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  • Genoma completo da jararaca-ilhoa lança luz sobre a evolução das toxinas do veneno

    Genoma completo da jararaca-ilhoa lança luz sobre a evolução das toxinas do veneno

    Pesquisadores do Instituto Butantan, com apoio da FAPESP, produziram o sequenciamento genético mais completo já realizado em uma jararaca. O objeto de estudo foi a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), com foco especial nos genes responsáveis pelo veneno. Como a espécie compartilha a maior parte do genoma com as outras 48 espécies do gênero Bothrops, os dados funcionam como referência para estudos mais amplos sobre a evolução das jararacas e de suas toxinas. Os resultados saíram na revista Genome Biology and Evolution.

    Cientistas descreveram a jararaca-ilhoa em 1921 como uma espécie distinta da jararaca continental (Bothrops jararaca), cujo genoma pesquisadores sequenciaram em 2021. O isolamento na Ilha da Queimada Grande, no litoral de São Paulo, começou há cerca de 100 mil anos, quando a elevação do nível do mar separou parte da população continental. Com o tempo, essa população divergiu o suficiente para se consolidar como uma nova espécie.

    As diferenças vão além da genética. A jararaca-ilhoa tem pele amarela, hábitos semiarborícolas e caça aves quando adulta. As jararacas do continente, por sua vez, têm coloração escura e predam principalmente pequenos mamíferos no solo.

    Veneno adaptado para aves

    Estudos experimentais já indicavam que o veneno da jararaca-ilhoa atua com mais eficácia em aves do que em mamíferos. O novo sequenciamento, porém, não identificou grandes divergências nos genes de toxinas entre as duas espécies.

    “Provavelmente alguma proteína ou um fragmento menor seja suficiente para tornar o veneno mais letal para aves”, explica Pedro Nachtigall, primeiro autor do estudo e ex-bolsista de pós-doutorado da FAPESP no Butantan. O genoma revelou que o veneno da jararaca-ilhoa concentra enzimas e proteínas que causam hemorragias e distúrbios de coagulação, além de atuar em outras frentes comuns às jararacas do continente, como hipotensão e lesão tecidual.

    Seleção natural, não acaso

    Uma descoberta importante do estudo diz respeito ao mecanismo por trás das variações genéticas da espécie. Por se tratar de uma população pequena e isolada, os pesquisadores esperavam encontrar alterações aleatórias, o chamado efeito de deriva genética. Os dados, no entanto, apontaram o oposto: há uma forte assinatura de seleção natural.

    foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP

    “Existe uma distribuição mais específica, uma pressão seletiva. Ela pode ter origem tanto na alimentação quanto no próprio confinamento da espécie a uma área muito pequena”, afirma Inácio Junqueira de Azevedo, pesquisador do Butantan que coordenou o estudo.

    História demográfica reconstruída

    Além do genoma completo de um macho da ilha, o estudo incluiu genomas parciais de outros oito indivíduos, sete coletados na natureza e um pertencente ao programa de conservação ex situ do Butantan. Essa amostragem permitiu reconstruir a história demográfica da espécie com modelos matemáticos baseados na taxa de mutações, considerando uma nova geração a cada dois anos.

    Os resultados indicam que, há cerca de 100 mil anos, um grupo de uma população continental de aproximadamente 140 mil indivíduos se isolou numa elevação que hoje corresponde à Ilha da Queimada Grande. O modelo identificou dois declínios populacionais severos posteriores: um há 50 mil anos, quando a população chegou a 30 mil serpentes, e outro há 11 mil anos, quando o número caiu para 10 mil indivíduos.

    “Pode ter havido um primeiro isolamento com a subida do nível do mar, que teria baixado depois e permitido a troca de genes com o continente. Um segundo evento de elevação dos oceanos as isolou definitivamente”, diz Nachtigall, que realizou parte do trabalho na Florida State University, nos Estados Unidos.

    Entre 10 mil e 5 mil anos atrás, um declínio mais gradual reduziu a população a cerca de 5 mil serpentes. Número coerente com o censo atual, que estima entre 2 mil e 4 mil jararacas-ilhoas na ilha hoje.

    Conservação e biotecnologia

    Toda a população selvagem da espécie vive nos 43 hectares da Ilha da Queimada Grande, área considerada uma das mais densas em serpentes do mundo. A jararaca-ilhoa figura na lista de espécies criticamente ameaçadas de extinção.

    O genoma servirá de base para comparações entre a população selvagem e a de cativeiro, permitindo avaliar a saúde genética dos animais mantidos em programas de conservação. Também fundamenta políticas públicas de preservação da espécie.

    Do ponto de vista biotecnológico, o mapeamento completo abre portas para o desenvolvimento de medicamentos, como anticoagulantes e anti-hipertensivos. A exemplo do captopril, originado do veneno da jararaca continental.

    “Estudos como esse ajudam a entender a evolução dos genes de veneno e, neste caso, identificamos a origem de um subtipo de toxina a partir de um tipo já existente”, conclui Junqueira de Azevedo. “Chegamos a um genoma com resolução muito alta, o que gera um banco de dados robusto para estudos populacionais, evolutivos, de conservação e de venenos.”

    O trabalho contou com apoio da FAPESP, inclusive por meio do Programa BIOTA.

