Autor: Deuseane Queiroz

  • Governo anuncia R$ 4 bilhões para fertilizantes; veja como o crédito vai beneficiar o setor

    Governo anuncia R$ 4 bilhões para fertilizantes; veja como o crédito vai beneficiar o setor

    O governo federal vai destinar R$ 4 bilhões ao setor de fertilizantes. O vice-presidente Geraldo Alckmin anunciou o crédito nesta semana, na abertura do 13º Congresso Brasileiro de Fertilizantes, em São Paulo.

    Além disso, o valor faz parte do Plano Brasil Soberano 3, que prevê R$ 18,5 bilhões em financiamentos para setores estratégicos da economia. O Conselho Monetário Nacional (CMN) analisa a proposta nesta quarta-feira (26/08).

    IA muda estratégia e competitividade do agronegócio global

    Greening dos citros avança e exige ação rápida nos pomares

    Na prática, os recursos vão passar pelo BNDES e vão financiar crédito e capital de giro. Dessa forma, o pacote vai socorrer empresas atingidas pelo tarifaço dos Estados Unidos e pelos efeitos de guerras e crises geopolíticas.

    Profert e PLP 114 devem ser sancionados em breve

    Alckmin revelou, ainda, que o presidente Lula deve sancionar em breve dois projetos já aprovados pelo Congresso: o Profert e o PLP 114/2026.

    Por um lado, o Profert vai criar mecanismos de crédito fiscal para estimular a produção nacional de fertilizantes. Por outro, o PLP 114 vai permitir reduzir ou suspender tributos federais sobre combustíveis quando o preço do petróleo subir no mercado internacional.

    Setor manteve abastecimento mesmo com dependência externa

    O Brasil importa quase 90% dos fertilizantes que consome. Ainda assim, o setor conseguiu garantir o abastecimento do mercado interno mesmo em meio a guerras e dificuldades logísticas, segundo Elias Alves Lima, presidente do Conselho de Administração da ANDA.

    “De janeiro a maio deste ano, foram entregues 15,46 milhões de toneladas, volume suficiente para atender às necessidades do período. Esse resultado ajudou a preservar aquilo que o Brasil tem de mais estratégico: a força do seu agronegócio, que continua alimentando nosso país e contribuindo decisivamente para a segurança alimentar mundial”, afirmou Lima.

    Governo defende ampliar produção nacional de adubos

    Para o secretário de Agricultura de São Paulo, Geraldo Melo Filho, o Brasil já reúne condições para ampliar a produção de fertilizantes. No entanto, ele defende que o país transforme esse potencial em uma estratégia de Estado de longo prazo.

    “Temos em São Paulo todos os elos da cadeia produtiva do agro. Nosso agro tem pessoas preparadas, tecnologia, pesquisa e extensão para produzir cada vez mais”, disse Melo Filho, que também cobrou o cumprimento do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF).

    Na mesma linha, o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Cleber Soares, ligou o aumento da produção agrícola à necessidade de mais adubo. “Na última safra, produzimos mais de 1,2 bilhão de toneladas de produtos agrícolas. Para isso, precisamos do adubo”, afirmou.

    Além disso, Soares lembrou que o governo recupera hoje 1,5 milhão de hectares de terras degradadas por ano. Conforme esse ritmo avançar, a demanda por fertilizantes deve crescer na mesma proporção.

    Brasil amplia produção de bioinsumos

    Nos últimos quatro anos, o país lançou quase 1.300 novos bioinsumos, muitos deles à base de fertilizantes, segundo Cleber Soares. “O Brasil é protagonista nos três grandes desafios do mundo: segurança alimentar, segurança energética e segurança climática”, disse o secretário-executivo.

    Especialista pede união entre produtores, bancos e governo

    Da mesma forma, Roberto Rodrigues, professor emérito da FGV e ex-ministro da Agricultura, defendeu uma estratégia integrada diante do cenário internacional turbulento.

    “O mundo hoje é complicado, com crise geopolítica e guerras. Para vencer as dificuldades, precisamos de uma estratégia integrada dos produtores rurais, bancos e governo. Temos tudo para ser os produtores globais responsáveis pelo fim da fome no mundo e de liderar a transição para a energia renovável”, afirmou Rodrigues.

    Ministério quer reduzir dependência de fertilizante importado

    Por fim, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, classificou os fertilizantes como insumo estratégico para o país. Em mensagem de vídeo, ele defendeu medidas para reduzir a dependência externa e citou a retomada de plantas industriais que estavam paradas.

    Também por meio de pronunciamentos remotos, os deputados federais Arnaldo Jardim e Pedro Lupion, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, participaram do congresso.

  • Greening dos citros avança e exige ação rápida nos pomares

    Greening dos citros avança e exige ação rápida nos pomares

    O Brasil lidera as exportações mundiais de suco de laranja e produz mais de 16 milhões de toneladas da fruta por ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar da liderança, a citricultura nacional enfrenta agora um dos maiores desafios de sua história.

    Trata-se do greening, também conhecido como HLB. A doença é considerada a mais destrutiva entre os citros porque reduz a produtividade, compromete a qualidade dos frutos e encurta a vida útil das árvores.

    Quando o produtor não age rapidamente, a doença se espalha pelo pomar e provoca perdas significativas.

    O que causa a doença

    Segundo Leandro Valerim, gerente de inseticidas da UPL Brasil, duas variantes de bactéria causam o greening no país: Candidatus Liberibacter asiaticus (CLas) e Candidatus Liberibacter americanus (CLam). A primeira está presente em mais de 99% das árvores contaminadas no Brasil, conforme levantamentos citados pelo especialista.

    Um inseto chamado psilídeo-dos-citros (Diaphorina citri) transmite as bactérias entre as plantas. De coloração branco-acinzentada, ele aparece com mais frequência durante os períodos de brotação, quando se alimenta da seiva das árvores. Ao picar uma planta infectada e, em seguida, uma planta saudável, o inseto espalha a doença.

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    O greening provoca o amarelecimento das folhas e a deformação dos frutos. Com o tempo, a árvore perde vigor e reduz gradualmente sua produtividade, até deixar de ser produtiva.

    Sem cura, controle começa pelo monitoramento

    Até o momento, nenhum tratamento elimina o greening de uma árvore já infectada. Por isso, o produtor precisa retirar e destruir as plantas doentes para reduzir as fontes de contaminação no pomar.

    Diante desse cenário, Valerim recomenda monitoramento constante das plantas e controle rigoroso da população do psilídeo. O engenheiro agrônomo, mestre em fitotecnia pela Universidade de São Paulo (USP), defende ainda estratégias que preparem as árvores para enfrentar os desafios do campo.

