Autor: Henrique Rodarte

  • Mama-cadela: fruta pouco conhecida é potência nutricional

    Mama-cadela: fruta pouco conhecida é potência nutricional

    A mama-cadela (Brosimum gaudichaudii) ganha espaço nas pesquisas científicas como uma das frutas nativas mais promissoras do Cerrado brasileiro. Pequena, de casca amarelada a alaranjada e polpa doce e fibrosa, ela carrega um apelido que combina com sua textura: “chicletinho do Cerrado”. Apesar do potencial nutricional, a fruta ainda não faz parte do cardápio da maioria dos brasileiros, nem mesmo de quem vive no coração do bioma.

    mama-cadela
    Foto: Frutos Atrativos do Cerrado/Flickr

    A espécie também atende por outros nomes populares, como mamica-de-cadela, algodão-do-campo, amoreira-do-campo, mururerana, apé, conduru e inharé, e ocorre naturalmente em estados como Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia, São Paulo e Paraná. Com cerca de dois centímetros de diâmetro, o fruto lembra a pitanga em tamanho, mas se diferencia pelo sabor mais adocicado.

    Pesquisa revela o valor nutricional escondido na fruta

    A nutricionista Grazieli Pascoal, professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), decidiu investigar a composição da mama-cadela durante o pós-doutorado justamente por notar a escassez de dados sobre o fruto. O trabalho, conduzido na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, identificou uma combinação rica em compostos bioativos, carotenoides e fibras. Substâncias que vão além do papel de nutrientes e atuam como antioxidantes no organismo.

    “A mama-cadela pode trazer vários benefícios em uma alimentação saudável, especialmente em relação à quantidade de vitamina A e fibra alimentar”, afirma Pascoal.

    Os números impressionam. Uma porção de seis unidades da fruta cobre mais de 60% da recomendação diária de vitamina A. Portanto, um patamar comparável ao da cenoura. A mama-cadela também se destaca como fonte relevante de vitamina C, nutriente que favorece a absorção de ferro e reforça a ação antioxidante do corpo.

    Além da vitamina A: fibras, antifúngicos e tradição medicinal

    Outros estudos reforçam esse potencial. Pesquisas da Universidade de São Paulo indicam que a fruta apresenta boa quantidade de fibras, o que favorece o funcionamento intestinal, além de atividade antifúngica, com capacidade de inibir o crescimento da Candida albicans. A planta também carrega um longo histórico de uso tradicional no Cerrado: comunidades locais preparam chás e cataplasmas a partir de folhas, ramos, casca e raiz, seguindo práticas passadas entre gerações.

    Vale um alerta sobre esse uso tradicional: compostos da raiz, conhecidos como psoralenos e bergaptenos, têm ação fotossensibilizante e por isso foram historicamente associados ao tratamento de manchas de pele, como no vitiligo. Mas especialistas alertam que o uso inadequado pode causar lesões graves na pele, o que reforça que essa prática não deve ser feita por conta própria. É por isso que as pesquisas recentes concentram o interesse no fruto, e não na raiz, priorizando o uso alimentar seguro da planta.

    Por que o Brasil ainda ignora suas próprias frutas nativas

    Nos últimos anos, o consumo de ultraprocessados cresce no país, enquanto o de frutas e vegetais in natura recua. Portanto, uma tendência que preocupa especialistas em saúde pública e se conecta ao aumento de doenças crônicas. “Nossa alimentação está muito monótona”, resume Pascoal, ao defender o resgate de frutos nativos como forma de diversificar o prato dos brasileiros.

    mama-cadela
    Foto: Leandro Luciano/Flickr

    Essa monotonia também afeta quem produz. Pequenos agricultores enfrentam dificuldade para escoar frutas pouco conhecidas como a mama-cadela, e a ausência de políticas públicas que valorizem alimentos nativos empurra o produtor rural para culturas mais tradicionais e com mercado consolidado.

    O caminho para colocar a mama-cadela no prato dos brasileiros

    Para Pascoal, reconhecer o valor nutricional da mama-cadela é o primeiro passo para transformá-la em um alimento culturalmente relevante outra vez. A pesquisadora integra ainda o desenvolvimento da Tabela de Composição de Alimentos Regionais e da Biodiversidade Brasileira, iniciativa que cataloga espécies nativas como essa.

    Portanto, com investimento em pesquisa e políticas que incentivem a biodiversidade alimentar, a fruta tem potencial para conquistar espaço na dieta nacional, somando benefícios à saúde e sustentabilidade no campo. “É fundamental resgatar os saberes sobre essas plantas e a riqueza do nosso bioma”, conclui Pascoal.

    Com informações do Jornal da USP.

  • Alerta: parasita da alface que causa diarreia explosiva afeta milhares de pessoas

    Alerta: parasita da alface que causa diarreia explosiva afeta milhares de pessoas

    O número de infecções por ciclosporíase associadas ao consumo de alface contaminada ultrapassa 27 mil casos nos Estados Unidos, segundo estimativas de autoridades sanitárias americanas. A doença, causada pelo parasita microscópico Cyclospora cayetanensis, provoca sintomas gastrointestinais intensos, mas raramente evolui para óbito.

    “Você mal consegue chegar ao banheiro”, descreve o epidemiologista Alejandro Macías, da Universidade de Guanajuato, ao comentar os episódios de diarreia explosiva e vômitos que caracterizam o quadro clínico.

