Tag: Brasil

  • Conhecida como “olho de dragão”, fruta exótica pode virar aposta dos pomares

    Conhecida como “olho de dragão”, fruta exótica pode virar aposta dos pomares

    Pouco conhecida no Brasil, a longan começa a despertar o interesse de agricultores e consumidores atraídos por frutas exóticas. Parente próxima da lichia, a espécie chama atenção pelo sabor acentuadamente doce, pela aparência incomum e pelo potencial de ocupar espaços voltados a produtos diferenciados.

    Longan
    Foto: Kate Walton/ Flickr

    Tradicional em países como China, Tailândia e Vietnã, a fruta ainda aparece de forma tímida no mercado brasileiro. Essa raridade, porém, pode funcionar como um dos seus principais atrativos, sobretudo entre produtores que buscam diversificar o cultivo e alcançar públicos interessados em novidades.

    O que é a longan e por que ela lembra a lichia

    Cientificamente chamada de Dimocarpus longan, a fruta pertence à família das sapindáceas, o mesmo grupo botânico que reúne a lichia e o rambutã. Originária do sul da Ásia, a espécie tem registros de cultivo que ultrapassam dois mil anos e ocupa lugar de destaque tanto na culinária quanto na medicina tradicional chinesa.

    O apelido “olho de dragão” resume bem sua aparência: sob uma casca fina e amarronzada, a polpa translúcida envolve uma semente escura, criando um efeito visual que lembra um olho. Cada fruto pesa entre 6 e 19 gramas e tem tamanho próximo ao de uma azeitona grande ou uma uva.

    A longan mantém semelhanças visuais e botânicas com a lichia, o que pode facilitar sua apresentação ao consumidor. Mesmo assim, possui identidade própria: o sabor é descrito como doce e levemente almiscarado, com quem já provou comparando a experiência a uma mistura entre lichia e melão.

    Sabor doce e ficha nutricional chamam atenção

    O sabor delicado e naturalmente adocicado aparece entre os principais pontos de interesse da fruta. A aparência também desperta curiosidade imediata, principalmente entre pessoas que têm contato com o fruto pela primeira vez.

    Além do paladar, a longan carrega um perfil nutricional robusto. A cada 100 gramas, a fruta oferece cerca de 84 mg de vitamina C, valor que supera a recomendação diária do nutriente. O fruto também concentra potássio, cobre, magnésio, fósforo, manganês e vitaminas do complexo B, incluindo o ácido fólico. Estudos apontam ainda a presença de compostos antioxidantes, como polifenóis, que contribuem para a proteção das células contra o estresse oxidativo.

    Longan
    Foto: Hoisang/ Flickr

    A composição baixa em gordura e sódio, somada ao alto teor de açúcares naturais, reforça o apelo da longan como opção de consumo doce e ao mesmo tempo nutritiva. Ainda que pessoas com restrição de açúcar devam consumi-la com moderação.

    Um nicho de mercado ainda em formação

    Por ainda ser pouco conhecida no país, a longan pode encontrar espaço em mercados que valorizam produtos raros. Feiras especializadas, empórios de luxo, mercados gourmet e restaurantes ligados à alta gastronomia surgem como possíveis caminhos para a comercialização.

    O cultivo da fruta acompanha um movimento de produtores que procuram alternativas fora das commodities tradicionais. Em vez de depender apenas de culturas já consolidadas, a introdução de espécies exóticas amplia a variedade dos pomares e abre novas possibilidades de renda.

    A raridade do produto ajuda a construir um apelo comercial ligado à exclusividade. Consumidores interessados em sabores diferentes e ingredientes pouco comuns tendem a formar o público inicial desse tipo de cultivo. No cenário internacional, o quadro é distinto: a longan figura entre as frutas tropicais de menor porte com maior volume de produção global, com exportação relevante de polpa seca, suco e conserva para Europa, América do Norte e Austrália. Um indicativo do potencial que o produto ainda pode desenvolver por aqui.

    Ainda assim, o mercado brasileiro permanece em fase de formação. Não existem dados consolidados sobre o volume total produzido, a área ocupada pelas plantações ou a comercialização em larga escala no país. Sem números amplos, o cultivo deve ser visto como uma experiência promissora, mas ainda inicial. O avanço dependerá da aceitação dos consumidores e do interesse de outros agricultores em testar a espécie.

    Adaptação ao clima brasileiro exige cuidados

    A longan precisa de atenção durante todo o ciclo de cultivo até a colheita. O manejo específico da planta faz parte dos desafios enfrentados por quem decide introduzir a fruta em uma propriedade. Na origem, a árvore pode ultrapassar 30 metros de altura, o que também influencia decisões sobre espaçamento e manejo em pomares comerciais.

    Experiências de plantio já realizadas indicam que a espécie consegue se adaptar a determinadas condições encontradas no país. Esse resultado inicial aumenta o interesse de produtores que acompanham a expansão de frutas exóticas no Brasil.

    A adaptação, no entanto, não garante que o cultivo em grande escala vingue. Como a produção ainda é limitada, o comportamento da cultura precisa ser observado ao longo do tempo, em diferentes regiões e condições de solo e clima.

    Potencial comercial e diversificação no campo

    A aparência incomum pode ajudar a longan a ganhar destaque em pontos de venda. Em feiras e empórios, a fruta tende a chamar atenção pelo simples fato de ser diferente das opções mais conhecidas pelo consumidor brasileiro.

    O sabor doce também favorece a aproximação com o público. A relação com a lichia oferece uma referência conhecida, embora a longan mantenha identidade própria. Restaurantes e estabelecimentos voltados à gastronomia representam outra oportunidade: ingredientes exóticos costumam despertar o interesse de cozinhas que buscam apresentar novas experiências aos clientes.

