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  • Estudo revela que cana-de-açúcar remove mais carbono da atmosfera do que se pensava

    Estudo revela que cana-de-açúcar remove mais carbono da atmosfera do que se pensava

    Pesquisadores da Embrapa e colaboradores desenvolveram um método mais preciso para estimar os estoques de carbono na biomassa da cana-de-açúcar cultivada no Brasil. O estudo foi publicado na revista científica GCB Bioenergy. E propõe um fator de conversão específico para a cultura brasileira, capaz de calcular o carbono armazenado a partir da produtividade agrícola e de considerar diferenças regionais, temporais e de manejo entre as safras. A metodologia amplia a precisão das avaliações sobre o papel da bioenergia na mitigação das mudanças climáticas.

    Segundo Thayse Hernandes, bolsista da Embrapa Meio Ambiente, a proposta responde a uma limitação importante das avaliações internacionais. Os valores padrão (default) usados atualmente não captam a diversidade brasileira de solos, clima, sistemas de manejo e produtividade. “Ao incorporar dados nacionais, a metodologia reduz incertezas em estudos de mudança direta do uso da terra, conhecida pela sigla DLUC, e oferece base técnica mais robusta para inventários de gases de efeito estufa, avaliações de ciclo de vida e políticas públicas”, afirma a pesquisadora.

    Novo fator reduz incertezas nos cálculos

    Para chegar ao novo indicador, a equipe revisou a literatura científica sobre parâmetros de biomassa da cana-de-açúcar no Brasil. Nilza Patrícia Ramos, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, explica que o principal resultado do trabalho foi a definição do CFSUG, fator de carbono da biomassa da cana, estimado em 0,133, com incerteza relativamente baixa.

    “O fator permite estimar o estoque de carbono ao multiplicá-lo pela produtividade da cultura, captando diferenças entre municípios, safras e regiões produtoras. Com base na média de produtividade de dez anos, o estudo estimou o estoque nacional de carbono na biomassa superior ao valor de referência do IPCC e com incerteza menor”, destaca Ramos.

    Aplicação do método aponta remoção líquida de carbono

    Ao aplicar o novo fator às mudanças diretas do uso da terra associadas à cana-de-açúcar entre 2000 e 2019, os pesquisadores identificaram um balanço negativo de CO₂, o que indica remoção líquida de carbono da atmosfera. A média estimada ficou em aproximadamente -4,8 milhões de toneladas de CO₂ por ano, com faixa de incerteza entre -9,1 e -0,5 milhões de toneladas anuais.

    Foto: Arquivo Agro em Campo

    Com o fator proposto, 62% dos municípios produtores de cana registraram remoção de carbono. Ou seja, uma proporção superior à observada em estudos anteriores, que usavam valores padrão internacionais. A diferença reforça a importância de dados regionalizados para evitar superestimações ou subestimações dos efeitos ambientais da expansão da cultura.

    Setor produtivo e formuladores de políticas podem usar os dados

    Os benefícios climáticos da bioenergia dependem de uma contabilização adequada das emissões e remoções ligadas à produção agrícola. Por isso, os autores recomendam o uso do CFSUG em cálculos de balanço de CO₂ associados à DLUC. Principalmente em inventários de gases de efeito estufa, estudos de avaliação do ciclo de vida, programas de certificação de biocombustíveis e políticas de descarbonização.

    Além dos inventários nacionais, as novas estimativas podem apoiar decisões de empresas, produtores rurais, certificadoras e formuladores de políticas públicas. Como o fator proposto se aplica diretamente à produtividade, a metodologia permanece flexível e admite atualizações conforme surgem novas informações de manejo e produção.

    Metodologia pode inspirar outros países produtores

    O estudo reforça que avaliações ambientais da cana-de-açúcar precisam considerar a realidade dos sistemas produtivos brasileiros. Ao substituir estimativas amplas por parâmetros ajustados ao contexto nacional, o trabalho amplia a compreensão sobre o papel da cultura na bioeconomia e na transição energética.

    Embora voltada ao Brasil, a abordagem pode inspirar metodologias semelhantes em outros países produtores de biomassa para energia. Com dados mais representativos, pesquisadores e formuladores de políticas conseguem avaliar de forma mais equilibrada os impactos da cana-de-açúcar sobre o clima, reconhecer situações de remoção líquida de carbono e orientar decisões mais consistentes para a transição energética.

  • Mercado de carbono cresce no Brasil e abre porta de renda para produtores rurais

    Mercado de carbono cresce no Brasil e abre porta de renda para produtores rurais

    O Brasil pode gerar 370 milhões de toneladas em créditos de carbono a partir da criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), instituído em 2024. O dado consta em um estudo que a PwC Brasil divulgou no ano passado e que coloca o país na liderança desse mercado. A consultoria também projeta um potencial de movimentação de R$ 1 trilhão e a geração de cerca de 3 milhões de empregos.

    A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) apoiou e articulou o avanço do mercado regulado de carbono no Brasil. Deputados e senadores ligados à frente atuaram de forma expressiva para viabilizar a Lei nº 15.042/2024, que instituiu o SBCE e tirou a proposta do papel.

    Um dos pontos centrais da legislação prevê a participação dos produtores rurais como geradores de créditos de carbono. A agricultura, assim como as florestas, figura entre as formas de capturar carbono e reduzir a presença de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera.

    Durante a tramitação no Senado Federal, os parlamentares reconheceram o papel estratégico da agropecuária nesse processo e incluíram o setor no texto final, o que permite que parte dos créditos de carbono venha da produção rural. “O produtor rural é quem mais preserva no Brasil. Qualquer política ambiental precisa reconhecer esse esforço. E permitir que ele decida se quer ou não participar do mercado de carbono, sendo remunerado de forma justa”, destacou a vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS).

