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  • Veterinária: Brasil tem 2 universidades entre as melhores do mundo

    Veterinária: Brasil tem 2 universidades entre as melhores do mundo

    O Brasil tem duas universidades entre as 100 melhores do mundo em Veterinária. A Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp) aparecem na edição 2026 do QS World University Rankings by Subject.

    As duas instituições estão na faixa entre a 51ª e a 100ª posições em Veterinary Science. Nessa parte da classificação, o QS reúne as universidades em grupos e, portanto, não estabelece uma colocação individual para cada uma.

    O ranking avaliou instituições de diferentes países e selecionou as 100 que mais se destacaram na área. Além disso, a classificação permite comparar o desempenho das universidades em diferentes aspectos acadêmicos e científicos.

    No topo, por exemplo, o domínio se concentra principalmente em universidades dos Estados Unidos e do Reino Unido.

    As 10 melhores universidades do mundo em Veterinária

    Veja as primeiras colocadas no QS World University Rankings by Subject 2026 em Veterinary Science:

    Posição Universidade País Nota
    1º Royal Veterinary College, University of London Reino Unido 98,2
    2º University of California, Davis Estados Unidos 95,8
    3º Cornell University Estados Unidos 94,7
    4º University of Guelph Canadá 92,8
    5º Texas A&M University Estados Unidos 90,7
    6º Colorado State University Estados Unidos 89,4
    6º University of Edinburgh Reino Unido 89,4
    8º The Ohio State University Estados Unidos 89,0
    9º Utrecht University Holanda 88,7
    10º Iowa State University Estados Unidos 88,4

    O Royal Veterinary College (RVC), ligado à Universidade de Londres, manteve a liderança mundial. A instituição alcançou 98,2 pontos e, além disso, obteve a pontuação máxima em reputação acadêmica.

    Logo depois, aparece a University of California, Davis, com 95,8 pontos. A universidade norte-americana ocupa a segunda colocação mundial e, ao mesmo tempo, lidera o ranking dentro dos Estados Unidos.

    Na sequência, Cornell University completa o pódio. University of Guelph e Texas A&M, por sua vez, fecham as cinco primeiras posições.

    Onde aparecem USP e Unesp?

    Foto de tigresa em atendimento na UNESP

    Depois das dez primeiras colocadas, o ranking segue até chegar ao grupo no qual aparecem as duas representantes brasileiras.

    A USP e a Unesp estão na faixa 51-100 do mundo em Veterinary Science no QS 2026.

    Nesse intervalo, entretanto, o QS deixa de divulgar uma posição ordinal específica. Por isso, não é possível estabelecer qual das duas brasileiras aparece à frente.

    Ainda assim, a classificação coloca as duas universidades paulistas entre as 100 instituições de maior destaque internacional em ciência veterinária na edição de 2026.

    O resultado também mantém o Brasil representado em um grupo que reúne algumas das principais universidades e centros de pesquisa veterinária do planeta.

    UFMG deixou o Top 100

    Por outro lado, o levantamento de 2026 apresenta uma mudança importante em relação à edição anterior.

    Em 2025, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também figurava entre as 100 melhores do mundo em Veterinária. Na ocasião, a área estreou na classificação da universidade já dentro do Top 100.

    Em 2026, porém, Veterinária da UFMG não permaneceu no Top 100. Com isso, o Brasil passou de três para duas universidades nesse grupo.

    A mudança, contudo, não permite concluir que houve perda de qualidade do curso. O QS não divulgou uma justificativa específica para a saída da Veterinária da UFMG do Top 100.

    Além disso, a classificação funciona de maneira comparativa. Isso significa que o resultado de uma instituição também depende do desempenho das demais universidades analisadas.

    Dessa forma, mudanças podem ocorrer de uma edição para outra mesmo sem uma piora absoluta na qualidade acadêmica de determinada instituição.

    Como o QS avalia as universidades?

    Fachada da Faculdade de Medicina Veterinária da USP

    O QS World University Rankings by Subject analisa o desempenho das instituições em áreas específicas do conhecimento.

    Em Veterinary Science, a metodologia combina indicadores relacionados à reputação acadêmica, reputação entre empregadores e impacto da produção científica. Além disso, a avaliação considera aspectos relacionados à colaboração internacional em pesquisa.

    Entre os indicadores científicos está o índice H, usado para mensurar a produtividade e a influência dos trabalhos acadêmicos produzidos pelos pesquisadores.

    Portanto, o levantamento não funciona como uma avaliação exclusiva da graduação em Medicina Veterinária. Na prática, ele considera a força acadêmica, científica e internacional da universidade naquela área.

    Assim, uma instituição com forte produção científica e pesquisadores altamente citados pode ganhar destaque no levantamento. Ao mesmo tempo, a reputação construída junto à comunidade acadêmica e aos empregadores também influencia o resultado.

    No Brasil, por fim, a edição de 2026 deixa USP e Unesp como as duas representantes nacionais entre as 100 melhores do mundo em Veterinária.

  • Como cientistas transformaram casca de banana em energia mais barata e limpa

    Como cientistas transformaram casca de banana em energia mais barata e limpa

    Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) descobriram que baixas concentrações de soda cáustica (hidróxido de sódio, NaOH) preparam resíduos orgânicos para a produção de biogás com mais eficiência do que doses elevadas. A descoberta eleva a geração de metano, reduz o consumo de reagentes químicos e diminui os custos da operação industrial.

    A equipe utilizou como matéria-prima bananas descartadas em varejões, cascas e frutos impróprios para comercialização. Apesar do alto teor de matéria orgânica, esses resíduos escondem seu potencial energético dentro de uma espécie de armadura vegetal, formada por substâncias como celulose e lignina. Essa barreira dificulta o acesso dos microrganismos aos açúcares fermentáveis e limita a digestão anaeróbia, processo pelo qual comunidades de microrganismos decompõem a matéria orgânica na ausência de oxigênio.

    Durante o processo, os microrganismos quebram moléculas complexas em compostos cada vez mais simples até formar o metano (CH₄), principal componente energético do biogás.

    Como funciona o pré-tratamento termoalcalino

    “Para aumentar a eficiência da produção de biogás, é necessário aplicar um pré-tratamento. Nós optamos pelo termoalcalino (que combina calor e produtos químicos). A biomassa foi aquecida na presença de diferentes concentrações de hidróxido de sódio, variando entre 0,2% e 3%. O objetivo era romper parcialmente a barreira formada pela lignina, tornando os carboidratos mais acessíveis aos microrganismos”, explica Sandra Imaculada Maintinguer, integrante do Instituto de Pesquisa em Bioenergia da Universidade Estadual Paulista (IPBEN-Unesp) e coordenadora da pesquisa.