    André Julião | Agência FAPESP

  • Falta de presas ameaça extinção da onça-pintada na Mata Atlântica

    Falta de presas ameaça extinção da onça-pintada na Mata Atlântica

    A onça-pintada (Panthera onca) enfrenta, na Mata Atlântica, uma ameaça que vai além da destruição de habitat e da caça direta ao animal: a escassez de alimento. Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros revelou que a disponibilidade de presas do maior felino das Américas caiu a níveis críticos mesmo dentro de áreas protegidas do bioma, que cobre cerca de 15% do território nacional e se estende por 17 estados nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, além de partes da Argentina e do Paraguai.

    Os pesquisadores apontam que espécies fundamentais para a dieta da onça, como o porco-do-mato (Tayassu pecari), o cateto (Dicotyles tajacu) e os cervídeos, sofrem pressão intensa de caça humana. A situação já chegou a um nível que provavelmente não sustenta populações viáveis do felino no bioma, que hoje abriga menos de 300 exemplares. Se o quadro piorar, a Mata Atlântica pode se tornar o primeiro bioma do mundo a perder um predador de topo da cadeia alimentar.

    Os resultados foram publicados na revista Global Ecology and Conservation com apoio da FAPESP. E contaram com a participação de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Cananeia (IPeC), do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e do Projeto Onças do Iguaçu – Instituto Pró-Carnívoros.

    Armadilhas fotográficas revelam cenário alarmante

    A equipe combinou dados sobre a dieta e os hábitos alimentares da onça-pintada com um levantamento de campo realizado em nove áreas protegidas da Mata Atlântica, usando armadilhas fotográficas. A partir dessas informações, os pesquisadores estimaram a abundância e a biomassa de 14 espécies de presas em regiões com diferentes densidades populacionais do felino.

    Os resultados expõem uma disparidade brutal. No Corredor Verde, a biomassa de presas chega a 638 kg, enquanto nas áreas costeiras, como a Serra do Mar, o índice despenca para míseros 8,2 kg. Não por acaso, é justamente nessas regiões costeiras que a onça-pintada está ausente ou ocorre em densidades extremamente baixas.

    “Constatamos uma situação alarmante de baixa abundância de espécies-chave de presas da onça-pintada. Mesmo em áreas protegidas, onde se esperava que a situação fosse melhor em termos de conservação”, afirma Katia Ferraz, professora da Esalq-USP e coordenadora do estudo. “Muito provavelmente, o declínio dessas presas é uma das principais causas para a situação crítica em que a onça-pintada se encontra nesse bioma.”

    Acesso humano às áreas protegidas explica a escassez

    O estudo identificou um padrão claro: as presas são mais abundantes onde o acesso humano é mais difícil. Regiões de relevo acidentado e distantes de centros urbanos concentram mais animais. Já as áreas próximas a vilas e cidades, ou com relevo que facilita a entrada de pessoas, apresentam drasticamente menos presas. Sinal direto da pressão da caça ilegal, que persiste mesmo dentro das unidades de conservação.

    “A baixa disponibilidade de presas está relacionada ao maior acesso das pessoas às áreas protegidas. Isso sugere uma relação direta com a pressão de caça”, explica Ferraz. “Além da pressão sobre a própria onça, há uma pressão muito forte sobre as populações de presas, o que leva ao declínio do felino.”

    No Corredor Verde, a combinação de áreas mais isoladas, melhor conectividade entre parques e iniciativas contínuas de combate à caça ilegal, como o Projeto Onças do Iguaçu, ajuda a manter uma base de presas capaz de sustentar populações viáveis. Já na faixa costeira, a proximidade de metrópoles como São Paulo e Curitiba e o histórico de pressão humana explicam a escassez persistente, apesar dos esforços de conservação em curso.

    Parque Nacional do Iguaçu: um oásis em meio à crise

    Entre as áreas analisadas, o Parque Nacional do Iguaçu se destacou como um dos últimos refúgios da Mata Atlântica onde predador e presas coexistem em níveis relativamente saudáveis. A menor altitude do parque favorece maior abundância de fauna , padrão observado em outras áreas do bioma. E a atuação do Projeto Onças do Iguaçu faz diferença concreta no campo.

    O projeto atua em três frentes. A primeira é a pesquisa aplicada sobre ecologia alimentar e corredores de vegetação. Depois, engajamento comunitário para transformar o medo em conhecimento. E por fim coexistência, com orientações a produtores rurais sobre manejo do gado para reduzir conflitos com o felino.

    Os resultados são visíveis. “Em 2009, tínhamos entre 9 e 11 animais no parque. Nos últimos 15 anos, a população quase dobrou”, conta Yara Barros, coordenadora-executiva do projeto. O avanço da agricultura e a redução da pecuária no entorno também contribuíram, já que diminuíram as mortes por retaliação de fazendeiros. “A caça representa uma grande ameaça porque, muitas vezes, quem entra na floresta para caçar as presas da onça acaba matando o animal incidentalmente”, explica Barros.

    A iniciativa já inspira vizinhos. “Estamos criando uma rede trinacional com parceiros do Paraguai e da Argentina para compartilhar e replicar nossa experiência”, afirma a coordenadora.

    Para os autores do estudo, os dados apontam um caminho claro. Enquanto algumas regiões ainda funcionam como refúgios ecológicos, outras exigem ações urgentes de controle da caça, recuperação da fauna e gestão do uso humano. Sem isso, o maior predador das Américas corre o risco real de desaparecer definitivamente da Mata Atlântica.

    Elton Alisson | Agência FAPESP

  • Microalgas criadas com resíduo de cervejaria viram biofertilizante

    Microalgas criadas com resíduo de cervejaria viram biofertilizante

    Uma startup paulista e pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram um bioinsumo agrícola a partir de microalgas cultivadas em efluentes tratados de cervejarias e de criações de tilápia e camarão. O produto já passa por testes em lavouras de milho, banana, hortaliças e café nos estados de São Paulo e Minas Gerais. E promete chegar ao mercado mais barato que os fertilizantes químicos convencionais.

