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  • Como o Vietnã se tornou gigante mundial na produção de peixe

    Como o Vietnã se tornou gigante mundial na produção de peixe

    O mundo acordou em 2024 para uma realidade que vinha se consolidando nas últimas duas décadas. Dados da FAO confirmaram: o Vietnã ultrapassou a marca de 1,75 milhão de toneladas anuais de pangasius e agora figura entre os maiores produtores de peixes cultivados do planeta. Enquanto países como Noruega e Chile dominam manchetes com salmão, o Vietnã construiu silenciosamente um império baseado no peixe-gato de água doce.

    A história começa nos anos 2000, quando autoridades vietnamitas decidiram apostar todas as fichas na aquicultura industrial. A estratégia funcionou além das expectativas. Hoje, o setor movimenta bilhões de dólares em exportações e abastece mais de 80 países, do Oriente Médio à América Latina.

    O peixe que virou fenômeno global

    Conhecido no Brasil como panga, o pangasius conquistou mercados por três motivos simples: carne branca, sabor neutro e preço acessível. Restaurantes, escolas e hospitais ao redor do mundo descobriram nele uma alternativa econômica para cardápios variados.

    Mas o segredo vietnamita vai muito além da espécie escolhida. O país desenvolveu uma cadeia verticalizada que controla cada etapa, desde a seleção genética dos reprodutores até o embarque dos filés congelados rumo aos portos internacionais. Empresas gerenciam fábricas de ração, laboratórios de larvicultura, fazendas de engorda e frigoríficos com padrões industriais.

    O ciclo produtivo impressiona. Em apenas sete a nove meses, alevinos se transformam em peixes adultos prontos para abate. O rendimento após filetagem supera 40%, número que poucas espécies conseguem alcançar. Com manejo adequado, os viveiros atingem densidades elevadas sem comprometer qualidade — algo viabilizado por sensores de oxigênio dissolvido e protocolos sanitários rigorosos.

    Três pilares sustentam o império do panga

    Analistas internacionais apontam fatores decisivos para o domínio vietnamita. Primeiro: custo de produção imbatível. O pangasius sai mais barato que tilápia, salmão e até camarões cultivados. Segundo: oferta constante durante o ano todo, sem interrupções sazonais. Terceiro: padronização industrial, com filés uniformes que facilitam logística e distribuição.

    A geografia ajudou. Temperatura estável e grande disponibilidade hídrica criaram condições perfeitas para produção contínua. Viveiros operam em regime quase ininterrupto, alimentando uma cadeia que emprega centenas de milhares de pessoas formalmente — número que explode quando somamos agricultores familiares, transportadores e pequenos prestadores de serviço.

    Comunidades rurais que antes dependiam de agricultura de subsistência encontraram no pangasius uma saída da pobreza. O governo vietnamita destaca esse impacto social como um dos maiores legados da expansão aquícola.

    Brasil na mira: a polêmica da tilápia vietnamita

    A expansão vietnamita não para no pangasius. Recentemente, o país asiático começou a mirar o mercado brasileiro com outro produto: tilápia. A movimentação gerou reação imediata da Peixe BR, entidade que representa os piscicultores nacionais.

    O Brasil é um dos maiores produtores de tilápia da América Latina, com uma cadeia consolidada que emprega milhares de famílias e movimenta bilhões de reais anualmente. A entrada de tilápia vietnamita no mercado brasileiro acendeu um sinal de alerta no setor.

    “A indústria nacional de tilápia investiu pesado em tecnologia, sustentabilidade e geração de empregos locais”, argumentam representantes da Peixe BR. “Permitir importação massiva de um país com custos de produção artificialmente baixos pode comprometer toda essa cadeia.”

    A entidade defende que o governo brasileiro adote medidas para proteger a produção nacional. Entre os argumentos, destacam diferenças significativas em legislação trabalhista, normas ambientais e subsídios governamentais que criam condições desiguais de competição.

    O debate ganha força num momento em que o Vietnã busca diversificar destinos de exportação. Com capacidade industrial instalada e logística azeitada, o país asiático vê no Brasil uma oportunidade de expandir presença na América do Sul — movimento que preocupa produtores locais de tilápia.

    Enquanto isso, consumidores brasileiros continuam comprando panga vietnamita em supermercados e restaurantes, muitas vezes sem saber a origem do produto. A possível chegada da tilápia asiática adiciona mais um capítulo a essa história de disputa comercial entre produção local e importação em larga escala.

    Pressão externa impulsiona inovações ambientais

    Como toda produção intensiva, a criação vietnamita enfrentou críticas. Organizações internacionais questionaram manejo de água, destino de efluentes e origem das rações utilizadas. A resposta veio na forma de investimentos pesados.