    Pesquisadora Larissa Ayumi Yamamoto realiza experimento com o resíduo de banana. Foto: Larissa Ayumi Yamamoto/IPBEN-Unesp

    Os testes contrariaram a expectativa intuitiva de que doses maiores de reagente trariam melhor desempenho. Pelo contrário: a eficiência máxima apareceu justamente nas menores concentrações testadas. A dose de apenas 0,2% de NaOH promoveu a maior solubilização de carboidratos, alcançando 12.110 miligramas por litro (mg/L). Ou seja, mais que o dobro dos 4.785 mg/L registrados no material sem pré-tratamento. Uma concentração ligeiramente maior, de 0,4%, gerou a maior produção acumulada de metano, mas a dose de 0,2% produziu o gás com mais velocidade.

    “Isso é importante porque, além de aumentar os custos da produção, o uso elevado de hidróxido de sódio inibe a ação dos microrganismos responsáveis pela geração do metano e pode causar maior impacto sobre o meio ambiente”, destaca Larissa Ayumi Yamamoto, graduanda no IPBEN-Unesp e primeira autora do artigo, publicado em maio na revista científica Bioenergy Research.

    Excesso de reagente prejudica microrganismos e encarece o processo

    Em pequenas quantidades, a soda cáustica rompe parcialmente a estrutura vegetal e libera açúcares que alimentam os microrganismos. Em excesso, porém, o reagente passa a atacar os próprios microrganismos, o que atrapalha ou até inviabiliza o processo. “Não adianta colocar 20%, porque se torna inibitório”, resume Maintinguer. A redução da quantidade de reagente também melhora a perspectiva de aplicação industrial, já que facilita o tratamento posterior de efluentes. “Para a indústria, quanto menor a concentração de hidróxido de sódio, melhor”, completa a pesquisadora.

    Maintinguer observa que São Paulo reúne condições particularmente favoráveis para esse tipo de tecnologia. Como grande produtor de frutas, o Estado gera quantidades enormes de resíduos ao longo de toda a cadeia produtiva. Desde frutos descartados ainda na propriedade até sobras do beneficiamento industrial e da comercialização. “A ideia é fechar esse ciclo. Em vez de encaminhar restos e frutas fora do padrão comercial para aterros, esses resíduos podem alimentar biodigestores capazes de produzir energia, transformando um passivo ambiental em uma fonte renovável”, pondera a pesquisadora.

    Bactérias e arqueias definem o desempenho do sistema

    Os resultados mostraram que o desempenho do biodigestor depende não apenas da quantidade de matéria orgânica disponível, mas também de quais bactérias atuam no processo e quais caminhos elas usam para digerir a matéria. No reator tratado com 0,4% de hidróxido de sódio, predominaram bactérias dos gêneros Paraclostridium e Clostridium, além de arqueias metanogênicas, organismos unicelulares produtores de metano, dos gêneros Methanothrix e Methanoregula.

    “Nós avaliamos o consórcio microbiano presente no reator, conseguimos acompanhar como esse sistema evolui e quais rotas metabólicas os microrganismos percorrem ao longo do processo”, explica Ana Gabriela Oliveira Ferreira Janas, doutoranda no IPBEN-Unesp. “Portanto, são informações que a pesquisa pode oferecer para a indústria.”

    Digestão anaeróbia funciona como turnos de trabalho microbiano

    Maintinguer compara a digestão anaeróbia a uma sucessão de etapas cumpridas por diferentes grupos de microrganismos. “Entramos com a matéria orgânica bruta e os microrganismos vão quebrando essa matéria em compostos cada vez mais simples. Esses intermediários acabam sendo consumidos por outros microrganismos até chegar à formação do metano”, detalha.

    O estudo integra um programa mais amplo do grupo da Unesp, que busca transformar resíduos agroindustriais em fontes de energia e outros produtos de valor agregado. Além da banana, os pesquisadores também estudam resíduos de laranja e goiaba, águas residuárias do processamento de frutas e diferentes estratégias de digestão e codigestão anaeróbias, técnica que mistura diferentes tipos de resíduos no mesmo reator para potencializar a geração de energia.

    Dependendo das condições operacionais e da comunidade microbiana presente, os pesquisadores podem direcionar esses sistemas não apenas à produção de biogás. Mas também à obtenção de outros compostos de interesse industrial. Em outro trabalho, ainda em processo de revisão para publicação, Janas e colaboradores investigaram a codigestão anaeróbia de resíduos para produzir bio-hidrogênio.

    José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

  • Conheça o peixe brasileiro que movimenta bilhões na China

    Conheça o peixe brasileiro que movimenta bilhões na China

    Um peixe brasileiro que conquistou espaço na aquicultura chinesa acaba de ter seu código genético desvendado em detalhes. Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP) mapearam, pela primeira vez, o genoma completo da pirapitinga (Piaractus brachypomus) em nível cromossômico.

    O avanço, realizado em parceria com cientistas da China, pode abrir caminho para novas estratégias de melhoramento genético, aumento da produtividade e maior eficiência na criação do peixe.

    Os resultados da pesquisa foram publicados em julho de 2026, na revista científica Scientific Data. O estudo alcançou 99,8% de completude no índice BUSCO (Benchmarking Universal Single-Copy Orthologs), o que indica a alta qualidade e confiabilidade dos dados.

    pirapitinga
    (Foto: Wenderson Araujo/Sistema CNA/Senar)

    Peixe amazônico faz sucesso com os chineses

    A China lidera a produção mundial de organismos aquáticos destinados ao consumo. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o país produziu, em 2023, mais de 55 milhões de toneladas por meio da aquicultura. O volume inclui peixes, camarões, moluscos e algas.

    No mesmo ano, o Brasil produziu 792 mil toneladas, o equivalente a apenas 1,44% do volume registrado pela China. Apesar da enorme produção, o mercado chinês ainda depende de espécies introduzidas: cerca de 8% dos peixes consumidos no país não são nativos. Entre eles estão salmão, truta, tilápia e a própria pirapitinga.

    Nativa da Amazônia, a pirapitinga chegou ao território chinês a partir de Hong Kong, em 1985. A origem exata da introdução, porém, ainda não foi esclarecida. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que os primeiros exemplares tenham sido levados ao país com finalidade ornamental, já que o peixe apresenta características físicas semelhantes às das piranhas.