    O que são créditos de carbono

    Os créditos de carbono representam certificados de redução ou captura de gases de efeito estufa. Cada crédito corresponde a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente reduzida ou removida da atmosfera.

    Diferentes metodologias definem essa métrica. Certificadoras avaliam os projetos geradores de créditos, verificam o cumprimento das regras e atestam a qualidade do que é produzido. O reflorestamento de uma área, por exemplo, integra as atividades com potencial para gerar créditos de carbono.

    bois pastando
    Foto: Rodarte/Agro em Campo

    O presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), ressaltou que a instituição do SBCE cria uma oportunidade para remunerar o produtor pelos serviços ambientais prestados. Um tema que ainda avança lentamente no país. “A estruturação do mercado de carbono é uma oportunidade para gerar renda ao produtor rural e contribuir para a preservação ambiental, com respeito ao direito de propriedade”, comentou.

    Diferentes caminhos para gerar créditos no campo

    O produtor rural conta com diferentes formas de gerar créditos de carbono. A captura de carbono no solo, os projetos de bioenergia, o tratamento de dejetos e a conservação de áreas além das obrigações legais figuram entre os principais exemplos.

    O coordenador político da FPA no Senado, senador Marcos Rogério (PL-RO), apontou como uma conquista a possibilidade de gerar créditos de carbono em áreas preservadas dentro das propriedades rurais. A articulação garantiu essa inclusão durante a tramitação da matéria no Senado Federal.

    “O Senado corrigiu um erro grave ao garantir que quem preserva seja devidamente remunerado. Portanto, não faria sentido criar um ativo ambiental sem assegurar o direito de propriedade”, afirmou o senador.

    Mercado ainda depende de regulamentação

    A expectativa aponta para o SBCE totalmente funcional em 2030. Na fase atual, o mercado aguarda a regulamentação do sistema, que deve definir as formas de monitoramento e verificação do cumprimento das regras pelos projetos geradores de créditos.  “Mais do que uma nova fonte de receita, o crédito de carbono tornou-se um ativo estratégico. Que amplia a competitividade do produtor rural nos mercados nacional e internacional”, explica Pablo Feitosa, CEO do Carbon Group, e especialista em atender empresas que querem migrar para esse mercado.

    A regulamentação também vai estabelecer o limite de créditos gerados pela produção rural que as empresas obrigadas a reduzir ou compensar emissões de gases de efeito estufa poderão utilizar. A lei busca estimular essas empresas a desenvolver ferramentas próprias de redução de emissões, sem depender apenas da compensação.

    Portanto, produtores rurais interessados em gerar créditos de carbono também precisam acompanhar essa etapa. Os projetos deverão seguir metodologias reconhecidas e credenciadas, regra que garante validade aos créditos gerados apenas quando cumprem as especificações estabelecidas.

    Pablo Feitosa é CEO do Carbon Group

    “O crédito de carbono consolida-se como um diferencial estratégico para o produtor rural. Agregando valor à produção, fortalecendo práticas sustentáveis e ampliando a competitividade do agronegócio brasileiro. Portanto, em um mercado cada vez mais orientado por critérios ambientais, a capacidade de gerar e comercializar créditos de carbono deixa de ser apenas uma oportunidade. E passa a representar uma vantagem competitiva relevante, tanto no cenário nacional quanto no internacional”, conclui Feitosa.

  • Microcrustáceo marinho é usado em método inédito para rastrear poluição por carbono

    Microcrustáceo marinho é usado em método inédito para rastrear poluição por carbono

    Um estudo internacional liderado por pesquisadores da USP e de instituições francesas revelou, pela primeira vez, como partículas de carbono negro, um dos principais poluentes gerados pela queima incompleta de combustíveis fósseis, são ingeridas e transformadas dentro de organismos marinhos microscópicos. Publicado em artigo da revista científica Environmental Science & Technology, o trabalho adotou uma avançada técnica de microscopia para acompanhar, em tempo real e sem o uso de marcadores químicos, o comportamento do poluente conhecido como carbono negro em copépodes do gênero Acartia, pequenos crustáceos que compõem grande parte do zooplâncton oceânico.

    O zooplâncton é o conjunto de organismos que tem capacidade de se locomover nas águas dos oceanos e não ser levado pelas correntes marinhas. O carbono negro é considerado um importante agente de aquecimento climático e um contaminante amplamente presente nos oceanos. Apesar disso, pouco se sabia sobre a forma como ele interage biologicamente com organismos marinhos. Os experimentos foram realizados com partículas coletadas diretamente da emissão de motores a diesel na cidade de São Paulo. E o material foi preparado em diferentes formas, particulada e dissolvida, para avaliar seu comportamento óptico e biológico.

    Como é o processo

    A pesquisa mostrou que os copépodes ingerem partículas provenientes da fuligem de motores a diesel. E que essas partículas sofrem alterações estruturais ao longo do trato digestivo. Segundo os cientistas, o ambiente intestinal dos animais modifica o arranjo molecular do material poluente. Com isso, transformando agregados sólidos em estruturas mais dispersas e potencialmente mais reativas.

    “Os resultados obtidos neste trabalho possuem implicações globais, principalmente por se tratar de um ecossistema de influência central na dinâmica mundial: o meio marinho”, destaca Maria Luiza Vicente, primeira autora do estudo e pesquisadora correspondente junto com o professor Francisco Gontijo Guimarães, ambos do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.

