Autor: Deuseane Queiroz

  • Operação flagra fraude em fábrica de ração para aves ornamentais

    Operação flagra fraude em fábrica de ração para aves ornamentais

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) participou nesta quarta-feira (26/08) de uma operação de fiscalização em uma fábrica de alimentos para pássaros ornamentais em Sumaré (SP). A ação foi coordenada pela Polícia Civil e integrou o Programa de Vigilância em Defesa Agropecuária para Fronteiras Internacionais (Vigifronteiras). As equipes cumpriram mandados de busca e apreensão em quatro endereços ligados à investigação.

    As equipes constataram que a empresa fraudava a linha de produção. Segundo a investigação, funcionários inseriam clandestinamente fipronil, um inseticida, na composição dos alimentos para aves. Depois, envasavam e comercializavam os produtos de forma ilegal. Os produtos ainda recebiam falsa finalidade terapêutica e antiparasitária.

    A investigação também identificou dois imóveis residenciais vinculados ao esquema. Nesses locais, os suspeitos fracionavam e manipulavam insumos farmacêuticos ativos. Os agentes também encontraram frascos irregulares dentro de um veículo pertencente a um funcionário da fábrica.

    Duas pessoas foram presas em flagrante

    Durante as diligências, a polícia prendeu duas pessoas em flagrante pelas irregularidades constatadas no local. Na sequência, os agentes apreenderam todo o material irregular e coletaram amostras para análise laboratorial, conforme prevê a legislação.

    A ação integra a Operação Ronda Agro, que combate de forma contínua o comércio de produtos e insumos agropecuários ilícitos. Participaram também o Centro Integrado de Inteligência, Segurança Pública e Proteção Ambiental (CIISPA), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, e o Laboratório Federal de Defesa Agropecuária em São Paulo (LFDA-SP).

    Fiscalização também mirou o comércio eletrônico

    Paralelamente à ação presencial, as equipes realizaram a Operação Ronda Agro Ciber IV, dentro do módulo e-Monitora do Programa de Monitoramento do Trânsito e Comércio Irregular de Produtos Agropecuários (Monitora). Elas identificaram anúncios ligados aos produtos investigados e solicitaram sua remoção em plataformas de comércio eletrônico. Ao todo, as plataformas removeram mais de 500 links relacionados à investigação.

    Fipronil pode causar intoxicação e morte das aves

    A adulteração de alimentos para animais com substâncias não prescritas representa um grave risco sanitário. Esse tipo de fraude pode causar intoxicação grave, resistência a tratamentos e até a morte das aves. Por isso, a legislação classifica o comércio de insumos agropecuários falsificados como infração sanitária grave e crime.

    As operações especiais de fiscalização buscam proteger os ativos agropecuários do país e resguardar a saúde pública e animal. Além disso, visam coibir a concorrência desleal no comércio de insumos.

  • Como o conhecimento tradicional da Amazônia está moldando a agricultura regenerativa

    Como o conhecimento tradicional da Amazônia está moldando a agricultura regenerativa

    A Amazônia se torna referência para sistemas agroflorestais que combinam conhecimento tradicional e ciência. A Verthic, empresa que atua há mais de uma década na região, já implantou mais de 110 Sistemas Agroflorestais (SAFs) a partir dessa combinação.

    Segundo a empresa, o segredo está em entender as características de cada território. Por isso, a Verthic constrói projetos que unem saberes locais, capacidade técnica e planejamento.

    Além disso, cresce o interesse por sistemas produtivos que povos indígenas e comunidades tradicionais desenvolvem há gerações. Na Amazônia, essas comunidades combinam espécies agrícolas e florestais e criam experiências que servem de referência para modelos mais adaptados aos territórios. Contudo, isso não significa substituir o conhecimento científico nem transformar práticas tradicionais em soluções universais.

    Ciência valida os saberes tradicionais

    A própria Embrapa reconhece que comunidades indígenas, caboclas e ribeirinhas desenvolveram diferentes sistemas agroflorestais na Amazônia. A partir dessas experiências, pesquisadores sistematizaram conhecimentos agronômicos, ecológicos e econômicos. Assim, desenvolveram novos arranjos adaptados às necessidades das comunidades rurais.