    Nos últimos anos, grandes produtores implementaram depuradores biológicos, viveiros de sedimentação e sistemas de recirculação parcial. Fórmulas de ração reduziram dependência de farinha de peixe — ponto sensível no debate sobre sustentabilidade global.

    Relatórios recentes mostram que grupos líderes já operam em conformidade com normas de mercados exigentes como Europa e Estados Unidos. A pressão externa, que poderia ter freado o crescimento, acabou impulsionando eficiência e reduzindo custos por hectare.

    Projeções apontam para 2 milhões de toneladas

    O Ministério da Agricultura do Vietnã projeta ultrapassar 2 milhões de toneladas anuais nos próximos anos. Novos sistemas automatizados de engorda e viveiros mais profundos permitem densidades maiores sem comprometer bem-estar animal.

    Enquanto o pescado cultivado ganha espaço como alternativa à pesca extrativa, países que dominam essa tecnologia ocupam posição estratégica no cenário alimentar global. O Vietnã, com estrutura consolidada e mão de obra especializada, pode disputar espaço com gigantes como China, Índia e Indonésia.

    O pangasius deixou de ser apenas um peixe comum do Sudeste Asiático. Hoje protagoniza uma cadeia globalizada, moldada por engenharia hídrica, manejo intensivo e logística internacional de alta eficiência. A ascensão vietnamita prova que a aquicultura moderna não é mais complemento da pesca tradicional, é um dos motores mais importantes da economia alimentar do século XXI.

    E com a possível chegada da tilápia vietnamita ao Brasil, essa história está longe de terminar. O próximo capítulo promete debates acalorados entre defesa da produção nacional e abertura comercial. Uma disputa que vai além de números e envolve empregos, sustentabilidade e soberania alimentar.

  • Preço da carne dispara e consumidor troca churrasco por peixe

    Preço da carne dispara e consumidor troca churrasco por peixe

    Dados da Scanntech, empresa de inteligência de dados, mostram que preço dos peixes subiu apenas 2,1%, enquanto carne bovina teve alta de quase 25%. Resultado? O consumidor brasileiro está trocando o churrasco pelo pescado.

    O carrinho de compras do brasileiro mudou bastante em 2025. E não é pra menos. Com o preço da carne bovina nas alturas, muita gente precisou repensar o cardápio da semana. A solução? Investir mais em peixes.

    Um estudo recente da Scanntech, empresa líder em inteligência de dados para varejo e indústria, revelou que o consumo de pescados cresceu 8,2% entre janeiro e setembro deste ano. O movimento acontece num momento onde as proteínas tradicionais pesaram , e muito, no bolso.

    Enquanto a carne bovina disparou quase 25% no período, os peixes subiram apenas 2,1%. A carne suína também não ajudou, com alta de 21,2%. Resultado? As famílias brasileiras começaram a buscar alternativas mais acessíveis na hora de montar a “mistura” do dia a dia.

    Fora da quaresma, peixe vira opção o ano todo

    Todo mundo sabe que peixe costuma vender mais na Páscoa e Quaresma, né? Mas em 2025 a história foi diferente. Os meses de janeiro, julho e agosto, justamente quando os preços dos pescados ficaram mais estáveis, registraram as maiores altas de consumo comparado ao mesmo periodo de 2024.

    “O consumidor tem revisto suas escolhas pra adequar o orçamento”, explica Priscila Ariani, Diretora de Marketing da Scanntech. “A alta da carne bovina levou os brasileiros a buscar alternativas, ampliando o consumo de peixes com melhor custo-benefício. Esse cenário deve continuar devido à oscilação dos preços das proteínas.”

    Tilápia: a grande estrela do momento

    Se tem uma espécie que roubou a cena em 2025, essa espécie é a tilápia. O peixe teve crescimento impressionante de 32,9% no volume de vendas. O segredo? O preço caiu 8,4% no período, tornando a tilápia a escolha perfeita pra quem quer economizar sem abrir mão da proteína.

    A Scanntech identificou diferenças importantes entre as regiões do país. A tilápia dominou as vendas em praticamente todo Brasil, só ficou de fora do pódio no Norte. As regiões Centro-Oeste e Norte foram as que viram a maior queda no preço por quilo, e consequentemente registraram os melhores resultados em volume.

    O que aconteceu com os outros peixes?

