A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) elevou para 41,88 bilhões de litros a estimativa de produção de etanol do Brasil na safra 2026/27. A projeção considera avanços tanto no biocombustível produzido a partir da cana-de-açúcar quanto no etanol de milho.
O novo número representa um aumento de mais de 1 bilhão de litros em relação à estimativa divulgada em abril. Segundo a Conab, a produção total deve crescer 11,7% na comparação com a temporada anterior.
Etanol de cana e de milho
A produção de etanol de cana-de-açúcar está estimada em 29,98 bilhões de litros na safra 2026/27. O volume representa crescimento de 9,7% em relação ao ciclo anterior.
Já a fabricação de etanol de milho deve alcançar 11,91 bilhões de litros, alta estimada em 17% na comparação anual.
De acordo com a Conab, a perspectiva de um mercado mais favorável ao etanol em relação ao açúcar influencia a destinação da cana pelas usinas. Ao mesmo tempo, a produção de etanol de milho continua em expansão.
Conab reduz estimativa para a cana
Apesar da projeção maior para o etanol, a Conab revisou para baixo a estimativa de produção de cana-de-açúcar em 2026/27.
O novo levantamento aponta para 705,2 milhões de toneladas, ante 709,1 milhões de toneladas previstos anteriormente.
Mesmo com o corte em relação à projeção de abril, o volume representa uma alta de 4,7% sobre a safra anterior.
O avanço esperado está relacionado à combinação entre maior área colhida e melhora da produtividade média nacional.
Produção de açúcar também é revisada para baixo
A revisão da produção de cana também aparece na estimativa para o açúcar.
A Conab agora projeta uma produção de aproximadamente 42,9 milhões de toneladas de açúcar na safra 2026/27. Na estimativa anterior, o volume previsto era de 43,95 milhões de toneladas.
Se confirmado, o novo número representará uma queda de 2,9% em relação à produção da temporada anterior.
Assim, o levantamento mostra um cenário de aumento da produção de etanol, especialmente com a expansão do biocombustível de milho.
A crescente demanda por biomassa para geração de energia está criando um novo mercado bilionário em Mato Grosso.
O avanço das usinas de etanol de milho e as novas exigências ambientais vêm impulsionando uma verdadeira corrida por áreas destinadas ao cultivo de eucalipto, atraindo o interesse de produtores rurais, agroindústrias, empresas do setor florestal e fundos de investimento.
Em junho, o Ministério Público de Mato Grosso e o governo estadual assinaram um novo acordo ambiental que prevê a substituição gradual da biomassa proveniente de florestas nativas. Dessa forma, as grandes agroindústrias deverão utilizar matéria-prima oriunda de florestas plantadas.
A mudança será implementada de forma gradual, mas já tem prazo definido. A partir de 2035, as empresas enquadradas no acordo não poderão utilizar madeira de vegetação nativa para gerar energia.
Segundo especialistas, essa decisão aumentou a segurança para novos investimentos. Como resultado, diversos projetos começaram a sair do papel.
Mato Grosso quer multiplicar área de florestas plantadas
Atualmente, Mato Grosso possui cerca de 165 mil hectares de eucalipto. Os dados são do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).
Entretanto, a meta estadual é muito mais ambiciosa: o objetivo é alcançar 700 mil hectares até 2040.
Se isso acontecer, a área plantada será mais de quatro vezes maior do que a atual. Para atingir esse patamar, o setor calcula investimentos próximos de R$ 8,5 bilhões.
Etanol de milho impulsiona novos contratos
O crescimento das usinas de etanol de milho está entre os principais fatores por trás dessa expansão.
A Inpasa, considerada a maior produtora de etanol de milho do país, já fechou contratos voltados ao aumento da produção de eucalipto.
Além disso, empresas de consultoria relatam maior procura por informações sobre projetos florestais.
Segundo profissionais do setor, investidores que tradicionalmente atuavam em outras áreas do agronegócio passaram a avaliar oportunidades ligadas à produção de biomassa.
Por causa disso, o mercado florestal ganhou visibilidade e começou a atrair novos participantes.
Pastagens degradadas aparecem como oportunidade
Especialistas afirmam que o avanço do eucalipto não deve ocorrer apenas em áreas agrícolas. Milhões de hectares de pastagens degradadas podem se transformar em novos polos de produção florestal.
