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  • Fungo “guarda-costas” ganha reforço no combate à podridão cinzenta

    Fungo “guarda-costas” ganha reforço no combate à podridão cinzenta

    Cientistas da Embrapa Meio Ambiente (SP) ampliaram o potencial de controle biológico do fungo Clonostachys rosea contra a podridão cinzenta, doença que atinge mais de 200 culturas agrícolas. A equipe identificou que ajustes simples no processo de cultivo elevam a produção das estruturas do microrganismo responsáveis por combater pragas e patógenos no campo.

    O Clonostachys rosea funciona como um “guarda-costas” natural das plantas: ataca fungos nocivos, insetos e nematoides, além de estimular os mecanismos de defesa das culturas. A descoberta pode impulsionar o desenvolvimento de biopesticidas mais sustentáveis e ampliar as alternativas de controle biológico disponíveis no mercado.

    Dois ajustes fizeram a diferença

    Os pesquisadores modificaram duas variáveis no cultivo do fungo: a quantidade de ar disponível e a proporção entre carbono e nitrogênio no meio de crescimento. Esse controle aumentou a produção de estruturas reprodutivas e de resistência do microrganismo, a matéria-prima para transformá-lo em produtos de controle biológico.

    A podridão cinzenta, causada pelo fungo Botrytis cinerea, está entre as doenças mais problemáticas da agricultura. Além da quantidade de espécies de plantas afetadas, ela provoca prejuízos tanto no campo quanto após a colheita, segundo Gabriel Mascarin.

    “A busca por alternativas ao uso intensivo de defensivos químicos inclui o uso de fungos benéficos como o Clonostachys rosea. Ele consegue atacar outros fungos nocivos, estimular mecanismos naturais de defesa das plantas e produzir substâncias capazes de inibir patógenos”, explica o pesquisador.

    Wagner Bettiol detalha que a equipe investigou como a aeração e a relação entre carbono e nitrogênio influenciam a produção de dois tipos de estruturas do fungo: os conídios, que atuam como esporos reprodutivos, e os microscleródios, estruturas resistentes que sobrevivem em condições adversas.

    “Variamos a entrada de ar e comparamos diferentes composições nutricionais para avaliar a produção de cada tipo de estrutura, além dos compostos metabólitos produzidos pelo fungo durante o crescimento”, complementa Bettiol.

    O que a pesquisa descobriu

    A maior disponibilidade de oxigênio elevou significativamente a produção das estruturas do fungo, com destaque para os microscleródios. A proporção mais alta entre carbono e nitrogênio favoreceu a produção de conídios quando a circulação de ar era boa. Já os microscleródios só surgiram em meios com menor proporção de carbono em relação ao nitrogênio, e a maior aeração também ampliou essa formação.

    O Clonostachys rosea atua como um “guarda-costas” natural das plantas. Foto: Embrapa

    Marcia Assalin destaca a aplicação prática da descoberta. Os pesquisadores converteram as estruturas produzidas pelo fungo, junto com os líquidos resultantes do cultivo, em pequenos grânulos que se misturam à água e se aplicam como produtos agrícolas convencionais.

    Testes desses materiais em tomate-cereja exposto ao fungo causador da podridão cinzenta reduziram a incidência da doença em todos os preparos avaliados. Análises químicas identificaram ainda compostos chamados sorbicilinoides entre as principais substâncias produzidas pelo fungo durante a fermentação. Esses compostos naturais têm ação antifúngica e ajudam a explicar a proteção observada nos tomates.

    Por que a descoberta importa

    Produzir grandes quantidades de organismos vivos com estabilidade, qualidade e eficiência constantes é um dos maiores desafios para transformar agentes biológicos em produtos comerciais. Os ajustes identificados pela pesquisa (controle da entrada de oxigênio e da composição nutricional do meio de cultivo)  permitem direcionar a produção para o tipo de estrutura mais adequado a cada aplicação. O que pode facilitar o desenvolvimento industrial e reduzir custos futuros.

    A equipe também transformou os materiais produzidos em formulações práticas para aplicação agrícola, avançando um passo além dos testes de laboratório. Especialistas ressaltam, porém, que etapas importantes ainda precedem uma adoção em larga escala.

    Próximos passos da pesquisa

    Antes de uma aplicação comercial, o estudo ainda exige testes em condições mais próximas da realidade agrícola. A lista inclui escalonamento industrial do bioprocesso fermentativo e da formulação, avaliações em estufas e lavouras comerciais, testes em diferentes temperaturas e níveis de umidade, estudos sobre armazenamento e validade dos produtos, análises de segurança alimentar e comparações de custo e desempenho frente a soluções já existentes.

    Nilce Kobori, professora do curso de Engenharia Agronômica do Centro Universitário de Jaguariúna (UniFaj), avalia que a confirmação dos resultados em escala comercial pode reduzir a dependência de fungicidas sintéticos em momentos críticos, como o transporte e o armazenamento de frutas sensíveis à podridão cinzenta, caso do tomate, morango, cereja e uva.

    A professora destaca ainda que a combinação entre estruturas vivas do fungo e compostos antifúngicos produzidos naturalmente pode criar uma estratégia dupla de combate às doenças, o que aumentaria a eficiência do controle biológico.

    O estudo representa mais um avanço na aproximação entre ciência e aplicação prática. E comprova que o controle da aeração e da relação entre carbono e nitrogênio em cultivo submerso de Clonostachys rosea altera de forma previsível a produção de estruturas úteis do fungo, e que esses materiais reduzem a incidência de podridão cinzenta em testes com tomate-cereja. O avanço, no entanto, ainda depende de escalonamento industrial, testes de segurança e validação em condições comerciais para chegar ao campo.

