Tag: cana de açúcar

  • Nova espécie de cigarrinha ameaça plantações de cana-de-açúcar no Brasil

    Nova espécie de cigarrinha ameaça plantações de cana-de-açúcar no Brasil

    Uma nova espécie de cigarrinha que ataca lavouras de cana-de-açúcar foi identificada por pesquisadores brasileiros após produtores rurais relatarem resistência da praga aos defensivos químicos tradicionais. A descoberta, publicada no periódico científico Bulletin of Entomological Research da Universidade de Cambridge, representa um avanço crucial para o combate às ameaças que afetam uma das culturas mais importantes da economia nacional.

    O inseto foi batizado de Mahanarva diakantha, termo que significa “dois espinhos”. E já foi encontrado em plantações de cana-de-açúcar em diversas regiões do Brasil. Cientistas do Instituto de Biociências da Unesp em Rio Claro e da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul identificaram a espécie em colaboração.

    Problema nas lavouras motivou a pesquisa

    A investigação começou há uma década, quando empresas agrícolas procuraram o professor Diogo Cavalcanti Cabral-de-Mello, do Departamento de Biologia Geral e Aplicada da Unesp, relatando dificuldades no controle de cigarrinhas nas plantações. Os defensivos aplicados não apresentavam a eficácia esperada, gerando prejuízos significativos.

    Inicialmente, suspeitou-se que os insetos tivessem desenvolvido resistência aos produtos químicos. Porém, uma pesquisadora da Embrapa em Araras formulou uma hipótese diferente: poderia ser uma espécie ainda não catalogada pela ciência.

    Metodologia combinou análise genética e morfológica

    Para confirmar a descoberta, os pesquisadores adotaram duas abordagens complementares. A equipe da PUC-RS, liderada por Andressa Paladini e Gervásio Silva Carvalho, realizou análises morfológicas detalhadas. Enquanto isso, o grupo da Unesp conduziu estudos genéticos utilizando marcadores de DNA presentes nas mitocôndrias dos insetos.

    Mais de 300 indivíduos coletados entre 2012 e 2015 em usinas de cana-de-açúcar foram examinados. A análise genética revelou diferenças significativas em relação às espécies conhecidas de cigarrinha-da-raiz, como a Mahanarva fimbriolata e a Mahanarva spectabilis.

    O estudo morfológico identificou uma característica distintiva na genitália dos machos: uma estrutura bifurcada e pontiaguda, diferente do formato quadrangular não bifurcado presente nas outras espécies. Essa particularidade inspirou o nome científico do novo inseto.

    Impacto econômico da cana-de-açúcar no Brasil

    A cana-de-açúcar é fundamental para a economia brasileira. Em 2020, o setor gerou receita de aproximadamente US$ 8,7 bilhões em exportações. O Brasil produz cerca de 700 milhões de toneladas anuais da cultura desde 2010, sendo o maior exportador mundial de açúcar. Além disso, a planta é essencial para a produção de etanol e geração de energia a partir da queima do bagaço.

    As cigarrinhas-da-raiz representam uma das principais ameaças às plantações. Esses pequenos insetos de coloração marrom-avermelhada se alimentam da seiva da cana e transmitem toxinas que provocam a queima das folhas e perda de sacarose. Estima-se que a infestação possa causar prejuízos de até 36 toneladas por alqueire.

    Próximos passos para controle da praga

    A identificação da M. diakantha é apenas o primeiro passo. Segundo o professor Cabral-de-Mello, quando se trata de combater pragas agrícolas, as substâncias utilizadas podem ter ação direcionada para espécies específicas. Mesmo entre espécies próximas, um produto pode ser eficaz contra uma e ineficaz contra outra.

    Após a descrição inicial, a pesquisadora Andressa Paladini revisou coleções da Universidade Federal do Paraná e descobriu registros da década de 1960 de espécimes da nova espécie classificados incorretamente como M. fimbriolata. Isso sugere que o inseto pode estar presente nas lavouras há décadas sem o devido reconhecimento.

    Os próximos desafios envolvem compreender aspectos biológicos, populacionais e taxas reprodutivas da nova espécie, além de analisar amostras mais recentes, já que o cultivo de cana-de-açúcar mudou significativamente desde 2015.

    Controle biológico como alternativa

    Atualmente, o método mais utilizado para combater cigarrinhas é o controle biológico com o fungo Metarhizium anisopliae. O fungo é cultivado em laboratório, geralmente sobre grãos de arroz, e aplicado nas plantações misturado com água. Por ser um produto seletivo, ataca apenas insetos e não oferece riscos à cana ou ao ser humano.