    Longan
    Foto: Fruitnet/ Flickr

    A presença da longan em propriedades rurais mostra como frutas raras podem integrar estratégias de diversificação. A espécie não precisa substituir culturas tradicionais, mas pode dividir espaço com elas e ampliar o número de produtos oferecidos por um mesmo produtor.

    Esse modelo permite testar a aceitação do mercado sem depender exclusivamente de uma cultura ainda pouco conhecida. Caso a procura aumente, o plantio pode ganhar novas áreas e alcançar outros produtores.

    Por enquanto, a longan permanece como uma aposta. Seu sabor doce, o visual exótico, a riqueza nutricional e a proximidade com a lichia formam os principais elementos capazes de atrair consumidores. A fruta ainda tem um longo caminho até conquistar presença regular no mercado brasileiro. Mesmo assim, o interesse já despertado mostra que espécies asiáticas pouco conhecidas podem abrir espaço entre agricultores e compradores que procuram alternativas fora do comum.

    Siga o canal do Agro em Campo no WhatsApp e saiba tudo em primeira mão

  • Estados Unidos ameaçam reter parte do açúcar brasileiro

    Estados Unidos ameaçam reter parte do açúcar brasileiro

    O açúcar brasileiro entrou no centro das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

    O governo americano sinalizou que poderá redistribuir cerca de 56 mil toneladas da cota de açúcar destinada ao Brasil caso o país não apresente propostas comerciais consideradas satisfatórias por Washington.

    A declaração foi feita pelo subsecretário de Agricultura dos Estados Unidos, Stephen Vaden, durante um simpósio da American Sugar Alliance.

    A medida ocorre em meio à pressão dos produtores americanos por uma política mais restritiva para a entrada de açúcar estrangeiro no mercado dos Estados Unidos.

    Brasil pode perder parte da cota de açúcar

    Para entender a disputa, é preciso olhar para o sistema de cotas tarifárias, conhecido como TRQ.

    O mecanismo permite que determinados países exportem uma quantidade específica de açúcar para os Estados Unidos pagando uma tarifa reduzida.

    Para o Brasil, a cota tradicional fica em torno de 156 mil toneladas.

    No ano fiscal de 2027, que começa em 1º de outubro de 2026 e termina em 30 de setembro de 2027, os Estados Unidos estabeleceram uma cota global de aproximadamente 1,117 milhão de toneladas, distribuída entre 39 países.

    Até o momento, porém, apenas 100 mil toneladas foram destinadas ao Brasil.

    Outras 56 mil toneladas ainda não foram alocadas, o que corresponde a cerca de 36% da cota brasileira.

    Esse é justamente o volume que pode ser redistribuído para outros fornecedores caso as negociações entre os dois países não avancem.

    Por que a cota é importante?

    Em volume, o mercado americano representa uma parcela pequena das exportações brasileiras de açúcar.

    O Brasil deve exportar aproximadamente 35,7 milhões de toneladas de açúcar na safra 2025/26, segundo estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

    As 156 mil toneladas da cota americana representam menos de 0,5% das exportações brasileiras.

    Por isso, a eventual perda do volume não seria suficiente para alterar o destino da maior parte da produção nacional.

    O problema está principalmente na diferença entre as tarifas cobradas dentro e fora da cota.

    Tarifa pode mudar de US$ 14,60 para US$ 338,60 por tonelada

    O açúcar brasileiro que entra nos Estados Unidos dentro da cota recebe uma condição tarifária muito mais favorável.

    Para o açúcar bruto, a tarifa dentro da cota é de aproximadamente 0,66 centavo de dólar por libra.

    Quando o produto ultrapassa o limite, a tarifa sobe para cerca de 15,36 centavos de dólar por libra.

    Na conversão para toneladas, a diferença equivale a aproximadamente US$ 14,60 por tonelada dentro da cota contra US$ 338,60 fora dela, antes de eventuais tarifas adicionais.

    Por isso, embora as 56 mil toneladas representem uma parcela pequena da produção brasileira, o acesso a esse espaço tarifário possui valor comercial significativo.

    Produtores dos EUA pressionam por mais proteção

    A ameaça ao Brasil acontece paralelamente a uma mobilização dos produtores americanos de cana e beterraba.

    Representantes da American Sugar Alliance defendem mudanças nas regras de importação e a atualização da chamada tarifa tier 2, aplicada ao açúcar que entra no mercado americano acima das cotas.

    A tarifa foi criada em 2000 e, segundo representantes do setor e do USDA, perdeu parte da capacidade de desestimular as importações.

    A responsável pelo programa de açúcar do USDA, Carlann Unger, afirmou que a tarifa atual já não seria suficientemente alta para funcionar como uma barreira efetiva à entrada do produto estrangeiro.

    O argumento também está relacionado ao nível dos estoques americanos.

    Segundo Unger, os Estados Unidos começaram o ano fiscal de 2026 com os maiores estoques de açúcar já registrados.

    Importações são apontadas como pressão

    Os produtores dos Estados Unidos afirmam que o aumento das importações acima das cotas contribuiu para pressionar os preços domésticos.

    Um estudo do Centro de Políticas de Risco Agrícola da Universidade Estadual de Dakota do Norte (NDSU) estimou que o crescimento dessas importações provocou mais de US$ 3 bilhões em perdas aos produtores americanos nas duas últimas safras.

    O economista Shawn Arita, um dos autores da pesquisa, afirmou que o estudo encontrou efeito significativo das importações sobre os preços domésticos do açúcar.