    Cada espécie teve seu próprio comportamento no mercado brasileiro:

    • Salmão perdeu espaço. Enquanto outros peixes ganhavam terreno, o salmão apresentou queda de consumo em todas as regiões do país. O preço mais salgado pode ter afastado os consumidores.
    • Merluza cresceu em regiões estratégicas. O peixe apresentou aumento de vendas no Interior de São Paulo, Nordeste e região Leste (Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro) — áreas onde a espécie já tinha participação expressiva.
    • Pescada aumentou 42,5% no Brasil. A espécie se destacou com crescimento robusto em praticamente todo país. Só não emplacou no Centro-Oeste, onde o preço médio mais elevado limitou as vendas.
    • Sardinha em queda, mesmo sendo a mais barata. Apesar de ter o menor preço por quilo, a sardinha registrou recuo na maioria das regiões. As exceções foram São Paulo, Nordeste e Centro-Oeste, onde o produto manteve relevância.

    O que esperar daqui pra frente?

    Com a inflação das proteínas tradicionais ainda pressionando o orçamento familiar, especialistas acreditam que o consumo de pescados deve continuar em alta. A tilápia, especialmente, consolidou seu espaço como alternativa viável e acessível no dia a dia do brasileiro.

    Pra quem trabalha com varejo ou indústria de alimentos, fica o alerta: o consumidor brasileiro está mais atento aos preços e disposto a mudar hábitos quando necessário. E os peixes vieram pra ficar, não só na Páscoa, mas no cardápio do ano inteiro.

  • Comunidades ribeirinhas trocam alimentação tradicional por produtos industrializados

    Comunidades ribeirinhas trocam alimentação tradicional por produtos industrializados

    Ribeirinhos da Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, consomem cada vez menos peixe, farinha de mandioca e frutas locais. No lugar desses alimentos tradicionais, arroz branco, macarrão instantâneo, refrigerantes e óleo vegetal dominam a mesa das famílias. Um estudo do Instituto de Biociências (IB) da USP documenta essa transformação radical e aponta consequências graves para a saúde e a cultura dessas comunidades.

    A bioantropóloga Mariana Inglez conduziu a pesquisa entre 2019 e 2023, conquistando o prêmio Tese Destaque USP na categoria Inclusão Social e Cultural. Os números revelam uma mudança drástica: o consumo de gorduras provenientes de alimentos comprados saltou de 21% para 71% em duas décadas. Proteínas e carboidratos industrializados também triplicaram na dieta local.

    Nutricídio ameaça identidade cultural

    O termo “nutricídio” define esse processo. O médico Llaila O Afrika criou o conceito em 1993 para descrever como populações marginalizadas perdem acesso a uma alimentação saudável. A pesquisa mostra que essa perda vai além da nutrição e atinge a identidade cultural.

    “Quando falo nessa transição nutricional, estou falando da substituição de alimentos que fazem parte da identidade de um povo, que têm uma relação com o ambiente e uma relação com aspectos simbólicos, culturais e afetivos. Geralmente são alimentos muito mais saudáveis”, explica Mariana ao Jornal da USP.

    Mara, moradora de uma das comunidades estudadas, confirma a mudança. “Antes a gente consumia basicamente alimentos naturais, por exemplo, o peixe que a gente pescava, a caça, a farinha que produzimos aqui mesmo. No café da manhã, tomava com uma farinha de tapioca ou uma tapioquinha. Hoje em dia, houve um avanço na questão da alimentação industrializada”, relata. O Jornal da USP optou por não identificar seu sobrenome e a comunidade onde vive para preservar sua segurança e privacidade.

    Mulheres sofrem mais com transição alimentar

    Mariana analisou 177 participantes entre adultos, jovens e crianças. Todos ganharam peso nas últimas duas décadas, mas as mulheres enfrentam os piores impactos. Elas apresentam maior risco de desenvolver hipertensão, obesidade e diabetes.

    “Geralmente as mulheres deixam ‘as melhores partes’ para os parceiros e para as crianças. Então, são as primeiras que vão enfrentar a insegurança alimentar e aí, consecutivamente, as que mais vão consumir alimentos ultraprocessados, que não têm tanto poder nutritivo, mas que são mais calóricos”, afirma a pesquisadora.

    Políticas públicas inadequadas agravam problema

    A pesquisa aponta falhas nas políticas de alimentação. Cestas básicas distribuídas às comunidades contêm majoritariamente ultraprocessados, incompatíveis com a cultura alimentar ribeirinha. A merenda escolar repete o erro, contrariando as orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB).

    O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP desenvolveu o guia em 2014, junto com o Ministério da Saúde. O documento orienta profissionais e políticas públicas sobre alimentação saudável, mas suas recomendações não chegam adequadamente às comunidades tradicionais.