    O surto também ultrapassou as fronteiras americanas. A UKHSA (Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido) confirmou 67 casos entre viajantes britânicos que visitaram recentemente o território mexicano e retornaram ao país de origem já infectados, em 2026.

    Como o parasita contamina alimentos e provoca a infecção

    A contaminação humana acontece pela ingestão de água ou alimentos crus lavados de forma inadequada. Diferentemente de vírus e bactérias comuns, o Cyclospora cayetanensis precisa permanecer um período no ambiente depois de eliminado nas fezes antes de se tornar infeccioso. Essa característica torna a transmissão direta entre pessoas incomum, segundo especialistas.

    A ciclosporíase provoca diarreia intensa e aquosa, cólicas abdominais, náuseas, cansaço extremo e perda de peso. Em casos sem tratamento adequado, os sintomas podem persistir por semanas, com períodos de melhora seguidos de recaídas.

    A agência britânica orienta viajantes que visitam áreas de risco a consumir apenas água engarrafada e evitar vegetais crus ou frutas com casca. A recomendação vale especialmente para quem passa pelo México e por regiões dos EUA atingidas pelo surto, hoje concentrado sobretudo em Michigan e em estados vizinhos do Centro-Oeste americano.

    O Brasil corre risco de importar o surto?

    Segundo levantamento do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde de São Paulo, o Brasil não importa vegetais frescos de consumo cru dos Estados Unidos nem do México. O que reduz significativamente a chance de o país “importar” diretamente o surto atual. A alface suspeita de originar o surto, fornecida pela empresa Taylor Farms e distribuída, entre outras redes, à Taco Bell, circula apenas no mercado americano.

    Mesmo assim, o país já enfrentou um episódio semelhante: em 2000, um surto de ciclosporíase atingiu cerca de 350 pessoas na cidade de General Salgado, no interior paulista, com o parasita confirmado em análises do Hospital das Clínicas da USP.

    Especialistas também apontam um problema à parte: a subnotificação. Exames de fezes de rotina, usados na maior parte dos postos de saúde brasileiros, frequentemente não detectam o Cyclospora. A identificação exige colorações especiais de laboratório ou testes moleculares (PCR de painel gastrointestinal), pouco disponíveis fora de centros de referência. O que sugere que casos isolados no Brasil podem passar despercebidos mesmo fora de um cenário de surto.

    Grupos de maior risco e cuidados de prevenção

    Crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas imunossuprimidas apresentam maior risco de desidratação e complicações. A lavagem cuidadosa de frutas e verduras reduz o risco de contaminação, mas não elimina totalmente o parasita, resistente aos desinfetantes de uso doméstico mais comuns.

    Para viajantes que se dirigem a áreas afetadas, a recomendação médica soma-se à da UKHSA: preferir água engarrafada, evitar saladas prontas ou vegetais crus de origem duvidosa e descartar folhas externas de hortaliças antes do preparo.

  • Vídeo de garça resgatada por família de pescadores no MS volta a viralizar

    Vídeo de garça resgatada por família de pescadores no MS volta a viralizar

    Um vídeo que mostra o resgate de uma garça presa por uma linha de pesca voltou a circular nas redes sociais nos últimos dias, repetindo o sucesso que já havia feito em 2021. As imagens mostram o locutor de rodeio Marcio Alexandre Gomes libertando o animal com a ajuda de um canivete, em um momento gravado no Rio Paranaíba, em Mato Grosso do Sul.

    https://www.instagram.com/p/CN6CrkpD-vL/

    O caso ocorreu em abril de 2021, nas proximidades do Parque Aquático de Paranaíba (MS). Marcio, então com 45 anos, passeava de barco com a esposa, Lara Amaral, e a filha do casal, de 20 anos, quando avistou a garça presa pelo bico em um galho, imobilizada por uma linha de pesca.

    A família decidiu agir na hora. Com um canivete, Marcio cortou aos poucos toda a linha que prendia o bico da ave, evitando que ela se ferisse ainda mais durante o processo.

    “Ficamos bem surpresos. Não tinha mais ninguém passando por ali e sabíamos que, se não tirasse ela dali, ia morrer. Ela não estava aguentando muito tempo mais”, relatou Lara Amaral na época.

    Ave espera o fim do resgate antes de partir

    Um dos trechos que mais chamou atenção nas imagens mostra a garça parada, sem se debater, enquanto o pescador retira cuidadosamente cada volta da linha. O animal só se movimentou depois que Marcio concluiu o trabalho.

    Segundo relatos da família à imprensa local, a ave ainda permaneceu por alguns instantes próxima ao barco antes de voar. O que os pescadores interpretaram como um gesto de agradecimento.

    “Rapaz, que coisa impressionante. Ela está agradecendo”, comemorou Marcio ao ver a garça alçar voo sem nenhum ferimento aparente.

    Pesca ajudou locutor a superar período difícil

    Marcio contou que a atividade de pescaria se tornou parte importante da própria rotina durante a pandemia de Covid-19, período em que enfrentou um quadro de depressão após ficar afastado das pistas de rodeio, sua atividade profissional.

    Reprodução: Redes Sociais

    O Rio Paranaíba, na divisa entre Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, passou a ser um refúgio para ressignificar o tempo livre. Meses antes do resgate da garça, o próprio locutor havia vivido uma situação de risco. Ele sofreu um naufrágio e passou uma noite inteira à deriva nas águas do rio, sendo resgatado somente na manhã seguinte. Ou seja, para ele, salvar a ave meses depois teve um significado especial, como uma forma de retribuir a ajuda que também recebeu.

