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  • “Bolsa pirarucu”: entenda quem pode receber o benefício

    “Bolsa pirarucu”: entenda quem pode receber o benefício

    A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) começou a receber, nesta terça-feira (4), as notas fiscais e demais documentos necessários para o pagamento do Programa de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) da Sociobiodiversidade, voltado ao manejo comunitário do pirarucu (Arapaima gigas) no Amazonas. As associações, cooperativas, colônias de pescadores e manejadores e manejadoras interessados têm até 30 de setembro para enviar a documentação pelo sistema SociobioNet.

    O PSA Pirarucu remunera instituições e trabalhadores habilitados na Chamada Pública nº 01/2026 que mantêm os estoques naturais da espécie e conservam ecossistemas aquáticos em áreas protegidas da Amazônia. Além de enviar a documentação exigida no edital, as instituições precisam manter o cadastro ativo no Sistema de Cadastro Nacional de Produtores Rurais e Demais Agentes (Sican) da Conab.

    Como funciona o envio pelo SociobioNet

    Os interessados devem instalar o sistema SociobioNet, desenvolvido pela própria Conab, em um computador. O processo dispensa login ou autenticação prévia, já que os dados pessoais são preenchidos diretamente no formulário. Depois de baixar o sistema, o usuário consegue preencher os dados e inserir as notas fiscais offline. Apenas a transmissão final dos documentos para a Conab exige conexão com a internet.

    O PSA Pirarucu reconhece e paga por cinco frentes de trabalho realizadas pelos manejadores:

    • o planejamento participativo anual do manejo
    • o zoneamento de lagos e ambientes aquáticos
    • a contagem e o monitoramento dos estoques da espécie
    • a vigilância comunitária ambiental e territorial
    • e a pesca controlada seguida de comercialização formal.

    Por que o manejo do pirarucu importa para a Amazônia

    O pirarucu é o maior peixe de escamas de água doce do mundo, podendo atingir até 4,5 metros de comprimento e pesar 200 quilos, e chegou a ficar ameaçado de extinção por causa da pesca predatória. O modelo de manejo comunitário, iniciado em 1999 em uma comunidade da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, reverteu esse quadro e hoje é considerado um dos grandes sucessos da conservação da biodiversidade no Brasil, com a metodologia envolvendo contagem de estoques, proteção de áreas de reprodução e limite de captura. Ou seja, não mais que 30% da população de pirarucus adultos por comunidade.

    Foto: Divulgação/IDSM

    Passadas mais de duas décadas, a prática já envolve mais de 1.300 famílias em 25 municípios do Amazonas. E se espalhou por 32 áreas entre unidades de conservação, terras indígenas e áreas de acordo de pesca. Além do impacto ambiental, o manejo tem gerado renda e fortalecido a organização comunitária. Em Carauari, por exemplo, a cadeia produtiva do pirarucu já alcança diretamente mais de 1 mil manejadores e manejadoras em 47 comunidades, com participação crescente de mulheres em etapas como beneficiamento e comercialização.

    Sobre o Programa

    O PSA Pirarucu resulta da atuação conjunta do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), da Conab, do Ibama e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com participação de manejadores, organizações comunitárias e parceiros que atuam na cadeia do pirarucu no Amazonas.

    O programa integra o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). E tem entre suas missões reconhecer o protagonismo de povos indígenas, comunidades tradicionais, pescadores e agricultores familiares na conservação e no manejo sustentável da biodiversidade. O SociobioNet está disponível na página da Conab.

  • Peixeiro fisga jaú de 68kg e afirma: “Não é história de pescador”

    Peixeiro fisga jaú de 68kg e afirma: “Não é história de pescador”

    Um grupo de pescadores viveu uma experiência única, e quase inacreditável, ao capturar um jaú de 68 quilos durante uma pescaria esportiva no Rio Acre. As imagens do peixe gigante chamaram atenção pelo porte do animal, considerado um dos maiores peixes de água doce da América do Sul.

    A pescaria reuniu Rose, Rojaiso, Márcio e Tiba. Para chegar ao local escolhido, eles percorreram aproximadamente quatro horas de canoa até uma praia às margens do Rio Acre, onde permaneceram por dois dias em busca de grandes exemplares.

    Peixe gigante

    Após retirar o peixe da água e registrar o momento em fotografias, os pescadores celebraram a conquista e destacaram a abundância de espécies encontrada na região.

    “O Rio Acre é abençoado e temos fartura de peixes. Podemos dizer que não é história de pescador”, afirmou Tiba.

