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  • Tipo de lavoura define quais mamíferos sobrevivem na Mata Atlântica

    Tipo de lavoura define quais mamíferos sobrevivem na Mata Atlântica

    Pesquisadores da Unesp, em colaboração com universidades da Espanha e do Reino Unido, identificaram que plantações de eucalipto abrigam maior diversidade de pequenos mamíferos do que culturas de ciclo curto, como soja e milho. O estudo foi publicado na revista Agriculture, Ecosystems & Environment. E aponta que a estabilidade da paisagem ao longo do tempo é o fator decisivo para a presença desses animais em áreas agrícolas da Mata Atlântica.

    Cuíca de três listras
    Cuíca de três listras. Foto: Viviane Brito Dias

    A pesquisa ocorreu no Corredor Cantareira-Mantiqueira, região de grande importância ecológica que conecta remanescentes da Mata Atlântica no nordeste do estado de São Paulo e ao sul de Minas Gerais. Os pesquisadores instalaram armadilhas em 63 locais distintos. Foram 35 em áreas florestais, 16 em pastagens, 6 em áreas agrícolas e 6 em eucaliptais. E capturaram 21 espécies de marsupiais e roedores de pequeno porte, entre cuícas, ratos-do-mato e gambás-de-orelha-preta.

    Satélites revelam o ritmo oculto das lavouras

    Para entender como cada tipo de uso do solo afeta a fauna, a equipe combinou os dados de captura com mapas de cobertura do solo e com índices de vegetação obtidos a partir de imagens de satélite. Essa combinação trouxe uma dimensão até então pouco explorada nos estudos de distribuição de fauna no bioma: a variação temporal das culturas ao longo do ano.

    Os índices de vegetação traduzem em dados quantitativos a luz absorvida ou refletida pelas plantas, revelando informações como saúde, produtividade e composição das lavouras. “Os índices de vegetação conseguem mostrar, por exemplo, o quão produtiva está uma vegetação, se elas são formadas por espécies parecidas ou diferentes, ou como esses espaços variaram ao longo do ano”, explica Viviane Brito Dias, bióloga e pesquisadora principal do artigo, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp no câmpus de São José do Rio Preto.

    Dias destaca que os mapas de uso e ocupação do solo, embora fundamentais, não capturam aspectos críticos para a biodiversidade, como a frequência com que a paisagem muda entre um ciclo de colheita e outro, ou a diferença qualitativa entre um pasto bem conservado e uma pastagem degradada. A análise temporal preencheu exatamente essa lacuna.

    Instabilidade afasta, eucalipto atrai

    Os resultados mostram uma relação direta entre a estabilidade da paisagem e a presença de pequenos mamíferos. “As áreas de mosaico, marcadas pela mudança constante do uso do solo, influenciaram de forma negativa, reduzindo a presença de pequenas espécies”, afirma Dias. O efeito contrário apareceu nos eucaliptais. Com ciclos que variam entre seis e nove anos, essas plantações oferecem estabilidade suficiente para atrair e manter uma diversidade maior de espécies.

    Brucepatersonius nebulosus, espécie, ainda pouco estudada e com escassos registros de captura, foi observado em áreas de silvicultura
    Brucepatersonius nebulosus, um dos indivíduos capturados no trabalho. A espécie, ainda pouco estudada e com escassos registros de captura, foi observado em áreas de silvicultura. Foto: Viviane Brito Dias

    A surpresa veio com a qualidade das espécies encontradas nessas áreas. “Nas áreas de eucalipto encontramos inclusive espécies endêmicas da Mata Atlântica, com poucos registros na literatura. Cuícas de solo terrestre, vulneráveis, que nós esperávamos encontrar apenas em áreas florestais. Isso nos surpreendeu”, destaca a pesquisadora.

    Os pequenos jardineiros da floresta

    Com peso médio de 100 gramas e máximo de dois quilos, esses animais vivem entre o solo e o dossel das árvores. Dependendo diretamente dos recursos imediatos ao seu redor. Roedores terrestres e escansoriais, que se deslocam tanto no chão quanto nos galhos,dependem de uma camada intermediária de vegetação e da serrapilheira para se alimentar e se camuflar.

    Qualquer alteração brusca da paisagem os afeta de imediato. “Se a paisagem muda muito, isso afeta imediatamente essas espécies”, ressalta Dias. Ao contrário de aves ou grandes mamíferos, esses roedores não têm capacidade de voar ou percorrer longas distâncias em busca de novos habitats.

    O papel ecológico desses animais vai além de ser presa para carnívoros. Ao se alimentar de frutos e sementes, eles funcionam como agentes ativos da regeneração florestal, regulando quais plantas germinam e evitando que certas espécies dominem o ambiente. Portanto, um serviço ecossistêmico essencial para a integridade da Mata Atlântica.

    Produção e conservação no mesmo território

    A pesquisa integra o projeto de longa duração Biodiversidade e serviços associados: PELD Corredor Cantareira-Mantiqueira, financiado pela Fapesp, que investiga como as paisagens florestais, agrícolas e urbanas influenciam a distribuição de fauna e flora e os processos ecossistêmicos da região.

    Uma cuica em uma arvore
    cuíca (Gracilinanus microtarsus), é um marsupial florestal arborícola de pequeno porte capturado durante a pesquisa. Foto: Viviane Brito Dias

    Para Dias, os resultados abrem caminhos práticos para o manejo agrícola com foco na conservação. A pesquisadora ressalta que, embora o eucalipto ofereça condições favoráveis agora, ainda não se sabe o que ocorre com a fauna depois do corte, ao final de um ciclo de nove anos. Mesmo assim, o trabalho já indica que é possível intercalar culturas mais estáveis com outras perenes para ampliar o número de espécies que compartilham o espaço com a produção agrícola.

