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  • Tecnologia de simulação reduz custos para medir metano em lavouras de arroz

    Tecnologia de simulação reduz custos para medir metano em lavouras de arroz

    Um modelo de simulação computacional conseguiu estimar com precisão as emissões de metano produzidas por uma lavoura de arroz irrigado ao longo de diferentes safras. A conclusão vem de uma pesquisa conduzida pela Embrapa Meio Ambiente, com apoio da Apta Regional de Pindamonhangaba, em uma área de cultivo no Vale do Paraíba, em São Paulo.

    O estudo comparou as emissões de metano medidas em campo durante três safras com os valores simulados pelo modelo DNDC (DeNitrification-DeComposition), uma das ferramentas mais usadas internacionalmente para estimar fluxos de carbono e nitrogênio em sistemas agrícolas. Os resultados confirmaram que o modelo reproduz de forma consistente o comportamento das emissões durante todo o ciclo da cultura.

    Por que o metano do arroz irrigado preocupa pesquisadores

    O arroz irrigado ocupa posição estratégica na produção mundial de alimentos, mas também figura entre as principais fontes agrícolas de metano, um gás de efeito estufa com elevado potencial de aquecimento global. O ambiente alagado, típico desse sistema de cultivo, favorece microrganismos que produzem metano durante a decomposição da matéria orgânica na ausência de oxigênio.

    Parte desse gás escapa para a atmosfera e contribui para as mudanças climáticas. Por isso, pesquisadores e formuladores de políticas públicas passaram a priorizar o conhecimento preciso sobre o volume de metano emitido pelas lavouras ao longo do ciclo produtivo.

    A medição direta em campo, no entanto, exige recursos financeiros, equipamentos sofisticados, equipes especializadas e campanhas contínuas de monitoramento. Fatores que limitam a aplicação dessa técnica em grandes áreas agrícolas.

    Como o modelo DNDC simula as emissões

    Diante desse desafio, a Embrapa Meio Ambiente passou a avaliar o desempenho do DNDC em cenários de arroz irrigado por inundação. Para cada cenário, a ferramenta reúne dados sobre a cultivar, fatores climáticos, características do solo e práticas de manejo agrícola e de irrigação. Com essas informações, o modelo simula simultaneamente o desenvolvimento da planta e os processos biológicos que produzem e liberam gases de efeito estufa.

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    Foto: divulgação Embrapa / Sebastião Araújo

    Segundo Magda Lima, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, a análise mostrou que o DNDC reproduziu satisfatoriamente o comportamento das emissões ao longo do ciclo da cultura. Esse desempenho indica potencial para apoiar inventários de gases de efeito estufa, pesquisas científicas e o planejamento de estratégias de redução de emissões.

    A pesquisadora Maria Conceição Pessoa lembra que a Embrapa Meio Ambiente e a Apta já haviam calibrado e validado o DNDC há cerca de 16 anos, com outra cultivar de arroz irrigado e outras condições locais. O novo estudo repete o bom desempenho da ferramenta, agora com uma cultivar diferente e considerando o clima e o manejo atuais das lavouras paulistas.

    Simulação acompanha picos de emissão registrados em campo

    Os dados mostraram que as simulações seguiram de perto a dinâmica de emissão observada na lavoura durante toda a safra. Portanto, os maiores picos de metano ocorreram nos períodos de inundação, quando o solo reúne condições favoráveis à ação dos microrganismos produtores do gás. Quando a disponibilidade de água mudava, o modelo também captava a redução das emissões. O que demonstra sensibilidade às alterações no manejo da água e nas condições ambientais.

    Para Pessoa, a boa concordância entre os dados medidos e os simulados em diferentes safras aponta o DNDC como ferramenta confiável para estimar emissões sazonais de metano em sistemas de arroz irrigado paulista, o maior polo produtor do Sudeste brasileiro. Essa confiabilidade amplia as possibilidades de avaliar diferentes práticas de manejo sem exigir medições complexas em todas as áreas de produção.

    Simulações abrem caminho para testar novas estratégias de manejo

    Além de reduzir custos de pesquisa local, a ferramenta permite investigar cenários futuros. Produtores e pesquisadores podem avaliar, por exemplo, como mudanças no manejo da irrigação, na adubação ou na incorporação de resíduos vegetais afetam as emissões de metano. Esse tipo de simulação possibilita identificar antecipadamente estratégias que reduzem o impacto ambiental da atividade sem comprometer a produtividade das lavouras.

