectares por hora, um avião agrícola pode atingir até 600 hectares no mesmo período.

    “Não é uma questão de melhor ou pior. Cada ferramenta tem seu ambiente ideal de operação”, explica.

    Segundo ele, muitas empresas já trabalham com modelos híbridos.

    “Temos associados que operam com aeronaves, drones e pulverizadores autopropelidos. Eles escolhem a tecnologia de acordo com a área, a cultura e a necessidade do cliente.”

    Nova fronteira: aviões autônomos

    Outra tecnologia que começa a aparecer no radar do setor são os aviões autônomos, também chamados de VANTs de asa fixa.

    Hoje existem cerca de 11 equipamentos desse tipo operando no Brasil, ainda sem legislação específica.

    “Do ponto de vista legal, eles ainda são considerados drones. Porém, estamos falando de aeronaves com capacidade de até 300 litros de carga e potencial para causar grandes danos se não forem bem reguladas.”

    Segundo Colle, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) já trabalha na construção de regras específicas para esse tipo de equipamento.

    O setor também acompanha iniciativas tecnológicas apoiadas pela Embraer, que estuda o desenvolvimento de novas soluções para a aviação autônoma.

    “A aplicação dessas aeronaves é impressionante. Elas podem ser programadas e operar praticamente sozinhas. Mas ainda existem desafios logísticos e operacionais importantes.”

    Futuro do setor

    Para o Sindag, o mercado de drones agrícolas continuará crescendo nos próximos anos. No entanto, a consolidação do setor dependerá da organização regulatória e da profissionalização dos operadores.

    “Estamos em um momento de transformação. A aviação agrícola deve continuar crescendo até 2028, mas o cenário depois disso ainda é incerto. O importante é olhar para todas as tecnologias e preparar o setor para o futuro”, conclui Colle.

  • Sem o agro, balança comercial do Brasil não se sustenta

    Sem o agro, balança comercial do Brasil não se sustenta

    Fundada em 15 de dezembro de 1970 por 42 agricultores em Cascavel, no Oeste do Paraná, a  Cooperativa Agroindustrial de Cascavel (Coopavel) nasceu com o objetivo de concentrar a produção de grãos da região. Ao longo de mais de cinco décadas, a cooperativa cresceu, expandiu sua atuação e hoje figura entre as 20 maiores empresas do agronegócio brasileiro, segundo a Revista Exame. Atualmente, conta com 33 filiais distribuídas em 23 municípios do Oeste e Sudoeste paranaense.

    Esse crescimento também se reflete na Show Rural Coopavel. Durante a 38ª edição do evento, realizada de 9 a 13 de fevereiro de 2026, a feira voltou a bater recordes históricos de público. Somente na quarta-feira (11), 115.088 pessoas passaram pelo parque tecnológico, o maior número já registrado em um único dia. Até a quinta-feira (12), o evento somou 368.824 visitantes, superando antes do encerramento a meta inicial de 360 mil pessoas.

    Tecnologia é a chave para o produtor avançar

    Durante entrevista coletiva, o diretor-presidente da Coopavel, Dilvo Grolli, reforçou que o produtor rural precisa, cada vez mais, de tecnologia para continuar avançando. Segundo ele, o Sul do Brasil não dispõe de novas fronteiras agrícolas. “Não temos para onde crescer em área. Portanto, o crescimento precisa vir da produtividade, no mesmo espaço”, afirmou.

    Nesse contexto, a Show Rural cumpre um papel estratégico. De acordo com Grolli, mais de 700 empresas demonstraram interesse em participar da edição de 2026. No entanto, o espaço físico exigiu escolhas. “As empresas que já participam têm preferência, mas também abrimos espaço para novas, desde que tragam algo que ainda não temos. Fizemos uma sinergia entre esses dois interesses”, explicou.

    A expectativa inicial era receber entre 360 mil e 400 mil visitantes ao longo dos cinco dias. No entanto, com o ritmo registrado, a feira deve ultrapassar 420 mil pessoas, superando os 407 mil visitantes de 2025.

    Negócios, investimentos e abertura para famílias

    Além do público, os negócios também avançaram. Segundo o presidente, a feira já atingiu cerca de metade do volume esperado, estimado entre R$ 6 bilhões e R$ 7 bilhões em negócios. Outro destaque foi a abertura no domingo, pensada para atrair famílias. Nesse dia, cerca de 40 mil pessoas visitaram o parque.

