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  • Opinião – MIP-Soja: o desafio agora é transformar conhecimento em prática

    Opinião – MIP-Soja: o desafio agora é transformar conhecimento em prática

    O Brasil já possui conhecimento científico, tecnologias e resultados de campo suficientes para ampliar significativamente a adoção do Manejo Integrado de Pragas na soja. Depois de décadas de pesquisa, o desafio para os próximos anos já não está em comprovar se o MIP funciona. Está em criar caminhos para que uma estratégia validada cientificamente e capaz de gerar ganhos econômicos e ambientais seja incorporada à rotina de um número cada vez maior de produtores.

    Os resultados acumulados ao longo de mais de uma década são consistentes. Dados de safras agrícolas conduzidas no Paraná mostram que produtores que adotaram o MIP-Soja reduziram, em média, 52,8% o número de aplicações de inseticidas e postergaram em aproximadamente 26 dias a primeira aplicação, mantendo a produtividade e a rentabilidade das lavouras.

    Diante dessas evidências, uma pergunta precisa orientar o debate sobre o futuro do MIP-Soja: se os resultados são conhecidos e comprovados, por que sua adoção ainda permanece muito abaixo do potencial? A resposta indica que o principal desafio não é técnico.

    Unidades de Referência Técnica

    Ao longo dos últimos anos, foram implantadas inúmeras Unidades de Referência Técnica (URTs), realizados dias de campo, produzidos materiais técnicos e publicados estudos que demonstram os benefícios do sistema. As barreiras parecem estar em outros fatores, por exemplo: na dependência excessiva de tecnologias isoladas, na escassez de mão de obra qualificada para o monitoramento das lavouras, na percepção de risco por parte dos produtores, na complexidade operacional da tomada de decisão baseada em monitoramento e até mesmo no modelo tradicional de comercialização de insumos.

    Farelo de soja dispara e sustenta preços no mercado. Demanda global fortalece cotações da soja, enquanto preços do milho variam.
    Foto: Aprosoja – MT

    Essa reflexão ganhou força durante a reunião anual da cadeia da soja deste ano, realizada em Londrina (PR). Ela reuniu pesquisadores, representantes da indústria, consultores, produtores e lideranças do agronegócio. Mais do que olhar para os resultados já alcançados, o debate colocou uma questão essencial para o futuro: como transformar o conhecimento acumulado sobre o MIP em uma prática amplamente adotada no campo?

    Uma das conclusões mais importantes é que nenhuma tecnologia isolada será capaz de sustentar o manejo de pragas no longo prazo. Tecnologias como a soja Bt trouxeram ganhos significativos para o agricultor, mas não substituem o MIP. Pelo contrário. Os dados mostram que a combinação entre cultivares Bt e o Manejo Integrado de Pragas pode produzir resultados ainda melhores. Portanto, reduzindo aplicações e custos e aumentando a sustentabilidade do sistema produtivo.

    Relação entre os produtos biológicos e químicos

    O mesmo raciocínio deve orientar a relação entre os produtos biológicos e químicos. O futuro da proteção de plantas não deve ser construído a partir da escolha entre uma tecnologia ou outra. Mas da capacidade de integrá-las de forma inteligente. Cada ferramenta precisa ser utilizada no momento adequado, de acordo com o monitoramento da lavoura, o nível de infestação e critérios técnicos de tomada de decisão.

    É justamente essa visão sistêmica que está na essência do Manejo Integrado de Pragas. Monitoramento, controle biológico, tecnologias químicas, genética, conservação de inimigos naturais e outras estratégias não devem atuar de forma isolada, mas como partes de um mesmo sistema de produção.

    Integração

    Essa integração será cada vez mais necessária. A resistência das pragas é um dos grandes desafios da agricultura e tende a se intensificar quando existe dependência excessiva de uma única ferramenta. Preservar a eficiência das tecnologias disponíveis ao produtor exige diversidade de estratégias e decisões baseadas em conhecimento. Foi com essa visão que criamos, em 2019, o Programa MipExperience, iniciativa que aproxima pesquisa, extensão, indústria, varejo e produtores rurais em torno das Boas Práticas Agrícolas e do Manejo Integrado de Pragas.

    Ao longo dos últimos anos, construímos uma jornada baseada em capacitação técnica, validação no campo, transferência de conhecimento e certificação reconhecida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, demonstrando que os benefícios do MIP vão além do manejo fitossanitário e alcançam a segurança dos alimentos, a redução de resíduos, a conservação da biodiversidade, a agricultura regenerativa e a conexão entre campo, mercado e consumidor.

    A experiência acumulada nessa trajetória e o desafio de ampliar a adoção do MIP para uma cultura da dimensão da soja abriram caminho para um novo passo. Nesse contexto, a Embrapa Soja e a Promip formalizaram a assinatura de uma Carta de Intenções para a construção colaborativa da Rota Soja + Sustentável. A iniciativa nasce com um propósito claro. Contribuir para transformar o MIP-Soja, de conhecimento amplamente validado pela pesquisa, em prática cada vez mais adotada pelos produtores brasileiros.

    Duas frentes

    O caminho passa, inicialmente, por duas grandes frentes. A primeira é a capacitação de produtores, técnicos e consultores, com treinamentos estruturados a partir das recomendações da Embrapa Soja e a disseminação das Boas Práticas Agrícolas. A segunda é a aplicação desse conhecimento em condições reais de produção, com a implantação de Unidades de Referência Técnica em diferentes regiões produtoras do país, a coleta de indicadores técnicos, econômicos e ambientais e a demonstração dos resultados alcançados nas lavouras.

    A perspectiva é construir, progressivamente, uma rede de aprendizagem e validação do MIP-Soja, capaz de conectar ciência, assistência técnica e experiência prática dos produtores. Mas ampliar a adoção do MIP não será responsabilidade de uma única empresa ou instituição. Essa mudança exigirá a participação conjunta da pesquisa, da assistência técnica, dos produtores, da indústria, das instituições financeiras, do varejo e do mercado consumidor.