Segundo estimativas da Embrapa, o estado possui uma grande quantidade de áreas com elevado nível de degradação. Dessa forma, a expansão da atividade pode ocorrer sem pressionar novas áreas de vegetação.
Falta de crédito ainda preocupa produtores
Apesar das perspectivas positivas, ainda existem desafios importantes.
O principal deles é o acesso ao financiamento, já que o retorno financeiro do eucalipto demora mais do que em atividades agrícolas tradicionais. Na maioria dos casos, a receita só aparece entre seis e sete anos após o plantio.
Enquanto isso, os custos ficam concentrados nos primeiros anos. Gastos com implantação, irrigação e manejo exigem, sem dúvidas, um capital significativo.
Mercado deve crescer nos próximos anos
Mesmo diante dos desafios, as perspectivas continuam positivas.
Além da expansão do etanol de milho, o setor também poderá ser beneficiado pelos mecanismos de reposição florestal previstos no Código Florestal.
Diante desse cenário, o eucalipto deixou de ser uma atividade secundária. Atualmente, ele já aparece como uma das principais apostas do agronegócio brasileiro para os próximos anos.
O etanol produzido a partir do milho pode abrir um novo mercado para os produtores e ampliar a demanda mundial pelo grão nos próximos anos. A National Corn Growers Association, entidade que representa os produtores de milho dos Estados Unidos, defende o uso do biocombustível no transporte marítimo como alternativa para acelerar a descarbonização da navegação.
A proposta aproveita uma infraestrutura já existente de produção, armazenamento e distribuição do etanol, reduzindo custos para a adoção do combustível pelo setor naval. Além disso, a iniciativa integra a estratégia da NCGA para ampliar os mercados consumidores da safra norte-americana, que alcançou o recorde de 17 bilhões de bushels em 2025, com valor estimado em US$ 70,1 bilhões.
O transporte marítimo responde por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa. Por isso, empresas do setor buscam alternativas aos combustíveis derivados do petróleo para atender às metas de descarbonização estabelecidas pela Organização Marítima Internacional (IMO).
Nesse cenário, o etanol de milho ganha espaço por apresentar características semelhantes às do metanol, outro combustível renovável utilizado na indústria naval. Além disso, sua cadeia logística já está consolidada em diversos mercados, o que facilita uma eventual expansão do uso em escala comercial.
Segundo a empresa de navegação Maersk, essa infraestrutura existente pode acelerar a adoção do etanol como combustível marítimo.
Mercado pode ampliar o consumo de milho
A NCGA estima que, caso o etanol conquiste 10% do mercado global de combustíveis para navios, a demanda adicional poderá chegar a aproximadamente 3 bilhões de bushels de milho.
O volume é semelhante às exportações anuais de milho dos Estados Unidos, indicando um potencial significativo para fortalecer a renda dos produtores e ampliar a competitividade da cadeia agrícola.
Testes reforçam a viabilidade do combustível
Empresas ligadas à navegação já iniciaram projetos para validar o uso do etanol em embarcações comerciais.
Entre os principais avanços estão o abastecimento de um navio movido integralmente a etanol realizado pela Maersk; o desenvolvimento de motores marítimos movidos a etanol pela fabricante suíça WinGD e encomendas da nova tecnologia por armadores interessados em reduzir emissões.
Esses resultados indicam que a adoção do combustível pode ocorrer sem a necessidade de construir uma cadeia logística completamente nova.
Expansão ainda depende de políticas públicas
Apesar dos avanços tecnológicos, a expansão do etanol de milho no transporte marítimo dependerá da criação de políticas públicas e de regras internacionais para avaliação das emissões de carbono dos combustíveis.
A NCGA defende que os modelos utilizados reconheçam os ganhos de sustentabilidade obtidos pela produção de milho nas últimas décadas.
Entre as prioridades apontadas pela entidade estão:
adoção de metodologias científicas para medir emissões;
reconhecimento internacional dos combustíveis renováveis produzidos a partir de culturas agrícolas;
fortalecimento das políticas de incentivo às exportações de etanol;
integração entre agricultura, energia e meio ambiente.
Estratégia pode fortalecer o mercado global do milho
Para o presidente da NCGA, Jed Bower, desenvolver novos mercados para o etanol representa uma estratégia de longo prazo para garantir demanda consistente pelo milho produzido nos Estados Unidos.