    No entanto, no Brasil, o cenário é praticamente o oposto. Espécies não nativas respondem por cerca de 65% da produção aquícola, com a tilápia, originária da África, na liderança do mercado nacional. O cultivo se concentra principalmente em estados como Paraná e São Paulo, que estão entre os maiores produtores do país.

    Como surgiu a pesquisa

    A pesquisadora Ivana Felipe da Rosa, do Instituto de Biociências (IB) da Unesp, em Botucatu, realizou o mapeamento genômico durante o doutorado em Biologia Geral e Aplicada, sob orientação do professor Rafael H. Nóbrega. O estudo, porém, nasceu de uma investigação com outro foco: compreender o desenvolvimento reprodutivo do pacu (Piaractus mesopotamicus), peixe de água doce nativo do Brasil.

    O rumo da pesquisa mudou após Rosa conquistar uma bolsa de estudos na Academia Chinesa de Ciências da Pesca, em Shandong. Para aprofundar o trabalho, ela precisava de um genoma de referência, recurso que ainda é escasso entre espécies brasileiras.

    Foi justamente essa lacuna que levou a pesquisadora até a pirapitinga (Piaractus brachypomus). Parente próxima do pacu, a espécie estava disponível na China e tinha importância direta para a aquicultura do país.

    “O genoma serve como base para outros estudos. Ele abre portas para você compreender mais a fundo a localização dos genes, quais são as suas funções e como esses genes podem atuar em determinados tecidos”, explica Rosa.

    O que o mapeamento genético pode mudar?

    O mapeamento completo do genoma permite aos pesquisadores investigar genes associados a características de interesse para a aquicultura, como crescimento acelerado, tolerância a diferentes temperaturas e resistência a doenças. Com essas informações, será possível desenvolver programas de melhoramento genético mais precisos, selecionando indivíduos com características desejáveis e, consequentemente, aumentando o potencial produtivo da pirapitinga em cativeiro.

    Além disso, o avanço também pode trazer benefícios para o meio ambiente. Ao ampliar o conhecimento e o potencial de produção de espécies nativas, a pesquisa contribui para reduzir a dependência de peixes exóticos na aquicultura. Essa dependência representa um desafio ambiental, já que fugas de espécies não nativas podem favorecer a formação de populações invasoras e ameaçar os ecossistemas locais.

    FAO mapeia os principais produtores de animais aquáticos mundiais (Foto: Divulgação/Unesp/FAO)

    Parceria Brasil e China

    Para Rosa, o Brasil tem uma biodiversidade aquática muito ampla, especialmente por causa da Bacia Amazônica, mas ainda investe menos em tecnologia para a aquicultura do que a China. A pesquisadora destaca que muitas espécies brasileiras ainda são pouco estudadas e poderiam ganhar espaço na produção.

    “O investimento da China nessa parte da aquicultura é brutal. Por mais que sejam consumidores de carne, a alimentação base deles é composta de peixes e algas. No Brasil, acredito que exista um direcionamento maior para a produção de gado. Mas nós temos biodiversidade, temos invertebrados e vertebrados que poderiam ser mais explorados”, afirma.

    Diogo Teruo Hashimoto, especialista em genética aplicada à aquicultura do Centro de Aquicultura da Unesp (CAUNESP), em Jaboticabal, também enxerga potencial de troca tecnológica nos dois sentidos. Segundo ele, métodos desenvolvidos no Brasil podem beneficiar a produção chinesa, assim como tecnologias orientais podem chegar ao mercado brasileiro.

    “Eu tenho trabalhado em uma área de fronteira do conhecimento chamada fenômica, que é o uso de inteligência artificial nos programas de melhoramento genético. E tenho um parceiro da China que também está desenvolvendo IA para alcançar uma genética de precisão. Com essa colaboração, acredito que iremos conseguir chegar mais longe”, conclui Hashimoto.

     

  • Robôs, painéis solares e bem-estar animal: conheça o novo centro de pesquisa da Unesp

    Robôs, painéis solares e bem-estar animal: conheça o novo centro de pesquisa da Unesp

    A Unesp inaugurou o Centro Avançado de Pesquisa e Inovação em Bovinocultura de Leite (CAPID-Leite). Um investimento de R$ 4,7 milhões da Reitoria viabilizou a construção da nova estrutura, que reúne tecnologia de ponta como robôs de ordenha e placas fotovoltaicas.

    Sistema de ordenha automatizada, instalado na fazenda. Foto: Matheus Deniz

    A instalação fica na Fazenda Experimental Lageado e integra a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ-Unesp), em Botucatu. O centro nasceu com um objetivo claro: desenvolver pesquisas e tecnologias voltadas a dois pilares da bovinocultura leiteira; sustentabilidade e bem-estar animal. Para isso, o CAPID-Leite ocupa 1.500 metros quadrados, opera um sistema de ordenha robotizado e comporta até 60 vacas, que vão participar de projetos de pesquisa sobre os dois temas centrais do centro.

    Pesquisas envolvem sociedade civil e produtores rurais

    O projeto também prevê pesquisas de percepção que vão envolver a sociedade civil e profissionais do setor leiteiro, entre técnicos e produtores. “A ideia é que seja um setor de referência, que receba visitas de pessoas de diferentes formações e contextos. Nós queremos mostrar para a sociedade que é possível produzir leite de forma sustentável, pautada nos princípios éticos, e com aceitação social”, afirma Matheus Deniz, docente da FMVZ-Unesp e diretor técnico do CAPID-Leite.

    Atualmente, o centro abriga 20 vacas e 17 bezerros, mas a expectativa é que o número de animais em lactação chegue a 60. Além de experimentos com diferentes sistemas de contato entre vacas e bezerros, os grupos de pesquisa planejam usar o espaço para investigar o impacto de diversos modelos de criação.

    Sistemas silvipastoris ganham destaque entre os projetos

    As vacas podem ser mantidas em três tipos de sistema: pasto, confinamento ou silvipastoril. Os sistemas silvipastoris, que combinam árvores, pastagens e gado no mesmo espaço, concentram boa parte do interesse dos pesquisadores. Uma área demarcada da Fazenda Lageado vai receber o plantio de árvores para que a equipe investigue os benefícios desse modelo para a sustentabilidade e o bem-estar animal.