    A iniciativa é uma parceria entre a BiotecBlue, startup sediada em São Paulo, e o campus de São José dos Campos da Unifesp, com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP. O modelo funciona de forma circular: resíduos industriais que normalmente iriam para o esgoto alimentam as microalgas, e a biomassa resultante vira bioestimulante para o campo.

    Do esgoto ao biorreator

    Pequenos produtores de cerveja artesanal costumam descartar os resíduos da fabricação diretamente na rede de esgoto. O mesmo acontece com as sobras de pisciculturas de tilápia e camarão. Sem tratamento, esse material carrega nitrogênio, fósforo e carboidratos, nutrientes que, ao atingir rios e lagos, disparam a eutrofização: crescimento desordenado de algas, alteração da coloração da água e morte de peixes por falta de oxigênio.

    Cultivados de forma controlada, esses mesmos resíduos se tornam o meio ideal para o crescimento de microalgas de alto valor nutricional. “A água que sobra após o cultivo tem poucos nutrientes, ou seja, já pode retornar para o rio ou para um processo produtivo”, explica a engenheira química Danielle Maass, pesquisadora da Unifesp responsável pelo projeto.

    A equipe começou com efluentes da produção intensiva de camarão e tilápia. As microalgas não apenas cresceram de forma saudável como apresentaram concentrações nutricionais superiores às obtidas em meios sintéticos de laboratório. O fechamento da piscicultura fornecedora, porém, expôs a vulnerabilidade de depender de uma única fonte. E abriu caminho para uma solução mais escalável.

    A virada da cerveja artesanal

    Com o setor cervejeiro em expansão, a equipe testou resíduos de cervejarias e encontrou características nutricionais semelhantes às da aquicultura, incluindo carbono, nitrogênio e fósforo. A logística também ficou mais simples. “Hoje há muitas cervejarias artesanais de pequeno e médio porte. É muito mais fácil obter esse resíduo do que o da piscicultura”, compara Maass.

    Um diferencial do projeto é justamente o uso de resíduos reais, não de compostos simulados em laboratório. “O resíduo real tem uma enorme variedade de compostos que podem tanto ajudar quanto atrapalhar o processo”, diz a pesquisadora. Trabalhar com essa complexidade, segundo ela, é o que garante resultados aplicáveis na prática industrial.

    Proteína, betacaroteno e crédito de carbono

    As microalgas produzidas no processo são ricas em proteínas e betacaroteno, antioxidante natural com múltiplas aplicações. Além de virar bioinsumo agrícola, a biomassa pode retornar à cadeia produtiva como suplemento alimentar para peixes e camarões. No caso dos crustáceos, o betacaroteno intensifica a coloração avermelhada. Característica valorizada pelo mercado.

    O projeto ainda abre outra frente econômica: durante o crescimento, as microalgas realizam fotossíntese e capturam dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, o que cria potencial de geração de créditos de carbono.

    Testes no campo e escalonamento

    Desde 2024, o projeto está na fase de escalonamento. A equipe dimensiona equipamentos para uma escala piloto de 100 litros. Nos testes em lavouras de São Paulo e Minas Gerais, Maass relata melhora no desenvolvimento foliar e na saúde do solo.

    “Com uma dose pequena temos um efeito grande e, pelo levantamento de custos brutos que fizemos, o produto é de fato mais barato”, afirma a pesquisadora.

    Por que isso importa para o agronegócio brasileiro

    O Brasil gasta cerca de US$ 25 bilhões por ano para importar mais de 85% dos fertilizantes que consome, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). China e Rússia dominam o fornecimento. O Plano Nacional de Fertilizantes prevê reduzir essa dependência em 50% até 2050. Segundo a Embrapa, fertilizantes chegam a representar 50% dos custos de produção do milho e 40% dos da soja.

    Maass, que tem experiência em processos biotecnológicos e na recuperação de metais críticos de resíduos eletrônicos e de mineração, defende uma mudança de paradigma. “Processos biotecnológicos são um pouco mais demorados para desenvolver, mas, uma vez prontos, são muito mais sustentáveis que os físicos ou químicos”, diz.

    O mercado global de biotecnologia azul,  que inclui o aproveitamento de organismos aquáticos, deve crescer de US$ 14,5 bilhões em 2024 para US$ 29,5 bilhões até 2032, segundo a consultoria Markets and Markets. A equipe da BiotecBlue planeja ampliar o atendimento de pequenos para grandes produtores rurais à medida que a tecnologia avança para escala comercial.

    Roseli Andrion | Agência FAPESP

  • Estudo avalia riscos ambientais de novo bioherbicida natural desenvolvido no Brasil

    Estudo avalia riscos ambientais de novo bioherbicida natural desenvolvido no Brasil

    O Instituto de Pesca (IP-APTA), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, conduz uma pesquisa que avalia a segurança ambiental de um bioherbicida natural obtido a partir do fungo Trichoderma koningiopsis. O estudo busca identificar possíveis efeitos do produto sobre organismos aquáticos e estabelecer níveis seguros de uso, garantindo sua viabilidade para a agricultura sustentável.

    A pesquisa integra o Programa de Pós-Graduação em Aquicultura e Pesca do Instituto (PPGIP) e tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O projeto conta com parceria da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Santa Catarina, responsável pelo desenvolvimento do herbicida natural. A mestranda Maria Rita Conde Simone conduz os experimentos no Laboratório de Virologia, Biotecnologia e Cultivo Celular (LaViBaC), em São Paulo, sob orientação da pesquisadora Cláudia Maris.