    Odair Aparecido Fernandes, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp em Jaboticabal e líder do Centro de Pesquisa em Engenharia – Fitossanidade em Cana-de-Açúcar, acredita que as ferramentas de controle biológico continuarão eficazes. No entanto, será necessário avaliar o impacto dessas técnicas especificamente sobre a M. diakantha.

    Sequenciamento genômico promete agricultura de precisão

    O professor Cabral-de-Mello orienta atualmente uma pesquisa de doutorado que pretende realizar o sequenciamento genômico completo das três espécies de cigarrinha. Pela similaridade entre elas, a hipótese é que a separação evolutiva ocorreu nos últimos 100 mil anos.

    O sequenciamento do genoma abre possibilidades para o desenvolvimento de uma agricultura de precisão, permitindo identificar variações genéticas e estudar como elas afetam o controle de insetos. Assim, será possível desenvolver técnicas personalizadas para combater diferentes pragas de forma mais eficiente.

    Outras ameaças à cultura da cana

    Além das cigarrinhas, a cultura da cana-de-açúcar enfrenta outras duas grandes ameaças no Brasil. A primeira é a síndrome do murchamento da cana, causada pela combinação de fatores climáticos, como seca e mudanças no clima, com fatores biológicos, como fungos e pragas. A doença pode reduzir a safra em até 40%.

    A segunda ameaça é o bicudo-da-cana, um besouro que se alimenta do tecido vegetal e causa perdas de cerca de 25 toneladas por hectare. O inseto tem se espalhado devido ao método mecanizado de colheita, que mantém a palha da cana no solo — prática benéfica para conservação da umidade, mas que favorece a proliferação da praga.

    Colaboração entre universidade e setor privado

    O professor Cabral-de-Mello destaca que os resultados alcançados só foram possíveis graças à colaboração entre universidades e o setor privado. Aliás, o próprio Centro de Pesquisa em Fitossanidade em Cana-de-Açúcar é um exemplo dessa cooperação, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e pelo Grupo São Martinho.

    O centro desenvolve atualmente 55 projetos na área de saúde vegetal e manejo de pragas, muitos em parceria direta com o setor produtivo e as indústrias sucroalcooleiras, demonstrando como a ciência básica pode contribuir para resolver problemas práticos da agricultura brasileira.

  • Novo acordo assegura transparência no pagamento da cana-de-açúcar

    Novo acordo assegura transparência no pagamento da cana-de-açúcar

    Num dia que pode marcar um novo começo para o setor sucroenergético, as principais entidades do agro se reuniram em Piracicaba para fechar um acordo que promete acalmar os ânimos no campo. A AFOCAPI, ASSOCAP, CANASOL e a UNICA assinaram, nesta segunda (24), um Memorando de Entendimentos que praticamente sela a paz nos critérios de remuneração da cana-de-açúcar.

    Foto: Coplacana

    A cerimônia, realizada no Centro Canagro “José Coral”, não foi só um evento protocolar. Foi a confirmação de uma virada de página. Lá, líderes do setor e autoridades governamentais testemunharam o fim de uma era de possíveis conflitos sobre como calcular o que o produtor realmente merece receber.

    Do papel para o bolso: o que muda na prática

    A grande vitória desse memorando é a padronização. A partir de agora, não haverá mais espaço para dúvidas ou metodologias paralelas no cálculo de dois indicadores cruciais: o ATR (Açúcar Total Recuperável) e o VTC (Valor da Tonelada de Cana). As entidades vão divulgar os valores em conjunto, criando uma referência única e transparente para toda a cadeia.

    “Isso aqui é um marco de maturidade”, comemorou Evandro Gussi, presidente da UNICA. “Garantimos, de forma conjunta, que produtores e indústrias falem a mesma língua na hora de fechar a conta. É previsibilidade e segurança jurídica na veia.”

    E os efeitos são imediatos. O acordo assegura a manutenção da metodologia de cálculo que o setor já conhece, evitando surpresas desagradáveis. Um dos pontos mais aguardados, o ajuste para produtores elegíveis (o VTC-e), já tem data para entrar em cena: a safra 2025/2026, claro, respeitando as negociações individuais de cada um.

    Para blindar a credibilidade técnica de todo o processo, o CEPEA/USP-ESALQ mantem seu papel de “árbitro confiável”. A entidade continua responsável por apurar e divulgar os indicadores de preços, com total autonomia. O acordo também deixa a porta aberta para que outras associações de produtores, que queiram jogar pelo mesmo livro de regras, possam aderir no futuro.