    Vaca e bezerro durante a realização de experimento para avaliar as especificidades de sistemas de criação que incentivam esse contato. Foto: Matheus Deniz

    Na fazenda, o sistema de confinamento adotado se chama compost barn. Nesse modelo, os animais circulam livremente por um galpão coberto e arejado, forrado com uma cama de material orgânico, e contam com iniciativas de enriquecimento ambiental. Um sistema automatizado conduz as vacas por portões até o local de ordenha, onde um robô realiza toda a coleta do leite.

    Painéis solares elevados combinam energia limpa e proteção térmica

    Painéis fotovoltaicos instalados em modelo agrivoltaico formam outra frente que une sustentabilidade e bem-estar animal na fazenda. A tecnologia eleva os módulos solares do solo e permite o cultivo de plantas, pastagem ou a criação de animais na parte inferior. Esse arranjo gera energia solar e produção agrícola no mesmo terreno, além de proteger plantas e animais do sol forte.

    Segundo Matheus Deniz, a pesquisa com sistemas agrivoltaicos permite explorar as duas dimensões centrais do centro. “Quando falamos de sustentabilidade ambiental, estamos falando de serviços ecossistêmicos e carbono não emitido para a atmosfera. Por se tratar de uma fonte de energia renovável, esses painéis têm impacto direto nessa esfera”, explica. “Já a sustentabilidade econômica é explorada a partir da redução dos gastos com energia, além de proporcionar sombra e conforto térmico para os animais, o que também diminui as perdas econômicas”, completa o docente.

    Painel fotovoltaico instalado na fazenda. Foto: Matheus Deniz

    O artigo científico “Agrivoltaic systems in a tropical region: Influence on thermal environment, vaginal temperature and behavior of dairy heifers”, publicado na revista JDS Communications, traz os primeiros resultados dessa linha de pesquisa. Nele, o grupo ligado ao centro comparou duas formas de instalação de sistemas agrivoltaicos, com painéis horizontais e verticais, à pastagem aberta, para medir o grau de conforto térmico dos animais.

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  • Pesquisadores criam fertilizante que “regenera” solos degradados

    Pesquisadores criam fertilizante que “regenera” solos degradados

    A degradação de solos representa um dos maiores desafios ambientais e econômicos do Brasil. Levantamento do MapBiomas mostra que, entre 1986 e 2021, cerca de 25% da vegetação nativa do País entrou em algum processo de degradação. Ou seja, o equivalente a aproximadamente 135 milhões de hectares. A atividade agropecuária figura entre as principais causas desse cenário.

    Para enfrentar o problema, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um novo fertilizante com potencial para recuperar áreas degradadas. A iniciativa reúne especialistas da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e de duas startups incubadas na própria USP: a Quanticom e a MOF Tech.

    Liane Rossi, professora do Instituto de Química da USP e uma das responsáveis pelo desenvolvimento do material, destaca o potencial da tecnologia. “Ele pode funcionar como um regenerador de solo e, portanto, poderia ser aplicado em solos degradados para melhorar a possibilidade de agricultura”, afirma.

    Como funciona a tecnologia

    O fertilizante utiliza Redes Metal-Orgânicas, as MOFs, sigla em inglês para Metal Organic Frameworks. Esses materiais se degradam de forma rápida e controlada e fornecem componentes minerais importantes para o solo. A comunidade científica reconheceu essa tecnologia com o Prêmio Nobel de Química de 2025.

    Liane compara o material a uma esponja. A estrutura porosa, repleta de espaços vazios, permite que as MOFs carreguem substâncias previamente selecionadas para beneficiar o ecossistema do solo. Quando o material se decompõe naturalmente, ele libera esses elementos no ambiente.

    Liane Rossi. Foto: Currículo Lattes

    Apesar dos resultados positivos, a pesquisadora reforça que o novo fertilizante não substitui os produtos tradicionais. “Nos nossos estudos, mantivemos a prática usual de fertilização do solo e adicionamos o novo material, em quantidade menor, como um condicionador, para que os fertilizantes convencionais operem ou sejam melhor aproveitados quando combinados com ele”, explica.

    A origem do projeto

    Uma série de reuniões entre especialistas da USP e da Unesp deu início à parceria. Segundo Liane, os pesquisadores das duas instituições não conheciam as MOFs até então e se interessaram rapidamente pelo potencial do material.

    O projeto evoluiu a partir dessas primeiras conversas e alcançou etapas avançadas de aplicação em campo. “Tivemos 45 meses de financiamento pela Shell. Com isso, montamos uma equipe aqui em São Paulo para a parte de seleção e escalonamento de síntese do material”, relata a pesquisadora.

    As startups criadas na USP também contribuíram diretamente para o avanço da pesquisa. A MOF Tech ampliou a escala de produção do material, enquanto a Quanticom conduziu os estudos de campo.

    Próximos passos dependem de novos investimentos

    O projeto ainda está em desenvolvimento e precisa de financiamento adicional para avançar. “A fase atual demandaria mais estudos e em maior escala em campo. Isso implica maior escala de síntese do material e, então, um possível investimento na MOF Tech”, diz Liane.

    Os estudos já realizados indicam que o produto melhora o desenvolvimento das plantas e a saúde do solo. Ainda assim, a pesquisadora defende a realização de novas etapas de teste antes de definir a disponibilidade do fertilizante para aplicação agronômica em larga escala.

    Por /Jornal da USP

  • Cientistas identificam espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas

    Cientistas identificam espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas

    Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificou duas espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). O estudo utilizou análise genética para confirmar a origem dos animais e revelou indícios do comércio internacional ilegal desses organismos marinhos.

    Os exemplares pertenciam às espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, encontradas naturalmente ao longo do litoral brasileiro e importantes para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros.

    As análises foram realizadas em três apreensões feitas pelo Ibama em 2023. Duas cargas estavam em malas de passageiros com destino à China, enquanto a terceira seguiria para a Itália.

    Difícil identificação

    Como os animais estavam secos e processados, a identificação por características físicas era praticamente impossível.

    A solução encontrada pelos pesquisadores foi o uso do DNA barcoding, técnica que funciona como um código de barras molecular capaz de identificar espécies a partir de pequenos fragmentos de DNA.

    Segundo a pesquisadora Auany Camila Fantinelli, a equipe precisou criar uma referência genética inédita para confirmar a identidade dos animais apreendidos.

    “Durante o estudo percebemos que não havia nenhuma sequência genética dessa espécie disponível em bancos públicos. Tivemos que coletar exemplares em Ubatuba para construir essa referência.”

