A indústria de moagem de trigo no Brasil intensifica o alerta para um cenário desafiador em 2026, marcado por queda na produção, aumento das importações e instabilidade no mercado internacional. A combinação desses fatores já pressiona os custos da cadeia e pode impactar diretamente os preços de alimentos básicos.
O trigo, responsável por cerca de 20% das calorias e proteínas consumidas no mundo, segundo a FAO, ocupa papel central na segurança alimentar. No Brasil, o cereal é base para produtos essenciais como pão, massas, biscoitos e bolos, o que amplia os efeitos de qualquer desequilíbrio no abastecimento.
A forte dependência de importações, principalmente da Argentina, mantém o país vulnerável às oscilações externas. De acordo com o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa, qualquer instabilidade global afeta diretamente custos, disponibilidade e previsibilidade do abastecimento.
Cenário internacional
No cenário internacional, conflitos como a guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio seguem pressionando o mercado de commodities. Esse contexto eleva os custos de energia, combustíveis, fretes e seguros, encarecendo a importação do trigo e dificultando o planejamento das indústrias.
No Brasil, os sinais também preocupam. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta queda de 23,5% na safra de trigo em 2026, reflexo de fatores climáticos e econômicos, como a redução da área plantada. Com menor oferta interna, a necessidade de importação deve crescer, com previsão de aumento de 1,9 milhão de toneladas em 2027.
Além disso, o excesso de chuvas no Rio Grande do Sul, principal produtor nacional, já levanta dúvidas sobre produtividade e qualidade do grão. Esse cenário pode reduzir ainda mais o volume disponível da safra em colheita.
Segundo Barbosa, o setor enfrenta uma combinação crítica: menor produção interna, maior dependência externa e custos globais elevados. Esse quadro amplia a complexidade operacional das indústrias moageiras e pressiona toda a cadeia de alimentos.
Farelo de trigo pressiona margens da indústria
O mercado de farelo de trigo também agrava o cenário. A queda nos preços do milho reduziu o valor desse coproduto, essencial para a rentabilidade da moagem. Com menor receita vinda do farelo, a indústria enfrenta maior pressão sobre os custos e sobre o preço final da farinha.
De acordo com a Abitrigo, essa dinâmica impacta diretamente o custo de alimentos amplamente consumidos pela população. Mesmo assim, a entidade reforça que não há risco de desabastecimento no país.
A indústria segue mobilizada para garantir o fornecimento, com foco em planejamento, gestão de riscos e monitoramento constante do mercado. Ainda assim, o setor destaca que o ambiente exige atenção contínua diante das incertezas.
As chuvas ganharam força nos últimos dias em parte do Brasil e elevaram o risco sanitário para as lavouras de trigo no Rio Grande do Sul. É o que aponta o relatório semanal da EarthDaily, empresa de sensoriamento remoto com dados de satélites.
O levantamento mostra que a precipitação acumulada ficou acima da média em áreas do Centro-Oeste, em parte do Sudeste e no MATOPIBA. Os maiores volumes, porém, ocorreram na Região Sul: em algumas localidades gaúchas, os acumulados superaram 160 milímetros nos últimos 10 dias.
Temperaturas revertem cenário de geadas
O comportamento térmico também mudou de forma significativa. Na primeira quinzena de julho, termômetros marcaram até 5°C abaixo da média, com geadas em algumas regiões. Na última semana, esse quadro se inverteu: as temperaturas subiram até 7°C acima da normalidade, principalmente no Sul, o que reduz o risco de novos episódios de geada.
Em contrapartida, o calor combinado à alta umidade do solo favorece a proliferação de doenças, sobretudo nas áreas que registraram excesso de chuvas.
RS tem maior volume de chuva em 10 anos, diz especialista
“No Rio Grande do Sul, a precipitação acumulada desde o início de julho atingiu o maior nível dos últimos 10 anos e deve permanecer elevada até o fim do mês. Apesar de um início mais seco, as chuvas intensas das últimas semanas mudaram o cenário. O excesso de chuvas tende a reduzir a radiação solar devido ao aumento da cobertura de nuvens. E pode favorecer a ocorrência de doenças, elevando o risco para as lavouras de trigo”, afirma Felippe Reis, analista de cultura da EarthDaily.