    A técnica empregada permitiu diferenciar, com alta precisão, as partículas de carbono negro dos pigmentos naturais presentes nos organismos, criando o que os autores chamaram de “linha de base intestinal livre de pigmentos”. Isso possibilitou observar diretamente a presença do poluente dentro do intestino dos animais vivos. Os resultados também revelaram alterações fisiológicas associadas à ingestão do material. Os copépodes expostos ao carbono negro apresentaram dilatação intestinal semelhante à observada durante a alimentação natural, indicando que o organismo processa o poluente como se fosse alimento.

    Riscos ambientais

    Além dos impactos imediatos observados nos organismos analisados, os pesquisadores alertam para possíveis riscos ambientais decorrentes desse processo. Como o zooplâncton ocupa a base da cadeia alimentar marinha, a contaminação pode atingir peixes, crustáceos maiores e outros animais marinhos, ampliando a circulação do carbono negro nos ecossistemas oceânicos.

    “A técnica desenvolvida é, de fato, inovadora, principalmente por revelar formas antes não diretamente estudadas desses contaminantes em meio aquoso. Portanto, permitindo entender seu processo de transformação in vivo“, ressalta Maria Luiza Vicente.

    Os cientistas destacam, ainda, que as alterações sofridas pelas partículas dentro do intestino dos copépodes podem aumentar a capacidade de dispersão do poluente na água, favorecendo sua permanência no ambiente e potencializando efeitos tóxicos relacionados ao estresse oxidativo e à presença de compostos químicos derivados da combustão.

    Ciclo global do carbono

    Outro ponto de preocupação é o possível impacto sobre o ciclo global do carbono. Como os copépodes desempenham papel fundamental no transporte de matéria orgânica para regiões profundas do oceano, a transformação do carbono negro por esses organismos pode interferir nos mecanismos naturais de armazenamento de carbono e, consequentemente, nas dinâmicas climáticas globais. Especialistas também apontam que a presença contínua desse material nos oceanos pode comprometer o equilíbrio ecológico, afetando processos de alimentação, reprodução e sobrevivência de espécies marinhas sensíveis à poluição.

    Para Maria Luiza Vicente, a descoberta ajuda a compreender melhor o destino ambiental do carbono negro nos oceanos e o papel do zooplâncton na transformação desse poluente. “A parceria internacional envolvida não apenas viabilizou minha dupla titulação no doutorado, mas também promoveu a sinergia entre o estudo dos impactos de poluentes emergentes e técnicas ópticas avançadas na fronteira do conhecimento”, afirma.

    No futuro, segundo a pesquisadora, com os avanços das pesquisas ecotoxicológicas, esses dados poderão subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas ao tratamento de poluentes no meio marinho. Acreditamos que este estudo abre caminhos para desvendarmos o destino de poluentes de carbono emergentes e o real cenário do estoque de carbono nos oceanos”, conclui.

    Além dos cientistas do IFSC, a pesquisa contou com a participação de pesquisadores da Universidade de Toulon, na França, e do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O trabalho teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do programa internacional USP-Cofecub/Campus France.

    Texto: Rui Sintra/Arte: Livia Bortoletto/Publicado no Jornal da USP

  • Aditivo alimentar reduz emissões de metano em 50% em gado Nelore

    Aditivo alimentar reduz emissões de metano em 50% em gado Nelore

    A Minerva Foods e a startup australiana Rumin8 divulgaram os resultados de um estudo inédito que comprova redução de 50,4% nas emissões de metano entérico em gado Nelore confinado. Conduzida em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP), a pesquisa de 120 dias também registrou melhora estatisticamente significativa de 5% na eficiência de conversão alimentar dos animais que consumiram o aditivo desenvolvido pela Rumin8.

    O experimento avaliou o impacto do aditivo em condições que simulam operações comerciais de confinamento brasileiras. Animais que receberam o produto misturado à ração total (TMR) emitiram 39,6 g de metano por quilo de ganho de peso , contra 77,2 g/kg no grupo controle, que consumiu a mesma dieta sem o suplemento.

    No total, o teste gerou uma redução estimada de 29,8 toneladas de CO₂ equivalente em emissões de gases de efeito estufa, além de proporcionar ganhos de produtividade e menor consumo de ração. Empresas especializadas em certificação de carbono agrícola, entre elas a Athian e a FoodChain ID, realizam a verificação independente desses resultados.

    Como o estudo foi conduzido

    O experimento envolveu dois grupos de bovinos Nelore machos. O primeiro reuniu 80 animais em baias individuais, o que permitiu medir com precisão o consumo de ração e as emissões de metano, metade no grupo controle, metade recebendo o aditivo. O segundo grupo incluiu 200 bovinos em baias coletivas, para simular condições de escala comercial.

    A dieta adotada seguiu o padrão típico de terminação em confinamento no Brasil: 12% de volumoso e 88% de concentrado, com milho moído como ingrediente principal. Pesquisadores monitoraram o consumo de ração diariamente e avaliaram o desempenho produtivo por meio de pesagens periódicas.

    O que dizem os envolvidos

    Para o CEO da Rumin8, David Messina, os resultados abrem caminho para escalar a tecnologia no maior mercado de gado do mundo. “A Minerva e a Rumin8 estão comprometidas em reduzir as emissões de metano do setor. E foi excelente ter este trabalho validado por uma das instituições acadêmicas mais respeitadas do Brasil”, afirmou. Segundo ele, os dados farão parte do pacote regulatório para a comercialização do produto no país.