    Avaliação dos efeitos ambientais

    O estudo utiliza girinos de rã-touro (Lithobates catesbeianus) para simular a exposição ambiental ao produto. Esses organismos são sensíveis a variações na qualidade da água e amplamente usados em pesquisas de ecotoxicologia. Os testes envolvem diferentes concentrações do bioherbicida diluído em água, reproduzindo situações que podem ocorrer após o uso agrícola.

    Os pesquisadores analisam alterações no fígado e no sangue dos animais para detectar possíveis danos fisiológicos ou genéticos, além de monitorar parâmetros que indicam estresse metabólico. As informações ajudarão a determinar a segurança ecológica do bioherbicida microbiano e a orientar seu uso responsável no campo.

    Formação científica e colaboração

    Para Maria Rita, a experiência no Instituto de Pesca tem sido transformadora. Ela destaca o ambiente colaborativo e o apoio da orientadora na trajetória acadêmica.

    Maria Rita Conde Simone. Foto: Divulgação

    Segundo Cláudia Maris, o estudo representa um passo importante para o avanço dos bioinsumos microbianos e para o fortalecimento da chamada Agricultura Limpa, alinhada às tendências da toxicologia moderna. “Desenvolver produtos sustentáveis e ambientalmente seguros é essencial para o futuro da agricultura e para a proteção dos ecossistemas aquáticos”, afirma a pesquisadora.

  • Corais-de-fogo brasileiros enfrentam risco de extinção silenciosa, alertam cientistas

    Corais-de-fogo brasileiros enfrentam risco de extinção silenciosa, alertam cientistas

    Especialistas alertam que os corais-de-fogo brasileiros podem estar caminhando para uma “extinção silenciosa”. A conclusão integra estudo apoiado pela FAPESP e publicado na revista científica Coral Reefs, que analisou o impacto do branqueamento de corais durante a onda de calor de 2024.

    O Instituto Coral Vivo, com apoio da Petrobras, conduziu o monitoramento após o primeiro evento severo de branqueamento que atingiu o Brasil em 2019. Os pesquisadores acompanharam as colônias antes, durante e depois da mais recente crise térmica, provocada pelo fenômeno El Niño-Oscilação Sul no início de 2024.

    Espécie endêmica perde todas as colônias monitoradas

    Os resultados revelam um cenário alarmante para a Millepora braziliensis, espécie que existe apenas no Brasil. A pesquisa registrou branqueamento de 100% e perda total da cobertura viva nas colônias monitoradas em Tamandaré (PE). O ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) já classificam a espécie como criticamente ameaçada de extinção.

    Outra espécie endêmica, a Millepora nitida, apresentou 40% de branqueamento, mas não registrou perdas significativas de cobertura durante o mesmo período.

    “Os resultados reforçam que precisamos adotar medidas urgentes de conservação para proteger os corais, principalmente as populações de M. braziliensis, que enfrentam risco elevado de extinção”, afirma Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador do estudo.

    O pesquisador destaca que as ondas de calor provocadas pelo El Niño, combinadas com o aquecimento global causado pela emissão de gases de efeito estufa, intensificam a ameaça sobre essas espécies.

    Negligência histórica compromete conservação

    Os cientistas historicamente negligenciaram os corais-de-fogo em monitoramentos. Diversas razões explicam essa lacuna: o difícil acesso às colônias, sua localização nas bordas dos recifes e a menor abundância de três das quatro espécies brasileiras em comparação aos corais verdadeiros.

    “No entanto, os corais-de-fogo possuem importância ecológica comparável aos corais verdadeiros, uma vez que contribuem para a complexidade do ecossistema e oferecem abrigo para outras espécies animais”, explica Mies, que também dirige cientificamente o Instituto Coral Vivo.

    O estudo tem como primeiros autores Laura Marangoni, do Instituto Coral Vivo, e Tarciso Roberto Sena da Silva, mestrando da UFRPE sob orientação de Ralf Cordeiro, que coordenou o monitoramento.

    Branqueamento global atinge 84% dos recifes

    O branqueamento representa a maior ameaça aos recifes de coral mundialmente. O fenômeno ocorre quando a temperatura da água sobe e as zooxantelas — microalgas que vivem dentro do esqueleto dos corais e fornecem alimentos — passam a produzir compostos danosos. Os corais expelem essas algas, ficam brancos e podem morrer por falta de energia.

    O evento de 2023-2024 marcou a quarta ocorrência global do tipo e também afetou os corais verdadeiros da costa brasileira, como relata outro estudo do grupo publicado em setembro de 2025. Em Maragogi (AL), o branqueamento atingiu 96% dos corais; em Porto de Galinhas (PE), 84%. Mundialmente, 84% dos recifes sofreram com o fenômeno no mesmo período.

    Quatro espécies, três endêmicas

    Os pesquisadores monitoraram a M. nitida em três pontos do Recife de Fora, em Porto Seguro (BA). A M. braziliensis teve suas colônias analisadas em Tamandaré (PE), dentro da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, que se estende até Maceió (AL).

    Outras duas espécies de coral-de-fogo habitam águas brasileiras. A M. alcicornis, presente também no Caribe, recebe mais atenção dos pesquisadores e apresenta maior abundância, embora também inspire preocupação.

    A M. laboreli, terceira espécie endêmica do Brasil, restringe-se ao Parcel do Manuel Luís, na costa do Maranhão. O difícil acesso ao local gera enorme lacuna de informações sobre seu estado de conservação.