Segundo ele, a diversificação dos mercados consumidores contribui para aumentar a renda dos agricultores e criar perspectivas para as futuras gerações permanecerem na atividade rural.
Se a tecnologia avançar e as políticas de incentivo forem implementadas, o uso do etanol de milho no transporte marítimo poderá representar um novo capítulo para a cadeia global dos biocombustíveis, unindo inovação, sustentabilidade e novas oportunidades para o agronegócio.
As recentes tensões geopolíticas em importantes rotas globais de transporte de petróleo reacenderam o debate sobre segurança energética. Em um cenário de incertezas, países capazes de combinar produção agrícola em larga escala e fontes renováveis de energia ganham relevância estratégica.
O Brasil aparece entre os protagonistas dessa discussão. Com previsão de safra recorde de grãos em 2025/26, liderança mundial na produção de soja e avanço dos biocombustíveis, o país reúne condições para ampliar sua participação na transição energética global.
Para Daniel Barbosa, CEO da FEX Agro, o desafio vai além de produzir mais alimentos. Segundo ele, o setor precisa transformar sua escala produtiva em ganhos sustentáveis de competitividade, renda e segurança energética. Em entrevista, o executivo analisa as oportunidades e os desafios para o agronegócio brasileiro nos próximos anos.
A safra brasileira de grãos deve atingir um novo recorde em 2025/26. Qual é a importância desse resultado para o agronegócio?
A projeção de 358 milhões de toneladas mostra a capacidade produtiva do agronegócio brasileiro. Mais do que um número expressivo, ela demonstra a eficiência do setor e sua capacidade de atender tanto a demanda por alimentos quanto por matérias-primas destinadas à produção de energia renovável.
De que forma essa produção recorde pode fortalecer o setor energético brasileiro?
A expansão da produção agrícola fortalece cadeias ligadas ao biodiesel, etanol, biometano e combustível sustentável de aviação, o SAF. À medida que o mundo busca reduzir emissões e diversificar fontes de energia, o Brasil reúne condições favoráveis para ampliar sua participação nesse mercado.
O que diferencia o Brasil nesse cenário global?
Poucos países conseguem combinar liderança agrícola, disponibilidade de recursos naturais, matriz energética renovável e capacidade crescente de produção de biocombustíveis. Essa combinação coloca o Brasil em uma posição privilegiada diante das transformações que estão ocorrendo no mercado global de energia.
Qual é o papel da soja nessa estratégia?
A soja tem enorme relevância porque o Brasil é o maior produtor mundial. Além da exportação do grão, ela é uma matéria-prima fundamental para a cadeia do biodiesel. Isso amplia sua importância não apenas para o agronegócio, mas também para a agenda energética.
E qual é a importância do milho nesse contexto?
O milho vem ganhando protagonismo com o crescimento das usinas de etanol de cereais, especialmente no Centro-Oeste. Esse movimento agrega valor à produção dentro do país, fortalece a indústria de biocombustíveis e contribui para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
O Plano Safra 2025/26 é aguardado com expectativa pelo setor. O que está em jogo para os produtores?
O Plano Safra será determinante para a próxima temporada. O setor aguarda definições sobre volume de recursos, taxas de financiamento, linhas de investimento e mecanismos de apoio à modernização tecnológica. Em um cenário de juros elevados, essas definições influenciam diretamente a capacidade de financiamento da atividade agrícola.
Daniel Barbosa, CEO da FEX Agro – Foto: Arquivo Pessoal
O seguro rural também tem sido tema recorrente nas discussões do agro. Por quê?
Os eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes. Por isso, fortalecer instrumentos de gestão de risco é fundamental. O seguro rural oferece mais previsibilidade ao produtor e contribui para preservar a estabilidade produtiva e a segurança dos investimentos.
Apesar da perspectiva positiva para a produção, quais desafios permanecem para o produtor rural?
Os custos continuam sendo um fator importante. Fertilizantes, defensivos, logística e despesas financeiras ainda pressionam as margens. Além disso, o mercado internacional vive uma fase de maior oferta e recomposição de estoques, o que exige mais eficiência operacional e gestão de risco.
Crédito mais seletivo
O acesso ao crédito mudou nos últimos anos?