    O estudo também contribui para aprimorar os inventários nacionais de gases de efeito estufa. Atualmente, muitos países recorrem a fatores médios de emissão para estimar a contribuição da agricultura às mudanças climáticas. Modelos calibrados com dados brasileiros tornam essas estimativas mais representativas da realidade nacional. E aumentam a confiabilidade das informações usadas em políticas públicas e em compromissos internacionais sobre o clima.

    Qualidade dos dados define o desempenho do modelo

    A pesquisa reforça uma tendência crescente na agricultura moderna: a integração entre experimentação de campo e ferramentas digitais para entender processos ambientais complexos e apoiar decisões mais eficientes. Conforme os modelos computacionais ganham precisão, eles assumem papel estratégico na construção de sistemas agrícolas mais sustentáveis e resilientes diante dos desafios climáticos.

    As pesquisadoras alertam, porém, que o desempenho do DNDC e de ferramentas semelhantes depende diretamente da qualidade das informações inseridas. Especialmente dados climáticos, características físicas e químicas do solo, cultivares e práticas de manejo adotadas na propriedade. Por isso, defendem a ampliação de estudos em diferentes regiões produtoras para gerar e divulgar essas informações-base, o que aperfeiçoa as simulações e amplia sua validação em todo o país.

    Assim, para a rizicultura brasileira, os resultados representam mais do que um avanço metodológico. Eles mostram que a combinação entre ciência, monitoramento e simulação numérica pode acelerar tecnologias que reduzem as emissões de gases de efeito estufa, fortalecem a agricultura de baixo carbono e tornam a produção de alimentos ambientalmente mais responsável.

  • Aditivo alimentar reduz emissões de metano em 50% em gado Nelore

    Aditivo alimentar reduz emissões de metano em 50% em gado Nelore

    A Minerva Foods e a startup australiana Rumin8 divulgaram os resultados de um estudo inédito que comprova redução de 50,4% nas emissões de metano entérico em gado Nelore confinado. Conduzida em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP), a pesquisa de 120 dias também registrou melhora estatisticamente significativa de 5% na eficiência de conversão alimentar dos animais que consumiram o aditivo desenvolvido pela Rumin8.

    O experimento avaliou o impacto do aditivo em condições que simulam operações comerciais de confinamento brasileiras. Animais que receberam o produto misturado à ração total (TMR) emitiram 39,6 g de metano por quilo de ganho de peso , contra 77,2 g/kg no grupo controle, que consumiu a mesma dieta sem o suplemento.

    No total, o teste gerou uma redução estimada de 29,8 toneladas de CO₂ equivalente em emissões de gases de efeito estufa, além de proporcionar ganhos de produtividade e menor consumo de ração. Empresas especializadas em certificação de carbono agrícola, entre elas a Athian e a FoodChain ID, realizam a verificação independente desses resultados.

    Como o estudo foi conduzido

    O experimento envolveu dois grupos de bovinos Nelore machos. O primeiro reuniu 80 animais em baias individuais, o que permitiu medir com precisão o consumo de ração e as emissões de metano, metade no grupo controle, metade recebendo o aditivo. O segundo grupo incluiu 200 bovinos em baias coletivas, para simular condições de escala comercial.

    A dieta adotada seguiu o padrão típico de terminação em confinamento no Brasil: 12% de volumoso e 88% de concentrado, com milho moído como ingrediente principal. Pesquisadores monitoraram o consumo de ração diariamente e avaliaram o desempenho produtivo por meio de pesagens periódicas.

    O que dizem os envolvidos

    Para o CEO da Rumin8, David Messina, os resultados abrem caminho para escalar a tecnologia no maior mercado de gado do mundo. “A Minerva e a Rumin8 estão comprometidas em reduzir as emissões de metano do setor. E foi excelente ter este trabalho validado por uma das instituições acadêmicas mais respeitadas do Brasil”, afirmou. Segundo ele, os dados farão parte do pacote regulatório para a comercialização do produto no país.

    Marta Giannichi, Diretora Global de Sustentabilidade da Minerva Foods, destacou o caráter estratégico da iniciativa. “A redução das emissões de metano é uma prioridade para o avanço de uma cadeia mais sustentável. Iniciativas como esta ajudam a acelerar soluções que combinam produtividade e responsabilidade ambiental”, disse.

