O fenômeno El Niño ganhou força nas últimas semanas e agora tem 81% de probabilidade de atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026, segundo projeção divulgada nesta quinta-feira (9) pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos.
Caso a previsão se confirme, este poderá ser o episódio mais intenso desde 1950, quando começaram os registros históricos utilizados pela agência.
A NOAA também estima 97% de chance de o El Niño permanecer ativo até junho de 2027, indicando impactos climáticos prolongados em diferentes regiões do planeta.
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.
Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global e influencia o regime de chuvas e temperaturas em diversos países, incluindo o Brasil.
Embora seus efeitos variem de um evento para outro, episódios mais intensos costumam aumentar a probabilidade de extremos climáticos.
Quais podem ser os impactos no Brasil?
Segundo a NOAA, um El Niño muito forte pode provocar mudanças significativas no clima brasileiro.
Entre os principais efeitos esperados estão:
aumento das chuvas no Centro-Sul;
períodos de seca mais prolongados no Norte;
redução das chuvas em áreas do Nordeste;
alterações nas condições de produção agrícola.
A agência ressalta, porém, que nem todos os impactos ocorrem da mesma forma em cada episódio. Mesmo em anos de El Niño intenso, fatores regionais podem modificar os efeitos observados.
China reforça medidas diante de eventos climáticos
Enquanto acompanha a evolução do El Niño, a China intensifica ações preventivas diante da previsão de novos eventos climáticos severos.
Cerca de 17 mil moradores foram retirados de áreas de risco na província de Zhejiang, enquanto Pequim e Tianjin reforçaram os sistemas de alerta para reduzir os riscos à população.
O governo chinês enviou aproximadamente 50 mil itens de ajuda humanitária às províncias de Zhejiang e Fujian, incluindo camas dobráveis, cobertores e kits de emergência.
O presidente Xi Jinping pediu empenho máximo nas operações de resgate e assistência às famílias afetadas, segundo informações divulgadas pela agência estatal Xinhua.
Além disso, um tornado registrado na província de Hubei deixou 11 mortos e uma pessoa desaparecida, provocando destruição de residências, fábricas e infraestrutura.
Fenômeno segue sendo monitorado
Os próximos meses serão decisivos para confirmar a intensidade do El Niño prevista pela NOAA.
Se o cenário se mantiver, o fenômeno poderá influenciar o clima global durante boa parte de 2027, afetando a agricultura, os recursos hídricos e a ocorrência de eventos climáticos extremos em diferentes regiões, inclusive no Brasil.
O alerta começa no prato. Arroz, óleos vegetais, açúcar, milho, trigo e até o café podem entrar no radar de pressão nos preços caso o El Niño se confirme nos próximos meses.
O Banco Mundial estima uma probabilidade de 61% a 87% de formação do fenômeno entre meados de 2026 e 2027, com risco direto para a produção agrícola em áreas sensíveis da Ásia, da África e de parte do Leste Asiático.
O dado mais preocupante envolve o arroz. Segundo o Banco Mundial, a produção pode cair de 20% a 50% nas regiões mais afetadas pelo fenômeno. Isso acende um sinal amarelo para países dependentes do cereal e também para o mercado internacional de alimentos.
Quais alimentos podem ficar mais caros
O arroz aparece como o alimento mais vulnerável no alerta do Banco Mundial. A razão é simples: boa parte da produção mundial depende de regimes de chuva regulares, especialmente na Ásia. Quando o El Niño altera esse equilíbrio, algumas regiões enfrentam seca, enquanto outras sofrem com chuvas fora de hora.
Foto: Seapa/MG
Além do arroz, outros produtos também podem sentir os efeitos do fenômeno. Óleos vegetais, açúcar, milho, trigo e café entram no radar porque dependem de clima estável em fases decisivas da lavoura.
Uma seca no momento errado, por exemplo, pode reduzir a produtividade. Chuva excessiva na colheita também pode comprometer qualidade e oferta.
No caso do açúcar, o risco passa por países importantes na produção de cana. Já os óleos vegetais dependem fortemente da oferta de palma, soja e outras oleaginosas. Por isso, qualquer quebra relevante em países produtores pode mexer com os preços globais.
Por que o Banco Mundial acendeu o alerta
O El Niño não age sozinho. Esse é o ponto central do alerta.
O Banco Mundial afirma que o risco climático aparece em um momento de custos ainda elevados para o produtor. Na atualização mais recente sobre segurança alimentar, a instituição informou que os preços dos fertilizantes subiram 35% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mesmo com algum alívio nas últimas semanas, o mercado ainda não se estabilizou.
Foto: Divulgação AGCO
Na prática, isso significa que muitos agricultores entram na temporada com menos margem para reagir. Se o fertilizante fica caro, parte dos produtores reduz a aplicação. Quando isso se soma a seca, calor ou excesso de chuva, o impacto aparece mais tarde, na colheita.