    A mensagem que fica é clara: o setor aprendeu que a união é o melhor caminho para gerar negócios previsíveis e relações mais transparentes. E no final do dia, quem ganha é todo mundo que faz a bioenergia brasileira girar.

  • O clima contra-ataca: produção de cana em SP desaba 5,2%

    O clima contra-ataca: produção de cana em SP desaba 5,2%

    O coração do agronegócio brasileiro tomou um susto. A maior tempestade perfeita para a agricultura, uma combinação de seca implacável e geadas severas, acabou com parte da safra de cana-de-açúcar de São Paulo. O resultado? Uma queda de 5,2% na produção. O estado deve colher 335,3 milhões de toneladas na safra 2025/26. São 18 milhões de toneladas a menos que no ciclo anterior. Um baque.

    Os canaviais sofreram. A escassez hídrica nos meses cruciais atrofiou o crescimento. O inverno então veio com geadas consecutivas. E o estrago estava feito. A produtividade despencou 5,4%. Cada hectare do campo paulista rendeu menos. Bem menos.

    E tem um paradoxo aí. As condições de estresse, que reduziram a quantidade de cana, normalmente concentram mais açúcar na planta. Mas não foi bem o que aconteceu. O ATR (Açúcar Total Recuperável) ficou 3% abaixo da safra passada. A natureza pregou uma peça.

    A indústria precisou se virar nos 30. Com a queda na produção de cana, uma decisão estratégica tomou conta dos usineiros: priorizar o etanol. A partir de setembro, a valorização do biocombustível no mercado doméstico e a fraca cotação do açúcar no exterior tornaram a opção pelo álcool mais lucrativa. Foi uma mudança de rota forçada.

    Produção de etanol

    Só que a matemática é cruel. Mesmo direcionando mais cana para o etanol, a produção total do combustível em São Paulo vai cair drasticamente. Uma retração de 15,5%. Isso significa 11,44 bilhões de litros. O etanol hidratado, aquele que vai direto para o tanque do carro, sofreu o maior golpe: queda de 22,2%. A produção de açúcar, por incrível que pareça, até dá uma leve subida de 2,6%. São Paulo segue sendo o gigante nacional, respondendo por 59,3% de todo o açúcar do Brasil.

    O problema não é só de São Paulo. O Brasil inteiro sente o calor. Literalmente. Déficit hídrico, temperaturas altas e focos de incêndio castigaram o Centro-Sul. A safra nacional de cana deve recuar 1,6%. A produtividade média nacional também cai. O país produzirá menos cana, mesmo plantando mais. Um sinal de alerta.

    Enquanto o etanol de cana cai 9,5% no país, o de milho dispara. Crescimento de 22,6%. O Mato Grosso consolida sua posição como o segundo maior produtor de etanol do Brasil. Uma mudança no tabuleiro energético nacional.

    A safra 2025/26 deixa uma lição amarga. O clima dita as regras. E a indústria da cana precisa se adaptar. Rápido.

  • Descoberta de nova praga pode revolucionar controle em canaviais

    Descoberta de nova praga pode revolucionar controle em canaviais

    Uma descoberta científica promete explicar por que produtores de cana-de-açúcar enfrentavam dificuldades no controle de pragas mesmo com o uso de inseticidas eficazes. Pesquisadores brasileiros identificaram uma nova espécie de cigarrinha-da-cana, a Mahanarva diakantha, que especialistas confundiam com outras espécies desde a década de 1960.

    A identificação começou em 2015, quando o professor Gervásio Silva Carvalho, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), recebeu exemplares de cigarrinhas-da-cana de diferentes plantações do Sul e Sudeste. Os produtores relatavam que um inseticida amplamente utilizado não produzia os resultados esperados no combate à praga.

    Carvalho analisou as características físicas dos insetos enquanto, paralelamente, o professor Diogo Cavalcanti Cabral-de-Mello, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp) em Rio Claro, recebia exemplares similares para análise genética. Nenhum dos pesquisadores sabia do trabalho do outro.

    “Especialista em citogenética e genômica, Cabral-de-Mello identificou diferenças que sugeriam uma nova espécie, mas precisava das evidências morfológicas para confirmar a descoberta”, explica Andressa Paladini, primeira autora do estudo e atualmente professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

    Parceria revela espécie escondida por décadas

    Quando os cientistas descobriram que trabalhavam no mesmo problema, uniram esforços e ampliaram a análise para exemplares de grande parte do Brasil. A FAPESP apoiou o estudo, que os pesquisadores publicaram no Bulletin of Entomological Research.

    A equipe isolou uma sequência específica do DNA mitocondrial, conhecida pela sigla COI (citocromo C oxidase), que varia entre espécies e permite diferenciá-las. No entanto, a diferença era mínima.