Foto: Arquivo Agro em Campo
O índice de vegetação (NDVI) ainda indica condições favoráveis para as lavouras no estado, com valores superiores aos do ciclo anterior, quando a produtividade superou a tendência histórica. Contudo, a persistência do padrão úmido nos estádios finais da cultura pode comprometer o potencial produtivo e a qualidade dos grãos. Portanto, repetindo o que ocorreu em 2023.
Paraná mantém boas condições, mas norte do estado preocupa
No Paraná, o desenvolvimento do trigo segue favorável. Na maior parte do território, a precipitação acumulada nos últimos 30 dias superou tanto a média histórica quanto os volumes registrados nos últimos três anos, garantindo boa disponibilidade hídrica para a cultura.
A exceção fica por conta do norte paranaense, onde os acumulados de chuva foram menores. Caso esse cenário de baixa precipitação persista nas próximas semanas, a região pode enfrentar redução da umidade do solo e aumento do risco de estresse hídrico.
Chuvas reduzem ritmo da colheita da cana-de-açúcar no Sul
Depois de cerca de 20 dias de tempo seco, a região Sul da zona canavieira, que reúne Paraná e Mato Grosso do Sul, voltou a registrar chuvas expressivas, com acumulados superiores a 20 milímetros nos últimos dias. O volume de precipitação reduziu o ritmo das operações de campo e chegou a interromper temporariamente a colheita em algumas áreas. A EarthDaily prevê normalização das atividades no início da próxima semana.
Apesar da pausa momentânea, as lavouras de cana mantêm boas condições gerais. Na média, o NDVI aponta desenvolvimento satisfatório dos canaviais, com potencial produtivo semelhante ou até superior ao da safra passada.
Modelos climáticos preveem novas chuvas fortes no Sul
Os modelos ECMWF e GFS indicam continuidade das chuvas no Sul do país, com acumulados que devem superar 100 milímetros em parte do Rio Grande do Sul. O GFS projeta um cenário ainda mais chuvoso, com precipitações significativamente superiores às estimadas pelo ECMWF em algumas áreas da região.
Os dois modelos também apontam temperaturas acima da média, o que reduz o risco de novas geadas no curto prazo e favorece tanto o desenvolvimento das lavouras quanto o avanço das operações de campo.
A umidade do solo deve permanecer acima da média na maior parte das regiões produtoras de trigo, mantendo condições hídricas favoráveis à cultura. Em contrapartida, essa mesma umidade elevada continuará aumentando o risco de doenças nas lavouras de trigo do país.
O alerta começa no prato. Arroz, óleos vegetais, açúcar, milho, trigo e até o café podem entrar no radar de pressão nos preços caso o El Niño se confirme nos próximos meses.
O Banco Mundial estima uma probabilidade de 61% a 87% de formação do fenômeno entre meados de 2026 e 2027, com risco direto para a produção agrícola em áreas sensíveis da Ásia, da África e de parte do Leste Asiático.
O dado mais preocupante envolve o arroz. Segundo o Banco Mundial, a produção pode cair de 20% a 50% nas regiões mais afetadas pelo fenômeno. Isso acende um sinal amarelo para países dependentes do cereal e também para o mercado internacional de alimentos.
Quais alimentos podem ficar mais caros
O arroz aparece como o alimento mais vulnerável no alerta do Banco Mundial. A razão é simples: boa parte da produção mundial depende de regimes de chuva regulares, especialmente na Ásia. Quando o El Niño altera esse equilíbrio, algumas regiões enfrentam seca, enquanto outras sofrem com chuvas fora de hora.
Foto: Seapa/MG
Além do arroz, outros produtos também podem sentir os efeitos do fenômeno. Óleos vegetais, açúcar, milho, trigo e café entram no radar porque dependem de clima estável em fases decisivas da lavoura.
Uma seca no momento errado, por exemplo, pode reduzir a produtividade. Chuva excessiva na colheita também pode comprometer qualidade e oferta.
