Tag: fungo

  • Nova tecnologia permite usar fungo benéfico junto com fertilizante químico

    Nova tecnologia permite usar fungo benéfico junto com fertilizante químico

    Pesquisadores da Embrapa Instrumentação (SP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveram uma tecnologia que aumenta a sobrevivência do fungo Trichoderma harzianum em fertilizantes minerais. A solução utiliza um revestimento biodegradável aplicado diretamente nos grânulos, o que permite a aplicação simultânea de insumos químicos e biológicos no campo.

    Granulos sem e com revestimento
    Granulos sem e com revestimento. Foto: Yasmin Nunes/Embrapa

    O avanço resolve um dos principais entraves da agricultura moderna: a incompatibilidade entre fertilizantes químicos e microrganismos benéficos. Com a nova formulação, o fungo mantém sua viabilidade durante o armazenamento e passa a ser liberado gradualmente no solo, ampliando sua eficácia agronômica.

    Revestimento biodegradável protege microrganismo

    A equipe encapsulou o Trichoderma harzianum em uma matriz polimérica à base de carboximetilcelulose, reforçada com nanocristais de celulose. Esse material forma uma película protetora ao redor dos esporos e evita danos causados por fatores como calor, radiação solar e contato direto com fertilizantes.

    Testes mostraram que, após três meses em temperatura ambiente, os esporos encapsulados mantiveram alta taxa de sobrevivência. Já os não encapsulados perderam até mil vezes sua vitalidade no mesmo período.

    Fungos aumentam produtividade agrícola

    Amplamente utilizado como bioinsumo, o Trichoderma harzianum atua no controle de doenças, estimula o crescimento das plantas e melhora a absorção de nutrientes. Apesar do potencial, a baixa resistência fora do ambiente ideal limita seu uso em larga escala.

    EncapsulamentoTrichoderma_Filme de CMC e nanocelulose contendo os esporos de Trichoderma harzianum
    Filme de CMC e nanocelulose contendo os esporos de Trichoderma harzianum. Foto: Yasmin Nunes/Embrapa

    Substâncias presentes em fertilizantes, como ureia e fosfato monoamônico (MAP), provocam estresse osmótico, alteram o pH e comprometem a sobrevivência dos microrganismos. Isso reduz a eficiência dos inoculantes biológicos e dificulta sua adoção no campo.

    Liberação gradual melhora eficiência no campo

    O novo revestimento funciona como um “escudo” microscópico e garante a liberação controlada do fungo no solo. Esse processo favorece a colonização da rizosfera, região próxima às raízes, antes da chegada de patógenos, criando uma barreira biológica natural.

    Além disso, o revestimento também regula a liberação do fertilizante químico. Com a disponibilidade prolongada de nutrientes, o produtor reduz a necessidade de reaplicações, diminui custos operacionais e minimiza perdas ambientais, como eutrofização e emissão de gases de efeito estufa.

    Bioeconomia e escala comercial

    A tecnologia utiliza materiais de baixo custo e alinhados à bioeconomia circular. A carboximetilcelulose tem ampla disponibilidade, enquanto os nanocristais de celulose podem ser produzidos a partir de resíduos agrícolas.

    Imagem: Embrapa

    O próximo passo envolve a validação em diferentes culturas e condições de campo, além da escalabilidade para uso comercial.

    Um exemplo prático: em culturas como soja e milho, o uso conjunto de fertilizante e bioinsumo em uma única aplicação pode reduzir operações no campo e aumentar a eficiência nutricional e biológica da lavoura.

  • Fungo reduz em até 94% avanço da principal doença da pupunheira

    Fungo reduz em até 94% avanço da principal doença da pupunheira

    Pesquisadores brasileiros comprovaram o potencial de fungos do gênero Trichoderma para combater uma das doenças mais devastadoras da pupunheira, cultura estratégica para a produção de palmito no país. O estudo revelou que espécies como Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum reduzem significativamente o avanço de Phytophthora palmivora, fungo responsável pela podridão da base do caule da pupunheira e considerada a pior ameaça à cultura.

    Pupunheira sem sintomas de podridão da base do estirpe. Foto: Eduardo Fuzitani/Embrapa

    Eduardo Jun Fuzitani, pesquisador da Apta Regional de Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira, destaca que a pesquisa também trouxe um avanço metodológico importante: pela primeira vez, cientistas desenvolveram um sistema eficiente de inoculação, capaz de introduzir de forma controlada o fungo causador da doença e os agentes de controle biológico em pedaços do caule da pupunheira para a realização dos testes. “A técnica permite simular a infecção em condições controladas de laboratório, reduzindo custos e acelerando estudos sobre o manejo da doença”, afirma Fuzitani.

    Expansão do cultivo aumentou incidência de doenças

    A pupunheira, identificada cientificamente como Bactris gasipaes, ganhou espaço no mercado brasileiro depois que a exploração predatória da juçara reduziu drasticamente os estoques naturais na Mata Atlântica. Desde então, produtores expandiram o cultivo principalmente nos estados de São Paulo e Bahia, além de áreas do Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A espécie apresenta vantagens econômicas importantes, como crescimento rápido, perfilhamento intenso e menor oxidação do palmito. Características que permitem até a comercialização do produto in natura.

    Álvaro Figueredo dos Santos, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e ex-pesquisador da Embrapa Florestas (PR), explica que a expansão das áreas cultivadas trouxe também o aumento de doenças associadas ao monocultivo. Entre elas, a podridão da base do caule se destaca como a mais grave. Causada por Phytophthora palmivora, a doença afeta tanto plantas jovens quanto adultas: os sintomas começam com o amarelecimento das folhas e evoluem para a morte dos brotos, podendo destruir toda a planta nos casos mais graves.

    Controle biológico ganha espaço como solução sustentável

    Santos ressalta que ainda faltam opções efetivas de controle da doença, seja por fungicidas ou por variedades resistentes. Além disso, o uso intensivo de produtos químicos levanta preocupações ambientais e sanitárias, especialmente porque o palmito pode ser consumido cru. Nesse cenário, o controle biológico surge como alternativa sustentável e economicamente viável.

