A Hedgepoint Global Markets revisou para baixo a sua estimativa de superávit global de café para a temporada 2026/27. A consultoria agora projeta um excedente de 8,2 milhões de sacas, uma queda em relação aos 9,9 milhões previstos anteriormente. A mudança reflete ajustes na produção de diversos países e os riscos crescentes do fenômeno El Niño.
Especialistas alertam para a intensidade do El Niño, que apresenta mais de 70% de probabilidade de se tornar “muito forte” entre agosto e novembro de 2026. No Vietnã, a precipitação abaixo da média já forçou uma redução marginal na estimativa da safra 2026/27. A Indonésia e nações da América Central também enfrentam padrões irregulares de chuva, o que coloca em risco o desenvolvimento dos cafezais.
No Brasil, as chuvas constantes em junho impediram o trabalho de colheita e prejudicaram a qualidade dos grãos. Mesmo com o ritmo abaixo da média de anos anteriores, a Hedgepoint mantém a expectativa de uma safra recorde para o país em 2026/27. O mercado espera que o avanço da colheita aumente o fluxo de exportações nos próximos meses, o que pode pressionar as cotações internacionais.
Um ponto positivo para o setor brasileiro é a isenção da tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos ao café instantâneo do país, medida que deve favorecer as vendas externas.
Geopolítica e economia global pressionam preços
Além do clima, o cenário macroeconômico injeta volatilidade no mercado. O conflito entre Estados Unidos e Irã voltou a se intensificar em julho, afetando os preços de energia e reforçando a inflação persistente.
Nesse contexto, o Banco Central Europeu elevou as taxas de juros, enquanto o Federal Reserve (Fed) indicou que novos aumentos ainda são possíveis em 2026. Essa incerteza financeira levou fundos de investimento a ajustarem suas posições, desencadeando atividades de cobertura que ampliaram as oscilações nos preços do café arábica.
Embora o excedente de 8,2 milhões de sacas ainda permita uma recuperação dos estoques globais, a estrutura atual do mercado incentiva os países produtores a reterem parte da produção. Como muitas origens só iniciam a colheita entre outubro e novembro, a Hedgepoint não descarta novas revisões no superávit conforme os efeitos reais do El Niño se consolidem.
O café faz parte da rotina matinal de bilhões de pessoas e figura como uma das commodities agrícolas mais negociadas do planeta. Atualmente, a produção mundial se concentra em um grupo seleto de países localizados no chamado “cinturão do café”, entre os trópicos de Câncer e Capricórnio.
Os dados mais recentes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para o ano comercial 2025/2026 revelam um cenário de hegemonia brasileira. O Brasil produziu 63 milhões de sacas de 60 kg, o que representa 35% de toda a produção global de café verde.
Para se ter uma ideia da escala, a colheita brasileira supera a soma total da produção do Vietnã, Colômbia e Indonésia juntas. A maior parte desse volume consiste em café arábica, variedade valorizada em mercados de especialidades e produtos premium devido ao seu cultivo em altitudes elevadas.
A ascensão asiática e o fenômeno do Vietnã
Embora a América do Sul ainda lidere o suprimento global, o eixo de produção está mudando para a Ásia. Desde a década de 1960, a participação asiática no mercado saltou de menos de 5% para atuais 32%.
O grande protagonista dessa mudança é o Vietnã, que consolidou sua posição como o segundo maior produtor mundial em 1999, ao ultrapassar a Colômbia. Com uma produção de 31,7 milhões de sacas (18% do total global), o país foca na variedade robusta, grão mais resistente e com maior teor de cafeína, essencial para cafés instantâneos e misturas de café expresso.
O top 5 da produção mundial
Apenas cinco países controlam quase três quartos de todo o café cultivado no mundo. Confira os líderes:
Brasil: 63 milhões de sacas (35%)
Vietnã: 31,7 milhões de sacas (18%)
Colômbia: 12,5 milhões de sacas (7%)
Indonésia: 12,4 milhões de sacas (7%)
Etiópia: 11,6 milhões de sacas (6%)
A Etiópia, reconhecida como o berço do café arábica, mantém sua relevância histórica e econômica fechando o grupo dos cinco maiores.
Riscos no horizonte: clima e preços
Apesar dos números robustos, o setor enfrenta desafios crescentes. As mudanças climáticas impactam diretamente a qualidade das safras e reduzem as áreas viáveis para o cultivo, além de aumentarem a pressão de pragas.