No caso do açúcar, o risco passa por países importantes na produção de cana. Já os óleos vegetais dependem fortemente da oferta de palma, soja e outras oleaginosas. Por isso, qualquer quebra relevante em países produtores pode mexer com os preços globais.
Por que o Banco Mundial acendeu o alerta
O El Niño não age sozinho. Esse é o ponto central do alerta.
O Banco Mundial afirma que o risco climático aparece em um momento de custos ainda elevados para o produtor. Na atualização mais recente sobre segurança alimentar, a instituição informou que os preços dos fertilizantes subiram 35% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mesmo com algum alívio nas últimas semanas, o mercado ainda não se estabilizou.
Foto: Divulgação AGCO
Na prática, isso significa que muitos agricultores entram na temporada com menos margem para reagir. Se o fertilizante fica caro, parte dos produtores reduz a aplicação. Quando isso se soma a seca, calor ou excesso de chuva, o impacto aparece mais tarde, na colheita.
Além disso, conflitos geopolíticos, custos de energia e gargalos logísticos continuam pressionando o mercado global de alimentos. Por isso, uma nova rodada de El Niño pode atingir um sistema que já opera sob tensão.
O que é o El Niño
O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal. Essa mudança altera a circulação dos ventos e mexe com o regime de chuvas em várias partes do planeta.
Em algumas regiões, o fenômeno aumenta o risco de seca. Em outras, provoca chuva excessiva. Para a agricultura, o problema está justamente nessa quebra de padrão.
A lavoura precisa de água no momento certo. Também precisa de temperatura adequada durante florescimento, enchimento de grãos e colheita. Quando o clima foge do roteiro, o produtor perde previsibilidade.
Como isso pode afetar o Brasil
Foto: PH Lopes/ Agro em Campo
O Brasil não aparece como o centro do alerta do Banco Mundial, mas não fica fora da conta.
Em anos de El Niño, o país costuma registrar mudanças importantes no clima. O Sul tende a enfrentar mais chuva, enquanto partes do Norte e do Nordeste podem sofrer com calor e seca. No Centro-Oeste e no Sudeste, os efeitos variam conforme a intensidade do fenômeno e a época do ano.
Para o agro brasileiro, isso pode afetar soja, milho, café, cana, arroz e pecuária. O impacto não é automático, mas o risco aumenta quando o fenômeno coincide com fases sensíveis da safra.
No café, por exemplo, calor intenso e irregularidade nas chuvas podem prejudicar florada e formação dos grãos. No milho, a falta de água durante o desenvolvimento reduz produtividade. Já no arroz, excesso ou falta de chuva pode comprometer plantio, manejo e colheita.
O bolso sente antes da estatística
O consumidor normalmente percebe a crise climática quando ela chega ao supermercado.
Primeiro, o produtor enfrenta perda de produtividade. Depois, a indústria paga mais pela matéria-prima. Em seguida, o varejo repassa parte desse aumento. Nem sempre o movimento é imediato, mas ele costuma aparecer quando a quebra de safra atinge produtos básicos ou cadeias muito dependentes de importação.
Por enquanto, o mercado global ainda tem algum alívio em grãos como milho e trigo, favorecidos por boas safras em algumas regiões. Mesmo assim, o Banco Mundial afirma que os riscos seguem inclinados para novas pressões, principalmente se o El Niño se confirmar e afetar países produtores ao mesmo tempo.
O alimento mais sensível é o arroz
Entre todos os produtos citados, o arroz merece atenção especial.
O cereal é base alimentar em países populosos da Ásia e da África. Também tem forte peso social, porque qualquer alta costuma atingir diretamente famílias de menor renda. Se a produção cair nas regiões mais expostas, governos podem restringir exportações para proteger o mercado interno.
Quando isso acontece, o preço internacional sobe. Foi assim em outras crises recentes de alimentos. O país produtor tenta segurar oferta doméstica, mas o mercado global sente a redução do volume disponível.