    A pandemia de covid-19 agravou a insegurança alimentar. A crise interrompeu cadeias de abastecimento e fontes de renda locais. “Os povos tradicionais, negros, afro-indígenas, ribeirinhos e periféricos foram grupos mais vulneráveis durante a pandemia”, diz Mariana. Para ela, o sistema atual perpetua desigualdades que começaram na prática colonial.

    Mudanças climáticas reduzem disponibilidade de alimentos locais

    A crise climática adiciona mais um obstáculo. Chuvas diminuem, temperaturas sobem e a produção agrícola encolhe. Os rios oferecem menos peixes. As comunidades encontram cada vez mais dificuldade para depender exclusivamente dessas fontes.

    Foto: Mariana Inglez/ Jornal da USP

    “Hoje em dia o feijão que vem é industrializado, mas antes a gente comia o feijão que plantávamos, [atualmente] raramente se planta aqui na nossa comunidade”, conta Mara.

    Ribeirinhos ainda preferem alimentação tradicional

    Mariana comparou seus dados com informações coletadas entre 2002 e 2009 por Bárbara Piperata, referência em antropologia nutricional na Amazônia. A pesquisadora conviveu diretamente com as comunidades durante quatro anos e constatou que a preferência local permanece inalterada.

    “Existe uma percepção local do que é uma comida de verdade que faz bem para a saúde, e não é comida ultraprocessada. Então, quando existe a possibilidade de escolher, vão comer um peixe cozido com farinha”, afirma.

    A tese “Transição nutricional em comunidades ribeirinhas da Amazônia brasileira: ‘escolhas’ entre alimentos tradicionais e industrializados na região de Caxiuanã, Pará, Brasil” defende uma abordagem biocultural. O professor Rui Sérgio Sereni Murrieta orientou o trabalho no Programa de Pós-Graduação em Ciências (Genética e Biologia Evolutiva) do IB-USP.

    A pesquisa integra dimensões biológicas, socioculturais, econômicas e ambientais para compreender alimentação, saúde e modos de vida na região. Adota um ponto de vista decolonial que valoriza a vivência das populações ribeirinhas e as coloca no centro do debate sobre saúde humana e ambiental.

    Por Mariana Inglez/Jornal da USP

  • Tarifa dos EUA derruba exportações de peixe brasileiro

    Tarifa dos EUA derruba exportações de peixe brasileiro

    As novas tarifas de importação que os Estados Unidos impuseram aos produtos da piscicultura brasileira provocaram um tombo nas exportações do setor. No terceiro trimestre de 2025, a receita com as vendas externas encolheu 28% na comparação com o mesmo período de 2024. Em volume, a queda foi de 26%, segundo o Informativo de Comércio Exterior da Piscicultura, publicado pela Embrapa Pesca e Aquicultura em parceria com a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR).

    Diego Vargas / Seapa MG

    O período de julho a setembro registrou os piores resultados do ano, com o Brasil exportando pouco menos de 3.000 toneladas de peixe. Os números mensais mostram uma queda acentuada logo após o início da tarifa em agosto. As exportações, que foram de 1.390 toneladas (US$ 5,7 milhões) em julho, despencaram para pouco mais de 800 toneladas (US$ 3,9 milhões) em agosto e chegaram a menos de 780 toneladas (US$ 3,7 milhões) em setembro.

    Queda é mais acentuada no principal mercado

    O impacto foi ainda mais severo nos Estados Unidos, principal destino da piscicultura brasileira, onde as vendas caíram 32%. A tilápia responde por 99% dessas exportações. Manoel Pedroza, pesquisador da Embrapa e responsável pelo relatório, explica que especialistas esperavam uma queda maior, mas algumas empresas mantiveram parte das vendas mediante negociações com importadores norte-americanos.

    “No entanto, alguns exportadores afirmam não ser possível manter essas negociações no longo prazo. Caso o ‘tarifaço’ continue, é provável que haja uma redução maior nas vendas no último trimestre de 2025”, contextualiza Pedroza. A tarifa sobre o pescado brasileiro saltou de 10% para 50%.

    Concorrência interna e busca por novos mercados

    Além do desafio externo, o setor também enfrenta uma ameaça interna. O relatório destaca a importação de filé de tilápia do Vietnã, que totalizou US$ 195 mil e 48 toneladas. Parte desse produto chegou ao Brasil ao preço de R$ 16,70/kg, valor bem inferior aos R$ 31,00 praticados pelo filé de tilápia nacional.