    O conceito também encontra respaldo em iniciativas internacionais. A FAO define a agrofloresta como a integração deliberada de árvores, cultivos agrícolas e animais. Segundo a organização, essa integração diversifica a produção e a renda, melhora a saúde do solo e a gestão da água, e aumenta a resiliência às mudanças climáticas.

    “Conhecimento não é receita pronta”, diz Verthic

    Para Fernando Vincenti, fundador da Verthic, o conhecimento tradicional funciona como uma fonte de informação sobre o território, e não como uma fórmula pronta.

    “O conhecimento das comunidades não deve ser tratado como uma receita pronta, mas como uma fonte importante de informação sobre o território. Temos o desafio de criar projetos que consigam integrar esse conhecimento à ciência e às necessidades econômicas e ambientais de cada região, sempre com participação efetiva das comunidades”, afirma Vincenti.

    Projetos recentes ampliam a abordagem

    Essa lógica já orienta iniciativas em curso. Em 2024, a Embrapa iniciou, em parceria com o Fundo Vale e outras instituições, um projeto em território indígena no Maranhão. A iniciativa busca conhecer experiências locais de sistemas agropecuários e conservação florestal, além de mapear desafios de produção a partir do conhecimento tradicional.

    Já em 2025, FAO, MCTI e Instituto Mamirauá se uniram para desenvolver, com comunidades locais, metodologias para recuperar cerca de 26 mil hectares de florestas alagáveis da Amazônia. O projeto também prevê capacitação das comunidades e o desenvolvimento de iniciativas ligadas à cadeia produtiva da restauração.

    Participação local aumenta chances de continuidade

    Para a Verthic, essas experiências mostram que o desenvolvimento sustentável na Amazônia depende de conectar conhecimento territorial, ciência, políticas públicas, financiamento e execução em campo.

    “Quando um projeto é construído com participação de quem vive no território, aumentam as possibilidades de que ele seja adequado à realidade local e tenha continuidade. O objetivo não é romantizar o conhecimento tradicional, mas reconhecê-lo como um dos elementos que podem contribuir para projetos tecnicamente consistentes e economicamente viáveis”, completa Vincenti.

  • Do intestino à inteligência artificial: como a nutrição influencia o frango

    Do intestino à inteligência artificial: como a nutrição influencia o frango

    A carne de frango é uma das proteínas mais consumidas no Brasil. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o consumo per capita chegou a uma estimativa de 46,7 quilos por habitante em 2025.

    Antes de chegar ao supermercado, porém, a ave passa por um processo que vai muito além da ração. Esse processo envolve escolha de ingredientes, equilíbrio de nutrientes, saúde intestinal, manejo e uso de tecnologia para acompanhar o desenvolvimento dos animais. Confira cinco pontos que explicam o papel da nutrição na avicultura atual.

    A alimentação vai além da ração

    A nutrição animal reúne várias etapas: seleção de ingredientes, equilíbrio de nutrientes e acompanhamento dos resultados durante a produção. Dessa forma, a dieta atende às necessidades das aves em cada fase do desenvolvimento.

    Segundo Juliana Vieira Marques de Souza Pereira Batista, líder de tecnologia para aves da Cargill Nutrição e Saúde Animal, um erro comum é acreditar que a opção mais barata é sempre a melhor. Na prática, porém, a escolha precisa considerar a oferta adequada de nutrientes e o desempenho das aves ao longo do ciclo produtivo.

    “Quando falamos em nutrição animal, estamos falando de uma série de decisões que impactam o desempenho das aves e os resultados da produção”, explica Juliana.

    Por isso, o objetivo não é apenas fornecer alimento, mas formular uma dieta que contribua para o desenvolvimento das aves e para a eficiência da produção.

    Saúde intestinal ganha peso na produção

    O intestino tem papel central no aproveitamento dos nutrientes, já que é nele que o organismo digere os alimentos e os transforma em energia e crescimento.

    Por isso, temas como microbiota, probióticos e qualidade dos ingredientes, antes restritos à pesquisa, passaram a integrar as estratégias adotadas no campo.