    Assim, no estado de São Paulo, onde pastagens degradadas convertem-se rapidamente em áreas agrícolas, compreender esses impactos torna-se urgente. “Esse trabalho busca colaborar para que a gente consiga encontrar formas de equilibrar a necessidade de produção humana com a persistência das espécies. Que também nos prestam serviços ecossistêmicos”, conclui Dias.

  • Pesquisadores descobrem duas novas espécies de escorpiões na Amazônia

    Pesquisadores descobrem duas novas espécies de escorpiões na Amazônia

    Uma expedição científica perto da Cachoeira do Evandro, em Mucajaí (RR), revelou duas espécies de escorpião que a ciência ainda não conhecia. Pesquisadores brasileiros batizaram os animais de Brotheas cernii e Cayooca puchus após coletá-los em uma área de floresta a cerca de 60 quilômetros de Boa Vista, point turístico frequentado por banhistas que nunca haviam reparado nos pequenos moradores das rochas ao redor.

    comparativo entre as novas especies de escorpião
    Foto: Equipe do AT-Projeto Biota-FAPESP

    A professora Manuela Berto Pucca, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, em Araraquara, liderou o grupo que fez a descoberta. Durante as coletas, a equipe notou exemplares com características fora do padrão: coloração diferente, variações no tamanho do corpo e granulação distinta nas pinças. Essas pistas levantaram a suspeita de que os pesquisadores tinham encontrado espécies ainda não descritas. E as suspeitas viraram trabalho científico publicado na revista Diversity.

    A descoberta amplia o conhecimento sobre a biodiversidade amazônica e também abre uma porta concreta: o veneno desses escorpiões pode conter moléculas com potencial para a indústria farmacêutica. “Os achados demonstram o quanto a floresta Amazônica, especialmente em estados como Roraima, ainda é pouco explorada cientificamente. Se encontramos duas espécies inéditas em uma única região que investigamos, quantas outras ainda existem na região e não conhecemos?”, questiona Pucca.

    O trabalho marca a estreia do projeto AT-Biota — Desvendando a Riqueza Oculta de Aracnídeos e Triatomíneos em Regiões Inexploradas dos Biomas Brasileiros, coordenado pela própria pesquisadora e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

    Uma região pouco explorada e de grande potencial

    As duas espécies vivem em inselbergs, formações rochosas isoladas que se erguem em meio à floresta e funcionam como verdadeiras ilhas ecológicas. O isolamento prolongado dessas áreas, que se mantém por milhares de anos, favorece o surgimento de espécies exclusivas, adaptadas a condições ambientais bem específicas. O que explica por que ninguém havia encontrado esses escorpiões antes.

    A descoberta de Cayooca puchus chama ainda mais atenção porque o gênero Cayooca reúne pouquíssimos representantes conhecidos pela ciência, o que torna o achado raro mesmo para os padrões da taxonomia.

    escorpião em foto com efeito
    A equipe utilizou lanternas ultravioleta (UV) durante as expedições noturnas, facilitando a localização das novas espécies. Foto: Equipe do AT-Projeto Biota-FAPESP

    As novas espécies também impõem desafios para quem quer estudá-las de perto. Segundo Pucca, os animais são extremamente sensíveis a mudanças ambientais. Mesmo quando os pesquisadores tentam recriar em laboratório a temperatura e a umidade da floresta, alguns exemplares não resistem por muito tempo em cativeiro. “São animais altamente especializados e adaptados a um ambiente muito específico. Mesmo quando tentamos reproduzir essas condições em laboratório, nem sempre conseguimos garantir sua sobrevivência”, explica a docente.

    Anos de expedições até a confirmação

    Confirmar que os exemplares pertenciam a espécies novas exigiu um trabalho de quase uma década. As primeiras expedições à região aconteceram em 2016, quando Pucca ainda integrava o quadro da Universidade Federal de Roraima (UFRR). De lá para cá, as equipes retornaram ao local diversas vezes, em diferentes épocas do ano, para coletar machos, fêmeas, jovens e adultos. Um esforço necessário para reunir evidências suficientes e comparar os animais com todas as espécies já catalogadas.

    Detalhes da estrutura final da cauda, onde fica o ferrão do escorpião Brotheas cernii. Foto: Equipe do Projeto AT-Biota-FAPESP

    O professor André Lira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFPE), conduziu as análises detalhadas que sustentaram a descrição das novas espécies. Outros dois especialistas, Antônio D. Brescovit, do Instituto Butantan, e Edmundo González-Santillán, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), validaram os resultados antes da publicação. “A descrição de novos exemplares exige um conjunto robusto de evidências e a validação por diferentes pesquisadores. É um trabalho minucioso que envolve análises morfológicas detalhadas”, afirma Pucca.

    Os nomes contam histórias pessoais

    A escolha dos nomes científicos guarda também um lado afetivo. Pucca escolheu batizar Brotheas cernii em homenagem ao marido, Felipe Augusto Cerni, pesquisador e professor da UFRR, e à filha do casal, que carrega o mesmo sobrenome. Cerni participou diretamente das expedições e colaborou com a pesquisa.

    nova especie de escorpião no mato
    Além da classificação biológica, a equipe está investigando as moléculas dos venenos dos escorpiões para potencial desenvolvimento de novos medicamentos. Foto: Equipe do AT-Projeto Biota-FAPESP

    Já o nome Cayooca puchus remete à expressão espanhola “pucheros”, usada para descrever uma expressão facial de espanto ou surpresa. A referência brinca com a reação do pesquisador André Lira, primeiro autor do artigo, ao perceber que tinha em mãos uma espécie nunca antes descrita.