Como a oferta global depende de poucos países, qualquer evento climático extremo nessas regiões gera volatilidade imediata no mercado. Isso pressiona os preços ao consumidor final, tornando o cafezinho diário mais caro em todo o mundo.
As cooperativas brasileiras do agronegócio exportaram US$ 17,4 bilhões (cerca de R$ 96 bilhões) em 2025, segundo dados da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).
O resultado representa 10,3% de todas as exportações do agronegócio brasileiro, reforçando a importância do cooperativismo para o comércio exterior do país.
Apesar do desempenho expressivo, as vendas internacionais seguem concentradas. Das 140 cooperativas exportadoras em atividade, apenas dez responderam por 67% de todo o volume embarcado ao exterior.
Além do avanço nas exportações, as cooperativas agropecuárias registraram faturamento de R$ 487,3 bilhões em 2025.
O valor representa crescimento de 11,2% em comparação com o ano anterior.
Considerando todos os segmentos do cooperativismo brasileiro, a movimentação econômica alcançou R$ 848 bilhões, equivalente a 6,6% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
Café e carne de aves lideram as exportações
Entre os principais itens exportados pelas cooperativas brasileiras estão o café, carne de aves, farelo de soja, carne suína e óleo de soja.
Esses produtos mantêm forte presença nos mercados internacionais e ajudam a consolidar a competitividade do agronegócio brasileiro.
Cooperativismo volta a crescer em número de organizações
Além disso, o levantamento da OCB também mostra a retomada da expansão do cooperativismo no país.
Em 2025, o Brasil passou a contar com 4.400 cooperativas distribuídas em 3.425 municípios.
Os indicadores econômicos revelam um setor em crescimento:
R$ 848 bilhões em ingressos totais;
Crescimento de 12% em relação a 2024;
R$ 1,6 trilhão em ativos;
Alta de 14,9% no patrimônio;
R$ 61,3 bilhões distribuídos em sobras aos cooperados;
Crescimento de 14,2% sobre o ano anterior;
613.375 empregos diretos gerados;
Expansão de 6,1% no número de trabalhadores.
Segundo a presidente-executiva do Sistema OCB, Tania Zanella, os resultados refletem a força do modelo cooperativista.
“Os números do Anuário mostram que o cooperativismo continua crescendo de forma consistente porque entrega resultados concretos para as pessoas. Cada novo cooperado representa alguém que escolheu participar de um modelo baseado na cooperação, na geração compartilhada de riqueza e no desenvolvimento das comunidades”, afirmou.
Patrimônio supera R$ 1,6 trilhão
Outro destaque do levantamento é o fortalecimento da participação econômica das cooperativas brasileiras.
O patrimônio do setor atingiu R$ 1,6 trilhão em ativos, impulsionado principalmente pelo Ramo Crédito, responsável por mais de 72% desse total.
Já o Ramo Agropecuário segue como o principal motor econômico do cooperativismo nacional. O segmento concentra 57,4% dos ingressos do setor e permanece como o maior empregador do movimento, com aproximadamente 277 mil postos de trabalho.
O desempenho reforça a relevância das cooperativas para a geração de renda, empregos e desenvolvimento das comunidades rurais em todo o Brasil.
As chuvas nas principais regiões produtoras de café arábica prejudicam a colheita da safra 2026/27. Além disso, comprometem a qualidade dos grãos, principalmente da bebida. Cerca de 30% da safra ainda permanece no campo. Por isso, essa parcela da produção continua mais exposta aos impactos do clima.
Os pesquisadores do Cepea afirmam que o volume de chuva aumentou nos últimos dias de julho. Esse período coincide com a fase final da colheita. Além disso, muitas propriedades concentram os trabalhos na varrição. Nessa etapa, os produtores recolhem os grãos que caíram no solo. Muitos desses grãos poderiam estar no chão desde o início do mês.
No entanto, as chuvas de julho aumentaram a exposição da produção à umidade. Como resultado, os grãos ficaram mais suscetíveis à perda de qualidade. O problema afeta, principalmente, as características da bebida.
Apesar das preocupações, o Cepea ressalta que ainda não é possível medir a dimensão dos prejuízos. Essa avaliação dependerá da prova, do beneficiamento e da comercialização dos lotes.