    Ao falar do cenário nacional, o presidente da Coopavel destacou que o Brasil planta entre 84 e 85 milhões de hectares, em um território de 853 milhões. “Temos áreas disponíveis, tecnologia e inovação para crescer”, afirmou. A produção de grãos para a safra 2025/26 está estimada em 353 milhões de toneladas.

    Agro sustenta a economia brasileira

    Grolli também ressaltou o peso do agronegócio na economia. Em 2025, o setor respondeu por mais de US$ 170 bilhões em exportações, enquanto as importações ficaram em torno de US$ 22 bilhões. “É o agro que está segurando a balança comercial brasileira”, destacou.

    Diretor-presidente da Coopavel, Dilvo Grolli – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    Atualmente, o agronegócio representa entre 25% e 30% da economia nacional, com forte impacto na geração de empregos e na distribuição de renda. Para ele, o país precisa avançar na agregação de valor. “Precisamos produzir grão, mas também transformar esse grão em carne, proteína e alimentos”, pontuou.

    Juros, logística e expectativas para o Plano Safra

    Entre as principais preocupações do setor, Dilvo Grolli citou os juros elevados, os custos logísticos, a carga tributária e o cenário geopolítico internacional. Ainda assim, ele vê perspectiva de melhora. Com a taxa Selic em 15% ao ano, há expectativa de queda para cerca de 12% até dezembro de 2026.

    Esse movimento deve impactar o próximo Plano Safra 2026/27. Segundo Grolli, a tendência é de redução de 1 a 2 pontos percentuais nos juros. “O produtor precisa pesquisar, cotar, negociar e se enquadrar da melhor forma para reduzir o custo financeiro”, orientou.

    Crescimento da Coopavel e visão de futuro

    A Coopavel encerrou 2025 com crescimento de 19%. Para 2026, a meta é manter avanço entre 15% e 20%. Esse desempenho está ligado ao lançamento de novos produtos, abertura de filiais e investimentos que somaram R$ 477 milhões no último ano. Para este ano, o planejamento prevê cerca de R$ 400 milhões.

    Segundo Grolli, investir exige equilíbrio. “O investimento sobe, depois precisa de um período de maturação. Se não respeitar esse tempo, pode gerar problemas de caixa”, alertou.

    Ao comparar o desempenho do agro com o restante da economia, o dirigente foi direto. Enquanto o PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025 e as projeções gerais variam entre 1,8% e 2%, o agronegócio avançou cerca de 6%. “O agro está no melhor caminho. Não podemos ficar parados esperando que algo caia do céu”, concluiu.

  • Brasil amplia presença na Ásia com gergelim e feijão-mungo

    Brasil amplia presença na Ásia com gergelim e feijão-mungo

    O crescimento das exportações de gergelim e feijão-mungo recolocou o Brasil no centro da estratégia de abastecimento asiática e abriu espaço para um novo ciclo de negócios no agronegócio. Dados do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (IBRAFE) mostram que, até setembro de 2025, o País embarcou 349,6 mil toneladas de gergelim e 171 mil toneladas de feijão-mungo, avanços que superaram 60% em relação ao mês anterior e consolidaram uma rota comercial em expansão.

    Esse movimento está ligado à combinação entre tecnologia de produção, rastreabilidade e maior demanda do mercado asiático por alimentos com origem comprovada.

    A ampliação de estabelecimentos brasileiros habilitados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) reforça esse cenário: já são 61 plantas autorizadas a exportar gergelim para a China, responsável por cerca de 38% do consumo mundial do produto.

    Para entender o impacto desse reposicionamento e os próximos passos do setor, o Portal Agro em Campo conversou com Daniel Pinheiro Barbosa, CEO da FEX Agro, empresa que atua no mercado de insumos e comercialização de grãos.

    A seguir, ele explica como o Brasil se tornou um parceiro de confiança da Ásia e por que culturas antes secundárias agora ganham protagonismo.

    “O Brasil deixou de ser apenas fornecedor e passou a ser parceiro estratégico”

    Como o senhor avalia o aumento das exportações de gergelim e feijão-mungo registradas em 2025?