    A pesquisa avaliou duas espécies do gênero Trichoderma, amplamente utilizado para controle biológico de doenças de plantas. Foto: Eduardo Fuzitani/Embrapa

    Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente (SP), explica que os fungos do gênero Trichoderma atuam por diferentes mecanismos contra organismos causadores de doenças em plantas. “Eles competem por nutrientes, produzem substâncias antifúngicas, degradam a parede celular de agentes invasores e ainda estimulam mecanismos naturais de defesa das plantas. Algumas espécies também promovem crescimento vegetal e conseguem colonizar tecidos internos da planta sem causar danos, comportamento conhecido como endofitismo”, complementa Bettiol.

    Aplicações preventivas apresentam melhores resultados

    No estudo, os pesquisadores avaliaram quatro isolados comerciais: dois de Trichoderma harzianum e dois de Trichoderma asperellum. Os testes in vitro mostraram forte capacidade de inibição do crescimento do patógeno. Os isolados TH2 e TH1 de Trichoderma harzianum reduziram o crescimento de Phytophthora palmivora em 94% e 91%, respectivamente, enquanto os isolados TA2 e TA1 de Trichoderma asperellum apresentaram reduções de 80% e 61%.

    Os resultados mais expressivos surgiram quando os cientistas aplicaram os fungos antagonistas antes da inoculação do patógeno, reduzindo significativamente a severidade da doença. O isolado TH2 de Trichoderma harzianum registrou os melhores índices de proteção, especialmente nos testes realizados 48 horas antes da infecção.

    Aplicado 48 horas antes da infecção, o Trichoderma harzianum bloqueou totalmente a colonização do patógeno. Foto: Eduardo Fuzitani/Embrapa

    Em alguns casos, o fungo benéfico bloqueou totalmente a colonização do patógeno. Os pesquisadores observaram que o Trichoderma ocupava rapidamente os tecidos internos da pupunheira, dificultando o estabelecimento de Phytophthora palmivora. Uma ocupação prévia que parece determinar o sucesso do controle biológico.

    Os testes também revelaram diferenças importantes entre estratégias preventivas e curativas. Quando os pesquisadores aplicaram o Trichoderma após a infecção já estabelecida, os resultados caíram em eficiência. Ainda que tenha reduzido as lesões, o controle não se comparou ao obtido nas aplicações preventivas.

    Para Fuzitani, esse padrão reforça a necessidade de programas de manejo antecipado da doença, priorizando aplicações preventivas em vez de intervenções tardias. “Uma vez instalado no tecido vegetal, o patógeno se torna mais difícil de combater”, observa o pesquisador.

    Fungo coloniza internamente a planta sem causar danos

    Outro resultado inédito do estudo comprova a colonização endofítica dos tecidos da pupunheira pelos fungos antagonistas. Todos os isolados avaliados penetraram internamente no caule da planta e cresceram sem provocar sintomas negativos. Diferentemente das amostras infectadas por Phytophthora palmivora, que apresentaram tecidos escurecidos e podridão mole, os tecidos colonizados por Trichoderma permaneceram claros, firmes e saudáveis.

    Os pesquisadores acreditam que essa capacidade pode representar um diferencial importante no manejo da cultura em campo. Como o fungo permanece dentro da planta, ele pode funcionar como uma barreira biológica contínua contra futuros ataques do patógeno.

    Bettiol destaca ainda que produtos comerciais à base de Trichoderma já estão amplamente disponíveis no mercado brasileiro, o que facilitaria a adoção da tecnologia pelos produtores rurais. “Espécies como Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum estão entre os biofungicidas mais utilizados no mundo, especialmente por apresentarem múltiplos mecanismos de ação e baixo impacto ambiental”, afirma.

    Próximos passos incluem testes em campo

    A pesquisa também abre perspectivas sobre o crescimento vegetal e a herança de características induzidas pelo Trichoderma. Estudos anteriores já demonstraram que plantas tratadas com determinadas espécies do fungo podem transmitir maior resistência a estresses e doenças para gerações seguintes.

    No caso da pupunheira, essa possibilidade ganha relevância por causa do perfilhamento característico da cultura. Como a planta emite novos brotos continuamente, os cientistas acreditam que o uso de Trichoderma pode contribuir não apenas para o controle da podridão da base do caule, mas também para o fortalecimento geral da plantação.

    Os resultados indicam que o controle biológico pode reduzir o uso de fungicidas químicos, o que é especialmente importante porque o palmito é consumido in natura. Foto: Eduardo Fuzitani/Embrapa

    Os próximos passos da pesquisa envolvem testes em condições de campo para validar os resultados observados em laboratório. Os cientistas pretendem avaliar o desempenho dos isolados comerciais em áreas produtivas, analisando tanto o controle da doença quanto possíveis efeitos sobre produtividade e desenvolvimento das plantas.

    Para os pesquisadores, o controle biológico com Trichoderma representa uma estratégia promissora para tornar o cultivo da pupunheira mais sustentável. Além de reduzir o uso de fungicidas químicos e minimizar perdas econômicas em uma cadeia produtiva cada vez mais importante para o agronegócio brasileiro.

  • Milho “perfumado” por fungo espanta praga que causa perdas de até 30%

    Milho “perfumado” por fungo espanta praga que causa perdas de até 30%

    Pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, no Distrito Federal, identificam uma estratégia biológica capaz de reduzir os danos causados pelo percevejo-barriga-verde, uma das pragas mais prejudiciais ao milho e a outras culturas de relevância econômica no Brasil.

    O estudo mostra que a aplicação de um fungo benéfico nas folhas da planta altera as substâncias aromáticas que ela libera no ambiente. E essa mudança atrai uma vespa parasitoide que elimina os ovos da praga antes que ela se prolifere.

    A descoberta abre caminho para um controle mais sustentável do inseto, com potencial para reduzir a dependência de defensivos químicos nas lavouras brasileiras.