    “Não poderíamos descrever a nova espécie apenas com a evidência genética, pois a diferença era muito pequena. Precisávamos da confirmação morfológica”, afirma Cabral-de-Mello.

    Os pesquisadores descobriram que apenas os machos apresentam uma característica distintiva visível: a extremidade bifurcada de parte da genitália. Essa peculiaridade inspirou o nome científico M. diakantha, que significa “dois espinhos” em grego.

    Espécie críptica desafia identificação visual

    A nova espécie é impossível de diferenciar a olho nu da Mahanarva fimbriolata e da Mahanarva spectabilis, suas parentes mais próximas. As três espécies compartilham áreas de ocorrência no Sul e Sudeste do Brasil, o que complica ainda mais a identificação.

    Para eliminar dúvidas, os cientistas aplicaram um terceiro método de diferenciação: a morfometria geométrica. A técnica compara a forma das asas posteriores das três espécies e revelou diferenças estatísticas significativas entre elas.

    “Tudo indica que as espécies se diferenciaram recentemente. As análises genéticas e morfológicas evidenciam isso claramente”, destaca Cabral-de-Mello.

    A identificação da M. diakantha torna necessária a reavaliação de estudos científicos anteriores sobre cigarrinhas-da-cana. Ao examinarem coleções biológicas, os pesquisadores encontraram exemplares da nova espécie coletados há décadas, mas identificados erroneamente como outras espécies. Um deles data de 1961 e trazia a identificação de M. fimbriolata.

    “Esse gênero de cigarrinha-da-cana tem espécies muito parecidas entre si, que chamamos de crípticas. Após dissecar os insetos, vimos que alguns tinham a genitália do macho diferente, o que indicava uma nova espécie”, relata Paladini, que realizava pós-doutorado sob supervisão de Carvalho na PUC-RS quando iniciou a pesquisa.

    Próximos passos incluem mapeamento e estratégias de controle

    Os pesquisadores planejam aumentar a amostragem para verificar com mais precisão a distribuição da nova espécie no país e seu impacto nas lavouras. Outra prioridade é compreender melhor a diversidade genética da M. diakantha, conhecimento fundamental para desenvolver estratégias de manejo mais eficazes.

    A descoberta pode explicar por que alguns inseticidas não funcionavam conforme esperado: a nova espécie possivelmente apresenta maior resistência aos produtos mais utilizados. Além disso, ela pode ter um ciclo de vida diferente e outras interações com o ambiente e hospedeiros, informações essenciais para o controle adequado e para aumentar a produtividade da cana-de-açúcar.

    “Agora que descrevemos a nova espécie, abrimos uma gama de novas possibilidades de pesquisa e aplicação prática”, conclui Paladini.

    A FAPESP apoiou o estudo por meio de dois projetos coordenados por Cabral-de-Mello: “Investigando a evolução de DNAs satélites em cromossomos holocêntricos de insetos-praga” e “Estrutura e evolução de DNAs repetitivos em espécies de Lepidoptera e sua relação com diversificação cariotípica e dos cromossomos sexuais”.

  • Valorização da mandioca na Tailândia pressiona mercado global de açúcar

    Valorização da mandioca na Tailândia pressiona mercado global de açúcar

    A Tailândia, maior exportadora mundial de mandioca, enfrenta uma mudança importante no perfil agrícola que pode impactar diretamente o mercado global de açúcar na safra 2026/27. A valorização da mandioca estimula produtores a migrarem da cana-de-açúcar para a raiz, influenciando a oferta internacional do adoçante.

    Com um PIB previsto em US$ 1,9 trilhão para 2025, a Tailândia destaca-se como potência agrícola, especialmente na produção de arroz, borracha, açúcar e mandioca. Nos últimos anos, a queda dos preços da mandioca e a maior rentabilidade da cana provocaram a redução da área plantada da raiz em 10% na safra 2022/23. Porém, essa tendência começa a reverter.

    A demanda chinesa pela mandioca tailandesa cresceu em 2025, após um recuo significativo nos dois anos anteriores. Enquanto a China importou 7,1 milhões de toneladas em 2022 e apenas 2,5 milhões em 2024, voltou a adquirir 4 milhões de toneladas entre março e julho de 2025, com 80% desse volume vindo da Tailândia, segundo dados da StoneX.

    O aumento dos preços do milho na China levou a indústria local de ração e etanol a buscar substituir o grão pela mandioca. Essa mudança elevou os preços da mandioca bruta na Tailândia para 1.700 baht por tonelada (US$ 51,85) em julho e agosto, acima dos 1.400 baht/t (US$ 42,70) registrados em junho — nível mais baixo desde 2017.