    Esse crescimento mostra que o Brasil entrou em uma nova fase. Essas culturas tinham participação pequena na pauta exportadora e, de repente, passaram a conectar o produtor ao mercado asiático de forma muito mais direta. Quando o IBRAFE aponta um salto de mais de 60% em um único mês, isso revela um nível de confiança que não existia antes.

    Daniel Pinheiro Barbosa, CEO da Fex Agro – Arquivo Pessoal

    O que explica esse avanço tão rápido?

    Há dois fatores. Primeiro, a demanda asiática está mais sofisticada. O consumidor quer saber origem, manejo, sustentabilidade e estabilidade de fornecimento. Segundo, o Brasil tem capacidade de entregar isso. Produzimos com tecnologia, possuímos áreas adaptadas ao cultivo e garantimos volume com regularidade. Esse conjunto cria vantagem competitiva.

    Como a habilitação de 61 estabelecimentos para exportar gergelim à China impacta o setor?

    Essa habilitação é um marco. A China responde por quase 40% do consumo global e, para acessar esse mercado, é preciso ter credibilidade sanitária e institucional. Quando o MAPA amplia as plantas autorizadas, envia um recado claro: o Brasil é confiável e está alinhado aos padrões internacionais.

    Rastreabilidade e governança puxam novo ciclo de confiança

    A Fex Agro adotou a rastreabilidade como base do modelo operacional. Por quê?

    Porque a Ásia valoriza segurança alimentar. Quando apresentamos origem, lote, análise, histórico do produtor e logística, mostramos respeito pelo comprador. A rastreabilidade virou a nova moeda de confiança. Ela reduz ruído, diminui risco e fortalece relações de longo prazo.

    Os produtores estão preparados para essa nova exigência?

    Sim. O produtor brasileiro é tecnificado e sabe que rastreabilidade não é obstáculo — é ferramenta comercial. Muitos já entenderam que quem entrega transparência se posiciona melhor no mercado internacional.

    O gergelim e o feijão-mungo podem se tornar culturas permanentes no calendário nacional?

    Com certeza. São culturas eficientes, rentáveis e bem adaptadas ao clima. Além disso, dialogam com janelas estratégicas de plantio no Centro-Oeste, o que ajuda a melhorar a renda e distribuir melhor o uso do solo.

    “A Ásia já não vê o Brasil apenas como vendedor, mas como parceiro”

    Como o senhor enxerga essa relação nos próximos anos?

    Vejo como uma parceria madura. A Ásia não está buscando apenas toneladas. Ela busca previsibilidade, segurança e compromisso ambiental. O Brasil tem capacidade de entregar tudo isso — e tem feito isso cada vez melhor. Por isso o relacionamento evoluiu: deixou de ser transacional e se tornou estratégico.

    O que ainda falta para consolidar essa posição?

    Continuar investindo em governança, comunicação e coordenação da cadeia produtiva. Cada grão exportado carrega a reputação do País. Quando mantemos padrão, mostramos que somos mais do que um celeiro mundial: somos guardiões da segurança alimentar global.

  • Compras coletivas beneficiam agricultura familiar no Pará

    Compras coletivas beneficiam agricultura familiar no Pará

    O superintendente da OCB/PA, Júnior Serra, concedeu entrevista exclusiva ao portal Agro em Campo, detalhando como as cooperativas da agricultura familiar no estado vêm fortalecendo a produção por meio da compra coletiva de insumos. Segundo ele, o modelo não apenas organiza os produtores, mas também garante maior competitividade e retorno financeiro para quem integra essas cooperativas.

    Qual é o principal trabalho das cooperativas no Pará hoje?

    “O que a gente faz muito aqui no estado do Pará é, em primeiro lugar, organizar. Fazemos um levantamento da produção, porque todo mundo que produz alguma coisa precisa de insumos agrícolas. A cooperativa entra justamente nesse ponto: comprar direto, principalmente quando temos mais de 20, 30, 40 produtores juntos. Esse volume gera um diferimento no valor de compra, tornando o processo competitivo.”

    Como funciona esse modelo na prática?

    “Primeiro fazemos toda a lista dos possíveis cooperados e levantamos a necessidade de cada um. A partir disso, vamos barganhar preço no mercado. É nesse momento que conseguimos mais competitividade e vantagem econômica para os produtores.”