    Um problema recorrente no Sistema Plantio Direto

    Os maiores prejuízos provocados pelo percevejo-barriga-verde acontecem em áreas que adotam o Sistema Plantio Direto com rotação entre soja e milho. Nesse modelo de cultivo, o inseto migra da soja recém-colhida e passa a se alimentar das plantas jovens de milho logo nas duas primeiras semanas após a germinação.

    Esse ataque precoce compromete o desenvolvimento inicial da cultura e pode reduzir a produtividade em até 30%. O que torna o manejo da praga uma prioridade para produtores que trabalham com essa rotação de culturas.

    Cinco anos de pesquisa para driblar a dependência química

    A pesquisadora Maria Carolina Blassioli Moraes coordenou um estudo de cinco anos com o objetivo de enfrentar esse problema crônico sem recorrer exclusivamente aos defensivos químicos tradicionais. A equipe combinou duas tecnologias ecológicas: o fungo Beauveria bassiana e a vespinha Telenomus podisi, espécie que parasita os ovos do percevejo.

    Pesquisadora Maria Carolina Blassioli Moraes. Foto: Claudio Bezerra

    Os resultados da pesquisa foram publicados no periódico científico internacional Journal of Pest Science, no artigo intitulado “Association of Beauveria bassiana with maize alters volatile organic compounds and enhances attraction of the egg parasitoid Telenomus podisi”.

    Uma reação química inesperada

    A equipe selecionou uma linhagem específica do fungo, chamada CG 1105, mantida no banco de microrganismos do laboratório de micologia da Embrapa. Inicialmente, os pesquisadores pulverizaram as plantas de milho com o fungo esperando um efeito direto de mortalidade sobre o percevejo.

    O experimento, no entanto, revelou algo mais surpreendente sob a ótica da ecologia química, área da ciência que estuda os sinais químicos trocados entre os seres vivos. Cinco dias após a aplicação foliar, a equipe observou que o fungo havia colonizado a planta de forma benéfica. E alterado significativamente sua composição de compostos voláteis, os odores característicos emitidos pela vegetação.

    O microrganismo aumentou a produção de salicilato de metila, substância já conhecida na literatura científica por sua capacidade de atrair inimigos naturais de pragas. Ao mesmo tempo, reduziu a emissão de alfa-farneseno, composto de aroma doce e amadeirado amplamente utilizado nas indústrias de fragrâncias.

    O “aroma” que chama a vespa aliada

    Segundo Blassioli, essa mudança molecular no conjunto de aromas do milho funciona como um aviso biológico que atrai a vespinha Telenomus podisi. Ao perceber a alteração no odor da planta, o inseto localiza com precisão a área afetada e parasita os ovos depositados pelo percevejo-barriga-verde.

    Imagem: Embrapa

    A vespa insere seus próprios ovos dentro dos ovos da praga, o que impede o nascimento de novos indivíduos e controla a população do inseto de forma sustentável. Ou seja, sem a necessidade de aplicações químicas adicionais.

    Próximo passo: testes em condições reais de lavoura

    Até agora, todos os bioensaios e análises foram realizados em ambiente controlado de laboratório. A pesquisadora afirma que a equipe pretende expandir as avaliações para testes práticos em campo nos próximos meses.

    Caso os resultados obtidos nas lavouras confirmem os índices observados em laboratório, os produtores rurais brasileiros poderão contar com um protocolo inédito de Manejo Integrado de Pragas (MIP). A metodologia reuniria diferentes frentes de controle biológico atuando em conjunto, o que otimizaria a proteção das lavouras e reduziria custos e impactos ambientais.

    Uma pesquisa multidisciplinar

    O estudo reuniu um grupo diverso de cientistas da Embrapa e de instituições parceiras. Além de Maria Carolina Blassioli Moraes, participaram Rogério Biaggioni, responsável pelo laboratório de micologia, e Raul Laumann e Miguel Borges, ambos do laboratório de semioquímicos, todos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

    A pesquisa também contou com a colaboração de Clenilson Rodrigues, pesquisador da Embrapa Agroenergia, da pós-doutoranda Mírian Michereff, responsável por grande parte dos bioensaios laboratoriais, e da estudante Isadora Quevedo.

  • Aranha que se disfarça de fungo é descoberta na Amazônia equatoriana

    Aranha que se disfarça de fungo é descoberta na Amazônia equatoriana

    Pesquisadores registraram pela primeira vez a existência de uma espécie de aranha capaz de imitar a aparência de fungos parasitas. A espécie, denominada Taczanowskia waska, foi encontrada na porção equatoriana da Floresta Amazônica e amplia o conhecimento científico sobre a biodiversidade da região.

    A descoberta ocorreu após a publicação de uma fotografia do animal na plataforma de ciência iNaturalist. Inicialmente, observadores acreditaram que o organismo retratado fosse um fungo. No entanto, análises posteriores revelaram tratar-se de uma aranha.

    “Descobertas como essas demonstram o valor das coleções científicas. Elas nos permitem classificar novas espécies e compará-las com espécimes históricos. Aliadas à colaboração internacional e à ciência cidadã, isso abre novas oportunidades para a pesquisa da biodiversidade”, destacou a pesquisadora Nadine Dupérré, uma das autoras do trabalho.

    A pesquisa foi conduzida pelo Instituto Leibniz para Análise da Mudança da Biodiversidade (LIB), da Alemanha.

    Camuflagem ajuda na sobrevivência da espécie

    Segundo os cientistas, a Taczanowskia waska apresenta estruturas alongadas que se estendem até o abdômen, além de uma coloração clara semelhante à observada em fungos do gênero Gibellula, conhecidos por parasitar aranhas.

    Dessa forma, a espécie utiliza a aparência de fungo como estratégia de camuflagem, reduzindo o risco de ser identificada por predadores.

    Aranha que se disfarça de fungo
    Taczanowskia waska, nova espécie de aranha, apresenta estruturas no abdômen que imitam fungos parasitas — Foto: David Diaz-Guevara/Reprodução Phys

    Para aumentar a eficiência dessa estratégia, a aranha permanece imóvel em áreas das folhas onde esses fungos costumam se desenvolver. Assim, torna-se ainda mais difícil distingui-la do ambiente natural.