    Marta Giannichi, Diretora Global de Sustentabilidade da Minerva Foods, destacou o caráter estratégico da iniciativa. “A redução das emissões de metano é uma prioridade para o avanço de uma cadeia mais sustentável. Iniciativas como esta ajudam a acelerar soluções que combinam produtividade e responsabilidade ambiental”, disse.

    Pesquisadores da ESALQ/USP classificaram o aditivo testado entre as estratégias mais promissoras de mitigação de metano já avaliadas pela instituição. Com potencial para reduzir a pegada ambiental da produção de carne bovina sem comprometer a eficiência produtiva.

  • Brasil acumula déficit bilionário de carbono no solo causado pela agropecuária

    Brasil acumula déficit bilionário de carbono no solo causado pela agropecuária

    A conversão de vegetação nativa em áreas agropecuárias nos seis biomas brasileiros resultou em um déficit alarmante de 1,4 bilhão de toneladas de carbono na camada superficial do solo (0 a 30 centímetros). Essa perda equivale à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, segundo estudo inédito publicado na revista científica Nature Communications.

    A pesquisa foi desenvolvida por cientistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon/USP), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e da Embrapa. E avaliou mais de 370 estudos científicos para traçar o primeiro mapeamento completo do estoque de carbono no Brasil antes das intervenções humanas.

    Metodologia abrangente revela escala do problema

    Os pesquisadores analisaram 4.290 amostras de solo coletadas em diferentes profundidades em áreas de vegetação nativa e de uso agropecuário em todo o país. O trabalho permitiu calcular as diferenças no estoque de carbono orgânico entre os seis biomas brasileiros, cinco tipos de solo e diversos níveis de intensificação do manejo agrícola.

    “Ao mesmo tempo em que quantifica o problema, a pesquisa aponta oportunidades de incremento de carbono com a mudança de práticas agropecuárias, iniciativas de políticas públicas ou ações privadas”, explica Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa e coautor do estudo.

    Segundo João Marcos Villela, primeiro autor do artigo e bolsista da Esalq/USP, o trabalho estabelece uma linha de base sobre a perda de carbono no Brasil. “Esse trabalho serve como ponto de referência para ações futuras”, afirma Villela. Ele destaca que o CCarbon aprovou um projeto para ampliar a coleta de dados de forma padronizada em todo o território nacional.

    Clima determina perdas e ganhos de carbono

    A análise confirmou que o clima exerce papel fundamental no balanço de perdas e armazenamento de carbono orgânico no solo. Regiões mais frias e úmidas, como Pampa e Mata Atlântica, apresentaram maiores estoques de carbono. Isso em comparação aos biomas de clima tropical, como Cerrado, Pantanal, Caatinga e Amazônia.

    Os dados também revelaram que áreas com maior estoque inicial de carbono sofreram perdas mais significativas quando convertidas para uso agropecuário. Portanto, estabelecendo uma correlação direta entre potencial de armazenamento e vulnerabilidade à degradação.

    Práticas sustentáveis reduzem perdas pela metade

    Um dos achados mais relevantes do estudo refere-se ao impacto das diferentes práticas agrícolas na retenção de carbono. A conversão de vegetação nativa em monocultura resultou em perda média de 22% na matéria orgânica do solo. Enquanto em sistemas agrícolas integrados a redução foi de apenas 8,6%.

    O sistema de plantio direto também demonstrou maior eficiência na preservação do carbono, com perda de 11,4%, contra 21,4% no cultivo convencional. Uma diferença de 47% entre as duas técnicas de manejo.

    Cerrado e Mata Atlântica concentram 72% do potencial de recuperação

    A quantificação do déficit de carbono permitiu aos pesquisadores mapear as regiões com maior potencial de recarbonização. Aproximadamente 72% da capacidade de recuperação está concentrada em dois biomas. O Cerrado, com potencial de 0,53 bilhão de toneladas de carbono, e a Mata Atlântica, com 0,48 bilhão de toneladas.

    “Entender qual a diferença dessa diversidade de climas, biomas e sistemas produtivos, tanto no âmbito de perdas quanto de ganhos, serve para direcionar soluções mais adaptadas”, destaca Villela.

    Impacto nas metas climáticas brasileiras

    O estudo indica que, ao recarbonizar apenas um terço do potencial estimado, o Brasil poderá alcançar a meta de redução de emissões entre 59% e 67% estabelecida nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) do Acordo de Paris até 2035.

    Daniel Potma, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e vinculado à UEPG durante o estudo, ressalta a importância dos dados para o mercado de carbono brasileiro. “Conhecendo o tamanho do ‘pote’, 1,4 bilhão de toneladas de carbono, é possível saber quanto isso vale em termos de recursos, o que poderá ser um chamariz para atrair investimentos na economia da descarbonização”, afirma.

    Ciência brasileira ganha reconhecimento internacional

    A publicação na Nature Communications, periódico de alto impacto científico, fortalece o reconhecimento da pesquisa brasileira sobre emissões de gases de efeito estufa na agropecuária nacional. Segundo Barioni, informações confiáveis obtidas em âmbito nacional são fundamentais para respaldar a diplomacia brasileira nas negociações climáticas globais.

    O estudo contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além de parceria privada com Bayer e Shell Brasil. O banco de dados completo foi disponibilizado em formato aberto para utilização em futuras pesquisas.

  • Etanol brasileiro pode alcançar emissão negativa de carbono

    Etanol brasileiro pode alcançar emissão negativa de carbono

    Os pesquisadores da Embrapa e Unicamp desenvolveram estudo revolucionário sobre biocombustíveis. A pesquisa demonstra que novas tecnologias podem zerar a pegada de carbono do etanol. Além disso, o processo consegue até mesmo gerar emissões negativas no setor.