    “Assim é a vida de quem vive da pesca e dos ribeirinhos deste rio, que possui muitas riquezas naturais” — (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

    Mesmo com o Rio Acre apresentando nível abaixo do normal em alguns trechos, o grupo afirmou que ainda existem pontos favoráveis para a prática da pesca esportiva.

    O Rio Acre nasce no Peru, atravessa o estado do Acre e deságua no Rio Purus, um dos principais afluentes do Rio Amazonas.

    Conheça o jaú

    O jaú (Zungaro jahu) é uma das maiores espécies de peixes de água doce da América do Sul. Ele ocorre em importantes bacias hidrográficas, como as dos rios Amazonas, Paraná e Paraguai.

    A espécie pode ultrapassar 1,5 metro de comprimento e alcançar mais de 100 quilos, sendo considerada um dos peixes mais cobiçados pelos praticantes da pesca esportiva devido ao tamanho e à força durante a captura.

    Seu corpo robusto, a cabeça larga e a grande resistência fazem do jaú um verdadeiro símbolo dos grandes rios brasileiros.

  • Manejo do pirarucu avança no Amazonas

    Manejo do pirarucu avança no Amazonas

    Uma série de eventos realizados em Manaus ao longo de maio reuniu representantes do governo, academia e comunidades para avançar no manejo sustentável do pirarucu (Arapaima gigas) no Amazonas. As discussões contaram com a participação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e tiveram como principal objetivo fortalecer e institucionalizar as políticas voltadas à espécie.

    Encontros buscaram institucionalizar as tratativas referentes ao manejo da espécie. Foto: Divulgação/Ibama

    Como resultado direto das articulações, o Ibama estruturou o Comitê Técnico Permanente do Programa Arapaima. O grupo, formado por 15 instituições, promoveu sua segunda reunião neste mês e definiu prioridades como planejamento estratégico, análise dos resultados do último semestre e o georreferenciamento das áreas de manejo no estado.

    Outro destaque foi o avanço do Sistema Arapaima de Rastreabilidade, ferramenta desenvolvida pelo Ibama e atualmente em fase de testes. A iniciativa busca organizar e garantir a rastreabilidade da cadeia produtiva do pirarucu, incluindo carne, pele e couro provenientes de manejo sustentável.

    Pagamento por serviços ambientais entra na pauta

    Os eventos também discutiram a implementação do Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA Pirarucu), instituído pela Chamada Pública MMA/CONAB nº 01/2026. O programa prevê remuneração aos manejadores que atuam na conservação da espécie.

    O Ibama mantém papel central no processo, ao monitorar o manejo e definir as cotas anuais de captura. Até 15 de junho, o órgão deve consolidar dados enviados pelas áreas de manejo, incluindo número de lagos monitorados, quantidade de peixes contabilizados e associações envolvidas na atividade. Com base nessas informações, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) calculará os pagamentos aos manejadores.

    Orientação técnica e apoio às comunidades

    Durante a programação, o Ibama apresentou as exigências legais do manejo do pirarucu e traçou um panorama da pesca em 2025. A equipe também realizou cerca de 60 atendimentos individuais a comunitários, com foco em organização social, fiscalização, vigilância e associativismo.

    Além disso, técnicos atualizaram as coordenadas geográficas das áreas de manejo no Amazonas, reforçando o controle e a gestão territorial da atividade.

  • Filhote de onça-pintada resgatado no Amazonas segue para reabilitação

    Filhote de onça-pintada resgatado no Amazonas segue para reabilitação

    O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) transferiu no dia 7 de maio um filhote de onça-pintada (Panthera onca) do Amazonas para o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) em Brasília (DF). O animal, resgatado na zona rural de Itacoatiara (AM), permanecerá em quarentena e passará por novas avaliações clínicas e comportamentais. O objetivo é verificar se ele reúne condições para uma futura soltura na natureza.

    Moradores da região, a Superintendência do Ibama no Amazonas, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Itacoatiara, o Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs) e a companhia aérea Latam atuaram em conjunto no resgate, recuperação inicial e transporte do felino.

    A secretaria municipal prestou os primeiros atendimentos ao animal, oferecendo alimentação e hidratação emergenciais antes de enviá-lo para Manaus.

    Quando chegou ao Cetas Manaus, uma equipe técnica do Ibama, junto com profissionais do Zoológico do Cigs (Exército Brasileiro), realizou exames clínicos. Os testes revelaram que se tratava de um macho. Ele apresentava desidratação, baixo peso corporal, proeminência óssea acentuada e miíase (infestação por larvas) na pata traseira esquerda. A equipe também coletou amostras de sangue, fez exames laboratoriais e avaliação radiográfica.