Como dizia Jorge Ben Jor: Meu amor, me faz um cafézinho! Um dos maiores estudos já realizados sobre café e saúde do fígado surpreendeu ao apontar que o consumo da bebida pode estar associado a menores riscos de doenças hepáticas graves.
A pesquisa, conduzida pela Cedars-Sinai Health Sciences University e publicada na revista Clinical Gastroenterology and Hepatology, analisou dados de quase 355 mil pessoas ao longo de mais de uma década.
Segundo os pesquisadores, indivíduos que consomem café regularmente apresentaram menor incidência de cirrose, câncer de fígado e mortes relacionadas a doenças hepáticas.
A análise utilizou dados de 354.957 participantes do UK Biobank, todos sem histórico prévio de cirrose ou câncer hepático no início do estudo. Ao longo de um período médio de 13 anos, os cientistas monitoraram novos casos dessas doenças por meio de registros médicos.
Os resultados mostraram que pessoas que consumiam cinco ou mais xícaras de café por dia tiveram:
32% menos risco de cirrose
47% menos risco de câncer de fígado
42% menos risco de morte por doença hepática
Mesmo entre aqueles que bebiam apenas uma ou duas xícaras diárias, já foram observados benefícios. Os efeitos mais consistentes apareceram com o consumo de três a quatro xícaras por dia.
Café está ligado a menor dano no fígado
Além dos dados clínicos, o estudo também avaliou exames de ressonância magnética e análises de proteínas no sangue. Os pesquisadores identificaram que consumidores de café apresentaram:
Menor acúmulo de gordura no fígado
Redução de fibrose (cicatrização hepática)
Menores níveis de inflamação
Menor excesso de ferro hepático
No sangue, também foram encontrados níveis mais elevados de proteínas associadas à função saudável do fígado e menores níveis de marcadores inflamatórios.
Esses achados ajudam a explicar, do ponto de vista biológico, por que o café tem sido associado a uma melhor saúde hepática.
Com ou sem cafeína?
O estudo também observou que tanto o café com cafeína quanto o descafeinado apresentaram associações positivas com a saúde do fígado.
O café contém diversas substâncias naturais que podem atuar na redução da inflamação e da fibrose (Foto: Rodarte/Agro Em Campo)
Consumo moderado
Apesar dos resultados, os pesquisadores reforçam que o estudo é observacional. Ou seja, não comprova que o café previne diretamente doenças hepáticas. Portanto, não há recomendação para aumentar o consumo apenas com base nesses dados.
O café deve ser um complemento a hábitos já comprovados para a saúde do fígado, como manter o peso saudável, reduzir o consumo de álcool e praticar atividades físicas.
O avanço da produção de café no Vietnã provocou décadas de desmatamento e reduziu drasticamente a cobertura florestal nas Terras Altas Centrais, principal região produtora do país. A constatação faz parte de um relatório da organização Coffee Watch, com sede em Berlim.
Segundo o estudo, o Vietnã ocupa atualmente a posição de segundo maior produtor mundial de café e responde por cerca de 40% das exportações globais de robusta (Coffea canephora). Esse crescimento, no entanto, ocorreu com forte pressão sobre os recursos naturais.
A análise, baseada em dados de satélite e registros oficiais, mostra que a cobertura de florestas tropicais na região caiu de 42,8% em 1990 para apenas 19% em 2020. As Terras Altas Centrais concentram cerca de 95% da produção de café do país.
Desmatamento avança
O desmatamento avançou com mais intensidade entre 1995 e 2010. Desde então, a perda florestal desacelerou, mas se mantém em níveis baixos. Hoje, as áreas de floresta remanescentes se concentram em regiões mais íngremes, de difícil acesso e, em muitos casos, dentro de áreas protegidas.
Foto: Wenderson Araujo/Trilux/CNA
Políticas públicas e financiamentos internacionais incentivaram a expansão acelerada do café ao longo das últimas décadas. Como consequência, o modelo produtivo gerou impactos ambientais relevantes, como fragmentação de habitats, aumento da erosão do solo e empobrecimento nutricional das áreas cultivadas. Nesse cenário, produtores passaram a depender de maiores volumes de fertilizantes para sustentar a produtividade.
O relatório também destaca efeitos diretos sobre o equilíbrio ambiental da região, incluindo alterações no fluxo e na recarga hídrica, perda de estabilidade do solo, redução da umidade, diminuição do armazenamento de carbono e aumento da incidência de pragas.