    Tecnologias inovadoras transformam setor sucroenergético

    O estudo avaliou duas tecnologias principais para reduzir emissões de carbono. Cientistas analisaram o sistema BECCS e a aplicação de biochar em canaviais. Essas soluções podem ampliar significativamente os benefícios do programa RenovaBio.

    O BECCS captura carbono biogênico emitido durante a produção de etanol. Durante a fermentação, as usinas liberam dióxido de carbono que pode ser capturado. Posteriormente, o CO₂ fica armazenado em formações rochosas subterrâneas de forma permanente.

    A Usina FS já aplica essa tecnologia pioneira no território brasileiro. A iniciativa reforça o papel dos biocombustíveis na economia de baixo carbono. Entretanto, o processo ainda demanda altos investimentos e infraestrutura especializada.

    Biochar melhora solo e sequestra carbono

    O biochar transforma resíduos vegetais em material estável de carbono. Pesquisadores submetem bagaço de cana à pirólise com pouco oxigênio. O resultado é um biocarvão que melhora propriedades físicas do solo.

    Produtores aplicam o material nos canaviais para sequestrar CO₂ por décadas. Cada tonelada de biochar pode capturar até 1,42 toneladas de carbono equivalente. Além disso, o produto atua como corretivo agrícola natural nas lavouras.

    Redução drástica na intensidade de carbono

    Atualmente, o etanol hidratado brasileiro apresenta 32,8 gramas de CO₂ por megajoule. Com BECCS na fermentação, o índice cairia para apenas 10,4 gramas. A aplicação de biochar reduziria as emissões para 15,9 gramas por megajoule.

    Lucas Pereira, pesquisador da Embrapa, explica cenários ainda mais ambiciosos possíveis. “A captura durante a combustão permitiria resultados negativos de -81,3 gramas”, afirma. Isso significa que o etanol removeria mais carbono do que emite.

    Custos elevados limitam adoção das tecnologias

    Nenhuma das 300 usinas certificadas pelo RenovaBio adota essas tecnologias atualmente. Os créditos de descarbonização negociam a cerca de US$ 20 por tonelada. Porém, o BECCS custa entre US$ 100 e US$ 200 por tonelada capturada.

    O biochar apresenta custo médio de US$ 427 por tonelada do produto. Esses valores elevados impedem a implementação em larga escala no momento. Especialistas apontam necessidade de novos mecanismos de incentivo econômico e regulatório.

    Duas frentes de captura de carbono

    Nilza Patrícia Ramos, da Embrapa, destaca duas frentes de aplicação estudadas. A primeira ocorre durante a fermentação alcoólica nas usinas de etanol. A segunda acontece na geração de eletricidade a partir de biomassa.

    “A fermentação emite CO₂ relativamente puro e mais fácil de capturar”, explica. Já a combustão pode gerar emissões negativas em maior escala comercial. Contudo, essa opção enfrenta custos mais altos e desafios de infraestrutura.

    Plantas-piloto já testam armazenamento de carbono em usinas de etanol. Entretanto, nenhuma unidade sucroenergética opera comercialmente com a tecnologia ainda. Especialistas alertam sobre necessidade de mapear formações geológicas adequadas para armazenamento.

    Biochar reduz também outros gases de efeito estufa

    Cristiano Andrade, pesquisador da Embrapa, destaca benefícios adicionais do biochar. O produto reduz emissões de óxido nitroso, gás muito mais potente. Experimentos consideram aplicação entre 1 e 4 toneladas por hectare cultivado.

    A taxa menor é compatível com a rotina atual das usinas. A maior representa o limite viável conforme disponibilidade de resíduos agrícolas. Porém, aplicações excessivas podem afetar negativamente a fertilidade do solo.

    Etanol supera gasolina e compete com elétricos

    Pesquisadores compararam emissões de veículos movidos a etanol, gasolina e eletricidade. Mesmo sem tecnologias de emissão negativa, o etanol apresenta menor intensidade. Com BECCS e biochar, a vantagem ambiental aumenta significativamente em relação.

    Em alguns cenários, o etanol pode superar até veículos elétricos brasileiros. Isso ocorre quando se considera a eletricidade média do sistema nacional. O biocombustível demonstra potencial competitivo frente a todas as alternativas atuais.

    RenovaBio precisa de políticas complementares

    O programa RenovaBio estimula biocombustíveis com baixa emissão de gases estufa. Distribuidoras de combustíveis fósseis adquirem CBIOs para compensar suas emissões. Cada crédito equivale a uma tonelada de CO₂ evitada no ambiente.

    Contudo, o incentivo financeiro atual pode não viabilizar tecnologias de captura. O estudo sugere linhas de financiamento e mercado voluntário de carbono. Nos Estados Unidos, o crédito tributário 45Q remunera até US$ 180/tCO₂.

    Potencial de reduzir 12% das emissões nacionais

    A implementação em larga escala geraria ganhos expressivos para o Brasil. A combinação de tecnologias poderia resultar em 197 milhões de toneladas. Isso equivale a 12% de todas as emissões brasileiras registradas em 2022.

    O cenário mais viável capturaria cerca de 20 milhões de toneladas anualmente. Cada usina certificada sequestraria em média 75 mil toneladas de carbono. Esse volume seria decisivo para cumprimento das metas climáticas brasileiras até 2030.