    “Hoje há menos tolerância para erro. Pequenas alterações podem afetar o consumo de alimento e o desempenho dos lotes”, afirma Juliana.

    Assim, o acompanhamento constante do sistema digestivo ajuda os profissionais a identificar alterações e a ajustar as estratégias de alimentação com mais precisão.

    Dados e inteligência artificial entram na conta

    A tecnologia também passou a integrar a alimentação animal. Na avicultura, ferramentas de análise de dados, inteligência artificial e modelos de previsão ajudam os profissionais a acompanhar o comportamento das aves e a identificar possíveis desafios.

    Com esses recursos, as equipes analisam consumo, desenvolvimento dos lotes e condições de criação, e assim tomam decisões mais adequadas a cada sistema de produção.

    Ainda assim, reunir dados não basta: o desafio está em transformar as informações em conhecimento útil para orientar o manejo e melhorar a eficiência.

    A nutrição depende de toda a cadeia

    A alimentação não funciona isolada. Sanidade, manejo, ambiente de criação e objetivos da produção também interferem no desempenho das aves.

    Por isso, veterinários, zootecnistas, nutricionistas e equipes de campo trabalham de forma integrada para tomar as decisões nutricionais, acompanhar resultados e corrigir problemas.

    Esse trabalho conjunto dá mais consistência à produção e permite avaliar a alimentação junto com as demais condições que influenciam o desenvolvimento dos animais.

    Não existe fórmula única para todos os frangos

    A nutrição tem papel importante, mas representa apenas parte do processo. Qualidade da água, manejo, conforto térmico, sanidade e condições do ambiente também influenciam o desempenho das aves.

    Por isso, uma estratégia que funciona em um sistema pode exigir ajustes em outro, já que cada produção tem características próprias de clima, estrutura, objetivos e condições de criação.

    Quando esses fatores trabalham de forma integrada, a cadeia produtiva consegue buscar melhores resultados e reduzir os impactos de desequilíbrios no ambiente ou na alimentação.

    O que chega à mesa começa muito antes

    A carne de frango carrega um processo que começa muito antes da indústria: seleção de ingredientes, formulação de dietas, acompanhamento da saúde intestinal e análise constante de informações.

    Essa evolução mostra como ciência, tecnologia e conhecimento passaram a integrar uma produção presente diariamente na mesa dos brasileiros. Saber o que o frango come, portanto, também significa entender como diferentes áreas trabalham juntas para produzir uma das proteínas mais consumidas no país.

  • Brasil e países árabes podem viver nova fase de parceria, diz embaixador

    Brasil e países árabes podem viver nova fase de parceria, diz embaixador

    O embaixador do Marrocos no Brasil, Nabil Adghoghi, propôs nesta terça-feira (25) a criação de uma “parceria de nova geração” entre o Brasil e os países árabes. A declaração ocorreu durante o Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, promovido pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira em São Paulo.

    Adghoghi, que também é decano do Conselho dos Embaixadores Árabes, apresentou cinco prioridades para ampliar a cooperação bilateral: comércio, investimentos, segurança alimentar, economia digital e pesquisa científica. Segundo ele, a instabilidade internacional torna urgente o fortalecimento dos laços entre as duas regiões.

    Rotas marítimas diretas

    Primeiro, o embaixador defendeu reforçar a logística entre Brasil e países árabes. Para isso, propôs criar rotas marítimas diretas, que funcionariam como plataformas de processamento de exportações. Essas rotas atenderiam o mercado árabe e também cargas destinadas à Europa e à Ásia.

    Em seguida, Adghoghi propôs reforçar o arcabouço jurídico para investimentos. Segundo ele, Marrocos e Brasil poderiam firmar acordos para incentivar o fluxo de capital e evitar a dupla tributação, nos moldes do acordo que o Marrocos já mantém com o Mercosul. O embaixador também sugeriu criar mecanismos para proteger as cadeias de suprimentos.

    PIX inspira digitalização do comércio

    Além disso, o diplomata apontou a digitalização das operações de importação e exportação como prioridade estratégica. Ele citou o PIX e os serviços digitais do governo brasileiro como exemplos capazes de inspirar inovações na parceria comercial entre as regiões.