    Melhora

    O Zoológico do Cigs assumiu os cuidados especializados do filhote. Durante o acompanhamento, o animal recuperou-se progressivamente: seu peso subiu de 8 kg para 22 kg.

    Equipe envolvida na operação de traslado do animal . Foto: Divulgação/Ibama

    A Latam forneceu o apoio logístico para a transferência aérea a Brasília. No Cetas Brasília, uma equipe do Ibama dará continuidade ao monitoramento clínico e comportamental da onça-pintada. Os técnicos avaliarão se o animal pode integrar um programa de reabilitação que permita sua futura soltura em ambiente natural, desde que as condições clínicas e comportamentais se mostrem adequadas.

  • Sem crédito, sem escala: a solução que muda a produção de borracha na Amazônia

    Sem crédito, sem escala: a solução que muda a produção de borracha na Amazônia

    A cadeia da borracha na Amazônia sempre esbarrou nos mesmos obstáculos. Falta crédito, sobra incerteza, e a produção acaba ficando aquém do potencial. Agora, um arranjo que avança no interior do Amazonas começa a mexer nessa lógica e chama atenção pelos resultados recentes.

    Presente em cinco municípios, Manicoré, Eirunepé, Pauini, Barcelos e Canutama, o chamado Arranjo da Borracha ganhou tração nos últimos ciclos e vem se consolidando como uma alternativa prática para estruturar a sociobioeconomia na região.

    Crescimento que chama atenção

    Entre as safras 2022/2023 e 2024/2025, o número de negócios comunitários envolvidos subiu de sete para onze. Esse avanço não ficou só no papel. Na safra mais recente, o arranjo movimentou cerca de R$ 3,1 milhões e beneficiou diretamente 636 famílias extrativistas.

    Na prática, isso significa mais previsibilidade de renda em um setor historicamente marcado por instabilidade. Além disso, indica que a organização coletiva começa a reduzir um problema crônico da região: a dificuldade de acessar mercados de forma consistente.

    O crédito que muda o jogo

    O ponto central do modelo está no chamado crédito educativo. Diferente de linhas tradicionais, ele está vinculado a contratos de venda. Assim, as associações conseguem capital de giro antes da entrega da produção.

    Isso resolve gargalos antigos. Entre eles, a falta de escala, os custos logísticos elevados e, principalmente, a ausência de previsibilidade. Com o financiamento alinhado à comercialização, o risco diminui e o planejamento melhora.

    A Conexsus lidera essa estrutura, oferecendo o crédito a custo zero e articulando parceiros que entram com capital para reduzir riscos e sustentar a operação.

    Um dos mecanismos mais relevantes do arranjo é o uso da conta escrow. Nela, o comprador deposita o pagamento da produção, mas o dinheiro só é liberado conforme as condições acordadas previamente.

    Esse detalhe técnico faz diferença. Ele aumenta a transparência, reduz conflitos e cria um ambiente mais seguro para ambos os lados. Para o produtor, significa menos risco de inadimplência. Para o comprador, maior controle sobre a entrega.

    Mais do que financiamento

    O modelo não se limita ao crédito. Ele inclui capacitação em gestão, protocolos comerciais e adequação a padrões de mercado, como rastreabilidade e indicadores socioambientais.

    Na safra 2025/2026, o arranjo avançou mais um passo com a implementação de um protocolo de gestão que permite liberar recursos conforme a demanda de cada negócio comunitário. Os repasses ocorrem entre agosto e dezembro, acompanhando o ritmo produtivo local.

    Esse processo é monitorado pelo programa Veredas, que acompanha o uso dos recursos e reforça a sustentabilidade das operações.

    Um sinal para a sociobioeconomia

    Ao conectar conhecimento tradicional com exigências de mercado, o Arranjo da Borracha reposiciona uma cadeia histórica da Amazônia. Mais do que aumentar a produção, ele reorganiza a forma como o valor circula.

    Pedro Frizo, diretor da Conexsus, resume o impacto: “Entendemos o Arranjo da Borracha como caso exemplar de conexão entre negócios comunitários e empresas compradoras, onde o crédito educativo, acompanhado de assistência técnica e financeira, têm o potencial de fortalecer as organizações e expandir significativamente a sua capacidade de geração de renda.”

    O que está em jogo vai além da borracha. O modelo começa a mostrar que, quando crédito, mercado e organização caminham juntos, até cadeias consideradas estagnadas podem ganhar novo fôlego.