    Disputa do açúcar amplia tensão comercial entre Brasil e EUA

    A discussão sobre a cota ocorre em um cenário mais amplo de tensão comercial entre os dois países.

    Em julho, os Estados Unidos anunciaram novas medidas tarifárias sobre produtos brasileiros. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), medidas publicadas em 15 e 23 de julho estabeleceram sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parcelas das importações brasileiras, conforme os produtos e enquadramentos.

    No setor agropecuário, o açúcar se tornou mais um ponto de pressão nas negociações.

    Por enquanto, não há perda definitiva das 56 mil toneladas ainda não alocadas. O que existe é a sinalização de Washington de que o volume poderá ser redistribuído caso o Brasil não apresente propostas consideradas satisfatórias.

    Para o setor sucroenergético brasileiro, portanto, a disputa não está apenas relacionada à quantidade de açúcar exportada, mas principalmente às condições de acesso ao mercado americano.

  • Cota de açúcar vira novo capítulo da crise comercial entre Brasil e Estados Unidos

    Cota de açúcar vira novo capítulo da crise comercial entre Brasil e Estados Unidos

    O governo de Donald Trump condicionou a devolução de uma cota de exportação de açúcar brasileira de quase 60 mil toneladas à apresentação de “propostas comerciais satisfatórias” por parte do Brasil. Caso o país não atenda à exigência, os Estados Unidos ameaçam redistribuir o volume a outros exportadores.

    plantação de cana de açúcar
    Foto: Nilza Patricia Ramos/Embrapa

     

    O subsecretário de Agricultura dos Estados Unidos, Stephen Vaden, fez a declaração durante um simpósio da American Sugar Alliance (Aliança Americana do Açúcar), na última segunda-feira (3). A adida do Ministério da Agricultura na embaixada brasileira em Washington, Ana Lucia Viana, registrou as falas de Vaden em um comunicado urgente enviado a Brasília. A Folha obteve o documento, que a equipe do Agro em Campo confirmou.

    Como funciona a cota americana de açúcar

    Os EUA abrem anualmente uma cota de importação de 1,1 milhão de toneladas de açúcar bruto de cana, com base em compromissos assumidos junto à OMC (Organização Mundial do Comércio). Uma tarifa reduzida incide sobre o volume que entra no país dentro desse montante, enquanto uma barreira de aproximadamente US$ 340 por tonelada afeta o que fica de fora. Um obstáculo que, segundo o setor, compromete fortemente a competitividade do produto brasileiro.

    Ao anunciar as cotas para o próximo ciclo, a gestão Trump reduziu a parcela destinada ao Brasil de 155,9 mil toneladas para 100 mil toneladas, uma queda de 35,9%.

    Brasil pode recuperar volume ou perdê-lo para concorrentes

    Segundo o relato da representante do Ministério da Agricultura, Vaden afirmou durante o evento que o volume retirado do Brasil poderá retornar ao país, mas apenas mediante propostas comerciais consideradas satisfatórias pelos EUA. Na ausência de um entendimento, as 55.993 toneladas métricas em valor bruto poderão ir para outros países.

    O relatório da diplomata brasileira destaca que a coincidência exata entre o volume reduzido da cota brasileira. E a quantidade ainda não alocada reforça a percepção de que o governo americano usa a medida como instrumento de negociação comercial.

    No mesmo documento, a funcionária da Agricultura afirma ter procurado o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) para saber se o corte era permanente ou se haveria possibilidade de recomposição, ainda que parcial. Ela argumentou ao USTR que o Brasil preencheu integralmente a cota atual de quase 160 mil toneladas. Portanto, demonstra capacidade de fornecimento, confiabilidade e demanda por parte da indústria americana. O lado americano, segundo o relato, não forneceu detalhes adicionais aos já anunciados publicamente.

    Etanol pode entrar na negociação

    O comunicado da adida agrícola não especifica o que constituiria uma proposta comercial satisfatória para os EUA. Washington, porém, pressiona o Brasil há anos para reduzir a tarifa de 18% cobrada sobre a compra de etanol americano.

    De acordo com levantamento da Unica, que representa o setor, competitividade do biocombustível está no maior nível desde 2018 (Foto: Divulgação/Agência GOV)

    O governo Lula já sinalizou que aceitaria discutir a redução dessa barreira caso os EUA incluíssem nas conversas uma abertura comercial para o açúcar. Mas as partes nunca fecharam acordo nesse ponto.

    O Ministério da Agricultura e o Departamento de Agricultura dos EUA não responderam até a publicação desta reportagem aos questionamentos do Agro em Campo.

    Novas cotas entram em vigor em outubro

    As novas cotas tarifárias americanas vigorarão a partir de outubro, com duração de um ano. A República Dominicana recebeu o maior volume, com cerca de 189 mil toneladas de açúcar de cana em condições mais vantajosas, seguida pelas Filipinas, com 145 mil toneladas. O Brasil ficou com a terceira maior alocação.

    No ano passado, o Brasil exportou 292,4 mil toneladas de açúcar bruto para os EUA, segundo dados da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia). Produtores do Nordeste preenchem a cota, enquanto o Sudeste, com colheita mais mecanizada, fornece a maior parte do volume exportado acima dela.

    A tarifa aplicada às exportações fora da cota já dificultava o acesso do açúcar brasileiro ao mercado americano. E a situação piorou com os sucessivos tarifaços que Trump impôs ao Brasil. Além dos US$ 340 por tonelada, o produto que entra no mercado americano fora da cota também enfrenta sobretaxas cumulativas de 37,5%, aplicadas com base em duas investigações comerciais conduzidas pelo USTR. O volume dentro da cota, por sua vez, paga uma tarifa extra de 25%, referente a uma das apurações do USTR.