    Enquanto isso, a busca por mercados alternativos esbarra em dificuldades. “Os exportadores tentam buscar novos mercados, mas isso leva tempo. É difícil encontrar outros países que absorvam o mesmo volume de tilápia que era exportado para os Estados Unidos, principalmente considerando que o mercado europeu continua fechado para o pescado do Brasil”, projeta Manoel Pedroza. O futuro do setor, portanto, depende diretamente da manutenção ou revogação das tarifas norte-americanas.

  • Brasil é 4º maior produtor mundial de tilápia

    Brasil é 4º maior produtor mundial de tilápia

    O Brasil ocupa a quarta posição no ranking mundial de produção de tilápia, segundo a Associação Brasileira de Piscicultura. A espécie representa 63,5% de toda a produção nacional de peixes cultivados e conquista cada vez mais espaço no mercado brasileiro.

    O cultivo comercial de tilápias ganhou força no Nordeste durante a década de 90. O Ceará lidera o consumo da espécie na região, beneficiado pela produção natural nos reservatórios públicos estaduais. O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) realiza o povoamento desses reservatórios.

    “A primeira tilápia que trouxemos para nossa região veio do Sudeste do país, mas ela não crescia muito e nem era produtiva”, conta Pedro Eymard, chefe do Centro de Pesquisas em Aquicultura Rodolpho von Ihering. Em 2002, Eymard e o engenheiro de pesca José Ilton Moura viajaram até a Tailândia, onde passaram 18 dias em treinamento com técnicos japoneses e tailandeses. “Trouxemos de lá a tilápia nilótica com um material genético mais preservado e que cresce bem mais que as outras”, explica.

    O Centro de Pesquisas mantém uma unidade de reversão de sexo de tilápia e outra para preservação da linhagem tailandesa.

    Propriedades nutricionais atraem consumidores conscientes

    A tilápia apresenta sabor suave, cor branca, ausência de odor forte e baixo teor de gordura. O peixe contém alta quantidade de proteínas e mínima presença de carboidratos, características que o tornam aliado de quem busca ganhar massa magra e perder peso.

    A espécie também fornece vitaminas A, B e D, além de minerais como cálcio, ferro e zinco. Esses nutrientes melhoram a saúde de dentes e ossos, ajudam a prevenir doenças cardiovasculares, oferecem ação antioxidante e regeneram músculos e tecidos.

    O peixe possui ainda ácido DHA, um ácido graxo tipo ômega-3 que beneficia a saúde cerebral e protege contra a ação degenerativa de radicais livres. A tilápia também facilita a digestão, previne inflamações e combate a prisão de ventre.

    Pele de tilápia revoluciona tratamento de queimaduras

    Em 2015, médicos e pesquisadores cearenses descobriram que a pele da tilápia funciona como curativo para queimaduras de 2º e 3º graus. O tratamento acelera o processo de cicatrização e diminui a dor dos pacientes.

    “A grande vantagem da pele da tilápia, em relação ao tratamento convencional da rede pública brasileira, é que essa pele adere ao leito da ferida, evitando contaminação do meio externo para a lesão”, explica o médico Edmar Maciel Lima Júnior, coordenador geral da pesquisa. “Isso impede que o paciente perca líquido e fique desidratado. Com a pele, os profissionais também evitam as trocas diárias de curativo que são extremamente dolorosas pro paciente.”

    O material passa por um processo de preparo e esterilização com enzimas. “A pele é desidratada, embalada a vácuo e radiada em São Paulo, em um aparelho gama cobalto”, detalha Edmar. Após os testes, o produto fica pronto para uso na pesquisa e possui validade de dois anos e meio.

    Paciente relata recuperação completa sem cicatrizes

    O caseiro Pedro Silva vivenciou os benefícios do tratamento há cerca de sete anos. Ele sofreu uma queimadura grave na perna esquerda durante um acidente doméstico. “Eu estava preparando a janta, escutei um barulho de gás saindo no botijão e fui olhar, daí começou a sair fogo”, relembra.

    Pedro recebeu atendimento hospitalar e conheceu o médico Edmar, que aplicou as peles de tilápia na região afetada. “Fui pra casa e me recuperei totalmente. Hoje não tenho nenhuma sequela e nem cicatriz”, comemora.

    O coordenador da pesquisa revela que a pele de tilápia liofilizada apresenta sucesso em diversos tratamentos. “Funciona em queimaduras e feridas em animais, já usamos na odontologia para lesões de cavidade oral e obtivemos sucesso total na ginecologia, na reconstrução de pacientes que nascem sem vagina, além de várias outras áreas que já estudamos”, enumera Edmar.

    A tilápia comprova que seus benefícios vão muito além do valor nutricional, estabelecendo-se como uma solução inovadora na medicina brasileira.