    Pesquisadores da ESALQ/USP classificaram o aditivo testado entre as estratégias mais promissoras de mitigação de metano já avaliadas pela instituição. Com potencial para reduzir a pegada ambiental da produção de carne bovina sem comprometer a eficiência produtiva.

  • Fogo-fátuo: a ciência por trás do mistério luminoso dos campos

    Fogo-fátuo: a ciência por trás do mistério luminoso dos campos

    Pequenas chamas azuladas surgem do nada, flutuam sobre o solo pantanoso e desaparecem sem deixar rastros. O fogo-fátuo intriga moradores do campo há gerações e continua despertando curiosidade em pleno século XXI. O fenômeno, envolto em mistério e superstição, possui uma explicação científica surpreendentemente simples.

    https://www.instagram.com/reel/DQvPqEBkawx/?igsh=MXhmdGE3YTNieXNiOQ%3D%3D

    O fogo-fátuo representa uma manifestação luminosa natural que aparece predominantemente em regiões pantanosas, cemitérios, áreas de cultivo e locais com intensa decomposição de matéria orgânica. As luzes geralmente se apresentam em tons azulados, esverdeados ou amarelados, com tamanho que varia de pequenas fagulhas a chamas do tamanho de uma bola de tênis.

    O nome “fogo-fátuo” deriva do latim “ignis fatuus”, que significa “fogo tolo” ou “fogo insensato”. A denominação reflete a natureza enganosa do fenômeno, que parecia “fugir” de quem tentava se aproximar dele.

    A explicação científica

    A ciência moderna desvenda o mistério por trás das luzes fantasmagóricas. O fenômeno resulta da decomposição anaeróbica de matéria orgânica, processo que ocorre em ambientes com baixa concentração de oxigênio. Durante essa decomposição, microrganismos liberam gases como metano (CH₄), fosfina (PH₃) e difosfano (P₂H₄).

    A fosfina apresenta particular importância para o fenômeno. Este gás se inflama espontaneamente ao entrar em contato com o oxigênio atmosférico, mesmo em temperatura ambiente. O difosfano também contribui para a ignição, pois possui propriedades pirofóricas ainda mais intensas.

    Quando esses gases escapam do solo, especialmente em noites úmidas e quentes, criam as características luzes dançantes. O metano, embora não se inflame espontaneamente, serve como combustível adicional quando os gases de fósforo iniciam a combustão.

    Onde e quando o fogo-fátuo aparece

    O fenômeno manifesta-se predominantemente em áreas rurais específicas. Regiões pantanosas lideram os avistamentos, seguidas por:

    • Áreas úmidas e alagadas: brejos, mangues e margens de rios com vegetação densa concentram as condições ideais para decomposição anaeróbica.
    • Cemitérios antigos: locais com sepultamentos antigos em solo úmido registram casos esporádicos, especialmente em áreas sem tratamento químico moderno dos corpos.
    • Zonas agrícolas: campos com grande acúmulo de restos vegetais em decomposição, principalmente após períodos chuvosos, podem apresentar o fenômeno.
    • Florestas densas: áreas com troncos caídos e folhagem em decomposição sobre solo encharcado também favorecem o surgimento das luzes.

    O fogo-fátuo aparece principalmente durante a noite, quando a temperatura cai e a umidade relativa aumenta. As condições ideais incluem noites quentes após dias de chuva, quando o solo úmido libera gases acumulados. O fenômeno ocorre com maior frequência entre o outono e a primavera em regiões tropicais.

    Como observar o fogo-fátuo no meio rural

    Moradores de áreas rurais relatam avistamentos espontâneos do fenômeno, mas algumas condições aumentam as chances de observação. Especialistas recomendam procurar em áreas pantanosas conhecidas durante noites sem vento, preferencialmente após períodos de chuva intensa.

    A observação exige paciência e cautela. As luzes surgem de forma imprevisível e duram apenas alguns segundos ou minutos. Quem se aproxima demais das chamas pode causar movimentação do ar, dispersando os gases e interrompendo o fenômeno — daí a impressão de que as luzes “fogem” dos observadores.

    Agricultores e pecuaristas que trabalham em regiões com várzeas frequentemente testemunham o fenômeno. Em algumas comunidades rurais, o conhecimento sobre os locais de aparição das luzes passa de geração em geração.