    Corte se soma a crise diplomática entre Brasil e EUA

    A ameaça de Vaden representa mais um capítulo da crise diplomática e comercial entre os governos Lula e Trump. E que foi agravada pela revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti. Semanas antes, o governo Lula havia negado vistos a funcionários do Departamento de Estado que, segundo auxiliares do petista, pretendiam interferir nas eleições brasileiras. O Itamaraty também não autorizou o início da missão em Brasília de Daniel Perez, embaixador indicado por Trump.

    No campo comercial, os EUA impuseram ao Brasil, no ano passado, um tarifaço de até 50%, sob a justificativa de que o governo Lula e o Judiciário promoviam uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A Suprema Corte dos EUA declarou ilegal a maior parte dessas sobretaxas. Mas Trump impôs novas sanções, de 25% e 12,5% em julho, agora amparadas pelo USTR.

    Questionada sobre o tema, a Unica classificou o Brasil como parceiro confiável para os EUA, capaz de assegurar um fornecimento regular e consistente de açúcar de alta qualidade. A entidade afirmou esperar que as tratativas avancem de forma construtiva. Assim, evitando a adoção de medidas que criem novas barreiras ao comércio entre os dois países.

  • Governo tenta reverter restrição da UE para manter exportações brasileiras

    Governo tenta reverter restrição da UE para manter exportações brasileiras

    O governo federal intensificou as negociações com a União Europeia para evitar que o Brasil seja retirado da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal ao bloco. A medida preocupa o agronegócio brasileiro, principalmente a cadeia da carne bovina, já que as novas exigências entram em vigor a partir de setembro.

    Durante o Salão Internacional de Proteína Animal (SIAVS), realizado em São Paulo, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, afirmou que o governo atua em diferentes frentes para reverter a decisão.

    “Estamos trabalhando do ponto de vista técnico, diplomático e político para encontrar uma solução. Representantes brasileiros já participaram de reuniões com a Comissão Europeia para discutir alternativas.”

    Por que a União Europeia impôs novas exigências?

    A União Europeia informou que o Brasil não comprovou integralmente o cumprimento das regras relacionadas ao uso de antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais destinados à exportação.

    O bloco europeu proíbe a utilização desses produtos como promotores de crescimento e exige um sistema capaz de comprovar que os animais não receberam substâncias vetadas desde o nascimento até o abate.

    Caso não haja acordo, o Brasil poderá deixar de exportar determinados produtos de origem animal para o mercado europeu a partir de 3 de setembro.

    Governo negocia período de transição

    O Ministério da Agricultura tenta negociar um período de adaptação para que os produtores possam atender às novas exigências sem interromper o fluxo comercial.

    Além disso, o governo avalia ampliar as restrições ao uso desses insumos em todo o território nacional, medida que hoje é aplicada principalmente às propriedades habilitadas para exportação ao mercado europeu.

    Para André de Paula, manter o Brasil entre os fornecedores da União Europeia é fundamental.

    “É inaceitável para o Brasil estar fora da lista.”

    O ministro ressaltou que o país exporta alimentos ao bloco europeu há décadas e também atende mercados considerados igualmente ou até mais rigorosos em relação às normas sanitárias.

    Setor teme impactos nas exportações

    O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Roberto Perosa, afirmou que existe preocupação com o prazo necessário para adequação das propriedades.

    Segundo ele, comprovar todo o histórico sanitário de um bovino exige acompanhar o animal desde o nascimento até o abate, processo que pode levar entre dois e três anos.

    “Hoje há risco, mas temos esperança de que o governo brasileiro consiga negociar uma transição maior para manter o fluxo comercial com a Europa.”

    Diversificação dos mercados segue como estratégia

    Enquanto negocia com a União Europeia, o governo também busca ampliar a presença da proteína animal brasileira em novos mercados.

    Entre as iniciativas está uma missão técnica da Coreia do Sul, prevista para agosto, que poderá abrir novas oportunidades para o setor.

    Segundo André de Paula, essa estratégia reduz a dependência de compradores específicos e fortalece o agronegócio brasileiro diante de mudanças nas regras internacionais.

    Brasil mantém presença global

    O ministro destacou que o Brasil exporta produtos agropecuários para cerca de 180 países e territórios e já conquistou 664 aberturas de mercado.

    De acordo com ele, esse desempenho demonstra a competitividade da produção nacional, a qualidade da carne brasileira e a credibilidade do sistema de defesa sanitária do país.

  • ABPA diz que Brasil construiu liderança em proteína animal “com décadas de trabalho”, não por herança

    ABPA diz que Brasil construiu liderança em proteína animal “com décadas de trabalho”, não por herança

    O Brasil abriu nesta terça-feira (4) a maior edição da história do Salão Internacional de Proteína Animal (SIAVS), em São Paulo. O evento reúne mais de 400 empresas expositoras e visitantes de mais de 60 países até quinta-feira (6/8) e consolidou-se como o principal ponto de encontro das cadeias produtivas de aves, suínos e ovos no país.

    Autoridades durante a abertura oficial do SIAVS 2026. Foto: Alf Ribeiro | ABPA

    Durante o discurso de abertura, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, atribuiu a liderança brasileira no setor a décadas de investimentos contínuos, e não a uma vantagem natural do país. “Isso mostra que a nossa liderança não foi herdada. Mas construída por gerações de produtores, cooperativas, empresas, pesquisadores e profissionais que fizeram da produção de alimentos uma missão para o Brasil e para o mundo”, afirmou.