  • Tecnologia de simulação reduz custos para medir metano em lavouras de arroz

    Tecnologia de simulação reduz custos para medir metano em lavouras de arroz

    Um modelo de simulação computacional conseguiu estimar com precisão as emissões de metano produzidas por uma lavoura de arroz irrigado ao longo de diferentes safras. A conclusão vem de uma pesquisa conduzida pela Embrapa Meio Ambiente, com apoio da Apta Regional de Pindamonhangaba, em uma área de cultivo no Vale do Paraíba, em São Paulo.

    O estudo comparou as emissões de metano medidas em campo durante três safras com os valores simulados pelo modelo DNDC (DeNitrification-DeComposition), uma das ferramentas mais usadas internacionalmente para estimar fluxos de carbono e nitrogênio em sistemas agrícolas. Os resultados confirmaram que o modelo reproduz de forma consistente o comportamento das emissões durante todo o ciclo da cultura.

    Por que o metano do arroz irrigado preocupa pesquisadores

    O arroz irrigado ocupa posição estratégica na produção mundial de alimentos, mas também figura entre as principais fontes agrícolas de metano, um gás de efeito estufa com elevado potencial de aquecimento global. O ambiente alagado, típico desse sistema de cultivo, favorece microrganismos que produzem metano durante a decomposição da matéria orgânica na ausência de oxigênio.

    Parte desse gás escapa para a atmosfera e contribui para as mudanças climáticas. Por isso, pesquisadores e formuladores de políticas públicas passaram a priorizar o conhecimento preciso sobre o volume de metano emitido pelas lavouras ao longo do ciclo produtivo.

    A medição direta em campo, no entanto, exige recursos financeiros, equipamentos sofisticados, equipes especializadas e campanhas contínuas de monitoramento. Fatores que limitam a aplicação dessa técnica em grandes áreas agrícolas.

    Como o modelo DNDC simula as emissões

    Diante desse desafio, a Embrapa Meio Ambiente passou a avaliar o desempenho do DNDC em cenários de arroz irrigado por inundação. Para cada cenário, a ferramenta reúne dados sobre a cultivar, fatores climáticos, características do solo e práticas de manejo agrícola e de irrigação. Com essas informações, o modelo simula simultaneamente o desenvolvimento da planta e os processos biológicos que produzem e liberam gases de efeito estufa.

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    Foto: divulgação Embrapa / Sebastião Araújo

    Segundo Magda Lima, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, a análise mostrou que o DNDC reproduziu satisfatoriamente o comportamento das emissões ao longo do ciclo da cultura. Esse desempenho indica potencial para apoiar inventários de gases de efeito estufa, pesquisas científicas e o planejamento de estratégias de redução de emissões.

    A pesquisadora Maria Conceição Pessoa lembra que a Embrapa Meio Ambiente e a Apta já haviam calibrado e validado o DNDC há cerca de 16 anos, com outra cultivar de arroz irrigado e outras condições locais. O novo estudo repete o bom desempenho da ferramenta, agora com uma cultivar diferente e considerando o clima e o manejo atuais das lavouras paulistas.

    Simulação acompanha picos de emissão registrados em campo

    Os dados mostraram que as simulações seguiram de perto a dinâmica de emissão observada na lavoura durante toda a safra. Portanto, os maiores picos de metano ocorreram nos períodos de inundação, quando o solo reúne condições favoráveis à ação dos microrganismos produtores do gás. Quando a disponibilidade de água mudava, o modelo também captava a redução das emissões. O que demonstra sensibilidade às alterações no manejo da água e nas condições ambientais.

    Para Pessoa, a boa concordância entre os dados medidos e os simulados em diferentes safras aponta o DNDC como ferramenta confiável para estimar emissões sazonais de metano em sistemas de arroz irrigado paulista, o maior polo produtor do Sudeste brasileiro. Essa confiabilidade amplia as possibilidades de avaliar diferentes práticas de manejo sem exigir medições complexas em todas as áreas de produção.

    Simulações abrem caminho para testar novas estratégias de manejo

    Além de reduzir custos de pesquisa local, a ferramenta permite investigar cenários futuros. Produtores e pesquisadores podem avaliar, por exemplo, como mudanças no manejo da irrigação, na adubação ou na incorporação de resíduos vegetais afetam as emissões de metano. Esse tipo de simulação possibilita identificar antecipadamente estratégias que reduzem o impacto ambiental da atividade sem comprometer a produtividade das lavouras.

    O estudo também contribui para aprimorar os inventários nacionais de gases de efeito estufa. Atualmente, muitos países recorrem a fatores médios de emissão para estimar a contribuição da agricultura às mudanças climáticas. Modelos calibrados com dados brasileiros tornam essas estimativas mais representativas da realidade nacional. E aumentam a confiabilidade das informações usadas em políticas públicas e em compromissos internacionais sobre o clima.

    Qualidade dos dados define o desempenho do modelo

    A pesquisa reforça uma tendência crescente na agricultura moderna: a integração entre experimentação de campo e ferramentas digitais para entender processos ambientais complexos e apoiar decisões mais eficientes. Conforme os modelos computacionais ganham precisão, eles assumem papel estratégico na construção de sistemas agrícolas mais sustentáveis e resilientes diante dos desafios climáticos.

    As pesquisadoras alertam, porém, que o desempenho do DNDC e de ferramentas semelhantes depende diretamente da qualidade das informações inseridas. Especialmente dados climáticos, características físicas e químicas do solo, cultivares e práticas de manejo adotadas na propriedade. Por isso, defendem a ampliação de estudos em diferentes regiões produtoras para gerar e divulgar essas informações-base, o que aperfeiçoa as simulações e amplia sua validação em todo o país.

    Assim, para a rizicultura brasileira, os resultados representam mais do que um avanço metodológico. Eles mostram que a combinação entre ciência, monitoramento e simulação numérica pode acelerar tecnologias que reduzem as emissões de gases de efeito estufa, fortalecem a agricultura de baixo carbono e tornam a produção de alimentos ambientalmente mais responsável.