    Assim, o manejo do greening depende da combinação de várias medidas: inspeções frequentes, eliminação de árvores contaminadas, controle do inseto vetor e práticas que fortaleçam a saúde das plantas.

    Nova tecnologia ativa defesa natural da planta

    Além do controle do psilídeo, uma nova tecnologia busca ampliar as ferramentas de manejo integrado. Ela usa peptídeos sinalizadores — moléculas que funcionam como sinais químicos reconhecidos pela própria planta.

    De acordo com Mariana Yama, gerente de produtos da UPL Brasil, esses peptídeos ativam de forma coordenada os mecanismos naturais de defesa da planta contra a doença.

    A UPL lançou recentemente o Strakor a partir dessa tecnologia. A empresa apresenta o produto como a primeira solução registrada no país para o manejo do greening. Desenvolvido em parceria com a Elemental Enzymes, ele ativa o sistema de defesa das plantas de forma sistêmica.

    Controle do inseto vetor complementa o manejo

    Para o controle do psilídeo, a UPL também oferece o inseticida Sperto. Segundo a empresa, o produto age por contato, ingestão e ação sistêmica, com efeito de choque sobre o inseto.

    Dessa forma, o produtor consegue atuar em duas frentes ao mesmo tempo: reduzir a presença do inseto transmissor e fortalecer a capacidade de resposta do pomar.

    “Quanto mais cedo e assertiva for a intervenção, maiores serão as chances de reduzir o avanço da doença e aumentar a longevidade dos pomares”, afirma Mariana Yama, especialista em fisiologia vegetal pela USP.

    Como funciona o manejo integrado

    Especialistas reúnem o manejo integrado do greening em seis frentes:

    • monitoramento frequente dos pomares
    • identificação rápida de plantas com sintomas
    • retirada e destruição de árvores infectadas
    • controle rigoroso do psilídeo
    • uso de tecnologias de proteção, como peptídeos sinalizadores
    • acompanhamento técnico durante todo o ciclo da cultura.

    Essa combinação de ações reduz a velocidade de disseminação da doença e ajuda a preservar o potencial produtivo dos pomares brasileiros.

  • Parceria transforma conservação do Cerrado em negócio com cultivo de gergelim

    Parceria transforma conservação do Cerrado em negócio com cultivo de gergelim

    A Legado Verdes do Cerrado firmou parceria com a Concepta Ingredients para cultivar gergelim em áreas agrícolas já usadas durante a entressafra. Dessa forma, o projeto pretende unir agricultura, conservação ambiental e indústria sem abrir novas áreas de plantio.

    A reserva fica em Niquelândia (GO), pertence à Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) e é administrada pela Reservas Votorantim. Segundo as empresas, trata-se da primeira Reserva Privada de Desenvolvimento Sustentável do Cerrado no Brasil.

    Cultivo na entressafra

    A parceria ocupará áreas da reserva que já recebem atividade agrícola. Assim, o gergelim será plantado no intervalo entre as safras, período em que essas áreas ficam ociosas.

    Com essa estratégia, o projeto busca aumentar o aproveitamento da terra e reduzir a pressão por novas áreas de cultivo. Além disso, a atividade pode gerar receita adicional para a operação agrícola do território.

    Desde 2017, o Legado desenvolve ações de conservação e protege cerca de 27 mil hectares de vegetação nativa do Cerrado. A proposta combina, portanto, produção agrícola, conservação da biodiversidade, pesquisa científica e desenvolvimento de novos negócios, conceito conhecido como múltiplo uso da terra.

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    Da colheita à indústria

    Após a colheita, a Concepta processará o gergelim para produzir óleo destinado às indústrias de alimentos, cosméticos, produtos farmacêuticos e ingredientes naturais. O processamento também vai permitir rastrear a origem da matéria-prima e agregar valor ao produto cultivado na reserva.

    Além disso, a Concepta planeja aproveitar os subprodutos do gergelim e transformá-los em novos insumos para aplicações industriais. Para o produtor rural, o modelo amplia as possibilidades de uso de áreas já cultivadas e aproxima a produção agrícola de mercados industriais específicos.

    No entanto, as empresas não informaram a área destinada ao cultivo, o volume estimado de produção nem os valores previstos para a nova cadeia.

    Rastreabilidade e conservação

    Para Leandro Faria, gerente-geral de Sustentabilidade, Segurança e Meio Ambiente da CBA, a parceria pode ajudar a ampliar cadeias ligadas à bioeconomia. Segundo ele, ao conectar o gergelim cultivado no Legado à capacidade industrial da Concepta, a iniciativa mostra que uma reserva privada pode funcionar como plataforma de origem, rastreabilidade e inovação para ingredientes de alto valor agregado.

    “A parceria com a Concepta demonstra o potencial do Legado Verdes do Cerrado e da estratégia da CBA para dar escala sustentável a novas cadeias da bioeconomia […] sendo um caminho viável e rentável para a conservação do Cerrado”, afirma Faria.

    Assim, a iniciativa pretende beneficiar diferentes etapas da cadeia: a produção terá origem identificada, enquanto a indústria contará com matéria-prima rastreável.

    De acordo com as empresas, o aproveitamento de áreas já utilizadas para agricultura pode reduzir a necessidade de conversão de novas áreas. Ainda assim, os resultados ambientais e econômicos dependerão da execução da parceria e dos indicadores que virão a ser divulgados.

    Um modelo pensado para replicar

    Segundo Tatiana Motta, coordenadora de Projetos e Carbono da Reservas Votorantim, o território funciona como espaço de teste para modelos que combinam conservação e produção. Para ela, a cadeia de gergelim reforça esse potencial, pois estrutura uma produção com origem rastreável no Cerrado e amplia oportunidades para a indústria e para negócios ligados à conservação.

    “O Legado Verdes do Cerrado mostra que a conservação pode ser estruturada como uma plataforma de soluções. O território reúne biodiversidade, pesquisa científica, produção responsável e governança para testar modelos replicáveis em áreas privadas”, explica Motta.

    O projeto também dialoga com as diretrizes do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, política que busca aproximar ciência, inovação, preservação ambiental e inclusão social, além de integrar setores como agricultura, indústria e biocombustíveis.

    Aproveitamento integral do gergelim

    A parceria prevê o uso de diferentes partes do gergelim: a Concepta produzirá o óleo e dará novos destinos aos subprodutos. Esse processo pode reduzir perdas e aumentar o valor gerado por cada volume de matéria-prima, ainda que as empresas não tenham detalhado quais insumos resultarão dos subprodutos nem quais mercados os receberão.

    Segundo André Sabará, CEO da Concepta Ingredients, a empresa busca construir cadeias produtivas com retorno econômico e impacto ambiental positivo. Para ele, o futuro da produção sustentável passa pela integração entre agricultura e inovação, ao mesmo tempo que protege um dos biomas mais importantes do Brasil.