    O Brasil já possui conhecimento científico, experiência acumulada e tecnologias para avançar. O futuro do MIP-Soja dependerá da nossa capacidade de transformar todo esse conhecimento em decisão no campo.

    Marcelo Poletti

    Marcelo Poletti é engenheiro agrônomo, doutor em Entomologia pela Esalq/USP e CEO da Promip, empresa brasileira de biológicos para controle de pragas agrícolas.

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

  • Artigo: amendoim ganha protagonismo no agronegócio brasileiro

    Artigo: amendoim ganha protagonismo no agronegócio brasileiro

    Poucos alimentos representam tão bem a cultura brasileira dos meses de junho e julho quanto o amendoim. Presente em receitas tradicionais como paçoca, pé de moleque, cajuzinho, bolo de amendoim e diversas outras iguarias típicas das festas juninas ou das mesas dos brasileiros, o grão vive um momento de forte expansão no campo.

    Nos últimos anos, o Brasil consolidou sua posição entre os principais produtores e exportadores mundiais, impulsionado por avanços tecnológicos, melhorias no manejo das lavouras e aumento da produtividade. O resultado é uma cadeia cada vez mais estratégica para o agronegócio nacional, capaz de atender tanto ao mercado interno quanto à crescente demanda internacional.

    A produção brasileira de amendoim tem apresentado crescimento consistente. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra 2024/25 foi marcada por um desempenho histórico, com estimativa superior a 1 milhão de toneladas. Ou seja, um crescimento próximo de 49% em comparação ao ciclo anterior, quando foram produzidas aproximadamente 734 mil toneladas. Além do aumento da produção, a área cultivada também avançou, chegando a cerca de 278 mil hectares. Enquanto a produtividade registrou um salto expressivo, resultado da combinação entre boas condições climáticas em boa parte do ciclo, adoção de sementes de alta qualidade e tecnologias de manejo mais eficientes.

    Maior produtor nacional

    Grande parte dessa produção está concentrada no estado de São Paulo, responsável pela maior parcela do amendoim cultivado no país. Entretanto, novas fronteiras agrícolas vêm ganhando espaço, especialmente em Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, ampliando a diversificação regional da cultura. Tradicionalmente utilizada em áreas de renovação de canaviais, a cultura do amendoim tornou-se uma excelente alternativa de rotação de culturas. Assim, trazendo benefícios agronômicos importantes, como melhoria da estrutura do solo, fixação biológica de nitrogênio e redução da pressão de algumas pragas e doenças, fatores que favorecem a sustentabilidade dos sistemas produtivos.

    O avanço da cultura também está diretamente relacionado ao investimento em inovação. Nos últimos anos, produtores brasileiros passaram a utilizar cultivares mais produtivas, técnicas mais precisas de plantio, monitoramento constante das lavouras e manejo integrado de pragas e doenças. Esses fatores contribuíram para elevar significativamente o rendimento por hectare e reduzir perdas ao longo do ciclo produtivo. Além disso, o uso crescente de sementes certificadas proporciona maior uniformidade no estande das plantas, melhor vigor inicial e maior potencial produtivo, tornando a cultura mais competitiva no cenário internacional.

    Embora o consumo do amendoim ocorra durante todo o ano, os meses de junho e julho representam um dos períodos mais importantes para a cadeia produtiva. É nessa época que as festas juninas movimentam a indústria alimentícia e o varejo, elevando significativamente a demanda pelo grão. O amendoim é matéria-prima para uma ampla variedade de produtos tradicionais que fazem parte da identidade cultural brasileira. Portanto, tornando-se protagonista das celebrações em praticamente todas as regiões do país. Essa sazonalidade impulsiona toda a cadeia, desde o produtor rural até as indústrias de doces, alimentos e exportação.

    Exportação

    Além do mercado doméstico aquecido, o Brasil vem ampliando sua presença no comércio exterior. A qualidade do amendoim brasileiro, associada aos elevados padrões sanitários e ao investimento em rastreabilidade e processamento, tem fortalecido a competitividade do produto em mercados exigentes, especialmente na Europa e em outros países consumidores. Esse cenário contribui para agregar valor à produção nacional e diversificar as oportunidades de renda para os produtores rurais.

    As perspectivas para a próxima safra permanecem positivas, embora o ritmo de crescimento deva ser mais moderado após o recorde alcançado. As projeções mais recentes indicam produção próxima de 1,1 milhão de toneladas. Com isso, mantendo o Brasil acima da marca de um milhão de toneladas. Ainda que fatores como preços internacionais, custos de produção e decisões sobre área plantada possam influenciar o desempenho do setor. Mesmo diante desse cenário, a cultura segue consolidada como uma importante alternativa econômica para os produtores brasileiros.

    Manejo

    Nesse contexto, o manejo eficiente das lavouras torna-se um fator decisivo para transformar potencial produtivo em rentabilidade. O controle de plantas daninhas, insetos-praga e doenças durante todo o ciclo permite preservar o desenvolvimento das plantas, reduzir perdas e garantir maior qualidade dos grãos destinados tanto à indústria quanto à exportação. O planejamento das operações agrícolas, aliado ao monitoramento constante das áreas e ao uso de tecnologias adequadas, contribui para que os produtores obtenham maior eficiência e sustentabilidade em seus sistemas produtivos.