    O país precisa reduzir emissões líquidas para 1.200 milhões de toneladas. Isso representa 500 milhões a menos que o total emitido em 2022. As tecnologias de emissão negativa acelerariam significativamente esse processo de descarbonização.

    Desafios na coleta de dados agrícolas

    Autores do estudo alertam sobre fragilidades no inventário de dados agrícolas. Usinas ainda apresentam dificuldades para mensurar emissões com precisão total. Isso pode gerar superestimativas ou subestimativas nos cálculos de impacto ambiental.

    A análise de mudanças no uso da terra ainda carece de detalhamento. Esse fator é central para avaliar sustentabilidade real da bioenergia brasileira. Especialistas recomendam aprimoramento urgente dos sistemas de monitoramento e rastreabilidade.

    Brasil pode liderar transição para combustíveis limpos

    O Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol e biodiesel. O país dispõe de infraestrutura agrícola e industrial robusta para expansão. Além disso, políticas consolidadas como RenovaBio oferecem base regulatória sólida.

    O etanol brasileiro já se destaca como combustível de baixo carbono. Com tecnologias de emissão negativa, o país daria salto qualitativo expressivo. Isso colocaria o Brasil na vanguarda da transição energética global atual.

    O biocombustível nacional competiria não apenas com combustíveis fósseis tradicionais. A disputa incluiria também veículos elétricos e hidrogênio verde no mercado. Pesquisadores veem oportunidade única para o agronegócio brasileiro se posicionar estrategicamente.

    Futuro depende de articulação entre setores

    O avanço das tecnologias exige equilíbrio entre inovação e economia sustentável. Mecanismos econômicos precisam tornar o carbono negativo competitivo internacionalmente. Políticas públicas mais ambiciosas são fundamentais para viabilizar os investimentos necessários.

    O futuro do etanol depende menos da disponibilidade técnica das soluções. O desafio central está na capacidade de articular incentivos econômicos eficazes. Somente assim o Brasil transformará o carbono negativo em ativo competitivo.

    Os pesquisadores concluem que o momento é estratégico para o setor sucroenergético. A janela de oportunidade está aberta para liderança brasileira em biocombustíveis avançados. Entretanto, isso requer decisões coordenadas entre governo, setor privado e academia.

  • Laser detecta aumento de carbono em solos agrícolas

    Laser detecta aumento de carbono em solos agrícolas

    Um estudo inédito da Embrapa Instrumentação, em parceria com a Bayer, revelou ganhos expressivos de carbono em solos agrícolas brasileiros. Os pesquisadores usaram técnicas a laser para medir o carbono no solo em fazendas do Cerrado, Mata Atlântica e Pampa.

    No Cerrado, os solos com manejo sustentável, como o plantio direto, armazenaram até 50% mais carbono que áreas nativas. A pesquisa tem impacto direto no combate às mudanças climáticas e fortalece o mercado de créditos de carbono no Brasil.

    Estudo em fazendas comerciais

    Foto: divulgação – Embrapa / Vitor Freitas

    O trabalho seguiu o modelo on-farm, realizado durante a produção de soja, milho e algodão. Foram avaliadas 11 fazendas comerciais nos últimos cinco anos. Em geral, o objetivo foi produzir dados confiáveis em solos tropicais e subtropicais, incentivando sistemas conservacionistas. As ações se alinham ao Plano ABC+ e ao programa PRO Carbono da Bayer.

    Cerrado mostra maior potencial

    O químico Vitor da Silveira Freitas, sob orientação de Ladislau Martin Neto, destacou o ganho de até 250 toneladas por hectare. A média supera os 155 toneladas registradas em vegetação nativa do Cerrado.

    Na Mata Atlântica, a mudança de uso da terra reduziu o carbono. Já no Pampa, os estoques se mantiveram estáveis. Martin Neto afirmou que práticas como plantio direto aumentam a fertilidade, sequestram carbono e trazem retorno econômico ao produtor.

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    Técnicas rápidas e eficazes

    Os cientistas usaram duas técnicas fotônicas. A espectroscopia de plasma induzido por laser (LIBS) quantificou o carbono. Já a fluorescência induzida por laser (LIFS) identificou a origem do material orgânico. Segundo a pesquisadora Débora Milori, a técnica LIBS substitui o método internacional CHN com menor custo e mais rapidez.

    A empresa Agrorobótica, spin-off da Embrapa, já oferece a tecnologia no mercado. A certificadora Verra reconhece o método no mercado voluntário de carbono.

    Impacto no agro brasileiro

    Adriano Anselmi, líder técnico da Bayer, afirmou que mensurar o carbono com métricas confiáveis apoia a mitigação dos gases de efeito estufa. Ele ressaltou a importância do monitoramento, relato e verificação (MRV) com ferramentas digitais como Connecta Procarbono e Climate Fieldview.

    Martin Neto explicou que a matéria orgânica do solo (MOS) é sensível ao uso da terra. Sua redução pode comprometer a saúde e a produtividade do solo. Por outro lado, a restauração da MOS melhora a fertilidade, aumenta a retenção de água e amplia a produtividade agrícola.

    Futuro do agro sustentável

    Os pesquisadores concluíram que o uso combinado de técnicas fotônicas traz rapidez, precisão e custo menor para medir carbono. Para Martin Neto, manter e ampliar a MOS é essencial.
    Mais de 90% da produção agropecuária brasileira depende da chuva, o que torna urgente a adoção de práticas regenerativas.

     

  • Sistemas integrados aumentam carbono no solo e produtividade

    Sistemas integrados aumentam carbono no solo e produtividade

    A Embrapa Meio-Norte avaliou sistemas agrícolas no Matopiba. A região inclui áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Os pesquisadores compararam diferentes formas de uso do solo. Eles analisaram carbono, nitrogênio e qualidade física do solo.