    Conheça o Legado Verdes do Cerrado

    O Legado ocupa 32 mil hectares pertencentes à CBA, dos quais cerca de 80% mantêm vegetação nativa do Cerrado. A reserva fica a aproximadamente três horas de Brasília e possui dois núcleos: Engenho e Santo Antônio Serra Negra.

    No núcleo Engenho nascem os rios Peixe, São Bento e Traíras, responsáveis pelo abastecimento público de Niquelândia (GO). A área também abriga a sede do Legado e reúne, em 23 mil hectares, pesquisas científicas, educação ambiental, produção de plantas e projetos de reflorestamento. Outros 5 mil hectares são destinados à pecuária, à produção de soja e à silvicultura.

    Já o núcleo Santo Antônio Serra Negra possui 5 mil hectares de Cerrado nativo preservado, parte deles às margens do Lago da Serra da Mesa.

    As empresas por trás da parceria

    A Concepta Ingredients desenvolve ingredientes naturais e tecnológicos para diferentes setores industriais, com produtos orgânicos e convencionais. A empresa mantém ainda o Programa Bio Abundância, voltado à capacitação de famílias e à conservação indireta de áreas em diferentes biomas brasileiros. A fábrica fica em Valinhos (SP), ocupa 7.800 metros quadrados, tem acesso a rodovias e aeroportos e conta com certificação FSSC 22000, norma de segurança de alimentos.

    Fundada em 1955, a CBA atua da mineração à fabricação de produtos de alumínio, incluindo reciclagem, e afirma produzir 100% da energia elétrica que consome a partir de fontes renováveis. A companhia fornece soluções para os setores de embalagens, transportes, automotivo, construção civil, energia e bens de consumo. Listada na B3 sob o código CBAV3, integra o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e registrou, em 2025, receita líquida de R$ 8,8 bilhões e EBITDA ajustado de R$ 1,1 bilhão.

    Já a Reservas Votorantim integra o portfólio da Votorantim S.A., administra cerca de 130 mil hectares e desenvolve projetos de economia verde e soluções baseadas na natureza, com atuação em crédito de carbono, reserva legal e biodiversidade. Fundada em 2015 e lançada ao mercado em 2022, a empresa trabalha com projetos baseados no uso múltiplo da terra.

  • Cooperativas de café e leite buscam superar barreiras tecnológicas

    Cooperativas de café e leite buscam superar barreiras tecnológicas

    Em uma pesquisa da Fundação Dom Cabral, foram identificadas 22 barreiras à transformação digital em cooperativas de café e leite de Minas Gerais. O estudo foi desenvolvido em um mestrado profissional em Administração, a partir de entrevistas com lideranças cooperativistas do estado.

    Embora exista interesse entre os cooperados em digitalizar a gestão, a adoção das ferramentas ainda é dificultada por fatores que vão além da falta de recursos financeiros.

    Entre os principais obstáculos, são apontadas a dificuldade dos pequenos produtores para utilizar tecnologias, a resistência a novas soluções e a baixa conectividade nas áreas rurais. Além disso, limitações para investimentos em sistemas e equipamentos são enfrentadas tanto pelas cooperativas quanto pelos produtores.

    Digitalização avança no agro

    O cenário observado em Minas Gerais acompanha uma transformação que vem sendo registrada em todo o agronegócio brasileiro. Segundo o Cepea e a CNA, o setor respondeu por 25,13% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2025.

    Ao mesmo tempo, diferentes níveis de maturidade tecnológica são observados entre as cooperativas. Enquanto algumas ferramentas digitais já são utilizadas na gestão e na produção, problemas de infraestrutura e capacitação ainda são enfrentados por outras organizações.

    Nesse contexto, sete tendências tecnológicas foram identificadas em um levantamento do Sistema OCB/InovaCoop. De acordo com o estudo, essas soluções poderão influenciar a competitividade das cooperativas agropecuárias nos próximos anos.

    Entre as tendências apontadas, a rastreabilidade aparece como uma das principais demandas. Isso ocorre, sobretudo, porque mais informações sobre a origem dos produtos e as etapas da cadeia produtiva passaram a ser exigidas pelos consumidores.

    Campinas concentra inovação

    Enquanto barreiras estruturais e culturais ainda são enfrentadas pelas cooperativas mineiras, a região de Campinas, no interior de São Paulo, foi consolidada como um polo de inovação para o agronegócio.

    Na região, estão instalados o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Essa proximidade entre centros de pesquisa e empresas é apontada como um dos fatores que atraíram startups do setor, conhecidas como agtechs.

    Como consequência, soluções de inteligência artificial, sensores e sistemas de gestão passaram a ser desenvolvidas e testadas próximas às empresas do agronegócio.

    Por outro lado, dificuldades básicas ainda são enfrentadas por muitas cooperativas. Entre elas estão o acesso limitado à internet e a falta de capacitação dos cooperados.

    Assim, permanece um descompasso entre a oferta de tecnologias avançadas e a capacidade de adoção dessas soluções no campo.

    Confiança influencia adoção

    Para Luis Carlos Crema, advogado, contador e empresário, uma posição específica é ocupada pelo produtor dentro da cooperativa. Ele atua, simultaneamente, como dono, fornecedor e cliente da organização.

    Com 33 anos de atuação na prestação de serviços jurídicos e contábeis a cooperativas de todo o Brasil, Crema assumiu recentemente a posição de CEO do ST7 COOP, sistema de gestão voltado ao setor.

    “O produtor vive uma realidade muito particular dentro de uma cooperativa: ele é, ao mesmo tempo, dono, fornecedor e cliente do próprio negócio. Quando a tecnologia chega sem entender essa tripla função, ela acaba sendo vista como algo estranho à rotina dele, difícil de confiar”, afirma Crema.

    Além disso, parte da resistência identificada pela Fundação Dom Cabral é atribuída pelo executivo à forma como a contabilidade cooperativista costuma ser tratada pelos sistemas de tecnologia.

    “Não é a mesma contabilidade de uma empresa comum. Ela precisa ser feita de duas formas, uma convencional, outra cooperativista, levando em conta o que chamamos de ato cooperativo. Quando o sistema não nasce entendendo essa diferença, o produtor sente que está lidando com uma ferramenta que fala outra língua”, explica.

    Inteligência artificial ganha espaço

    A expansão do ecossistema de inovação também é revelada pelos indicadores do setor. No Radar Agtech Brasil 2025, foram registradas 2.075 startups voltadas ao agronegócio em operação no país.

    Em relação ao ano anterior, foi registrado crescimento de 5%. Dessa forma, o levantamento reforça a ampliação do mercado de empresas de tecnologia voltadas ao campo.