    Genética, sanidade e inovação sustentam a posição do Brasil

    Santin listou os pilares que, segundo ele, garantiram ao país a posição de destaque global: investimentos em genética, sanidade animal, tecnologia, inovação e integração entre produtores e agroindústrias. Essas atividades já geram milhões de empregos e movimentam mais de US$ 33 bilhões em exportações, de acordo com a entidade.

    O dirigente também relacionou o cenário internacional à relevância crescente do Brasil no fornecimento de alimentos. “Diante de um cenário internacional marcado por conflitos, barreiras comerciais e insegurança alimentar, o Brasil se tornou um dos poucos países capazes de garantir oferta contínua de proteína animal para os mercados interno e externo”, declarou.

    Governo federal aposta na expansão da liderança brasileira

    O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, também discursou na cerimônia e reforçou o papel estratégico da proteína animal para a economia nacional. Segundo ele, o crescimento do agronegócio impulsiona diretamente a geração de empregos, renda e oportunidades em todo o país.

    De Paula parabenizou a ABPA pela realização da maior edição do evento. E destacou que o SIAVS passou a reunir toda a cadeia produtiva; produtores, indústrias, pesquisadores, investidores, compradores internacionais e representantes do poder público. “O Brasil possui todas as condições para ampliar ainda mais sua liderança global na produção de proteína animal, apoiado em inovação, tecnologia, ciência, genética, sustentabilidade e credibilidade internacional”, afirmou.

    O ministro citou ainda os esforços do governo para enfrentar novas exigências regulatórias dos mercados internacionais. E preservar o reconhecimento do sistema brasileiro de defesa agropecuária. “O Brasil assumiu com responsabilidade a missão de alimentar o mundo. A grandeza de um país se mede pela sua capacidade de gerar oportunidades, produzir conhecimento e contribuir para a segurança alimentar global”, completou.

    Parlamentares defendem ambiente regulatório favorável ao setor

    A senadora Tereza Cristina também participou da abertura e elogiou a condução da ABPA sob a liderança de Ricardo Santin. A parlamentar destacou o esforço diário dos produtores rurais e defendeu que o poder público deve criar condições favoráveis para sustentar o crescimento do setor. “A produção de proteína animal transforma a realidade dos municípios brasileiros, promovendo geração de empregos, renda e melhoria dos indicadores de desenvolvimento”, disse.

    O deputado federal Pedro Lupion Mello, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e representante do Paraná, reforçou o papel das cadeias de avicultura, suinocultura e pescado no desenvolvimento regional. Segundo ele, a FPA trabalha para reduzir entraves burocráticos e garantir um ambiente regulatório que preserve a competitividade dos produtores brasileiros de todos os portes. “Nosso papel é garantir que a legislação não impeça quem produz de continuar gerando empregos, renda e alimentos para o Brasil e para o mundo”, declarou.

    Produtividade baixa ainda limita o crescimento da economia brasileira

    Na conferência magna do evento, o professor do Insper Fernando Schuler apontou a baixa produtividade como o principal entrave estrutural do país. Ele citou a cadeia de proteína animal como um exemplo de eficiência, já que o setor combina investimento contínuo em tecnologia, inovação e gestão com abertura à competição internacional.

    Foto: Alf Ribeiro | ABPA

    Schuler alertou ainda para os riscos da dívida pública, do alto custo do crédito e da perda de credibilidade fiscal sobre os investimentos produtivos. Para o professor, reformas administrativa, previdenciária e fiscal são essenciais para sustentar as contas públicas. Além de criar espaço para a expansão da atividade econômica, com o agronegócio como referência de geração de riqueza.

    Simpósio discute expansão do consumo e exportação de ovos

    O primeiro dia do SIAVS também recebeu o Simpósio Ovos Brasil, que reuniu especialistas, produtores e empresas para debater o crescimento do consumo interno de ovos, a abertura de novos mercados internacionais e as estratégias de agregação de valor aos produtos.

    A coordenadora técnica da ABPA, Tabatha Lacerda, explicou que a programação buscou oferecer um panorama amplo sobre o futuro da avicultura de postura. “O setor precisa estar preparado para compreender as tendências de mercado, identificar oportunidades comerciais, fortalecer suas marcas e estruturar seus negócios para os desafios das próximas décadas”, afirmou.

    O SIAVS 2026 segue em São Paulo até quinta-feira (6/8), com programação voltada às cadeias de aves, suínos, ovos e pescado.

  • Criação de pôneis dispara no Brasil; entenda o mercado

    Criação de pôneis dispara no Brasil; entenda o mercado

    A criação de pôneis vem ganhando cada vez mais espaço no agronegócio brasileiro. O movimento é impulsionado pela diversificação das atividades no campo, pelo crescimento do turismo rural, da equoterapia e do mercado de animais de lazer e exposição.

    Com manejo mais simples e custo de manutenção menor que o dos cavalos de grande porte, os pôneis se tornaram uma alternativa atrativa para pequenos e médios produtores.

    O tamanho do mercado no Brasil

    Segundo a Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Pônei (ABCCP), os pôneis já estão presentes em praticamente todos os estados brasileiros, com mais de 300 criadores registrados no país.

    A ABCCP, entidade registrada junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), é responsável pelo registro genealógico, pelo desenvolvimento do padrão racial e pela organização de exposições que fortalecem a cadeia produtiva.

    “Embora ainda seja um nicho quando comparado ao mercado de equinos de esporte e trabalho, a demanda por pôneis vem crescendo nos últimos anos por conta da sua versatilidade”, explica Fernando Montenegro, diretor financeiro da ABCCP e proprietário do Haras FOM, em Tatuí (SP).