    O amendoim deixou de ser apenas uma cultura complementar e passou a ocupar um espaço estratégico dentro do agronegócio brasileiro. Esse crescimento é resultado da evolução do manejo, da adoção de tecnologias no campo e do compromisso dos produtores com produtividade e qualidade. Quando realizamos um manejo eficiente desde o início do ciclo, protegendo a lavoura contra plantas daninhas, pragas e doenças, criamos as condições necessárias para que a cultura expresse todo o seu potencial produtivo. Isso fortalece toda a cadeia, desde o agricultor até a indústria que abastece o mercado interno e as tradicionais festas juninas, além de ampliar a competitividade do Brasil no mercado internacional.

    Diogo Pavan é Gerente de Marketing de Campo da Corteva Agriscience. Engenheiro Agrônomo, Pavan é especialista em proteção de plantas e tem cerca de 20 anos de carreira no agronegócio.

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

  • Desinformação avança para além da política e se torna risco crescente para marcas e negócios

    Desinformação avança para além da política e se torna risco crescente para marcas e negócios

    A desinformação deixou de ser um problema restrito ao debate político e passou a ocupar o centro das preocupações de empresas, entidades e especialistas em comunicação. O tema foi discutido nesta quinta-feira (21), durante o ABMRA Ideia Café, promovido pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), que reuniu representantes do Instituto Ethos e do NetLab, laboratório de pesquisa em internet e redes sociais vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para debater os impactos das chamadas fake news sobre reputação, marcas e negócios.

    Na abertura do encontro, o presidente da ABMRA, Ricardo Nicodemos, destacou que a discussão está diretamente alinhada ao propósito da entidade. “A ABMRA completa em junho 47 anos e uma das missões da entidade é exatamente ajudar o mercado a se comunicar da melhor maneira possível. E essa questão da informação é, sem dúvida, um dos grandes pilares e uma das nossas maiores preocupações. Portanto, vem ao encontro dos nossos propósitos”, afirmou.

    Ao longo do encontro, especialistas destacaram que o conceito de fake news evoluiu significativamente nos últimos anos. Se inicialmente o fenômeno era analisado principalmente sob a ótica eleitoral e da polarização política, hoje é compreendido como uma atividade econômica estruturada, capaz de influenciar comportamentos de consumo, comprometer a confiança em instituições e afetar diretamente o desempenho de empresas dos mais diversos setores.

    Para a professora em comunicação social da UFRJ e fundadora do NetLab, Marie Santini, a política serviu como uma espécie de laboratório para compreender o fenômeno, mas a realidade atual demonstra que a desinformação extrapolou esse ambiente. “Hoje se entende que esse é um dos fatores que mais ameaçam a economia no mundo. Toda economia é baseada em confiança, e a desinformação afeta justamente esse elemento central, que é a confiança e a reputação das empresas”, analisou.

    Construção de narrativas capazes de gerar dúvidas

    Segundo os pesquisadores, a desinformação não se resume à circulação de conteúdos falsos. O fenômeno envolve a construção de narrativas capazes de gerar dúvidas sobre informações legítimas, enfraquecer a credibilidade de instituições e direcionar audiências para ambientes onde a atenção pode ser monetizada por meio de publicidade digital, fraudes ou manipulação de comportamento. Em muitos casos, o processo começa em canais de baixa credibilidade, é testado em grupos fechados e, posteriormente, impulsionado por mecanismos de segmentação das plataformas digitais até alcançar grandes audiências.

    O pesquisador do NetLab, Márcio Borges, ressaltou que os reflexos para o ambiente corporativo são diretos. “Quando eu ataco a confiança, eu ataco diretamente o negócio. Eu ataco diretamente a razão econômica da transação comercial que é estabelecida a partir de uma relação de confiança”, explicou. Segundo ele, a desinformação também explora a credibilidade de marcas consolidadas para aplicar golpes, comercializar produtos falsificados e disseminar conteúdos enganosos, ampliando os riscos reputacionais para as empresas.

    Coalizão busca mobilizar empresas para enfrentar a desinformação

    A crescente influência da desinformação sobre a reputação corporativa, a confiança nas instituições e a tomada de decisões motivou a criação da Coalizão Empresarial contra a Desinformação, iniciativa liderada pelo Instituto Ethos em parceria com entidades empresariais e com apoio técnico do NetLab. O movimento tem o apoio ainda da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE), Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (ABRADEE) e da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (INTERFARMA).

    Lançada em abril deste ano, a coalizão reúne representantes do setor privado com o objetivo de sensibilizar lideranças empresariais, mapear riscos e construir diretrizes voltadas ao fortalecimento da integridade informacional no ambiente de negócios.

    Segundo a gestora de projetos do Instituto Ethos, Marcela Greco, a proposta é transformar a discussão sobre desinformação em uma agenda prática para as organizações. “A desinformação é um dos maiores riscos globais da atualidade e afeta diretamente as empresas, seja pelos impactos reputacionais, seja pelos recursos investidos para combater informações falsas. Nosso objetivo é mobilizar lideranças empresariais para construir uma agenda de integridade informacional que vá além do diagnóstico e resulte em ações concretas para fortalecer a confiança nas instituições, nas marcas e na sociedade”, afirmou.

    A iniciativa prevê a elaboração de um documento de referência com diagnósticos, recomendações e boas práticas para o setor empresarial, que deverá ser apresentado em fóruns internacionais como contribuição brasileira ao debate global sobre integridade da informação.

    Liderança global e mais vulnerável

    Um dos dados que mais chamaram atenção durante o encontro foi apresentado por Márcio Borges e tem como base um levantamento realizado em 21 países. Segundo o estudo, cerca de 80% dos brasileiros utilizam redes sociais para consumir notícias e informações, colocando o Brasil na liderança global nesse hábito de consumo informacional. Ao mesmo tempo, o país ocupa a última posição no ranking de capacidade de identificação de conteúdos falsos entre as nações analisadas, evidenciando um cenário de elevada vulnerabilidade à desinformação digital.