    Além disso, pesquisas do setor de tecnologia apontam que ferramentas de inteligência artificial já são utilizadas por cerca de 40% das empresas brasileiras em alguma etapa das operações.

    Nesse cenário, a IA deixou de ser tratada apenas como uma experiência. A tecnologia passou a ser associada à competitividade, embora sua adoção pelas cooperativas ainda seja condicionada à infraestrutura, à qualificação e à segurança no uso dos dados.

    Pesquisa recomenda medidas

    Para que as barreiras sejam reduzidas, o estudo da Fundação Dom Cabral recomenda a adoção de medidas permanentes:

    • criação de programas contínuos de capacitação digital para produtores;

    • ampliação do acesso à internet nas áreas rurais;

    • desenvolvimento de plataformas simples e adaptadas à rotina do campo;

    • estímulo à intercooperação para ampliar a escala e reduzir custos;

    • fortalecimento da governança sobre o uso de dados, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

    Além da infraestrutura, a proteção das informações é considerada essencial. Para Crema, a confiança precisa ser estabelecida antes da adoção de novas funcionalidades.

    “Antes de qualquer funcionalidade, o produtor precisa sentir que a informação dele está protegida e que vai ser usada para ajudá-lo a vender melhor o que produziu. Sem essa confiança, nenhuma tecnologia avança no campo”, diz.

    Sistema reúne 27 módulos

    O ST7 COOP é um sistema de gestão empresarial desenvolvido pela SOLTERRA SOLUÇÕES INTELIGENTES S.A., empresa com sede em Campinas (SP) e escritório em Minas Gerais.

    Segundo a companhia, 27 módulos integrados são reunidos pela plataforma. Entre eles estão:

    • contabilidade cooperativa;

    • automação fiscal;

    • CRM cooperativista;

    • gestão de estoque;

    • logística;

    • comércio exterior;

    • análise de crédito;

    • inteligência artificial.

    A empresa afirma que o sistema foi estruturado com base no ato cooperativo, mecanismo pelo qual é registrada a participação de cada associado nos resultados da cooperativa.

    A plataforma pode ser implantada em servidores próprios ou utilizada em nuvem. Além disso, diferentes bancos de dados são compatíveis com o sistema.

    Por fim, a inteligência artificial nativa, denominada IA-ST7, permite interação por voz, automação de compras e suporte ao planejamento estratégico, conforme informações da SOLTERRA.

  • Vinhos do DF têm até três vezes mais compostos antioxidantes que rótulos internacionais, diz pesquisa

    Vinhos do DF têm até três vezes mais compostos antioxidantes que rótulos internacionais, diz pesquisa

    Pesquisa financiada pela FAPDF analisou safras de 2022 e 2023 de dez vinhedos do Distrito Federal. Em alguns indicadores, os vinhos brasilienses apresentaram concentrações superiores às encontradas em referências da França, Itália, Espanha, Austrália, Argentina e África do Sul.

    O levantamento recebeu reconhecimento da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), sediada em Dijon, na França. A entidade estabelece padrões técnicos para o setor vinícola mundial.

    Estudo avaliou três grupos

    O trabalho investigou a presença de resveratrol, catequinas, epicatequinas e antocianinas nos vinhos produzidos com a uva Syrah.

    Os pesquisadores realizaram as análises no Laboratório de Referência Enológica Evanir da Silva (Laren). Rafael Lavrador Sant’Anna, do Instituto Federal de Brasília (IFB), coordenou o estudo com Caroline Dani, da Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul (ABS-RS), e Fernanda Spinelli, do Laren-RS e da OIV.

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    Resveratrol

    As amostras de Syrah do DF apresentaram até 12,08 mg/l de resveratrol. O composto tem propriedades antioxidantes e aparece associado, em estudos sobre o vinho, à proteção cardiovascular e neurológica.

    Os valores de referência foram:

    • Barossa Valley, na Austrália: 3,85 mg/l.

    • Toscana, na Itália: 3,2 mg/l.

    • Médoc e Bordeaux, na França: 2,9 mg/l.

    Catequinas e epicatequinas

    Os vinhos do Distrito Federal chegaram a 49,70 mg/l de catequinas e epicatequinas. Esses compostos apresentam ação antioxidante e anti-inflamatória.

    Na comparação, os pesquisadores encontraram:

    • Rioja e Priorat, na Espanha: entre 18 e 25 mg/l.

    • Vale do Rhône, na França: cerca de 20 mg/l.

    • África do Sul: até 17,76 mg/l.

    Antocianinas

    As antocianinas contribuem para a coloração dos vinhos tintos e também apresentam propriedades antioxidantes.

    Nas amostras do DF, os pesquisadores registraram:

    • Malvidina: até 17,90 mg/l.

    • Cianidina: até 46,84 mg/l.

    • Delfinidina: até 14,92 mg/l.

    Nos vinhos da Argentina, os índices chegaram a 9,75 mg/l de malvidina, 10,8 mg/l de cianidina e 22 mg/l de delfinidina. Já os rótulos de Hermitage e Côte Rôtie, na França, apresentaram entre 8,5 mg/l e 11 mg/l de malvidina.

    Dez vinhedos participaram

    A pesquisa analisou a produção das seguintes propriedades:

    • Oma Sena

    • Marchese

    • Ercoara

    • Alto Cerrado

    • Horus

    • Villa Triacca

    • Casa Vitor

    • Miro

    • Monte Alvor

    • Vista da Mata.

    Dupla poda favorece a colheita

    A uva Syrah concentra boa parte da produção vinícola do Distrito Federal. Segundo os pesquisadores, a variedade combina rusticidade, produtividade e adaptação às condições do Cerrado.

    Mais de 20 anos de pesquisas e investimentos ajudaram a aprimorar o cultivo na região. Entre as principais técnicas adotadas está a dupla poda, que altera o ciclo da planta e permite colher as uvas no inverno.

    Com a mudança no período de colheita, os produtores buscam condições mais favoráveis para concentrar açúcar, acidez, aromas e compostos fenólicos.

    Solo diferencia os rótulos

    Os dez vinhedos ficam em áreas de Cerrado de altitude, mas apresentam solos diferentes. Há propriedades com terrenos arenosos, montanhosos, argilosos e de tapiocanga.

    Alguns vinhedos reúnem mais de um tipo de solo na mesma área. Para os pesquisadores, essa diversidade contribui para a identidade de cada vinho.

    “Há vinhedos de solo arenoso, montanhoso, argiloso, tapiocanga, tendo até mais de um tipo de solo no mesmo vinhedo, o que dá a cada vinho ainda mais singularidade”, afirma Rafael Lavrador Sant’Anna.