    Demanda chinesa

    Marcelo Di Bonifácio, analista da StoneX, observa que “a recuperação da demanda chinesa pode redefinir a rentabilidade das culturas na Tailândia. A mandioca ressurge como opção viável, principalmente se os preços do açúcar continuarem em queda”.

    Até julho, as exportações de mandioca e derivados alcançaram 4,9 milhões de toneladas, quase igualando o total de 5,2 milhões de 2024. A expectativa é de manutenção da recuperação até 2026. Reacendendo a competição com a cana nas regiões Norte e Nordeste, onde produtores costumam alternar culturas conforme a rentabilidade.

    O preço do açúcar cotado abaixo de 16 centavos de dólar por libra pressiona o governo a reduzir o preço mínimo da cana, fortalecendo a migração para a mandioca. Segundo cálculos da StoneX com base no Escritório de Economia Agrícola da Tailândia, a mandioca precisaria atingir preços entre 2.000 e 2.300 baht por tonelada para superar a cana, caso esta caia para menos de 1.000 baht/t.

    Mudança inevitável

    Di Bonifácio destaca: “Se a cana perder rentabilidade e a mandioca alcançar 2.300 baht/t, a mudança será inevitável. Podendo impactar a oferta global de açúcar já na safra 2026/27”.

    Essa substituição ocorre num momento crítico para o açúcar, que enfrenta superávit projetado para 2025/26 e pressão baixista após três safras seguidas em alta. Como responsável por cerca de 10% da exportação global do adoçante, a Tailândia tem papel decisivo nesse cenário.

    Mesmo uma redução parcial da área plantada de cana no país pode limitar a produção de açúcar e interromper o ciclo de crescimento iniciado em 2022, amenizando o excesso de oferta mundial.

    “A Tailândia é elo estratégico para açúcar e mandioca. Qualquer alteração em sua produção afeta os fluxos comerciais asiáticos e o equilíbrio global das commodities agrícolas”, afirma Di Bonifácio.

    No curto prazo, a retomada da demanda chinesa traz nova competitividade para a mandioca. No médio prazo, esse rearranjo pode redesenhar a dinâmica de dois mercados agrícolas fundamentais para a economia global.

  • RIDESA lança 18 novas variedades de cana no Brasil

    RIDESA lança 18 novas variedades de cana no Brasil

    A Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (RIDESA Brasil) lançará 18 novas variedades de cana-de-açúcar hoje (22), em Ribeirão Preto (SP). O evento “Liberação Nacional de Variedades – RIDESA” acontecerá das 8h às 14h e reunirá pesquisadores, produtores e representantes da indústria sucroenergética.

    União de universidades federais

    Com 35 anos de história e 55 anos de variedades RB, a RIDESA reúne 10 universidades federais e mais de 300 bases de pesquisa em todo o país. Ao longo dessa trajetória, a rede já disponibilizou 116 variedades ao produtor brasileiro, priorizando produtividade, teor de açúcar, facilidade de colheita e resistência a pragas e doenças.

    Novas variedades

    As 18 novas cultivares são resultado de mais de 15 anos de pesquisas conduzidas por sete universidades federais. Cada variedade foi desenvolvida para elevar a produtividade, melhorar a adaptação regional e reduzir perdas com estresse hídrico e ataques de pragas.

    Entre os destaques estão:
    • RB977526 (UFV): excelente brotação, alto perfilhamento, boa sanidade, tolerância à seca e estabilidade produtiva.
    • RB07814 (UFAL): precoce, produtiva, com alto teor de açúcar, raro florescimento e caldo de baixa cor.
    • RB071071 (UFRPE): precoce, produtiva, com alta sacarose, ampla adaptação e sanidade elevada.
    • RB074046 (UFG): crescimento rápido, porte ereto, alta produtividade e longevidade.
    • RB075322 (UFSCar): rústica, produtiva, de alto perfilhamento e longevidade comprovada em São Paulo e Mato Grosso do Sul.
    • RB106893 (UFPR): precoce, produtiva, com boa sanidade e estabilidade em áreas de restrição ambiental.
    • RB128519 (UFRRJ): alto teor de sacarose, rápido crescimento, sanidade elevada e ausência de florescimento.

    Segundo a RIDESA, o lançamento reforça o compromisso da rede com a inovação genética e a sustentabilidade do setor sucroenergético. As novas variedades prometem atender diferentes condições de clima e solo, ampliando a competitividade do produtor e fortalecendo a base tecnológica da canavicultura nacional.