    Lendas e folclore brasileiro

    As luzes misteriosas alimentaram o imaginário popular brasileiro por séculos. Diversas regiões desenvolveram interpretações próprias para o fenômeno:

    No interior de Minas Gerais e Goiás, muitos acreditam que o fogo-fátuo indica locais onde escravos ou garimpeiros enterraram ouro e tesouros. A tradição afirma que as almas dos mortos guardam suas riquezas através das chamas.

    No Sul do país, principalmente no Rio Grande do Sul, a crença associa as luzes a almas penadas que buscam orações para alcançar descanso eterno. Benzedeiras tradicionais ainda realizam rituais específicos quando o fenômeno aparece próximo às residências.

    Na região Nordeste, especialmente no sertão, o fogo-fátuo recebe o nome de “batatão” ou “batata d’água”, e moradores o interpretam como presságio de eventos importantes.

    A Região Norte incorporou o fenômeno às lendas amazônicas, muitas vezes associando-o a entidades protetoras da floresta que afastam invasores de áreas sagradas.

    Perigos e precauções

    Apesar da aparência inofensiva, o fogo-fátuo indica a presença de gases inflamáveis. Embora as chamas sejam geralmente pequenas e de curta duração, o acúmulo de metano em locais fechados pode representar risco de explosão.

    Moradores rurais devem evitar acender fósforos, isqueiros ou realizar qualquer tipo de ignição em áreas onde o fenômeno aparece frequentemente. Currais, galpões e construções sobre terrenos pantanosos merecem atenção especial quanto à ventilação adequada.

    A decomposição que gera os gases também pode produzir gás sulfídrico, tóxico em concentrações elevadas. Tontura, náusea ou odor forte de “ovo podre” indicam a necessidade de abandonar imediatamente o local.

    Fogo-Fátuo e mudanças ambientais

    Cientistas observam que alterações no meio ambiente afetam a frequência do fenômeno. A drenagem de áreas alagadas para agricultura reduz drasticamente os relatos de fogo-fátuo em regiões que antes apresentavam ocorrências frequentes.

    Por outro lado, o acúmulo de resíduos orgânicos em aterros sanitários mal gerenciados cria novas áreas propícias ao surgimento das luzes misteriosas. Estudos ambientais utilizam a presença do fenômeno como indicador de decomposição anaeróbica em larga escala.

    As mudanças climáticas também influenciam o fenômeno. Períodos prolongados de chuva seguidos por calor intenso aumentam a liberação de gases do solo, potencialmente elevando a frequência dos avistamentos.

    Pesquisas e estudos modernos

    Universidades brasileiras desenvolvem estudos sobre o fogo-fátuo, especialmente em departamentos de química e ciências ambientais. Pesquisadores utilizam sensores de gases para mapear áreas com maior liberação de fosfina e metano, correlacionando os dados com relatos populares.

    Estudos recentes sugerem que variações na composição do solo e na temperatura influenciam diretamente a intensidade e frequência do fenômeno. Solos ricos em fósforo orgânico, comuns em áreas agrícolas, apresentam maior probabilidade de gerar as condições necessárias.

    A compreensão científica do fogo-fátuo também contribui para áreas práticas, como o monitoramento ambiental de áreas úmidas e a segurança em cemitérios e aterros sanitários.

    Diferenciando o fogo-fátuo de outros fenômenos

    Outros fenômenos luminosos naturais podem ser confundidos com o fogo-fátuo. Vagalumes criam luzes que se movem, mas possuem padrão intermitente característico. Reflexos de luz em gotículas de água ou cristais de gelo também geram efeitos luminosos, porém permanecem estáticos.

    Descargas elétricas atmosféricas de baixa intensidade, conhecidas como “fogo de Santelmo”, aparecem durante tempestades e se fixam em objetos pontiagudos. O fogo-fátuo, ao contrário, surge mesmo em noites calmas e se forma diretamente do solo.

    A oxidação de certos minerais fosforescentes pode criar luminescência em rochas, mas este fenômeno não produz chamas visíveis nem ocorre em áreas pantanosas.

    Preservando o mistério e a ciência

    O fogo-fátuo representa uma ponte fascinante entre a ciência e o folclore. Enquanto a química explica o mecanismo por trás das luzes, as histórias populares preservam a riqueza cultural das comunidades rurais brasileiras.