  • Onça-pintada: o olhar feroz que parou a internet

    Onça-pintada: o olhar feroz que parou a internet

    Uma foto, uma onça e um confronto de olhares que ninguém esperava. Uma imagem registrada no Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva, o CIGS, em Manaus, viralizou ao mostrar uma onça-pintada encarando diretamente a câmera, com a intensidade fria de quem sabe exatamente o que está fazendo. O registro correu as redes, acumulou compartilhamentos e abriu uma janela rara para o mundo de um dos predadores mais poderosos das Américas.

    Afinal, não é todo dia que um animal assim olha de volta.

    https://www.instagram.com/p/DXWrvuWksd5/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

    Quem é Mura, a onça do CIGS

    Por trás do olhar que impressionou tanta gente há uma história que começa pequena, literalmente. Mura é uma fêmea e nasceu em 1º de junho de 2022 dentro do zoológico do CIGS, uma data simbólica por coincidir com o Dia do Guerreiro de Selva. Filha de Pituca e Máximus, ela chegou ao mundo pesando cerca de 300 gramas. Hoje, já adulta, ultrapassa os 75 quilos.

    Durante os primeiros cinco meses de vida, Mura foi amamentada de forma espontânea pela mãe. Atualmente, sua dieta inclui carne bovina, suína, frango, pescado e carnes de caça, respeitando os padrões nutricionais estabelecidos para a sua espécie. Ela segue no recinto ao lado da mãe e apresenta crescimento saudável, segundo o próprio CIGS.

    O nascimento de Mura, aliás, marcou história no zoológico. A reprodução da onça-pintada em cativeiro é considerada um evento raro. “O nascimento de Mura foi o primeiro registrado no zoológico do CIGS, o que evidencia as condições favoráveis do local para a preservação da espécie,” informou a equipe do centro.

    Um felino que não tem medo de câmera

    Nas imagens que circulam pelas redes sociais, a onça revela um lado descontraído, nadando e interagindo com os visitantes. Seus giros na água e olhares conquistaram o público, rendendo comentários bem-humorados. Entre os mais compartilhados, um usuário escreveu: “Minha namorada se fingindo de fofa.” Outro arriscou: “Bota a mão, mana, ela não morde.”

    Embora o flagrante seja raro, o comportamento é comum entre as onças-pintadas, conhecidas por sua afinidade com a água. Diferente de outros felinos que evitam se molhar, esse predador é um nadador excepcional. No Pantanal, a água faz parte da estratégia de caça. No CIGS, serve para se refrescar e, aparentemente, para virar estrela das redes sociais.

    O zoológico que poucos conhecem

    O CIGS não é um zoológico qualquer. Criado e administrado pelo Exército Brasileiro, abriu suas portas ao público em 1967 e, em 2014, foi classificado entre os 25 melhores zoológicos e aquários da América do Sul, conquistando o prêmio Travelers’ Choice. Fica na zona oeste de Manaus, no bairro São Jorge, em meio a mata fechada.

    Administrado pela Divisão de Veterinária do CIGS, o zoológico também promove atividades de pesquisa e acolhimento de animais, reforçando seu compromisso com a preservação da floresta e suas espécies. Além das onças, o espaço abriga araras-azuis, gaviões-reais, macacos-prego e dezenas de outras espécies da fauna amazônica. Os felinos podem ser observados no seu habitat natural do alto de uma passarela de concreto, o que garante uma experiência de observação sem colocar visitantes nem animais em risco.

    O que esse olhar diz sobre a conservação?

    Há algo perturbador e necessário nessa foto. A onça-pintada está na lista de espécies vulneráveis no Brasil. O animal precisa de grande extensão de selva para sobreviver e vive ameaçado pela caça predatória, pelas queimadas e pelo desmatamento da floresta. Na Amazônia, onde o desmatamento avança e os corredores ecológicos encolhem, a presença de um zoológico com programa de reprodução ativa faz diferença concreta.

    Mura nasceu em cativeiro, cresceu na selva urbana de Manaus e hoje protagoniza um dos registros mais virais da fauna brasileira. “O vídeo de sua interação com a água reforça a importância da conservação da espécie e da educação ambiental promovida pelo zoológico,” destacou o CIGS.

    Às vezes, um olhar diz o que nenhum relatório consegue. O de Mura diz: estou aqui. Por enquanto.

  • Ibama multa empresas cosméticas e farmacêuticas por uso irregular de saberes indígenas

    Ibama multa empresas cosméticas e farmacêuticas por uso irregular de saberes indígenas

    O Ibama multou empresas cosméticas e farmacêuticas em R$ 2,2 milhões por explorar ilegalmente conhecimentos tradicionais de povos indígenas e comunidades tradicionais sobre o uso da biodiversidade. A Operação Guardiões da Biodiversidade, iniciada em março, fiscalizou 47 empresas em 12 estados e resultou em 51 autos de infração.