    Na época do resgate, Marcio aproveitou a repercussão do vídeo para reforçar um alerta a outros pescadores. O descarte de linhas e materiais de pesca nos rios representa risco direto para aves e outros animais silvestres, que podem ficar presos ou se ferir gravemente ao se alimentar próximo às margens.

  • Cientistas encontram vírus letal que dizima pererecas

    Cientistas encontram vírus letal que dizima pererecas

    Um vírus altamente letal dizimou girinos e derrubou a população de pererecas em uma reserva de Santa Catarina. Pesquisadores apoiados pela FAPESP comprovaram, pela primeira vez na América do Sul, que surtos recorrentes de ranavirose reduziram em 83% a reprodução da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) em uma lagoa da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário Rã-Bugio, em Guaramirim (SC). A doença também atinge répteis e peixes.

    perereca-macaco (Phyllomedusa distincta)
    Endêmica da Mata Atlântica, a perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) é uma das espécies que pode estar mais ameaçada do que se pensava pelo ranavírus. Foto: Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio

    A equipe publicou o estudo ontem (20/08) na revista Biodiversity and Conservation. O trabalho traz a primeira evidência robusta de que o ranavírus pode provocar o colapso de populações silvestres na América do Sul, um risco já documentado na Europa. Os dados mostram ainda que a ameaça se agrava em períodos secos, já que a baixa umidade do ar favorece os surtos da doença.

    Vírus circula há décadas em rãs-touro

    O ranavírus infecta com frequência rãs-touro (Aquarana catesbeiana) criadas comercialmente ou soltas na natureza, geralmente sem causar doença aparente. Nas últimas décadas, porém, os registros de mortandades suspeitas de espécies nativas cresceram nas Américas do Sul e do Norte, e cientistas atribuem parte desses casos ao patógeno. Pesquisadores e ambientalistas temem que outros episódios de morte em massa causados pelo vírus ainda passem despercebidos.

    Nos girinos, a infecção avança rápido e destrói tecidos de órgãos vitais, como o fígado. Os animais infectados apresentam inchaço abdominal, vermelhidão extrema, úlceras e hemorragias múltiplas, que chegam a atingir os olhos.

    “Apesar de várias mortes suspeitas documentadas no continente americano, é a primeira vez que se comprova a ranavirose, por meio de análises dos tecidos histológicas dos fígados dos animais e da análise dos vírus isolados deles, como causa das mortes em uma espécie nativa”, afirma Aline Fonseca, autora do estudo, realizado durante seu doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

    Reserva registra ao menos três surtos em dois anos

    A lagoa da RPPN Santuário Rã-Bugio registrou o primeiro evento de mortandade em janeiro de 2024. Dois novos surtos se seguiram: um entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, e outro entre novembro de 2025 e março de 2026. Ao todo, os pesquisadores encontraram 324 girinos mortos, 315 de perereca-macaco e nove de perereca-de-pijama (Boana bischoffi).

    Em apenas uma lagoa de Santa Catarina, foram encontrados 324 girinos mortos entre 2024 e 2026, a imensa maioria confirmada como vítima de ranavirose. Foto: Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio

    Os testes confirmaram o ranavírus em 279 pererecas-macaco (88,6%) e em oito pererecas-de-pijama (88,9%). As pererecas-macaco apresentaram carga viral elevada, com quase 10 bilhões de cópias do vírus por microlitro de amostra; nas pererecas-de-pijama, esse número ficou em cerca de 2 bilhões. Como o total de pererecas-de-pijama mortas foi pequeno, os cientistas não classificaram o episódio dessa espécie como mortandade em massa.

    Para confirmar os sinais clínicos da doença, a equipe analisou por histologia os fígados de 13 girinos, técnica que revela danos aos tecidos e às células por microscopia. As lesões encontradas confirmaram o quadro severo da infecção.

    O estudo integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, coordenado por Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp), com apoio da FAPESP, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.

    Monitoramento de 25 anos revela queda de 83% na população

    Além de confirmar a ranavirose como causa das mortes, os pesquisadores cruzaram dados climáticos das duas semanas anteriores a cada surto para identificar possíveis fatores associados aos óbitos.

    “Realizamos análises estatísticas que pudessem apontar mudanças ambientais e climáticas capazes de contribuir para as mortes, mas nenhum fator teve um peso tão significativo sobre o declínio da população como a ranavirose”, explica Karla Campião, professora da UFPR que orientou o doutorado de Fonseca e obteve o financiamento do CNPq para a pesquisa.

    girinos da perereca-macaco
    Os girinos da perereca-macaco apresentaram vermelhidão compatível com hemorragia, além de inchaço abdominal. Testes moleculares confirmaram infecção por ranavírus como causa da morte Foto: Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio

    Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl, do Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade, monitoram a lagoa continuamente desde 1999 e também assinam o estudo. Durante o período reprodutivo, entre junho e fevereiro, a dupla conta diariamente as massas de ovos depositadas ao redor da lagoa. As fêmeas dobram folhas da vegetação sobre os ovos para protegê-los do ressecamento, e os girinos caem na água assim que eclodem.

    Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, logo após as mortandades, o número de massas de ovos ficou muito abaixo do registrado nos mesmos meses entre 1999 e 2004. Com base nesses dados, os pesquisadores calcularam o declínio populacional em 83%.

    Baixa umidade dispara risco de surto

    Nenhum fator ambiental isolado explicou as mortes ao longo dos anos. Mas os cientistas identificaram um salto abrupto no risco de surto quando a umidade cai de 90% para 65% nas duas semanas anteriores à mortandade.