Risco futuro
Além disso, a Coffee Watch alerta que até 50% da área atual de cultivo de robusta pode se tornar inadequada nas próximas décadas. O risco decorre da combinação entre degradação ambiental e eventos climáticos extremos, como temperaturas mais altas e chuvas irregulares.
Para especialistas, o setor já começa a mudar de foco. Ly Thi Minh Hai, diretora da RECOFTC no Vietnã, afirma que a expansão do café foi historicamente um dos principais vetores de desmatamento, mas destaca que o foco atual se volta para ganhos de produtividade e sustentabilidade nas áreas já cultivadas.
Segundo ela, os produtores precisam adotar práticas mais resilientes às mudanças climáticas, como renovação de lavouras, sistemas consorciados com árvores de sombra, agricultura regenerativa e uso mais eficiente da água. O objetivo consiste em aumentar a produtividade sem ampliar a área plantada.
A RECOFTC também atua junto a comunidades locais para promover sistemas agroflorestais. Além de fortalecer a regularização fundiária, medidas consideradas essenciais para conter novos avanços sobre áreas naturais.
Portanto, para Minh Hai, o futuro do café vietnamita dependerá menos da expansão territorial e mais da gestão eficiente das áreas já disponíveis.
A nova tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros já está em vigor e provoca mudanças importantes para o agronegócio. Enquanto alguns setores perderam competitividade no mercado americano, outros conseguiram manter as exportações graças à ampliação da lista de isenções anunciada pelo governo de Donald Trump.
Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), os produtos que ficaram de fora da nova cobrança representam cerca de 63,5% do valor exportado pelo agronegócio brasileiro aos Estados Unidos. Dessa forma, boa parte das vendas do setor continua preservada.
Além disso, a decisão americana leva em consideração a dependência da indústria dos EUA de determinados insumos produzidos no Brasil. Conforme explicou a diretora de Relações Internacionais da CNA, Sueme Mori, alguns produtos são considerados estratégicos para as cadeias produtivas norte-americanas e não possuem oferta suficiente no mercado interno.
Apesar da importância dos Estados Unidos, o país perdeu espaço entre os principais compradores do agro brasileiro nos últimos meses. Entre janeiro e junho deste ano, o mercado americano respondeu por apenas 6% das exportações do setor. Em comparação, a China concentrou 35% das vendas, enquanto a União Europeia participou com 14%.
De acordo com o Ministério da Agricultura, os Estados Unidos seguem como o terceiro principal destino das exportações do agronegócio brasileiro. No entanto, as compras caíram 25,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Açúcar, etanol e frutas seguem entre os produtos tarifados
Nem todos os segmentos conseguiram escapar da nova cobrança. Açúcar, etanol, frutas, máquinas agrícolas, parte dos pescados e o sebo bovino continuam sujeitos à tarifa adicional de 25%.
No setor sucroenergético, a preocupação é maior entre os produtores do Nordeste. Como consequência, o governo federal publicou uma medida provisória para reduzir parte das perdas. O programa prevê uma subvenção de R$ 12 por tonelada de cana comercializada, beneficiando milhares de agricultores.
Já o etanol também permaneceu na lista dos produtos taxados. Ainda assim, representantes do setor avaliam que os impactos tendem a ser limitados. Isso ocorre porque os Estados Unidos representam uma parcela relativamente pequena das exportações brasileiras do biocombustível.
Na fruticultura, a situação também exige atenção. Uvas, melões e melancias terão aumento na carga tributária para entrar no mercado americano. Por isso, produtores e exportadores estudam novas estratégias comerciais e aceleram a busca por mercados alternativos.
O setor de máquinas agrícolas também será afetado. Entretanto, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) acredita que os reflexos devem ser moderados, já que as exportações para os Estados Unidos representam uma fatia reduzida do faturamento da indústria.
Entre os pescados, o filé de tilápia congelado permaneceu sujeito à cobrança, assim como lagostas vivas e algumas algas destinadas à alimentação humana.
Além disso, o sebo bovino segue na lista dos produtos tributados. A Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra) informou que continuará trabalhando para tentar reverter essa decisão junto às autoridades americanas.
Café, carne bovina e suco de laranja estão entre os isentos
Por outro lado, alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil ficaram livres da nova tarifa. A decisão foi recebida com alívio por diferentes cadeias do agronegócio.