    Pode dar um exemplo concreto de resultado?

    “Temos uma cooperativa, em um município próximo a Belém, que antes era uma associação. No primeiro ano como cooperativa, com 64 pequenos produtores rurais, alcançou um faturamento de R$ 500 mil. Desse valor, sobraram R$ 400 mil graças ao modelo da compra coletiva. Isso mostra como o sistema é eficiente.”

    A compra coletiva, então, é o ponto de partida?

    “Exatamente. A compra coletiva já é algo que estimula muito e sempre dá certo. Não tem como dar errado, porque todo produtor precisa de insumos agrícolas. O trabalho inicial é mapear essa demanda e negociar em bloco.”

    Qual é a diferença entre associação e cooperativa?

    “Tanto em associação quanto em cooperativa é possível participar de editais. Mas a associação tem mais restrições legais, porque seu fim é assistencial e cultural. Já a cooperativa tem caráter econômico.”

    E isso impacta no retorno financeiro?

    “Sim. Todo recurso que entra em uma associação não pode ser dividido entre os associados, precisa ser investido em prol da coletividade. No cooperativismo é diferente: o associado recebe proporcionalmente ao que entregou da produção dele.”

  • Entrevista: Capitão de Mar e Guerra da Marinha do Brasil, Anderson de Melo Reis

    Entrevista: Capitão de Mar e Guerra da Marinha do Brasil, Anderson de Melo Reis

    Vamos abrir um espaço em nosso site para entrevistar os principais nomes do Brasil em suas profissões, não se limitando ao segmento agro. E vamos começar com um profissional que dedicou sua carreira à proteção do país.

    Com uma trajetória marcada por liderança estratégica, atuação internacional e reconhecimento institucional, Anderson de Melo Reis consolidou-se como uma das principais referências em desenvolvimento organizacional dentro das Forças Armadas brasileiras. Capitão de Mar e Guerra da Marinha do Brasil, Anderson comandou unidades de grande complexidade, liderou operações com organismos multilaterais e recebeu distinções por sua atuação em contextos críticos. Agora, em transição para o mercado norte-americano, ele busca expandir sua contribuição em ambientes corporativos e acadêmicos que valorizem excelência, ética e performance institucional.

    Entrevista com o Capitão de Mar e Guerra da Marinha do Brasil, Anderson de Melo Reis

    Anderson, ao longo de sua trajetória, você recebeu algumas distinções bastante raras em sua área. Que tipo de circunstâncias profissionais levaram a esses reconhecimentos?

    Anderson de Melo Reis: Acredito que os reconhecimentos que recebi foram consequência direta da responsabilidade que assumi em contextos muito específicos e sensíveis, especialmente em ambientes multinacionais. O trabalho em operações conjuntas, sob coordenação de organismos internacionais, exige não apenas conhecimento técnico, mas também capacidade de articulação, mediação e liderança. Tive a honra de ser reconhecido por esses esforços em momentos importantes da minha carreira, o que reforça o compromisso institucional com resultados concretos.

    Poucas pessoas costumam receber esses reconhecimentos. O que você acredita que diferenciou sua atuação?

    Anderson de Melo Reis: Em geral, os contextos nos quais atuei requeriam decisões rápidas, estratégias claras e coordenação de equipes sob pressão. Em particular, liderei operações em que a interlocução entre forças de diferentes países era essencial — e minha formação, aliada à vivência prática em diversas frentes da Marinha do Brasil, me permitiu navegar com segurança por essas situações. Acredito que o diferencial esteve em transformar desafios operacionais em oportunidades de cooperação, sem perder o foco nos valores institucionais.

    Desenvolvimento e gestão de pessoas

    Como sua formação militar influenciou sua abordagem ao desenvolvimento organizacional e gestão de pessoas?

    Anderson de Melo Reis: Minha formação militar foi fundamental para moldar minha visão estratégica e humanizada da gestão organizacional. Na Marinha do Brasil, ocupei cargos de alto escalão com grande responsabilidade sobre recursos humanos, financeiros e logísticos. Essa vivência me ensinou a importância da disciplina, da clareza de objetivos e da valorização do potencial humano como força motriz das organizações. Sempre procurei liderar com empatia, reconhecendo e incentivando os pontos fortes individuais de cada subordinado, promovendo assim um ambiente de confiança, comprometimento e alta performance. A estrutura e os valores militares me deram base sólida para aplicar princípios de meritocracia, desenvolvimento contínuo e planejamento de longo prazo na gestão de equipes.