    Da descoberta à busca por novos medicamentos

    A descrição taxonômica é só o primeiro capítulo de uma pesquisa mais ampla. Especialista em bioprospecção de moléculas presentes em venenos, Pucca já comanda um novo estudo voltado a investigar os compostos produzidos pelas duas espécies recém-descobertas. “Já estamos analisando os venenos desses escorpiões. Nossa expectativa é que, em breve, possamos publicar novos trabalhos a respeito”, adianta.

    Vista anatômica da estrutura articulada da região bucal do escorpião Cayooca puchus
    Vista anatômica da estrutura articulada da região bucal do escorpião Cayooca puchus, uma das novas espécies descritas. Crédito: Equipe do Projeto AT-Biota-FAPESP

    O interesse científico tem explicação biológica: como predadores de insetos, os escorpiões desenvolveram ao longo da evolução venenos com moléculas altamente especializadas. Esse arsenal químico desperta o interesse de pesquisadores que enxergam ali potencial para a criação de inseticidas biológicos e novos fármacos. “Esses animais vivem em ambientes extremamente desafiadores e desenvolveram, ao longo da evolução, moléculas ativas muito eficientes. Elas podem inspirar desde novos medicamentos até inseticidas biológicos mais seguros”, destaca a pesquisadora.

    Estudo regional

    Os exemplares vivos coletados nas expedições seguiram para a UFRR, em Boa Vista, onde Pucca já lecionou e mantém parcerias acadêmicas, e não para o laboratório da Unesp, em Araraquara. “Não podemos simplesmente trazer esses escorpiões vivos para o laboratório da Unesp. Além das exigências legais e ambientais, são espécies muito adaptadas às condições da floresta amazônica e bastante sensíveis às mudanças de habitat. Por isso, parte dos estudos precisa ser realizada na própria região onde eles ocorrem”, diz a pesquisadora.

    A equipe já planeja novas expedições a Roraima para ampliar o levantamento da fauna local. Além dos escorpiões, os pesquisadores pretendem investigar aranhas e barbeiros,  grupos de grande relevância ecológica e biomédica. “As maiores descobertas científicas muitas vezes surgem quando estamos explorando o desconhecido. Por isso, conhecer e preservar nossa biodiversidade é fundamental não apenas para a ciência, mas também para o desenvolvimento de soluções que podem beneficiar toda a sociedade”, conclui Pucca.

    Matéria de

    Jornal da Unesp

  • Bactérias nativas da macadâmia controlam doenças e abrem caminho para bioinsumos no Brasil

    Bactérias nativas da macadâmia controlam doenças e abrem caminho para bioinsumos no Brasil

    Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da empresa QueenNut identificaram duas bactérias com alto potencial para o controle biológico de doenças da macadâmia: Serratia ureilytica e Bacillus subtilis. Os resultados, obtidos em estudos conduzidos no âmbito de doutorado e em experimentos em casa de vegetação, indicam que esses microrganismos, presentes naturalmente na própria cultura, podem reduzir significativamente os danos causados pela queima dos racemos e pela podridão do tronco, duas das doenças mais prejudiciais à produção brasileira de macadâmia.

    Planta da macadãmia. Foto: Jeanne Scardini Marinho-Prado/Embrapa

    A pesquisa avança agora para o desenvolvimento de formulações de bioinsumos à base desses microrganismos, com potencial de uso em programas de manejo integrado.

    Controle biológico contra a queima dos racemos

    Um dos estudos, parte da tese de doutorado de Marcos Abreu (Unesp), sob orientação do pesquisador Bernardo Halfeld (Embrapa Meio Ambiente), focou na queima dos racemos, doença causada pelo fungo Cladosporium xanthochromaticum que afeta diretamente as estruturas florais da macadâmia e compromete a formação dos frutos.

    A equipe isolou 104 cepas bacterianas a partir das flores da planta e avaliou a capacidade de cada uma de inibir o desenvolvimento do fungo. Entre os isolados mais promissores, Serratia ureilytica e Bacillus subtilis se destacaram pela capacidade de reduzir tanto a incidência da doença nas flores quanto a esporulação do patógeno.

    Controlar a produção de esporos é estratégico: menos esporos significa menor disseminação da doença dentro do pomar e menos risco de novas infecções. Os pesquisadores observaram que o efeito protetor ocorre por múltiplos mecanismos simultâneos, produção de compostos antifúngicos voláteis e não voláteis, além de competição direta por nutrientes com o fungo.

    O fato de as bactérias serem nativas da própria cultura é apontado como uma vantagem importante. Já adaptadas aos órgãos da macadâmia, elas tendem a sobreviver e atuar melhor em condições reais de campo do que agentes externos.

    “Trata-se de uma abordagem bastante promissora porque utiliza microrganismos naturalmente presentes na planta como ferramenta de proteção da própria cultura”, destaca Abreu.

    Os testes indicaram ainda compatibilidade da maioria das bactérias com defensivos agrícolas usados na cultura, o que facilita a integração em programas de manejo. A única restrição encontrada foi para o cobre: Serratia ureilytica apresentou sensibilidade ao produto.