O café está entre os maiores beneficiados. A ampliação da isenção incluiu também o café solúvel não aromatizado, fortalecendo a posição do Brasil como maior produtor e exportador mundial do produto.
A carne bovina também escapou da cobrança adicional. Atualmente, os Estados Unidos enfrentam um período de baixa oferta de gado, fator que aumenta a necessidade de importações brasileiras para abastecer o mercado local.
Outro destaque é o mel. O Brasil responde por aproximadamente 75% do fornecimento de mel orgânico consumido pelos americanos. Dessa maneira, a manutenção da isenção evita aumento de custos para consumidores e importadores dos Estados Unidos.
Na piscicultura, parte dos pescados permaneceu isenta. Entre eles estão a tilápia inteira e o filé fresco de tilápia. Segundo entidades do setor, essa decisão pode impulsionar as exportações brasileiras nos próximos meses.
O suco de laranja também ficou fora da nova tarifa. A isenção reflete a forte dependência do mercado americano da produção brasileira. Além disso, a citricultura da Flórida enfrenta dificuldades provocadas pelo greening, doença considerada uma das maiores ameaças aos pomares de laranja no mundo.
Enquanto isso, os setores que permanecem sujeitos à tarifa acompanham as negociações entre Brasil e Estados Unidos. Ao mesmo tempo, produtores e exportadores buscam diversificar mercados e reduzir os impactos da nova política comercial sobre o agronegócio brasileiro.
A colheita de café arábica alcançou 51% da área prevista pela Expocacer na safra 2026/27. O levantamento considera os trabalhos até sexta-feira (17). Apesar do avanço, o ritmo segue abaixo do registrado no mesmo período do ano passado. Na safra anterior, os produtores já haviam colhido 58% da produção.
Segundo a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer), chuvas isoladas prejudicaram temporariamente a secagem dos grãos nos terreiros. Além disso, a umidade dificultou as operações mecanizadas para recolher o café de chão.
Por outro lado, o clima favoreceu a colheita dos frutos ainda nas plantas. Com isso, os cooperados conseguiram manter o avanço das atividades no Cerrado Mineiro. Até agora, cerca de 31% do café já passou pelo beneficiamento. O rendimento médio ficou em aproximadamente 520 litros por saca beneficiada. Na última semana, os técnicos observaram aumento da catação, que atingiu 19,7%.
Ao mesmo tempo, o percentual de grãos com peneira 17 acima caiu para 27,65%. A cooperativa também registrou baixa incidência de broca nos cafés recebidos.
Atraso pode comprometer a próxima safra
A Expocacer alerta que os produtores precisam acelerar a colheita para reduzir o atraso em relação à média histórica. Segundo os técnicos, manter a carga por mais tempo nas plantas aumenta o estresse fisiológico das lavouras. Além disso, essa situação reduz o intervalo entre o fim da colheita e o início da florada.
Como consequência, as plantas têm menos tempo para recuperar reservas nutricionais e energéticas. Esse cenário pode prejudicar o desenvolvimento vegetativo, reduzir a uniformidade da florada e limitar o potencial produtivo da próxima safra.
Tempo seco deve favorecer operações
A previsão indica tempo seco até 22 de julho, sem chuvas significativas na região. De acordo com a Expocacer, esse cenário deve acelerar a colheita nas propriedades. Além disso, o aumento gradual das temperaturas favorece as operações mecanizadas.
O clima também melhora a secagem dos cafés nos terreiros, aumentando a eficiência operacional e preservando a qualidade dos grãos. Mesmo assim, os técnicos recomendam que os produtores acompanhem as condições específicas de cada município. Segundo eles, a distribuição das chuvas pode variar e influenciar o ritmo da colheita e da pós-colheita.
Expocacer projeta produção de 2,8 milhões de sacas
A Expocacer reúne mais de 800 produtores associados e faturou cerca de R$ 3 bilhões em 2025. Para 2026, a cooperativa estima produzir 2,8 milhões de sacas de café arábica em sua área de atuação.
Atualmente, a entidade possui 19,4 mil hectares certificados em cafeicultura regenerativa. Além disso, outros 29 mil hectares adotam manejo regenerativo. A cooperativa também se tornou a primeira do mundo a conquistar a certificação Regenagri® em Agricultura Regenerativa. Recentemente, a Expocacer ainda validou seus processos junto à Rainforest Alliance.