    Além de revelar características inéditas do pouco estudado gênero Taczanowskia, a descoberta contribui para ampliar o conhecimento sobre a rica fauna amazônica presente na região equatoriana da floresta.

  • Bactérias nativas da macadâmia controlam doenças e abrem caminho para bioinsumos no Brasil

    Bactérias nativas da macadâmia controlam doenças e abrem caminho para bioinsumos no Brasil

    Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da empresa QueenNut identificaram duas bactérias com alto potencial para o controle biológico de doenças da macadâmia: Serratia ureilytica e Bacillus subtilis. Os resultados, obtidos em estudos conduzidos no âmbito de doutorado e em experimentos em casa de vegetação, indicam que esses microrganismos, presentes naturalmente na própria cultura, podem reduzir significativamente os danos causados pela queima dos racemos e pela podridão do tronco, duas das doenças mais prejudiciais à produção brasileira de macadâmia.

    Planta da macadãmia. Foto: Jeanne Scardini Marinho-Prado/Embrapa

    A pesquisa avança agora para o desenvolvimento de formulações de bioinsumos à base desses microrganismos, com potencial de uso em programas de manejo integrado.

    Controle biológico contra a queima dos racemos

    Um dos estudos, parte da tese de doutorado de Marcos Abreu (Unesp), sob orientação do pesquisador Bernardo Halfeld (Embrapa Meio Ambiente), focou na queima dos racemos, doença causada pelo fungo Cladosporium xanthochromaticum que afeta diretamente as estruturas florais da macadâmia e compromete a formação dos frutos.

    A equipe isolou 104 cepas bacterianas a partir das flores da planta e avaliou a capacidade de cada uma de inibir o desenvolvimento do fungo. Entre os isolados mais promissores, Serratia ureilytica e Bacillus subtilis se destacaram pela capacidade de reduzir tanto a incidência da doença nas flores quanto a esporulação do patógeno.

    Controlar a produção de esporos é estratégico: menos esporos significa menor disseminação da doença dentro do pomar e menos risco de novas infecções. Os pesquisadores observaram que o efeito protetor ocorre por múltiplos mecanismos simultâneos, produção de compostos antifúngicos voláteis e não voláteis, além de competição direta por nutrientes com o fungo.

    O fato de as bactérias serem nativas da própria cultura é apontado como uma vantagem importante. Já adaptadas aos órgãos da macadâmia, elas tendem a sobreviver e atuar melhor em condições reais de campo do que agentes externos.

    “Trata-se de uma abordagem bastante promissora porque utiliza microrganismos naturalmente presentes na planta como ferramenta de proteção da própria cultura”, destaca Abreu.

    Os testes indicaram ainda compatibilidade da maioria das bactérias com defensivos agrícolas usados na cultura, o que facilita a integração em programas de manejo. A única restrição encontrada foi para o cobre: Serratia ureilytica apresentou sensibilidade ao produto.

    Bacillus reduz severidade da podridão do tronco

    O segundo estudo concentrou-se na podridão do tronco, doença causada pelo fungo Lasiodiplodia pseudotheobromae. Considerada uma das mais graves que afetam a macadâmia, ela provoca lesões em tecidos lenhosos, morte de ramos e, nos casos mais severos, a perda completa da planta, incluindo mudas jovens com caule de pequeno diâmetro.

    Sintomas de podridão de tronco em plantas inoculadas com Lasiodiplodia pseudotheobromae. Foto: Bernardo Halfeld-Vieira

    Os experimentos utilizaram mudas enxertadas com diferentes combinações de copa e porta-enxerto, com o objetivo de entender como as bactérias interagem com materiais vegetais de distintos níveis de resistência genética. Espécies como Bacillus velezensis e Bacillus subtilis reduziram significativamente a severidade das lesões por meio da produção de metabólitos antifúngicos.

    Um dado relevante foi que a combinação entre cultivar e porta-enxerto influencia diretamente os níveis de suscetibilidade à doença e a eficácia do controle biológico. Algumas combinações apresentaram menor severidade da podridão do tronco. O que aponta caminhos tanto para a seleção de materiais genéticos mais resistentes quanto para estratégias de biocontrole mais efetivas.

    “Os resultados reforçam a importância de estratégias integradas de manejo, que associem controle biológico, escolha adequada de materiais genéticos e boas práticas agronômicas”, afirma Luana Melo, pesquisadora da Unesp envolvida no estudo.

    Outro diferencial deste trabalho é que o potencial de controle biológico se confirmou em plantas,não apenas em laboratório. Ensaios em casa de vegetação com mudas enxertadas aproximam os resultados das condições reais de produção.

    O marco: controle em diferentes órgãos da planta

    A análise conjunta dos dois estudos representa um avanço inédito para a macadamicultura brasileira. Pela primeira vez, pesquisadores demonstraram de forma consistente o potencial do controle biológico contra doenças que afetam tanto as estruturas florais quanto o caule da planta.

    Racemo de macadâmia com Cladosporium xanthochromaticum. Foto: Bernardo Halfeld-Vieira/Embrapa

    “Os resultados mostram que microrganismos naturalmente associados à cultura são capazes de reduzir os danos causados por doenças importantes. E contribuir para um sistema de produção mais profícuo, resiliente e sustentável”, diz Halfeld.

    Os estudos têm origem num levantamento iniciado em 2018 e divulgado pela Embrapa em 2024, que mapeou pela primeira vez as principais doenças presentes em plantios comerciais de macadâmia na principal região produtora do país. Esse diagnóstico abriu caminho para a busca de soluções de manejo mais sustentáveis, alinhadas à crescente exigência de mercados consumidores por produtos com menor uso de agroquímicos.

    Próximos passos: formulação e viabilidade econômica

    Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores reconhecem que há etapas importantes antes da adoção comercial em larga escala. O desenvolvimento de formulações estáveis com os bioinsumos e a avaliação da viabilidade econômica da solução estão entre os desafios a vencer.