    Segundo o estudo, a combinação entre altitude, clima, solo e dupla poda ajuda a definir a estrutura, a longevidade e a complexidade aromática dos vinhos.

    Vinhos ainda podem evoluir

    Os pesquisadores descrevem o Syrah do Cerrado como um vinho harmônico e versátil, com potencial para acompanhar diferentes pratos.

    Sant’Anna também destaca a idade dos vinhedos e projeta espaço para evolução da qualidade ao longo dos próximos anos.

    “Os vinhedos entregam os melhores vinhos com o passar do tempo. Se esse vinhedo jovem já está entregando tudo isso, o que vai ser daqui a alguns anos? A gente fica curioso”, diz o pesquisador.

    Pesquisa recebeu R$ 1,5 milhão

    O estudo começou em 2023 e tinha previsão de término em dezembro de 2025. A FAPDF destinou R$ 1,5 milhão ao trabalho por meio dos editais FAPDF Learning Agro de 2022 e 2023.

    A pesquisa avaliou a adaptação da Syrah ao solo e ao clima do Distrito Federal, além das características químicas e sensoriais dos vinhos produzidos na região.

    Consumo deve ser moderado

    Os pesquisadores ressaltam que qualquer possível benefício associado aos compostos analisados depende de consumo moderado. O estudo cita uma taça de 125 ml por dia para pessoas com mais de 18 anos.

    A pesquisa não recomenda que pessoas que não bebem comecem a consumir vinho por causa da presença desses compostos.

    Enoturismo cresce no DF

    As vinícolas do Distrito Federal oferecem passeios guiados, degustações e atividades sobre o cultivo da uva Syrah e a produção de vinhos no Cerrado.

    As experiências também apresentam a história e as características dos vinhedos brasilienses, além dos diferentes rótulos produzidos na região.

  • Produzir mais não basta: tilápia brasileira precisa melhorar rentabilidade

    Produzir mais não basta: tilápia brasileira precisa melhorar rentabilidade

    A tilapicultura brasileira precisa transformar o aumento da produção em melhores margens para produtores e frigoríficos. O desafio ganhou peso com a oscilação dos preços, a pressão dos custos e a concorrência internacional.

    O tema será discutido no painel “Competitividade da tilápia brasileira e suas perspectivas: preços, custos e rentabilidade”, marcado para 3 de setembro, às 8h30, durante o IFC Brasil 2026, em Foz do Iguaçu (PR).

    Custos afetam decisões

    O debate reunirá o pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) Thiago Bernardino de Carvalho e o mestre em Aquicultura Eduardo Ono, representante da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

    Os especialistas vão analisar os custos de produção, a eficiência das propriedades, o comportamento dos preços e a remuneração dos diferentes elos da cadeia.

    A discussão também deve abordar as condições necessárias para que a tilápia brasileira avance nos mercados interno e externo sem reduzir a rentabilidade de quem produz e processa o pescado.

    “Temos potencial produtivo, conhecimento técnico e um mercado com espaço para crescer. O desafio agora é transformar essas vantagens em competitividade real. Isso exige conhecer melhor os custos, aumentar a eficiência, reduzir riscos e criar condições para que o produtor tenha rentabilidade e capacidade de continuar investindo”, afirma Altemir Gregolin, professor da FGV e presidente do IFC Brasil 2026.

    Eficiência vai além da fazenda

    Para o setor, a competitividade não depende apenas do volume produzido nos viveiros. Crédito, sanidade, tecnologia, processamento, logística e organização da produção também influenciam o resultado final.

    Esses fatores afetam diretamente os custos e a capacidade da cadeia de atender mercados mais exigentes. Por isso, decisões sobre investimento e expansão precisam considerar todas as etapas, da criação ao processamento e à distribuição.

    “Trazer especialistas ligados à pesquisa econômica e à representação dos produtores permitirá confrontar dados de mercado com a realidade de quem precisa tomar decisões diariamente. Será um debate importante para compreender onde estão os principais custos, os riscos e as oportunidades da tilapicultura brasileira”, diz Eliana Panty, CEO do IFC Brasil.

    Serviço

    O painel integra a programação do Congresso Internacional de Aquicultura, realizado durante o IFC Brasil 2026.

    • Evento: IFC Brasil 2026

    • Painel: “Competitividade da tilápia brasileira e suas perspectivas: preços, custos e rentabilidade”

    • Data: 3 de setembro

    • Horário: 8h30

    • Local: Foz do Iguaçu (PR)

    O IFC Brasil 2026 ocorre de 2 a 4 de setembro. Mais informações estão disponíveis no site oficial do evento, pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (49) 9 8845-4767.

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    Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes, Profert pode mudar esse cenário

    O Brasil construiu uma das maiores potências agrícolas do mundo, mas essa força esconde uma dependência que começa muito antes de a soja e o milho chegarem aos portos. Para produzir boa parte do que exporta, o país ainda importa um insumo essencial: os fertilizantes.

    Mais de 80% dos fertilizantes consumidos no Brasil vêm do exterior. Em 2025, essas compras somaram US$ 15,5 bilhões, segundo o Banco Central. Além disso, o país respondeu por cerca de 8% do consumo mundial do insumo. Por isso, qualquer instabilidade nos grandes mercados fornecedores rapidamente vira preocupação para o agronegócio brasileiro.

    O que é o Profert

    Nesse cenário, seguiu para sanção presidencial o projeto que cria o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert). O Senado aprovou a proposta em 11 de agosto, depois de ela passar pela Câmara dos Deputados. Assim, o texto estabelece incentivos tanto para a instalação de novas fábricas quanto para a expansão e modernização de unidades já existentes.

    O programa poderá conceder até R$ 10 bilhões em créditos fiscais de tributos federais ao longo de cinco anos, com limite de R$ 2 bilhões por ano entre 2027 e 2031. Ainda assim, valores não utilizados poderão passar para o exercício seguinte. Caberá ao Poder Executivo definir, por meio de procedimento concorrencial, quais iniciativas receberão os benefícios.

    Mais do que uma política de estímulo à indústria, portanto, o Profert toca em um ponto sensível do comércio exterior brasileiro: a exposição do país às oscilações de preços, aos gargalos logísticos e às crises geopolíticas que atingem grandes fornecedores internacionais.

    Para Anna Dolores Sá Malta, presidente da Associação Brasileira de Direito Aduaneiro e Fomento ao Comércio Exterior, ampliar a capacidade produtiva doméstica pode reduzir essa exposição. Contudo, ela pondera que o resultado depende de fatores que vão muito além do benefício fiscal.

    “O Brasil ocupa uma posição muito particular no comércio internacional. Somos extremamente competitivos na exportação agrícola, mas uma parcela essencial dessa produção depende de insumos adquiridos no exterior. Aumentar a produção nacional de fertilizantes pode reduzir essa vulnerabilidade, desde que o incentivo consiga se transformar em investimento, capacidade produtiva e competitividade”, afirma Sá Malta.