    Bacillus reduz severidade da podridão do tronco

    O segundo estudo concentrou-se na podridão do tronco, doença causada pelo fungo Lasiodiplodia pseudotheobromae. Considerada uma das mais graves que afetam a macadâmia, ela provoca lesões em tecidos lenhosos, morte de ramos e, nos casos mais severos, a perda completa da planta, incluindo mudas jovens com caule de pequeno diâmetro.

    Sintomas de podridão de tronco em plantas inoculadas com Lasiodiplodia pseudotheobromae. Foto: Bernardo Halfeld-Vieira

    Os experimentos utilizaram mudas enxertadas com diferentes combinações de copa e porta-enxerto, com o objetivo de entender como as bactérias interagem com materiais vegetais de distintos níveis de resistência genética. Espécies como Bacillus velezensis e Bacillus subtilis reduziram significativamente a severidade das lesões por meio da produção de metabólitos antifúngicos.

    Um dado relevante foi que a combinação entre cultivar e porta-enxerto influencia diretamente os níveis de suscetibilidade à doença e a eficácia do controle biológico. Algumas combinações apresentaram menor severidade da podridão do tronco. O que aponta caminhos tanto para a seleção de materiais genéticos mais resistentes quanto para estratégias de biocontrole mais efetivas.

    “Os resultados reforçam a importância de estratégias integradas de manejo, que associem controle biológico, escolha adequada de materiais genéticos e boas práticas agronômicas”, afirma Luana Melo, pesquisadora da Unesp envolvida no estudo.

    Outro diferencial deste trabalho é que o potencial de controle biológico se confirmou em plantas,não apenas em laboratório. Ensaios em casa de vegetação com mudas enxertadas aproximam os resultados das condições reais de produção.

    O marco: controle em diferentes órgãos da planta

    A análise conjunta dos dois estudos representa um avanço inédito para a macadamicultura brasileira. Pela primeira vez, pesquisadores demonstraram de forma consistente o potencial do controle biológico contra doenças que afetam tanto as estruturas florais quanto o caule da planta.

    Racemo de macadâmia com Cladosporium xanthochromaticum. Foto: Bernardo Halfeld-Vieira/Embrapa

    “Os resultados mostram que microrganismos naturalmente associados à cultura são capazes de reduzir os danos causados por doenças importantes. E contribuir para um sistema de produção mais profícuo, resiliente e sustentável”, diz Halfeld.

    Os estudos têm origem num levantamento iniciado em 2018 e divulgado pela Embrapa em 2024, que mapeou pela primeira vez as principais doenças presentes em plantios comerciais de macadâmia na principal região produtora do país. Esse diagnóstico abriu caminho para a busca de soluções de manejo mais sustentáveis, alinhadas à crescente exigência de mercados consumidores por produtos com menor uso de agroquímicos.

    Próximos passos: formulação e viabilidade econômica

    Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores reconhecem que há etapas importantes antes da adoção comercial em larga escala. O desenvolvimento de formulações estáveis com os bioinsumos e a avaliação da viabilidade econômica da solução estão entre os desafios a vencer.

    “A tendência é que o manejo de doenças evolua para abordagens integradas, combinando biologia, genética e práticas agronômicas. O controle biológico tem potencial para ocupar papel central nesse processo”, conclui Halfeld.

    Para a cadeia produtiva da macadâmia, que vem ganhando espaço no mercado brasileiro, os avanços sinalizam possibilidades concretas de aumentar produtividade, reduzir impactos ambientais e fortalecer a competitividade da cultura no país.

  • Tecnologia brasileira pode revolucionar uso de fertilizantes

    Tecnologia brasileira pode revolucionar uso de fertilizantes

    Pesquisadores da Embrapa, da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um revestimento para fertilizantes capaz de liberar ureia de forma gradual e sincronizada com a necessidade das plantas. A solução combina um polímero derivado de óleo de mamona com nanoargila mineral e, nos testes com capim-piatã, dobrou a taxa de absorção de nitrogênio em comparação à ureia convencional.

    Revestimento à base de polímero derivado de óleo de mamona e argila mineral que é capaz de liberar de forma controlada a ureia. Foto: Pedro Octávio/Embrapa

    Nos experimentos de liberação em água, a ureia sem revestimento perdeu mais de 85% do nitrogênio em apenas quatro horas. Com o revestimento de poliuretano derivado de óleo de mamona, esse ritmo caiu. Mas o fertilizante ainda liberava cerca de 70% do nutriente em nove dias.

    A mudança mais expressiva veio com a adição de apenas 5% de nanoargila montmorilonita à matriz polimérica: a liberação caiu para 22% no mesmo período. Uma redução de 78 pontos percentuais.

    “A nanoargila cria uma espécie de barreira inteligente dentro do revestimento”, explica Caue Ribeiro, pesquisador da Embrapa e coordenador do Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA). “Além de dificultar fisicamente a passagem da água, ela interage quimicamente com o nitrogênio liberado. Assim, retém o nutriente por mais tempo e o libera de forma gradual, mais próxima do ritmo de absorção da planta.”

    Tecnologia inédita combina polímero renovável com mineral em escala nanométrica

    O revestimento usa poliuretano de origem renovável e biodegradável como base,um polímero que oferece boa adesão, resistência mecânica e degradação controlada. À essa matriz, os pesquisadores incorporaram montmorilonita em proporções que variaram entre 2% e 10% da massa da ureia.