    “Nossa esperança é que esse esforço resulte em iniciativas e projetos concretos que reflitam nossa ambição comum e inaugurem novos horizontes que valorizem todas as contribuições e capacidades que possuímos”, afirmou Adghoghi.

    Por fim, o embaixador apontou a pesquisa científica e a capacitação de talentos como prioridades para os próximos passos da parceria. Segundo ele, essas ações ajudarão as empresas a administrar os impactos da inteligência artificial nos negócios e a atrair mais investimentos.

  • Mulheres do agro se reúnem em Ribeirão Preto para discutir liderança e negócios

    Mulheres do agro se reúnem em Ribeirão Preto para discutir liderança e negócios

    O 4º Encontro Estadual de Mulheres do Agro será realizado nesta sexta-feira (28), em Ribeirão Preto (SP). A organização espera cerca de 5 mil participantes, entre produtoras rurais, empresárias, trabalhadoras e lideranças do setor.

    O evento começa às 9h, no Taiwan Centro de Eventos, e é promovido pela Comissão Semeadoras do Agro, da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp).

    Participação feminina cresce

    Dados do Censo Agropecuário 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que as mulheres comandavam cerca de 947 mil propriedades rurais no país. O número correspondia a aproximadamente 19% do total de estabelecimentos agropecuários.

    Em 2006, a participação era de 12,7%. Desde então, as mulheres ampliaram a atuação na gestão das propriedades, na agroindústria artesanal, no turismo rural, na comercialização e na criação de novos negócios.

    Esse movimento pode aumentar a autonomia financeira e diversificar as fontes de renda das famílias rurais. Também amplia a participação feminina nas decisões de propriedades, cooperativas, sindicatos e entidades do agronegócio.

    Comissão atua há quatro anos

    A Comissão Semeadoras do Agro completa quatro anos em 2026. Segundo a Faesp, nesse período o grupo passou por mais de 100 municípios paulistas e alcançou dezenas de milhares de mulheres com ações de capacitação e formação de redes.

    A iniciativa também incentiva a participação feminina na gestão das propriedades e em posições de liderança no setor. Entre as frentes de atuação estão o estímulo a negócios, a presença em sindicatos e cooperativas e o desenvolvimento de competências de gestão.

    Programação inclui sucessão

    O encontro terá debates sobre empreendedorismo, liderança feminina, tecnologias agrícolas, inteligência de mercado e sucessão familiar. Esses temas estão ligados à gestão dos negócios e à continuidade das atividades rurais entre gerações.

    A programação também abordará qualidade de vida, bem-estar e saúde integral da mulher rural. Estão previstas as palestras “Seja seu próprio padrão”, com Mariana Xavier; “Pilares de uma vida plena”, com Fernanda Hernandes Rasmussen; e “A força da mulher”, com Ana Hickmann.

    Serviço
    • Evento: 4º Encontro Estadual de Mulheres do Agro.

    • Data: 28 de agosto de 2026, sexta-feira.

    • Horário: a partir das 9h.

    • Local: Taiwan Centro de Eventos.

    • Endereço: Avenida Dr. Francisco Gugliano, 2710, Royal Park, Ribeirão Preto (SP).

    • Expectativa: cerca de 5 mil participantes.

    • Realização: Comissão Semeadoras do Agro e Faesp.

  • El Niño até 2027: por que seus contratos agrícolas podem não estar protegidos

    El Niño até 2027: por que seus contratos agrícolas podem não estar protegidos

    INPE, INMET e CEMADEN já confirmaram o El Niño em 2026. As três instituições projetam que o fenômeno siga ativo pelo menos até o início de 2027. Diante disso, o agronegócio brasileiro entra em um novo ciclo de risco.

    O fenômeno muda o regime de chuvas e eleva as temperaturas. Além disso, ameaça compromissos contratuais: entregas, transporte, fornecimento e capacidade de pagamento entram na mira dos efeitos climáticos.

    Um levantamento recente mostra o tamanho da preocupação. Diversas empresas brasileiras já projetam os impactos do El Niño sobre agronegócio, logística, transporte e seguros. Entre os riscos mapeados estão quebra de safra, aumento da inadimplência e maior sinistralidade.