Além disso, conflitos geopolíticos, custos de energia e gargalos logísticos continuam pressionando o mercado global de alimentos. Por isso, uma nova rodada de El Niño pode atingir um sistema que já opera sob tensão.
O que é o El Niño
O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal. Essa mudança altera a circulação dos ventos e mexe com o regime de chuvas em várias partes do planeta.
Em algumas regiões, o fenômeno aumenta o risco de seca. Em outras, provoca chuva excessiva. Para a agricultura, o problema está justamente nessa quebra de padrão.
A lavoura precisa de água no momento certo. Também precisa de temperatura adequada durante florescimento, enchimento de grãos e colheita. Quando o clima foge do roteiro, o produtor perde previsibilidade.
Como isso pode afetar o Brasil
Foto: PH Lopes/ Agro em Campo
O Brasil não aparece como o centro do alerta do Banco Mundial, mas não fica fora da conta.
Em anos de El Niño, o país costuma registrar mudanças importantes no clima. O Sul tende a enfrentar mais chuva, enquanto partes do Norte e do Nordeste podem sofrer com calor e seca. No Centro-Oeste e no Sudeste, os efeitos variam conforme a intensidade do fenômeno e a época do ano.
Para o agro brasileiro, isso pode afetar soja, milho, café, cana, arroz e pecuária. O impacto não é automático, mas o risco aumenta quando o fenômeno coincide com fases sensíveis da safra.
No café, por exemplo, calor intenso e irregularidade nas chuvas podem prejudicar florada e formação dos grãos. No milho, a falta de água durante o desenvolvimento reduz produtividade. Já no arroz, excesso ou falta de chuva pode comprometer plantio, manejo e colheita.
O bolso sente antes da estatística
O consumidor normalmente percebe a crise climática quando ela chega ao supermercado.
Primeiro, o produtor enfrenta perda de produtividade. Depois, a indústria paga mais pela matéria-prima. Em seguida, o varejo repassa parte desse aumento. Nem sempre o movimento é imediato, mas ele costuma aparecer quando a quebra de safra atinge produtos básicos ou cadeias muito dependentes de importação.
Por enquanto, o mercado global ainda tem algum alívio em grãos como milho e trigo, favorecidos por boas safras em algumas regiões. Mesmo assim, o Banco Mundial afirma que os riscos seguem inclinados para novas pressões, principalmente se o El Niño se confirmar e afetar países produtores ao mesmo tempo.
O alimento mais sensível é o arroz
Entre todos os produtos citados, o arroz merece atenção especial.
O cereal é base alimentar em países populosos da Ásia e da África. Também tem forte peso social, porque qualquer alta costuma atingir diretamente famílias de menor renda. Se a produção cair nas regiões mais expostas, governos podem restringir exportações para proteger o mercado interno.
Quando isso acontece, o preço internacional sobe. Foi assim em outras crises recentes de alimentos. O país produtor tenta segurar oferta doméstica, mas o mercado global sente a redução do volume disponível.
É por isso que o alerta do Banco Mundial sobre queda potencial de 20% a 50% na produção de arroz em áreas afetadas chama tanta atenção. Não se trata apenas de uma estatística agrícola. É um risco para a segurança alimentar.
O que observar nos próximos meses
Os próximos meses serão decisivos para confirmar a intensidade do fenômeno e seus impactos sobre as safras.
Se o El Niño ganhar força, o mercado deve acompanhar de perto a produção de arroz na Ásia, o comportamento das monções, a oferta de óleos vegetais, a safra de cana em países relevantes e o desenvolvimento de culturas como milho, trigo e café.
No Brasil, o produtor também terá de olhar para o céu com mais cuidado. O país tem tecnologia, escala e experiência para lidar com variações climáticas. Ainda assim, quando o clima muda rápido demais, até sistemas bem preparados sentem o baque.
O alerta do Banco Mundial não significa que todos esses alimentos vão subir ao mesmo tempo. Mas mostra que o risco aumentou. E, quando o clima mexe com arroz, grãos, açúcar e óleos vegetais, o impacto raramente fica restrito ao campo.
As mudanças climáticas têm alterado de forma significativa a rotina no campo. Secas prolongadas, chuvas irregulares e variações bruscas de temperatura impactam diretamente o planejamento das safras. Diante desse cenário, cresce o uso de máquinas inteligentes e tecnologias embarcadas para apoiar o produtor rural.
Essas soluções já fazem parte da chamada agricultura de precisão. Elas permitem maior controle das operações, uso mais eficiente de insumos e tomada de decisão mais rápida. Como resultado, o produtor consegue reduzir perdas e melhorar o desempenho das lavouras mesmo em condições adversas.
Além disso, a conectividade no campo amplia a capacidade de monitoramento em tempo real. Isso facilita o ajuste das operações conforme o clima muda ao longo do ciclo produtivo.
Tecnologia amplia eficiência e reduz desperdícios
Entre as principais ferramentas utilizadas estão piloto automático, telemetria, monitoramento remoto, controle de seções e aplicação em taxa variável. Esses recursos ajudam a adequar o manejo às características de cada área da propriedade.