    “Provavelmente, o vírus está presente no ambiente o tempo todo, sem causar doença, mas a baixa umidade pode fazer com que ele aumente a própria replicação e cause um surto. É sabido ainda que o sistema imune dos anfíbios pode ficar comprometido em baixas taxas de umidade, o que facilita a infecção”, sugere Fonseca.

    A redução do volume de água na lagoa também concentra os girinos em uma área menor, o que facilita a transmissão do vírus entre os animais.

    Pesquisadores vão investigar museus e áreas vizinhas

    A equipe segue monitorando a lagoa do Santuário Rã-Bugio e planeja coletar amostras em áreas próximas para verificar a prevalência do ranavírus na região.

    “Esse vírus também pode ser uma grande ameaça para a conservação dos anfíbios. Há mais de uma década estamos estudando o fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis) como causador de mortandades e extinções de anfíbios. Porém, este vírus, que já está espalhado pela Mata Atlântica, pode também estar fazendo o mesmo. Assim, precisamos aprofundar os estudos para entender o real perigo decorrente da presença do ranavírus”, diz Toledo, da Unicamp.

    O pesquisador destaca ainda a importância de examinar anfíbios preservados em museus de zoologia para entender o impacto histórico do ranavírus. Em um trabalho recente, seu grupo já havia detectado que o fungo quitrídio infectava anfíbios brasileiros desde 1916. Ou seja, antes mesmo da introdução da rã-touro no país, espécie até então apontada como a principal porta de entrada do fungo no Brasil.

    “Talvez o ranavírus também esteja aqui há muito tempo. Resta saber o que mudou para ele se tornar uma ameaça”, conclui Toledo.

    André Julião | Agência FAPESP

  • Warley Café vence 2ª noite de touros na PBR Brazil em Barretos

    Warley Café vence 2ª noite de touros na PBR Brazil em Barretos

    O sul-mato-grossense Warley Oliveira da Silva, conhecido como Café, venceu a segunda noite de montarias em touro pela final nacional da PBR Brazil (Professional Bull Riders), etapa Barretos, na noite de 21 de agosto. O competidor alcançou a nota 88,3 no touro Promissor, da Companhia Paulo Emílio.

    Montaria de Warley Oliveira da Silva, o Café Foto: Alberto Gonzaga

    A arena de rodeios do Parque do Peão de Barretos recebeu a pontuação decisiva na 24ª montaria da noite. “Agradeço a Deus por ter conseguido fazer um grande trabalho e essa montaria dedico para todo mundo que torce para mim na festa”, declarou Warley Café após a disputa.

    O jovem Gabriel Henrique da Silva, de Lagoa Formosa (MG) e vencedor da primeira noite, obteve a segunda melhor nota da rodada: 87,8 pontos no touro Mago, da Companhia de Rodeio GM 5 Estrelas. Das 25 montarias realizadas na noite, apenas cinco resultaram em pontuação.

    Ranking nacional tem João Paulo Velasco na liderança

    João Paulo Velasco segue na primeira colocação do ranking nacional da PBR Brazil, com 1.368 pontos, mesmo sem pontuar na montaria do touro Fuzuê, da GM 5 Estrelas.

    A vitória da noite levou Warley Oliveira a 1.011 pontos, posição que garante o segundo lugar geral. Gabriel Henrique da Silva, revelação da temporada 2026, ocupa a terceira posição, com 820 pontos.

    Após o segundo round da etapa Barretos, Gabriel Henrique da Silva lidera a classificação com 175,2 pontos. Warley Oliveira da Silva aparece em segundo lugar, com 174 pontos, seguido por Lucas Araújo, na terceira posição, com 173,6 pontos. Adenilson dos Santos fecha o top 4, com 164,8 pontos.

    Trios de Minas Gerais vencem as duas categorias do Team Penning

    O Team Penning também movimentou a noite de sexta-feira (21), com trios de Minas Gerais conquistando os melhores tempos nas duas categorias da modalidade.

    Na Soma 6, o trio formado por Túlio Goulart Soares Soares (Pratápolis/MG), Bruna Tozzi Calixto Funchal (Passos/MG) e Juarez Antônio da Cruz Júnior (Araxá/MG) cravou o tempo de 19.331. Na Soma 11, Artur Abadio da Silva (Patrocínio/MG), Claudomiro Rocha Neto (Patrocínio/MG) e Juarez Antônio da Cruz Júnior (Araxá/MG) registraram 20.604.

    Team Roping classifica mais cinco duplas para a grande final

    As disputas de Team Roping definiram cinco novas duplas finalistas na 71ª Festa do Peão de Barretos. Na categoria Aberta, Jorge Cury (São José do Rio Preto/SP) e Adriano Augusto Rodrigues (Presidente Prudente/SP) conquistaram o primeiro lugar com o tempo de 5.99.

    Na categoria Amador, o barretense Henrique Geraige e Luís Henrique Malpica, de Colina, obtiveram o melhor tempo: 7.03.

    Tarcila Ferguson Mendes vence os Três Tambores no feminino

    A amazona Tarcila Ferguson Mendes, de Rio Verde (GO), venceu a primeira noite de Três Tambores na categoria Feminino. Entre 11 competidoras, ela cravou o tempo de 17.265 montando o cavalo The Real Deal. Loriane Souto Dias (17.974) e Marília Siqueira de Paiva (18.164) também avançaram para a final.