  • Pesquisa reduz em 40% mortalidade de ciclame atacado por fungo

    Pesquisa reduz em 40% mortalidade de ciclame atacado por fungo

    Pesquisadores brasileiros encontraram uma alternativa promissora para proteger o ciclame (Cyclamen) da murcha de Fusarium, principal doença que ameaça a cultura no país. A solução combina um composto natural extraído de plantas, o β-cariofileno, com óxido de grafeno, material derivado do grafite. Juntos, os dois elementos reduziram a mortalidade de plantas infectadas em 40% e retardaram o avanço da doença.

    A Embrapa Meio Ambiente (SP) conduziu o estudo em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a empresa PPS Compósitos. O ciclame, planta ornamental cultivada principalmente em Holambra (SP), vem ganhando espaço no mercado brasileiro: o país já responde por cerca de 40% da produção sul-americana da espécie.

    Fungo pode destruir até 70% da produção

    O Fusarium oxysporum ataca as plantas de ciclame e compromete sua fisiologia, podendo matar até 70% dos exemplares em cultivos comerciais. Diante desse cenário, produtores e pesquisadores buscam alternativas que reduzam as perdas sem recorrer exclusivamente a fungicidas tradicionais.

    A equipe identificou o β-cariofileno ao analisar os compostos voláteis liberados por plantas de ciclame após a infecção pelo fungo. A molécula, presente também em espécies das famílias Asteraceae e Cannabaceae, já atuava como sinal capaz de ativar mecanismos naturais de defesa vegetal.

    Grafeno prolonga ação do composto natural

    Isoladamente, o β-cariofileno inibe o crescimento do fungo em testes de laboratório, mas se volatiliza rapidamente, perdendo eficácia. É aí que entra o óxido de grafeno: o material forma uma camada protetora sobre o composto, retendo-o na planta por mais tempo e potencializando seu efeito.

    A combinação de β-cariofileno, molécula do próprio ciclame, e do óxido de grafeno reduziu em 40% a mortalidade de plantas infectadas. Foto: Andre May /Embrapa

    “O óxido de grafeno atua como adsorvente do ácido fusárico, toxina produzida pelo fungo, reduzindo os danos causados à planta”, explica o pesquisador Bernardo Vieira. Sozinho, o grafeno não combate o fungo, mas a associação com o β-cariofileno gera um efeito sinérgico que aumenta a eficácia geral do tratamento.

    A pesquisadora Sônia Queiroz reforça que testes in vitro mostraram redução de até 40% no crescimento do F. oxysporum quando exposto ao β-cariofileno. Já a analista Márcia Assalin destaca que a estrutura única do grafeno protege substâncias benéficas contra a degradação.

    Testes em casa de vegetação confirmam eficácia

    Os cientistas aplicaram os tratamentos em dois genótipos de Cyclamen, “Verano Red Solar” e “Magenta”, testando tanto a pulverização quanto a endoterapia, técnica que injeta a solução diretamente nos bulbos das plantas. Em ambos os métodos, a combinação de β-cariofileno e grafeno retardou o aparecimento dos sintomas da murcha em até 26 dias.

    Além de conter a doença, o tratamento trouxe ganhos para a produtividade: as plantas tratadas apresentaram maior crescimento e biomassa nas partes aéreas, e a floração antecipou-se em 11% em relação às plantas não tratadas. Segundo o pesquisador André May, esse resultado indica efeitos diretos sobre a produtividade e o valor ornamental das flores.

    Estudo comprova segurança ambiental

    Antes de validar a estratégia, a equipe avaliou os riscos ambientais do composto. Pesquisadores testaram o β-cariofileno em organismos de diferentes níveis, como microalgas, plantas aquáticas, microcrustáceos e nematoides.

    A pesquisa reforça alternativas sustentáveis para o manejo fitossanitário, com potencial para reduzir o impacto ambiental. Foto: Andre May /Embrapa

    “Os resultados indicaram baixa toxicidade para a maioria das espécies, permitindo a determinação de concentrações seguras para ambientes aquáticos”, revela o pesquisador Claudio Jonsson. Essa etapa garante que a solução possa avançar rumo à aplicação comercial sem comprometer o meio ambiente.

    May resume o potencial da descoberta: a combinação entre β-cariofileno e óxido de grafeno representa uma estratégia inovadora e sustentável para proteger plantas ornamentais, reduzir perdas econômicas e aumentar a durabilidade das flores. Para os produtores de Holambra e de outras regiões que cultivam ciclame, a novidade pode representar uma ferramenta adicional no manejo fitossanitário, com menor dependência de insumos químicos convencionais.

  • Tecnologia amplia detecção de agrotóxicos e fármacos na água

    Tecnologia amplia detecção de agrotóxicos e fármacos na água

    Um método desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente (SP) em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) elevou a precisão na detecção de contaminantes emergentes em água. A técnica amplia a sensibilidade das análises e permite identificar substâncias em concentrações extremamente baixas, o que fortalece o monitoramento ambiental e a segurança hídrica.

    A fusão das técnicas de cromatografia líquida e espectrometria de massas viabiliza monitoramentos ambientais mais abrangentes. Foto: Bianca Ferreira

    O estudo integra uma tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Química da Unicamp, com coorientação da Embrapa. A proposta viabiliza análises mais completas e automatizadas, com potencial de aplicação em órgãos de fiscalização e sistemas de abastecimento.

    A pesquisa parte de um cenário crescente de preocupação: além dos poluentes tradicionais, como metais pesados e resíduos industriais, cientistas já detectam contaminantes emergentes em rios, lagos e até na água potável. Entre eles estão agrotóxicos, fármacos, hormônios, surfactantes, presentes em detergentes, xampus e cosméticos e outros compostos de uso doméstico.