    “As últimas notícias que tivemos, de um grupo que esteve ali em 2022, indicam que havia poucas colônias vivas. A situação pode ter piorado após a onda de calor de 2023-2024. Porém, não temos dados suficientes para afirmar com precisão”, conta Mies.

    Extinção pode ocorrer em poucos anos

    O pesquisador não hesita em afirmar que essas espécies podem desaparecer nos próximos anos, caso novos eventos de branqueamento ocorram — o que considera inevitável. Por enquanto, qualquer solução imediata parece impossível sem que haja redução da emissão de gases de efeito estufa que aquecem o planeta e favorecem as ondas de calor.

    Iniciativas de restauração, nas quais cientistas cultivam corais em laboratório e os introduzem na natureza, ainda não se mostraram bem-sucedidas. A prática demanda altos investimentos, competindo por recursos com outras iniciativas de conservação, e os corais introduzidos morrem em ondas de branqueamento subsequentes.

    No entanto, os pesquisadores lembram que estudos já demonstraram que corais em unidades de conservação tendem a sofrer menos com o branqueamento do que aqueles fora dessas áreas protegidas.

    “Diferentemente do branqueamento de 2019, quando não estávamos preparados, documentamos bem o que está ocorrendo agora, a fim de subsidiar políticas públicas. Precisamos fortalecer as ações de conservação e aumentar a conscientização sobre a importância de conter as mudanças climáticas”, conclui Mies.

    André Julião | Agência FAPESP

  • Fungo da Amazônia gera corante natural com potencial para cosméticos sustentáveis

    Fungo da Amazônia gera corante natural com potencial para cosméticos sustentáveis

    Pesquisadoras brasileiras descobriram que um fungo da Amazônia pode originar um corante natural capaz de substituir pigmentos sintéticos em cosméticos. O extrato vermelho produzido pelo fungo Talaromyces amestolkiae mostrou ação antioxidante e antibacteriana ao ser testado em cremes faciais, xampus e bastões em gel.

    De acordo com o estudo, o corante reduziu em mais de 75% as substâncias reativas ao oxigênio, responsáveis por danos celulares, e preservou cerca de 60% das células vivas, o que indica segurança para a pele. Os resultados foram publicados na revista científica ACS Ômega.

    Juliana Barone Teixeira conduziu o trabalho sob a orientação de Valéria de Carvalho Santos-Ebinuma, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp de Araraquara, em colaboração com Joana Marques Marto, da Universidade de Lisboa. A pesquisa também envolveu cientistas da USP de Ribeirão Preto e recebeu apoio da FAPESP.

    Segundo Teixeira, o corante manteve estabilidade, textura e desempenho nas formulações testadas, sem alterar a sensação do produto na pele. “Demonstramos que o colorante pode ser aplicado em cosméticos com segurança e eficiência”, afirmou a pesquisadora.

    Coloração despertou interesse cientifico

    Ebinuma destacou que o interesse pelo fungo começou a partir de sua intensa coloração. “Foram mais de dez anos de estudos para chegar à produção do corante”, comentou. Ela lembra que a cor é um fator decisivo na escolha de produtos cosméticos e influencia diretamente a percepção e o comportamento do consumidor.

    O fungo Talaromyces amestolkiae foi catalogado pela professora Maria Francisca Simas Teixeira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), referência nacional em micologia. A espécie, encontrada nas árvores do campus da instituição, produz pigmentos naturais que variam do amarelo ao vermelho e demonstram alto potencial industrial.

    “Quando simulamos em laboratório as altas temperaturas de Manaus, o fungo manteve a produção do corante vermelho, o que mostra sua versatilidade”, explicou Ebinuma. Ela reforça a importância de valorizar a biodiversidade amazônica, que ainda guarda inúmeras espécies com propriedades biotecnológicas inexploradas.

    Atualmente, cerca de 20 pesquisadores e estudantes participam dos desdobramentos do estudo. O grupo agora busca aprimorar os processos de produção, com a meta de aumentar a escala do corante de 1 grama para 10 gramas por lote. Além da aplicação em cosméticos, o pigmento está sendo avaliado em tecidos e alimentos, como gelatinas.

    “Nem todo microrganismo causa doenças. Muitos, como esse fungo, oferecem compostos benéficos que podem impulsionar a biotecnologia e gerar soluções sustentáveis para a sociedade”, concluiu Ebinuma.

    Cristiane Macedo | Agência FAPESP

  • Casca de romã revela potencial para combater infecções de pele

    Casca de romã revela potencial para combater infecções de pele

    Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) comprovaram a eficácia de extratos da casca de romã para combater bactérias que causam infecções em feridas cutâneas. O material demonstrou forte ação antimicrobiana, inclusive contra a Pseudomonas aeruginosa, um patógeno conhecido por sua alta resistência a tratamentos convencionais.

    Foto: Rodarte/Agência Agro em Campo

    O estudo, coordenado pelo pesquisador Mauricio Ariel Rostagno e liderado pela engenheira de alimentos Thaís Carvalho Brito Oliveira, contou com apoio da FAPESP. A equipe testou inicialmente extratos de 11 resíduos da indústria alimentar. A casca de romã se destacou por apresentar a maior atividade antimicrobiana e o maior teor de compostos fenólicos, potentes antioxidantes.

    Simulação computacional

    Para maximizar o potencial do resíduo, os cientistas empregaram uma ferramenta de simulação computacional. O objetivo era identificar solventes “verdes” (ecologicamente corretos) mais eficientes para extrair o ácido elágico, principal composto antimicrobiano da casca. Após selecionar solventes como acetona e álcool isopropílico diluídos em água, a equipe realizou uma validação laboratorial.