    Contratos precisam prever riscos climáticos com clareza

    Por isso, a advogada Ana Franco Toledo, sócia do escritório Dosso Toledo Advogados, defende que o momento pede uma nova análise sobre os contratos do setor. “Durante muito tempo, eventos climáticos foram tratados nos contratos como situações excepcionais. Hoje, diante da maior frequência e intensidade desses fenômenos, é preciso avaliar se as cláusulas existentes realmente oferecem proteção para as partes”, afirma.

    Segundo ela, um contrato de fornecimento agrícola precisa prever, de forma clara, o que acontece quando uma quebra de safra ou um evento climático impede o cumprimento de uma obrigação.

    Ainda assim, a especialista alerta: as cláusulas de caso fortuito e força maior ganham relevância, mas não podem virar um atalho automático. “A ocorrência de um evento climático não significa, por si só, que uma empresa ou produtor estará automaticamente isento de suas obrigações. É necessário analisar o contrato, a natureza do evento, a possibilidade de previsão, as consequências concretas e a relação entre o fenômeno e o eventual descumprimento.”

    Impacto atinge toda a cadeia produtiva

    O El Niño não afeta apenas quem produz diretamente no campo. As alterações no regime de chuvas também repercutem sobre transportadoras, armazéns, indústrias processadoras, fornecedores de insumos, instituições financeiras e empresas que dependem de produtos agrícolas.

    As previsões oficiais para o trimestre agosto-setembro-outubro reforçam esse cenário desigual. Enquanto o Sul deve registrar chuvas acima da média, o centro-norte do país tende a enfrentar volumes abaixo do esperado. Além disso, as temperaturas devem ficar acima da média em boa parte do território nacional.

    Para o advogado Ricardo Dosso, também sócio do escritório, esse contexto transforma a gestão contratual em uma ferramenta de proteção empresarial. “Quando uma propriedade ou uma indústria depende de uma cadeia de fornecimento, um problema climático em um determinado ponto pode produzir efeitos em toda a operação. Por isso, as empresas precisam olhar seus contratos de forma integrada, avaliando prazos de entrega, volumes, preços, garantias, seguros e mecanismos para situações extraordinárias.”

    Ele chama atenção especial para os contratos de longo prazo. “Uma empresa que assina hoje um contrato de fornecimento para os próximos meses precisa considerar que estará atravessando um período de maior incerteza climática. Não significa deixar de fazer negócios, mas estabelecer regras claras para situações em que as condições originalmente previstas sejam profundamente alteradas.”

    Seguro rural não substitui o planejamento jurídico

    O seguro rural também merece atenção redobrada. Neste ano, a necessidade de proteção financeira diante dos riscos climáticos ganhou ainda mais peso.

    Contudo, segundo Ana Franco Toledo, contratar uma apólice não substitui o planejamento jurídico. “Seguro e contrato são instrumentos complementares. O produtor precisa entender exatamente quais riscos estão cobertos pela apólice e, ao mesmo tempo, verificar quais são suas responsabilidades perante compradores, fornecedores e parceiros comerciais. Uma coisa não substitui a outra.”

    Por isso, Ricardo Dosso reforça a importância da documentação em eventuais disputas. Laudos, registros meteorológicos, documentos da produção e comunicações entre as partes precisam ser preservados desde já, já que será fundamental comprovar o que aconteceu e como o evento climático afetou o cumprimento da obrigação.

    Prevenção pode evitar disputas milionárias

    Diante de um El Niño potencialmente forte, os especialistas defendem uma mudança de postura no setor. O planejamento jurídico deve acontecer antes do problema, não depois que a safra já tiver sido perdida.

    “O melhor momento para discutir como uma empresa ou produtor vai lidar com um evento climático é antes que ele aconteça. Depois do prejuízo, as alternativas são muito mais limitadas. A revisão preventiva dos contratos permite estabelecer responsabilidades e procedimentos de forma clara”, afirma Ana.

    Além disso, Ricardo Dosso destaca que a prevenção também protege a relação comercial entre as partes. “Um contrato bem estruturado não serve apenas para proteger uma empresa em uma eventual disputa. Ele também oferece previsibilidade para que as partes saibam como agir diante de uma situação extraordinária. Em um agronegócio cada vez mais profissionalizado, administrar riscos climáticos também é administrar riscos jurídicos e financeiros.”