    Sete raças reconhecidas no país

    O registro genealógico das raças de pôneis no Brasil é feito exclusivamente pela ABCCP. Atualmente, a entidade reconhece e ampara sete raças:

    • Pônei Brasileiro
    • Piquira
    • Shetland
    • Welsh Pony
    • Haflinger
    • Fjord
    • Reitpony

    Como a criação de pôneis gera renda?

    Além da venda de animais para criadores e exposições, o setor abre oportunidades em diferentes frentes, como haras de lazer, fazendas de turismo, centros de equoterapia e escolas de equitação infantil.

    Apesar da proximidade com as famílias, Fernando Montenegro faz um alerta importante: o pônei não deve ser tratado como pet. “Trata-se de um animal rústico, que requer espaço e cuidados específicos para garantia de bem-estar, além de ter uma vida longa”, explica.

    Custo de produção é menor

    Uma das principais vantagens da atividade está no custo de produção. Por serem de menor porte, os pôneis consomem menos alimento e precisam de áreas reduzidas para manejo, o que permite que propriedades menores também entrem no negócio.

    A rusticidade da raça ainda favorece a adaptação a diferentes regiões do Brasil. Os animais apresentam boa longevidade, fertilidade e docilidade, características valorizadas tanto por criadores quanto por instituições que utilizam equinos em atividades terapêuticas.

    Segundo a ABCCP, o trabalho de seleção genética conduzido pelos criadores brasileiros ajudou a formar um plantel reconhecido pela qualidade morfológica e pelo temperamento equilibrado dos animais.

    Quanto custa um pônei?

    O valor de um pônei varia conforme genealogia, conformação física e histórico em competições:

    Animais comerciais (indicados para mini fazendas, sítios e iniciação): em torno de R$ 10 mil

    Animais de alto padrão: podem chegar a R$ 60 mil

    “A criação de pôneis acompanha uma tendência observada em outros segmentos do agronegócio: a valorização de atividades de nicho. Para pequenos produtores, a atividade pode representar uma alternativa interessante de diversificação da renda”, afirma Mauro Vieira Filho, criador que iniciou a atividade há quatro anos e hoje possui 38 animais, com foco em animais de entrada para sítios e fazendinhas.

    Já Fernando Montenegro segue uma estratégia diferente, apostando também na criação de animais de elite e na organização de leilões desde 2018.

  • Brasil produz mais café do que os seus três maiores rivais somados

    Brasil produz mais café do que os seus três maiores rivais somados

    O café faz parte da rotina matinal de bilhões de pessoas e figura como uma das commodities agrícolas mais negociadas do planeta. Atualmente, a produção mundial se concentra em um grupo seleto de países localizados no chamado “cinturão do café”, entre os trópicos de Câncer e Capricórnio.

    https://www.instagram.com/p/DbkzWU1Szjq/

    Os dados mais recentes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para o ano comercial 2025/2026 revelam um cenário de hegemonia brasileira. O Brasil produziu 63 milhões de sacas de 60 kg, o que representa 35% de toda a produção global de café verde.

    Para se ter uma ideia da escala, a colheita brasileira supera a soma total da produção do Vietnã, Colômbia e Indonésia juntas. A maior parte desse volume consiste em café arábica, variedade valorizada em mercados de especialidades e produtos premium devido ao seu cultivo em altitudes elevadas.

    A ascensão asiática e o fenômeno do Vietnã

    Embora a América do Sul ainda lidere o suprimento global, o eixo de produção está mudando para a Ásia. Desde a década de 1960, a participação asiática no mercado saltou de menos de 5% para atuais 32%.

    O grande protagonista dessa mudança é o Vietnã, que consolidou sua posição como o segundo maior produtor mundial em 1999, ao ultrapassar a Colômbia. Com uma produção de 31,7 milhões de sacas (18% do total global), o país foca na variedade robusta, grão mais resistente e com maior teor de cafeína, essencial para cafés instantâneos e misturas de café expresso.

    O top 5 da produção mundial

    Apenas cinco países controlam quase três quartos de todo o café cultivado no mundo. Confira os líderes:

    Brasil: 63 milhões de sacas (35%)

    Vietnã: 31,7 milhões de sacas (18%)

    Colômbia: 12,5 milhões de sacas (7%)

    Indonésia: 12,4 milhões de sacas (7%)

    Etiópia: 11,6 milhões de sacas (6%)

    A Etiópia, reconhecida como o berço do café arábica, mantém sua relevância histórica e econômica fechando o grupo dos cinco maiores.

    Riscos no horizonte: clima e preços

    Apesar dos números robustos, o setor enfrenta desafios crescentes. As mudanças climáticas impactam diretamente a qualidade das safras e reduzem as áreas viáveis para o cultivo, além de aumentarem a pressão de pragas.

    Como a oferta global depende de poucos países, qualquer evento climático extremo nessas regiões gera volatilidade imediata no mercado. Isso pressiona os preços ao consumidor final, tornando o cafezinho diário mais caro em todo o mundo.

  • Herbicida banido na Suíça e na UE avança no Brasil. Saiba qual

    Herbicida banido na Suíça e na UE avança no Brasil. Saiba qual

    Um agrotóxico proibido na Europa vem ampliando sua presença no mercado brasileiro desde que autoridades nacionais baniram, há oito anos, outro pesticida da mesma família química por riscos associados a mutações genéticas e à doença de Parkinson.

    O Brasil proibiu o paraquate em 2017, após avaliação toxicológica da Anvisa apontar riscos de mutagenicidade e associação com Parkinson entre trabalhadores expostos ao produto. A decisão colocou o país na lista de mais de 70 nações que já haviam banido o herbicida.