    “Produzimos novos extratos com esses solventes otimizados e testamos novamente sua atividade antimicrobiana em laboratório para confirmar o aumento da eficácia”, explica Thaís Oliveira, pós-doutoranda na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp.

    Os resultados, publicados no Journal of Food Processing and Preservation, abrem um amplo campo para pesquisas futuras. Os próximos passos incluem a análise de compostos puros, o estudo de combinações sinérgicas, testes de citotoxicidade e a aplicação dos extratos otimizados em curativos inteligentes.

    O estudo ainda se encontra em fase de pesquisa e desenvolvimento laboratorial, com ensaios in vivo planejados para o futuro. A meta dos pesquisadores é dupla: oferecer uma alternativa natural aos antibióticos sintéticos, cujo uso indiscriminado gera resistência bacteriana,  e transformar um descarte da indústria alimentar em um produto de alto valor agregado para a saúde humana.

    Thais Szegö | Agência FAPESP

  • Descoberta de nova praga pode revolucionar controle em canaviais

    Descoberta de nova praga pode revolucionar controle em canaviais

    Uma descoberta científica promete explicar por que produtores de cana-de-açúcar enfrentavam dificuldades no controle de pragas mesmo com o uso de inseticidas eficazes. Pesquisadores brasileiros identificaram uma nova espécie de cigarrinha-da-cana, a Mahanarva diakantha, que especialistas confundiam com outras espécies desde a década de 1960.

    A identificação começou em 2015, quando o professor Gervásio Silva Carvalho, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), recebeu exemplares de cigarrinhas-da-cana de diferentes plantações do Sul e Sudeste. Os produtores relatavam que um inseticida amplamente utilizado não produzia os resultados esperados no combate à praga.

    Carvalho analisou as características físicas dos insetos enquanto, paralelamente, o professor Diogo Cavalcanti Cabral-de-Mello, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp) em Rio Claro, recebia exemplares similares para análise genética. Nenhum dos pesquisadores sabia do trabalho do outro.

    “Especialista em citogenética e genômica, Cabral-de-Mello identificou diferenças que sugeriam uma nova espécie, mas precisava das evidências morfológicas para confirmar a descoberta”, explica Andressa Paladini, primeira autora do estudo e atualmente professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

    Parceria revela espécie escondida por décadas

    Quando os cientistas descobriram que trabalhavam no mesmo problema, uniram esforços e ampliaram a análise para exemplares de grande parte do Brasil. A FAPESP apoiou o estudo, que os pesquisadores publicaram no Bulletin of Entomological Research.

    A equipe isolou uma sequência específica do DNA mitocondrial, conhecida pela sigla COI (citocromo C oxidase), que varia entre espécies e permite diferenciá-las. No entanto, a diferença era mínima.

    “Não poderíamos descrever a nova espécie apenas com a evidência genética, pois a diferença era muito pequena. Precisávamos da confirmação morfológica”, afirma Cabral-de-Mello.

    Os pesquisadores descobriram que apenas os machos apresentam uma característica distintiva visível: a extremidade bifurcada de parte da genitália. Essa peculiaridade inspirou o nome científico M. diakantha, que significa “dois espinhos” em grego.

    Espécie críptica desafia identificação visual

    A nova espécie é impossível de diferenciar a olho nu da Mahanarva fimbriolata e da Mahanarva spectabilis, suas parentes mais próximas. As três espécies compartilham áreas de ocorrência no Sul e Sudeste do Brasil, o que complica ainda mais a identificação.

    Para eliminar dúvidas, os cientistas aplicaram um terceiro método de diferenciação: a morfometria geométrica. A técnica compara a forma das asas posteriores das três espécies e revelou diferenças estatísticas significativas entre elas.

    “Tudo indica que as espécies se diferenciaram recentemente. As análises genéticas e morfológicas evidenciam isso claramente”, destaca Cabral-de-Mello.

    A identificação da M. diakantha torna necessária a reavaliação de estudos científicos anteriores sobre cigarrinhas-da-cana. Ao examinarem coleções biológicas, os pesquisadores encontraram exemplares da nova espécie coletados há décadas, mas identificados erroneamente como outras espécies. Um deles data de 1961 e trazia a identificação de M. fimbriolata.

    “Esse gênero de cigarrinha-da-cana tem espécies muito parecidas entre si, que chamamos de crípticas. Após dissecar os insetos, vimos que alguns tinham a genitália do macho diferente, o que indicava uma nova espécie”, relata Paladini, que realizava pós-doutorado sob supervisão de Carvalho na PUC-RS quando iniciou a pesquisa.

    Próximos passos incluem mapeamento e estratégias de controle

    Os pesquisadores planejam aumentar a amostragem para verificar com mais precisão a distribuição da nova espécie no país e seu impacto nas lavouras. Outra prioridade é compreender melhor a diversidade genética da M. diakantha, conhecimento fundamental para desenvolver estratégias de manejo mais eficazes.

    A descoberta pode explicar por que alguns inseticidas não funcionavam conforme esperado: a nova espécie possivelmente apresenta maior resistência aos produtos mais utilizados. Além disso, ela pode ter um ciclo de vida diferente e outras interações com o ambiente e hospedeiros, informações essenciais para o controle adequado e para aumentar a produtividade da cana-de-açúcar.

    “Agora que descrevemos a nova espécie, abrimos uma gama de novas possibilidades de pesquisa e aplicação prática”, conclui Paladini.