    DNA desvenda origem de pepinos-do-mar apreendidos em esquema de comércio ilegal — Foto: flatwaterchris/iNaturalist – Isostichopus badionotus
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    Pesquisadores usam DNA para identificar pepinos-do-mar brasileiros em carga ilegal apreendida pelo Ibama — Foto: Fabio Porto-Foresti

    Como a genética ajudou a identificar os animais

    O DNA barcoding permite identificar espécies mesmo quando os organismos estão processados ou descaracterizados.

    Embora a técnica não consiga apontar exatamente de qual praia ou município os animais foram retirados, ela oferece uma ferramenta importante para investigações ambientais e operações de fiscalização.

    Os pesquisadores consideram altamente provável que os exemplares tenham sido capturados no litoral brasileiro, já que as duas espécies ocorrem naturalmente no país e não existem registros de produção comercial desses animais no Brasil.

    Outro dado que chamou atenção foi o volume das cargas.

    As três apreensões continham aproximadamente:

    • 1.500 pepinos-do-mar;
    • cerca de 500 indivíduos por mala ou caixa;
    • material destinado ao mercado internacional.

    “Isso representa apenas o que foi apreendido. É provável que exista um volume muito maior passando despercebido.”

    Conheça o pepino-do-mar

    Apesar de pouco conhecidos pelo público, os pepinos-do-mar desempenham funções essenciais para a saúde dos ambientes marinhos.

    Esses animais reciclam os nutrientes, oxigenam os sedimentos e ajudam na decomposição de matéria orgânica.

    Ao ingerirem o sedimento, processam a matéria orgânica e devolvem nutrientes ao ambiente, favorecendo a sobrevivência de microrganismos, crustáceos, vermes e diversas espécies que vivem no fundo do mar.

    Segundo os pesquisadores, a retirada intensiva desses organismos pode comprometer a qualidade ambiental dos habitats costeiros.

    “Não está em jogo apenas a sobrevivência das espécies, mas a integridade de ecossistemas inteiros que dependem desse serviço ecológico.”

    Mercado internacional impulsiona a captura ilegal

    A demanda por pepinos-do-mar é especialmente forte em países asiáticos.

    O produto seco é comercializado como iguaria gastronômica e também utilizado na medicina tradicional chinesa, o que eleva significativamente seu valor no mercado internacional.

    De acordo com os pesquisadores, esse cenário aumenta a atratividade econômica da captura ilegal e estimula a exploração de populações naturais.

    As cargas analisadas tinham como destino principal a China, mas já existem registros de envios para outros países.

    Espécies ainda sofrem com falta de monitoramento

    As espécies identificadas são classificadas atualmente como Menos Preocupantes pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

    Ainda assim, os cientistas alertam que a classificação não significa ausência de risco.

    A avaliação da espécie Holothuria grisea, por exemplo, não é atualizada desde 2010.

    Além disso, cerca de 65% das espécies de pepinos-do-mar avaliadas pela IUCN possuem classificação de dados insuficientes, evidenciando a escassez de informações científicas disponíveis.

    No Brasil, não existe monitoramento contínuo das populações desses animais.

  • Como cães rurais estão mudando o comportamento de onças-pardas

    Como cães rurais estão mudando o comportamento de onças-pardas

    Cães e seres humanos mantêm uma das relações mais antigas da história da domesticação. Descendentes dos lobos, os cães figuram entre os primeiros animais domesticados, em um processo iniciado entre 15 mil e 50 mil anos atrás. Atualmente, a população mundial de cães ultrapassa 1 bilhão de indivíduos, espalhados por praticamente todos os ambientes ocupados pelo homem.

    A maioria desses animais vive dentro de casas e apartamentos, principalmente em áreas urbanas. Uma parcela menor, pouco comum no Brasil, corresponde a cães selvagens, sem vínculo com pessoas. Entre esses dois extremos, no entanto, existe um grupo bem mais numeroso do que costuma aparecer no debate público: os cães rurais de vida livre.

    Esses animais têm tutor, recebem alimento e possuem um local para retornar ao fim do dia, mas permanecem soltos, percorrendo fazendas, estradas, plantações e áreas de vegetação nativa. Durante esses deslocamentos, muitos acabam entrando em Unidades de Conservação e passam a interagir com a fauna silvestre.

    Estudo da Unesp investiga efeito dos cães sobre o maior predador do estado

    Essa dinâmica motivou uma pesquisa conduzida por cientistas da Unesp, que resultou no artigo “Puma in check: How domestic dogs influence the behavior of a top predator”, publicado na revista Biological Conservation. O estudo analisou como a presença de cães afeta o comportamento da onça-parda, o maior predador terrestre que ainda ocupa grande parte do estado de São Paulo.

    Matilha de cães transitando por unidade de conservação é observada por armadilhas fotográficas usadas no estudo
    Matilha de cães transitando por unidade de conservação é observada por armadilhas fotográficas usadas no estudo. Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva

    O resultado surpreendeu os próprios pesquisadores: em vez de intimidar os cães, como se esperava de um predador de topo de cadeia, a onça-parda passou a modificar sua rotina para evitar locais onde os cachorros haviam passado.

    Onças demoram até seis dias para retomar áreas usadas por cães

    A equipe instalou 67 armadilhas fotográficas em duas unidades de conservação do interior paulista: a Estação Ecológica de Santa Bárbara e a Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara. As câmeras mostraram que, após a passagem de um cão, a onça-parda leva em média 74 horas para retornar ao mesmo ponto. O animal só retoma o uso rotineiro daquela área cerca de cinco a seis dias depois.

    Esse padrão indica uma estratégia consistente de afastamento em relação aos cães, mesmo sem a ocorrência de confronto direto entre as duas espécies.

    Cão é flagrado por armadilha fotográfica caminhado por unidade de conservação localizada no interior paulista
    Cão é flagrado por armadilha fotográfica caminhado por unidade de conservação localizada no interior paulista. Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva

    A bióloga Rita Bianchi, professora da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, no câmpus de Jaboticabal, explica que a ideia de analisar grandes felinos surgiu a partir do crescimento no número de registros de cães dentro de áreas já monitoradas pelo grupo de pesquisa. “Em algumas unidades de conservação percebemos que, a cada nova amostragem, aumentava o número de registros de cães. Isso despertou nossa preocupação. Queríamos entender por que eles estavam ocupando essas áreas e quais consequências isso poderia trazer para a fauna nativa”, conta a pesquisadora.