  • Cobra pescadora é flagrada em gravação impressionante

    Cobra pescadora é flagrada em gravação impressionante

    Um vídeo de uma cobra comendo um peixe na margem de u m rio voltou a circular nas redes sociais, atraindo comentários engraçados e despertando a curiosidade. Afinal, cobra pesca e preda os peixes?

    Entre os comentários, muitas comparações com as habilidades da cobra em pescar, melhor que muito pescador. E o espanto com o tamanho do peixe em relação com a boca da sobra. Mas fica a dúvida, se esse vídeo mostra um comportamento normal na natureza. E a resposta é sim.

    Algumas cobras, especialmente as que vivem em ambientes aquáticos, como a cobra d’água, têm o costume natural de caçar peixes nas margens dos rios. Essa é uma prática comum dessas serpentes, que capturam suas presas com agilidade utilizando suas mandíbulas adaptadas para engolir presas maiores que suas cabeças. A alimentação das cobras é bastante diversificada. E inclui desde pequenos mamíferos, anfíbios, répteis, aves e, em ambientes aquáticos, peixes.

    Papel na cadeia alimentar

    As cobras predadoras de peixes desempenham um papel fundamental na cadeia alimentar, ajudando a controlar a população de peixes jovens e outras presas aquáticas, o que contribui para o equilíbrio dos ecossistemas. Além de serem predadoras, essas cobras também são presas naturais de aves de rapina como águias, corujas e gaviões. Isso além de outros predadores terrestres. Esse fato as coloca em um papel importante tanto como consumidoras quanto como alimento dentro da teia alimentar.

    Esse comportamento, observado no vídeo da cobra predando um peixe na margem do rio, é perfeitamente normal e representa uma interação natural e necessária para a manutenção do equilíbrio ambiental. As cobras ajudam a evitar o crescimento excessivo de espécies aquáticas que poderiam desequilibrar o ecossistema. Já as aves e outros predadores que se alimentam das cobras também contribuem para esse equilíbrio, formando uma cadeia alimentar complexa e sustentável.

  • Avaliação por inteligência artificial indica nível de estresse de tambaquis

    Avaliação por inteligência artificial indica nível de estresse de tambaquis

    Pesquisadores da Unesp com colaboração da Embrapa desenvolvem ferramenta que pode ser usada para aumentar bem-estar animal ao avaliar tambaquis por meio da coloração da metade inferior do corpo; Brasil é o maior produtor mundial da espécie

    Um grupo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal, em colaboração com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveu uma ferramenta de inteligência artificial (IA) para avaliar o estresse do tambaqui (Colossoma macropomum), peixe nativo mais produzido no Brasil. O estudo foi publicado na revista Aquaculture.

    Os resultados podem ter impacto tanto para o aumento do bem-estar dos animais quanto para a seleção de exemplares mais tolerantes ao ambiente de cultivo. O tambaqui é uma espécie amazônica cultivada sobretudo nos Estados da região Norte. O Brasil é o maior produtor mundial da espécie, fornecendo 110 mil toneladas em 2022 (leia mais em: agencia.fapesp.br/54167 e agencia.fapesp.br/37902).

    “Primeiro verificamos que, em uma condição estressante, ou seja, em um ambiente mais confinado do que o normal, os peixes ficavam mais escuros. Depois, que a adição de um hormônio ligado ao estresse também alterava a coloração nas escamas. Então treinamos um software com mais de 3 mil imagens para chegarmos num limiar de estresse que pudesse orientar piscicultores e programas de seleção genética, pois vimos que essa é uma característica herdável”, explica Diogo Hashimoto, professor do Centro de Aquicultura da Unesp (Caunesp), que coordenou o estudo.

    Celma Lemos

    O trabalho tem como primeira autora Celma Lemos, que realiza doutorado na instituição, e integra projeto apoiado pela FAPESP no âmbito de um acordo com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

    Para desenvolver a ferramenta, os pesquisadores fotografaram 3.780 tambaquis de duas populações. Uma do Caunesp (1.280 indivíduos) e outra da Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas, no Tocantins (2.500 indivíduos). E contou com a colaboração da equipe coordenada pela pesquisadora Luciana Shiotsuki.

    Em seguida, cada imagem teve marcada a região que deveria ser avaliada pelo software, a metade inferior do corpo. O contraste com a coloração da parte superior é bastante comum em peixes, provavelmente um atributo da seleção natural, que resultou numa espécie de camuflagem. O “countershading”, como é chamado em inglês, pode ser observado, por exemplo, em tubarões, que têm o ventre mais claro do que as costas.