Com isso, há redução de sobreposição de insumos e menor desperdício de sementes, fertilizantes e defensivos. Ao mesmo tempo, o produtor ganha precisão nas operações e melhora o aproveitamento dos recursos disponíveis.
Outro ponto relevante é a geração de dados pelas máquinas conectadas. Essas informações permitem analisar o desempenho das operações e planejar as próximas safras com mais segurança.
De acordo com Lucas Zanetti, gerente de Marketing de Produto da Massey Ferguson, a tecnologia tem papel direto na adaptação da agricultura às mudanças climáticas.
“As tecnologias embarcadas nas máquinas agrícolas permitem transformar dados em inteligência, ajudando a otimizar recursos, aumentar a eficiência operacional e reduzir riscos ao longo do ciclo produtivo”, afirma.
Agricultura de precisão fortalece resiliência no campo
Segundo o especialista, o uso dessas ferramentas já se tornou estratégico para o setor. A combinação entre automação, conectividade e análise de dados amplia a capacidade de resposta do produtor diante das variações do clima.
“Quando utilizamos recursos como aplicação em taxa variável, piloto automático e monitoramento remoto, conseguimos produzir de forma mais eficiente, reduzindo desperdícios e aproveitando melhor cada janela de operação. Isso contribui não apenas para a rentabilidade do produtor, mas também para uma agricultura mais resiliente diante das mudanças climáticas”, destaca.
A Massey Ferguson tem ampliado seu portfólio de soluções digitais para apoiar a gestão das propriedades rurais. A integração entre máquinas e plataformas de monitoramento permite uma visão mais completa da operação.
Dessa forma, o produtor consegue tomar decisões mais estratégicas ao longo do ciclo produtivo. Além disso, melhora a eficiência operacional e reduz riscos associados ao clima.
“A tecnologia é uma das principais aliadas da agricultura para enfrentar os desafios do presente e do futuro. Quanto mais informações o produtor tiver sobre sua operação, maior será sua capacidade de se adaptar às condições climáticas, preservar recursos e manter altos níveis de produtividade”, conclui Zanetti.
A cidade de Piracicaba (SP) recebeu na última terça-feira (23) o Fórum de Agricultura Regenerativa 2026, que colocou em debate a relação entre produção agrícola, preservação ambiental e financiamento de práticas sustentáveis. O encontro, realizado pela primeira vez no Brasil, reuniu 350 participantes presenciais e mais de 3 mil conectados online, com representantes de mais de 20 países entre produtores rurais, cientistas, investidores e formuladores de políticas públicas.
O evento discutiu caminhos para ampliar a adoção de modelos produtivos baseados na regeneração do solo, conservação da biodiversidade e fortalecimento da segurança alimentar. O tom das falas foi de alerta sobre a necessidade de acelerar a transição no campo, diante de desafios climáticos, econômicos e regulatórios.
Ensino, políticas públicas e lacunas estruturais
Um dos pontos centrais do debate foi a crítica à formação acadêmica e à ausência de políticas públicas mais robustas para incentivar a agricultura regenerativa.
A diretora estratégica para a América Latina na Naia Trust, Analí Bustos, afirmou que há um descompasso entre ensino e prática no setor. “Quando descobri que no meu país e na maior parte do mundo os estudantes de agronomia ou agricultura não estudam ecologia, fiquei espantada. Para mim, não existe agro sem ecologia e não pode existir ensino de agronomia sem ecologia”, disse.
A especialista também defendeu maior participação do poder público na transição. “Faltam políticas públicas e incentivos para uma maior adoção da agricultura regenerativa. É essencial que seja promovido um cenário mais favorável, com benefícios e crédito, para que haja interesse por parte dos produtores”, completou.
Brasil no centro do debate global sobre alimentos
Outro ponto de destaque foi o papel estratégico do Brasil no cenário agrícola internacional. O cientista e ex-CEO do Crop Trust, Geoffrey Hawtin, afirmou que o país tende a ganhar ainda mais relevância na produção de alimentos.
“O Brasil é um dos países agrícolas mais importantes do mundo, e provavelmente se tornará ainda mais importante”, declarou. Segundo ele, mudanças climáticas podem alterar a dinâmica global de produção e consumo. “Podemos ver ao longo do tempo uma necessidade de transformação em parte dos mercados de exportação, destinando menos à pecuária intensiva e mais à alimentação humana direta”, afirmou.
O especialista também reforçou a necessidade de cooperação em diferentes níveis para avançar na agenda sustentável.
Aumento de insumos e desafio da transição
Dados apresentados durante o fórum indicaram preocupações com o uso crescente de defensivos agrícolas no mundo. O cientista-chefe da CABI, Ulrich Kuhlmann, citou aumento de 70% no uso de agrotóxicos entre 2000 e 2023, segundo dados da FAO.
“O aumento do uso de agrotóxicos no mundo de 2000 a 2023 foi de 70%, segundo dados da FAO, e isto é muito preocupante”, afirmou. Para ele, a agricultura regenerativa pode ser uma alternativa viável, mas ainda enfrenta barreiras econômicas e estruturais.