    Uma dependência que atravessa fronteiras

    Os últimos anos escancararam o tamanho dessa exposição. A guerra entre Rússia e Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, as oscilações no preço da energia e os problemas nas rotas internacionais de transporte mostraram como eventos a milhares de quilômetros das lavouras brasileiras interferem no custo de produção do país.

    Além do volume, a concentração dos fornecedores agrava a vulnerabilidade do Brasil. Rússia, China e países do Oriente Médio têm peso importante no abastecimento nacional, o que deixa a cadeia mais suscetível a sanções, restrições comerciais, conflitos e dificuldades logísticas.

    Nos fertilizantes nitrogenados, a conexão com a geopolítica fica ainda mais evidente. Em 2025, aproximadamente 22% das importações brasileiras desse segmento vieram do Oriente Médio, região que responde por cerca de 34% do comércio mundial de ureia — um dos fertilizantes nitrogenados mais usados.

    Existe ainda uma ligação direta com o mercado de energia, já que o gás natural é uma das principais matérias-primas na fabricação de fertilizantes nitrogenados. Assim, uma escalada de tensões em regiões produtoras pode pressionar ao mesmo tempo energia, transporte e insumos agrícolas.

    “Não se trata de defender o fim das importações. O comércio exterior é fundamental para o abastecimento e para a própria competitividade brasileira. A questão é o grau de dependência. Quanto mais concentrada estiver uma cadeia estratégica em fornecedores externos, maior será a exposição do país a acontecimentos sobre os quais ele não tem qualquer controle”, diz Anna Dolores.

    Produzir mais não significa fechar os portos

    O Profert tenta atuar justamente nessa diferença. Poderão concorrer aos benefícios empresas produtoras de fertilizantes sintéticos ou minerais e de suas matérias-primas, além de fabricantes de bioinsumos, biofertilizantes e remineralizadores. O texto também prevê instrumentos de financiamento de longo prazo e mecanismos vinculados à produção efetiva, o que amplia o alcance da política para além de um benefício tributário convencional.

    Isso não significa, porém, que o Brasil está perto de deixar de importar fertilizantes. O Plano Nacional de Fertilizantes adotou uma perspectiva de longo prazo e estabeleceu a meta de reduzir gradualmente a dependência externa até 2050. Ou seja, a estratégia não parte da premissa de autossuficiência absoluta, mas de uma participação maior da produção doméstica no abastecimento.

    Existem razões econômicas e estruturais para essa cautela. Construir uma fábrica de fertilizantes exige investimento elevado, disponibilidade de matérias-primas, energia, infraestrutura logística e escala. Mesmo depois de instalada, uma unidade brasileira precisa produzir a custos competitivos diante de fornecedores estrangeiros que, em alguns casos, têm vantagens significativas de acesso a recursos naturais ou energia. É justamente nesse ponto, destaca Anna Dolores, que a efetividade do Profert será testada.

    “O incentivo fiscal é uma parte da equação. A empresa também olha para energia, logística, disponibilidade de matéria-prima, infraestrutura, tributação e previsibilidade regulatória. Se esses fatores não caminharem juntos, podemos ampliar a capacidade instalada sem necessariamente reduzir de maneira significativa a dependência das importações”, avalia.

    Do fertilizante importado à soja exportada

    O debate também revela uma aparente contradição da balança comercial brasileira. Afinal, o país figura entre os grandes fornecedores mundiais de alimentos e commodities agrícolas, mas precisa importar em larga escala um dos insumos fundamentais para sustentar essa produção.

    Trata-se de um fluxo de duas mãos. Primeiro, navios chegam carregados de fertilizantes e matérias-primas que abastecem o campo. Meses depois, parte da produção obtida com esses insumos retorna aos portos em forma de soja, milho, açúcar, algodão e outros produtos destinados ao mercado internacional. Por isso, quando o custo do fertilizante sobe, o efeito não termina na importação: ele percorre toda a cadeia produtiva e pode alcançar a margem e a competitividade do produto exportado.

    A questão ganhou ainda mais relevância diante das tensões geopolíticas recentes. Um estudo publicado este ano pelo Banco do Nordeste mostra que, em culturas como milho, trigo e soja, o fertilizante representa uma parcela expressiva do custo operacional. Assim, uma política voltada à produção doméstica também pode funcionar como estratégia de comércio exterior.

    “Existe um efeito nos dois lados da balança. Uma menor exposição na importação de insumos pode trazer mais previsibilidade para a produção e contribuir para preservar a competitividade das exportações agrícolas. O importante é entender que uma coisa está diretamente ligada à outra”, explica Anna Dolores.

    A disputa será pela competitividade

    O Profert terá ainda um mecanismo voltado à inserção do produto nacional no mercado. O texto prevê que o Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert) estabeleça um percentual obrigatório de mistura, em volume, de fertilizantes nacionais aos produtos comercializados, distribuídos e vendidos no país.

    Essa meta começará em 2% e deverá crescer gradualmente até chegar a 10% em 2031. O conselho também acompanhará os resultados do programa e publicará avaliações anuais.

    A medida pode garantir demanda para parte da produção doméstica, mas também levanta uma questão que acompanhará o programa nos próximos anos: quanto custará produzir no Brasil?

    “Se o produto nacional chegar ao mercado significativamente mais caro que o importado, o ganho em segurança de abastecimento poderá vir acompanhado de pressão sobre os custos. Se, ao contrário, os investimentos conseguirem criar escala e aumentar a eficiência da indústria brasileira, a política poderá começar a alterar uma relação comercial consolidada há décadas”, avalia Anna Dolores. “É por isso que o resultado não poderá ser medido apenas pelo volume de créditos fiscais concedidos ou pelo número de projetos habilitados.”

    Por fim, ela destaca que será necessário observar quantas fábricas efetivamente sairão do papel, quanto a capacidade nacional aumentará, quais tipos de fertilizantes passarão a ser produzidos e qual parcela das compras externas poderá ser substituída sem comprometer a competitividade do agronegócio.

  • O novo negócio do agro regenerativo: fazendas que viraram point de observação de aves

    O novo negócio do agro regenerativo: fazendas que viraram point de observação de aves

    Áreas ambientais recuperadas em fazendas de Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais estão sendo transformadas em destino de turistas e observadores de aves do Brasil e do exterior. A tendência foi discutida em live promovida pela Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (FERA), em parceria com a Avistar e a Associação Nacional de Turismo de Observação de Vida Silvestre (TOVS).