    “A tendência é que o manejo de doenças evolua para abordagens integradas, combinando biologia, genética e práticas agronômicas. O controle biológico tem potencial para ocupar papel central nesse processo”, conclui Halfeld.

    Para a cadeia produtiva da macadâmia, que vem ganhando espaço no mercado brasileiro, os avanços sinalizam possibilidades concretas de aumentar produtividade, reduzir impactos ambientais e fortalecer a competitividade da cultura no país.

  • Last of Us mineiro: fungo zumbi brasileiro controla aranhas é descoberto por acidente

    Last of Us mineiro: fungo zumbi brasileiro controla aranhas é descoberto por acidente

    Em meio às folhas de um fragmento de Mata Atlântica dentro do campus de uma universidade pública mineira, pesquisadores encontraram por acidente algo que a ciência ainda não havia catalogado: um fungo capaz de sequestrar o comportamento de aranhas e transformá-las em hospedeiras controladas até a morte. A espécie foi batizada de Gibellula mineira. E os próprios cientistas foram os primeiros a se surpreender.

    Nas fotos acima, a aranha Iguarima censoria não parasitada na vegetação (A) e em seu abrigo na folha (B); aranha morta e parasitada por Gibellula mineira em estágio inicial de infecção (C) e indivíduo com a colônia do fungo completamente desenvolvida, cobrindo o hospedeiro (D). Foto: Arquivo Pessoal Pesquisadores/UFV

    A descoberta foi publicada pela Fungal Biology, revista da tradicional British Mycological Society, e descreve um novo fungo parasita de aranhas encontrado na Mata da Biologia e no Recanto das Cigarras, duas áreas de floresta localizadas dentro do campus Viçosa da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

    A identificação fez parte do mestrado da estudante Aline dos Santos, sob orientação da pesquisadora Thairine Mendes Pereira e do professor Thiago Gechel Kloss, todos da UFV. Os resultados foram publicados na revista Fungal Biology em março de 2026. O artigo leva o título “The silent hunters of spiders: discovering a new Gibellula (Ascomycota: Cordycipitaceae) fungus in the Brazilian Atlantic forest”.

    Uma descoberta acidental

    O objetivo original da pesquisa não era encontrar uma nova espécie. As buscas de Aline tinham como objetivo compreender melhor possíveis alterações no comportamento das aranhas, mas acabaram revelando um fungo nunca antes registrado pela ciência.

    As coletas começaram em 2024 e o processo de confirmação como nova espécie levou mais de um ano, com análises morfológicas e genéticas comparadas a outros fungos do mesmo grupo. Identificar a aranha hospedeira foi um dos principais desafios: o fungo cobre quase todo o corpo do animal durante o parasitismo.

    O nome científico veio naturalmente. “As sugestões foram surgindo, mas o ‘mineira’ ganhou disparadamente, porque a gente queria homenagear mesmo o local em que a gente viu essa descoberta”, conta Aline dos Santos.

    Como age o fungo zumbi

    A Gibellula mineira age de forma perturbadoramente similar ao Ophiocordyceps, o fungo que inspirou o vírus fictício da série The Last of Us. O parasita invade o corpo da aranha hospedeira, a Iguarima censoria, e manipula seu comportamento, fazendo com que o animal se desloque para locais com condições específicas, favoráveis à propagação do fungo.

    Foto: Arquivo Pessoal Pesquisadores/UFV

    A nova espécie infecta cerca de 25% das aranhas hospedeiras no fragmento de Mata Atlântica estudado. Outro resultado surpreendeu os pesquisadores: aranhas menores apresentaram maior probabilidade de sofrer parasitismo. Um padrão inesperado que levanta novas questões sobre a dinâmica da interação entre o fungo e suas hospedeiras.

    “O que o Ophiocordyceps faz com as formigas, a Gibellula também faz, em algum momento, com as aranhas. Mas, ao mesmo tempo, são grupos de origens bem distintas. Eles são distantes na evolução”, explica Thairine Mendes Pereira, pesquisadora de pós-doutorado na UFV e coorientadora do estudo.

    Os mecanismos moleculares dessa manipulação, porém, ainda são desconhecidos. “A gente sabe o resultado final dessa interação. A gente vê que o fungo está parasitando a aranha e a aranha está morta em condições muito específicas que o hospedeiro saudável não ocupa. Mas como que ele chegou até lá? Quais são as moléculas envolvidas? O mecanismo que a gente ainda precisa responder”, afirma Thairine.

    Nenhum risco para humanos

    Apesar da semelhança com o enredo apocalíptico de The Last of Us, os pesquisadores são categóricos: a Gibellula mineira não representa qualquer ameaça a seres humanos. “É importante ressaltar que esses fungos são específicos de aranha. Não tem nenhuma relação ou possibilidade de parasitismo em humanos”, afirma o professor Thiago Gechel Kloss, do Departamento de Biologia Geral da UFV.

    Talvez o dado mais revelador desta história não seja o fungo em si, mas o lugar onde ele foi encontrado. A “Mata da Biologia” e o “Recanto das Cigarras” ficam dentro do campus da UFV, ao lado de Viçosa, uma cidade de 80 mil habitantes. E ainda assim a Gibellula mineira permaneceu escondida ali até ser encontrada por acaso.

    De acordo com os pesquisadores, o estudo amplia o conhecimento sobre as interações entre fungos parasitas e aranhas em florestas tropicais e mostra que, mesmo fragmentos de floresta inseridos em ambientes urbanos, ainda podem revelar novas espécies e contribuir para o conhecimento da biodiversidade da Mata Atlântica.

    “A gente pode se surpreender. Provavelmente a gente pode encontrar coisas novas. Tem que olhar com carinho”, resume Aline dos Santos.

    Para o professor Thiago Kloss, o Brasil reúne condições únicas para esse tipo de pesquisa. “Nós temos um privilégio de ter acesso a áreas naturais numa quantidade enorme. Esse privilégio é uma coisa que, no Brasil, faz muita diferença”, conclui.