    Cerca de 80% dos brasileiros consomem notícias em redes sociais, posicionando o país como líder global

    Na avaliação dos especialistas, a combinação entre o alto consumo de informações por meio das plataformas digitais e a dificuldade de distinguir conteúdos verdadeiros de falsos cria um ambiente especialmente favorável à circulação de narrativas enganosas, com impactos que vão além da esfera política e atingem diretamente empresas, marcas e instituições.

    Anúncios digitais

    Outro ponto destacado pelos pesquisadores foi o papel da publicidade digital programática no financiamento desse ecossistema. Como os anúncios são distribuídos automaticamente com base em perfis de audiência e comportamento, empresas podem acabar financiando ambientes que disseminam conteúdos enganosos sem ter conhecimento direto sobre onde suas campanhas estão sendo exibidas. A falta de transparência sobre a distribuição desses anúncios foi apontada como um dos principais desafios para empresas, anunciantes e reguladores.

    Sobre a ABMRA

    A Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA) é a única entidade voltada exclusivamente ao marketing e à comunicação do Agro. Há quase 50 anos, fortalece o marketing disseminando as boas práticas e contribuindo com todos que participam da cadeia produtiva do setor a se comunicarem melhor. Congrega todo o ecossistema da comunicação, tendo como Associados as indústrias (anunciantes), agências e veículos de mídia.

    A ABMRA se posiciona como a “Casa do Marketing e da Comunicação do Agro”.

    Texto enviado pela ABMRA

  • Artigo: Logística demanda otimização

    Artigo: Logística demanda otimização

    Um dos mais marcantes fenômenos observados na economia agrícola brasileira nas últimas décadas, e de forma acelerada nos anos mais recentes, é a verdadeira revolução no seu arranjo espacial. Os negócios agropecuários foram ocupando áreas de fronteiras, como o Norte e o Centro-Oeste, além de vastas áreas do Nordeste, em geral através de atividades que incorporam modernas tecnologias de produção. Paralelamente, fornecedores de insumos, armazenadores e indústrias de processamento vão se aglomerando ao redor das zonas de produção, visando principalmente a minimização dos custos de transporte envolvidos, atendendo assim aos princípios de racionalidade econômica.

    Ressalte-se que a motivação fundamental para a busca dessa otimização é a necessidade de se incrementar a competitividade dos produtos nacionais face à concorrência externa resultante, o que implicará não somente a redução de custos referentes às operações de exportação mas também a diminuição de espaços para as tentativas de avanço dos produtos importados.

    Os projetos de infraestrutura de transportes, em particular, têm dito respeito a basicamente quatro vertentes: o modelo intermodal, a descentralização da malha rodoviária federal, a integração continental e a privatização da operação portuária.

    É interessante notar que a maioria dos novos projetos de infraestrutura de transporte se apoiam em projeções de movimentação de grãos e de seus derivados, tanto em regiões tradicionais quanto nas chamadas novas fronteiras agrícolas. Há de certa forma uma relação de dependência da viabilidade/sucesso desse novos empreendimentos para com um negócio tipicamente monocultural. Por outro lado, são claras as preocupações, e ações, das empresas dos complexos de grãos, relacionadas a questões logísticas.

    Potenciais de crescimento

    Se a vantagem logística pode ser um diferencial significativo de competitividade, há também que se considerar os potenciais de crescimento tanto de produção quanto de demanda pelos produtos específicos.

    Note-se também que, em muitas situações, os embarcadores exigem, mas não querem pagar mais pela qualidade. E nem sempre qualidade deverá custar mais. Quando o embarcador começa a exigir qualidade de uma transportadora (ou de um operador logístico), poderá também nascer uma maior parceria, que poderá gerar ganhos tanto no volume de carga quanto em termos de redução de custos, ou seja, um transportador (por exemplo) passa a exigir um maior volume de carga em troca de valores menores de frete.

    Algumas agroindústrias, ao optarem pela terceirização de seus serviços de transportes, cuidam para que seus colaboradores sintam-se protegidos, formando um elenco de agregados que prestam serviços exclusivos à empresa. Uma das maneiras de “conquistar” esses transportadores diz respeito ao esforço da empresa embarcadora para conseguir cargas de retorno, mesmo que isso venha a implicar algum tipo de triangulação.

    Há que se ressaltar que, ainda que a opção pelo transporte exclusivamente rodoviário não deva ser algo desejável economicamente, é de extrema importância que a estrutura física das rodovias esteja em plenas condições de uso, pois essa modalidade de transporte é a única que permite o transporte chamado “ponto-a-ponto”, função esta extremamente importante.

    Redução de custos

    Vale ressaltar que, num provável contexto intermodal, será de fundamental importância a ágil e eficiente manipulação de cargas através de embalagens com características unitizadas, tais como os contêineres e afins.

    Em termos de novos paradigmas a serem observados, chama a atenção a expectativa das medidas referentes à redução dos custos de transporte, no curto prazo, que devem dizer respeito ao aumento da produtividade dos veículos diversos, visando a melhoria dos processos de carga e descarga, incrementando a segurança e gerenciando de forma eficiente as eventuais cargas de retorno.

    Lembre-se também que políticas regulatórias não devem impor custos excessivos. Leis federais, estaduais e municipais pertinentes devem tratar cuidadosamente de: avaliação de custos e benefícios de investimentos em transporte; comparações entre todas as alternativas; efeitos na competição entre modalidades de transportes; efeitos na competição internacional; evitar inconsistências / duplicações.

    A visão sistêmica dos diversos eixos viários de nosso País deve ser clara e também atualizada sistematicamente. Isto favorecerá não só a identificação de investimentos apropriados em infraestrutura (essenciais para a competitividade, desde que  voltados para o incremento da produtividade de serviços que se revelem, efetivamente, viáveis economicamente), assim como a detecção de desinvestimentos em infraestrutura que não mais venha a contribuir para o crescimento econômico (o que poderá envolver inclusive a desativação de ramais ferroviários, ou até mesmo de trechos rodoviários, dentro de um plano bem consubstanciado de manutenção e conservação do sistema viário brasileiro).