Kuhlmann destacou a falta de retorno financeiro claro ao produtor como um dos entraves à adoção de novas práticas. Ele também citou limitações da extensão rural e sugeriu o uso de ferramentas digitais de assistência técnica como alternativa para ampliar o acesso ao conhecimento.
Mudança de paradigma no campo
A diretora de Sustentabilidade da Daterra, Isabela Pascoal Becker, defendeu uma revisão na forma como a sociedade enxerga o setor agrícola.
“É essencial que enxerguemos a agricultura como parte da natureza, não como um vilão ou algo separado”, afirmou. Para ela, a mudança precisa ser estrutural e envolver toda a cadeia produtiva.
O fórum foi promovido pelo Global Landscapes Forum (GLF), pela Sustainable Agriculture Network (SAN), pelo Imaflora e pelo CABI BioProtection Portal. O encontro teve transmissão em quatro idiomas e contou com apoio institucional e do setor privado.
A confirmação de um novo episódio de El Niño para o segundo semestre de 2026 voltou a acender o alerta no mercado internacional de café.
Embora os impactos variem de acordo com a intensidade do fenômeno e das condições climáticas de cada região produtora, especialistas avaliam que o clima poderá influenciar a oferta global da commodity entre 2026 e 2027.
Segundo análise da Hedgepoint Global Markets, os efeitos do El Niño costumam ser diferentes entre os países produtores e dependem do estágio das lavouras quando o fenômeno ocorre.
Brasil deve escapar dos impactos imediatos
O Brasil, maior produtor e exportador mundial de café, não deve sofrer impactos diretos na safra 2026/27, segundo a projeção atual da consultoria.
Mesmo assim, um período mais chuvoso durante o outono e o inverno pode provocar atrasos na colheita e aumentar a volatilidade dos preços no mercado.
De acordo com Laleska Moda, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint, o monitoramento climático continua sendo fundamental para os próximos meses.
“Embora a produção da safra 2026/27 não deva ser afetada, o andamento da colheita e a fase de florada exigem atenção.”
Próxima safra pode enfrentar desafios
Os maiores riscos ainda estão ligados ao desenvolvimento da próxima temporada.
Isso porque alterações nos padrões de chuva e temperatura podem influenciar etapas decisivas para a formação dos grãos e para o potencial produtivo das lavouras.
O comportamento climático durante a florada será um dos fatores mais observados pelo mercado nos próximos meses.
América Central e Ásia estão entre as regiões mais vulneráveis
Fora do Brasil, os efeitos do El Niño podem ser mais significativos.
Segundo a Hedgepoint, importantes produtores da América Central e da Ásia apresentam maior risco de enfrentar problemas climáticos nas safras 2026/27 e 2027/28.
A preocupação aumenta diante da possibilidade de um evento forte entre o final de 2026 e o início de 2027.
Nessas regiões, mudanças no regime de chuvas e períodos prolongados de calor podem comprometer fases importantes do desenvolvimento das lavouras, reduzindo a produtividade e pressionando a oferta mundial de café.
Caso o fenômeno ganhe força nos próximos meses, o mercado poderá reagir antecipadamente às expectativas de menor produção em algumas das principais regiões produtoras do mundo.
As mudanças climáticas ampliaram os desafios enfrentados por milhões de crianças ao redor do mundo. Segundo um novo relatório do Unicef, mais de 1 bilhão de crianças já vivem sob a influência de três ou mais riscos climáticos simultâneos, o que impacta diretamente a saúde, a educação e as condições de sobrevivência.
O levantamento aponta que, com o agravamento da crise climática global, praticamente todas as crianças do planeta estão expostas a pelo menos uma ameaça relacionada ao clima. O fenômeno não afeta apenas países em desenvolvimento, mas também nações de alta renda.
Riscos climáticos
O estudo considera oito tipos de riscos climáticos, incluindo calor extremo, ondas de calor prolongadas, incêndios florestais, secas, enchentes costeiras, inundações em rios, tempestades tropicais e tempestades de areia e poeira.
Para a diretora-executiva do Unicef, Catherine Russell, os efeitos desses eventos já transformam a rotina de milhões de crianças. Além disso, Russell destacou ao jornal The Guardian que a situação se tornou ainda mais preocupante nos últimos anos.
“Metade das crianças do mundo agora vive com pelo menos três ameaças climáticas sobrepostas moldando sua vida diária”, declarou.
Crianças enfrentam perigos para estudar
As consequências da crise climática vão muito além dos danos ambientais. Imagens divulgadas pela agência da ONU mostram crianças da Papua-Nova Guiné atravessando um rio a nado para chegar à escola após uma ponte ter sido destruída por fortes chuvas.
O cenário se torna ainda mais preocupante porque o rio é habitado por crocodilos. Uma das estudantes afetadas é Lorna, de 15 anos, que relatou as dificuldades enfrentadas diariamente.