    Na categoria Mirim, com cinco competidores, a classificação teve Lorenzo Gumieiro Mansanaro Salvador em primeiro lugar (17.746), Tiago Gumieiro Mansanaro Salvador em segundo (18.884) e Maria Eduarda Peres Bessa em terceiro (19.024).

    Armando Losnake lidera a Sela Americana com 86 pontos

    Cinco competidores disputaram a primeira turma da Sela Americana na sexta-feira (21). O campeão de Barretos, Armando Losnake, de Piratininga (SP), alcançou a melhor nota da noite: 86 pontos no animal Bad Influence, da Pro Horse.

    Jan Peter, de Castro (PR), ficou com a segunda melhor nota, 78,50 pontos, seguido por Rafael Araújo, de Itapetininga (SP), com 74 pontos, e Caio Boer, também de Castro (PR), com 69,75 pontos. Apenas Hendrick Baldissera não pontuou entre os competidores. Neste sábado (22), a segunda turma entra na arena em busca de vaga na final do Barretão 2026.

    Israel Silva vence o Bareback com 84 pontos

    O Bareback teve cinco montarias na noite, com Israel Silva, de Cruzeiro do Sul (AC), conquistando a melhor nota: 84 pontos na égua Indiana, da Pro Horse. Ricardo Lorrayed, de Cuiabá (MT), ficou com a segunda colocação, somando 82,50 pontos na égua Jararaca, também da Pro Horse. A segunda turma da modalidade compete neste sábado (22).

    O Ranch Sorting classificou mais seis duplas para as próximas fases, três em cada categoria. Na Amador, Maria Heloysa Ramos Vitória, de Ji-Paraná (RO), e Gustavo Vale Nogueira, de Campo Grande (MS), venceram com o tempo de 28.734.

    Na categoria Aberta, os paulistas Fábio Júnior Aguiar Silva, de Taquaritinga (SP), e Euripedes Rodrigo Gomes Júnior fecharam a noite com o melhor tempo: 32.050.

  • Ranking global mostra disputa acirrada no setor de defensivos agrícolas

    Ranking global mostra disputa acirrada no setor de defensivos agrícolas

    Um levantamento inédito comparou as 20 maiores empresas de Crop Protection do mundo por receita em 2025, isolando o faturamento específico de proteção de cultivos de negócios como sementes, traits, nutrição e distribuição. A pesquisa é assinada por Rafael Gomes, consultor de Portfólio Agroquímico e especialista em mercado, suprimentos e posicionamento técnico, e foi publicada originalmente em seu perfil no LinkedIn.

    A Syngenta lidera o ranking com US$ 13,7 bilhões em receita de Crop Protection em 2025, separados do negócio de sementes da companhia. A Bayer aparece em segundo lugar, com aproximadamente US$ 10,78 bilhões, seguida pela BASF, com US$ 8,54 bilhões, e pela Corteva Agriscience, com US$ 7,50 bilhões. As quatro empresas formam o que Gomes chama de “maior bloco global” do setor.

    Por que comparar essas empresas não é simples

    Segundo Gomes, montar o ranking “parece simples até começar a abrir os números”. As companhias não seguem o mesmo padrão de divulgação. Algumas misturam defensivos com sementes e traits, outras incluem intermediários, nutrição, veterinária, distribuição ou negócios industriais no mesmo balanço. Há ainda empresas de capital fechado e exercícios fiscais distintos entre países.

    Para viabilizar a comparação, o consultor não utilizou a receita agrícola consolidada de cada grupo. Ele aplicou como régua a receita atribuível especificamente à proteção de cultivos e agroquímicos, excluindo negócios não comparáveis, e converteu todos os valores para dólar pelas taxas médias de 2025.

    O critério exigiu ajustes específicos para cada companhia. No caso da Bayer, por exemplo, Gomes separou dos €21,622 bilhões da divisão Crop Science apenas herbicidas (€5,279 bilhões), fungicidas (€2,888 bilhões) e inseticidas (€1,369 bilhões), totalizando €9,536 bilhões, cerca de US$ 10,78 bilhões, e deixou sementes e traits de fora da conta. A BASF passou por processo semelhante: dos €7,561 bilhões somados em fungicidas, herbicidas, inseticidas e tratamento de sementes, o consultor excluiu os €2,026 bilhões da divisão de Sementes e Traits.

    Já a ADAMA teve os US$ 321 milhões de Intermediates & Ingredients removidos do cálculo, restando US$ 3,73 bilhões estritamente em Crop Protection. No caso da UPL, Gomes considerou apenas a UPL Corp, plataforma global de proteção de cultivos do grupo, sem incluir os demais negócios agrícolas da companhia. Já a Sumitomo Chemical entrou no ranking pela abertura específica de Crop Protection Products, equivalente a ¥403,1 bilhões, cerca de US$ 2,69 bilhões.

    As posições mais disputadas e as ressalvas do ranking

    A partir da 9ª colocação, a comparação passou a exigir ainda mais cuidado metodológico. A Albaugh, na 9ª posição, aparece com asterisco por ser uma empresa privada. Sua colocação é uma estimativa baseada em vendas declaradas acima de US$ 2 bilhões e em referências de mercado, já que a companhia não divulga balanços públicos completos. A Sino-Agri Leading, na 13ª posição, recebeu observação própria pelo peso relevante que a distribuição tem em seu modelo de negócio.

    Entre as empresas chinesas, o desafio metodológico foi ainda maior. Gomes precisou separar technical, formulações, intermediários, distribuição e outros negócios químicos dentro de cada grupo. Usar a receita consolidada de companhias como Wynca e Xingfa, por exemplo, elevaria artificialmente suas posições no ranking.