    Essas substâncias, muitas vezes fora das legislações atuais, podem causar impactos à saúde humana e à vida aquática. Segundo a pesquisadora Bianca Ferreira, autora da tese, o principal desafio está na complexidade química desses compostos e nas baixas concentrações em que aparecem, geralmente na faixa de nanogramas por litro.

    Técnica amplia capacidade de detecção

    Para superar essas limitações, a pesquisa utiliza a cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas sequencial (LC-MS/MS). A técnica separa misturas complexas e identifica moléculas com alta precisão, permitindo tanto análises direcionadas, para compostos já conhecidos, quanto triagens que detectam substâncias suspeitas sem padrão prévio.

     

    O rio Mogi Guaçu foi um dos analisados no estudo. Foto: Robson Barizon / Embrapa

    De acordo com a professora Carla Bottoli, orientadora do trabalho na Unicamp, o método integra essas duas abordagens em um único protocolo analítico. Isso amplia a capacidade de identificar compostos presentes em baixos níveis e que não fazem parte das rotinas tradicionais de monitoramento.

    A pesquisadora Sonia Queiroz, da Embrapa Meio Ambiente, destaca que a metodologia pode apoiar estudos de impacto ambiental e o controle da qualidade da água, especialmente em regiões sob influência de atividades agrícolas e urbanas, onde há maior diversidade de contaminantes.

    Principais avanços da pesquisa:

    • Desenvolvimento de método analítico com preparo de amostras otimizado para extrair e concentrar contaminantes
    • Integração de análises direcionadas e triagem de compostos suspeitos
    • Uso de espectrometria de massas de alta resolução, que aumenta a seletividade e reduz erros analíticos

    Impactos para o monitoramento ambiental

    A nova abordagem oferece aplicação direta em políticas públicas e rotinas laboratoriais. O método pode auxiliar agências reguladoras na atualização de protocolos de análise da água, incluindo substâncias que hoje não entram nos testes convencionais.

    Com isso, o estudo contribui para aprimorar o controle da qualidade da água, reduzir riscos à saúde e fortalecer estratégias de gestão sustentável dos recursos hídricos. Um tema cada vez mais relevante para o agronegócio e para a segurança ambiental.

  • Estudo aponta impacto de fungicidas na saúde de abelhas sem ferrão

    Estudo aponta impacto de fungicidas na saúde de abelhas sem ferrão

    Uma pesquisa conduzida pela Embrapa Meio Ambiente (SP) revelou que fungicidas amplamente utilizados na agricultura podem comprometer microrganismos fundamentais para o desenvolvimento de abelhas sem ferrão. O estudo avaliou os efeitos de um fungicida químico e outro biológico sobre o complexo fúngico presente no alimento larval da espécie Scaptotrigona depilis.

    Os cientistas identificaram que ambos os produtos interferem nos fungos simbiontes responsáveis pela digestão e pelo fornecimento de nutrientes às larvas. Esses microrganismos mantêm uma relação mutualística com as abelhas, sendo indispensáveis para a saúde e o crescimento das colônias.

    Embora o impacto de inseticidas sobre polinizadores já seja amplamente conhecido, os resultados chamam atenção para os efeitos dos fungicidas, frequentemente considerados menos nocivos. O estudo demonstra que esses produtos também podem afetar organismos essenciais à sobrevivência das abelhas.

    A pesquisadora Simone Prado explica que a equipe testou diferentes concentrações dos fungicidas e monitorou o desenvolvimento dos fungos por meio da contagem de esporos e análises moleculares. Os testes focaram na presença de dois simbiontes-chave: Monascus ruber e Zygosaccharomyces sp.

    Resultados

    Os resultados indicaram respostas distintas entre os produtos. No caso do fungicida biológico, concentrações intermediárias estimularam o crescimento fúngico. Doses de 0,2 g/L e 0,66 g/L aumentaram a esporulação em relação ao grupo de controle, sugerindo que o produto pode favorecer o desenvolvimento dos simbiontes em determinadas condições.

    Por outro lado, concentrações mais altas do fungicida biológico reduziram o crescimento dos fungos, o que evidencia que até insumos considerados mais sustentáveis podem gerar impactos negativos quando usados em excesso.

    Já o fungicida químico apresentou efeitos mais severos. A partir de 2 g/L, o produto inibiu completamente a esporulação dos fungos no alimento larval. As análises moleculares confirmaram a ausência dos simbiontes nas maiores doses, indicando a eliminação total do complexo fúngico.

    Segundo a pesquisadora Jenifer Ramos, as doses utilizadas seguiram as recomendações de campo para garantir relevância agronômica e ecológica. Ela ressalta que as concentrações dos dois produtos não são diretamente comparáveis, devido às diferenças nas formulações e nos níveis de ingrediente ativo.

    Os pesquisadores alertam que o uso indiscriminado de fungicidas químicos pode comprometer relações simbióticas essenciais. Portanto, mesmo sem causar mortalidade imediata, esses produtos afetam processos críticos, como o desenvolvimento larval e a manutenção das colônias.

    Fungicida biológico

    Em contrapartida, o fungicida biológico demonstrou menor impacto geral, mantendo os microrganismos mesmo em concentrações elevadas. O resultado sugere que alternativas biológicas podem contribuir para a conservação de polinizadores e práticas agrícolas mais sustentáveis.

    Cristiano Menezes, também da Embrapa Meio Ambiente, destaca a importância de aprimorar os ensaios ecotoxicológicos. Ele defende a inclusão de abelhas nativas nos testes, que atualmente utilizam apenas espécies exóticas. Além disso, propõe a exigência de avaliações específicas para fungicidas e produtos biológicos, hoje restritas a inseticidas químicos.

    Além disso, segundo o pesquisador, proteger os microrganismos associados às abelhas é essencial para garantir sua nutrição, saúde e, consequentemente, a manutenção dos serviços de polinização,fundamentais para a agricultura e o equilíbrio dos ecossistemas.