“Meu sonho é ser professora ou piloto. Queremos uma nova ponte para poder ir à escola com segurança todos os dias”, disse.
Centenas de crianças atravessam diariamente o rio Kemp Welch, em Papua Nova-Guiné, para chegar à escola — Foto: Reprodução/Unicef
A jovem também explicou que, durante o período menstrual, meninas da comunidade são impedidas pelos mais velhos de atravessar o rio devido à crença local de que isso poderia atrair crocodilos.
Segundo o diretor da escola local, Charlie Vali David, a ausência da ponte prejudica a frequência escolar e aumenta significativamente os riscos para os estudantes.
“Na temporada de monções, correntes fortes, árvores mortas e detritos bloqueiam o rio, causando ferimentos e morte”, afirmou.
De acordo com o Unicef, a comunidade não conseguiu arrecadar recursos suficientes para reconstruir a estrutura, destruída em 2012.
O relatório também identifica regiões onde os impactos climáticos são particularmente severos. No Sahel, faixa localizada na África, mais de 4 milhões de crianças estão expostas simultaneamente a ondas de calor, calor extremo e tempestades de areia e poeira.
Da mesma forma, países asiáticos como Bangladesh, Mianmar e Paquistão figuram entre os locais onde crianças enfrentam o maior número de ameaças climáticas combinadas em todo o mundo.
No entanto, o estudo mostra que os efeitos das mudanças climáticas não se restringem a países de baixa renda. Em nações desenvolvidas, eventos extremos também representam riscos.
Crianças brincam perto de uma fonte para escapar do calor na Califórnia, EUA — Foto: THX/VNA
Na Itália, por exemplo, mais de 6 milhões de crianças estariam expostas à combinação de ondas de calor prolongadas e escassez de chuvas, segundo os dados do Unicef.
A entidade defende que governos e empresas intensifiquem os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e acelerem medidas de adaptação climática. Além disso, o organismo recomenda investimentos em infraestrutura, educação, saúde e serviços essenciais voltados às crianças, consideradas um dos grupos mais vulneráveis.
Quando o gelo começa a derreter nas regiões montanhosas da Califórnia, os sapos deixam a hibernação e seguem rapidamente para lagos e lagoas temporárias. Lá, os machos iniciam um verdadeiro coro para atrair as fêmeas antes que a água congele novamente.
Mas os cientistas descobriram que esses sons servem para muito mais do que conquistar parceiras. Segundo um estudo publicado na revista Frontiers in Ecology and the Environment, a velocidade e a frequência do coaxar mudam conforme a temperatura da água. Em ambientes frios, os sons ficam lentos e espaçados. Já em águas mais quentes, os cantos se tornam rápidos e intensos.
A ecologista Julianne Pekny explica que os anfíbios vivem em uma corrida contra o tempo. Em algumas áreas, os lagos formados pelo derretimento da neve permanecem descongelados por poucos meses, o que reduz drasticamente o período de reprodução.
Coaxares funcionam como uma espécie de “previsão do tempo”
Os pesquisadores acreditam que as fêmeas conseguem interpretar essas mudanças sonoras para escolher os melhores locais para colocar os ovos. Assim, os coaxares funcionariam como um “alerta climático” natural.
Até então, os cientistas acreditavam que os cantos serviam apenas para demonstrar força e atratividade dos machos. Sapos maiores, por exemplo, costumam emitir sons mais graves e chamativos. Agora, o novo estudo sugere que os coaxares também carregam informações sobre o ambiente.
A teoria surgiu durante pesquisas de campo no norte da Califórnia. Pekny percebeu diferenças claras nos coros dos sapos ao longo das estações e decidiu investigar o comportamento em laboratório. Ela analisou 35 sapos em aquários com diferentes temperaturas da água e registrou a frequência dos sons emitidos.
Os testes mostraram que a água fria desacelera os coaxares, enquanto temperaturas mais altas deixam os sons mais rápidos. Essa informação pode ajudar as fêmeas a evitar locais inadequados para reprodução.
Mudanças climáticas podem afetar reprodução dos anfíbios
Especialistas afirmam que a descoberta ajuda a entender como os anfíbios reagem às mudanças climáticas. Embora pesquisadores ainda precisem realizar novos testes, o estudo reforça a relação entre comportamento animal e ambiente.
Os cientistas alertam que alterações no clima podem desregular o período de reprodução dos sapos e rãs. Caso os animais se reproduzam cedo demais, os girinos podem nascer antes do momento ideal, quando ainda há pouca oferta de alimento.
Hoje, os anfíbios estão entre os grupos mais ameaçados do planeta. Cerca de 41% das espécies enfrentam risco de extinção, o que aumenta a importância de pesquisas sobre adaptação climática e preservação dos habitats.
A queda da quarta maior araucária do Brasil, na Estação Experimental da Embrapa em Caçador (SC), disparou uma operação de resgate genético contra o relógio. Uma equipe da Embrapa Florestas viajou até o município para coletar material genético e tentar clonar o exemplar. Ele era apelidado carinhosamente de “Pinheirão” por pesquisadores que conviveram com ele por décadas.