    A estrutura em lamelas da montmorilonita (plaquetas que se empilham como escamas em distâncias nanométricas) é o segredo do desempenho. Quando os pesquisadores dispersam essas camadas na matriz polimérica, elas se esfoliam ou intercalam, criando uma distribuição em nanoescala que altera profundamente as propriedades de transporte do revestimento.

    Ricardo Bortoletto-Santos, professor da Unaerp e responsável pela condução da pesquisa em seu pós-doutorado, destaca que esta é a primeira avaliação com plantas desse tipo de revestimento à base de óleo de mamona e nanoargila realizada no Brasil.

    Experimentos com capim-piatã comprovam dobro na absorção de nitrogênio

    Em casa de vegetação, os pesquisadores cultivaram capim-piatã por 135 dias e realizaram quatro cortes sequenciais da gramínea. O resultado foi consistente em todas as etapas: os vasos fertilizados com ureia revestida com nanoargila produziram mais biomassa seca e absorveram o dobro de nitrogênio em relação aos vasos com ureia convencional.

    “Os resultados destacam o papel crucial da nanoestrutura do revestimento em aumentar a eficiência do uso de nutrientes e, ao mesmo tempo, minimizar as perdas ambientais”, afirma Bortoletto-Santos.

    A ureia é o fertilizante nitrogenado mais usado no mundo, com teor de nitrogênio de cerca de 45% em massa. Sua alta solubilidade, porém, representa um problema agronômico e ambiental grave: em condições normais, ela se dissolve rapidamente no solo, gerando volatilização de amônia e emissões de óxido nitroso, um potente gás de efeito estufa.

    Barreira química supera barreira física no controle do nutriente

    O estudo revelou que a montmorilonita não age apenas como obstáculo físico à passagem da água, mas principalmente como barreira química, por meio de interações iônicas e adsorventes com o nitrogênio.

    Revestimento e ureia em grânulos. Foto: Caue Ribeiro, Ricardo Bortoletto-Santos e Alefe

    “Essa interação química permite que o nutriente seja liberado em sincronia com a necessidade de absorção da planta”, diz Ribeiro. Para o pesquisador, esse mecanismo abre caminho para sistemas de revestimento mais finos, sem comprometer o desempenho. O que torna a tecnologia economicamente viável e ambientalmente mais sustentável.

    Inovação entra na estratégia nacional de fertilizantes

    Alberto Carlos de Campos Bernardi, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, contextualiza a relevância estratégica da pesquisa. O Brasil importa hoje mais de 85% dos fertilizantes que consome, e o nitrogênio está entre os nutrientes mais críticos e caros dessa equação.

    “Esse estudo representa muito mais do que uma questão acadêmica. Ele se insere na estratégia de Estado para reduzir a vulnerabilidade externa e aumentar a sustentabilidade da agricultura brasileira, consideradas no Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) 2022-2050”, afirma Bernardi.

    Pesquisa publicada e aberta a parcerias

    Os resultados integram o artigo Role of Nanocomposite Structure in Polyurethane Coatings for Slow-Release Fertilizers: A Case Study with Brachiaria brizantha. Ele foi publicado em setembro de 2025 no periódico ACS Agricultural Science & Technology. Fapesp, CNPq, Capes e Finep financiaram o estudo.

    Os pesquisadores buscam parceiros para transferir a tecnologia ao setor produtivo. Interessados podem entrar em contato pelo e-mail [email protected].

  • Unesp abre as portas para o 1º Buffalo Day

    Unesp abre as portas para o 1º Buffalo Day

    A Universidade Estadual Paulista (Unesp) recebe neste sábado (11) o 1º Buffalo Day, evento que coloca no mesmo espaço pesquisadores, produtores, técnicos e empresas da bubalinocultura. O encontro acontece no Centro de Pesquisas Tropicais em Bubalinos (CPTB), ligado à Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), em Botucatu (SP), e tem como objetivo central traduzir conhecimento científico em soluções práticas para o campo.

    A Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf) promove o evento em parceria com a Associação Brasileira de Criadores de Búfalos (ABCB), a Fatec Botucatu, o Boi 777, a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), o Instituto de Zootecnia (IZ) e a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

    O que o produtor vai encontrar no evento

    A programação combina palestras técnicas, visitas guiadas às estruturas do CPTB e contato direto com pesquisas em andamento. Os temas centrais incluem eficiência produtiva, nutrição e bem-estar animal, todos com abordagem aplicada. Empresas que atuam na cadeia produtiva também marcam presença para apresentar produtos e serviços ao setor.

    A pesquisadora Caroline Francisco, do CPTB, explica que o Buffalo Day nasce de uma necessidade concreta. “A gente trabalha diariamente para transformar pesquisa em ferramenta prática. O que desenvolvemos aqui pode ser aplicado diretamente na atividade, com impacto no resultado do produtor”, afirma.

    Primeira prova de eficiência em bubalinos do Brasil

    Um dos destaques do evento é a apresentação do espaço onde acontecerá a primeira prova de eficiência em bubalinos do país. Os participantes vão conhecer o ambiente, entender como os animais serão avaliados e quais indicadores técnicos entram no processo.

    Para Caroline, a transparência é um dos pilares do encontro. “Isso ajuda a dar mais segurança para quem investe na atividade”, destaca a pesquisadora.

    Além das apresentações técnicas, o formato do evento estimula o diálogo direto entre quem pesquisa e quem produz. “Quando todos os elos estão no mesmo espaço, conseguimos discutir soluções de forma mais objetiva, com base na realidade de quem está no campo”, observa Caroline Francisco.