    Poderia dar um exemplo de uma situação em que sua liderança tenha sido essencial para o sucesso de uma missão ou projeto?

    Anderson de Melo Reis: Uma das situações mais emblemáticas foi durante o comando de uma unidade envolvida em operação conjunta com apoio internacional. Havia um alto grau de complexidade logística e política, e coube a mim construir a ponte entre as diretrizes institucionais e a execução no terreno. Coordenamos treinamentos, rotinas operacionais e fluxos administrativos sob supervisão de instâncias internacionais, o que exigia precisão, clareza e confiança. Foi um período desafiador — e muito gratificante.

    Maiores desafios

    Quais foram os maiores desafios institucionais que enfrentou como comandante, e como lidou com eles?

    Anderson de Melo Reis: Os maiores desafios estiveram relacionados à gestão eficiente de recursos escassos, à motivação de grandes efetivos em cenários adversos e à necessidade constante de adaptação a mudanças institucionais e operacionais. Como comandante, enfrentei situações que exigiram decisões rápidas, mas sempre pautadas na análise estratégica e no diálogo com a equipe. Um dos pilares que utilizei para superar esses desafios foi a comunicação clara e transparente, aliada à escuta ativa e à valorização das contribuições individuais. Ao estabelecer metas bem definidas, alinhar propósitos e reforçar a cultura organizacional, consegui manter a coesão do grupo e a eficácia operacional, mesmo em contextos de alta complexidade.

    Como você enxerga a transferência das competências desenvolvidas na Marinha para o setor privado ou para ambientes acadêmicos?

    Anderson de Melo Reis: As competências desenvolvidas na Marinha são altamente transferíveis e valiosas tanto para o setor privado quanto para o meio acadêmico. A liderança estratégica, a resiliência, a gestão de crises, o planejamento logístico e a capacidade de tomada de decisão sob pressão são habilidades essenciais em qualquer ambiente organizacional. Além disso, a experiência em liderar grandes equipes e desenvolver talentos pode ser aplicada diretamente em empresas que buscam inovação, eficiência e desenvolvimento humano. No campo acadêmico, posso contribuir com uma visão prática da gestão e da liderança, agregando experiências reais à formação teórica de alunos e profissionais. Acredito que essa vivência é um diferencial para contribuir com a formação de líderes mais preparados e conscientes de seu papel social e institucional.

    E como você avalia esta nova fase nos Estados Unidos?

    Anderson de Melo Reis: Vejo como uma extensão natural do trabalho que venho desenvolvendo. Ao longo da minha carreira, sempre busquei ambientes em que fosse possível agregar valor humano e institucional. Nos Estados Unidos, acredito que posso contribuir com organizações que valorizem excelência, ética, visão estratégica e resultados. Tenho convicção de que o acúmulo de experiências que trago pode ser uma ferramenta concreta de transformação positiva.

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  • 2º Cana Summit trouxe novas soluções para o agronegócio

    2º Cana Summit trouxe novas soluções para o agronegócio

    O 2º Cana Summit, realizado em Brasília, nos dias 2 e 3 de abril terminou e apresentou diversos temas aos 600 produtores presentes ao evento. Crescimento e desenvolvimento aliado às novas tecnologias, dificuldade na gestão de seus negócios, fluxo de caixa entre outros assuntos ligados à parte empresarial são importantes para fazer o negócio do produtor independente prosperar.

    Diante desse cenário, conversamos com Bruno Igarashi, CEO da Keep Consultoria, uma das empresas patrocinadoras do evento.

    Qual é o foco da Keep Consultoria no agronegócio?

    Somos uma empresa especializada em soluções para o agronegócio, homologada pela SAP, uma multinacional alemã. Atuamos em diversos segmentos dentro do agro, sempre buscando inovação e eficiência para os produtores e associações.

    O que a Keep trouxe para o 2º Cana Summit?