A cooperativa integra a governança da Região do Cerrado Mineiro, primeira Denominação de Origem para café do Brasil. A região reúne 55 municípios, mais de 4.500 produtores e cerca de 250 mil hectares destinados à produção de cafés com Indicação Geográfica.
O Brasil exportou 38,462 milhões de sacas de café na safra 2025/26, volume 15,7% menor que o registrado no ciclo anterior. Apesar da queda nos embarques, a receita das exportações de café atingiu US$ 14,595 bilhões, o segundo maior resultado da série histórica. Os dados são do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
A redução ocorreu principalmente pela menor oferta de café, reflexo das adversidades climáticas na safra 2025. Além disso, gargalos logísticos nos portos brasileiros e a tarifa de 50% aplicada pelos Estados Unidos também limitaram os embarques.
Em junho, o Brasil exportou 3,060 milhões de sacas de café, alta de 16,9% sobre o mesmo mês do ano anterior. No entanto, a receita cambial caiu 6%, para US$ 972,8 milhões.
No acumulado do primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras de café somaram 17,831 milhões de sacas, recuo de 8,3% em relação ao mesmo período de 2025. A receita cambial alcançou US$ 6,534 bilhões, queda de 13,3%.
Menor oferta reduz exportações de café
Segundo o presidente do Cecafé, Márcio Ferreira, o mercado já esperava uma redução nas exportações. Após os embarques recordes de 2024, os estoques brasileiros diminuíram significativamente. Além disso, problemas climáticos reduziram a produção da safra de café 2025 e limitaram a disponibilidade do produto.
Ferreira também afirma que a infraestrutura portuária deficiente prejudicou as exportações. Segundo ele, atrasos frequentes nos principais portos impediram o embarque de centenas de milhares de sacas. Como consequência, exportadores registraram custos extras com armazenagem, pré-stacking e detentions.
Tarifa dos EUA derruba embarques de café brasileiro
Outro fator que pressionou as exportações de café do Brasil foi a tarifa de 50% aplicada pelos Estados Unidos durante cerca de quatro meses. Entre 6 de agosto e 21 de novembro, os embarques brasileiros para o mercado americano despencaram 54,9%. Nesse intervalo, as exportações caíram de 2,917 milhões para 1,315 milhão de sacas.
Após a retirada da tarifa para a maior parte dos cafés brasileiros, os negócios começaram a se recuperar. Entretanto, Ferreira afirma que o mercado ainda enfrenta incertezas relacionadas à política comercial dos Estados Unidos.
Produtores venderam café no melhor momento
Segundo o Cecafé, muitos produtores permaneceram capitalizados após os preços elevados registrados nos últimos anos. Dessa forma, os cafeicultores comercializaram o café de maneira mais estratégica durante a entressafra. Como resultado, o ritmo das exportações permaneceu limitado.
Mesmo com menor volume embarcado, o preço médio das exportações de café atingiu recorde histórico. A média chegou a US$ 379,48 por saca, valor 17,4% superior ao registrado na safra anterior.
De acordo com Ferreira, as cotações internacionais permaneceram elevadas entre setembro de 2025 e janeiro de 2026. Além disso, os investimentos em tecnologia, inovação e qualidade continuam agregando valor ao café brasileiro.
Mercado acompanha colheita do café arábica
O presidente do Cecafé afirma que o mercado monitora a evolução da colheita do café arábica. Segundo ele, o atraso da colheita e as incertezas climáticas reduziram as vendas antecipadas dos produtores.
Além disso, a qualidade dos grãos ainda depende dos efeitos das chuvas registradas durante a colheita. Esses fatores devem influenciar o desempenho das exportações brasileiras de café ao longo da safra 2026/27.
Alemanha supera Estados Unidos entre os maiores compradores
A Alemanha assumiu a liderança entre os principais destinos do café brasileiro. O país importou 5,188 milhões de sacas, equivalente a 13,5% das exportações nacionais.
Os Estados Unidos ficaram na segunda posição, com 4,243 milhões de sacas, volume 43,2% inferior ao registrado na safra anterior. Na sequência aparecem Itália, Bélgica e Japão.
Café arábica lidera exportações brasileiras
O café arábica manteve a liderança nas exportações brasileiras. O país embarcou 29,499 milhões de sacas, volume equivalente a 76,7% do total exportado. Já os cafés canéforas (conilon e robusta) responderam por 5,031 milhões de sacas.