    Produtores rurais brasileiros passaram então a recorrer ao diquate, herbicida quimicamente aparentado ao paraquate e também fabricado pela Syngenta. A substância, no entanto, segue proibida na Suíça e no restante da União Europeia por preocupações semelhantes com a saúde humana. Segundo o monitoramento do Ibama, o uso do diquate multiplicou-se por dez no Brasil entre 2017 e 2024.

    SUS registra 250 casos de intoxicação e ao menos 40 mortes

    Dados oficiais do SUS, levantados por uma investigação conjunta da Repórter Brasil e da organização suíça Public Eye, mostram que o país registrou 250 casos de intoxicação por diquate entre 2018 e 2025. Do total, ao menos 40 pessoas morreram. Foram seis em acidentes e 34 por ingestão intencional do produto, em casos de suicídio.

    Uma apuração anterior, publicada pela Unearthed e pela Public Eye em parceria com a Repórter Brasil, já havia identificado 36 casos oficiais de intoxicação por diquate no Brasil entre 2018 e 2022, dos quais 17 eram tentativas de suicídio e quatro resultaram em morte. Pesquisadores ouvidos pela reportagem descreveram uma mudança no perfil das notificações, com o diquate substituindo progressivamente o paraquate nos registros de intoxicação em regiões agrícolas.

    Caso semelhante já se repetiu na China

    O Brasil não é o único país a enfrentar esse padrão. A China baniu o paraquate em 2016 e, desde então, o diquate se consolidou como o substituto mais usado no país. Porém, com centenas de mortes por intoxicação relatadas por médicos chineses após a proibição do paraquate entrar em vigor.

    Especialistas apontam que o diquate provoca predominantemente quadros de baixa gravidade, afetando principalmente pele e olhos, mas a ingestão do produto continua representando risco grave à saúde, sobretudo em casos de autoextermínio, dada a facilidade de acesso ao produto em propriedades rurais.

    Syngenta mantém fabricação e exportação do produto

    A Syngenta, multinacional suíça responsável pela fabricação do diquate, segue produzindo o herbicida mesmo com a proibição de uso vigente em seu país de origem. A empresa também mantém unidades de produção do paraquate no Reino Unido, ainda que o uso doméstico britânico do produto esteja proibido há mais de 15 anos. Portanto, isso caracteriza um padrão de exportação de agrotóxicos vetados nos mercados de origem para países com regulação mais permissiva, como o Brasil.

    Passados oito anos da proibição do paraquate, o diquate segue autorizado para uso agrícola no Brasil, sem sinalização pública de reavaliação toxicológica por parte da Anvisa. Enquanto isso, o crescimento no número de registros de intoxicação reacende o debate sobre os critérios de liberação de agrotóxicos já vetados por autoridades sanitárias europeias.

    Nota: este texto trata de dados sobre suicídio em contexto informativo e jornalístico. Se você ou alguém que você conhece estiver passando por sofrimento emocional, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

  • Bioinsumos podem gerar R$ 15,8 bilhões ao Brasil

    Bioinsumos podem gerar R$ 15,8 bilhões ao Brasil

    O uso de bioinsumos pode adicionar R$ 15,8 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) entre 2030 e 2035. Além disso, a tecnologia pode evitar o desmatamento de 9,2 milhões de hectares e criar 160,5 mil empregos no Brasil. Os dados fazem parte do estudo “Potencial Econômico das Práticas Sustentáveis na Agricultura e Pecuária”, elaborado pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

    Segundo o levantamento, os bioinsumos oferecem retorno de R$ 79 para cada R$ 1 investido. O cálculo considera a aplicação nas lavouras de arroz, milho, cana-de-açúcar e soja.

    Além do impacto econômico, a pesquisa destaca efeitos positivos na geração de empregos. As novas vagas devem surgir em biofábricas, pesquisa, desenvolvimento, controle de qualidade, logística e assistência técnica. Dessa forma, a expansão da tecnologia pode fortalecer a economia do interior do país.

    No campo ambiental, o estudo aponta que os bioinsumos podem evitar o desmatamento de 9,2 milhões de hectares, principalmente no Cerrado e na Amazônia. O ganho de produtividade reduz a necessidade de abrir novas áreas agrícolas.

    Além disso, cerca de 4,8 milhões de hectares de pastagens degradadas podem ser convertidos em áreas de cultivo. Ao mesmo tempo, outros 14,1 milhões de hectares de lavouras podem aumentar a produtividade.

    De acordo com a pesquisa, a produção sustentável pode crescer até 3,4% nas lavouras de soja e 1,5% na produção de milho. “O estudo mostra que o uso de bioinsumos pode gerar grandes contribuições para o País. Além do retorno econômico, com possibilidade de ganhos rápidos e baixo investimento, a tecnologia traz benefícios ambientais bastante expressivos, possibilitando a proteção dos biomas e a redução da abertura de novas fronteiras agrícolas”, afirma o pesquisador Cícero Lima, responsável pelo levantamento.

    Fertilizantes verdes ganham espaço na estratégia nacional

    Os resultados do estudo também reforçam a importância dos fertilizantes verdes para a agricultura brasileira. O tema integra uma das prioridades do Instituto Equilíbrio para ampliar a competitividade e reduzir as emissões do setor.

    Segundo o CEO do Instituto Equilíbrio, Eduardo Bastos, a produção sustentável de fertilizantes pode diminuir a dependência das importações e atrair novos investimentos industriais.

    Atualmente, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes consumidos no país. Por isso, a produção nacional com menor impacto ambiental também pode aumentar a segurança do abastecimento. Além disso, a substituição da produção baseada em combustíveis fósseis por processos mais limpos reduz as emissões industriais e diminui a liberação de óxido nitroso (N₂O) no campo.