    Agentes do Ibama verificam estoque de insumos de indústria cosmética. Foto: Divulgação/Ibama

    Os agentes ambientais atuaram no Amazonas, Amapá, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Fabricantes de pigmentos, saneantes e fitoterápicos estão entre os estabelecimentos notificados para se regularizar perante a Lei da Biodiversidade.

    “O foco da operação foi o desenvolvimento irregular de produtos cosméticos e farmacêuticos que utilizaram conhecimento tradicional de povos indígenas e comunidades tradicionais sobre o uso da biodiversidade, sem o devido consentimento prévio informado”, explicou Igor de Brito, coordenador de Fiscalização da Biodiversidade do Ibama.

    O que as empresas fizeram de errado

    As empresas autuadas acessaram conhecimento tradicional de origem identificável sem obter consentimento prévio informado. E deixaram de indicar a origem desse conhecimento em explorações econômicas ou pedidos de patentes. São condutas previstas nos artigos 83 e 84 do Decreto nº 8.772/2016.

    Entre os conhecimentos acessados irregularmente estão aqueles sobre o uso tradicional de espécies nativas como o urucum (Bixa orelana), a aroeira (Schinus terebinthifolia), o jagube (Banisteriopsis caapi) e a chacrona (Psychotria viridis).

    Outras infrações incluíram a exploração econômica de produtos acabados sem notificação prévia ao SisGen, o Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado. As multas previstas pelo Decreto nº 8.772/2016 variam de R$ 1 mil a R$ 10 milhões. Isso conforme a gravidade da conduta e a capacidade econômica do infrator.

    Por que essa lei existe

    O agente ambiental federal Isaque Siqueira, coordenador nacional da operação, destaca que a legislação reconhece formalmente povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares como guardiões da biodiversidade e de saberes ancestrais que impulsionam a inovação científica e industrial.

    “Ao garantir o direito de participação desses grupos na tomada de decisões e ao condicionar o acesso aos seus conhecimentos à obtenção de consentimento prévio informado, a lei protege sua integridade cultural e assegura que os lucros gerados retornem em forma de desenvolvimento sustentável”, afirmou Siqueira.

    Para as comunidades detentoras do conhecimento, o cumprimento das normas representa proteção contra a exploração indevida. E uma oportunidade de protagonismo na celebração de acordos que valorizam seus modos de vida e garantem recursos para a manutenção de seus territórios.

    O que diz a legislação

    A Lei da Biodiversidade (Lei nº 13.123/2015), referência internacional entre os países signatários da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), estabelece o marco regulatório nacional para o acesso e uso do patrimônio genético e do conhecimento tradicional associado no Brasil.

    Entre as principais obrigações para pesquisadores e indústrias estão o cadastro obrigatório de todas as atividades de acesso no SisGen e a notificação prévia à comercialização de produtos desenvolvidos a partir desses recursos.

    Empresas de médio e grande porte também devem repartir parte da receita gerada com a exploração econômica da biodiversidade. Esses recursos vão ao Fundo Nacional de Repartição de Benefícios (FNRB), que os aplica na conservação ambiental e na proteção do conhecimento tradicional.

    Nos casos em que a origem do conhecimento é identificável, a lei exige ainda a celebração de acordos específicos de repartição de benefícios, em formato monetário ou não monetário, diretamente com os detentores desses saberes, salvo exceções previstas na norma.

  • Amazonas confirma três casos de doença ligada ao consumo de pacu

    Amazonas confirma três casos de doença ligada ao consumo de pacu

    º casoA Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) divulgou nesta semana o Boletim Epidemiológico que analisa os casos de rabdomiólise por Doença de Haff registrados no estado em 2025. O documento confirma três casos da doença entre nove notificações de rabdomiólise distribuídas em três municípios amazonenses.

    Itacoatiara concentra os três casos confirmados, todos em moradores da zona urbana. A doença atingiu dois pacientes em junho e um em dezembro, sendo que dois deles pertenciam à mesma família.

    Consumo de pacu relacionado aos casos

    As investigações apontam que todos os pacientes consumiram pacu antes de desenvolverem os sintomas. Os afetados prepararam o pescado principalmente frito ou assado e o ingeriram em ambiente domiciliar.