    Quatro produtores foram reunidos no encontro para mostrar, na prática, como a recuperação ambiental de suas propriedades foi transformada em negócio. Segundo eles, o modelo gera renda extra, cria empregos e valoriza a terra sem substituir a atividade produtiva original.

    Fazenda no Mato Grosso une pecuária, energia solar e turismo

    A Fazenda Anacã, em Alta Floresta (MT), é gerida há 12 anos por Fernão Prado, presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur) da cidade, com base no uso múltiplo do território.

    “O turismo é feito pelas áreas de preservação permanente, sem precisar abrir uma porteira além do acesso principal. As trilhas viraram aceiros que ajudam na conservação da área”, explica.

    Uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) também foi criada na propriedade, assim como corredores ecológicos que conectam fragmentos de floresta antes isolados. “Temos pecuária na área aberta, 12 hectares arrendados para energia solar e, nas áreas verdes, o turismo de observação”, detalha Fernão.

    Oito empregos diretos já foram gerados pelo turismo na fazenda, segundo o produtor.

    Lodge no Mato Grosso une pesquisa e observação de vida silvestre

    O Jardim da Amazônia Lodge foi cofundado por Raquel Zanchet, diretora regional da TOVS no Centro-Oeste. A propriedade está situada em uma zona de transição entre Amazônia e Cerrado, o que favorece a diversidade de espécies, segundo ela.

    O empreendimento foi iniciado com o extrativismo de madeira e, depois, direcionado à piscicultura antes de chegar ao turismo. “Os peixes trouxeram mais aves, que atraíram muitos observadores. Foi assim que decidimos abrir um hotel”, conta Raquel.

    Três trilhas de observação do macaco-aranha, do jatobá e da lagoa são oferecidas hoje na propriedade, onde também é mantida uma estação de pesquisas própria.

    Cafeicultura regenerativa em Minas Gerais atrai fauna e visitantes

    O café de montanha é cultivado há 20 anos por Valmor Santos Filho em Bueno Brandão (MG). Desde 2017, a produção é feita em sistema agroflorestal.

    “Com esse trabalho de agricultura regenerativa, começaram a aparecer muitos bichos e pássaros, por causa da diversidade que criamos”, diz.

    A 160 km de São Paulo, produção de café, torrefação, consultoria e turismo sazonal são combinados hoje na propriedade. Colheita e torra são celebradas em turismos específicos, enquanto produtos artesanais locais, como queijo e geleia, também são comercializados.

    Pousada paulista vira destino internacional de observadores de aves
    (Foto: Reprodução/UNB)

    A Pousada da Fazenda, erguida sobre uma antiga fazenda de café do século 19 em Monte Alegre do Sul (SP), foi transformada por Luís Gonzaga Truzzi em point de observação de aves. Beija-flores passaram a ser alimentados na propriedade, e a chegada de espécies diferentes foi notada logo em seguida.

    Fotos foram divulgadas em sites especializados, o que atraiu outros observadores. “Nunca achei que fosse receber gente para fotografar aqui. Hoje vem gente do mundo inteiro: China, Vietnã, Estados Unidos”, conta.

  • FAO reúne 70 representantes na América Latina para destravar investimentos no campo

    FAO reúne 70 representantes na América Latina para destravar investimentos no campo

    A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) reuniu, nos dias 18 e 19 de agosto, 70 representantes de governos, mecanismos de integração regional, agências de cooperação internacional, bancos de desenvolvimento, instituições financeiras, setor privado e organizações da agricultura familiar da América Latina e do Caribe. O encontro, realizado em Santiago, no Chile, permitiu identificar condições, instrumentos e parcerias para transformar oportunidades produtivas em investimentos concretos e ampliar o financiamento dos sistemas agroalimentares da região.

    A região desempenha papel estratégico na produção mundial de alimentos, mas enfrenta ao mesmo tempo elevada exposição aos riscos climáticos. Ainda assim, o financiamento destinado aos seus sistemas agroalimentares continua insuficiente e fragmentado diante da magnitude dos desafios e das oportunidades existentes.

    “América Latina e Caribe é uma potência agroalimentar mundial, mas 32 milhões de pessoas ainda sofrem com a fome e cerca de 70% daqueles que produzem alimentos enfrentam barreiras para acessar financiamento formal”, afirmou Rene Orellana Halkyer, subdiretor-geral e representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe. “Temos uma oportunidade e uma responsabilidade compartilhada: transformar o potencial agroalimentar da região em investimentos concretos que fortaleçam a segurança alimentar, a resiliência climática e as oportunidades de desenvolvimento rural”, acrescentou.

    O ministro da Agricultura do Chile, Jaime Campos Quiroga, que participou do encerramento do encontro, destacou: “As soluções financeiras, no nosso entendimento, devem considerar as diferentes escalas produtivas, as características específicas dos territórios e as condições particulares enfrentadas diariamente pelos agricultores”.

    Encontro define cinco prioridades para ampliar o financiamento rural

    Ao longo dos dois dias, os participantes identificaram cinco prioridades para fortalecer o financiamento dos sistemas agroalimentares da América Latina e do Caribe.

    A primeira delas propõe superar a lógica dos projetos isolados e construir carteiras territoriais de investimento que articulem produção, cadeias de valor, infraestrutura, conectividade, serviços técnicos, mercados, evidências e instrumentos financeiros adequados às características de cada território.

    O encontro também reforçou a importância de investir nas capacidades humanas e organizacionais do meio rural por meio da educação financeira, da assistência técnica, da gestão empresarial e do associativismo. Os participantes ainda destacaram a necessidade de consolidar ecossistemas de colaboração entre governos, bancos de desenvolvimento, instituições financeiras, cooperativas, empresas, investidores, academia, organismos de cooperação internacional e organizações territoriais.

    Outra prioridade identificada coloca a ação climática no centro das decisões de investimento, transformando compromissos ambientais em carteiras financiáveis voltadas à promoção de práticas produtivas sustentáveis, à restauração de ecossistemas, ao desenvolvimento de infraestrutura resiliente, à melhoria da gestão da água e à ampliação do acesso a seguros agropecuários.

    Por fim, os participantes concordaram que os pequenos e médios agricultores familiares, suas organizações e as comunidades rurais devem ocupar posição central nessa agenda. Para isso, propuseram avançar em soluções financeiras adaptadas às suas necessidades e integradas em ecossistemas financeiros territoriais capazes de combinar financiamento, assistência técnica, informação, gestão de riscos, acesso a mercados e alianças estratégicas.

    FAO administra mais de US$ 1 bilhão em projetos na região

    Durante o encontro, a FAO destacou seu trabalho com os países da região para criar as condições necessárias e conectar as necessidades e oportunidades dos territórios aos recursos financeiros, ao conhecimento, à inovação e aos investimentos.