    Compreender cientificamente o fenômeno não diminui seu fascínio. Ao contrário, revela a complexidade dos processos naturais e demonstra como a observação atenta da natureza pode desvendar mistérios que intrigam a humanidade há milênios.

    Para quem vive no campo ou visita áreas rurais, avistar um fogo-fátuo continua sendo uma experiência memorável, agora enriquecida pelo conhecimento de que aquelas pequenas chamas dançantes contam a história invisível da decomposição orgânica, do ciclo da vida e da química que governa nosso planeta.

  • Emissões de metano na pecuária brasileira batem recorde e ameaçam meta climática

    Emissões de metano na pecuária brasileira batem recorde e ameaçam meta climática

    O Brasil enfrenta um desafio crescente no combate às mudanças climáticas: as emissões de metano da pecuária atingiram níveis recordes em 2023 e afastam o país do compromisso internacional assumido há três anos. Especialistas alertam para a urgência de mudanças nas práticas agropecuárias e questionam a precisão dos dados oficiais sobre o rebanho bovino nacional.

    O Observatório do Clima divulgou dados alarmantes: o Brasil emitiu 20,8 milhões de toneladas de metano em 2023, crescimento de 6% em relação às 19,6 milhões de toneladas registradas em 2020. A agropecuária concentra 75% dessas emissões, com 15,7 milhões de toneladas liberadas na atmosfera — novo recorde nacional e aumento de 1,1% sobre o ano anterior.

    A fermentação entérica, processo digestivo dos bovinos popularmente conhecido como “arroto do boi”, responde pela maior parte das emissões. Os números contrariam o compromisso que o Brasil assumiu na COP26, em 2021, quando o país se juntou a mais de cem nações para reduzir em 30% as emissões de metano até 2030, tomando como base os níveis de 2020.

    Produtividade: a chave para reduzir emissões

    Pesquisadores da Unesp consultados pelo Jornal da Unesp defendem que o Brasil precisa disseminar práticas que aumentem a produtividade na pecuária. A estratégia permite produzir mais carne e leite com menos animais, reduzindo assim a emissão total de metano.

    Ricardo Reis, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp em Jaboticabal, dedica duas décadas ao estudo da relação entre manejo de pastagens, suplementação alimentar e emissões de metano. “O grande problema é que, ainda hoje, boa parte dos pecuaristas não entende a pastagem como uma cultura”, afirma.

    O pesquisador explica que os produtores precisam tratar o capim com o mesmo rigor técnico aplicado à soja ou ao milho, investindo em manejo adequado. A falta de cuidados degrada as áreas de pastagem, reduz sua capacidade de alimentar o rebanho e encarece a recuperação. O abandono gera custos ambientais elevados.

    Pasto de qualidade reduz metano e estoca carbono

    “O que faz com que o animal produza metano é a digestão da fibra de baixa qualidade do capim no rúmen. Quando o boi come um pasto verde e de qualidade, ele vai emitir menos metano”, explica Reis. O professor destaca um benefício adicional: “Ao mesmo tempo, o produtor estoca carbono no solo ao preservar as pastagens. Essa é a forma mais eficiente de mitigação.”

    O engenheiro agrônomo Abmael Cardoso, egresso do Programa de Pós-graduação em Zootecnia da FCAV-Unesp, contesta a estimativa oficial de 238,2 milhões de cabeças de gado no Brasil. Segundo ele, a metodologia que o IBGE utiliza ignora os ganhos de produtividade que a pecuária brasileira alcançou nas últimas décadas.

    O problema reside na política fundiária. Uma normativa do INCRA determina que a produtividade das fazendas pecuárias deve ser calculada pela taxa de lotação — número de animais dividido pela área da propriedade. Esse critério incentiva os produtores a declarar mais animais para demonstrar maior produtividade.

    “Em razão dessa questão metodológica, todo o esforço do Brasil para reformar suas pastagens, adotar sistemas integrados de produção, melhorar a qualidade nutricional, entre outras tecnologias, não está sendo capturado nas estimativas de emissão, porque elas usam os dados de rebanho oficiais do IBGE, que são imprecisos”, afirma Cardoso.