O café solúvel somou 3,874 milhões de sacas, enquanto o café torrado e torrado e moído representou uma pequena parcela dos embarques.
Cafés especiais ampliam participação nas exportações
Os cafés diferenciados, que incluem cafés especiais e certificados, responderam por 19,2% das exportações brasileiras de café. O Brasil embarcou 7,388 milhões de sacas desse segmento. A receita alcançou US$ 3,160 bilhões, equivalente a 21,7% do faturamento total das exportações.
A Alemanha liderou as compras, seguida por Estados Unidos, Bélgica, Holanda e Itália.
Porto de Santos concentra exportações de café
O Porto de Santos permaneceu como principal corredor das exportações brasileiras de café. O terminal embarcou 28,859 milhões de sacas, o equivalente a 75% do total exportado pelo país. Na sequência aparecem o complexo portuário do Rio de Janeiro e o Porto de Paranaguá.
Pesquisadores da Embrapa Cerrados (DF) testam novos sistemas de cultivo em consórcio que combinam o baruzeiro, o cafeeiro irrigado e culturas anuais e bianuais de ciclo curto. A iniciativa pode se tornar, em breve, uma alternativa viável para produtores de pequeno e grande porte que buscam diversificar a produção, ampliar a renda e usar de forma mais racional os insumos e a oferta ambiental do bioma.
Sistema integrado baru com café em linha dupla aos dois anos de campo. Foto: Tadeu Graciolli/Embrapa
O baruzeiro é uma árvore nativa do Cerrado brasileiro que produz uma castanha rica em proteínas, fibras e antioxidantes, classificada como superalimento. Apesar da alta demanda nacional e internacional, a espécie ainda não conta com safras previsíveis, já que sua produção depende basicamente da coleta em áreas naturais. Esse cenário reforça a necessidade de sistemas comerciais eficientes de cultivo.
A cafeicultura irrigada, por outro lado, já é uma atividade consolidada no Cerrado, onde o clima e a altitude favorecem a produção de cafés de alta qualidade e premiados mundialmente.
Pesquisa combina dois modelos de plantio
O pesquisador Tadeu Graciolli, criador do Sistema Filho — Fruticultura Integrada com Lavouras e Hortaliças, lançado em 2017, conduz os experimentos há quatro anos. Em uma área de 3.500 m² nos campos da Embrapa Cerrados, a equipe implantou dois sistemas: um de linha dupla (LD) e outro de linha simples (LS), cada um ocupando 45 m x 35 m.
Nos dois modelos, o espaçamento entre as plantas de baru e de café é o mesmo. A diferença está na disposição: no sistema LS, o baru foi plantado dentro da própria linha do café; no LD, uma linha de baru foi inserida entre cada duas linhas de café. Ao todo, os pesquisadores avaliam dez clones de baru e três variedades de café arábica, com o objetivo de identificar as plantas mais produtivas.
A equipe plantou as mudas de baruzeiro entre janeiro e fevereiro de 2022 e os cafeeiros entre fevereiro e março do mesmo ano. No sistema LD, a equipe realiza a irrigação por microaspersão e pode mecanizar a colheita.
Corredores de agricultura geram renda no curto prazo
As duas linhas vizinhas de cafeeiros do sistema LD formam o que Graciolli chama de “corredores de agricultura”: espaços onde a estrutura física e a irrigação disponível permitem o cultivo de culturas anuais e bianuais, como feijão, abacaxi e mandioca, enquanto o baru e o café ainda estão em desenvolvimento. Essas culturas são colhidas em poucos meses e ajudam a compensar o investimento inicial no plantio das árvores.
Plantas dos baruzeiros floresceram e produziram frutos quatro anos após o plantio. No meio natural, começam a produzir depois de sete a dez anos. Foto: Tadeu Graciolli/Embrapa
“O sistema LD foi pensado para obtenção de baru no longo prazo, café no médio prazo e culturas anuais e bianuais no curto prazo. Isso é para que o pequeno produtor se sinta seguro em entrar na atividade de plantio de baru”, explica Graciolli.
Baruzeiros floresceram em menos de três anos
Os pesquisadores colheram a primeira safra de café dos sistemas em maio de 2024, com produtividade média de cerca de 40 sacas por hectare. Em maio de 2025, enquanto se preparavam para colher a terceira safra de café, eles registraram o desenvolvimento acelerado dos baruzeiros: nove plantas floresceram e começaram a produzir frutos pouco mais de quatro anos após o plantio, bem antes dos sete a dez anos que o baru normalmente leva para frutificar em condições naturais. Algumas plantas floresceram com apenas dois anos e dez meses.