    O avanço chinês entre a 10ª e a 20ª posição

    O dado mais expressivo do levantamento aparece na segunda metade da lista. Nove grupos chineses já ocupam posições entre a 10ª e a 20ª colocação do ranking global. Fazem parte dessa lista Nufarm (Austrália, 11ª), Yangnong Chemical (12ª), Sino-Agri Leading (13ª), Liben Crop Science (14ª), Fuhua Tongda (15ª), Lier Chemical (16ª), Wynca (17ª), Jiangsu Sevencontinent Green Chemical (18ª) e Xingfa (20ª), além da Rainbow Agro, que já figura na 10ª posição com US$ 2,13 bilhões.

    Segundo dados da CCPIA (associação chinesa do setor) citados no levantamento, ADAMA, Rainbow, Yangnong, Sino-Agri e Liben estão entre as cinco empresas chinesas com vendas de pesticidas acima de RMB 10 bilhões em 2025.

    Para Gomes, o movimento reflete uma mudança estrutural no setor. As companhias chinesas avançam “não apenas na fabricação de technical, mas também em formulações, registros, estruturas comerciais e presença internacional”. Ou seja, deixam de atuar apenas como fornecedoras de insumos básicos e passam a competir diretamente em mercados finais.

    Um ranking analítico, não uma comparação contábil auditada

    O próprio autor faz uma ressalva importante sobre a robustez das posições mais próximas entre si. Segundo Gomes, câmbio, período fiscal e escopo de receita podem alterar a ordem das empresas. Especialmente na faixa entre a 20ª e a 22ª posição, onde os faturamentos ficam muito próximos e a colocação pode mudar conforme o critério aplicado.

    Por isso, o consultor recomenda que o levantamento seja lido como um ranking analítico, construído com a melhor informação pública disponível, e não como uma comparação contábil auditada. As fontes utilizadas incluem relatórios anuais e financeiros, apresentações a investidores, divulgações corporativas, além de dados da CCPIA, AgroPages, CCM e S&P Global.

    Veja o ranking completo

    Infográfico crop protection
    Infográfico: Rafael Gomes
  • Conheça a “superfruta” que virou renda extra para produtores

    Conheça a “superfruta” que virou renda extra para produtores

    Entre março e maio, o Planalto Serrano Catarinense ganha um aroma marcante e inconfundível. Chega a época da colheita da goiaba-serrana (Acca sellowiana), fruta nativa do Sul do Brasil que combina sabor doce-acidulado com alto valor nutricional. Cerca de 20 agricultores familiares cultivam a espécie em aproximadamente 20 hectares na região e colhem, em média, entre 15 e 20 toneladas por hectare. Um volume que garante preços de até R$ 30,00 o quilo no varejo.

    Foto: Aires Mariga/ Epagri

    A cultura comercial da goiaba-serrana nasceu na década de 1980, quando a Epagri lançou um programa de pesquisa e domesticação em parceria com a UFSC, a Udesc e produtores locais. “É uma ótima alternativa para diversificação da renda em pequenas propriedades”, afirma Maêve Silveira Castelo Branco, líder do Programa de Fruticultura da Epagri nas regiões de Lages e São Joaquim.

    Hoje, os produtores recebem em média R$ 15,00 pelo quilo da fruta in natura, que chega ao consumidor final por valores entre R$ 20,00 e R$ 30,00 o quilo.

    Fruta mantém casca verde e ganha espaço na culinária gourmet

    Ao contrário da goiaba comum, a goiaba-serrana conserva a casca verde mesmo quando madura, apenas a polpa gelatinosa e aromática vai ao consumo. Além do consumo in natura, a fruta tem conquistado a culinária brasileira em preparações como:

    • Sucos, geleias e doces
    • Licores e espumantes artesanais
    • Sorvetes e molhos gourmet

    Epagri lança cinco variedades para ampliar a colheita

    Desde os anos 1980, a Epagri desenvolve cultivares que aumentam a produtividade e estendem a janela de colheita da fruta. O programa já lançou cinco variedades: Alcântara, Nonante, Helena, Mattos e Pierri.

    “O escalonamento da colheita permite maior rentabilidade aos produtores”, explica Leonardo Araujo, pesquisador da Epagri e coordenador dos estudos com a espécie.

    Compostos antioxidantes reforçam status de “superfruta”

    Pesquisadores classificam a goiaba-serrana como uma “superfruta” por sua concentração de antioxidantes e compostos fenólicos, vitamina C, complexo B e minerais essenciais. “Ela é altamente nutritiva e tem um aroma único”, destaca Araujo.

    Em 2019, a Epagri consolidou o conhecimento técnico sobre a espécie no livro A Cultura da Goiabeira-Serrana, que reúne orientações para cultivo e manejo e serve de referência para novos produtores interessados na cultura.

  • Greening avança e acende alerta para resistência do psilídeo nos citros

    Greening avança e acende alerta para resistência do psilídeo nos citros

    A expansão do greening nos pomares brasileiros reforça a necessidade de aprimorar o controle do psilídeo-dos-citros (Diaphorina citri), inseto responsável pela transmissão das bactérias associadas à doença. Ao mesmo tempo, pesquisas identificam redução da suscetibilidade do vetor a diferentes grupos de inseticidas, o que limita as alternativas disponíveis aos citricultores.