    Com o El Niño já confirmado e a possibilidade de persistir até 2027, os especialistas recomendam agir agora. Produtores rurais e empresas do agronegócio devem aproveitar o período que antecede os principais ciclos produtivos para revisar contratos, conferir coberturas de seguro, organizar documentos e estabelecer, com antecedência, mecanismos para situações de força maior e desequilíbrio econômico.

  • Pesquisa da Unesp usa genéticas nativas de aves para transformar produção de ovos em aldeia guajajara

    Pesquisa da Unesp usa genéticas nativas de aves para transformar produção de ovos em aldeia guajajara

    A Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, em Botucatu, recebeu mais de 800 ovos de quatro genéticas de aves nativas. A doação veio do Laboratório Experimental de Avicultura (Labeave), da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Com o material, a instituição paulista avança em uma pesquisa que pode transformar a produção de alimentos em comunidades indígenas.

    Foto: Divulgação

    Parte dos ovos vai abastecer a etapa experimental do doutorado de Daniela Sartori, do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia da Unesp. Sob orientação da professora Ibiara Correia de Lima Almeida Paz, o estudo busca desenvolver um modelo de produção de ovos voltado a comunidades indígenas. A proposta prioriza a autonomia produtiva e o aproveitamento dos recursos já disponíveis nos territórios.As genéticas recebidas são Caneludo do Catolé, Peloco, Meia Perna e Carne Negra. Uma parte dos ovos também vai formar núcleos de conservação dessas linhagens em São Paulo.

    Parceria une pesquisa e conservação genética

    Para Daniela Sartori, a parceria com a UESB tem papel estratégico, já que une a produção de ovos à conservação e ao uso sustentável da diversidade genética avícola. Segundo a pesquisadora, a cooperação combina a experiência da UESB na conservação dessas genéticas com a estrutura da Unesp em produção, nutrição, comportamento e bem-estar animal.

    Ronaldo Vasconcelos, coordenador do Labeave, destaca outro ganho da colaboração: o uso das aves em uma pesquisa em outro estado comprova o potencial das genéticas baianas. Segundo ele, isso mostra que as aves podem ser criadas em todo o país. E reforça o reconhecimento da qualidade da linhagem para sistemas alternativos de produção.

    Projeto beneficia 30 mulheres indígenas no Maranhão

    A pesquisa tem como território inicial a Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, onde cerca de 30 mulheres guajajara vão participar diretamente da iniciativa. A equipe pretende construir, de forma participativa, um sistema de produção adequado às condições locais, unindo conhecimentos científicos e tradicionais.

    Um dos principais desafios do projeto é reduzir a dependência de ração e aves comerciais compradas fora da comunidade. Por isso, a equipe também vai avaliar estratégias de alimentação com recursos produzidos localmente, como mandioca, feijão-guandu, batata-doce e moringa. As aves serão criadas em sistema ao ar livre, com avaliação de aspectos produtivos, comportamentais e de bem-estar.

    Produção pode gerar renda e segurança alimentar

    A produção de ovos deve contribuir, inicialmente, para a segurança e a soberania alimentar das famílias indígenas, ampliando o acesso a uma fonte de proteína animal. Os excedentes poderão gerar renda e, no futuro, abastecer mercados locais e institucionais.

    Foto: Divulgação

    Embora cerca de 30 mulheres participem diretamente, o benefício deve alcançar também suas famílias e comunidades, já que o projeto prevê a multiplicação de conhecimentos. A equipe já planeja adaptar e replicar o modelo em outras comunidades indígenas e tradicionais.

    “A doação representa diversidade genética e conhecimento compartilhado. E a possibilidade de contribuir para a construção de sistemas avícolas mais autônomos, resilientes e conectados aos territórios onde serão desenvolvidos”, afirma Daniela Sartori.