    O Cana Summit é um evento estratégico para o setor sucroenergético, e trouxemos uma solução focada no controle e na gestão das associações. Nossa tecnologia auxilia na gestão de contratos, proporcionando visibilidade das entradas e saídas de recursos financeiros, além do recebimento de cana.

    Como a Keep contribui para a automação no setor?

    Trabalhamos com a integração automática com as usinas, otimizando o controle do ATR. Além disso, temos atuado na padronização do Bonsucro e do CBIOS, com aplicação prática em associações como a Sosicana.

    Quais inovações a Keep está desenvolvendo atualmente?

    Estamos desenvolvendo um aplicativo voltado para o atendimento do agrônomo em campo. Com ele, é possível registrar atendimentos por data, horário e fotos, criando um histórico detalhado. Isso traz mais controle para as associações, aumenta a produtividade e evita perdas.

    Qual a importância da participação da Keep no evento?

    Estar presente no Cana Summit nos permite apoiar não apenas cooperativas e revendas, mas também acelerar a comercialização e produção da cana. Além disso, conseguimos agregar valor ao setor por meio da inovação, conciliando controle e produção para abrir novos mercados e fortalecer o produtor.

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  • Açúcar e etanol: entenda os bastidores da nova tarifa americana

    Açúcar e etanol: entenda os bastidores da nova tarifa americana

    Questões fundamentais para o desenvolvimento da produção canavieira no Brasil foram debatidas na segunda edição do Cana Summit. Promovido pela ORPLANA (Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil), o evento aconteceu no CICB (Centro Internacional de Convenções do Brasil), em Brasília e reuniu mais de 600 produtores e representantes do setor sucroenergético de diferentes regiões do País.

    Durante os dois dias de evento, foram realizados painéis com temas estratégicos para o setor, com a presença de autoridades políticas, especialistas nacionais e internacionais, além de representantes de países produtores de cana, como Colômbia, México e Austrália.

    A proposta foi discutir políticas públicas, tendências do mercado, desafios ambientais e outras questões cruciais para o setor. O Agro em Campo fez  uma entrevista exclusiva com José Guilherme Nogueira, CEO da Orplana. Acompanhe.

    O que representa a realização do 2º Cana Summit em Brasília?

    Estamos em Brasília para fincar a nossa bandeira, trazer nossas demandas e agradecer por tudo o que a cana significa para nós. Reunir 600 produtores do Brasil inteiro é um grande desafio, mas também demonstra a força do setor. Este evento só foi possível graças ao apoio dos nossos patrocinadores, que estão ao nosso lado na luta pelos interesses do produtor de cana. Eles conhecem nossos desafios e compartilham da nossa dedicação à terra e à produção.

    Como o evento reflete a importância da cana no Brasil?

    Tivemos 600 inscrições para este evento, o que reforça a relevância do setor. Muitas vezes, dentro do próprio mercado, não temos plena consciência da representatividade da cana. Cerca de 35 a 40% da produção nacional vem de fornecedores independentes, e precisamos garantir que suas necessidades sejam reconhecidas. São milhares de famílias e trabalhadores que dependem da cana e são fundamentais nesse processo.

    Qual é a relevância política desse evento em Brasília?

    Este evento marca mais uma vez a presença do produtor rural junto ao parlamento brasileiro. Aqui discutimos não apenas riscos e oportunidades, mas também as dificuldades enfrentadas pelos produtores. Levamos nossas pautas ao cenário nacional para buscar soluções e fortalecer a interlocução com os tomadores de decisão.

    Quais temas foram debatidos durante o evento?

    Discutimos vários aspectos importantes, como mercado, concentração de cana nas usinas e entre produtores, sucessão familiar e rentabilidade da cultura. Essas discussões serão levadas para as associações, onde poderemos aprofundar os debates e estruturar projetos de ação em âmbito local.

    José Guilherme Nogueira, CEO da Orplana. Foto: Pedro H. Lopes
    Como foi a participação internacional no evento?

    O painel internacional, conduzido pela Organização Internacional do Açúcar, trouxe uma perspectiva ampla, incluindo experiências da Austrália e da Colômbia. Isso reforça a importância do Brasil no mercado global. No entanto, temos um desafio: apenas 40% dos produtores brasileiros estão representados, enquanto em outros países esse percentual chega a 90 ou 95%. Precisamos fortalecer essa representatividade para viabilizar um crescimento sustentável.