    A FAPESP apoiou o estudo por meio de dois projetos coordenados por Cabral-de-Mello: “Investigando a evolução de DNAs satélites em cromossomos holocêntricos de insetos-praga” e “Estrutura e evolução de DNAs repetitivos em espécies de Lepidoptera e sua relação com diversificação cariotípica e dos cromossomos sexuais”.

  • Tecnologia impulsiona produção de lúpulo no Brasil

    Tecnologia impulsiona produção de lúpulo no Brasil

    Apesar de ser o terceiro maior produtor e consumidor de cerveja do mundo, o Brasil ainda depende quase que completamente da importação de lúpulo. Isso porque menos de 1% do ingrediente responsável pelo amargor, aroma e sabor da cerveja é cultivado localmente.

    No entanto, um novo projeto com cientistas e produtores do Vale do Ribeira (SP) busca mudar esse cenário. E tornar a produção nacional de lúpulo mais eficiente e viável. Além de impulsionar o desenvolvimento de novos bioprodutos.

    O projeto, que nasceu dentro do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP, com sede na Universidade Estadual Paulista (Unesp) –, está apostando na extração supercrítica com dióxido de carbono (CO₂), uma tecnologia já consolidada em países como Alemanha e Estados Unidos. O método permite extrair compostos aromáticos e bioativos do lúpulo com alta eficiência, reduzindo custos logísticos e aumentando a qualidade da cerveja.

    “Normalmente o lúpulo brasileiro é vendido em pellets [flores desidratadas e prensadas] para cervejarias. No entanto, com essa tecnologia, o lúpulo pode ser comercializado no formato de óleo, o que, além de ganhos logísticos, confere resultados na produção da cerveja muito superiores aos métodos convencionais”, explica Levi Pompermayer Machado, professor da Unesp e um dos pesquisadores envolvidos no projeto.

    Parceiros

    Além do CBioClima, integram o projeto o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro), a incubadora Aquário de Ideias, com startups do Vale do Ribeira, além da Bioativos Naturais e a Kalamazoo – duas empresas apoiadas pelo programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP. Os produtores integram o programa SP Produz 2025, do Governo do Estado de São Paulo, que oferece apoio estratégico ao fortalecimento de cadeias produtivas locais.

    No estudo, publicado na revista Biomass Conversion and Biorefinery, os pesquisadores compararam a extração do lúpulo da empresa Atlântica Hops, localizada em Juquiá (SP), pelo método convencional e pelo método supercrítico por CO2. Enquanto a extração tradicional, feita com solventes orgânicos ou por uma técnica conhecida como arraste a vapor, rende cerca de 15% de extrato com 9% de α-ácidos (compostos responsáveis pelo amargor da cerveja), a técnica com CO2 alcança até 72% de α-ácidos. Além disso, o processo resulta em menor volume, melhor conservação e aumento de até 20% na produtividade da cerveja.

    “Cada lúpulo tem uma peculiaridade de sabor, que é definido pelo que chamamos de terroir, e é isso que a indústria procura. No estudo, também realizamos análises sobre o perfil sensorial do extrato do lúpulo em pellets e do extrato que a gente produziu. Houve uma pequena alteração de sabor, mas se manteve mais ou menos a mesma assinatura sensorial do produto. Portanto, com toda essa melhora de eficiência e qualidade, as características do terroir são quase que inteiramente mantidas”, conta.

    Química verde

    Machado ressalta que a tecnologia testada no Vale do Ribeira também se destaca por seguir os princípios da química verde. Isso porque, nos métodos tradicionais, utiliza-se grande quantidade de água ou solventes derivados do petróleo para separar os óleos essenciais do lúpulo.

    Já a extração supercrítica utiliza o dióxido de carbono em condições de alta pressão e temperatura, em que ele assume um estado entre o líquido e o gasoso (estado supercrítico). É dessa forma que o CO2 atua como solvente natural, penetrando profundamente na matéria-prima e extraindo seus compostos com alta eficiência.

    Lúpulo Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar

    “Fora isso, o CO2 utilizado na tecnologia supercrítica é recapturado ao final do processo, evitando emissões atmosféricas e eliminando resíduos químicos no extrato. Isso torna o método não apenas mais eficiente, mas também ambientalmente responsável”, afirma Machado.

    Segundo o pesquisador, o objetivo principal do projeto é oferecer aos produtores opções de cultivo com menor impacto ambiental e maior valor agregado (como é o caso do lúpulo) no lugar de expandir fronteiras agrícolas com commodities de baixo retorno, como soja e cana.

    “Estamos falando em produzir mais em uma área cultivada muito menor, com uma cultura que responde bem às mudanças climáticas e oferece múltiplas possibilidades de mercado”, destaca o pesquisador.

    Economia circular

    Outro diferencial é que os extratos obtidos com a tecnologia não se limitam à indústria cervejeira. Podendo também atender o setor de cosméticos e de farmacêuticas. Além dos extratos, os pesquisadores também analisaram os resíduos que sobraram após a extração (spent hop).

    De acordo com Johana Marcela Concha Obando, bolsista de pós-doutorado no INCT NanoAgro da Unesp e envolvida no projeto, o rejeito do lúpulo ainda carrega compostos bioativos com alto potencial antioxidante, como fenólicos e flavonoides. “Como a técnica não utiliza reagentes, esses resíduos não se perdem no processo, podendo ser utilizados para outros propósitos”, explica.