Segundo Graciolli, esse ritmo só é possível graças ao manejo intensivo do ambiente; irrigação, adubação, controle de invasoras e podas. E mesmo que o baruzeiro em si não receba adubação direta. “Ele se aproveita dos nutrientes residuais da adubação do café, do feijão, do abacaxi”, afirma o pesquisador.
A água do sistema de irrigação também não é destinada diretamente ao baru. “A irrigação é dirigida para o café e as culturas de ciclo curto. O baru entra como um convidado do sistema, aproveitando a água que sobra dessas outras culturas”, explica.
Consórcio amplia biodiversidade e sustentabilidade econômica
Para Graciolli, sistemas integrados como esse permitem maior eficiência no uso de água e nutrientes, além de aumentar a biodiversidade dos cultivos e reduzir a incidência de pragas e doenças. “São produzidos diversos produtos numa mesma área, o que traz sustentabilidade econômica. Isso favorece o pequeno produtor rural para que ele consiga viver da exploração agrícola”, destaca.
Embora a agricultura familiar tenha concebido originalmente os consórcios, o pesquisador ressalta que propriedades maiores também podem adaptá-los.
Próximos passos incluem nova safra e seleção de variedades
A terceira safra de café e a próxima, prevista para 2027, ainda serão acompanhadas pela equipe. “Depois da quarta safra, faremos a poda e o rebaixamento das plantas de café. E esperamos que o baru já tenha mais plantas atingindo a idade adulta e entrando em produção”, projeta Graciolli.
Após cinco anos de implantação, a estratégia passará por nova avaliação, com possível reabertura dos corredores de agricultura para o plantio de culturas como mandioca, quiabo ou abóbora. Paralelamente, os pesquisadores selecionam as plantas de baru mais produtivas e de crescimento mais rápido, com vistas à produção de mudas por enxertia e ao lançamento futuro de variedades superiores da espécie.
“Em sistemas dessa natureza, espera-se que o investimento financeiro seja amortizado pelas culturas de ciclo mais curto. E assim que os baruzeiros atingirem a fase adulta, se estabilizarem e entrarem em franca produção, se tornem uma cultura agronômica rentável”, projeta o pesquisador.
Feijão, abacaxi e mandioca reforçam o desempenho do sistema
Nos experimentos, três cultivares de feijão alcançaram produtividade média de 1,8 a 2,2 toneladas por hectare. Resultado que, segundo Graciolli, poderia ter superado 3 toneladas por hectare não fosse o ataque de veados campeiros às plantações.
Foto: Tadeu Graciolli/Embrapa
Já os testes com abacaxi mostraram bom desempenho das cultivares Smooth Cayenne (ou Havaí) e Pérola. Os frutos do Smooth Cayenne pesaram entre 1,8 e 2,2 quilos, com boa aparência e sabor. Enquanto os do Pérola variaram de 1,3 a 1,8 quilo, com equilíbrio entre doçura e acidez.
A mandioca, cultivada em uma área do corredor de agricultura originalmente não destinada ao plantio, teve produção de raízes que evoluiu de 4,5 kg para 7,5 kg por cova entre os 10 e os 16 meses após o plantio. O equivalente a um potencial de sete toneladas por hectare.
Sistema de linha simples serve como referência de comparação
No sistema LS, o espaçamento de 4 metros entre as linhas de café e o baru, plantados alternadamente na mesma linha, impede o cultivo de espécies de ciclo curto entre as linhas e inviabiliza a colheita mecanizada. O modelo funciona como tratamento testemunha, permitindo avaliar o impacto da proximidade entre baru e café na produtividade.
Assim, segundo Graciolli, nas duas primeiras safras, os pés de café mais próximos do baruzeiro registraram queda de produção de até 30%, atribuída à competição por água e nutrientes, e não à disputa por luz solar. No sistema LS, a irrigação por gotejamento é destinada ao café, mas também beneficia o baruzeiro. “Nesse sistema, o produtor pode produzir café gourmet em 1 a 2 hectares. E após cinco anos, ele terá o início de produção dos frutos de baru”, conclui o pesquisador.