    Os pesquisadores treinaram então um modelo de aprendizado profundo (deep learning) para chegar a um limiar que indica, pelo número de pixels pretos em relação aos brancos da imagem, o grau de estresse dos tambaquis.

    Uma vez que os exemplares do Tocantins tinham sido marcados quanto à sua ascendência, foi possível saber quanto a característica pode ser passada adiante. “Calculamos que a tolerância ao estresse é uma característica moderada a altamente herdável. Isso se reflete em ganho de peso e tolerância a doenças. Abrindo caminho para termos gerações com cada vez mais bem-estar em ambiente de cultivo”, avalia Hashimoto.

    Mecanismos fisiológicos

    A mudança na coloração sob estresse é uma característica encontrada em diversas espécies de peixe, mas ainda não havia sido comprovada no tambaqui. No caso das que se tornam mais escuras à medida que estão mais estressadas, como a tilápia (Oreochromis niloticus), um hormônio envolvido no estresse promove a expansão dos melanóforos, células que, a olho nu, são pequenas pintas pretas.

    Para comprovar o efeito no tambaqui, os pesquisadores coletaram escamas de seis indivíduos, da população de Jaboticabal, e as mergulharam em duas soluções. Numa delas, havia uma solução neutra e o α-MSH, uma versão do hormônio estimulante de melanóforos. Na outra, apenas a solução neutra. Depois de 30 minutos, os autores observaram que as banhadas no hormônio estavam mais escuras, com os melanóforos expandidos.


    Escamas antes e depois de 30 minutos mergulhadas em solução com hormônio ligado a estresse: indicado pela seta, expansão de melanóforos gera coloração mais escura (foto: Celma Lemos/Caunesp</em>)</p>

    Em outro experimento, seis tambaquis foram retirados dos tanques normais de criação, de 200 metros quadrados, fotografados e divididos em três reservatórios redondos muito menores, de 2 mil litros (85 centímetros de altura e 1,66 metro de diâmetro). Depois de dez dias, foram novamente fotografados e a diferença de coloração era evidente, confirmando que a espécie também fica mais escura à medida que se estressa.

    “A ferramenta de IA pode ser usada para monitorar o estresse dos peixes cultivados, num momento em que se cobra cada vez mais bem-estar animal. Apenas avaliando as fotos dos animais, seria possível obter essa medida e melhorar as práticas quando necessário, como reduzir o número de indivíduos por tanque, por exemplo”, diz o pesquisador.

    Por André Julião | Agência FAPESP

  • O panga no Brasil: um peixe de sabor suave e mercado em expansão

    O panga no Brasil: um peixe de sabor suave e mercado em expansão

    O peixe panga, originário do Vietnã, tem conquistado espaço no mercado brasileiro nos últimos anos. Conhecido por sua carne branca, sabor suave e ausência de espinhas, ele se tornou uma opção atraente tanto para consumidores quanto para produtores.

    Com alto rendimento de filé – cerca de 40% a mais que outras espécies – e capacidade de ser cultivado em alta densidade, o panga surge como uma alternativa viável para impulsionar a piscicultura nacional.

    Por que ele se destaca?

    • Carne branca e sem espinhas: facilita o processamento e atrai consumidores que buscam praticidade.
    • Sabor suave e textura firme: versátil na culinária, adaptando-se bem a diversos pratos.
    • Alto rendimento de filé: chega a 40% a mais em comparação a outras espécies, aumentando a lucratividade.
    • Respiração aérea: pode ser cultivado em alta densidade, triplicando a produção sem a necessidade de novos viveiros.
    • Rico em ômega-3: atende à demanda por alimentos saudáveis .

    Produção

    Apesar de ainda depender de importações, o Brasil começa a estruturar sua produção. O primeiro frigorífico exclusivo para o panga nas Américas foi inaugurado em Mococa, São Paulo, com capacidade para movimentar R$ 300 milhões por ano. Enquanto isso, estados como o Maranhão já registram crescimento de 74% na produção em 2024, mostrando o potencial da espécie no Nordeste.

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    No entanto, o setor enfrenta desafios. A falta de regulamentação específica pelo Ibama e a carência de indústrias de processamento no Nordeste limitam a expansão. Além disso, o consumo de peixe no Brasil ainda é baixo – menos de 5 kg por pessoa ao ano –, mas a tendência por alimentos saudáveis pode impulsionar a demanda.

    Com investimentos e políticas adequadas, o panga pode se consolidar como uma das principais espécies da aquicultura brasileira, reduzindo a dependência de importações e abrindo novas oportunidades para produtores e comerciantes. O caminho está traçado, e o futuro desse peixe no país parece promissor.