É por isso que o alerta do Banco Mundial sobre queda potencial de 20% a 50% na produção de arroz em áreas afetadas chama tanta atenção. Não se trata apenas de uma estatística agrícola. É um risco para a segurança alimentar.
O que observar nos próximos meses
Os próximos meses serão decisivos para confirmar a intensidade do fenômeno e seus impactos sobre as safras.
Se o El Niño ganhar força, o mercado deve acompanhar de perto a produção de arroz na Ásia, o comportamento das monções, a oferta de óleos vegetais, a safra de cana em países relevantes e o desenvolvimento de culturas como milho, trigo e café.
No Brasil, o produtor também terá de olhar para o céu com mais cuidado. O país tem tecnologia, escala e experiência para lidar com variações climáticas. Ainda assim, quando o clima muda rápido demais, até sistemas bem preparados sentem o baque.
O alerta do Banco Mundial não significa que todos esses alimentos vão subir ao mesmo tempo. Mas mostra que o risco aumentou. E, quando o clima mexe com arroz, grãos, açúcar e óleos vegetais, o impacto raramente fica restrito ao campo.
A safra brasileira de trigo em 2026 deve registrar forte retração. Além dos preços baixos do trigo, o aumento dos custos de produção e a previsão de um ano marcado pelo El Niño reduziram o interesse dos produtores pelo cultivo.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a área plantada de trigo deve cair 13,4% em relação ao ano passado, totalizando 2,117 milhões de hectares.
Já a consultoria Safras & Mercado projeta uma redução ainda maior. Nesse cenário, a área cultivada com trigo pode encolher 17%, passando de 2,3 milhões para 1,9 milhão de hectares. Como consequência, a produção de trigo no Brasil poderá recuar quase 27%, refletindo o impacto do El Niño, dos custos elevados e da menor rentabilidade para os produtores.
Além dos fatores econômicos, o clima pesa na decisão dos produtores.
Segundo especialistas, o El Niño deve provocar temperaturas e chuvas acima da média na Região Sul. Dessa forma, aumentam os riscos de perdas durante o desenvolvimento da lavoura e, principalmente, na colheita.
O excesso de umidade também pode reduzir a qualidade dos grãos e dificultar os trabalhos no campo.
Rio Grande do Sul deve registrar maior queda
O Rio Grande do Sul, principal produtor de trigo do país, deverá apresentar a maior redução de área.
A Emater-RS estima o plantio de 814 mil hectares em 2026. O número representa uma queda de cerca de 30% em comparação com a safra anterior e corresponde à menor área cultivada desde 2019.
Além das previsões climáticas, muitos agricultores ainda enfrentam dificuldades financeiras após sucessivas perdas provocadas por eventos climáticos nos últimos anos.
Produtores reduzem investimentos
Em Ciríaco (RS), o produtor João Carlos Bilibio decidiu diminuir significativamente o plantio.
No ano passado, ele cultivou 140 hectares de trigo. Agora, pretende semear apenas 25 hectares.
Segundo o agricultor, os custos seguem elevados. Além disso, os preços continuam baixos e as dificuldades para contratar seguro rural também desestimulam novos investimentos.
Rentabilidade perde espaço para outras culturas
O aumento dos custos dos fertilizantes e a queda dos preços reduziram a competitividade do trigo.
Por isso, muitos produtores passaram a investir em culturas consideradas mais rentáveis e menos arriscadas.
Em Santa Bárbara do Sul (RS), por exemplo, o produtor Tales Pezzini decidiu não plantar trigo nesta safra. Segundo ele, o custo de produção supera a receita esperada, tornando o cultivo economicamente inviável.
Paraná também prevê redução da área
No Paraná, a expectativa é semelhante.
De acordo com a Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab), o Estado deve plantar cerca de 722 mil hectares. O volume representa uma redução de aproximadamente 12% em relação ao ciclo anterior.
Além disso, muitos produtores passaram a ampliar o cultivo de cevada, considerada uma alternativa mais segura diante das condições climáticas previstas para este ano.