  • Como a cana-de-açúcar pode garantir energia limpa durante a seca

    Como a cana-de-açúcar pode garantir energia limpa durante a seca

     

    A bioeletricidade produzida a partir do bagaço de cana-de-açúcar emerge como alternativa estratégica para garantir o abastecimento energético brasileiro durante períodos críticos de estiagem. Estudo coordenado pela Embrapa, em parceria com instituições internacionais, demonstra que essa fonte renovável pode complementar as hidrelétricas justamente quando os reservatórios atingem níveis alarmantes.

    Durante a estação seca, quando a geração hidrelétrica despenca devido à queda nos níveis dos reservatórios, a energia da cana entra em cena para suprir o sistema elétrico nacional. O diferencial está no timing: a colheita da cana coincide exatamente com o período de estiagem no Centro-Sul do país.

    Além disso, a bioeletricidade pode ser gerada durante a noite, complementando a energia solar fotovoltaica, que tem seu pico de produção apenas durante o dia. Essa sinergia fortalece a matriz energética brasileira e reduz o risco de instabilidade no fornecimento.

    Emissões baixíssimas em ciclo renovável

    Pesquisa publicada na revista científica Renewable Energy revela que a bioeletricidade do bagaço apresenta pegada de carbono de aproximadamente 0,227 kg de CO₂ equivalente por kWh. O número é significativamente inferior ao das termelétricas a diesel, que podem emitir até 1,06 kg de CO₂ equivalente por kWh.

    O aspecto mais relevante é que essas emissões não adicionam carbono novo à atmosfera. A cana absorve CO₂ durante a fotossíntese, transformando-o em biomassa. Quando o bagaço é queimado para gerar energia, libera apenas parte do carbono previamente capturado, enquanto novas plantações já reiniciam o ciclo de absorção.

    “A bioeletricidade do bagaço se mostra uma fonte renovável de baixíssimo impacto em emissões, ao mesmo tempo em que fortalece a diversificação e a resiliência da matriz elétrica brasileira”, afirma Vinicius Bufon, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente (SP).

    Alerta: vulnerabilidades ameaçam potencial estratégico

    Apesar do potencial promissor, o estudo internacional publicado na revista Environmental Advances, conduzido pela Embrapa em parceria com a Universidade das Nações Unidas e a Universidade de Bonn, identifica gargalos estruturais que podem comprometer a contribuição da bioeletricidade em momentos críticos.

    Entre os principais desafios estão:

    • Infraestrutura hídrica insuficiente: a escassez de barragens para armazenamento de água da chuva limita a capacidade de enfrentar estiagens prolongadas, resultado de falta de crédito e dificuldades no licenciamento ambiental.
    • Baixo investimento em irrigação: a dependência excessiva das chuvas aumenta a vulnerabilidade dos canaviais em regiões cada vez mais afetadas por variações climáticas.
    • Seguros agrícolas frágeis: a proteção contra secas não reflete os riscos reais enfrentados pelos produtores, deixando-os expostos a prejuízos severos.
    • Ausência de sistemas de alerta precoce: a falta de mecanismos robustos de monitoramento impede respostas rápidas e eficazes diante de cenários de risco.

    “A bioeletricidade da cana tem um papel único porque sua produção coincide exatamente com o período de estiagem, quando a geração hidrelétrica cai. Mas, para mantermos essa contribuição estável, precisamos enfrentar as fragilidades estruturais e institucionais que ainda limitam o setor”, defende Bufon.

    Soluções para fortalecer o setor sucroenergético

    A pesquisa aponta caminhos concretos para reduzir riscos e aumentar a resiliência do setor:

    • Expansão da irrigação em áreas estratégicas
    • Modernização e digitalização dos sistemas de irrigação existentes
    • Aprimoramento de estratégias de manejo hídrico integrado
    • Fomento a políticas públicas de incentivo ao setor
    • Estímulo à inovação e difusão tecnológica
    Foto: Leandro dos Santos Morais/Embrapa

    Bufon ressalta que muitas dessas soluções já estão em desenvolvimento nas pesquisas da Embrapa. “Nosso foco é contribuir para uma agricultura climaticamente inteligente, que não apenas aumente a produtividade, mas também fortaleça a capacidade de adaptação às mudanças climáticas e contribua para a redução das emissões de gases de efeito estufa”, explica.