Com 44 metros de altura e 2,45 metros de diâmetro à altura do peito (DAP), o espécime era o quarto maior da espécie Araucaria angustifolia no país, segundo levantamentos do professor Marcelo Scipioni, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A queda ocorreu nas últimas semanas, mas não há confirmação da data exata.
A corrida contra o tempo
Após chegar ao local, a equipe avaliou as condições das brotações na copa do Pinheirão. “O ideal é que a coleta deste tipo de material ocorra entre cinco e dez dias após a queda. No entanto, a equipe encontrou brotações ainda viáveis”, explica o pesquisador Ivar Wendling, da Embrapa Florestas.
O material coletado seguiu para enxertia em laboratório. Os pesquisadores devem confirmar o sucesso do procedimento em cerca de 100 dias. A altura do Pinheirão, que por décadas impediu qualquer intervenção no topo da árvore, só se tornou acessível com o tombamento. “Esse material se encontra no alto, na copa da árvore e, em virtude de sua altura, o procedimento só seria possível por meio de escalada, o que era inviável nesta árvore, ou, infelizmente, com seu tombamento”, explica Paulo César, bolsista da equipe.
Equipe da Embrapa Florestas se mobilizou para coleta de material genético e tentativa de clonagem da árvore. Foto: Katia Pichelli / Embrapa Florestas
A iniciativa busca preservar características genéticas raras da espécie, incluindo altura e longevidade excepcionais.
Vínculo científico e emocional
Para Anderson Feltrim, gerente da Estação Experimental da Epagri em Caçador, a mobilização vai além do interesse científico. “A mobilização atual reflete não apenas o valor científico da árvore, mas também o vínculo ao longo dos anos de todos nós que convivemos com ela. Assim que constatamos a queda, acionamos a Embrapa, pois entendemos o valor científico de estudá-la”, afirmou.
A Embrapa Florestas já tem experiência nesse tipo de operação. Em Cruz Machado (PR), a instituição conduziu a clonagem de outra araucária de grande porte após queda semelhante. Um caso que serve de referência técnica para o trabalho atual.
Uma idade ainda desconhecida
O Pinheirão nunca revelou sua idade com precisão. O tronco oco inviabilizava a dendrocronologia, técnica que determina a idade de uma árvore pela contagem dos anéis de crescimento no interior do tronco. Em árvores em pé e íntegras, a leitura se faz com um trado que extrai uma amostra de madeira a partir da altura do peito, onde os anéis costumam ser mais regulares e representativos. Com o tombamento, tornou-se possível retirar discos do tronco para contagem direta.
A equipe, com orientação do técnico Arnaldo Soares da Embrapa Florestas, pretende coletar discos em uma região onde a madeira permanece íntegra, por volta dos cinco metros de altura. A contagem, porém, indicará apenas uma idade mínima: os anos iniciais de crescimento, anteriores ao momento em que o tronco atingiu aquela altura, ficam fora do registro.
A pesquisadora Maria Augusta Doetzer Rosot, do Laboratório de Monitoramento da Embrapa Florestas, acompanhou o Pinheirão desde 2003. Foi quando a equipe instalou experimentos na estação em parceria com professores e alunos da UFPR. “Devido à fragilidade observada no tronco, optou-se por não se proceder a nenhuma investigação para determinar sua idade, mas certamente esta árvore serviu de inspiração para muitos de nossos trabalhos”, conta.
Além disso, o exemplar também figurava na agenda de visitantes internacionais, como pesquisadores da FAO, da Universidade Politécnica de Madri, do Centro Agronômico de Investigação e Ensino (CATIE, Costa Rica) e da Rede Internacional de Bosques Modelo (Canadá).
Os últimos registros em vida
Em novembro de 2025, o fotógrafo Zé Paiva e o cinegrafista Gustavo Fonseca foram os últimos profissionais a documentar o Pinheirão ainda em pé. A dupla estava em Caçador para o projeto “Reinvenção da Natureza”, do SESC, que mapeou 12 árvores gigantes do Sul do Brasil com base no trabalho do prof. Scipioni.
“É muito forte a sensação de sermos os últimos fotógrafos documentando essa árvore tão impressionante, sentir a força da natureza, mas também o impacto de ver a finitude da vida e que a vida está sempre se renovando”, disse Paiva.
Últimos registros oficiais do Pinheirão quando ele ainda estava em pé foram feitos em novembro de 2025. Foto: Zé Paiva/Vista Imagens
O projeto resultará em uma exposição artística multimídia, com vídeos e experiência imersiva sobre a Floresta Ombrófila Mista. A mostra deve estrear no primeiro semestre na galeria do SESC Concórdia e, no segundo semestre, no SESC Itajaí. Acompanhe o perfil @zepaivaphoto para mais informações.