Sim. O capital continua disponível, mas as instituições financeiras passaram a adotar critérios mais rigorosos de análise. Hoje, governança, capacidade de gestão e qualidade das garantias fazem cada vez mais diferença na obtenção de recursos.
A China segue como um fator importante para o mercado brasileiro de soja?
Sem dúvida. A China continua sendo o principal destino das exportações brasileiras de soja. Isso faz com que o mercado acompanhe com atenção fatores como decisões de compra, questões diplomáticas e movimentos geopolíticos.
O Brasil está preparado para assumir um papel ainda mais relevante na segurança energética global?
O país já demonstrou capacidade de expandir sua produção agrícola e consolidar sua liderança em biocombustíveis. O próximo desafio é transformar essa escala produtiva em ganhos sustentáveis de competitividade, renda e segurança energética. Se conseguir avançar nessa direção, o Brasil poderá ocupar uma posição ainda mais estratégica em um mundo que busca fontes de energia mais seguras e de menor emissão de carbono.
A Coamo Agroindustrial Cooperativa iniciou captação de R$ 500 milhões para construir usina de etanol de milho. A cooperativa enviou comunicado à Comissão de Valores Mobiliários e confirmou a oferta de notas comerciais escriturais.
A operação marca a segunda oferta pública da Coamo nesse formato e ocorre em série única. A cooperativa direciona a emissão exclusivamente a investidores profissionais, conforme o comunicado oficial. O Banco Santander atua como coordenador líder da operação financeira.
A emissão integra o programa Programa Eco Invest Brasil, que incentiva projetos sustentáveis e infraestrutura climática.
Capacidade de produção
A Coamo planeja instalar a usina em Campo Mourão, no Paraná. A unidade terá capacidade diária de 763,3 mil litros de etanol hidratado e 723 mil litros de etanol anidro. O etanol hidratado abastece diretamente veículos, enquanto o anidro compõe a mistura com gasolina.
A cooperativa prevê concluir a planta industrial até fevereiro de 2027, segundo o comunicado. O projeto prevê processar 1,7 mil toneladas diárias de milho, volume equivalente a cerca de 20% do recebido.
A usina ficará anexa ao parque industrial da Coamo, que reúne nove unidades produtivas atualmente. O complexo industrial inclui atividades como moagem de trigo, produção de óleos e fabricação de rações.
A cooperativa destacou que a industrialização do milho agrega valor à produção dos cooperados. Além disso, a demanda crescente por biocombustíveis impulsionou a decisão de investir na nova planta.
A Coamo também citou disponibilidade de matéria-prima e experiência industrial como fatores estratégicos. A cooperativa ressaltou sinergias logísticas e conhecimento em trading de commodities no projeto.
A unidade será a primeira do Sul do Brasil a produzir etanol exclusivamente a partir de milho. O projeto também incorporará tecnologia estrangeira ainda pouco difundida no país, segundo a Coamo.
Milho e indústria
A usina ampliará o volume de milho destinado à industrialização de 3% para 20% do total recebido. A participação do milho na produção de ração deve atingir cerca de 15% com o novo projeto.
A cooperativa também prevê reduzir custos industriais com a cogeração de energia elétrica. A usina contará com termoelétrica capaz de gerar até 30 megawatts de energia.
A Coamo reúne quase 73 mil cooperados nos estados do Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Mais de 70% dos cooperados são pequenos produtores, segundo dados da própria cooperativa.
A organização registra receita superior a R$ 28 bilhões e movimenta mais de 9 milhões de toneladas anuais.
O Brasil deu mais um passo importante na expansão de suas exportações ao realizar o primeiro embarque de DDG (grãos secos de destilaria) com destino à China. O navio partiu do Porto de Imbituba (SC) transportando cerca de 62 mil toneladas do coproduto da produção de etanol de milho, consolidando um marco na pauta comercial do agronegócio brasileiro.
O envio é resultado do trabalho conduzido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) após a assinatura do protocolo sanitário bilateral com as autoridades chinesas. Desde então, a Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) coordenou o processo de registro, habilitação e inspeção das plantas interessadas em acessar o novo mercado. Até o momento, 13 estabelecimentos brasileiros receberam autorização oficial para exportar DDG à China. Isso após comprovarem boas práticas de fabricação, rastreabilidade e controle de segurança alimentar.