    O Buffalo Day começou às 7h e a entrada é pelo CPTB da FMVZ-Unesp, em Botucatu.

  • Onça-pintada do Simba Safari doa sangue em transfusão inédita no Brasil

    Onça-pintada do Simba Safari doa sangue em transfusão inédita no Brasil

    Em um procedimento veterinário inédito no país, o Zoológico de São Paulo e o Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens (CEMPAS), da UNESP de Botucatu, realizaram uma transfusão de sangue entre onças-pintadas. A ação uniu ciência, cooperação institucional e esforços de conservação da espécie.

    A doadora foi Ruana, uma fêmea de quatro anos que vive no Simba Safari, anexo ao Zoo de São Paulo. Ela cedeu 800 ml de sangue para Jack, macho de 18 anos tratado no CEMPAS por insuficiência renal crônica. Nascido no Pará, Jack já viveu em diferentes estados, como Piauí, Alagoas e Minas Gerais. Isso antes de ser transferido para o Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba, onde permanece desde o ano passado.

    A coleta ocorreu no hospital veterinário do Zoo de São Paulo e o material seguiu para Botucatu sob cuidados técnicos rigorosos. A transfusão foi bem-sucedida e os dois animais reagiram positivamente. Ruana já voltou à rotina no Simba Safari, e Jack apresentou melhora clínica, com recuperação do apetite e da mobilidade. Ele seguirá em acompanhamento veterinário e passará por sessões de hemodiálise para apoiar o funcionamento dos rins.

    Segundo as instituições envolvidas, o caso reforça a importância da cooperação entre centros de pesquisa e zoológicos na promoção da saúde e do bem-estar animal. As equipes planejam publicar um artigo científico relatando o procedimento, que deve contribuir para novos protocolos de atendimento a grandes felinos em cativeiro no Brasil.

    Exames e conservação genética

    Durante o processo, Ruana também passou por exames preventivos completos, incluindo avaliação odontológica, radiografia e ultrassonografia. A equipe coletou material genético da onça, que será incorporado ao studbook da espécie. Ele é um banco de dados essencial para o manejo populacional e o fortalecimento genético de populações sob risco.

    Foto: Zoo São Paulo/Leandro Ferreira

    Símbolo da fauna brasileira, as onças-pintadas (Panthera onca) estão classificadas como “vulnerável” na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção, mantida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O Zoológico de São Paulo colabora com o Plano de Ação Nacional (PAN) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), mantendo três indivíduos da espécie, dois deles em programa de reprodução para conservação.

  • Búfalos destroem o solo do Vale do Ribeira e ameaçam a Mata Atlântica

    Búfalos destroem o solo do Vale do Ribeira e ameaçam a Mata Atlântica

    O Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, carrega dois títulos relevantes: é um dos maiores polos produtores de banana do Brasil e abriga os maiores remanescentes de Mata Atlântica do país. Agora, uma pesquisa da Unesp publicada na revista Geoderma Regional revela que a criação de búfalos na região ameaça os dois patrimônios ao mesmo tempo.

    A bubalinocultura chegou ao Vale do Ribeira na década de 1960, aproveitando os terrenos alagados e o clima úmido da região. Hoje, segundo o IBGE, São Paulo concentra o maior rebanho bubalino fora do Norte do Brasil, 118.824 cabeças , e aproximadamente 53% desses animais ficam no Vale do Ribeira. A atividade movimenta a economia local com a venda de leite e carne, mas o manejo inadequado gera um problema crescente: a destruição do solo.

    O peso do problema

    Cada búfalo adulto pode atingir 1,70 m de altura e pesar mais de 800 kg. Apoiado em quatro patas, o animal exerce uma pressão de contato em movimento de até 408 kPa (quilopascal). È um valor superior ao de máquinas agrícolas, já que toda a força se concentra em apenas quatro pontos de contato com o chão.

    O resultado é a compactação do solo. O pisoteio contínuo eleva a densidade e a resistência à penetração do terreno, que frequentemente ultrapassa o limite crítico de 2 a 3 MPa (megapascals). Acima desse limite, as raízes das plantas não conseguem se expandir, o que compromete o crescimento das culturas e a absorção de água e nutrientes.

    A degradação não para por aí. O solo compactado bloqueia a infiltração de água, agrava o encharcamento superficial e acelera a erosão. A diferença é expressiva: áreas de vegetação nativa absorvem entre 92% e 95% mais água do que terrenos danificados pelo pisoteio dos búfalos.

    Da fazenda para a floresta

    O estudo aconteceu em uma fazenda próxima ao rio Ribeira de Iguape, área de solo bastante argiloso. Conforme a água infiltra, o terreno perde resistência mecânica e fica mais maleável, o que intensifica ainda mais a compactação. Rodrigo Batista Pinto, primeiro autor da pesquisa e mestre em agronomia pela Unesp, observou animais que permaneciam até 21 dias seguidos na mesma área de pastagem durante o verão, prática que considera inadequada.

    O impacto direto para o agronegócio é a perda de produtividade agrícola. Mas o problema tem uma consequência mais ampla: fazendeiros com terras degradadas abrem novas áreas de cultivo e pastoreio, pressionando a Mata Atlântica nativa. Desde 1999, o Vale do Ribeira integra o Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco e reúne um mosaico de unidades de conservação, incluindo o PETAR e o Parque Estadual da Ilha do Cardoso.