A confirmação de um novo ciclo de El Niño para o segundo semestre de 2026 recoloca o clima no centro das atenções do mercado agrícola global. O fenômeno deve impactar diretamente a oferta de trigo e óleo de palma, duas commodities sensíveis às variações de temperatura e precipitação associadas ao aquecimento do Pacífico.
De acordo com análise da Hedgepoint Global Markets, o El Niño tende a pressionar a produção em regiões-chave e elevar a volatilidade dos preços nos próximos meses.
A Austrália concentra os principais riscos para o mercado internacional de trigo. O El Niño costuma reduzir as chuvas e elevar as temperaturas nas regiões produtoras do oeste e sudeste do país, justamente durante fases críticas do desenvolvimento da cultura.
Esse cenário aumenta o estresse hídrico, compromete a produtividade e pode afetar a qualidade dos grãos. Em eventos mais intensos, a queda na produção reduz a oferta exportável para a Ásia e sustenta os preços globais.
Como um dos maiores exportadores do cereal, qualquer quebra de safra australiana rapidamente influencia as expectativas do mercado internacional.
EUA e Argentina podem equilibrar oferta
Enquanto a Austrália enfrenta maior risco climático, Estados Unidos e Argentina tendem a se beneficiar do El Niño.
Nos EUA, o fenômeno favorece o trigo de inverno nas Planícies, incluindo estados como Kansas, Oklahoma e Texas. A maior regularidade das chuvas melhora a umidade do solo e reduz o risco de seca. O que geralmente resulta em impacto neutro ou positivo na produção.
Na Argentina, o aumento das chuvas durante o ciclo da cultura favorece o desenvolvimento das lavouras e o enchimento de grãos. Após períodos de seca, o El Niño costuma impulsionar a recuperação da produção e ampliar o excedente exportável.
Com isso, o país ganha competitividade e amplia sua presença em mercados da América do Sul e do Norte da África.
Óleo de palma deve sentir impacto mais tardio
O El Niño também deve afetar o mercado global de óleo de palma, especialmente no Sudeste Asiático, responsável por cerca de 80% da produção mundial, com destaque para Indonésia e Malásia.
O fenômeno reduz as chuvas e eleva as temperaturas, intensificando o estresse hídrico nas lavouras. No entanto, os efeitos sobre a produção costumam aparecer com atraso.
A queda mais significativa na produção tende a ocorrer entre seis e doze meses após o pico do El Niño, o que indica maior pressão sobre a oferta global ao longo de 2027.
Historicamente, eventos moderados e fortes resultam em menor produção, redução dos estoques e alta nos preços internacionais do óleo de palma.
Efeito se estende ao mercado de óleos vegetais
A redução na oferta de óleo de palma costuma impactar todo o complexo de óleos vegetais. Com menor disponibilidade, consumidores e indústrias aumentam a demanda por substitutos como óleo de soja, canola e girassol.
Esse movimento intensifica a competição entre os setores de alimentos, biocombustíveis e uso industrial, ampliando a pressão sobre os preços globais.
Segundo Luiz Fernando Gutierrez Roque, coordenador de Inteligência de Mercado da Hedgepoint, o impacto do El Niño no trigo dependerá do equilíbrio entre perdas na Austrália e ganhos nas Américas.
Ele afirma que eventos mais intensos tendem a sustentar os preços internacionais, devido ao peso da Austrália no comércio global do cereal.
A Embrapa anunciou o lançamento do projeto “Do risco à decisão”, iniciativa que pretende fortalecer o monitoramento dos principais riscos climáticos enfrentados pela agricultura brasileira e oferecer informações que auxiliem o produtor rural na tomada de decisões.
O projeto será iniciado em julho e terá duração de 48 meses, reunindo uma rede formada por 39 pesquisadores e analistas da empresa pública de pesquisa agropecuária. A coordenação ficará sob responsabilidade da Embrapa Agropecuária Oeste.
Projeto vai monitorar eventos climáticos que afetam a produção
O objetivo é ampliar a capacidade de prever e acompanhar fenômenos que causam prejuízos recorrentes às lavouras brasileiras.
Entre os principais eventos monitorados estão as geadas, secas, oscilações climáticas e riscos associados às mudanças no clima.