  • A doença que pode devastar a banana mundial chegou perto do Brasil

    A doença que pode devastar a banana mundial chegou perto do Brasil

    Uma doença capaz de dizimar plantações inteiras de banana está se aproximando silenciosamente das fronteiras brasileiras. E o Brasil acaba de dar um passo estratégico para se proteger. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Ministério da Agricultura do Equador e a Associação de Exportadores de Banana do Equador (Aebe) assinaram, em Brasília, uma carta de intenções para desenvolver variedades geneticamente resistentes ao Fusarium Raça 4 Tropical (Foc R4T), considerada a doença mais destrutiva da bananicultura mundial.

    O Foc R4T é um fungo que causa a chamada murcha de Fusarium, doença sem cura e sem controle eficiente. Uma vez presente no solo, ele pode inviabilizar o cultivo por décadas. Já está ativo em 17 países da Ásia, África e Oceania. E avança pelo continente americano. Colômbia (2019), Peru (2020), Venezuela (2023) e, mais recentemente, Equador (2025) já registraram a praga. O Brasil, por ora, está livre, mas o cerco se fecha.

    “O desenvolvimento de variedades resistentes e seu plantio em países onde a praga ocorre é uma questão de segurança nacional para o Brasil”, afirma Edson Perito Amorim, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura e líder do Programa de Melhoramento Genético de Banana e Plátano. “Só há duas organizações no mundo pesquisando melhoramento de Cavendish, e a Embrapa é uma delas.”

    Uma parceria com peso estratégico

    O Equador é o maior exportador de bananas do mundo. Foram quase 4 milhões de toneladas destinadas à exportação em 2023, segundo a FAO. O Brasil, por sua vez, produziu 7 milhões de toneladas em 2024, destinadas exclusivamente ao consumo interno. Os dois países compartilham o mesmo grupo de banana mais vulnerável: o Cavendish, popularmente conhecida como Nanica.

    A cooperação permitirá que variedades desenvolvidas pela Embrapa sejam testadas em solo equatoriano, sob pressão real da doença, o ambiente ideal para validar a resistência genética. O Equador oferece o campo de batalha; o Brasil, a ciência.

    Foto: Edson Amorim/Embrapa

    “Esta é a primeira de várias oportunidades de parceria com o Equador. A cooperação internacional é fundamental para acelerar o desenvolvimento de tecnologias capazes de proteger a bananicultura mundial”, destacou Silvia Massruhá, presidente da Embrapa.

    Brasil já tem variedades resistentes e quer ir além

    O acordo não parte do zero. Graças a uma parceria anterior com a Corporação Colombiana de Pesquisa Agropecuária (AgroSavia), a Embrapa já comprovou que duas de suas variedades, a BRS Princesa (tipo Maçã) e a BRS Platina (tipo Prata), são naturalmente resistentes ao Foc R4T. O Brasil é, hoje, o único país das Américas preparado para enfrentar a doença nessas variedades. A nova parceria com o Equador amplia o foco para o grupo Cavendish, o mais consumido no mundo e o mais exposto à praga.

    “Ao unir esforços com o Equador e com o setor produtivo representado pela Aebe, ampliamos nossa capacidade de gerar e validar variedades mais resistentes, contribuindo para a sustentabilidade da produção e para a segurança alimentar global”, disse Massruhá.

    Outra ameaça no radar: o moko da bananeira

    Além do Fusarium, o acordo também prevê pesquisas sobre o moko da bananeira, doença causada pela bactéria Ralstonia solanacearum. Altamente destrutivo, o moko não tem controle eficiente conhecido e já causou perdas de 3 mil hectares no Equador. No Brasil, está restrito à região Norte, mas especialistas temem sua expansão.

    O moko é uma das doenças mais destrutivas das bananeiras cultivadas em áreas de várzea da Região Amazônica cujas inundações disseminam a bactéria. Foto: Luadir Gasparotto/Embrapa

    “O projeto pretende desenvolver tecnologias que possam auxiliar os produtores brasileiros numa eventual migração dessa doença para outras regiões produtoras”, explica Amorim.

    Um escudo científico para 250 mil famílias

    Do lado equatoriano, o interesse é imediato: são mais de 250 mil famílias envolvidas diretamente na produção de banana no país. “Esperamos que esse problema se converta em uma grande oportunidade para o governo do Equador e para a Embrapa”, disse Juan Carlos Vega Melo, ministro de Agricultura do Equador, durante a assinatura da carta de intenções.

    Francisco Laranjeira, chefe-geral da Embrapa Mandioca e Fruticultura, resume bem o que está em jogo: “A Embrapa pretende resolver um problema real dos plantios do Equador, o que deve proporcionar que frutos de cultivares resistentes sejam utilizados em mais de 75 mercados no mundo. E ainda diminuam a chance de que os problemas do R4T e do moko cheguem ao Brasil.”

  • Embrapa realiza sequenciamento inédito para combater murcha do ciclame

    Embrapa realiza sequenciamento inédito para combater murcha do ciclame

    Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (SP) realizaram o primeiro sequenciamento genômico do fungo Fusarium oxysporum f. sp. cyclaminis (Focy) no Brasil, agente causador da murcha do ciclame. O avanço representa um marco no controle da doença que, em 2023, comprometeu mais de 70% da produção de Cyclamen persicum em estufas de Holambra (SP), polo líder em flores ornamentais nas Américas.

    O ciclame é uma das espécies mais valorizadas do setor ornamental brasileiro, reconhecido pelas flores coloridas e pelo longo período de floração. A identificação do Focy surgiu a partir do surto de 2023, que revelou a gravidade da doença e levou ao sequenciamento completo da cepa CMAA 1919, hoje depositada na Coleção de Culturas de Microrganismos de Importância Ambiental e Agrícola da Embrapa.

    Avanço científico amplia estratégias de controle

    Segundo o pesquisador Bernardo Halfeld-Vieira, o resultado é o primeiro registro genômico de um isolado representativo do patógeno no país. “O conhecimento genético do fungo permite entender melhor sua biologia, patogenicidade e evolução. Isso abre caminho para estratégias mais eficazes de identificação, monitoramento e controle”, explica o cientista.