    Moral da história?

    Sim, vamos ter que continuar a fazer o uso predominante da modalidade de transporte rodoviário para a movimentação das nossas cargas agrícolas ao longo dos próximos 15, 20 anos… Por quê? Porque mudanças estruturais demandam médio e longo prazos. Porque tudo é muito demorado quando se fala, se pensa e se planeja a reorientação de nossa matriz de transportes. E mesmo com todas as ressalvas e incertezas que estão por trás de qualquer exercício de previsão, essa reorientação – mesmo que no longo prazo –parece clara e inevitável, tanto para embarcadores quanto para transportadores.

    Nesse sentido, o uso de ferramentas (de Inteligência Artificial, inclusive) de modelagem, para cenários diversos, estão se tornando imprescindíveis na referenciação das tomadas de decisões de agentes representativos de mercado.

    José Vicente Caixeta Filho ([email protected]) é ex-diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e consultor na empresa cAIxeta Inteligência Logística

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

  • Conheça a língua do bacalhau, prato típico da Europa nessa época

    Conheça a língua do bacalhau, prato típico da Europa nessa época

    Preparado com batatas, azeitonas, azeite e outros ingredientes, o bacalhau faz parte de muitas refeições familiares nessa época do ano. A espécie mais conhecida do peixe, cientificamente chamada de gadus morhua, presente ao longo do oceano atlântico, pode atingir mais de 1 metro de comprimento e pesar até 90 quilos.

    Considerado um peixe nobre, o modo de preparo clássico é a salga, tradição que remonta aos tempos medievais. O método permitia conservar a carne por mais tempo, sobretudo durante longas viagens.

    No Brasil, o consumo do bacalhau pode ser atribuído à herança portuguesa. No país europeu, o Conselho de Produtos do Mar, em 2025, estimou o consumo anual em torno de 16 quilos per capita. Já a Noruega, grande exportadora do peixe, calcula um comércio de 35 mil toneladas com os portugueses. O rei das mesas pascais é quase um imperador anual na terra de Cabral.

    A cabeça ninguém vê. Mas e a língua?

    A ausência da cabeça do bacalhau, por vezes, vira motivo de piada. Contudo, razões práticas explicam essa falta. O peixe encontrado nos mercados brasileiros já passou pelo processo de salga, retirada das vísceras e de outras partes menos consumidas no país.

    Isso não significa, porém, que essa parte seja desprezada. Na Europa, a cabeça é utilizada no preparo de caldos ou na fabricação de ração e óleos.

    A língua é outro caso. Embora a cabeça não tenha carne que justifique o amplo aproveitamento, a língua do peixe, desde aqueles tempos medievais, é consumida como petisco, geralmente empanada, com acompanhamento de molho tártaro, ou mesmo cozida.

    Feijoada de sames e línguas de bacalhau. Foto: Um Prato Português / A Portuguese Dish/Flickr

    Em restaurantes portugueses especializados, não é raro encontrar pratos como “Língua de bacalhau à mediterrânea”, “Al pil-pil” ou “com arroz das mesmas”. Constituída sobretudo de pele e músculo, ricas em colágeno, essas línguas pesam até 30 gramas e medem cerca de 8 centímetros. Há algumas semanas, no Mercado Municipal de São Paulo, um antigo comerciante chegou a lembrar que o produto já foi bastante procurado.

    Famosa pelo sabor e maciez, a língua do bacalhau é um ítem requisitado pelos chefs europeus e ilustra a variedade de preparos de um peixe com longa tradição culinária e presença  garantida nas celebrações pascais no Brasil.

    Boa Páscoa!

  • Artigo: o diesel e a opção por ferrovias

    Artigo: o diesel e a opção por ferrovias

    O Brasil ainda apresenta uma forte dependência para com o transporte rodoviário. Nessa modalidade de transporte, o principal veículo é o caminhão, movido majoritariamente a diesel.

    Essa dependência torna o sistema econômico brasileiro mais vulnerável a oscilações no preço do combustível. Discute-se a diversificação da matriz energética, com o uso de outros combustíveis e tecnologias mas, no transporte de cargas, esse movimento ainda avança lentamente, sobretudo no curto prazo.

    A dependência do Brasil de importações de diesel tem variado ao longo do tempo, mas existe um padrão relativamente claro nos últimos anos: de forma geral, entre 20% e 30% do diesel consumido no país é importado.

    E por que o Brasil importa diesel? Mesmo sendo um importante produtor de petróleo (via Petrobras), o país ainda precisa importar por alguns motivos estruturais. Incluindo o fato de as refinarias brasileiras não produzirem diesel suficiente para atender a toda a demanda do mercado interno. O petróleo brasileiro (pré-sal) nem sempre é ideal para maximizar a produção de diesel sem ajustes/refino mais complexo (o que poderia significar custos mais expressivos, se comparados com as despesas de se importar de países como os Estados Unidos e a própria Rússia).

    Investimentos

    Para o médio e longo prazos, tem-se reforçado a necessidade de investimentos em outras modalidades de transporte, como ferrovias, hidrovias e cabotagem. São investimentos estruturais, de maior prazo, mas que podem contribuir para uma logística mais eficiente e menos dependente do diesel.

    Particularmente com relação às ferrovias brasileiras, a maioria delas também se utiliza do diesel, tendo em vista o baixo nível de eletrificação (menos de 2% da malha). Mesmo sendo diesel, muitas locomotivas são diesel-elétricas: o motor a combustão gera eletricidade que alimenta motores elétricos nas rodas.