  • Bactérias prometem revolucionar o cultivo de pimenta-do-reino

    Bactérias prometem revolucionar o cultivo de pimenta-do-reino

    Pesquisadores brasileiros identificaram duas bactérias presentes naturalmente no interior das plantas com potencial para transformar o cultivo da pimenta-do-reino, a segunda especiaria mais produzida no Brasil, com valor de mercado que saltou de R$ 1,65 bilhão para R$ 3,67 bilhões em apenas um ano.

    Cacho de pimenta-do-reino. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    O estudo, conduzido pela Embrapa em parceria com cinco universidades federais, mostra que as linhagens Priestia sp. T2.2 e Lysinibacillus sp. C5.11 estimulam o crescimento da planta e melhoram o enraizamento das estacas usadas na produção de mudas.

    Como as bactérias atuam

    As chamadas bactérias endofíticas habitam os tecidos internos das plantas sem causar doenças. As linhagens identificadas produzem ácido indolacético (AIA) — hormônio que regula o crescimento vegetal — e sideróforos, compostos que capturam ferro no solo e o tornam mais acessível às raízes. Esse mecanismo explica os resultados expressivos obtidos nos experimentos realizados entre 2023 e 2024 na Embrapa Amazônia Oriental, em Belém (PA).

    Estacas da variedade Singapura de pimenteira-do-reino submetidas à solução com Priestia sp. T2.2 cresceram até 75% mais em altura e registraram aumento de 136% na massa seca da parte aérea em relação às plantas de controle. Já a Lysinibacillus sp. C5.11 provocou um salto de 333% na massa seca das raízes. Uma terceira linhagem avaliada, Bacillus sp. C1.4, também apresentou efeitos positivos na parte aérea, porém em menor escala.

    “Esses resultados apontam para plantas com raízes mais vigorosas, ramificadas e pesadas. Isso é fundamental para a absorção de nutrientes do solo e, consequentemente, maior crescimento da planta, maior quantidade de galhos e folhas, mais fotossíntese, mais sanidade, maior longevidade dos pimentais e maior produtividade. É um ciclo benéfico de desenvolvimento”, afirma Oriel Lemos, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.

    O gargalo das mudas na agricultura familiar

    A estaquia, técnica de reprodução que consiste em retirar pequenos galhos da planta-mãe e enraizá-los para gerar novas mudas, é o método preferido dos produtores porque preserva as características genéticas da matriz e reduz o tempo até a frutificação. O problema é que o baixo índice de pegamento das raízes compromete a qualidade das mudas e, por consequência, a produtividade das lavouras.

    “Um pimental produtivo se inicia com uma muda sadia. E uma das dificuldades dos produtores é ter estacas que tenham um enraizamento efetivo para a produção das mudas. Há ainda muitas perdas nesse processo. Então, essa descoberta revela o potencial de obtermos um bioinsumo que traga mais segurança aos pequenos produtores para a implantação ou ampliação de pimentais com mudas sadias e, consequentemente, plantas mais vigorosas e produtivas”, destaca Alessandra Nakasone, pesquisadora da Embrapa Florestas.

    A descoberta interessa especialmente à agricultura familiar, responsável pela maior parte da produção nacional. As bactérias também solubilizam nutrientes no solo, tornando-os mais disponíveis para absorção pelas raízes. Portanto pode reduzir a dependência de fertilizantes e defensivos químicos e aumentar a sustentabilidade da cadeia produtiva.

    Brasil lidera produção, mas desafios persistem

    O Brasil colheu quase 125 mil toneladas de pimenta-do-reino em 2024, segundo o IBGE, ocupando o segundo lugar no ranking mundial de produtores. Espírito Santo e Pará concentram mais de 90% da safra nacional. O estado paraense, com 41 mil toneladas produzidas no mesmo ano, se destaca pelo perfil de agricultura familiar e pelos processos sustentáveis de produção.

    Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    A pesquisa ganha ainda mais relevância com a aprovação da Lei Federal nº 15.070/2024, que trouxe mais segurança jurídica ao setor de bioinsumos. Pela nova norma, produtos biológicos desenvolvidos a partir de microrganismos como as cepas de Priestia e Lysinibacillus não se enquadram como pesticidas e têm uso agrícola liberado, desde que comprovada a segurança.

    “A expectativa é que, além de melhorar o crescimento das mudas, esses bioinsumos possam atuar no controle de doenças comuns à pimenta-do-reino, como as causadas por Fusarium, e assim reduzir perdas e fortalecer a cadeia produtiva”, projeta Katia Nechet, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

    Os próximos passos incluem testes em áreas de produtores, com outras variedades clonais e em sistemas de cultivo como o plantio em tutor vivo de gliricídia — alternativa sustentável ao uso de estacas de madeira como suporte para o crescimento da planta.

    A pesquisa reuniu pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental, Embrapa Florestas, Embrapa Meio Ambiente e das universidades federais Unifesspa, UFLA, UFRPE e UFPA.

  • Polinização cruzada eleva qualidade e valor da macadâmia

    Polinização cruzada eleva qualidade e valor da macadâmia

    Um estudo internacional confirmou que a polinização cruzada exerce papel decisivo na produtividade e qualidade da macadâmia, elevando o tamanho das nozes, o rendimento e o teor de óleo. A pesquisa, conduzida na Austrália, no Brasil e na África do Sul, analisou mais de 1,3 mil frutos coletados em 23 pomares e apontou que, em 17 deles, entre 80% e 100% das nozes resultaram de polinização cruzada.

    Pomar de nogueira macadâmia em Dois Córregos, SP. Foto: Jeanne Scardini Marinho-Prado/Embrapa

    A polinização cruzada ocorre quando o pólen de uma planta fertiliza a flor de outra da mesma espécie. Segundo os cientistas, esse processo se mostra predominante entre as 19 cultivares comerciais de macadâmia avaliadas, o que revela alta dependência desse método reprodutivo para garantir frutos de qualidade comercial.