    Sistemas integrados lideram no armazenamento de carbono

    ILP e pastagens mantiveram mais carbono em todas as camadas. ILPF e Cerrado nativo mostraram os menores estoques. Além disso, esses sistemas também elevaram o teor de substâncias húmicas. Em geral, essas substâncias melhoram a fertilidade e a estrutura do solo.

    Manejo adequado é chave para aumentar o carbono

    Edvaldo Sagrilo, da Embrapa, destacou a importância do manejo. Ele afirma: “Sem bom manejo, o ganho não acontece”. Portanto, boas práticas melhoram a retenção de carbono e nitrogênio.

    Vantagens vão além da produtividade nas lavouras

    Com mais carbono, o solo se torna mais fértil e produtivo. Além disso, os sistemas reduzem perdas de fertilizantes. Isso significa menos impacto ambiental e menor custo. Outra vantagem: menor emissão de gases do efeito estufa. Isso contribui para mitigar o aquecimento global.

    Carbono no solo pode virar crédito ambiental

    Com o avanço do mercado de carbono, o produtor pode lucrar. Mais carbono no solo poderá gerar créditos ambientais no futuro. Sagrilo lembra: “A sociedade também se beneficia com isso”.

    Estudo avaliou áreas em São Raimundo das Mangabeiras (MA)

    Os cientistas escolheram áreas com clima e solo similares. Eles compararam Cerrado, ILPF, ILP e pastagem.
    Amostraram o solo em quatro profundidades diferentes.

    Carbono aumentou até 108% nos sistemas conservacionistas

    ILP com plantio direto teve alta de 84% no carbono. ILP com aração subiu 108%; pastagem teve ganho de 66%.
    Resultados indicam sucesso dos sistemas a longo prazo.

    Produtor do Maranhão comprova vantagens no campo

    Fernando Devicari implantou ILP há 15 anos em Brejo (MA). Ele também adotou ILPF há nove anos na propriedade. Segundo ele, a matéria orgânica do solo dobrou no período.

    A produção de soja também aumentou com a melhoria do solo. Ele colhe 7,8 sacas a mais por hectare em áreas com ILP.

    Resultados podem se repetir em outras áreas do Cerrado

    Sagrilo diz que estudos em outras regiões mostram a mesma tendência. A integração lavoura-pecuária melhora produção e sustentabilidade. Esses modelos superam os sistemas convencionais em resultados.

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  • Cafezais das Matas de Rondônia sequestram 2,3 vezes mais carbono do que emitem

    Cafezais das Matas de Rondônia sequestram 2,3 vezes mais carbono do que emitem

    Um estudo inédito realizado nas Matas de Rondônia revela que a cafeicultura familiar praticada na região apresenta um balanço de carbono altamente positivo. As plantações de Café Robusta Amazônico, uma variedade local do Coffea canephora, sequestram em média 2,3 vezes mais carbono da atmosfera do que emitem durante o processo produtivo anual.

    Segundo a pesquisa, o saldo anual de carbono chega a 3.883,3 kg por hectare, equivalente a cerca de 4 toneladas ao ano. Esse resultado é obtido pela diferença entre o carbono estocado na biomassa das plantas (6.874,8 kg) e as emissões de gases de efeito estufa (GEE) geradas na produção (2.991,5 kg). O estudo, por seu pioneirismo, poderá servir de referência para futuras pesquisas e para a criação de linhas de crédito de carbono.

    Emissão de carbono

    Além disso, foi desenvolvida uma planilha de cálculos de emissão de carbono para uso dos agricultores locais, permitindo que avaliem o status atual de emissões em seus sistemas de cultivo, considerando critérios como irrigação e uso de fertilizantes.

    Os resultados da pesquisa da Embrapa estão sendo apresentados no Rondônia Rural Show Internacional, realizado de 26 a 31 de maio em Ji-Paraná (RO), a maior feira de agronegócios da Região Norte. O evento promove a integração entre ciência e setor produtivo e oferece aos produtores a oportunidade de testar a nova planilha e simular as emissões de seus cultivos.

    Iniciativa resultou ainda na criação de uma planilha de cálculos da emissão de carbono, que poderá ser testada por agricultores locais no Rondônia Rural Show Internacional. Foto: Enrique Alves/Embrapa

    Juan Travian, presidente da Cafeicultores Associados da Região das Matas de Rondônia (Caferon), destaca: “O estudo comprova a sustentabilidade da cafeicultura praticada no bioma Amazônia. Para nós, é importantíssimo mostrar ao mundo, por meio da ciência, que a produção de café na Amazônia é sustentável”. Oberdan Pandolfi Ermita, presidente do Conselho de Administração do Sicoob Credip, ressalta que a monetização do carbono é um mercado emergente e que o estudo da Embrapa capta as especificidades do Café Robusta Amazônico, considerando as condições fitoclimáticas da região.

    Projeto será destaque na COP30

    O projeto com os Cafés Robustas Amazônicos foi selecionado para ser apresentado na vitrine viva do Espaço AgriZone, durante a COP30, que ocorre de 10 a 21 de novembro em Belém, na sede da Embrapa Amazônia Oriental. A iniciativa integra a série Jornada pelo Clima, da Agência Embrapa de Notícias, que destaca ações e tecnologias para a sustentabilidade dos sistemas agroalimentares, alinhadas aos temas da COP30.