    De qualquer forma, seria de se esperar uma maior economia com o consumo de diesel a partir do crescimento do uso de ferrovias? A partir da contabilização da chamada eficiência energética (tonelada-km por litro), além da economia a partir do uso da ferrovia, tem-se a confirmação daquela velha premissa que “um comboio ferroviário pode vir a substituir dezenas de caminhões”. A malha ferroviária brasileira é ainda incipiente em termos de capilaridade. Mas mesmo se houvesse algo em torno de 5% a 10% de incremento no uso dessa modalidade, já poderiam ser observados impactos relevantes no consumo nacional de diesel.

    A ferrovia não só seria uma opção mais eficiente, mas também estrategicamente importante para se reduzir importação de diesel.

    Diversificação

    Para o mundo em geral, há previsões de expansão contínua da eletrificação e até uso de hidrogênio e baterias. Para o Brasil, têm sido analisados cenários futuros com predomínio do diesel, mas com discussões sobre eletrificação em corredores estratégicos (especialmente para exportação).

    Implicações logísticas  bem significativas  dão conta de que a dependência de importação continuará a impactar o custo do frete (rodoviário e ferroviário diesel). E a afetar as taxas de inflação (combustível influencia alimentos e transporte), o que certamente atestaria a vulnerabilidade do País a choques internacionais.

    José Vicente Caixeta Filho ([email protected]) é ex-diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e consultor na empresa cAIxeta Inteligência Logística
  • Dia Mundial da Agricultura: um dia de reflexão e trabalho

    Dia Mundial da Agricultura: um dia de reflexão e trabalho

    No Dia Mundial da Agricultura, mais do que celebrar conquistas, é preciso fazer uma reflexão honesta sobre os caminhos que estamos trilhando — e, principalmente, sobre os obstáculos que ainda insistem em limitar o pleno potencial do campo brasileiro. Do ponto de vista de quem está na lida diária, produzindo, investindo e assumindo riscos, o cenário é claro: avançamos muito dentro da porteira, mas seguimos travados fora dela.

    A agricultura brasileira é, hoje, uma das mais tecnológicas do mundo. Uma simples semente de soja carrega anos de pesquisa científica, inovação genética e desenvolvimento tecnológico. Mesmo plantas consideradas invasoras, como o joio, já são objeto de estudos avançados. O campo deixou de ser apenas força física e passou a ser inteligência aplicada, gestão de dados e precisão. Ainda assim, o setor não recebe a devida atenção quando o assunto é política pública voltada à alta tecnologia. Falta reconhecimento prático de que o agro moderno exige instrumentos compatíveis com seu nível de complexidade.

    Essa desconexão se reflete, por exemplo, na ausência de um Plano Safra de longo prazo. O modelo atual, um remendo renovado ano a ano, não oferece previsibilidade para o produtor rural, que precisa planejar investimentos de médio e longo prazo. Sem segurança, o risco aumenta — e o custo também. Soma-se a isso a necessidade urgente de taxas de juros mais condizentes com a realidade da atividade agropecuária. Produzir alimentos não pode ser tratado como uma operação financeira de alto risco; a segurança alimentar é uma atividade estratégica para o país e para o mundo.

    Outro gargalo histórico, e ainda não resolvido, é a infraestrutura. A dependência quase exclusiva do transporte rodoviário encarece o escoamento da produção e reduz a competitividade brasileira no mercado global. Investir em ferrovias não é apenas uma alternativa — é uma necessidade. Da mesma forma, a falta de estrutura adequada de armazenamento obriga o produtor a comercializar sua produção em momentos desfavoráveis, pressionando ainda mais suas margens.

    E se os desafios estruturais já não fossem suficientes, o produtor rural enfrenta, cada vez mais, os impactos das mudanças climáticas. Secas prolongadas, chuvas intensas e eventos extremos se tornaram parte da rotina no campo. No entanto, o Brasil ainda carece de um sistema de seguro rural robusto, acessível e eficiente. Na prática, o risco climático continua sendo quase integralmente absorvido por quem produz, o que compromete a sustentabilidade da atividade. Ao contrário dos Estados Unidos, onde quase 90% da produção é coberta, no Brasil esse índice chega, quando muito, próximo a 10%.

    O resultado é um cenário preocupante: mesmo com ganhos expressivos de produtividade e adoção de tecnologia de ponta, garantidos por uma resiliência sem tamanho do produtor, ele vê sua margem de lucratividade encolher — e, em muitos casos, se tornar negativa. Isso evidencia que o problema não está na capacidade de produção, mas no ambiente em que ela está inserida. Falta uma política estruturada, contínua e integrada que dê suporte real ao setor.

    Neste Dia da Agricultura, o que os mais de 15 milhões de produtores rurais pedem não é privilégio, mas coerência. É o reconhecimento de que o agro é parte essencial da economia brasileira e precisa ser tratado como tal. É necessário construir um verdadeiro Projeto Brasil para o campo, com planejamento de longo prazo, crédito adequado, seguro rural eficiente e investimentos consistentes em infraestrutura e inovação.

    O produtor já faz a sua parte — e faz bem, garantindo a sustentabilidade e preservação do meio ambiente, cuidadndo da água e da terra como nenhum outro – afinal este é seu maior patrimônio. O Brasil, agora, precisa fazer a sua. Celebrar a agricultura é importante, mas garantir condições para que ela continue sendo um motor de desenvolvimento é fundamental. Sem isso, o risco é transformar uma potência produtiva em um gigante limitado pelas próprias omissões. Neste dia simbólico, fica o recado de quem vive da terra: o futuro da agricultura depende das decisões que tomarmos agora.

    Tirso Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp)
  • Do passado ao futuro: o avanço das mulheres no agronegócio brasileiro

    Do passado ao futuro: o avanço das mulheres no agronegócio brasileiro

    Assim as Etimologias de Santo Isidoro de Sevilha descreviam a origem da palavra mulher: “A mulher, mulier, deriva a sua denominação de mollities, moleza, como se disséssemos mollier“. Essa definição medieval não é gratuita: ajudou a consolidar, por séculos, uma percepção misógina acerca do feminino.