    O surto de 2023 causou prejuízos severos: mais de 4 mil plantas apresentaram amarelamento, descoloração vascular e morte dos bulbos. O aumento dos custos de produção evidenciou a necessidade de métodos preventivos mais precisos e sustentáveis.

    Para André May, também pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, o estudo representa um marco no enfrentamento da murcha de Fusarium. “A análise genômica permite distinguir genes associados à virulência e à adaptação ambiental, o que direciona melhor as estratégias de manejo e acelera o desenvolvimento de soluções para o setor”, destaca.

    Setor de flores prioriza sustentabilidade

    O segmento de flores em vasos movimenta cerca de R$ 19,5 bilhões anuais e responde por quase 40% do faturamento do setor no país. Holambra e cidades próximas concentram produtores altamente tecnificados, que agora terão acesso a informações estratégicas para reduzir perdas e aprimorar o manejo fitossanitário.

    A pesquisadora Kátia Nechet lembra que a murcha do ciclame foi registrada no Brasil ainda na década de 1970, mas sem base molecular. “O sequenciamento genético confirma a presença do Focy e cria uma base sólida para novas pesquisas sobre epidemiologia e disseminação da doença”, afirma.

    Perspectivas para a produção de plantas ornamentais

    Com o mapa genético do fungo decifrado, o setor ganha recursos para identificar rapidamente novos surtos, desenvolver variedades resistentes e formular políticas de prevenção mais eficazes. O uso integrado de biotecnologia e manejo sustentável fortalece a competitividade da floricultura brasileira dentro e fora do país.

    A cooperação entre cientistas e produtores se consolida como fator estratégico para antecipar riscos e reduzir impactos econômicos e ambientais. A expectativa é que o avanço da genômica mantenha o Brasil na linha de frente da inovação em fitossanidade e sustentabilidade na produção ornamental.

  • Estudo avalia riscos ambientais de novo bioherbicida natural desenvolvido no Brasil

    Estudo avalia riscos ambientais de novo bioherbicida natural desenvolvido no Brasil

    O Instituto de Pesca (IP-APTA), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, conduz uma pesquisa que avalia a segurança ambiental de um bioherbicida natural obtido a partir do fungo Trichoderma koningiopsis. O estudo busca identificar possíveis efeitos do produto sobre organismos aquáticos e estabelecer níveis seguros de uso, garantindo sua viabilidade para a agricultura sustentável.

    A pesquisa integra o Programa de Pós-Graduação em Aquicultura e Pesca do Instituto (PPGIP) e tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O projeto conta com parceria da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Santa Catarina, responsável pelo desenvolvimento do herbicida natural. A mestranda Maria Rita Conde Simone conduz os experimentos no Laboratório de Virologia, Biotecnologia e Cultivo Celular (LaViBaC), em São Paulo, sob orientação da pesquisadora Cláudia Maris.

    Avaliação dos efeitos ambientais

    O estudo utiliza girinos de rã-touro (Lithobates catesbeianus) para simular a exposição ambiental ao produto. Esses organismos são sensíveis a variações na qualidade da água e amplamente usados em pesquisas de ecotoxicologia. Os testes envolvem diferentes concentrações do bioherbicida diluído em água, reproduzindo situações que podem ocorrer após o uso agrícola.

    Os pesquisadores analisam alterações no fígado e no sangue dos animais para detectar possíveis danos fisiológicos ou genéticos, além de monitorar parâmetros que indicam estresse metabólico. As informações ajudarão a determinar a segurança ecológica do bioherbicida microbiano e a orientar seu uso responsável no campo.

    Formação científica e colaboração

    Para Maria Rita, a experiência no Instituto de Pesca tem sido transformadora. Ela destaca o ambiente colaborativo e o apoio da orientadora na trajetória acadêmica.

    Maria Rita Conde Simone. Foto: Divulgação

    Segundo Cláudia Maris, o estudo representa um passo importante para o avanço dos bioinsumos microbianos e para o fortalecimento da chamada Agricultura Limpa, alinhada às tendências da toxicologia moderna. “Desenvolver produtos sustentáveis e ambientalmente seguros é essencial para o futuro da agricultura e para a proteção dos ecossistemas aquáticos”, afirma a pesquisadora.

  • Brasil é berço de fungo que ameaça sapos e rãs no mundo

    Brasil é berço de fungo que ameaça sapos e rãs no mundo

    A história começa bem antes do que imaginávamos. Enquanto cientistas ao redor do mundo tentavam entender porque populações inteiras de sapos, rãs e pererecas estavam desaparecendo, a resposta estava escondida em museus brasileiros desde 1916. Um fungo microscópico, silencioso e letal, já habitava nosso território décadas antes de se tornar uma ameaça global.

    O vilão da história tem nome científico complicado: Batrachochytrium dendrobatidis, chamado simplesmente de Bd pelos pesquisadores. Esse fungo quitrídio causa uma doença devastadora chamada quitridiomicose, que já levou ao declínio de pelo menos 500 espécies de anfíbios anuros ao redor do planeta.

    Mas não é qualquer linhagem do fungo que está no centro desta descoberta. É especificamente a Bd-Brazil, uma variante genética que, como o nome sugere, nasceu aqui. E um estudo publicado recentemente na revista Biological Conservation finalmente comprova o que pesquisadores brasileiros suspeitavam há anos: essa linhagem se originou mesmo no Brasil e se espalhou para o mundo todo.

    A polêmica sobre a origem do fungo

    A jornada para confirmar a origem brasileira da linhagem não foi simples. Em 2012, quando os cientistas identificaram essa variante pela primeira vez no país, batizaram ela de Bd-Brazil. Parecia óbvio, certo? Nem tanto.

    Em 2018, um artigo na prestigiada revista Science contestou essa origem. Os autores argumentaram que a linhagem poderia ter vindo da Península Coreana, propondo até renomear o genótipo como Bd-Asia-2/Bd-Brazil. Foi uma reviravolta que colocou em xeque a hipótese brasileira.