    Bioeletricidade e agricultura climaticamente inteligente

    As medidas propostas se alinham ao conceito de Agricultura Climaticamente Inteligente, que busca conciliar três objetivos: elevar de forma sustentável a produtividade agrícola, fortalecer a resiliência dos sistemas produtivos e reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

    A bioeletricidade da cana vai além do setor energético, conectando-se a uma agenda mais ampla de sustentabilidade e segurança alimentar. Ao utilizar resíduos agrícolas para gerar energia, o setor contribui para a economia circular e fortalece a bioeconomia, reduzindo a dependência de fontes fósseis.

    Como um dos maiores produtores de cana-de-açúcar do mundo, o Brasil possui vantagens comparativas únicas para consolidar a bioeletricidade como parte central da matriz elétrica. O avanço dependerá, no entanto, de investimentos contínuos em infraestrutura, inovação tecnológica e políticas públicas integradas de longo prazo.

    “Quando as hidrelétricas reduzem sua geração, as termelétricas a biomassa de cana assumem papel decisivo para garantir a estabilidade do sistema elétrico. É um recurso firme, capaz de oferecer suporte confiável justamente nos períodos mais críticos do ano”, reforça Bufon.

    Para o pesquisador, o setor sucroenergético pode desempenhar papel decisivo não apenas no fornecimento de energia, mas também na transição para uma economia de baixo carbono. “Se conseguirmos fortalecer a resiliência da bioeletricidade, estaremos dando um passo importante para garantir a segurança energética do País e para cumprir os compromissos internacionais de mitigação climática”, conclui.

    O estudo foi desenvolvido pela Embrapa em parceria com a Universidade das Nações Unidas (Alemanha) e a Universidade de Bonn. O trabalho também integrou o doutorado de Jasmim Zevallos, com participação de Zita Sebesvari e Jakob Rhyner. Os resultados foram publicados na revista científica Environmental Advances (Elsevier).

  • Paraguaçu Paulista inaugura planta de biometano. Setor pode gerar até 20 mil empregos em SP

    Paraguaçu Paulista inaugura planta de biometano. Setor pode gerar até 20 mil empregos em SP

    O governador Tarcísio de Freitas participou da inauguração da segunda planta 100% de biometano no estado. O evento aconteceu no sábado (27) na usina Cocal, localizada em Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo.
    A nova estrutura produz até 60 mil metros cúbicos de biocombustível por dia. Autoridades estaduais e municipais compareceram ao evento, incluindo o secretário executivo Alberto Amorim e deputados federais e estaduais.

    A planta utiliza vinhaça e torta de filtro, resíduos nobres da cana-de-açúcar, para produzir biogás. A empresa também aproveita esterco animal de granjas regionais no processo produtivo. “A unidade representa um marco na transição energética”, afirma Carlos Ubiratan Garms, membro do conselho da Cocal. “Com nossas duas plantas ativas, nossa região se torna uma das principais produtoras mundiais de biometano.”

    Estado lidera políticas públicas para biocombustíveis

    A Secretaria de Agricultura incentiva ativamente o uso do biometano como fonte renovável. Em 2024, parcerias com SEMIL e CETESB estabeleceram procedimentos de licenciamento ambiental para plantas do setor sucroenergético.

    Alberto Amorim, secretário executivo da SAA, destaca a posição estratégica paulista. “São Paulo ocupa apenas 3% da superfície brasileira, mas demonstra liderança em inovação e gestão energética.”

    A empresa distribui o biometano através de GNC (gás comprimido em cilindros). Caminhões transportam o combustível para clientes industriais e comerciais em todo o país. O objetivo da Cocal inclui substituir diesel por biometano nos veículos de transporte. Esta estratégia criará um ciclo completo com zero emissões desde a produção até a entrega final.

    “Pré-sal caipira” impulsiona economia verde

    São Paulo cultiva aproximadamente 5,5 milhões de hectares de cana-de-açúcar. O estado lidera a produção nacional e aproveitará resíduos como bagaço, palha e vinhaça para gerar energia.

    O setor ganhou relevância estratégica durante a Crise do Petróleo nos anos 1970. O etanol de cana reduziu a dependência brasileira do petróleo importado e consolidou alternativas energéticas.

    Biometano pode gerar 20 mil empregos até 2030

    O gás biometano resulta da purificação do biogás gerado pela decomposição orgânica. Após o tratamento, adquire propriedades similares ao gás natural convencional. Estudos da Fiesp e Governo de SP indicam potencial para criar 20 mil empregos diretos e indiretos. A produção pode aumentar de 0,4 milhão para 6,4 milhões de m³/dia.

    A expansão do biometano contribuirá para reduzir 16% das emissões previstas nas metas climáticas estaduais. A projeção estima cobertura de 40% da demanda atual de gás natural.
    Presidente Prudente receberá distribuição prioritária do biometano produzido. A estratégia fortalece a matriz energética regional e atrai investimentos sustentáveis.