    Onça-parda foi escolhida por ser espécie adaptável e de dieta generalista

    Os cientistas escolheram a onça-parda como um dos focos do estudo não apenas por sua posição de predador de topo, mas também por sua adaptabilidade a diferentes habitats e por sua dieta generalista. As imagens obtidas pelas armadilhas fotográficas revelaram que cães e onças utilizam as mesmas áreas, mas em horários diferentes. Em vez de abandonar totalmente certos ambientes, a onça reorganiza o uso do espaço ao longo do tempo, o que reduz as chances de encontro com os cães.

    Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva

    Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp, admite que os resultados contrariaram suas expectativas iniciais. “Como um amante de grandes felinos, eu achava que a onça-parda ia impor respeito e controlar a área. Os cães poderiam ser uma ameaça para animais pequenos, mas quando chegasse um animal maior o cenário ia mudar. Então foi uma surpresa quando rodamos a análise e vimos que as onças demoravam para voltar a uma determinada área depois da passagem dos cães”, diz o pesquisador.

  • Tráfico de pepinos-do-mar ameaça biodiversidade da costa paulista

    Tráfico de pepinos-do-mar ameaça biodiversidade da costa paulista

    Malas e caixas cruzam diariamente os terminais dos aeroportos brasileiros com produtos ilegais. Substâncias entorpecentes ocupam boa parte dessas apreensões, mas eletrônicos, medicamentos e até animais silvestres também compõem a bagagem de quem tenta driblar a fiscalização.

    Foto: Fabio Porto-Foresti

    Entre os itens exportados ilegalmente estão os pepinos-do-mar, invertebrados marinhos presentes ao longo de toda a costa brasileira. Pequenos o bastante para caber na palma da mão, esses animais figuram como iguaria tradicional na culinária asiática e na medicina chinesa. Condição que alimenta um mercado clandestino voltado à exportação.

    Um estudo do Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes (Lagenpe), da Unesp de Bauru, publicado na revista Scientific Reports, comprovou a origem brasileira de espécimes apreendidos no Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU), o maior da América Latina. A equipe usou marcadores genéticos para identificar as espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus e rastrear sua procedência até o litoral sudeste do país. Um achado que configura crime ambiental e acende alerta sobre a biodiversidade costeira.

    Comércio ilegal pode reduzir populações da espécie

    O planeta abriga cerca de 1.250 espécies de pepino-do-mar, das quais 40 ocorrem em território brasileiro. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica as duas espécies do estudo como de “Menor Preocupação”, classificação que, segundo os pesquisadores, não elimina o risco da exploração comercial.

    Fabio Porto-Foresti, professor da Faculdade de Ciências (FC) da Unesp e coordenador do Lagenpe, teme que o Brasil repita o cenário já registrado na China, onde a exploração intensa reduziu populações inteiras de pepino-do-mar. “O comércio ilegal de qualquer espécie é extremamente danoso, porque é uma ameaça invisível. O pepino seco, forma que é transportado, permite que se leve uma grande quantidade nas bagagens”, afirma o pesquisador. “Se muitos indivíduos forem retirados na mesma região, isso pode reduzir a população, acabando com o potencial evolutivo da espécie.”

    Pepinos-do-mar sendo vendidos em uma feira popular na cidade de Chongqing, no sudoeste da China
    Pepinos-do-mar sendo vendidos em uma feira popular na cidade de Chongqing, no sudoeste da China. Foto: Ricardo Utsunomia

    Ricardo Utsunomia, codocordenador do Lagenpe, chama atenção para a função ecológica desses animais. “O pepino-do-mar fica no fundo do oceano extraindo e ingerindo matéria orgânica. A retirada deles de forma intensiva e em tão pouco tempo causa um desequilíbrio ecológico muito grande”, explica.

    O padrão de exploração lembra o comércio de barbatanas de tubarão: produtos não perecíveis, fáceis de armazenar e transportar, e por isso difíceis de fiscalizar. Sem controle adequado, os pesquisadores projetam que a demanda por pepinos-do-mar pode levar a quedas populacionais semelhantes às que atingiram várias espécies de tubarão.

    “Código de barras” genético identifica espécies descaracterizadas

    A pesquisa nasceu de uma parceria de longa data entre o Lagenpe e o Ibama, iniciada em 2015 com um projeto sobre o tráfico de peixes-de-bico no mesmo aeroporto. Desde então, o laboratório ampliou as análises para nadadeiras de tubarão, bexigas natatórias e, mais recentemente, pepinos-do-mar.

    O estudo atual, financiado pela Fapesp, partiu de espécimes secos apreendidos em 2023, distribuídos em caixas e malas com cerca de 500 indivíduos cada. Os pesquisadores selecionaram 40 amostras para análise molecular: 18 pertenciam à Holothuria grisea e 22 à Isostichopus badionotus.

    Como os animais chegam cortados, secos e sem características morfológicas reconhecíveis, a identificação depende de análise laboratorial. A equipe extrai o DNA das amostras, realiza amplificação por PCR e compara o resultado com o Barcode of Life Data System (BOLDSystems), banco de dados genético usado mundialmente para identificação de espécies. “A gente busca um marcador, que nada mais é do que um ‘código de barras’ do DNA. Então, comparamos o sequenciamento com um banco de dados disponível”, descreve Porto-Foresti.

    Obstáculo

    A equipe enfrentou um obstáculo: o banco de dados não continha o sequenciamento da H. grisea. Para preencher essa lacuna, os pesquisadores recorreram a Rogério Caetano da Costa, professor de zoologia de invertebrados da FC-Bauru e coautor do artigo, que estuda a fauna de Ubatuba há décadas. Com sua ajuda, a equipe coletou exemplares vivos na praia e comparou o material genético com o dos animais apreendidos.

    “Percebemos que eles eram iguais. Esse trabalho comprova que aqui não é uma zona intermediária de tráfico, realmente os animais estão sendo coletados na costa”, relata Utsunomia. O achado reforça a importância de ampliar os bancos de dados genéticos públicos, sem os quais estudos de identificação molecular perdem viabilidade.

    Caetano da Costa relatou ainda uma percepção, ainda não comprovada cientificamente, de queda na população de pepinos-do-mar no costão rochoso de Ubatuba, possivelmente ligada ao avanço da pesca ilegal. No Ceará, esse declínio já tem respaldo científico: um estudo publicado em 2019 na revista Ocean and Coastal Management estimou a captura de quase 400 mil espécimes de H. grisea por ano nos municípios de Camocim e Xavier.