Segundo a Embrapa, as informações deverão contribuir para que produtores adotem medidas preventivas antes que os impactos climáticos causem perdas significativas.
O projeto concentrará esforços em algumas das principais culturas da agricultura brasileira.
Entre elas estão soja, milho, trigo, arroz, feijão-comum, feijão-caupi, mandioca, uva e maçã.
Essas culturas representam parte significativa da produção nacional e estão frequentemente expostas aos efeitos de eventos climáticos extremos.
Geadas e seca estão entre as maiores ameaças ao campo
A iniciativa ganha relevância em um momento em que diferentes regiões do país registram episódios de frio intenso e estiagem.
As geadas registradas recentemente em municípios como Lages (SC) reforçam a necessidade de sistemas capazes de antecipar riscos e fornecer informações técnicas para reduzir prejuízos nas lavouras.
Além das geadas, a seca continua sendo um dos fatores que mais comprometem a produtividade agrícola brasileira, afetando desde o desenvolvimento das plantas até a rentabilidade do produtor.
Objetivo é fortalecer a tomada de decisão no campo
Ao integrar pesquisadores de diversas unidades da Embrapa, o projeto busca transformar dados climáticos em informações práticas para apoiar o planejamento agrícola.
A expectativa é ampliar a capacidade de resposta do setor diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, aumentando a segurança das decisões tomadas pelos produtores rurais.
A produção brasileira de grãos pode alcançar 358,6 milhões de toneladas na safra 2025/26. A projeção representa um novo recorde histórico. A estimativa foi divulgada nesta quinta-feira (11) pela Companhia Nacional de Abastecimento no 9º Levantamento da Safra de Grãos. O volume previsto supera em 1,8% o resultado da temporada anterior.
Segundo a Companhia, o aumento corresponde a 6,4 milhões de toneladas. Além disso, a área cultivada deve atingir 83,5 milhões de hectares. A Conab atribui o desempenho ao avanço da área plantada e às condições climáticas favoráveis. Com isso, a produtividade média nacional deve alcançar 4.295 quilos por hectare.
A soja apresenta o maior avanço entre as culturas analisadas. A produção está estimada em 180,3 milhões de toneladas. O volume supera em 8,8 milhões de toneladas o resultado da safra passada. Além disso, a colheita está praticamente concluída.
A Conab destaca o crescimento da área destinada à oleaginosa. O uso de tecnologia e o clima favorável também impulsionaram a produtividade.
Milho registra alta e pode alcançar 140,5 milhões de toneladas
O milho deve somar 140,5 milhões de toneladas nas três safras do ciclo 2025/26. A colheita da primeira safra alcança 87,7% da área cultivada. A produção dessa etapa deve atingir 29,3 milhões de toneladas.
O resultado representa alta de 17,7% frente à temporada anterior. Além disso, a produtividade média cresceu 7,6%. A expectativa é de rendimento médio de 7.110 quilos por hectare. O índice estabelece novo recorde histórico para a primeira safra.
Já a segunda safra está em fase inicial de colheita. A produção prevista chega a 107,9 milhões de toneladas. Na terceira safra, o plantio se aproxima do encerramento. A expectativa é colher 3,3 milhões de toneladas.
Algodão e sorgo apresentam cenários distintos
A produção de algodão deve atingir cerca de 4 milhões de toneladas. O volume representa queda de 2,5% sobre a safra anterior. Segundo a Conab, a redução ocorre devido à menor área semeada.
Por outro lado, o sorgo deve registrar forte crescimento. A colheita está estimada em 7,62 milhões de toneladas. O resultado supera em 24,9% o volume obtido na temporada passada. O aumento corresponde a 1,5 milhão de toneladas.
Arroz e feijão devem garantir abastecimento interno
A colheita de arroz está praticamente finalizada. A produção prevista alcança 11,1 milhões de toneladas. O volume fica 13,2% abaixo do registrado na safra passada. A redução reflete a menor área destinada ao cereal.