  • Goiás aposta no etanol de milho para turbinar agro e indústria

    Goiás aposta no etanol de milho para turbinar agro e indústria

    A expansão do processamento de grãos pode aumentar a geração de valor e fortalecer cadeias produtivas em Goiás. O tema foi discutido na abertura da 7ª DATAGRO Abertura de Safra – Soja, Milho e Algodão, realizada na quinta-feira (20/8), no World Trade Center, em Goiânia.

    André Rocha, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e do Sifaeg/Sifaçúcar, afirmou que a integração entre produtores, cooperativas e indústria cria novas oportunidades para a economia do Estado.

    Segundo ele, a indústria transforma matérias-primas agrícolas em produtos de maior valor agregado. O avanço da produção de etanol de milho é um dos principais exemplos desse processo.

    Além do biocombustível, as usinas produzem DDG (grãos secos de destilaria), utilizado na alimentação animal. Para Rocha, o insumo pode reforçar a pecuária goiana, que tem um dos maiores rebanhos bovinos do país e ocupa a segunda posição entre os estados em confinamento.

    “Junto com esse etanol vai vir o DDG. Goiás hoje tem um dos maiores rebanhos bovinos do Brasil, o segundo maior Estado em confinamento. Nós vamos não só aumentar isso, mas aumentar também as oportunidades para a nossa pecuária”, afirmou.

    Mais valor dentro do Estado

    Plínio Nastari, presidente da DATAGRO, também destacou o potencial da industrialização dos grãos para ampliar o valor gerado ao produtor rural.

    Além do etanol de milho, ele citou os impactos sobre segmentos como biodiesel, fertilizantes e produção de proteína animal. Com isso, a soja e o milho passam a abastecer diferentes cadeias dentro de Goiás.

    Investimentos dependem de articulação

    A programação também abordou fatores que influenciam a produção e os investimentos no agronegócio. Entre eles estão:

    • mercado futuro

    • seguro rural

    • tributação

    • logística

    • comércio exterior

    • mudanças climáticas

    • políticas públicas

    • competitividade

    Os debates reforçaram a necessidade de articulação entre produtores, cooperativas, indústria e poder público para enfrentar os desafios do setor e ampliar a capacidade de investimento.

    Lideranças participam do evento

    O encontro reuniu representantes das cadeias de soja, milho e algodão. Participaram o secretário de Estado de Indústria, Comércio e Serviços, Joel de Sant’Anna Braga Filho, representando o governador Daniel Vilela; o presidente da Aprosoja-GO, Clodoaldo Calegari; o presidente da Agopa, Aroldo Rodrigues da Cunha; além de representantes da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) e do setor industrial.

    Para Rocha, a aproximação entre campo e indústria ajuda Goiás a aproveitar melhor suas vocações produtivas.

    “É graças a esse trabalho conjunto que nós estamos, dia a dia, construindo um Goiás melhor”, afirmou.

  • Cães no campo: os aliados que protegem lavouras e conduzem rebanhos

    Cães no campo: os aliados que protegem lavouras e conduzem rebanhos

    Há milênios os cães acompanham o trabalho no campo. O que começou como companhia, porém, virou parceria produtiva: hoje esses animais atuam na segurança das propriedades, no manejo de rebanhos e no bem-estar de quem trabalha na área rural.

    Cães treinados protegem plantações e instalações contra predadores e invasores. Eles alertam os produtores diante de qualquer movimento suspeito e, assim, ajudam a afastar ladrões e intrusos.

    Essa vigilância constante reduz riscos materiais. Além disso, traz mais tranquilidade para quem trabalha na propriedade, já que os trabalhadores conseguem se concentrar melhor nas tarefas diárias.

    Apoio na rotina da fazenda

    Além de guardar, os cães ajudam na rotina operacional. Os produtores podem treiná-los para buscar ferramentas, auxiliar na condução de máquinas e controlar pragas, como roedores, em silos e armazéns.

    Essa versatilidade economiza tempo e aumenta a produtividade nas atividades agrícolas. Por isso, os cães se tornam aliados valiosos que vão muito além da função de guarda.

    Efeitos no bem-estar dos trabalhadores

    A convivência com os cães também traz benefícios emocionais. Eles oferecem companhia constante e ajudam a reduzir o estresse e a sensação de isolamento comuns na rotina rural.