    “Em todos os casos compatíveis, houve relato do consumo de pacu, preparado principalmente de forma frita ou assada e ingerido no ambiente domiciliar”, explicou Roberta Danielli, coordenadora do Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde do Amazonas (Cievs-AM).

    Sintomas e características clínicas

    Os pacientes apresentaram principalmente fraqueza muscular, dores intensas nos músculos e urina escura. Os exames laboratoriais detectaram níveis elevados da enzima creatinofosfoquinase (CPK), com valor médio de 6.400 µ/L. Os sintomas surgiram cerca de nove horas após o consumo do pescado, segundo a investigação epidemiológica.

    A diretora-presidente da FVS-RCP, Tatyana Amorim, enfatizou a necessidade de vigilância contínua, mesmo diante do número reduzido de casos. “A Doença de Haff exige atenção permanente, pois está associada ao consumo de pescado, um alimento amplamente consumido pela população amazonense. A vigilância ativa é norteadora para proteger a saúde da população e orientar medidas de prevenção”, afirmou.

    A FVS-RCP conduziu todas as investigações em parceria com as vigilâncias municipais. O órgão disponibiliza o Boletim Epidemiológico completo – Situação Epidemiológica da Rabdomiólise por Doença de Haff no Estado do Amazonas para consulta no site www.fvs.am.gov.br.

     1º Caso: junho/2025 – Itacoatiara

    • Localização: Zona urbana de Itacoatiara
    • Vínculo familiar: Faz parte de um grupo familiar (dois casos da mesma família)
    • Período de incubação: Aproximadamente 9 horas após consumo do pescado
    • Alimento relacionado: Pacu (preparado frito ou assado)
    • Sintomas: Fraqueza muscular, dores musculares intensas, urina escura
    • Indicadores laboratoriais: CPK elevada (contribuiu para média de 6.400 µ/L)
    • Local de consumo: Ambiente domiciliar

    2º Caso: junho/2025 – Itacoatiara

    • Localização: Zona urbana de Itacoatiara
    • Vínculo familiar: Membro da mesma família do Caso 1
    • Período de incubação: Aproximadamente 9 horas após consumo do pescado
    • Alimento relacionado: Pacu (preparado frito ou assado)
    • Sintomas: Fraqueza muscular, dores musculares intensas, urina escura
    • Indicadores laboratoriais: CPK elevada (contribuiu para média de 6.400 µ/L)
    • Local de consumo: Ambiente domiciliar (possivelmente a mesma refeição do Caso 1)

    3º Caso: dezembro/2025 – Itacoatiara

    • Localização: Zona urbana de Itacoatiara
    • Vínculo familiar: Sem relação familiar com os casos anteriores
    • Período de incubação: Aproximadamente 9 horas após consumo do pescado
    • Alimento relacionado: Pacu (preparado frito ou assado)
    • Sintomas: Fraqueza muscular, dores musculares intensas, urina escura
    • Indicadores laboratoriais: CPK elevada (contribuiu para média de 6.400 µ/L)
    • Local de consumo: Ambiente domiciliar

    O fato de dois casos ocorrerem na mesma família sugere exposição comum à mesma fonte de contaminação (provavelmente o mesmo lote de pescado ou a mesma refeição). A ocorrência isolada em dezembro indica que o problema pode estar relacionado a lotes específicos de pescado contaminado, e não a uma contaminação generalizada.

  • Como a ciência quer salvar o pau-rosa na Amazônia

    Como a ciência quer salvar o pau-rosa na Amazônia

    A Embrapa Amazônia Ocidental desenvolve uma pesquisa que pode transformar o futuro do pau-rosa (Aniba rosaeodora) na região amazônica. O projeto trabalha para superar os principais entraves que impedem o cultivo comercial desta árvore nativa, historicamente explorada de forma predatória.

    Foto: Maria José Tupinambá/Embrapa

    A espécie concentra alto valor econômico em seu óleo essencial, rico em linalol — composto que as indústrias de cosméticos e perfumaria fina utilizam amplamente. No entanto, a produção despencou nas últimas décadas: de 500 toneladas anuais nos anos 1970 para apenas 1.480 quilos em 2021.

    Clonagem por mini estacas promete produção em larga escala

    Os pesquisadores focam em três frentes principais: seleção de matrizes de alta qualidade, desenvolvimento de protocolos de clonagem por estaquia e definição de práticas agronômicas que reduzam perdas no plantio. A equipe também estabelece uma coleção de trabalho com materiais genéticos de diversas procedências, ampliando a base genética para apoiar as atividades de seleção e melhoramento.