    Indicadores mostram descompasso nos dados oficiais

    Diversos indicadores de produtividade cresceram nos últimos anos, o que reforça a tese de que os números oficiais não refletem a realidade. Consultorias especializadas em produção de carne demonstram que o Brasil reduziu as áreas de pastagem nas últimas décadas enquanto aumentava a produção de carne.

    “Existe um descompasso entre as metodologias aplicadas pela política fundiária para medir a eficiência das propriedades rurais e a política ambiental brasileira”, diz Cardoso. Apesar das críticas, o agrônomo valoriza o trabalho dos órgãos estaduais e do IBGE.

    O pesquisador defende estratégias de mitigação concentradas na produtividade da fase de cria, período entre o nascimento e o desmame do bezerro. “Isso vai se refletir, no médio e longo prazo, em um rebanho menor com maior produtividade. E, consequentemente, em uma emissão de metano menor”, conclui Cardoso.

  • Árvores ajudam a neutralizar metano de bovinos

    Árvores ajudam a neutralizar metano de bovinos

    Um sistema silvipastoril com eucaliptos neutralizou o metano emitido por mais de dois bovinos por hectare. A pesquisa foi conduzida pela Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), e publicada na revista internacional Agricultural Systems.

    Os pesquisadores avaliaram a emissão de metano entérico de bovinos de corte e o sequestro de carbono feito pelas árvores. O estudo considerou o carbono armazenado apenas nos troncos destinados à produção de móveis e materiais de maior valor agregado.

    Esse modelo superou a média brasileira, que permite apenas um bovino adulto por hectare. Com árvores integradas à pastagem, o sistema suportou mais que o dobro da lotação padrão no país.

    Integração silvipastoril dobra a lotação por hectare

    O experimento comparou uma área com capim-piatã e eucaliptos à sombra com outra exposta ao sol. A medição de metano seguiu o padrão do IPCC. Já o carbono fixado pelas árvores foi calculado com base na altura e no diâmetro dos troncos.

    O metano, liberado durante a digestão dos bovinos, é um dos principais gases de efeito estufa (GEE). Ele responde por 65% das emissões agropecuárias, em CO₂ equivalente. Embora tenha vida mais curta na atmosfera que o CO₂, o metano aquece 27 vezes mais.

    Eucaliptos sequestram carbono e aliviam o calor

    As árvores realizam fotossíntese e capturam CO₂ da atmosfera, armazenando-o na biomassa. No estudo, os cientistas consideraram apenas o carbono dos troncos, mais estável e com uso industrial prolongado. A metodologia seguiu o protocolo Neutral Carbon Brazilian Beef (NCBB).

    Mesmo com lotação 256% maior que a média nacional, o sistema apresentou saldo positivo. Segundo o pesquisador José Ricardo Pezzopane, o balanço líquido foi de -14,28 Mg CO₂ eq. por hectare ao ano.

    “O sistema não só neutralizou o metano emitido pelos bovinos, como sequestrou carbono em grande volume”, afirmou Pezzopane.

    Além disso, os animais criados no sistema sombreado demonstraram maior conforto térmico. A sombra das árvores reduziu o calor, elevando o bem-estar e potencialmente a produtividade.

    “Os SSPs mitigam os efeitos climáticos ao sequestrar carbono e ajudam na adaptação ao calor, proporcionando sombra ao rebanho”, destacou Pezzopane.

    Produção sustentável com menor pegada de carbono

    Foto: Divulgação – Embrapa /Juliana Sussai

    A adoção do sistema silvipastoril pode contribuir com as metas de descarbonização da agropecuária brasileira. Também responde às exigências dos consumidores por alimentos com menor impacto ambiental.

    Mesmo com menor produção de forragem em algumas estações, o desempenho animal foi mantido. Isso se deu graças ao uso de suplementação alimentar.

    Os pesquisadores implantaram o sistema em 2011 com eucaliptos plantados a cada 2 metros em linhas com 15 metros de espaçamento. Em 2016, o desbaste aumentou o espaçamento entre árvores para 4 metros, reduzindo a densidade de 333 para 167 árvores por hectare.

    Com essa configuração, os pesquisadores estimaram que o sistema compensou 77% da emissão de metano. Isso equivale às emissões de 2,3 bovinos adultos por hectare. A lotação real registrada foi de 3,01 bovinos adultos por hectare.

    Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

    A pesquisa atende diretamente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 13, de combate às mudanças climáticas. Também contribui para o ODS 12, ao incentivar práticas de consumo e produção responsáveis. Além disso, reforça o ODS 2, ao propor uma pecuária mais sustentável.

    Diante do aumento das temperaturas globais, garantir o conforto térmico dos animais será essencial. A presença de árvores nos pastos pode ser a solução ideal, principalmente nas horas mais quentes do dia, em regiões tropicais.

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  • Pesquisa mineira desenvolve soluções para reduzir gases de efeito estufa na agropecuária

    Pesquisa mineira desenvolve soluções para reduzir gases de efeito estufa na agropecuária

    Pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) avançam em alternativas para mitigar as emissões de gases de efeito estufa (GEEs) na pecuária. Especialmente o metano (CH4), um dos principais responsáveis pelo aquecimento global. Em 2023, o setor bateu o quarto recorde consecutivo de emissões, com aumento de 2,2%. Isso segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

    A Epamig esta alinhada ao Plano Estadual de Ação Climática (Plac) e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. Portanto. desenvolve pesquisas para reduzir o metano entérico na bovinocultura e ampliar o sequestro de carbono por meio de sistemas integrados de produção.

    Sob coordenação de Edilane Silva, o Programa Estadual de Pesquisa em Bovinocultura da Epamig testa dietas manipuladas para bovinos no Campo Experimental Getúlio Vargas, em Uberaba. A equipe busca aumentar a digestibilidade dos alimentos. Além de reduzir o tempo de permanência no rúmen, elevando a eficiência produtiva e diminuindo a liberação de metano. Entre as alternativas, o uso do amendoim forrageiro (Arachis pintoi) tem apresentado resultados promissores, com redução de até 30% nas emissões de metano, graças ao alto teor de proteína e taninos que inibem bactérias metanogênicas.

    Técnica

    Os pesquisadores utilizam a técnica hexafluoreto de enxofre (SF6) para medir as emissões, acoplando uma canga de PVC ao pescoço dos animais para captar os gases emitidos em 24 horas.

    Em parceria com o Grupo Agronelli, referência na produção de leite e em práticas sustentáveis, a Epamig aplica os experimentos em larga escala. E permite que outros produtores acompanhem os resultados diretamente no ambiente produtivo. Segundo José Bellote, diretor agroindustrial da Agronelli, a iniciativa busca soluções para uma produção mais equilibrada e sustentável. Demonstrando que é possível aliar produtividade e responsabilidade ambiental.

    O projeto, voltado para rebanhos leiteiros, será divulgado entre produtores rurais com apoio de instituições parceiras. A pesquisa contribui para a meta do Governo de Minas de reduzir em 36% as emissões de metano da pecuária até 2030, em comparação à década anterior.

    Além da manipulação de dietas, a Epamig investe em sistemas integrados de produção, como o modelo ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta). Em áreas cultivadas com capim-marandu há mais de 25 anos, a combinação de milho, forrageiras e espécies florestais como Corymbia citriodora aumenta a eficiência no uso de água e fertilizantes. Com isso, transforma áreas emissoras em áreas de sequestro de carbono. E torna o sistema produtivo mais resiliente, conforme destaca Fernando Oliveira Franco, chefe da Epamig Oeste.

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  • Hilda: vaca fertilizada in vitro promete diminuir gases do efeito estufa

    Hilda: vaca fertilizada in vitro promete diminuir gases do efeito estufa

    O nascimento de uma vaca leiteira na Escócia representa um marco na busca por uma pecuária mais sustentável. Batizada de Hilda, a bezerra foi criada para emitir menos metano, gás de efeito estufa até 80 vezes mais potente que o CO₂ em curto prazo.

    Hilda nasceu no rebanho de Langhill, no sul do país, por meio de fertilização in vitro. O projeto combina avanços genéticos para reduzir emissões de metano, gás responsável por cerca de 30% das emissões globais da pecuária.

    Combinação de tecnologias acelera redução

    Hilda é fruto de três tecnologias, explica Mike Coffey, professor da Scotland’s Rural College. A equipe analisou o DNA de vacas para prever emissões de metano, extraiu óvulos de fêmeas jovens e utilizou sêmen selecionado para fertilização.