    É o mesmo autor que, por outro lado, explorava a definição da palavra latina agricultura, originada em “ager”: o lugar do trabalho e do agir. As palavras nunca são vazias: elas escondem sentidos, intenções e visões de mundo.

    Entretanto, nem sempre a realidade e a palavra concordam. Inúmeros exemplos cotidianos, ao gosto do leitor, desmentem sem dificuldade a definição das Etimologias.

    A presença feminina no agronegócio

    O último Censo Agropecuário brasileiro, no distante ano de 2017 (o próximo deve ocorrer a partir de 2027) apontou alguns dados em relação ao número de estabelecimentos agropecuários por sexo do produtor: 19% eram comandados por mulheres. Quando se observa a distribuição por idade, os gráficos indicam a faixa etária feminina predominante: as produtoras tinham entre 45 e 54 anos.

    Mais recentemente, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), no seu Boletim Mercado de Trabalho do agronegócio brasileiro, comparativo entre o segundo trimestre de 2024-2025, apontou dados e perspectivas.

    O perfil da mão de obra no agronegócio mostra o crescimento da presença feminina de 1,9% (203.093) em comparação à masculina, 0,2% (41.554). O Boletim conclui que o crescimento da presença feminina no agronegócio é mais acelerado em comparação aos homens.

    Mas e o futuro?

    O futuro não apenas do trabalho em geral, mas também do agronegócio, está no desenvolvimento tecnológico. Esse quase lugar-comum implica que a mecanização e, em particular, a presença da IA fazem com que o mercado de trabalho esteja profundamente ligado à qualificação.

    O Boletim do CEPEA observa as consequências desse panorama. De um lado, a migração da mão de obra para a agroindústria; de outro, o impulsionamento do profissionalismo e da formação tecnológica. Enfim, as próprias mudanças sociais colaboram com a perspectiva. O êxodo, especialmente dos jovens, para regiões urbanas altera a configuração do trabalho agrícola, sobretudo entre pequenos produtores.

    Nesse cenário, a resposta à pergunta sobre o futuro do agronegócio passa pela ação de gestores e operadores cada vez mais qualificados, em um mundo que se afirma tão incerto quanto duramente competitivo. Os últimos dados nacionais indicam que a presença feminina deve ser parte essencial e transformadora desse processo.

  • Artigo: O papel do consultor na rastreabilidade da cadeia de carne

    Artigo: O papel do consultor na rastreabilidade da cadeia de carne

    A rastreabilidade na cadeia frigorífica se tornou um pilar essencial não apenas para a segurança alimentar e a credibilidade do setor, mas também para a sustentabilidade e a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança). Em um mercado cada vez mais regulado, globalizado e atento à origem dos alimentos, garantir o controle do campo ao consumidor final é um desafio estratégico para a competitividade do setor de carnes no Brasil. Nesse cenário, o papel do consultor especializado se torna fundamental.

    A cadeia da carne envolve múltiplos elos, desde a produção animal, passando pelo transporte, abate, processamento, armazenamento e distribuição. Cada etapa exige controle rigoroso de dados, cumprimento de normas sanitárias, ambientais e trabalhistas, além de padrões de qualidade cada vez mais exigentes pelos mercados interno e internacional. A rastreabilidade, portanto, vai muito além da adoção de sistemas tecnológicos. Ela depende de processos bem estruturados, pessoas capacitadas e de uma visão sistêmica orientada à sustentabilidade.

    Sob a ótica ambiental, a rastreabilidade é uma ferramenta estratégica no combate ao desmatamento ilegal, um dos principais desafios do setor pecuário. Por meio do monitoramento da origem dos animais e da qualificação dos fornecedores, é possível cruzar dados produtivos, geográficos e ambientais, garantindo que a produção não esteja associada a áreas irregulares.

    O consultor atua de forma decisiva ao mapear riscos, orientar adequações e assegurar conformidade com a legislação ambiental e com compromissos de desmatamento zero, reduzindo riscos reputacionais e comerciais.

    Monitoramento de emissões

    Outro aspecto cada vez mais relevante é o monitoramento das emissões de carbono ao longo da cadeia produtiva. Com dados confiáveis e bem estruturados, frigoríficos e indústrias conseguem identificar etapas mais intensivas em emissões, apoiar inventários de gases de efeito estufa e desenvolver estratégias de mitigação. Nesse contexto, o consultor contribui para transformar informações operacionais em inteligência estratégica, apoiando decisões alinhadas às metas climáticas e às exigências de investidores e mercados internacionais.

    A rastreabilidade também favorece o uso racional de recursos naturais, como água, energia e insumos produtivos. Ao acompanhar cada etapa do processo, torna-se possível identificar desperdícios, padronizar operações e adotar práticas mais eficientes. A atuação consultiva auxilia na implementação de controles e tecnologias que promovem ganhos ambientais e econômicos, fortalecendo a eficiência operacional da cadeia.

    No eixo social, o tema do bem-estar animal ganha cada vez mais relevância no debate público e no consumo consciente. A rastreabilidade assegura registros sobre manejo, transporte e abate, garantindo conformidade com protocolos técnicos e normas nacionais e internacionais. O consultor especializado orienta a adoção de boas práticas, o treinamento das equipes e a preparação para auditorias. Assim, contribuindo para elevar os padrões do setor e agregar valor ao produto final.

    Agente integrador

    Nesse cenário complexo, o consultor atua como um agente integrador. Ele é responsável por mapear processos, identificar riscos, corrigir falhas e orientar a implementação de práticas que garantam uma rastreabilidade efetiva. Seu trabalho começa no diagnóstico da operação, avaliando desde a origem da matéria-prima até os registros finais de expedição. Assegurando que as informações sejam confiáveis, auditáveis e alinhadas às exigências legais, ambientais e de mercado.

