A meta do governo federal de reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados de cerca de 85% para menos de 70% até 2030, prevista no Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), deve acelerar investimentos não apenas na ampliação da capacidade produtiva, mas também em tecnologias capazes de tornar a indústria nacional mais eficiente, competitiva e sustentável.
O PNF, instituído pelo Decreto nº 10.991/2022 e revisado pelo Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert), reúne cinco diretrizes, 27 metas e 168 ações de curto, médio e longo prazos. O plano busca reativar, concluir ou ampliar fábricas estratégicas de fertilizantes no país, com foco especial nos nitrogenados e fosfatados, nutrientes que, junto ao potássio, formam a base da maior parte dos insumos usados na agricultura brasileira.
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Nessa frente, a Petrobras já retomou as fábricas de nitrogenados de Araucária (PR) e Três Lagoas (MS) e amplia encomendas às unidades da Unigel em Sergipe e na Bahia, enquanto o setor privado investe em projetos como o complexo de fosfatados da Serra do Salitre (MG).
Projeto de lei
O movimento ganhou reforço concreto neste mês. O Senado aprovou, em 11 de agosto de 2026, o projeto que prevê até R$ 10 bilhões em subsídios, ao longo de cinco anos, para estimular a produção nacional de fertilizantes.
A medida cria o Profert, com até R$ 2 bilhões anuais em créditos fiscais para novas fábricas e modernização das existentes. O programa também estabelece uma mistura mínima de fertilizantes nacionais, que começa em 2% e chegará a 10% em 2037.
A iniciativa busca reduzir a dependência brasileira das importações. Atualmente, o país importa 97,8% do potássio, 89% do nitrogênio e 66,4% do fósforo consumidos. Desde 2003, a produção nacional caiu 50,9%.
Tecnologia se torna peça-chave para a competitividade do setor
Para especialistas, porém, aumentar a capacidade instalada representa apenas parte da solução. A competitividade da produção nacional dependerá cada vez mais da incorporação de tecnologias voltadas ao controle de qualidade laboratorial e de processos.
“O desafio não é apenas produzir mais fertilizantes, mas produzir com qualidade, eficiência e custos competitivos. A tecnologia será um fator decisivo para que a indústria brasileira consiga competir com grandes produtores internacionais”, afirma Rafael Soares, diretor da Pensalab.
Equipamentos de instrumentação analítica permitem acompanhar em tempo real os parâmetros críticos da produção, o que garante maior controle da composição dos fertilizantes e reduz perdas com reprocessamento, variabilidade de matérias-primas e over-spec nutricional ao longo do processo industrial.
“Com monitoramento contínuo, a indústria consegue assegurar que o produto atenda aos padrões exigidos pelos órgãos reguladores, além de otimizar o uso de matérias-primas e reduzir desperdícios. Isso melhora a produtividade e aumenta a competitividade das plantas nacionais”, explica Soares.
Automação industrial ganha força nas plantas nacionais
A automação industrial também avança como aposta estratégica do setor.
Sistemas automatizados de controle de qualidade elevam a eficiência das linhas de produção ao monitorar 100% da produção em tempo real, o que permite liberar lotes rapidamente sem aumento proporcional dos custos, além de reduzir os resíduos químicos e o consumo energético das plantas.
Para o especialista em ESG Roberto Gonzalez, a inovação tecnológica também vai impulsionar a expansão dos chamados fertilizantes de menor impacto ambiental.
“Além de contribuir para processos mais eficientes, novas tecnologias ajudam a atender exigências ambientais cada vez mais rigorosas. E ampliam as oportunidades para produtos alinhados às práticas de sustentabilidade exigidas pelo mercado internacional”, afirma.
Produção nacional tem caráter estratégico
O economista Adenauer Rockenmeyer, conselheiro do Corecon-SP, avalia que fortalecer a produção nacional se tornou uma questão estratégica para o país.
“Embora as questões envolvendo a Venezuela não tragam grandes impactos ao setor, este é um momento de cautela. Ampliar a produção interna é fundamental para garantir competitividade e estabilidade, especialmente diante da implementação do acordo Mercosul-União Europeia”, afirma.
O apoio federal ao setor, por sua vez, já tem mobilizado recursos expressivos. Além dos R$ 10 bilhões previstos pelo Profert, o programa também autoriza até R$ 1 bilhão em 2026 para conter o impacto da alta dos fertilizantes sobre os consumidores, em um cenário de aumento dos custos relacionados a fornecedores como o Irã.
Somados aos investimentos privados já anunciados, os aportes reforçam o esforço para reduzir a exposição do agronegócio brasileiro, responsável por cerca de 8% do consumo mundial de fertilizantes, às oscilações do mercado internacional.


