  • Colheita de cana cai, mas produção de açúcar cresce

    Colheita de cana cai, mas produção de açúcar cresce

    A produção de cana-de-açúcar na safra 2025/26 deve atingir 668,8 milhões de toneladas, queda de 1,2% frente à temporada anterior. Em geral, a área colhida no ciclo atual subiu 1% e alcançou 8,85 milhões de hectares. Porém, a produtividade caiu 2,1% e atingiu 75.575 quilos por hectare.

    Segundo a Conab, condições climáticas desfavoráveis prejudicaram a rebrota e o desenvolvimento das lavouras. Incêndios, seca e calor intenso afetaram o Centro-Sul.

    Regiões

    O Sudeste deve colher 424,5 milhões de toneladas, 3,4% menos que em 2024/25. São Paulo, líder nacional, terá retração de 15,65 milhões de toneladas.
    No Centro-Oeste, a Conab estima 150 milhões de toneladas. O aumento da área compensará a queda de produtividade e garantirá acréscimo de 4,7 milhões de toneladas.
    Ao mesmo tempo, no Norte, a produção deve cair 5,6% e totalizar 3,8 milhões de toneladas, mesmo com aumento de área em 5%. Já o Nordeste deve colher 55,2 milhões de toneladas, avanço de 1,6%. O crescimento reflete mais área plantada e leve recuperação de produtividade.
    O Sul terá produção de 35,2 milhões de toneladas. A expansão da área e as chuvas acima do esperado sustentam o crescimento regional.

    Açúcar em alta, etanol em queda

    Apesar da menor colheita, a produção de açúcar deve crescer 0,8% e alcançar 44,5 milhões de toneladas.
    O volume pode ser o segundo maior da história, atrás apenas de 2023/24, quando o país produziu 45,68 milhões de toneladas. Já a produção de etanol deve cair 3,9% e somar 35,74 bilhões de litros.
    O etanol de cana terá retração de 8,8%. Porém, o etanol de milho deve subir 14,5% e alcançar novo recorde de 8,98 bilhões de litros.

    Mercado pressionado pelo ATR mais baixo

    A menor qualidade do Açúcar Total Recuperável (ATR) no Centro-Sul reduziu a extração e sustentou os preços de açúcar e etanol. Esse cenário limita o ganho por tonelada, mas mantém o açúcar brasileiro competitivo diante da maior demanda internacional.
    No etanol, a moagem menor e o ATR baixo reduziram a oferta. A atratividade do açúcar também deslocou parte da cana para o adoçante. A ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro, de 27% para 30%, deve aumentar o consumo estrutural a partir de agosto.
    Com estoques baixos e a safra em andamento, o etanol tende a manter preços firmes, embora sensíveis ao câmbio e à gasolina.

     

  • Brasil abre mercados para gergelim e mudas de cana

    Brasil abre mercados para gergelim e mudas de cana

    O Brasil ampliou as exportações agropecuárias com duas novas aberturas de mercado anunciadas pelo governo federal. A primeira negociação, com a África do Sul, autoriza a exportação de gergelim brasileiro. O acordo representa avanço para o setor produtivo.

    África do Sul

    A África do Sul, com mais de 63 milhões de habitantes, possui a economia mais diversificada e industrializada do continente africano. Em geral, em 2024, o país importou cerca de US$ 635 milhões em produtos agropecuários brasileiros, como carnes, açúcar refinado, café verde e produtos florestais.

    Gergelim brasileiro

    As exportações brasileiras de gergelim somaram aproximadamente US$ 348 milhões em 2024, alta de mais de 58% em relação a 2023. Em geral, o crescimento foi impulsionado pela forte demanda internacional.

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    Guatemala

    Foto: divulgação – Mapa

    A segunda negociação, com a Guatemala, autoriza a venda de mudas “in vitro” de cana-de-açúcar para aquele país. O produto tem alto valor agregado por conta da pesquisa científica envolvida.
    Portanto, a abertura cria oportunidades para o setor privado brasileiro, com possibilidade de parcerias em biotecnologia, consultoria e assistência técnica. 
    Em resumo, em 2024, o Brasil exportou cerca de US$ 249 milhões em produtos agropecuários para a Guatemala, incluindo cereais, sementes de oleaginosas e produtos florestais.
    Com os dois anúncios, o agronegócio brasileiro chegou a 399 novas aberturas de mercado desde 2023. Os resultados são fruto da parceria entre o Ministério da Agricultura e Pecuária e o Ministério das Relações Exteriores.