Scipioni coordena um dos principais levantamentos de árvores gigantes do Sul do Brasil, mapeando exemplares com mais de 1,5 metro de diâmetro, hoje cada vez mais escassos. Além disso, o trabalho envolve expedições a campo, análise de anéis de crescimento e estudo de araucárias e imbuias de grande porte. E tem foco em ecologia, conservação e importância ambiental.
Clima extremo derruba gigantes
Em estudo recente, Scipioni investigou a relação entre mudanças climáticas e a queda de árvores monumentais no Sul do Brasil. A pesquisa analisou eventos de 2023 e concluiu que o fator determinante para o tombamento não é o vento, mas a saturação do solo, que perde resistência e compromete a ancoragem das raízes.
“O peso elevado e as copas largas dessas árvores centenárias as tornam particularmente vulneráveis a essas mudanças climáticas induzidas pelo El Niño”, explica o professor. O aumento das chuvas extremas transforma terrenos argilosos em superfícies instáveis para árvores de grande porte. O que exige, portanto, estratégias urgentes de conservação e monitoramento proativo para proteger esse patrimônio ecológico e cultural.
O mercado global de café entra no radar climático de 2026 com a crescente probabilidade de formação de um El Niño nos próximos meses. A NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), agência americana de monitoramento climático, aponta cerca de 60% de chance de o fenômeno ocorrer entre maio e julho. Modelos do IRI (International Research Institute for Climate and Society), ligado à Universidade de Columbia, confirmam probabilidade semelhante no curto prazo e apontam para a continuidade do evento até o final de 2026 e início de 2027.
Os modelos não projetam aumento da temperatura global, mas indicam temperaturas acima da média no Oceano Pacífico. Um padrão que sugere um evento de maior intensidade. Esse comportamento pode elevar as temperaturas em diferentes regiões produtoras e ampliar os riscos para a agricultura. “As commodities agrícolas poderão enfrentar riscos climáticos mais elevados”, afirma Laleska Moda, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets.
Temperaturas podem ultrapassar 1,5°C acima da média
As previsões de anomalias da temperatura da superfície do mar (SST) para a região Niño 3.4 mostram um aumento acentuado no final do ano. As médias dos modelos apontam valores acima de 1,5°C entre outubro e novembro de 2026. Um indicativo de um evento mais forte do que o inicialmente previsto. Para a confirmação oficial do fenômeno, as temperaturas precisam permanecer acima de +0,5°C por períodos consecutivos.
Projeções recentes apontam probabilidades semelhantes para cenários de El Niño moderado, forte e muito forte a partir do final de 2026.
O que muda para o café
Um El Niño ativo que persista até o início de 2027 pode trazer temperaturas recordes, secas e inundações em diversas regiões, aumentando os riscos para a produção agrícola global. Para o café, o fenômeno representa um desafio direto ao desenvolvimento da safra 26/27 em áreas produtoras estratégicas na América Central e do Sul, no Sudeste Asiático e na África Oriental. “Períodos prolongados de calor também podem prejudicar o desenvolvimento da planta”, completa Moda.
Na América Central, o El Niño tende a elevar as temperaturas médias e reduzir as precipitações, especialmente entre julho e agosto. Um período crítico para o desenvolvimento dos frutos da safra 26/27. Guatemala, Honduras e El Salvador concentram o maior risco regional.
Na Colômbia, temperaturas mais altas e irregularidades nas chuvas durante o segundo semestre podem afetar a safra principal 26/27. Um evento mais forte ou prolongado até 2027 também ameaça a safra intermediária, conhecida como mitaca.
Na África Oriental, os efeitos variam por país. Na Etiópia, o fenômeno pode reduzir as chuvas entre junho e setembro e provocar excesso de precipitação na sequência, prejudicando a colheita. Em Uganda, o padrão associado ao El Niño costuma aumentar as chuvas acima da média, elevando o risco de inundações e deslizamentos.
No Sudeste Asiático e na Índia, o fenômeno tende a provocar condições mais secas e quentes. A Índia pode enfrentar uma estação de monções mais fraca, enquanto Indonésia e Vietnã devem sentir impactos principalmente no desenvolvimento das safras futuras. E especialmente se o evento se estender até 2027.
Brasil: menos geadas, mais riscos no final do ano
No Brasil, o El Niño pode reduzir o risco de geadas durante o inverno de 2026, o que, à primeira vista, representa uma notícia positiva para os cafeicultores. No entanto, o fenômeno pode atrasar o início das chuvas de primavera e trazer temperaturas mais elevadas durante a floração e o enchimento dos grãos da safra 27/28.
Mesmo com expectativa de safra recorde em 2026/27, o que tende a pressionar os preços no curto prazo , o cenário climático limita movimentos mais acentuados de queda. “Os possíveis impactos do El Niño poderiam limitar correções mais profundas do mercado no final do ano”, afirma Moda.