Volume cresce
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) compilados pela União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), o Brasil exportou 879.358 toneladas de DDG e DDGS em 2025. Volume 9,77% superior ao de 2024. As remessas atenderam 25 destinos. E reforçaram a imagem dos Brazilian Distillers Grains como produtos de alto valor agregado na cadeia do milho e da bioenergia.
A China, por sua vez, importou mais de US$ 66 milhões em DDG em 2024, voltados principalmente à formulação de ração animal. Com o novo acordo e o embarque inaugural, o Brasil se posiciona como fornecedor competitivo e confiável para o mercado chinês.
O avanço nas exportações acompanha o crescimento da indústria nacional de etanol de milho, que projeta para a safra 2025/2026 a produção de quase 10 bilhões de litros do biocombustível. Essa expansão impulsiona também a oferta de coprodutos como o DDG, cada vez mais valorizado no mercado internacional.
O que é DDG
O DDG (Distillers Dried Grains) é um coproduto obtido durante o processamento do milho para a produção de etanol. Após a fermentação e destilação, o material restante, rico em proteínas, fibras e lipídios, é seco e transformado em ingrediente de alto valor nutritivo usado na alimentação animal.
O sorgo ganhou protagonismo na segunda safra de Mato Grosso do Sul e se firmou como peça estratégica no planejamento agrícola do Estado. O avanço da cultura, impulsionado pela demanda das usinas de etanol de milho, transformou o sorgo em uma escolha econômica planejada, e não mais em solução emergencial.
Dados do SIGA (Sistema de Informações Geográficas do Agronegócio), ferramenta gerida pelo Governo do Estado por meio da Semadesc em parceria com a Aprosoja, mostram que a área cultivada saltou de pouco mais de 5 mil hectares para quase 400 mil hectares em apenas cinco safras. Um crescimento superior a 7.700%.
Expansão estratégica guiada pelo mercado
O secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck, destaca que o avanço do sorgo “não é casual, é estratégia”. Segundo ele, a expansão reflete a força do mercado e a demanda das usinas de etanol instaladas em Mato Grosso do Sul. “O fator decisivo foi o surgimento de uma demanda estruturada, com contratos de compra que garantem previsibilidade e segurança econômica ao produtor”, afirma.
De acordo com o SIGA, o salto mais expressivo começou na safra 2021/2022, quando o sorgo passou a ocupar áreas maiores e ganhar escala rapidamente. Após ajustes de adaptação, a cultura voltou a crescer com força em 2024/2025, praticamente dobrando sua área. Verruck explica que essa consolidação mostra que o sorgo já faz parte do planejamento da safrinha, especialmente em regiões de maior risco climático e janela curta após a soja.
A consolidação das usinas de etanol de milho no Estado foi um divisor de águas para a cultura. Antes limitada pela falta de mercado, a produção de sorgo encontrou sustentação nas indústrias que agora firmam contratos diretos, garantem escala e oferecem condições logísticas adequadas. “O mercado passou a dar sustentação e a criar um ciclo virtuoso de crescimento”, ressalta Verruck.
Mapa do avanço: regiões com maior expansão
Os dados mais recentes do SIGA mostram que dez municípios concentram metade da área plantada de sorgo na segunda safra sul-mato-grossense. Entre os principais estão Ponta Porã, Maracaju, Bonito, Bela Vista e Sidrolândia.
Esses polos agrícolas correspondem justamente às regiões onde o milho enfrenta maiores restrições de clima ou janela de plantio, e o sorgo surge como ferramenta eficaz de gestão de risco produtivo.
Resistência e viabilidade garantem espaço
Para o secretário-executivo de Desenvolvimento Econômico Sustentável da Semadesc, Rogério Beretta, o crescimento do sorgo comprova sua viabilidade técnica e econômica na segunda safra. “Por ser mais resistente às intempéries e doenças, o sorgo se adapta melhor a áreas marginais, onde o milho teria mais dificuldade”, explica.
Beretta acrescenta que a estrutura proporcionada pelas usinas, com contratos, mercado garantido e armazenagem, eliminou os maiores obstáculos históricos da cultura. “Essas condições dão segurança ao produtor e consolidam o sorgo como uma opção sólida dentro da rotação agrícola”, afirma.
Mato Grosso do Sul entre os maiores produtores
No cenário nacional, a Conab projeta que o Brasil ultrapasse 6,6 milhões de toneladas de sorgo na safra 2025/2026, com Mato Grosso do Sul ocupando a quarta posição entre os principais estados produtores.