    Além disso, a crescente demanda por tecnologias aplicadas à cadeia da carne, como sistemas de gestão integrados, automação de registros, códigos de identificação e soluções digitais de monitoramento em tempo real, reforçam o papel estratégico do consultor. Mais do que indicar ferramentas, ele garante que essas soluções sejam corretamente implementadas, integradas aos processos existentes e compreendidas pelas equipes envolvidas.

    Por fim, a rastreabilidade se consolida como um pilar de transparência para investidores, clientes e consumidores. Dados claros e auditáveis fortalecem a governança corporativa, ampliam o acesso a mercados e permitem uma comunicação mais consistente sobre compromissos ESG. O consultor especializado atua como elo entre a indústria, os órgãos reguladores e o mercado. Ajudando empresas a se posicionarem de forma responsável, competitiva e preparada para o futuro.

    Quando bem estruturada, a rastreabilidade fortalece a reputação da marca, amplia oportunidades comerciais e contribui para uma cadeia da carne mais segura, sustentável, transparente e eficiente para todos os envolvidos.

    Paulo Duque, é consultor na área frigorífica e CEO do Rei da Linguiça

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

  • Artigo: CVM avalia liberar crowdfunding para produtores rurais,

    Artigo: CVM avalia liberar crowdfunding para produtores rurais,

    O Brasil é uma potência mundial na produção de alimentos, mas ainda enfrenta um gargalo histórico: o acesso a capital no campo. Embora o agronegócio represente mais de 25% do PIB nacional, o crédito rural continua altamente concentrado em poucos agentes e dependente de linhas bancárias tradicionais.

    Esse cenário pode estar prestes a mudar. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu a Consulta Pública nº 05/2025, que propõe modernizar a Resolução CVM nº 88/2022 — norma que regula o crowdfunding de investimento — e autorizar produtores rurais a captar recursos diretamente com investidores, por meio de plataformas reguladas. A medida tem potencial de democratizar o crédito agrícola, aproximar o mercado de capitais da economia real e reduzir a dependência histórica de bancos, criando uma porta de entrada de financiamento para o pequeno e médio produtor rural.

    Atualmente, apenas pequenas empresas com faturamento anual de até R$ 40 milhões podem recorrer ao modelo de captação simplificada, conforme a Resolução CVM nº 88/22. A nova regra, se aprovada, permitiria que produtores levantassem até R$ 2,5 milhões por safra em plataformas reguladas, com total transparência e supervisão da autarquia.

    Esse movimento ocorre em um momento de transformação estrutural no agro. Entre março de 2023 e março de 2025, o patrimônio líquido dos Fundos de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagro) cresceu 204%, saltando de R$ 14,7 bilhões para R$ 44,7 bilhões, enquanto os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) avançaram 42%, de R$ 110 bilhões para R$ 156 bilhões, segundo dados da CVM. O mercado financeiro já entendeu que o agro é estratégico — e agora é o momento de o produtor ocupar o mesmo espaço.

    Um novo modelo de financiamento para o agro

    Se implementada, a proposta da CVM representará o início de um novo ciclo de financiamento rural. O produtor passará a ser visto como uma “empresa”, capaz de acessar o mercado de capitais, emitir títulos e se comunicar com investidores de forma direta.

    Isso exigirá governança, transparência e gestão profissionalizada. O produtor precisará manter a separação entre contas pessoais e empresariais, estruturar relatórios financeiros e adotar boas práticas contábeis. Mas esse processo de formalização é positivo, ajuda a construir reputação, histórico de crédito e acesso a capital em condições mais competitivas.

    Outro ponto essencial é a segurança jurídica dos recebíveis rurais. CPRs, contratos de barter e fluxos futuros de produção ainda enfrentam desafios de registro e execução. Para que o modelo funcione, será preciso garantir que as plataformas, registradoras e cartórios atuem de forma integrada, oferecendo clareza e proteção tanto ao produtor quanto ao investidor.

    Desafios e oportunidades

    O sucesso dessa nova etapa dependerá da maturidade de todo o ecossistema. As plataformas de investimento coletivo terão papel decisivo ao aprimorar seus processos de análise de crédito, gestão de risco agrícola e due diligence, incorporando variáveis como produtividade, clima e histórico de safra.

    Também será necessário investir em educação financeira e capacitação dos produtores, para que compreendam conceitos de compliance, governança e relacionamento com investidores. Mais do que captar recursos, trata-se de formar uma nova geração de empreendedores rurais, protagonistas do próprio crescimento.

    O campo no centro da inovação

    A proposta da CVM vem em um momento em que o agronegócio brasileiro busca se conectar a temas como inovação, sustentabilidade e transição verde. Modelos como o crowdfunding podem ser ferramentas poderosas para financiar tecnologias regenerativas, bioinsumos, agricultura sintrópica, gestão de carbono e monitoramento climático, áreas em que startups e produtores de ponta já estão atuando. O campo começa a ocupar o espaço que merece no mercado de capitais. Levar o investidor urbano para o agro é um passo decisivo para financiar a transição sustentável e fortalecer o pequeno e médio produtor.

    Mais do que uma atualização regulatória, trata-se de um projeto de inclusão financeira, tecnológica e ambiental — um agro conectado ao mercado de capitais e ao futuro.

    Henrique Galvani, CEO da Arara Seed

    Henrique Galvani é sócio-fundador e CEO da Arara Seed, primeira plataforma de equity crowdfunding voltada exclusivamente para startups do agronegócio. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade Paulista, Galvani atua há 10 anos no setor, com passagens pelo Grupo BLB e pela BLB Ventures. Em 2024, foi reconhecido pela Forbes como um dos talentos do agro na lista Under 30.

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