    Mercado ilegal movimenta valores altos e escapa da fiscalização

    A dificuldade de rastrear o volume real do tráfico decorre também da forma como os traficantes transportam os animais: junto a celulares, componentes eletrônicos e outros produtos de informática. Frescos, os pepinos-do-mar pesam cerca de 500 gramas, mas perdem até 90% do peso no processo de secagem. O que facilita o transporte de grandes quantidades em uma única mala.

    pepino-do-mar numa mão
    Foto: Ricardo Utsunomia

    O valor comercial explica o apelo do contrabando: o mercado internacional paga até 400 euros por quilo do produto seco, com espécies raras chegando a cinco mil dólares.

    No Brasil, a Portaria Ibama nº 93/1998 regulamenta a pesca e a comercialização de pepinos-do-mar, exigindo comprovação de origem ambiental e documentação legal. A parceria entre Lagenpe e Ibama busca expor essa lacuna de fiscalização, que não se limita à espécie estudada.

    “De repente, poderia ser um ouriço-do-mar, uma estrela-do-mar ou uma bexiga natatória. O objetivo maior desse projeto é pensar nesse comércio que vem acontecendo e que não conseguimos identificar a espécie do ponto de vista morfológico”, afirma Porto-Foresti. “Com o marcador genético, vai ser possível ver exatamente qual espécie está sendo comercializada, seja para pepino-do-mar, peixe, camarão ou outros grupos. Essa é a grande questão.”

    Fonte: Jornal da Unesp/

  • Cientistas usam veneno de rã brasileira para conservar morango por mais tempo

    Cientistas usam veneno de rã brasileira para conservar morango por mais tempo

    Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) descobriram que um peptídeo extraído da pele de uma rã do Cerrado brasileiro consegue aumentar significativamente a vida de prateleira do morango.

    O estudo, conduzido no Laboratório de Equipamentos Multiusuários da Faculdade de Engenharia e Ciências (Lemu-FCE) da Unesp-Tupã e financiado pela FAPESP, comprovou que apenas cinco minutos de contato entre a fruta e a molécula bastam para preservar suas características por dias.

    Cinco minutos de imersão prolongam o frescor da fruta

    A equipe mergulhou morangos da variedade Oso Grande em uma solução contendo o peptídeo Ctx(Ile21)-Ha por apenas cinco minutos. O experimento surpreendeu os próprios cientistas: a molécula manteve as características da fruta madura por até cinco dias, um período considerado longo para um produto tão perecível.

    “Somente o peptídeo, sem nenhum outro tipo de componente, manteve as características da fruta madura após cinco dias, o que, para um morango, é um tempo longo de armazenamento. Não esperávamos tanto”, afirma Eduardo Festozo Vicente, coordenador do laboratório onde o estudo foi realizado.

    Foto: Arquivo Agro em Campo

    Vicente estuda essa molécula há quase 20 anos, desde o mestrado. Peptídeos são moléculas semelhantes a proteínas, porém menores e mais simples, que desempenham diversas funções biológicas, entre elas, ação antimicrobiana.

    Molécula preserva sabor e composição química do morango

    Publicado na revista científica Applied Food Research, o estudo analisou os parâmetros físico-químicos da fruta tratada com o peptídeo. Os pesquisadores constataram que o tratamento não alterou o sabor do morango nem comprometeu de forma significativa os compostos fenólicos e os sólidos solúveis totais. Indicadores que revelam se a composição química da fruta permanece estável.

    “O estudo mostra que o peptídeo retarda [a degradação natural do morango], aumentando relativamente a vida de prateleira e mantendo as características físico-químicas da fruta. A análise mostrou que os sólidos solúveis, que são os açúcares altamente degradáveis por microrganismos, permaneceram nas frutas que tiveram contato com o peptídeo. A textura também se manteve preservada”, explica Vicente.

    Segundo o pesquisador, o grupo ainda não realizou testes microbiológicos para confirmar a ação antimicrobiana da molécula sobre o morango. Mas já formula uma hipótese para investigações futuras: a possível redução de microrganismos causada pelo peptídeo.

    Como funcionou o experimento

    Os cientistas solubilizaram o peptídeo em água em três concentrações diferentes e submergiram 300 gramas de morango em cada solução por cinco minutos. Um grupo-controle recebeu apenas água, para efeito de comparação.

    Depois de secar as frutas, a equipe as armazenou em bandejas de PET sanitizadas com etanol, cobertas com papel-filme, a 5°C, dentro de uma incubadora com controle preciso de temperatura, reproduzindo o processo que um vendedor de morangos realizaria ao guardar o produto na geladeira.

    As amostras permaneceram na incubadora por seis dias. Os pesquisadores avaliaram parâmetros físico-químicos (pH, sólidos solúveis, textura e taxa respiratória) e bioquímicos (ácido ascórbico, fenóis totais, açúcares e atividade enzimática) nos dias 0, 1, 2, 3, 4 e 5, sempre em triplicata, método que reduz a variabilidade e o grau de erro dos resultados.

    Rã brasileira produz arsenal químico de defesa

    A equipe da professora Mariana de Souza Castro, da Universidade de Brasília (UnB), isolou e extraiu o peptídeo Ctx(Ile21)-Ha em 2006 a partir da pele de uma rã do Cerrado (Boana albopunctata). Assim, segundo Vicente, essa substância integra o sistema de defesa do anfíbio.

    “Essa substância faz parte de uma gama de defesas do anfíbio. Como ele tem uma respiração cutânea, possui um arsenal de moléculas que formam um sistema defensivo eficiente, pois está em contato direto com os patógenos do ambiente”, descreve o pesquisador.

    rã do cerrado
    Foto: Fundação Grupo Boticário

    Inicialmente, o grupo pretendia aplicar o peptídeo como aditivo zootécnico, substituindo antibióticos convencionais na nutrição animal. Uma alternativa relevante diante do avanço da resistência antimicrobiana. O projeto avançou em três frentes: os estudos biofísicos da molécula, a aplicação em nutrição animal (incluindo ruminantes, gado leiteiro, aves poedeiras, frangos de corte e suínos) e, por fim, o uso em alimentos para aumentar sua vida útil.

    FAPESP financia síntese de alta pureza

    Vicente destaca o papel da FAPESP no avanço da pesquisa, inclusive na obtenção do peptídeo. A Fundação apoiou o trabalho por meio de três projetos (21/06706-9, 19/07438-8 e 16/00446-7).