No caso do feijão, a produção total das três safras deve ficar próxima de 3 milhões de toneladas. O resultado representa leve recuo de 0,5% frente ao ciclo anterior. Ainda assim, a estimativa garante o abastecimento do mercado interno.
Trigo terá menor área plantada
Entre as culturas de inverno, o trigo segue com o plantio em andamento. A semeadura já alcança 45,3% da área prevista. A Companhia projeta redução da área destinada ao cereal. Por isso, a produção deve ficar em torno de 6,3 milhões de toneladas.
Exportações e estoques ganham reforço
A safra recorde de soja deve ampliar as exportações brasileiras. A expectativa é embarcar 116,1 milhões de toneladas. Além disso, o processamento da oleaginosa pode alcançar 61,58 milhões de toneladas.
Com esse cenário, o estoque de passagem da soja deve atingir 9,2 milhões de toneladas. A Conab também revisou as projeções para o milho. Os estoques finais do grão podem chegar a 13,25 milhões de toneladas em janeiro de 2027. Já o estoque final de feijão foi atualizado para 288,5 mil toneladas até dezembro deste ano.
Os preços do trigo seguem em alta no mercado brasileiro. A oferta limitada sustenta as cotações durante a entressafra. Além disso, vendedores mantêm postura retraída diante dos possíveis impactos do El Niño no Sul do Brasil.
Segundo pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, o mercado registra altas consecutivas nas principais regiões produtoras. No Rio Grande do Sul, o preço médio estadual superou R$ 1.300 por tonelada. Assim, os valores retornaram aos níveis de agosto de 2025. Já no Paraná, as cotações ultrapassaram R$ 1.350 por tonelada. Dessa forma, os preços voltaram aos patamares observados em setembro de 2025.
Ainda conforme o Cepea, produtores seguem retendo o cereal no mercado interno. A expectativa de menor produção na próxima safra reforça esse movimento.
De olho no tempo
As incertezas climáticas aumentam a cautela entre os triticultores do Sul do País. A confirmação do fenômeno El Niño para o segundo semestre de 2026 mantém produtores em alerta. O excesso de chuvas pode atingir o período de maturação e pré-colheita do trigo.
Do lado comprador, as moageiras aceitam preços mais elevados nas negociações. Segundo o Cepea, as indústrias buscam atender à demanda no mercado spot e recompor estoques. Além disso, o consumo interno deve permanecer estável nos próximos meses, fator que sustenta o ritmo das compras.
A semeadura de trigo começou no Sul do Brasil, principalmente no Paraná, mas segue em ritmo lento. Ao mesmo tempo, os preços do trigo continuam em alta no mercado doméstico. O movimento ocorre devido à retração dos vendedores.
Além disso, compradores priorizam o trigo nacional por causa dos problemas de qualidade do cereal importado da Argentina. As informações são do Cepea.
Segundo a Conab, apenas 5% da área destinada ao trigo no Paraná havia sido semeada até 1º de maio. O percentual ficou abaixo dos 14% registrados no mesmo período do ano passado. O índice também permaneceu inferior à média histórica. Nos últimos cinco anos, a média de semeadura para o período alcançou 15,4% no estado paranaense.
No cenário nacional, a área semeada atingiu 9,9% até o início de maio. No mesmo período de 2025, o índice somava 13,1%. Já a média quinquenal alcançava 13%. De acordo com a Seab/Deral, os produtores seguem cautelosos com novos investimentos na cultura.
Mesmo com a recuperação recente dos preços pagos ao produtor, os altos custos de produção ainda preocupam os triticultores. Por isso, a tendência de redução da área plantada no Paraná continua no radar do setor.
Enquanto isso, os preços do trigo seguem em elevação no mercado brasileiro. Segundo pesquisadores do Cepea, vendedores seguram os estoques remanescentes da safra 2025 e aguardam valores maiores.
Além disso, compradores continuam priorizando o cereal nacional devido às limitações de qualidade do trigo argentino.