Para Verruck, o caso de sucesso do sorgo em MS reflete o potencial da integração entre produção agrícola, bioenergia e sustentabilidade. “Quando há mercado, contratos e visão de longo prazo, a produtividade cresce, o risco cai e o desenvolvimento se consolida”, resume.
O Brasil alcançou um marco importante nas exportações agrícolas ao receber autorização da China para que 15 estabelecimentos comercializem DDGs (grãos secos de destilaria) e sorgo ao mercado chinês. A habilitação contempla cinco plantas de etanol de milho para exportação de DDGs e dez unidades especializadas em sorgo, fortalecendo a posição brasileira no mercado global de grãos e biocombustíveis.
A aprovação resulta da assinatura de acordos bilaterais entre Brasil e China: o Protocolo Fitossanitário do Sorgo, firmado em novembro de 2024, e o Protocolo de Proteínas e Grãos Derivados da Indústria do Etanol de Milho, assinado em maio de 2025. Ambos os documentos estabelecem os padrões sanitários necessários para o comércio entre os países.
Sorgo brasileiro ganha acesso ao maior importador mundial
O Centro-Oeste brasileiro, responsável por mais de 60% da produção nacional de sorgo, lidera as habilitações aprovadas. Das dez unidades autorizadas, quatro estão localizadas no Mato Grosso, quatro em Minas Gerais, uma em Rondônia e uma na Bahia.
Em 2024, conforme dados do IBGE, o Brasil produziu 4 milhões de toneladas de sorgo, exportando 178,4 mil toneladas (4% da produção total). A China representa mais de 80% das importações globais de sorgo, movimentando US$ 2,6 bilhões anualmente, segundo dados do mercado internacional.
DDGs: coproduto do etanol ganha mercado bilionário
Os DDGs, coprodutos gerados no processamento de milho para produção de etanol, representam uma oportunidade estratégica para o Brasil, terceiro maior produtor mundial de milho. Em 2024, o país exportou aproximadamente 791 mil toneladas desse insumo utilizado na fabricação de rações animais.
As cinco unidades habilitadas para exportação de DDGs estão concentradas no Centro-Oeste: quatro no Mato Grosso e uma no Mato Grosso do Sul. No mesmo período, a China importou mais de US$ 66 milhões em DDGs do mercado global.
Parceria estratégica alcança US$ 49,6 bilhões
A China mantém sua posição como principal destino das exportações agropecuárias brasileiras. Em 2024, o gigante asiático importou US$ 49,6 bilhões em produtos do agronegócio nacional, consolidando uma parceria comercial estratégica entre os países.
As novas habilitações garantem maior previsibilidade aos contratos de exportação e abrem espaço para ampliação dos volumes nas próximas safras, beneficiando toda a cadeia produtiva de grãos e biocombustíveis.
Trabalho coordenado entre governo e setor privado
O resultado foi obtido através da articulação entre o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a Adidância Agrícola e a Embaixada do Brasil em Pequim, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e representantes do setor privado, em conformidade com as exigências técnicas estabelecidas pelas autoridades sanitárias chinesas.
Foto: Sandra Brito/Embrapa
Além do impacto econômico, a exportação de DDGs reforça a agenda de sustentabilidade do Brasil ao promover a economia circular. A valorização de coprodutos industriais do processamento de milho transforma resíduos em insumos de alto valor para a indústria global de alimentação animal, demonstrando o potencial do agronegócio brasileiro em aliar produtividade e práticas sustentáveis.
A moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil deve crescer 3,6% na safra 2026/27, alcançando 620,5 milhões de toneladas, segundo a primeira estimativa da StoneX, empresa global de serviços financeiros. Esse volume colocaria a região diante da terceira maior moagem da história.
Esse aumento é sustentado pelo rejuvenescimento do canavial após altas renovações em 2024/25 e 2025/26, expectativa de chuvas dentro da normalidade no período de outubro a março e expansão da área colhida para 8 milhões de hectares, 1,8% maior que o ciclo anterior. Parte desse crescimento recupera áreas prejudicadas por queimadas entre julho e setembro de 2024, quando 420 mil hectares foram afetados.