    Mas os pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) não desistiram. Liderados por Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia, e com trabalho de doutorado de Luisa P. Ribeiro, a equipe reuniu evidências de múltiplas fontes para resolver essa controvérsia de uma vez por todas.

    “Esse genótipo tem alta prevalência em diferentes espécies nativas do Brasil, com registros muito antigos”, explica Ribeiro, primeira autora do estudo apoiado pela FAPESP. “Quando olhamos em outros lugares, os registros são bem mais recentes e ocorrem apenas em rãs-touro e outras espécies exóticas.”

    O trabalho de detetive científico

    Para provar que a Bd-Brazil realmente se originou aqui, os pesquisadores viraram verdadeiros detetives. Eles cruzaram dados de várias fontes: literatura científica antiga, amostras de anfíbios preservados em museus desde o século 19, análises genéticas de rãs criadas em ranários brasileiros e investigações sobre o comércio internacional de carne de rã.

    Colaboradores estrangeiros examinaram nada menos que 2.280 espécimes de anfíbios coletados entre 1815 e 2014, guardados em museus de zoologia ao redor do mundo. Quarenta deles testaram positivo para o Bd.

    Microscopia do fungo quitrídio Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), agente causador da quitridiomicose, mostra zoosporângios e zoósporos responsáveis pela infecção em anfíbios. Foto: Mariana Pontes/Fapesp/LEAD Technologies Inc. V1.01

    O registro mais antigo de infecção? Um sapo da espécie Alytes obstetricans, coletado em 1915 nos Pireneus franceses. Mas o segundo mais antigo veio de um sapo brasileiro da espécie Megaelosia goeldii, presente no Rio de Janeiro, coletado em 1964.

    Aqui está o detalhe crucial: a Bd-Brazil já estava presente no Brasil em 1916, duas décadas antes das primeiras rãs-touro norte-americanas chegarem ao país. Isso já tinha sido indicado em um artigo de 2014 na Molecular Ecology, mas agora as evidências ficaram ainda mais robustas.

    As rãs-touro: vetores involuntários da tragédia

    Se o fungo é brasileiro, como ele se espalhou pelo mundo? A resposta está nos ranários e no apetite global por carne de rã.

    A rã-touro (Aquarana catesbeiana), espécie norte-americana, foi introduzida no Brasil pela primeira vez em 1935. Uma segunda população chegou nos anos 1970. Os criadores brasileiros descobriram que esse animal de grande porte e carne saborosa era perfeito para a aquicultura comercial.

    O problema é que as rãs-touro criadas em ranários brasileiros carregavam a Bd-Brazil. E quando essas rãs começaram a ser exportadas para diversos países, levaram o fungo junto.

    Os pesquisadores analisaram impressionantes 3.617 rotas do comércio internacional de carne de rã, envolvendo 48 países. Apenas 12 foram identificados como exportadores, 21 como importadores e 15 faziam os dois papéis.

    Ranário brasileiro dedicado à criação de rãs-touro (Aquarana catesbeiana). Uso de água do entorno sem tratamento e alta densidade de animais podem contribuir para infecção por fungo presente no ambiente. Foto: Luisa Ribeiro

    O Brasil exportou diretamente para os Estados Unidos entre 1991 e 2009. Os americanos, por sua vez, exportaram para a Coreia do Sul em 2004 e 2008. A linhagem foi detectada em todos esses países, mas sempre em datas posteriores à sua presença confirmada no Brasil.

    “Não poderíamos identificar exatamente a linhagem em uma grande amostra de anfíbios depositados em museus, uma vez que a conservação nem sempre é a desejável para manter essa informação”, reconhece Toledo. “Por isso, identificamos apenas presença ou ausência do fungo nesses indivíduos e buscamos outras evidências que pudessem indicar ou não a origem brasileira.”

    Por que isso importa?

    A Bd-Brazil é prevalente no Brasil, com mais da metade das ocorrências em alguns ranários. Paradoxalmente, ela é menos virulenta que outras linhagens, como a Bd-GPL, provavelmente originária da Ásia.

    Aqui no Brasil, o fungo está presente tanto em criações comerciais quanto na natureza. Algumas espécies nativas até carregam o patógeno sem desenvolver a doença. Mas quando exportado para outros ecossistemas, o fungo encontra anfíbios sem defesas evolutivas contra ele.

    O resultado? Declínio catastrófico de populações em diversos países.

    Ribeiro, que atualmente realiza pós-doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta a importância da descoberta: “Mesmo sem sabermos a linhagem em todos os casos, encontramos registros mais antigos do que os reportados anteriormente na literatura e apresentamos uma revisão de registros históricos de Bd no mundo.”

    O alerta dos cientistas

    O estudo, que integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, traz um recado urgente para autoridades sanitárias e ambientais globalmente.

    Os autores ressaltam a necessidade urgente de medidas de prevenção robustas: controles rígidos de importação, triagem sistemática de patógenos em animais comercializados e protocolos rigorosos de quarentena. Tudo isso com regulamentação e monitoramento em escala global para salvaguardar as espécies nativas.

    A descoberta também levanta questões sobre nossa responsabilidade. Se um patógeno brasileiro se espalhou pelo mundo através do comércio, que outros riscos invisíveis podem estar viajando nas cargas de animais vivos que cruzam fronteiras diariamente?

    Por enquanto, os cientistas conseguiram resolver um mistério de décadas. A Bd-Brazil nasceu aqui, cresceu aqui, e daqui partiu para se tornar uma ameaça global aos anfíbios. Resta agora usar esse conhecimento para proteger as espécies que ainda restam.

    Sobre a pesquisa: O estudo “Origin and global spread of an endemic chytrid fungus lineage linked to the bullfrog trade” foi publicado na revista Biological Conservation com apoio da FAPESP. O trabalho contou com colaboração internacional e analisou milhares de espécimes preservados em museus ao redor do mundo.

    André Julião | Agência FAPESP