Você pega o pacote de arroz para cozinhar e encontra aquela farinha fina acumulada no fundo. Ou, pior ainda, avista pequenos insetos se movimentando entre os grãos. É uma cena familiar para boa parte das famílias brasileiras, e a reação imediata costuma ser jogar tudo fora com repulsa. Mas a situação é mais complexa do que parece, e a resposta para a pergunta que todo mundo já fez, “caruncho faz mal?”, depende de alguns fatores que vale conhecer antes de tomar qualquer decisão.
De onde vem o caruncho e por que ele aparece nos grãos
Antes de qualquer coisa, é preciso derrubar um equívoco comum: o caruncho não nasce necessariamente por descuido do consumidor. Segundo a agrônoma e professora Cristina Schetino Bastos, da Universidade de Brasília, o ciclo da infestação pode começar ainda na lavoura, durante a colheita, e seguir por todas as etapas, incluindo transporte, beneficiamento e armazenamento. Ou seja, o inseto pode chegar à despensa de casa dentro do próprio pacote lacrado.
O nome “caruncho” é, na verdade, um termo genérico. A professora explica que ele designa popularmente mais de uma espécie de besouro que infesta produtos armazenados, com destaque para o Sitophilus zeamais, um besouro pequeno também conhecido como bicudo. Essa espécie é especialmente problemática porque tem alta capacidade de sobrevivência e consegue perfurar grãos intactos, o que dificulta o controle ao longo de toda a cadeia produtiva.
Os insetos se associam principalmente a arroz, milho e trigo e, por consequência, a derivados como macarrão e farinhas. E as condições do ambiente doméstico podem acelerar a proliferação: umidade moderada e temperaturas favoráveis criam o cenário ideal para o desenvolvimento dos insetos, enquanto ambientes muito secos ou com temperaturas extremas dificultam sua sobrevivência.
Freezer, recipientes de vidro e atenção à mistura de alimentos novos com antigos estão entre as medidas mais eficazes para manter caruncho longe — (Foto: Tomasz Klejdysz/Getty Imagens)
Aqui está a resposta que a maioria das pessoas busca, e ela é menos alarmante do que o estômago sugere no momento do susto. De acordo com a nutricionista Fabiana Ximenes, o consumo acidental desses insetos geralmente não representa um risco grave à saúde. No entanto, podem ocorrer sintomas gastrointestinais leves como náuseas, desconforto abdominal e diarreia, especialmente em pessoas mais sensíveis ou com imunidade baixa.
Um fator importante nessa equação é o preparo do alimento. O risco é maior quando o alimento contaminado é consumido cru, já que o cozimento tende a eliminar os insetos. Ainda assim, especialistas alertam que confiar apenas no cozimento não é a melhor estratégia. Sinais mais graves de deterioração do produto precisam ser observados antes de qualquer decisão de aproveitamento.
Grãos empelotados, cheiro alterado e presença de teias indicam que o alimento deve ser descartado, independentemente de qualquer outra consideração. Nesses casos, o risco não está apenas nos insetos, mas no estado geral do produto, que pode ter sofrido contaminação por fungos ou bactérias associadas à infestação prolongada.
Como evitar o caruncho em casa de forma simples e eficaz
A boa notícia é que prevenir a infestação doméstica não exige grandes investimentos. Medidas simples de armazenamento reduzem drasticamente o risco de proliferação e protegem toda a despensa. Especialistas recomendam armazenar grãos em recipientes bem fechados, de preferência de vidro, evitar ambientes quentes e úmidos, não misturar alimentos novos com antigos e, quando possível, manter grãos no congelador por um período após a compra.
Esse último ponto merece atenção especial. Colocar o pacote recém-comprado no freezer por alguns dias elimina eventuais ovos ou larvas que possam ter chegado junto com o produto, interrompendo o ciclo de reprodução antes mesmo que ele comece na despensa de casa.
Além disso, vale inspecionar embalagens antes de comprar, evitar produtos com sinais de dano na embalagem e preferir compras em locais com bom giro de estoque. No campo e nas propriedades rurais, o controle é ainda mais relevante: a indústria utiliza técnicas como expurgo com gás para eliminar insetos, controle de temperatura e uso de atmosferas modificadas, mas isso não garante ausência total do caruncho no produto final.