    Nozes maiores, mais óleo e maior rentabilidade

    Os resultados demonstraram que as nozes formadas por cruzamento entre cultivares apresentaram amêndoas maiores, mais pesadas e com até 3,5% a mais de óleo. O rendimento médio dos frutos foi entre 3,3% e 6,4% superior ao das nozes autopolinizadas. Diferença que pode representar ganho financeiro de até US$ 841 por tonelada, considerando o preço médio internacional de US$ 3 mil por tonelada com casca.

    Esse ganho de qualidade está ligado ao fenômeno xenia, em que o pólen influencia diretamente as características das sementes e frutos, como já se observou em outras culturas, a exemplo das amêndoas e avelãs.

    Desenho dos pomares influencia produção

    A pesquisa mostrou que o arranjo das cultivares dentro dos pomares afeta a produtividade. Em plantações compostas por grandes blocos de uma única cultivar, a autopolinização predomina no centro dos talhões, gerando menor rendimento. Para melhorar a eficiência, os cientistas recomendam intercalar diferentes cultivares e posicionar colmeias estrategicamente, favorecendo o transporte de pólen pelas abelhas.

    No Brasil, por exemplo, a cultivar IAC 4-12B apresentou 88% de frutos formados por polinização cruzada. Enquanto na África do Sul a cultivar A4 mostrou comportamento semelhante ao observado na Austrália. Já a cultivar ‘814’ teve apenas 10% de cruzamentos no local analisado.

    Abelhas como aliadas essenciais

    A pesquisa reforça que abelhas são fundamentais na polinização da macadâmia, uma cultura fortemente dependente de insetos polinizadores. A pesquisadora Kátia Braga, da Embrapa Meio Ambiente, destaca a necessidade de preservar a diversidade de abelhas silvestres e incorporá-la ao manejo dos pomares. “A polinização por diferentes insetos complementa, mas não é substituída pela abelha manejada”, afirmou.

    Ela recomenda o desenho de pomares com talhões menores e diversificados, intercalados com faixas de vegetação nativa para garantir a presença de várias espécies de polinizadores.

    Estudo premiado e parceria brasileira

    A Southern African Society for Horticultural Sciences premiou o trabalho e reconheceu o artigo como o melhor publicado em periódico científico revisado por pares na área de horticultura durante congresso realizado em janeiro de 2025, em Polokwane, na África do Sul.

    A publicação integra o projeto “Levantamento da entomofauna associada presente e identificação de insetos-pragas exóticos ausentes com potencial de dano ao cultivo de macadâmia em Dois Córregos (SP)”. Ele foi desenvolvido entre 2019 e 2024 pela Embrapa Meio Ambiente e pela Queen Nut Indústria e Comércio de Alimentos Ltda. Também assinam o artigo os pesquisadores Thayne Munhoz (Embrapa) e Leonardo Moriya (Queen Nut).

  • Fungos prometem revolucionar mercado global de proteínas

    Fungos prometem revolucionar mercado global de proteínas

    Por décadas, as proteínas animais dominaram a dieta mundial. Agora, os fungos começam a conquistar espaço como protagonistas dessa transformação. Pesquisadores aplicam engenharia genética avançada e fermentação de precisão para transformar o micélio, a estrutura de sustentação do fungo, em micoproteínas que combinam alto valor nutricional, textura semelhante à carne e menor impacto ambiental. Projeções recentes indicam que o mercado global desses produtos deve ultrapassar US$ 32 bilhões até 2032.

    Avanços em engenharia genética, como a edição de DNA por meio da técnica CRISPR-Cas9, aliados à eficiência da fermentação de precisão, permitem o desenvolvimento de micoproteínas com alto valor nutricional e potencial de produção em larga escala.

    O pesquisador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) André Damasio explica que essas tecnologias transformam fungos filamentosos e leveduras em verdadeiras “fábricas celulares”. Esses organismos produzem proteínas recombinantes — como as do leite, ovos e carne — com menor impacto ambiental e maior segurança alimentar. Empresas como Meati, Quorn e Enough já operam em escala industrial, focando no modelo B2B e promovendo mudanças importantes no setor alimentício tradicional.

    “A produção de micoproteínas exige menos terra e água, e emite menos gases de efeito estufa do que a pecuária convencional. Esse novo sistema de produção de alimentos pode mitigar os efeitos ambientais da agricultura intensiva, como o desmatamento, a degradação do solo e o esgotamento de recursos hídricos”, explica Damasio.

    Desafios técnicos e regulatórios ainda travam expansão

    Entretanto, para que essas proteínas ocupem lugar fixo nas prateleiras e nos pratos dos consumidores, a indústria precisa vencer barreiras importantes. As propriedades do micélio, como o seu alto teor de fibras e composição nutricional distinta das proteínas vegetais e animais, exigem mais investigação e adaptação tecnológica. Os cientistas trabalham para melhorar a textura, sabor e funcionalidade desses produtos para aplicações variadas na indústria alimentícia, como substitutos de carne e laticínios.

    O analista e engenheiro agrônomo Gabriel Mascarin da Embrapa Meio Ambiente (SP) acredita que, além da aceitação pelo consumidor, a segurança e a regulamentação representam desafios cruciais. Estudos clínicos ainda não esclarecem completamente a biodisponibilidade dos aminoácidos presentes nas micoproteínas, sua contribuição à saciedade e os efeitos de longo prazo à saúde humana. O setor precisa urgentemente padronizar valores nutricionais e criar normas rigorosas para controle de toxinas e metais pesados, sobretudo diante da diversidade de substratos que os processos fermentativos utilizam.