    Trabalhadores que convivem com esses animais relatam maior disposição para se engajar nas tarefas diárias. Dessa forma, a presença dos cães reforça seu valor além da utilidade prática.

    Pastoreio: precisão no manejo do rebanho

    No pastoreio, os cães ocupam papel central, principalmente em propriedades com grandes rebanhos. Raças como border collie e australian shepherd carregam instinto natural para gerenciar o movimento do gado.

    australian shepherd
    Australian shepherd. Foto: Ted Van Pelt/Flickr

    Treinados para guiar, reunir e controlar os animais, eles reduzem o esforço físico exigido dos pastores. Assim, com um cão bem treinado, o pastor cobre áreas maiores com rapidez e mantém o rebanho seguro em movimento.

    Comunicação entre pastor e cão

    O sucesso do pastoreio depende da comunicação entre pastor e cão. Os animais aprendem comandos verbais e gestuais, o que cria uma linguagem própria e fortalece o vínculo entre os dois.

    Essa sinergia melhora a eficiência do manejo. Além disso, reduz o estresse do rebanho, que se sente mais seguro sob a supervisão do cão.

    Contribuição para a sustentabilidade

    O trabalho dos cães no pastoreio também traz ganhos ambientais. Ao ajudar no manejo do gado, eles evitam o superpastejo e permitem que a vegetação se recupere, o que preserva o ecossistema.

    Como reduzem a necessidade de cercas e contenções agressivas, os cães favorecem uma abordagem mais sustentável na agricultura.

    Da proteção das plantações ao manejo eficiente do gado, os cães seguem como aliados indispensáveis na agricultura moderna. Assim, contribuem para a segurança, a produtividade e a sustentabilidade das propriedades rurais e, ao mesmo tempo, fortalecem o vínculo entre humanos e animais no campo.

  • São Paulo domina produção de lichia no Brasil e amplia exportações para a Europa

    São Paulo domina produção de lichia no Brasil e amplia exportações para a Europa

    Produtores do Alto Vale do Paranapanema aproveitam a colheita de verão para atender à alta demanda europeia pela fruta nas festas de fim de ano.

    São Paulo produz 80% de toda a lichia colhida no Brasil. O sudoeste do estado, na região do Alto Vale do Paranapanema, concentra a maior parte das plantações do país e lidera esse mercado.

    Itaí ocupa o topo do ranking nacional, com cerca de 170 hectares de pomares em expansão. Paranapanema aparece na sequência, com cerca de 20 hectares. Os produtores da região esperam ultrapassar 200 hectares já na próxima safra.

    Calendário de colheita garante vantagem na exportação

    O calendário de colheita dá às cidades paulistas uma vantagem competitiva importante. Embora a China lidere a produção global, os países asiáticos colhem a fruta no meio do ano, durante o verão do hemisfério Norte. Em São Paulo, por outro lado, a colheita acontece entre dezembro e fevereiro, no verão brasileiro, justamente o período das festas de fim de ano na Europa, quando a demanda pela fruta cresce.

    Foto: Divulgação

    Segundo o engenheiro agrônomo Euvaldo Neves Pereira Junior, chefe da CATI Regional Avaré, essa diferença de safra permite exportar a preços competitivos para o mercado europeu. Assim, o período de colheita atrai compradores internacionais: os produtores já registram pedidos de até 150 toneladas voltados exclusivamente à exportação.

    O sucesso da lichia paulista também depende das condições naturais da região. O inverno seco e frio, sem geadas, somado à altitude entre 600 e 700 metros e ao verão quente e chuvoso, forma o ambiente ideal para o desenvolvimento da fruta.

    Pomares duram décadas e estimulam diversificação

    A longevidade dos pés de lichia traz outra vantagem aos produtores: as plantas seguem produtivas por períodos de 30 a 300 anos, sem precisar de renovação do pomar. Por isso, os agricultores investem na diversificação. Além da variedade Bengal, a mais cultivada, os produtores de Itaí já plantam outros sete tipos de lichia.

    Eles também transformam parte da colheita em aguardente e mel de flor de lichia. Além do consumo in natura, a fruta chega ao mercado nas versões congelada, desidratada e liofilizada.