    Qual a importância de manter essa conexão com os parlamentares?

    Estar em Brasília é essencial para fortalecer nossa relação com os parlamentares e mostrar a relevância da canavicultura brasileira. Nosso objetivo é trazer os principais desafios do setor para a agenda política, garantindo que os produtores tenham mais voz e mais viabilidade para continuar produzindo com qualidade e eficiência.

    Quais são as perspectivas para a próxima safra?

    Temos uma expectativa de safra menor em relação ao ano passado. Em 2023/2024, colhemos 658 milhões de toneladas. A safra que fechamos agora, em 2024/2025, ficou em torno de 618 milhões, e a próxima deve ficar entre 598 e 600 milhões de toneladas. Como as safras são muito próximas, é importante esclarecer esses números para evitar confusões.

    O que esperar da nova safra: mais açúcar ou mais etanol?

    A expectativa é de uma safra mais açucareira. As usinas investiram bastante para concentrar a produção de açúcar, porque o preço está melhor. Antes, o mix era de 56% a 57%, agora pode chegar a 62% ou até 63%. Como muitas usinas já travaram 70% dos preços, deve ser uma safra com muito açúcar — se o clima ajudar e não houver grandes problemas industriais. Já, para o etanol, o milho deve suprir parte do que não vier da cana.

    Como o cenário internacional pode impactar o mercado brasileiro de açúcar?

    Primeiro, é importante avaliar todos os países exportadores de açúcar. Observamos isso com clareza, e ficou evidente que Austrália e México não estavam presentes. O México, por exemplo, exporta cerca de 5 milhões de toneladas de açúcar para os Estados Unidos, sendo o principal fornecedor. Os EUA, por sua vez, não vão aumentar sua produção interna, então, com as tarifas recíprocas aplicadas, esse açúcar chega lá sendo sobretaxado em 10%. Isso com certeza vai impactar o consumidor final. A grande questão é: até que ponto esse consumidor vai pagar por isso?

    Sobre o cenário internacional e política tarifária do governo Trump. Como o Brasil está posicionado frente a essa política tarifária?

    Na lista que temos, que veio desde o governo Trump, essa taxação recíproca ficou em 10%, e o Brasil está entre os países com as menores taxas. Mas a grande discussão é: como os produtos que contêm açúcar, como refrigerantes e doces, vão reagir a isso? O consumo de açúcar nos Estados Unidos é muito diferente do nosso — eles usam muito mais. Aqui no Brasil, o mercado interno consome no máximo 1 milhão de toneladas; o restante, cerca de 34 milhões, vai para exportação. As indústrias americanas que dependem de açúcar, como as de refrigerantes e confeitaria, devem pressionar o governo, pois esses custos vão subir e isso pode gerar um efeito inflacionário.

    E sobre o etanol, o que podemos esperar?

    O impacto é outro. Os EUA não conseguem produzir todo o açúcar que consomem, mas o etanol, sim, porque produzem a partir do milho. Então, o que pode acontecer é uma migração para o uso de glucose de milho, um substituto parecido com o mel. Isso pode acontecer na indústria alimentícia. Vai acontecer já? Acho difícil, mas é um impacto possível, e temos que estar atentos.

    A política de carbono da Califórnia influencia esse cenário?

    Sim, a Califórnia tem uma política clara nesse sentido. Mesmo com o etanol sendo mais barato lá, eles importam o nosso por causa da menor intensidade de carbono. Não é só o preço que pesa, é a questão ambiental. Mas o comportamento do consumidor é complexo. Se aumenta 10%, será que as empresas conseguem repassar isso para o consumidor? Será que elas perdem margem? Esse ajuste costuma acontecer de forma lenta, com redução de volumes exportados até o mercado se ajustar.

    A tarifa de 10% imposta pelos EUA ficou dentro do esperado?

    Eu esperava um percentual pior, algo em torno de 18%. Os EUA fizeram uma avaliação completa: inflação, negociação, competitividade. Quando temos custos baixos de produção e somos competitivos na exportação, conseguimos entrar nesses mercados. O problema é quando somos usados como moeda de troca em acordos comerciais, e é isso que a gente quer evitar.

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