    “Somos um dos poucos laboratórios do Brasil em que se consegue sintetizar, purificar e caracterizar esse peptídeo e qualquer outro de interesse biológico”, afirma o pesquisador. A equipe atingiu grau de pureza superior a 95% na síntese da molécula, composta por aminoácidos. E garante que ela pode ser ingerida com segurança, já que o estômago a degrada normalmente, como ocorre com qualquer derivado de proteína.

    “Claro, estamos ainda em uma prova de conceito, inclusive para uso como aditivo para alimentação animal. Mas sabemos agora que o peptídeo tem um grande potencial para ser usado como tratamento pós-colheita em frutas altamente perecíveis, como o morango”, completa Vicente.

    Grupo já busca patentes e produção em larga escala

    O Ctx(Ile21)-Ha ainda não possui regulamentação de uso no Brasil. Mas Vicente acredita que a aprovação não deve enfrentar grandes obstáculos, já que outros peptídeos comerciais já circulam legalmente no país. O grupo já protocolou um pedido de patente para uso em aves poedeiras e prepara outro para aplicação em ruminantes.

    Os próximos passos da pesquisa incluem os testes microbiológicos ainda pendentes e a produção do peptídeo em larga escala, utilizando modelos já consolidados na literatura científica, como leveduras. A equipe também planeja desenvolver um filme comestível para envolver frutas com casca, já que a legislação brasileira proíbe o uso de películas comestíveis em frutas consumidas sem casca.

    A Instrução Normativa nº 211/2023 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regula os limites máximos e as condições de uso de aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia autorizados no país.

    Karina Ninni | Agência FAPESP

  • Método brasileiro identifica raça bovina e combate fraude na carne

    Método brasileiro identifica raça bovina e combate fraude na carne

    Pesquisadores da Embrapa Gado de Corte (MS), da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolveram uma metodologia inédita para identificar carnes de diferentes espécies por meio da espectrometria de massas MALDI-TOF. A técnica também distingue amostras das raças bovinas Nelore e Angus, o que pode facilitar a certificação de produtos com maior valor de mercado.

    Embora cientistas já utilizem amplamente essa tecnologia em diversas áreas, incluindo o diagnóstico de doenças causadas por microrganismos na pecuária, pesquisadores brasileiros aplicam pela primeira vez a espectrometria de massas para diferenciar tecidos de bovinos, suínos, frangos e tilápias. Inclusive depois que o alimento passa por congelamento ou fritura.

    Como funciona a “impressão digital” da carne

    O método gera perfis de massa das proteínas presentes na carne, que funcionam como uma impressão digital molecular única para cada espécie ou raça animal. Assim, a equipe conseguiu construir um banco de dados com perfis de massa de diferentes carnes. O que permite avaliar a qualidade do produto ou realizar ações de fiscalização, explica Newton Verbisck, pesquisador da Embrapa que liderou o estudo.

    Pesquisador Newton Verbisck durante experimentos.
    Pesquisador Newton Verbisck durante experimentos. Foto: Talita Barbosa / Embrapa

    Verbisck destaca que a espectrometria se firma como alternativa mais rápida e econômica para identificar fraudes, se comparada às análises genéticas tradicionais. A equipe também simplificou o protocolo de testes, o que agiliza o processo sem comprometer a precisão dos resultados. “Todo o processo dura, em média, 20 minutos. E diferentemente dos outros métodos disponíveis no exterior, que são um pouco mais demorados e têm um custo relativamente mais elevado”, afirma o pesquisador.

    Os resultados da pesquisa colocam a espectrometria de massas como ferramenta robusta para a rastreabilidade biológica e a proteção do consumidor contra substituições indevidas de produtos. Atualmente, a tecnologia opera apenas na Embrapa Gado de Corte, em Mato Grosso do Sul, mas pesquisadores já projetam sua aplicação em diversos setores. Do controle de qualidade da produção à fiscalização sanitária, passando pelo combate a fraudes e adulterações em derivados de carne.

    O que é a técnica MALDI-TOF

    A espectrometria de massas determina a massa de moléculas e substâncias com altíssima precisão, o que permite caracterizá-las e identificá-las quimicamente. Entre as técnicas avançadas dessa área, o MALDI-TOF (sigla em inglês para Matrix Assisted Laser Desorption Ionization – Time-Of-Flight, ou Desorção a Laser Assistida por Matriz com Análise por Tempo de Voo) se destaca como uma das mais utilizadas para analisar moléculas biológicas com rapidez e precisão.

    A sigla MALDI corresponde ao método de ionização. Os técnicos misturam a amostra a uma matriz química, que absorve a energia do laser e protege as moléculas, fazendo com que ganhem cargas elétricas sem se fragmentar ou alterar sua massa original. Nesse processo, as moléculas-alvo se transformam em íons, com cargas positivas ou negativas, e passam a ser analisadas sob a ação de um campo elétrico.

    Figorífico com Carne Bovina
    Foto: Divulgação – Instituto Mato-Grossense da Carne

    Já o Tempo de Voo corresponde ao método de análise: dentro de um tubo a vácuo, um campo de alta voltagem acelera os íons em direção a um detector. Esse “tempo de voo” indica quanto tempo cada molécula leva para percorrer o tubo até o detector. O que permite calcular seu valor de massa com precisão. Os íons menores chegam primeiro ao detector. À medida que os íons chegam, o sistema registra os tempos de voo e computa os valores de massa imediatamente.

    As cinco etapas da identificação de carnes

    Coleta da amostra: técnicos retiram pequenos fragmentos de carne fresca ou descongelada, do tamanho aproximado de um grão de arroz, da parte interna da peça, para evitar contaminações superficiais ou degradação.

    • Extração de proteínas: a equipe imerge a amostra em um pequeno volume de solvente composto por acetonitrila, água ultrapura e ácido trifluoroacético, dentro de um tubo de plástico. Em seguida, macera o material com um pilão de plástico e o centrifuga por dois minutos para depositar o tecido e coletar o extrato de proteínas.
    • Preparação e ionização: os técnicos misturam 1 microlitro do extrato protéico, equivalente a uma pequeníssima gota, com igual quantidade da matriz química sobre uma placa de metal. A matriz não reage com a amostra. Mas possibilita sua cristalização e facilita a transformação em íons pela ação de um laser, dentro do espectrômetro de massas.
    • Aquisição e análise de dados: o espectrômetro mede os tempos de voo dos íons e determina as massas das proteínas em poucos segundos por amostra.
    • Identificação e classificação: com o auxílio de ferramentas computacionais, o sistema registra os perfis de massa de proteínas de cada amostra em um banco de dados e, a partir daí, classifica e identifica as espécies de carne analisadas.