    Divulgação: Ihara

    Levantamento do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) mostra que a incidência de laranjeiras com sintomas de greening no cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo e Sudoeste de Minas Gerais subiu de 44,35%, em 2024, para 47,63%, em 2025. O avanço representa alta de 7,4% e corresponde a quase 100 milhões de árvores afetadas na principal região produtora de citros do país.

    Sem tratamento curativo, o greening reduz a produtividade, encurta a vida útil das plantas e compromete a qualidade dos frutos. Como consequência, a doença aumenta os custos de produção e pressiona a rentabilidade dos citricultores.

    Rotação de inseticidas é essencial

    Diante desse cenário, o manejo da resistência passou a ocupar posição central nos programas fitossanitários. As recomendações do Comitê de Ação à Resistência a Inseticidas (IRAC) indicam a rotação entre diferentes modos de ação como uma das principais estratégias para preservar a eficiência dos produtos e reduzir a pressão de seleção sobre as populações do psilídeo.

    O uso repetido de inseticidas com o mesmo mecanismo de ação favorece a sobrevivência e a multiplicação de indivíduos resistentes. Por isso, os especialistas recomendam evitar aplicações sequenciais de produtos pertencentes ao mesmo grupo químico.

    Pesquisas do Fundecitrus em parceria com o Laboratório de Resistência de Artrópodes da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) já identificaram resistência do psilídeo a piretroides e neonicotinoides em algumas microrregiões do cinturão citrícola. Estudos posteriores também confirmaram o início da resistência à malationa, ingrediente ativo do grupo dos organofosforados.

    Segundo as orientações técnicas divulgadas pelo Fundecitrus, o produtor deve reavaliar o uso desses grupos quando observar falhas de controle e adotar alternativas dentro de um programa de rotação. A recomendação inclui trabalhar com diferentes grupos químicos e evitar a repetição de mecanismos de ação em aplicações consecutivas.

    Manejo integrado reduz riscos

    A rotação de inseticidas, no entanto, não deve ocorrer de forma isolada. O IRAC recomenda combinar o Manejo Integrado de Pragas (MIP) com o Manejo de Resistência a Inseticidas (MRI).

    Entre as principais medidas estão:

    • Utilizar mudas certificadas e produzidas em viveiros protegidos.
    • Monitorar regularmente a presença de psilídeos nos pomares.
    • Aplicar inseticidas conforme a necessidade e as orientações técnicas.
    • Eliminar plantas hospedeiras e reduzir fontes de inóculo próximas à propriedade.
    • Controlar as populações adultas do inseto, principalmente em períodos estratégicos.
    • Alternar aplicações no solo com pulverizações foliares de diferentes modos de ação.
    • Preservar agentes de controle biológico e reduzir o risco de surtos de pragas secundárias.

    A adoção conjunta dessas práticas ajuda a reduzir a população do vetor, diminui a disseminação do greening e prolonga a vida útil das tecnologias disponíveis.

    Novas tecnologias ampliam alternativas

    A evolução da resistência torna necessária a diversificação dos programas de controle. Produtos com diferentes mecanismos de ação permitem ao citricultor estruturar estratégias mais flexíveis e reduzir a dependência de um único grupo de inseticidas.

    “O manejo da resistência deixou de ser uma preocupação futura e passou a ser uma necessidade imediata para a sustentabilidade da citricultura. A incorporação de novas tecnologias registradas para o controle do psilídeo aos programas fitossanitários amplia as alternativas disponíveis aos citricultores ao longo das safras”, afirma o engenheiro agrônomo de Desenvolvimento de Mercado da IHARA, Silvio Marcussi.

    Para o especialista, a integração entre as ferramentas disponíveis será decisiva para enfrentar o avanço da doença.

    “Fortalecer o controle do psilídeo, tendo a rotação entre diferentes modos de ação como um dos pilares, contribui para retardar a evolução da resistência aos inseticidas e preservar a vida útil das moléculas disponíveis”, finaliza Marcussi.

  • Nestlé corta 16 mil vagas e ainda assim aposta pesado no Brasil

    Nestlé corta 16 mil vagas e ainda assim aposta pesado no Brasil

    A Nestlé avança em uma ampla reestruturação global que elimina cerca de 16 mil postos de trabalho até o fim de 2027. Isso é o equivalente a 5,8% do quadro mundial de 277 mil colaboradores da companhia. Ao mesmo tempo, a multinacional suíça mantém o Brasil como prioridade estratégica e reserva R$ 7 bilhões em investimentos no país entre 2025 e 2028.

    O CEO Philipp Navratil anunciou o plano em outubro de 2025, meses depois de assumir o comando da empresa. “O mundo está mudando, e a Nestlé precisa mudar mais rápido”, declarou o executivo, ao justificar a decisão como parte de um esforço para recuperar a confiança dos investidores e melhorar o desempenho financeiro do grupo.

    Cortes atingem principalmente áreas administrativas

    Do total de vagas eliminadas, 12 mil pertencem a funções administrativas e profissionais espalhadas por diferentes países. Enquanto outras 4 mil concentram-se em fabricação e cadeia de suprimentos. A empresa também elevou a meta de economia do programa de reestruturação para 3 bilhões de francos suíços (cerca de R$ 20,5 bilhões) até o fim de 2027. Um valor superior à projeção inicial de 2,5 bilhões de francos.