Imagine tentar descobrir se um campo foi irrigado olhando apenas para uma foto tirada do espaço. Parece simples, mas não é. Aquele círculo perfeito no solo, formado pelo pivô central, pode estar ali há anos sem que uma gota d’água tenha passado por ele na última safra. Era exatamente esse o problema que o governo federal precisava resolver, e a Embrapa Territorial acaba de entregar a solução.
Um método desenvolvido pela Embrapa combina imagens do satélite Sentinel-2 com inteligência artificial para mapear, ano a ano, o crescimento ou a redução das áreas agrícolas efetivamente irrigadas no Brasil. Não as que têm estrutura de irrigação, não as que parecem irrigadas. As que, de fato, receberam água durante a safra.
O problema que os círculos no solo não conseguem resolver
O engenheiro agrônomo Rafael Mingoti, analista da Embrapa Territorial e responsável pelo mapeamento dos primeiros polos em Goiás, explica que o desafio inicial era gerar um mapeamento que permitisse verificar as diferenças entre as safras. E registrar os famosos círculos dos pivôs centrais simplesmente não funcionava para isso.
“Registrar os tão conhecidos círculos formados no solo pelos pivôs centrais, por exemplo, não seria eficaz, pois são como uma cicatriz no solo que permanece de um ano para outro”, explica Mingoti.
Além disso, buscar os equipamentos físicos de irrigação no campo também não resolvia o problema. Esses equipamentos podem estar presentes, mas desativados. “O objetivo é identificar as terras que foram efetivamente irrigadas no ano em questão e não as que apenas têm a infraestrutura”, enfatiza o pesquisador.
Foi a partir daí que a equipe virou o jogo: em vez de procurar os equipamentos ou as marcas deixadas no solo, passou a analisar a umidade do solo diretamente. Os índices são extraídos de imagens do satélite Sentinel-2, de média resolução e acesso gratuito, fornecido pela Agência Espacial Europeia.
Chuva ou irrigação? A IA entra em cena para distinguir os dois
Resolver a questão da umidade trouxe um novo obstáculo, ainda mais sutil. Em Goiás, predominantemente, a irrigação não é utilizada no período de estiagem e sim durante o verão, quando as chuvas ocorrem e quando há vazão disponível nos cursos d’água. Especialmente por causa das mudanças climáticas e do aumento da duração dos veranicos, os agricultores recorrem à irrigação para evitar perdas.
Mas se a irrigação acontece justamente quando chove, como saber de onde veio a umidade do solo?
“Nós usamos outros indicadores. Geralmente as áreas irrigadas não são muito pequenas e têm formatos regulares, retângulos, círculos ou triângulos”, esclarece Mingoti. A inteligência artificial entra para cruzar esses padrões geométricos com os dados de umidade, separando o que é chuva do que é irrigação humana. Uma distinção que, antes desse método, simplesmente não existia em escala territorial.
No entanto, identificar onde se irriga era só metade da demanda. O governo também precisa saber quanto, exatamente, está sendo irrigado.
Vetorização: a técnica que mede com muito mais precisão
Como inovação, o método utiliza recursos derivados do sensoriamento remoto com radar para chegar à área total. Diferentemente do método tradicional, que calcula a área somando pixels (quadros que compõem a imagem), a técnica de vetorização desenha o contorno real do terreno, como se seguisse a linha exata do local irrigado. Na contagem por pixels, o sistema considera o quadro inteiro, mesmo que parte do terreno que ele cobre não seja irrigada.
O resultado, nas palavras do próprio Mingoti: “Quando os terrenos são vetorizados, eliminamos possíveis erros dentro e fora da área irrigada. Então, a medição é muito mais acurada.”
Não é detalhe técnico por vaidade científica. Mais precisão significa políticas públicas melhores, investimentos mais bem direcionados e uso da água monitorado de verdade.
7 mil hectares a mais: o dado que já chegou ao Ministério
A Embrapa Territorial já aplicou o método no mapeamento de dois polos de irrigação em Goiás (Planalto Central e Vale do Araguaia) e de três no Mato Grosso (Sul, Médio Norte e Araguaia-Xingu). Os mapeamentos dos dois primeiros já foram entregues ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, e os outros estão em fase de validação.
O mapeamento no polo Central de Goiás mostrou um aumento de 7 mil hectares nas áreas irrigadas entre 2023 e 2024. Houve crescimento em todos os 24 municípios que integram a região.
Além de servir para a avaliação das políticas públicas, os dados do mapeamento têm um destino claro: a intenção é que sejam integrados ao Sistema Nacional de Informações sobre Irrigação, o Sinir.
Coordenador-geral de sustentabilidade de projetos e polos de irrigação do MIDR, Antônio Guimarães Leite lembra ainda que a irrigação no período chuvoso cumpre um papel estratégico que vai além de compensar a falta de chuva. “Em algumas situações, isso permite estender a janela de cultivo e viabilizar até três colheitas no mesmo ano agrícola”, aponta.
Com satélite, IA e dados precisos nas mãos, o agro brasileiro passou a enxergar o que antes ficava invisível. E o governo, finalmente, tem uma ferramenta à altura do desafio de gerir a água do campo.