Marcelo Di Bonifácio Filho, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, destaca que a combinação da recuperação das áreas queimadas com o retorno das chuvas cria um cenário favorável para a safra, que está entre as maiores já registradas no Centro-Sul.
A produtividade deve subir ligeiramente, chegando a 77,5 toneladas por hectare, mesmo com déficits hídricos persistentes em regiões como Triângulo Mineiro e Sul de Goiás.
A produção de açúcar está estimada em 42,1 milhões de toneladas, um crescimento de 5,7%. Isso impulsionada pelo maior volume de moagem e pela normalização do Açúcar Total Recuperável (ATR), previsto em 138,8 kg/ton.
Etanol de milho
No setor de etanol, destaca-se o aumento da produção total, principalmente pela expansão do etanol de milho, cuja oferta pode chegar a 11,4 bilhões de litros, avanço de 17,5% em relação à safra anterior, respondendo por cerca de um terço do volume da região. O etanol hidratado de cana deve atingir 14,6 bilhões de litros, alta de 8,2%.
No Norte-Nordeste, a moagem de cana deve permanecer estável em 57,3 milhões de toneladas para 2025/26, com queda de 0,5%. E a produção de açúcar deve cair 1,9%, para 3,65 milhões de toneladas, devido à normalização do ATR.
O grande destaque na região é o etanol de milho, cuja produção pode chegar a 962 milhões de metros cúbicos, próximo a 1 bilhão de litros. Isso impulsionada pela entrada em operação de novas plantas, como a usina da Inpasa, na Bahia, com capacidade superior a 500 mil metros cúbicos anuais. Além de projetos em Tocantins, Piauí e Rondônia.
Marcelo Di Bonifácio explica que o etanol de milho ganha importância estratégica no Nordeste. Promovendo diversificação da matriz, segurança no abastecimento e maior competitividade no mercado nacional. Com isso, o etanol de cana deverá perder espaço relativo na região. Especialmente a partir de 2026/27 com a chegada de novos projetos, podendo formar um mix açucareiro em torno de 51% para o próximo ciclo.
A produção de etanol de milho no Brasil registrou crescimento de 1.700% nos últimos sete anos, consolidando-se como uma alternativa sustentável e estratégica para o setor energético nacional. O volume processado já ultrapassa 17 milhões de toneladas do grão e a expectativa é que esse número supere 22 milhões até 2026, segundo projeções do setor.
O avanço do etanol de milho representa uma transformação estrutural no destino do cereal, que deixa de ser apenas insumo para ração animal ou exportação. E passa a ocupar papel central na matriz energética renovável do país. O modelo industrial permite operação contínua durante a entressafra da cana-de-açúcar, gera co-produtos de alto valor nutricional, como DDG e óleo de milho. E mantém margens operacionais robustas, chegando a 30% mesmo em cenários de oscilação de preços. Projetos maduros do setor apresentam retorno sobre o investimento (TIR) em torno de 15% ao ano.
Especialistas do setor destacam que a indústria do etanol de milho alia sustentabilidade e rentabilidade. Assim, transformaexcedentes agrícolas em energia limpa e movimentando cadeias produtivas em larga escala. “Estamos diante de um modelo que equilibra eficiência, geração de valor e contribuição para a transição energética”, afirma Felipe Jordy, gerente de inteligência e estratégia da Biond Agro.
Diversificação e interiorização da produção
O etanol de milho contribui diretamente para a segurança energética nacional, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis. Além disso, complementa a produção de etanol de cana, especialmente durante a entressafra. O Mato Grosso lidera a produção, com capacidade prevista de mais de 16 milhões de toneladas em 2026. Mas o setor avança para estados como Paraná, Bahia e Santa Catarina, promovendo a interiorização e diversificação da matriz energética.
Felipe Jordy, gerente de inteligência e estratégia da Biond Agro.
A expansão do etanol de milho fortalece a resiliência das usinas, amplia o suprimento doméstico e reduz impactos ambientais, posicionando o Brasil como protagonista global em bioenergia. “O etanol de milho representa um caminho sólido para integrar competitividade, sustentabilidade e independência energética ao agronegócio brasileiro”, conclui Jordy.
Com crescimento acelerado, margens atrativas e impacto positivo na transição energética, o etanol de milho consolida-se como peça-chave na nova matriz energética do Brasil, impulsionando investimentos e inovação no campo.