    “Do ponto de vista técnico, os obstáculos vão desde a engenharia genética de linhagens fúngicas até a otimização do bioprocesso e escalonamento, além da etapa de purificação dos produtos (o chamado ‘processamento downstream’). Pesquisadores aplicam novas ferramentas biotecnológicas para aumentar a eficiência das fábricas celulares”, conta Mascarin, ao informar que dados recentes mostram o avanço da engenharia de fungos e leveduras para produzir proteínas com funcionalidade semelhante às de origem animal.

    Além disso, ferramentas de biologia sintética e tecnologias “ômicas” (como transcriptômica e proteômica) aceleram o desenvolvimento de linhagens mais produtivas e resilientes. A combinação de edição genética precisa com análises moleculares tem se mostrado promissora para superar gargalos na produção industrial.

    Complemento sustentável, não substituto total da carne

    Para a pesquisadora Paula Cunha da Unicamp, a aposta na biotecnologia fúngica não pretende eliminar a carne animal, mas oferece alternativas viáveis e acessíveis que diversificam a dieta e reduzem o impacto ambiental da produção de alimentos. Ao integrar essas micoproteínas às cadeias alimentares existentes, a indústria pode fortalecer a segurança alimentar global e aumentar a resiliência dos sistemas agroindustriais frente às mudanças climáticas e à pressão sobre os recursos naturais.

    O futuro da alimentação humana pode estar cada vez mais ligado ao reino dos fungos. Se as pesquisas continuarem avançando e os cientistas superarem os desafios, as fábricas de células fúngicas poderão se tornar peças-chave na construção de um sistema alimentar mais sustentável, nutritivo e inclusivo.

    Investimentos em fungos superam carne cultivada em € 169 milhões

    Com tecnologia menos complexa e rápida entrada no mercado, a fermentação de biomassa fúngica, da qual o micélio faz parte, superou a carne cultivada em investimentos nos últimos cinco anos. O setor atraiu € 628 milhões contra € 459 milhões destinados à carne cultivada, conquistando a atenção de startups e investidores globais.

    Micoproteínas derivadas do micélio, como as que as empresas Quorn, Meati e Eternal produzem, oferecem vantagens como alto teor proteico (entre 45% e 48%), riqueza em fibras (entre 22% e 35%), sabor neutro e textura semelhante à carne. Por isso, a indústria aplica esses ingredientes tanto em análogos de carne quanto em produtos híbridos. Que combinam proteína animal ou vegetal com micélio, ampliando sua aceitação entre consumidores não veganos.

    No entanto, o micélio tem baixa solubilidade, o que limita sua aplicação em alimentos líquidos. Embora algumas empresas, como a Nature’s Fynd, tenham começado a explorar esse caminho com iogurtes à base de micélio.

    Baixa emissão de carbono impulsiona crescimento do mercado

    O cultivo de micélio se destaca por sua baixa emissão de CO₂, reduzida pegada hídrica e potencial de circularidade, ao empregar subprodutos como substratos. Apesar do elevado consumo energético, especialmente na fermentação submersa, seu impacto é menor que o da pecuária tradicional.

    Analistas avaliam o mercado global de análogos de carne com micélio em US$ 7,2 bilhões, com projeção de crescimento anual de 10,78% até 2032. Já o setor de substitutos de laticínios, que também começa a explorar o uso do micélio, deverá crescer a uma taxa ainda maior, de 13,85% ao ano, atingindo US$ 32,38 bilhões até 2032.

    Benefícios nutricionais comprovados, mas alertas permanecem

    Do ponto de vista nutricional, as micoproteínas fornecem aminoácidos essenciais e minerais como zinco e selênio, embora não contenham vitamina B12 nem ferro. Estudos clínicos indicam que seu consumo pode ajudar a reduzir colesterol, melhorar a saciedade, controlar glicemia e até estimular a síntese de proteína muscular. Ainda assim, especialistas alertam para a necessidade de mais pesquisas sobre sua digestibilidade e potencial alergênico. Especialmente diante de reações adversas que consumidores de produtos da Quorn observaram.

    Apesar da presença no mercado desde 1985, a aceitação das micoproteínas ainda enfrenta barreiras. Fatores como sabor, preparo e percepção de saúde determinam a disposição do consumidor em adotar o micélio na alimentação. No entanto, os cientistas acreditam que, com novas aplicações e avanços regulatórios, a tecnologia tem potencial para consolidar-se como peça-chave no futuro da alimentação sustentável.

    Regulamentação exige avaliações rigorosas de segurança

    Autoridades classificam produtos à base de micoproteínas, como os derivados do micélio, como “novos alimentos”. Assim, isso exige rigorosas avaliações de segurança antes da aprovação comercial. Embora a FDA dos Estados Unidos tenha aprovado seu uso em 2001, ainda não existem diretrizes específicas sobre ingestão diária, e nutricionistas não recomendam esses alimentos para crianças menores de três anos devido ao alto teor de fibras e baixa densidade energética.

    Do ponto de vista produtivo, a seleção de cepas seguras, de rápido crescimento e com atributos sensoriais desejáveis tem sido crucial. Empresas preferem fungos filamentosos como F. venenatum e A. oryzae por seu alto rendimento proteico, embora cresçam mais lentamente do que leveduras. Tecnologias como engenharia genética e CRISPR/Cas9 melhoram a eficiência dos processos, permitindo o desenvolvimento de linhagens com características aprimoradas. Pesquisadores também exploram a incorporação de proteínas vegetais e microalgas para enriquecer o valor nutricional desses produtos.

    Empresas como Quorn, Meati e The Better Meat Co. lideram a inovação com processos escaláveis e produtos versáteis, como a micoproteína Rhiza, que viabiliza desde linguiças até carnes vegetais secas.

  • RenovaBio evita 147 milhões de toneladas de CO₂

    RenovaBio evita 147 milhões de toneladas de CO₂

    O RenovaBio completou cinco anos consolidando o Brasil como referência internacional em transição energética e descarbonização. Criado como política pública de longo prazo, o programa já evitou a emissão de 147,6 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.