    A solução já existe

    Pinto defende a bubalinocultura, mas cobra mudanças no manejo. A saída, segundo ele, é a rotação de pastagens: fazer os búfalos circularem com mais frequência entre diferentes áreas, reduzindo o tempo de permanência em cada espaço.

    “Com uma rotação bem planejada, o solo tem tempo para se recuperar, a compactação diminui e a vegetação se regenera”, afirma o pesquisador. A medida beneficia o produtor que preserva a produtividade da terra e o meio ambiente, ao reduzir a pressão sobre as reservas florestais da região.

  • Semente de moringa remove microplásticos da água com eficiência igual à do alumínio

    Semente de moringa remove microplásticos da água com eficiência igual à do alumínio

    Pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICT-Unesp), em São José dos Campos, comprovaram que sementes de moringa (Moringa oleifera), conhecida também como acácia-branca, têm potencial para remover microplásticos da água. O estudo saiu na revista ACS Omega, da Sociedade Americana de Química.

    O experimento mostrou que o extrato salino das sementes desempenha papel semelhante ao do sulfato de alumínio, coagulante amplamente usado em estações de tratamento de água. Em águas mais alcalinas, a semente superou o produto químico.

    “Mostramos que o extrato salino das sementes tem uma performance parecida à do sulfato de alumínio. Em águas mais alcalinas, ele teve um desempenho até melhor do que o produto químico”, afirma Gabrielle Batista, primeira autora do estudo, desenvolvido durante seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental (PPGECA) da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB-Unesp).

    Por que a coagulação é essencial

    Microplásticos carregam carga elétrica negativa na superfície, o que faz com que se repelem e também repelem a areia dos filtros de tratamento. Coagulantes como o extrato de moringa neutralizam essa carga, aglutinando os poluentes para que os filtros consigam retê-los.

    O estudo focou na filtração em linha, indicada para águas de baixa turbidez. Nesse método, a água passa pela coagulação e vai diretamente a um filtro de areia, sem etapas intermediárias como floculação e sedimentação.

    Como funciona na prática

    Os pesquisadores contaminaram água de torneira com partículas de policloreto de vinila (PVC) envelhecidas artificialmente por irradiação ultravioleta, processo que simula a degradação natural. O PVC entra na lista dos microplásticos mais preocupantes para a saúde humana por seu potencial mutagênico e cancerígeno, além de alta prevalência em corpos d’água e na água tratada por métodos tradicionais.

    Jar Test simula, em pequena escala, tratamento de água: experimentos mostraram boa eficiência da semente de moringa para coagulação de microplásticos. Foto: Gabrielle Batista

    O tratamento aconteceu no Jar Test, equipamento que reproduz em laboratório as etapas de uma estação de tratamento. A equipe comparou os resultados entre o extrato de moringa e o sulfato de alumínio. Microscopia eletrônica de varredura (MEV) fez a contagem de partículas antes e depois do tratamento; câmera de alta velocidade e feixe de laser mediram o tamanho dos flocos e não identificaram diferenças significativas entre os dois coagulantes.

    Limitação e potencial de uso

    O coordenador do estudo, professor Adriano Gonçalves dos Reis (ICT-Unesp), aponta uma única desvantagem identificada até agora: o extrato eleva os níveis de matéria orgânica dissolvida na água, o que pode encarecer o tratamento em larga escala. Mesmo assim, ele vê aplicação clara em contextos menores.

    “Em pequenas escalas, como propriedades rurais e pequenas comunidades, o método poderia ser usado com baixo custo e eficiência”, diz Reis.

    O grupo já testa o extrato diretamente em água do rio Paraíba do Sul, manancial que abastece São José dos Campos, e os resultados preliminares confirmam a eficiência do produto em água natural.

    Alternativa ao alumínio

    A busca por substitutos aos coagulantes convencionais cresce junto com as preocupações regulatórias e de saúde pública. Compostos à base de alumínio e ferro não são biodegradáveis, deixam toxicidade residual na água tratada e associam-se a riscos de doenças. “Tem-se intensificado a busca por alternativas sustentáveis”, diz Reis.

    Originária da Índia, a moringa se adapta bem a países tropicais e já tem uso tradicional na alimentação. Folhas e sementes integram a dieta em diversas culturas. Nos últimos anos, as sementes ganharam atenção científica pelo potencial no tratamento de água. Estudo anterior do mesmo grupo já havia comprovado a eficácia da moringa num ciclo completo de tratamento, com floculação, sedimentação e filtração.

    O projeto integra a pesquisa “Filtração direta e em linha para remoção de microplásticos da água de abastecimento”, apoiada pela FAPESP.

  • Do fruto à inovação: jatobá vira farinha, licor e pomada cicatrizante

    Do fruto à inovação: jatobá vira farinha, licor e pomada cicatrizante

    Pesquisadores brasileiros estão impulsionando o uso do jatobá, fruto nativo de casca dura presente em cinco biomas; Amazônia, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga. Tradicionalmente conhecido pelo uso de sua madeira, o jatobá começa a se firmar como uma planta alimentícia não convencional (PANC) de alto potencial econômico e sustentável.

    O Projeto Jatobá, conduzido pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Tupã e coordenado pela geógrafa Izabel Castanha Gil, tem como principal meta organizar e valorizar a cadeia produtiva do fruto. “Mapeamos os pontos de coleta em cerca de 30 municípios paulistas e trabalhamos com grupos indígenas do Mato Grosso, que já utilizam o jatobá tradicionalmente. Também articulamos ações de reflorestamento com a espécie”, explica Izabel.