    O projeto parte de 80 árvores-matrizes localizadas na propriedade da empresa Litiara/Agroflora, em Rio Preto da Eva (AM). A equipe selecionou inicialmente as 10 plantas com maior vigor e teor de óleo acima de 1,5% na biomassa, reproduzidas por sementes.

    “Em novembro de 2025, iniciamos a retirada dos galhos dessas plantas para produzir os clones por enraizamento de miniestacas”, explica o pesquisador Edson Barcelos, da Embrapa Amazônia Ocidental, que lidera a iniciativa. O processo utiliza pequenos pedaços de plantas para que criem raízes e se desenvolvam em mudas idênticas à planta mãe.

    Da pesquisa básica à escala comercial

    O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) já estudou a reprodução do pau-rosa, porém ninguém aplicou a técnica em escala comercial. A Embrapa pretende aprimorar o método de enraizamento para viabilizar a produção em larga escala de mudas clonadas, seguindo o modelo de culturas consolidadas como café, eucalipto e erva-mate.

    Essencia e folhas secas de pau-rosa. Foto: Maria José Tupinambá/Embrapa

    A proposta estabelece um modelo completo que abrange desde a seleção genética até o manejo no campo. Os pesquisadores avaliarão diversos parâmetros agronômicos: época ideal e altura da poda, espaçamento entre plantas, tipos e doses de adubação, além de estratégias para controlar pragas e doenças.

    “Para plantar cinco hectares, precisamos de cinco mil mudas. Mas não encontramos sementes suficientes e, quando há, o material genético apresenta muita heterogeneidade. As plantas crescem de forma desigual e o teor de óleo varia drasticamente”, detalha Barcelos.

    Produção sustentável preserva as árvores

    O óleo essencial do pau-rosa concentra seu valor principalmente no linalol, composto químico que representa mais de 80% do produto e possui diversas aplicações comerciais. A pesquisa da Embrapa foca na produção sustentável voltada para esses usos, extraindo o óleo de folhas e galhos e mantendo a árvore viva.

    Durante décadas, exploradores cortaram o pau-rosa rente ao solo para extrair o óleo, sem replantio ou manejo adequado. Após a inclusão da espécie na lista de ameaçadas de extinção, essa prática foi proibida. No entanto, o Brasil ainda não desenvolveu tecnologia suficiente para o cultivo comercial, cuja área plantada hoje não ultrapassa 50 hectares, concentrados nos municípios amazonenses de Maués, Novo Aripuanã e Itacoatiara.

    Principais desafios do cultivo

    A escassez de mudas de qualidade representa um dos principais obstáculos. Plantios realizados a partir de sementes apresentam taxa de mortalidade entre 70% e 90%, além de grande variabilidade genética, o que compromete a uniformidade das plantas. O teor de óleo pode variar de 0,5% a 2,0%. A limitada experiência com sistemas de plantio e manejo adequados agrava o problema.

    Uma emenda parlamentar de R$ 250 mil permitiu construir estufas, adquirir vasos e equipamentos para um laboratório de extração de óleo. A casa de vegetação já funciona e, nos próximos meses, a equipe começará os testes de enraizamento com diferentes substratos — como terriço, fibra de coco e vermiculita — e hormônios vegetais.

    O projeto também investiga o uso da banana como cultura de sombreamento nos primeiros anos do pau-rosa. A estratégia oferece sombra ideal e retorno econômico para ajudar a custear o plantio. A pesquisa busca definir o melhor espaçamento, época e altura de poda, adubação e controle de pragas.

    “Vamos criar um sistema de produção validado”, acrescenta o pesquisador.

    Agricultores familiares testam cultivo como alternativa

    Agricultores familiares da zona rural de Manaus testam o cultivo do pau-rosa como alternativa à extração em florestas nativas. Em 2012, famílias dos assentamentos no ramal ZF 4 e a Embrapa iniciaram o plantio de 230 mudas em áreas de roçado de mandioca e capoeira. Os produtores consorciaram as mudas com frutíferas perenes e, em 2020, observaram as primeiras florações.

    Apesar da taxa de mortalidade de 47%, atribuída a pragas, sombreamento e estresse hídrico, as plantas consorciadas apresentaram sobrevivência 50% superior em comparação às cultivadas em capoeira e 60% menos mortalidade. Os técnicos recomendaram a poda das plantas sombreadoras para estimular a biomassa e a reprodução, visando a coleta de sementes e a extração de óleo em agroindústrias familiares.