    Desde 2020, os distribuidores de combustíveis aposentaram mais de 147,6 milhões de CBios para cumprir a meta de descarbonização. Ou seja, esse volume representa o mesmo benefício climático que o plantio e conservação de árvores por 20 anos. Portanto, ao transformar ganhos ambientais em créditos financeiros, o RenovaBio impulsionou a eficiência nas usinas e incentivou melhorias contínuas no setor de biocombustíveis.

    Além de reduzir emissões, o programa estimulou avanços operacionais e tecnológicos. A pesquisadora Marilia Folegatti, da Embrapa Meio Ambiente, destaca o impacto das atualizações regulatórias. “A nova resolução da ANP representa um salto técnico importante no amadurecimento do programa”, afirma.

    Nova resolução fortalece controle e eficiência

    Publicada em 16 de junho, a Resolução ANP nº 984/2025 substitui normas anteriores e traz mais rigor e transparência. O novo texto atualiza regras de certificação, contabilidade de carbono e funcionamento das auditorias. Confira os principais pontos da nova regulamentação:

    Certificação exige dados detalhados

    Produtores e importadores devem informar dados de produção e consumo para cálculo da Nota de Eficiência Energético-Ambiental. O cálculo é feito na ferramenta oficial Renovacalc.

    Biocombustíveis com bônus por eficiência

    Produtos com emissões líquidas negativas podem receber até 20% de bônus. A medida valoriza o desempenho ambiental superior.

    Reconhecimento de rotas produtivas

    Somente rotas parametrizadas no Renovacalc podem ser certificadas. A inclusão de novas rotas exige proposta técnica, consulta pública e aprovação da ANP.

    Auditoria por firmas independentes

    Empresas auditoras devem ser acreditadas pelo Inmetro. Elas não podem auditar clientes que tenham atendido como consultores nos dois anos anteriores.

    Penalidades para não conformidade

    Falhas técnicas, fraudes ou conflitos de interesse podem levar à suspensão ou ao cancelamento do credenciamento das auditorias.

    Rastreabilidade e exigência ambiental

    A biomassa usada não pode vir de áreas desmatadas após novembro. Todas as áreas devem estar regularizadas no Cadastro Ambiental Rural (CAR).

    Certificação segue várias etapas

    O processo inclui contratação da firma inspetora, envio de dados, auditorias e consulta pública. A validade do certificado varia entre um e três anos.

    Transparência na documentação

    Todos os documentos devem ser arquivados por, no mínimo, cinco anos. A ANP exige a publicação de notas técnicas e relatórios completos.

    Consolidação normativa

    A nova resolução revoga a ANP nº 758/2018 e parte da nº 802/2019. A medida traz mais clareza e segurança jurídica ao setor.

    Brasil se consolida como líder em bioenergia

    A nova fase do RenovaBio reforça o papel do programa na política energética e climática brasileira. “Ele conecta o campo à mitigação das mudanças climáticas, com base técnica e visibilidade internacional”, explica Folegatti.

    As atualizações também criam novas oportunidades de mercado. Para produtores, a diferenciação ambiental garante acesso a países com exigências rigorosas de sustentabilidade.

    Ao estimular práticas agrícolas e industriais de baixa emissão, o RenovaBio ajuda o Brasil a cumprir as metas do Acordo de Paris e a consolidar sua posição como líder global em bioenergia sustentável.

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  • El Niño freia crescimento da castanheira-da-amazônia

    El Niño freia crescimento da castanheira-da-amazônia

    Um estudo conduzido na região de Caracaraí, em Roraima, aponta que o fenômeno El Niño impacta diretamente o crescimento da castanheira-da-amazônia (Bertholletia excelsa), espécie emblemática da floresta Amazônica e de grande importância econômica, histórica e cultural para a região.

    Segundo a pesquisa, períodos de estiagem provocados pelo El Niño resultam em uma redução significativa do crescimento em diâmetro dessas árvores. Maria Eduarda Guimarães, estudante de Engenharia Florestal da Esalq e bolsista da Embrapa Meio Ambiente, destaca que as castanheiras funcionam como verdadeiros arquivos do clima, permitindo resgatar informações históricas por meio da análise dos anéis de crescimento, técnica conhecida como dendrocronologia.

    Detalhes da pesquisa

    Foram analisadas amostras de 10 castanheiras coletadas de forma não destrutiva em uma área de castanhal nativo de nove hectares. Os exemplares avaliados apresentam, em média, 92 anos de idade, 17,5 metros de altura e diâmetro de 78 centímetros. O crescimento médio anual dos anéis foi de 3,87 milímetros.

    As cronologias de crescimento dessas árvores foram correlacionadas a dados de temperatura e precipitação local. Além de informações sobre a temperatura da superfície do oceano Pacífico, utilizadas para identificar eventos de El Niño e La Niña.

    De acordo com Patrícia Costa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coordenadora do estudo, há uma forte relação entre o crescimento da castanheira e a quantidade de chuva na região. Quanto maior a precipitação, maior o desenvolvimento da árvore. Por outro lado, o aumento da temperatura do oceano Pacífico — característica do El Niño — desacelera o crescimento da espécie.

    A série histórica analisada (1951-2010) apresentou alta qualidade nos sinais climáticos registrados nas árvores. O professor Mário Tomazello Filho, coordenador do Laboratório de Anatomia e Identificação de Madeira, ressalta que a castanheira se mostrou um importante bioindicador, sensível às variações de precipitação e aos efeitos do El Niño.

    Importância para a conservação e economia

    Os resultados do estudo reforçam a necessidade de preservar as florestas. E também ampliam o conhecimento sobre como eventos climáticos extremos afetam a dinâmica das espécies amazônicas. Além disso, servem de alerta para possíveis impactos futuros no ecossistema e na economia regional, que depende fortemente da castanha-da-amazônia.

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