    “Atualmente, a FAO administra mais de um bilhão de dólares em mais de 400 projetos nos 32 países da região”, afirmou Orellana Halkyer. Essa presença permite à organização atuar a partir dos territórios e, ao mesmo tempo, conectar políticas públicas, capacidades técnicas, evidências e parcerias com instituições financeiras e demais atores do desenvolvimento.

    O encontro também alimentou um debate regional de longo prazo sobre a necessidade de construir ecossistemas financeiros territoriais capazes de responder às diferentes necessidades de produtores, organizações, cooperativas e empresas agroalimentares, transformando oportunidades em investimentos viáveis, sustentáveis e inclusivos.

    Diálogo reuniu governos, bancos de desenvolvimento e investidores

    O evento contou com autoridades governamentais da região, entre elas Jaime Campos Quiroga, ministro da Agricultura do Chile; Vanderley Ziger, secretário de Agricultura Familiar e Agroecologia do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar do Brasil; Enrique Estuardo Maldonado, subsecretário de Investimento para o Desenvolvimento da Secretaria de Planejamento e Programação da Presidência da Guatemala (Segeplan); e Julián Arias, vice-ministro administrativo do Ministério da Agricultura e Pecuária da Costa Rica.

    Representando a banca pública, os bancos de desenvolvimento e as instituições financeiras regionais, participaram representantes do Crédito Agrícola de Habilitação (CAH) do Paraguai, do Banco do Nordeste do Brasil, do Banco de Desenvolvimento Produtivo da Bolívia, do Banco Centro-Americano de Integração Econômica (BCIE) e do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF).

    O encontro também reuniu representantes do setor financeiro privado e de organizações voltadas a investimentos e inclusão financeira. Entre elas Cresol, Fundação Profin, Aliados de Impacto, BBVA e Vox Capital, além de representantes de organismos internacionais e mecanismos de integração regional, como a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), a Comunidade do Caribe (Caricom), o Banco Mundial, a Reunião Especializada sobre Agricultura Familiar do Mercosul (REAF/Mercosul) e o Escritório da Coordenadora Residente do Sistema das Nações Unidas.

    O diálogo reforçou a necessidade de avançar para uma nova geração de investimentos capazes de combinar produtividade, inclusão, resiliência climática e desenvolvimento territorial, além de fortalecer a articulação entre atores públicos e privados para ampliar as oportunidades de financiamento nos territórios rurais.

  • Cidade do agro em Goiás cultiva abóboras gigantes para decorar ruas

    Cidade do agro em Goiás cultiva abóboras gigantes para decorar ruas

    Rio Verde, no sudoeste de Goiás, decora praças, rotatórias, avenidas e prédios públicos com abóboras gigantes durante agosto e setembro. A iniciativa marca o aniversário do município, que completou 178 anos em 5 de agosto.

    Embora a cidade se destaque pela produção de soja, milho e carnes, as grandes abóboras atraem moradores e visitantes nessa época do ano.

    Frutos viram atração em Goiás

    Além de decorar a cidade, as abóboras ajudam a recuperar uma tradição ligada à história de Rio Verde. Com o passar do tempo, os moradores passaram a associar um antigo apelido à identidade cultural do município.

    Tradição começou no século XIX

    A relação entre Rio Verde e as abóboras teria começado por volta de 1870. Na época, cerca de 3 mil soldados do Exército brasileiro, recém-saídos da Guerra do Paraguai, montaram acampamento entre os rios Verdão e Verdinho.

    A região recebia o nome de Arraial de Nossa Senhora das Dores do Rio Verde. Como estavam famintas, as tropas encontraram nas abóboras abundantes nos campos uma fonte de alimento.

    O escritor Visconde de Taunay relatou o episódio. Segundo a tradição local, o relato deu origem aos apelidos “Arraial das Abóboras” e “Rio Verde das Abóboras”.

    Apelido ganhou novo significado

    Durante décadas, os moradores receberam a denominação com desconforto. Mais recentemente, contudo, o cultivo e a exposição dos frutos ajudaram a recuperar essa referência histórica.

    Com isso, o apelido deixou de representar apenas uma lembrança negativa. Atualmente, ele também integra a memória e a identidade de Rio Verde.

    Prefeitura cultiva abóboras

    A Prefeitura de Rio Verde reserva seis hectares para o cultivo das abóboras usadas na decoração da cidade. A área produz cerca de 500 toneladas por ano, o equivalente a aproximadamente 10 mil frutos.

    Cada unidade pesa, em média, 50 quilos. Alguns exemplares, porém, chegam a quase 100 quilos.

    Variedades se destacam pelo tamanho

    A área cultiva as variedades norte-americanas Atlantic Giant e Mammoth. Nos Estados Unidos, os produtores também usam as duas durante as comemorações do Halloween.

    Além dessas espécies, a produção inclui a variedade brasileira Landa. Conhecida como abóbora seca, ela apresenta formato alongado, semelhante ao de um “pescoço”.

    Produção ocorre na Colônia dos Americanos

    Uma fazenda localizada a poucos quilômetros do centro de Rio Verde concentra o cultivo. A propriedade fica na região conhecida como Colônia dos Americanos.

    Produtores dos Estados Unidos e seus descendentes chegaram à área em meados da década de 1970. A migração ocorreu quase um século depois do episódio associado à origem dos apelidos da cidade.

    Dessa forma, a produção atual reúne diferentes momentos da história local.

    Irrigação exige controle na seca

    Os produtores cultivam as abóboras durante o período seco do Cerrado. Por isso, precisam controlar a irrigação e acompanhar o manejo constantemente.

    Segundo Camila Caixeta, engenheira agrônoma da prefeitura responsável pela área, os frutos exigem cuidados específicos para atingir o peso, o formato e a coloração esperados.

    A equipe realiza a adubação e acompanha o desenvolvimento das plantas. Além disso, aplica uma espécie de “protetor solar” nas abóboras.

    Manejo protege os frutos

    O produto ajuda a preservar a aparência das abóboras até a colheita. Depois, os trabalhadores retiram os frutos da lavoura e os levam para praças, avenidas e outros pontos da cidade.

    Por isso, a equipe planeja o cultivo tanto para garantir a produção quanto para manter a qualidade visual das abóboras expostas durante as comemorações.

    Tradição aproxima campo e cidade

    Para Camila, as abóboras representam mais do que uma produção agrícola. Por meio dos frutos, a cidade apresenta sua história a moradores e visitantes.

    Todos os anos, a prefeitura espalha as abóboras por Rio Verde durante as celebrações do aniversário municipal. Assim, um apelido antes visto de forma negativa ganhou novo significado e passou a representar a identidade local.

    Ao mesmo tempo, a tradição aproxima a produção rural da população em um dos principais polos do agronegócio brasileiro.