    No trabalho, a análise bioquímica revelou que, mesmo após a retirada dos principais ativos, a biomassa residual mantém propriedades que podem ser aproveitadas em novos produtos. “Com o extrato, deixamos de atender apenas o nicho cervejeiro e passamos a alcançar cinco, seis, até dez setores diferentes”, comemora Machado.

    Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

  • Inovação: pesquisadores da Unicamp criam mel sabor chocolate

    Inovação: pesquisadores da Unicamp criam mel sabor chocolate

    Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma inovação que une sustentabilidade e gastronomia. O grupo criou um mel com sabor de chocolate ao combinar mel de abelhas nativas brasileiras com cascas de amêndoa de cacau, material que a indústria normalmente descarta durante a fabricação de chocolate.

    A revista científica ACS Sustainable Chemistry & Engineering publicou os resultados do estudo na capa de sua edição, destacando o caráter inovador da pesquisa.

    “A depender da proporção de mel e cascas, o produto tem bastante sabor de chocolate”, afirma Felipe Sanchez Bragagnolo, primeiro autor do estudo. O pesquisador realizou o trabalho durante seu pós-doutorado na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira, com apoio da FAPESP.

    Tecnologia extrai compostos bioativos do resíduo

    O processo utiliza mel de abelhas nativas como solvente natural para extrair compostos bioativos das cascas de cacau. A técnica de extração assistida por ultrassom captura teobromina e cafeína – estimulantes naturais que cientistas associam à saúde cardíaca – além de compostos fenólicos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

    “Claro que o apelo maior para o público é o sabor, mas nossas análises mostraram que ele tem uma quantidade de compostos bioativos que o tornam bastante interessante do ponto de vista nutricional e cosmético”, explica Bragagnolo.

    O produto serve tanto para consumo direto quanto como ingrediente para as indústrias alimentícia e cosmética. Os pesquisadores depositaram uma patente do processo e buscam, em parceria com a Inova Unicamp, empresas interessadas em licenciar a tecnologia.

    Cinco espécies de abelhas brasileiras participam da pesquisa

    Os cientistas testaram méis de cinco espécies de abelhas nativas do Brasil: borá (Tetragona clavipes), jataí (Tetragonisca angustula), mandaçaia (Melipona quadrifasciata), mandaguari (Scaptotrigona postica) e moça-branca (Frieseomelitta varia).

    A escolha das abelhas nativas vai além do apelo pela valorização da biodiversidade. Esses méis apresentam características físico-químicas superiores para o processo: possuem maiores teores de água e menor viscosidade que o mel da abelha-europeia (Apis mellifera), o que aumenta seu potencial como solvente natural.

    A equipe escolheu inicialmente o mel da mandaguari para otimizar o processo devido aos valores intermediários de água e viscosidade. Posteriormente, os pesquisadores adaptaram a técnica para os demais méis analisados.

    A Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) de São José do Rio Preto cedeu as cascas de cacau utilizadas no estudo.

    Ultrassom acelera extração e reduz impacto ambiental

    A técnica de extração assistida por ultrassom emprega uma sonda metálica que emite ondas sonoras dentro do recipiente contendo mel e cascas. O método forma microbolhas que implodem, rompem o material vegetal e facilitam a migração dos compostos das cascas para o mel. O processo também aumenta pontualmente a temperatura, melhorando a eficiência da extração.

    “A técnica é considerada ambientalmente amigável para a indústria de alimentos, pois é mais rápida e eficiente do que outras”, destaca o estudo.

    Processo recebe nota positiva em avaliação de sustentabilidade

    O professor Mauricio Ariel Rostagno, da FCA-Unicamp, coordenou o estudo e supervisionou o pós-doutorado de Bragagnolo. Seu grupo desenvolveu o software Path2Green, ferramenta que avaliou a sustentabilidade do produto.

    As cascas das amêndoas de cacau contêm teobromina e cafeína, compostos que o uso de extração assistida por ultrassom pode transferir para o mel de abelhas sem ferrão. Foto: Felipe Bragagnolo/FCA-Unicamp

    A análise verificou a concordância com 12 princípios da química verde, considerando fatores como transporte, pós-tratamento, purificação e aplicação. O uso de um solvente comestível, local e pronto para uso pesou positivamente na avaliação. Numa escala de -1 a +1, o produto alcançou +0,118.

    “Acreditamos que com um aparelho desses, numa cooperativa ou pequena indústria que já trabalhe tanto com o cacau quanto com o mel de abelhas nativas, seria possível aumentar o portfólio com um produto de valor agregado inclusive para a alta gastronomia”, sugere Rostagno.

    Ultrassom pode aumentar durabilidade do mel

    Os pesquisadores preparam novos estudos para avaliar os efeitos do ultrassom na microbiologia do mel. A hipótese é que a técnica, além de romper o material vegetal, também destrua a parede celular de microrganismos como bactérias que podem degradar o produto.

    O mel de abelhas nativas geralmente requer conservação em geladeira, maturação, desumidificação ou pasteurização, diferentemente do mel de abelha-europeia, que tolera armazenamento em temperatura ambiente.

    “Suspeitamos que, apenas por terem passado pelo ultrassom, os microrganismos contidos sejam eliminados, aumentando a estabilidade e o tempo de prateleira do produto”, explica Bragagnolo.

    A equipe planeja testar outras aplicações da técnica, utilizando o mel de abelhas nativas como solvente para processar diferentes resíduos vegetais por meio da extração assistida por ultrassom.

    O grupo também pretende realizar testes sensoriais formais para avaliar detalhadamente o sabor e outras propriedades do produto antes da comercialização.

    Com informações de André Julião | Agência FAPESP