    A iniciativa reúne parcerias com universidades e instituições como o Sebrae, Fatec Marília, Embrapii e Cati-SP. O objetivo é unir pesquisa, inovação e capacitação para transformar o jatobá em fonte de renda e conservação ambiental.

    Entre os produtos desenvolvidos estão farinha de jatobá (já usada na merenda escolar), vinagres feitos da casca, creme com cacau e amendoim, mistura para bolo instantâneo, licor e xarope. Segundo Izabel, o próximo desafio é encontrar parceiros que garantam escala de produção.

    Na área de panificação, a Fatec Marília criou um fermento natural à base da seiva do jatobá, rico em cálcio, ferro, magnésio e fibras, e totalmente livre de glúten. No Oeste paulista, o município de Adamantina foi reconhecido em 2025 como Cadeia Produtiva Local (CPL) do jatobá, o que possibilita novos incentivos para produtores e empreendedores.

    Até queijo

    A inovação também chega aos laticínios. Uma queijaria local desenvolveu queijo trufado com creme de jatobá, cacau e amendoim. Além de queijo curado em licor de jatobá, resultado de parcerias com o projeto.

    Pesquisadores de Porto Alegre colaboram com o desenvolvimento de um larvicida natural contra o Aedes aegypti, feito a partir da resina do jatobá, atualmente em fase de testes de campo. A mesma resina é base para uma pomada cicatrizante que passa por estudos bioquímicos avançados. “A produção ainda é experimental, mas a demanda crescente já mobiliza comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul”, destaca Izabel.

    Ele também integra programas de reflorestamento e compensação ambiental, com potencial para gerar créditos de carbono. Mais de 20 mil mudas já foram plantadas em propriedades privadas e áreas públicas da região.

    Árvore de jatobá. Foto: Wilson Fortunato/Flickr

    A árvore leva de 10 a 12 anos para frutificar. Mas depois disso, pode produzir até 200 quilos de frutos a cada dois anos, mantendo a produtividade por mais de um século. Com tanto potencial, o jatobá se firma como símbolo de sustentabilidade, inovação e valorização da biodiversidade brasileira.

  • Unesp inaugura biotério de zebrafish em Botucatu

    Unesp inaugura biotério de zebrafish em Botucatu

    A Unidade de Pesquisa Experimental da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) inaugurou em agosto de 2024 o primeiro biotério de zebrafish da Unesp. A instalação também se destaca como o primeiro biotério da instituição a produzir animais com status sanitário SPF (livre de patógenos específicos).

    A Fapesp destinou aproximadamente R$ 2 milhões ao projeto em outubro de 2024. O recurso permite que o biotério atualize suas instalações conforme as exigências do Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal (Concea) e alcance os padrões de centros de referência como o Instituto Butantan.

    A Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) de Botucatu sedia oficialmente o projeto, mas a iniciativa reúne pesquisadores de outras unidades da Unesp e instituições estaduais paulistas.

    O peixe que revoluciona a pesquisa científica

    O zebrafish (Danio rerio) mede no máximo 5 centímetros e vive em água doce. Suas listras lembram uma zebra ou a bandeira paulista, o que rendeu ao peixe o apelido de “paulistinha”.

    A espécie compartilha 71% do genoma com os seres humanos, característica que a transforma em modelo ideal para experimentos científicos. Pesquisadores utilizam o zebrafish em ensaios pré-clínicos de novas moléculas, testes de toxicidade de defensivos agrícolas e estudos que avaliam efeitos de substâncias em organismos.

    “Se uma substância causa malefício ao zebrafish, eu posso entender que ela afeta o ecossistema como um todo”, explica Lilian Cristina Pereira, professora da Faculdade de Medicina de Botucatu e coordenadora do Núcleo de Avaliação do Impacto Ambiental sobre a Saúde Humana da Unesp, que abriga o biotério.

    Conceito de Saúde Única orienta pesquisas

    O zebrafish ocupa posição estratégica na cadeia alimentar e funciona como indicador ecotoxicológico na natureza. A professora Lilian destaca que o peixe se alinha ao conceito de Saúde Única, que integra saúde humana, animal e ambiental.

    “O zebrafish marca a saúde humana porque conseguimos extrapolar resultados dos experimentos para nós, mas também indica saúde animal e ainda funciona como marcador ambiental”, afirma a docente.

    Avanço nos testes pré-clínicos

    O professor Benedito Barraviera, pesquisador da fábrica-escola de biofármacos V-BioPharma no campus de Botucatu, considera a modernização um salto na capacidade da Universidade de conduzir testes de fase pré-clínica. Esses experimentos preliminares ocorrem in vitro e com animais para determinar se uma molécula pode avançar para ensaios em humanos.

    “A toxicologia é importante para saber se os componentes desses fármacos podem causar malefícios ao ser humano”, destaca Barraviera.

    Aplicações na agricultura

    Caio Antonio Carbonari, diretor da Faculdade de Ciências Agronômicas, enxerga na modernização uma oportunidade para empregar o paulistinha em avaliações ecotoxicológicas e testes com insumos agrícolas, especialmente defensivos.

    “Enquanto diretor da FCA, comemoramos muito do ponto de vista institucional. Mas eu também sou pesquisador da área de defensivos agrícolas, então tenho um interesse técnico pela importância dessa ferramenta”, conclui Carbonari.

    A modernização posiciona a Unesp como referência nacional na área de biotérios e amplia significativamente as possibilidades de pesquisa científica de ponta no campus de Botucatu.

    Fonte: Jornal da Unesp