    Burocracia trava comercialização do óleo

    Além da escassez de mudas de qualidade e da alta mortalidade, a burocracia excessiva na comercialização do óleo essencial representa outro entrave importante. Durante o Simpósio de Óleos Essenciais realizado em Manaus, em outubro de 2025, especialistas e empresários propuseram a “Carta do Pau-Rosa”, iniciativa que busca sensibilizar autoridades para destravar processos que dificultam o avanço da cadeia produtiva. As muitas exigências afastam os compradores, que preferem substituir o pau-rosa por outros óleos.

    Com a consolidação do sistema de produção, a expectativa é fortalecer a cadeia produtiva regional, promover a conservação da espécie e gerar novas oportunidades econômicas para comunidades amazônicas e empreendedores.

    “Estamos construindo um modelo que alia ciência, conservação e desenvolvimento regional. O pau-rosa pode voltar a ser símbolo de riqueza, desta vez, com sustentabilidade”, conclui Barcelos.

  • Safra de guaraná no Amazonas surpreende produtores

    Safra de guaraná no Amazonas surpreende produtores

    A metáfora indígena não poderia ser mais certeira: “quando os olhos se abrem, é tempo de guaraná”. As sementes da planta, que realmente lembram pupilas humanas, agora revelam números que fazem os produtores amazonenses celebrarem uma das melhores safras dos últimos anos.

    Guaranazeiro no Campo Experimental da Embrapa em Manaus. Foto: Maria José Tupinambá/Embrapa

    Apesar das preocupações iniciais com o calor extremo e os efeitos das mudanças climáticas que tem afetado diversas culturas pelo Brasil, o guaraná amazonense mostra resiliência. A safra atual surpreende com um crescimento expressivo que varia entre 20% e 50%, dependendo da área de cultivo.

    Números confirmam crescimento robusto da produção

    André Atroch, pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, acompanha de perto os guaranazais do estado. Através de visitas regulares aos campos, monitoramento nas áreas experimentais e contato direto com grupos de produtores, ele consegue ter uma visão privilegiada do que acontece nas plantações.

    “Os produtores comentam que estão colhendo bem mais guaraná do que no ano passado. Esse aumento é perceptível nas áreas que temos acompanhado”, revela Atroch. O pesquisador destaca um detalhe que chama atenção de quem visita as propriedades: “O que tem se observado nas áreas é as plantas muito carregadas, muito cheias de guaraná”.

    Os números consolidam essa impressão visual. Enquanto produtores de pequeno e médio porte reportam ganhos entre 20% e 30% comparado a 2024, grandes empresas do setor apresentam resultados ainda mais impressionantes – alguns chegam perto dos 50% de crescimento na colheita.

    O estado do Amazonas, que tradicionalmente produz entre 600 e 700 toneladas anuais de guaraná em rama (sementes secas com 13% de umidade), pode alcançar entre 700 e 800 toneladas neste ano. Um salto significativo para uma cultura tão importante economica e culturalmente para a região.

    Condições climáticas favoreceram desenvolvimento das plantas

    Diferente de safras anteriores, 2025 trouxe um presente raro aos cultivadores: estabilidade climática nos momentos certos. Setembro, mês crítico para a floração do guaraná, transcorreu sem os extremos que costumam prejudicar a cultura.

    Não houve secas prolongadas capazes de secar as flores ainda na planta. Também não vieram chuvas torrenciais que derrubam as delicadas florações. Sim, os termômetros registraram alguns dos dias mais quentes das últimas duas décadas, mas isso não chegou a comprometer o desenvolvimento dos frutos.

    Foto: Maria José Tupinambá/Embrapa

    “Para o guaraná, o tempo foi normal. Mesmo com alguns dias de calor extremo, isso não chegou a comprometer a safra”, explica Atroch, aliviado com um cenário que poderia ter sido bem diferente.

    Chuvas de novembro trazem última preocupação da temporada

    Agora, com a colheita ainda em andamento, surge uma preocupação pontual, mas importante. As chuvas que chegaram a Manaus em novembro podem representar um desafio para o fechamento da safra.

    Precipitações muito intensas tem o poder de provocar a queda prematura de frutos que já estão maduros ou até mesmo causar o apodrecimento de cachos que ainda permanecem nas plantas. Os produtores agora correm contra o tempo para colher o máximo possível antes que eventuais temporais causem perdas desnecessárias.

    Mesmo com essa última variável climática no horizonte, a expectativa geral entre pesquisadores e produtores é otimista. O balanço final deve confirmar 2025 como um ano de recuperação e crescimento expressivo para o guaraná amazonense. Uma notícia que anima não apenas os cultivadores, mas toda a cadeia produtiva que depende dessa planta símbolo da Amazônia.