    Para ampliar esse mercado, Bastos defende o fortalecimento do Plano Nacional de Fertilizantes. Segundo ele, o país também precisa criar mecanismos que estimulem a demanda, garantam segurança aos investimentos e ampliem a infraestrutura para novas plantas industriais.

  • Ameaçado de extinção, pargo passa a ter cota de pesca no Brasil

    Ameaçado de extinção, pargo passa a ter cota de pesca no Brasil

    O governo federal impôs, pela primeira vez, um limite para a captura do pargo, peixe que o Brasil mais exporta entre os pescados e que a lista mais recente de espécies ameaçadas classifica como “Em Perigo” de extinção. A Portaria Interministerial MPA/MMA nº 66/2026 foi publicada nesta segunda-feira (27 de julho). E fixa o teto de 2.750 toneladas para a temporada de pesca de 2026, mesmo com a safra já aberta desde 1º de maio.

    O Ministério do Meio Ambiente (MMA) reclassificou o Lutjanus purpureus, nome científico do pargo vermelho, como “Em Perigo” em abril deste ano. Até a publicação da nova norma, porém, os pescadores continuavam capturando o peixe sem qualquer regramento de volume.

    O que muda com a nova portaria

    O MMA e o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) assinaram e editaram juntos a portaria, que representa o resultado de sete anos de campanhas da ONG Oceana em defesa de medidas baseadas em ciência. O Brasil já aplica esse tipo de cota a outras espécies: a tainha desde 2018 e a lagosta desde 2024.

    “Limitar a extração de quaisquer recursos pesqueiros, como agora acontece com o pargo, é uma das principais medidas para assegurar a sustentabilidade da pesca em um futuro próximo”, afirma o diretor-geral da Oceana, Ademilson Zamboni. “Demorou bastante para acontecer, e ainda há muito a ser feito. O governo precisa garantir monitoramento e fiscalização decentes, e atualizações anuais das cotas a partir de avaliações de estoque confiáveis.”

    Pescaria do Pargo
    Foto: Christian Braga/Oceana

    Além do limite de captura, as novas regras estabelecem tamanho mínimo de 35 centímetros para os peixes capturados. Portanto, isso evita a retirada de indivíduos jovens que ainda não atingiram maturidade reprodutiva. A portaria também exige que os pescadores declarem o estoque e entreguem os mapas de bordo. Medidas que atualizam o Plano de Recuperação do Pargo conforme o grau de vulnerabilidade atual da espécie.

    Segundo o diretor científico da Oceana, Martin Dias, as novas regras fazem sentido tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico. “Seus resultados serão evidentes, com recuperação do estoque ao longo desta década e, consequentemente, com aumento futuro da produção”, explica.

    Dias compara a medida a um ajuste financeiro doméstico: “É como um corte de gastos na casa da gente. Ninguém quer fazer isso, mas é melhor cortar algumas despesas agora do que se endividar e ter um problema muito mais grave depois. A mesma coisa acontece com o pargo: estamos reduzindo agora, mas projetando um futuro de retomada da produção, com peixes de melhor qualidade e uma população saudável.”

    Oito anos de alertas antes da primeira ação concreta

    O MMA já reconhecia o risco de extinção do pargo desde 2014, quando editou a Portaria nº 445/2014. A partir daí, o próprio ministério condicionou a continuidade da pescaria ao cumprimento de um Plano de Recuperação, elaborado em 2018 (Portarias nº 228/2018 e nº 42/2018). Esse plano já prometia um regime de cotas de captura anual como ação emergencial, com prazo de até três anos para implementação, prazo que os órgãos públicos descumpriram.

    Nos anos seguintes, portanto, diversos estudos reforçaram os alertas sobre a piora do quadro. Em 2022, o Projeto REPENSAPESCA apontou que a espécie operava cerca de 30% abaixo dos níveis ideais de estoque. A própria Oceana publicou dois levantamentos sobre o tema. “Limites de captura para a pescaria do pargo (Lutjanus purpureus) nas regiões Norte e Nordeste”, em 2020. E “Subsídios para a implantação de limites de captura para a pesca do pargo”, em 2023. Assim, ambos os estudos apontavam a criação de um limite de captura como a principal ação necessária para recompor a população da espécie.

    Foto: Divulgação/Ibama

    Em agosto de 2024, o Comitê Permanente de Gestão da Pesca e do Uso Sustentável dos Recursos Pesqueiros Demersais das Regiões Norte e Nordeste (CPG Demersais N/NE) chegou a um consenso técnico sobre a necessidade urgente de limites para evitar o colapso da espécie. Conflitos internos entre o MMA e o MPA, que dividem a autoridade pesqueira, no entanto, atrasaram a decisão final por quase dois anos.

    “Em face de todas as evidências de colapso, do não cumprimento do previamente acordado no Plano de Recuperação e das práticas de pesca ilegal, não fazer nada a respeito já não era mais uma alternativa. No entanto, só teremos motivos reais para comemorar quando a espécie estiver recuperada e for possível pescar com segurança”, pondera Zamboni.

    Por que o pargo pesa tanto na economia pesqueira brasileira

    O pargo se distribui do mar do Caribe até o sul da Bahia e sustenta pescarias importantes nas regiões Norte e Nordeste do país, com destaque para o Pará. Assim, a espécie ocupa a segunda posição no ranking brasileiro de exportação de pescados por valor agregado, atrás apenas da lagosta.

    Dados do sistema ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostram que o Brasil exportou, entre 2018 e 2025, uma média de 4,4 mil toneladas de pargo por ano. Cerca de 90% desse volume teve como destino os Estados Unidos. No período, as exportações da espécie movimentaram US$ 278 milhões.