    Foto: Divulgação SRUC – Phil Wilkinson

    “Essas técnicas permitem acelerar a seleção de vacas que emitem menos metano, um bezerro por vez”, afirmou Coffey. Repetindo o processo, espera-se reduzir em 30% as emissões do rebanho de Langhill nos próximos 20 anos.

    Estudos reforçam essa perspectiva. Pesquisas canadenses indicam que o melhoramento genético pode cortar emissões de metano em até 30% até 2050.

    Custos e viabilidade econômica

    Produzir uma vaca como Hilda ainda custa o dobro do valor de mercado do animal. “Atualmente, não é lucrativo, mas mostramos que é viável”, disse Coffey.

    O próximo passo, segundo ele, é buscar apoio financeiro para ampliar a tecnologia. “O governo pode criar incentivos, como fez com os carros elétricos, para tornar isso viável.”

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    Soluções complementares em teste

    Enquanto a genética avança, outras iniciativas buscam mitigar as emissões na pecuária. Pesquisadores estudam aditivos para ração, como algas marinhas, e tecnologias para capturar metano do esterco e transformá-lo em biogás.

    Alterações na dieta do gado e o uso de fertilizantes também estão sendo avaliados. “Há uma corrida internacional para reduzir as emissões de metano dos ruminantes o mais rápido possível”, destacou Coffey.

    Tecnologia é suficiente?

    Apesar do progresso, cientistas alertam que as melhorias tecnológicas não bastam para atingir as metas climáticas. Ou seja, segundo o Acordo de Paris, limitar o aquecimento global a 1,5°C exige mudanças significativas na produção e no consumo de carne e laticínios.

    Além disso, pesquisadores afirmam que reduzir o consumo global desses produtos pode cortar emissões alimentares em 17%. Além disso, uma redução de 45% nas emissões de metano até 2030 poderia evitar 0,3°C de aquecimento.

    No entanto, a demanda global por carne e laticínios continua alta. De acordo com a FAO, 6 bilhões de pessoas consomem leite e derivados, e o consumo de carne deve crescer 14% até 2030.

    A corrida por soluções segue intensa, unindo genética, ciência e políticas públicas para enfrentar um dos maiores desafios climáticos do mundo.

  • Jeff Bezos quer reduzir metano nos gases bovinos

    Jeff Bezos quer reduzir metano nos gases bovinos

    O projeto para desenvolver uma vacina capaz de reduzir as emissões de metano do gado recebeu um aporte significativo de US$ 9,4 milhões. A Bezos Earth Fund financia o projeto como parte dos esforços filantrópicos de Jeff Bezos em combater as mudanças climáticas. A iniciativa visa atacar um dos grandes desafios do setor agrícola: a redução das emissões de gases de efeito estufa. O metano representa quase um terço das emissões globais da pecuária, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

    Uma equipe de cientistas de instituições renomadas, incluindo o Instituto Pirbright e o Royal Veterinary College do Reino Unido, o Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha e a AgResearch da Nova Zelândia, conduz a pesquisa.  O estudo busca mapear e avaliar a resposta imunológica que possa impedir a produção de metano em ruminantes, detalhando dois focos principais: a análise inicial de como os micróbios metanogênicos colonizam o sistema digestivo dos bezerros e o desenvolvimento de anticorpos específicos para atacar esses organismos.

    O professor John Hammond, líder do grupo de imunogenética do Instituto Pirbright, explicou que a ideia é determinar os anticorpos necessários para criar uma resposta imunológica direcionada. Desta forma, orientando a formulação da vacina. “Esta abordagem reduz o aspecto de tentativa e erro e foca em uma imunologia de alta precisão”, afirmou Hammond.

    Impacto e expectativa

    Caso o projeto atinja seus objetivos, a vacina poderá ser uma ferramenta revolucionária no setor agrícola. Ela será capaz de reduzir substancialmente as emissões de metano e impactar positivamente o aquecimento global. Um estudo do Global Methane Hub indica que uma redução de 45% nas emissões de metano nesta década poderia gerar um resfriamento global de 0,3°C até 2040.

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    O Dr. Neil Wedlock, da AgResearch, destacou a importância da colaboração internacional. “Estamos entusiasmados em trabalhar com o Pirbright Institute e o Bezos Earth Fund para enfrentar esse desafio urgente.” O projeto reflete a importância de esforços integrados entre ciência e financiamento privado para soluções inovadoras no combate às mudanças climáticas.