    O pesquisador Carlos Cesar Ronquim, da Embrapa Territorial, líder do estudo, explica que o cafeeiro, por ser uma planta lenhosa, tem alta capacidade de armazenar carbono por longos períodos. Ele observa, porém, que o carbono sequestrado retorna à atmosfera quando a lavoura é renovada ou desativada, mas ressalta que o uso dessas plantas como substitutas de combustíveis fósseis pode contribuir para um balanço ainda mais positivo.

    O estudo envolveu a análise de 150 cafeeiros adultos em dez propriedades rurais de cinco municípios, mostrando que o tronco concentra 36,4% do carbono, seguido por raízes (24,3%), folhas (23,8%), galhos (10,1%) e frutos (5,4%). O pesquisador Enrique Alves, da Embrapa Rondônia, destaca que muitos produtores substituem parte dos fertilizantes químicos por fontes orgânicas, como cama de frango e palha de café, o que favorece o acúmulo de carbono no solo e reduz as emissões de GEE.

    O cálculo do balanço de carbono ainda não considera o estoque de carbono no solo, o que pode tornar os resultados futuros ainda mais favoráveis, especialmente em áreas que antes eram pastagens degradadas.

    Pegada de carbono da cafeicultura de Rondônia

    O levantamento das emissões foi realizado em 250 propriedades de 15 municípios, mapeando fontes como uso de calcário, fertilizantes, combustíveis fósseis e energia elétrica. A pegada de carbono média registrada foi de 0,84 kg de CO₂ equivalente por kg de café verde produzido, colocando o Café Robusta da Amazônia em posição favorável em relação à média global, especialmente quando comparado a cultivos tradicionais a pleno sol.

    Cerca de 80% da pegada de carbono é atribuída ao uso de fertilizantes nitrogenados sintéticos. O impacto pode ser mitigado com práticas como uso de adubos orgânicos, consórcio com leguminosas e uso racional de insumos.

    A cafeicultura bem manejada, com estratégias de mitigação e uso eficiente de recursos, contribui para a agricultura de baixo carbono. Práticas regenerativas, como manejo de cobertura do solo, sistemas agroflorestais, adubação orgânica e fertirrigação, além da seleção de materiais genéticos mais produtivos e resilientes, são destaque na modernização do setor.

    Agricultura familiar e protagonismo nacional

    Rondônia é responsável por 87% da produção de café no bioma Amazônia na safra de 2024, sendo a quinta maior produção nacional e a segunda maior da espécie Coffea canephora. O cultivo do robusta amazônico envolve cerca de 17 mil produtores, majoritariamente agricultores familiares. Dos 37 mil imóveis rurais registrados na região, menos de nove mil produzem café, e 95% dessas propriedades são familiares, com média de 3,5 hectares cultivados por produtor.

    “Como são cultivados em pequenas propriedades familiares, muitos dos manejos dos robustas amazônicos – como a colheita – são realizados manualmente, o que contribui para a redução das emissões de GEE relacionadas ao uso de combustíveis fósseis”, afirma o líder do projeto.

    A adoção de novas tecnologias e práticas sustentáveis tem impulsionado a produtividade e reduzido a área plantada, consolidando Rondônia como referência em cafeicultura sustentável na Amazônia.

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  • Cecafé discute resultados da cafeicultura regenerativa no Brasil

    Cecafé discute resultados da cafeicultura regenerativa no Brasil

    O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) participou de uma reunião técnica em Campinas (SP). O encontro integrou as ações do Grupo de Trabalho Brasil (GTB), da Plataforma Global do Café (GCP). Pesquisadores, técnicos e representantes da cadeia do café debateram práticas da agricultura regenerativa. Eles discutiram formas de monitorar os impactos no campo e avaliar os resultados.

    Indicadores de performance

    Durante o encontro, os especialistas analisaram indicadores de performance aplicáveis à cafeicultura regenerativa. Em geral, a proposta abrange quatro áreas principais: água, biodiversidade, solo e ambiente facilitador.

    A diretora de Responsabilidade Social e Sustentabilidade do Cecafé, Silvia Pizzol, destacou a relevância das contribuições. Segundo ela, a equipe da GCP Brasil vai consolidar as sugestões do grupo. “Os próximos encontros devem buscar o equilíbrio entre inovação e escalabilidade no campo”, afirmou Silvia. Ela ressaltou a importância das práticas regenerativas para a resiliência da cafeicultura brasileira. “Muitas dessas ações já ocorrem nas lavouras e têm alto potencial de expansão”, pontuou.

    Essas técnicas aumentam os serviços ecossistêmicos e reduzem impactos climáticos na produção de café. O Cecafé já comprovou os benefícios em estudos científicos. As pesquisas contaram com coordenação do professor Carlos Cerri, da Esalq/USP, e do Imaflora. Os estudos mediram a adicionalidade de carbono com base em práticas regenerativas.

    Entre as ações observadas estão o uso de matéria orgânica, cobertura vegetal no solo e insumos biológicos. Em resumo, todas favorecem a biodiversidade e reduzem emissões.

    Resultados no campo

    Em Minas Gerais, os resultados indicaram sequestro de 10,5 toneladas de CO₂ equivalente por hectare ao ano. Isso ocorreu com a adoção das práticas sustentáveis no cultivo de café arábica.

    No Espírito Santo, os ganhos foram ainda maiores na cafeicultura de conilon. O balanço de carbono passou de -3,01 para -8,24 tCO₂eq/ha/ano, no comparativo entre manejo convencional e regenerativo.

    Esses dados reforçam o papel da agricultura regenerativa na mitigação climática e sustentabilidade da cadeia do café no Brasil.

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