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  • Guia de pesca captura piraíba gigante no Rio Araguaia

    Guia de pesca captura piraíba gigante no Rio Araguaia

    O Rio Araguaia, em Luiz Alves (GO), ofereceu mais uma vez o cenário perfeito para uma captura histórica. Caiuã Carvalho, pescador esportivo e guia de pesca de 27 anos, conseguiu fisgar um exemplar gigante de piraíba de 206 centímetros durante um momento de lazer.

    O jovem goiano transformou a experiência pessoal em uma lição valiosa sobre preservação ambiental. “Capturar esse peixe é uma sensação indescritível! Só vivendo aquilo, ali mesmo, para saber”, declarou Caiuã em entrevista à Fish TV.

    Estratégia e paciência definem o sucesso

    A pescaria começou de forma modesta pela manhã. Caiuã e sua equipe focaram apenas nos pequenos exemplares. A tarde trouxe mudança de estratégia: a busca pelos gigantes do Araguaia começou.

    “Em cada ponto, ficamos por volta de uma hora ou mais, esperando pelos peixes”, explicou o pescador. A paciência compensou no segundo ponto visitado. Após cerca de meia hora de espera, o peixe gigante apareceu.

    O exemplar de piraíba impressiona pelas dimensões. Segundo estimativa do experiente pescador, o peixe deve pesar entre 100kg e 120kg. As imagens da captura rapidamente viralizaram nas redes sociais e emocionaram entusiastas da pesca esportiva.

    Mensagem de conscientização ambiental

    Caiuã aproveitou a repercussão para reforçar princípios da pesca sustentável. O guia destacou a importância de devolver os peixes ao seu habitat natural.

    “Quando soltamos um peixe desses, garantimos que ele continue fazendo parte do ecossistema”, afirmou. “Ele ajuda a manter o rio vivo e equilibrado.”

    O pescador deixou um recado direto para a comunidade: “Experimente! Sinta a emoção da captura, registre o momento, e solte o peixe com respeito.”

    Araguaia consolida posição como destino premium

    O Rio Araguaia confirma sua reputação como um dos melhores locais de pesca do Brasil. A região atrai pescadores esportivos de todo o país em busca de exemplares únicos.

    “Você vai perceber que o verdadeiro valor não está em levar, mas em viver aquela experiência”, concluiu Caiuã. “A pesca esportiva é respeito e paixão!”

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  • Pirarucu: peixe gigante da Amazônia pode “morrer afogado”

    Pirarucu: peixe gigante da Amazônia pode “morrer afogado”

    O pirarucu (Arapaima gigas), conhecido como o maior peixe de água doce com escamas do mundo, pode atingir até 3 metros de comprimento e pesar 200 kg. Nativo da Bacia Amazônica, esse gigante habita lagos e rios de águas calmas e temperaturas entre 24°C e 37°C, evitando correntezas fortes e águas turvas.

    Pirarucu
    Foto – Simone Yokoyama/Embrapa

    Mas uma das características mais intrigantes do pirarucu é sua respiração peculiar: ele pode, literalmente, “morrer afogado” se for impedido de respirar ar atmosférico.

    Por que o pirarucu pode morrer afogado?

    De acordo com a pesquisadora Lucia Rapp, curadora da Coleção de Peixes do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o pirarucu passa por uma mudança radical em seu sistema respiratório conforme cresce.

    Na fase larval, o peixe possui brânquias, como a maioria dos peixes. A partir de 1 a 2 kg de peso, suas brânquias se atrofiam, e a bexiga natatória (órgão que ajuda na flutuação) se transforma em uma estrutura semelhante a um pulmão primitivo.

    Essa adaptação permite que o pirarucu absorva oxigênio tanto da água quanto do ar, mas ele precisa subir à superfície a cada 15-20 minutos para respirar. Se impedido de acessar o ar, o pirarucu sufoca, mesmo estando dentro d’água.

    Uma espécie em risco e de grande importância ecológica

    O pirarucu é vital para o ecossistema amazônico e também para a economia local, sendo alvo de pesca sustentável em algumas regiões. No entanto, a sobrepesca e a destruição de habitats ameaçam sua população.

    Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) mostram que projetos de manejo comunitário têm ajudado a recuperar estoques em áreas como a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, onde a espécie voltou a prosperar.

    Curiosidades sobre o pirarucu

    • Seu nome vem do tupi “pira” (peixe) + “urucum” (vermelho), devido à cor de sua cauda.
    • É um dos únicos peixes pulmonados do mundo, junto com espécies africanas como o peixe-pulmonado.
    • Sua carne é muito valorizada, com baixo teor de gordura e alto valor proteico.

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