    Além das demissões, a Nestlé encerra a produção em duas unidades europeias. Na Alemanha, a fábrica de Neuss, próxima a Düsseldorf, parou de fabricar itens como óleo, maionese e mostarda da marca Thomy depois de mais de um século de operação, afetando 145 trabalhadores. Já na Hungria, a unidade de Diósgyőr,especializada em chocolates sazonais das marcas KitKat e Smarties, encerra as atividades em dezembro por causa da queda na demanda por produtos de datas comemorativas. A empresa negocia a venda do complexo húngaro para tentar preservar empregos locais e garante que o KitKat continuará disponível nas prateleiras.

    Reorganização segue turbulência na liderança

    A reestruturação chega em meio a um período conturbado para a multinacional. Em setembro de 2025, a Nestlé demitiu o então CEO Laurent Freixe após uma investigação apontar que ele não havia divulgado um relacionamento com uma subordinada, em violação ao código de conduta da empresa. Navratil, executivo de longa data da companhia e ex-diretor da Nespresso, assumiu o cargo logo em seguida. O então presidente do conselho, Paul Bulcke, também deixou a função antecipadamente.

    Apesar da crise de governança, os resultados operacionais surpreenderam positivamente: as vendas do terceiro trimestre de 2025 cresceram 4,3% em base orgânica, superando as expectativas do mercado, e as ações da empresa saltaram cerca de 8% após o anúncio da reestruturação, a maior alta diária desde 2008. No primeiro semestre de 2026, a companhia registrou 43,1 bilhões de francos suíços em vendas e lucro líquido de 3,47 bilhões de francos.

    Brasil recebe fábrica de R$ 2,5 bilhões enquanto Europa corta vagas

    Enquanto reduz a estrutura na Europa, a Nestlé consolida o Brasil como polo estratégico de crescimento. Em março de 2026, a companhia inaugurou em Vargeão, no Oeste de Santa Catarina, a maior fábrica já construída pela Nestlé Purina no país. Uma unidade de R$ 2,5 bilhões dedicada à produção de alimentos úmidos (sachês) para cães e gatos. A planta usa tecnologias de Indústria 4.0 e opera com energia 100% renovável. E já exporta para o Chile, com expansão prevista para Colômbia e México até o fim de 2026.

    A fábrica gera 140 empregos diretos, 44 indiretos e cerca de 200 terceirizados, além de ter mobilizado 7,2 mil trabalhadores durante a construção. Segundo o CEO da Nestlé Brasil, Marcelo Melchior, o investimento reforça a relevância do país “como um dos mercados mais promissores para o crescimento do negócio pet”.

    A companhia não detalhou até agora se o Brasil será atingido pelo plano global de cortes. O país é hoje o segundo maior mercado da Nestlé fora da matriz suíça, com mais de 30 mil funcionários e produtos presentes em 99% dos lares brasileiros.

    Além dos custos internos, a Nestlé enfrenta desafios como o aumento do preço do cacau e do café, elevação das tarifas de importação nos Estados Unidos e mudanças no comportamento de consumo, com consumidores cada vez mais atentos à saúde. Esses fatores reforçam a estratégia de concentrar recursos em categorias consideradas prioritárias, como petcare, café premium e nutrição. Ao mesmo tempo em que a empresa enxuga áreas de menor competitividade.

  • Produtores de alho em crise; cidade mineira decreta emergência

    Produtores de alho em crise; cidade mineira decreta emergência

    Um dos principais polos produtores de alho do Brasil, o município de São Gotardo (MG), decretou situação de emergência econômica no setor agropecuário diante do agravamento da crise que atinge os produtores rurais da região. Para a Associação Nacional dos Produtores de Alho (ANAPA), a medida confirma oficialmente um cenário que a entidade vem denunciando ao Governo Federal há meses, e a associação agora exige uma reação imediata das autoridades.

    O Decreto nº 263, publicado em 17 de agosto, reúne números que dimensionam a gravidade da crise na cadeia do alho. O custo de produção da cultura chegou a R$ 220 mil por hectare na safra de 2026, enquanto adversidades climáticas reduziram a produtividade média da safra precoce para 13,5 toneladas por hectare.

    Preço de venda não cobre o custo de produção

    Além dos problemas climáticos, o produtor enfrenta forte deterioração das condições de comercialização. Com base na Nota Técnica nº 01/2026 da ANAPA, o decreto registra que o alho mineiro tem sido vendido, em média, a R$ 11,00 o quilo na propriedade. Ou seja, abaixo do custo de produção, que soma R$ 13,30 o quilo. A conta resulta em um prejuízo líquido estimado em R$ 70 mil por hectare.

    O texto do decreto também aponta a pressão que as importações exercem sobre o mercado nacional. Entre os fatores que o município considerou estão as importações massivas e subcotadas provenientes da Argentina, com margem de dumping de 88,2%, além de questões relacionadas ao compromisso de preços aplicado ao alho chinês e decisões judiciais que permitem a entrada do produto estrangeiro sem o devido recolhimento do direito antidumping.

    ANAPA afirma ter enviado mais de 70 ofícios ao Governo

    O presidente da ANAPA, Rafael Cursino, afirma que a entidade vem apresentando sistematicamente ao Poder Executivo dados e propostas para evitar o agravamento da crise.

    “Somente neste ano, a ANAPA encaminhou mais de 70 ofícios ao Executivo alertando sobre o que estava acontecendo. Mostramos o impacto dos juros elevados, a dificuldade financeira dos produtores e a concorrência predatória que estamos enfrentando com o alho importado. As autoridades foram avisadas de que poderíamos chegar a uma situação como esta”, afirma.

    O próprio decreto municipal reconhece a gravidade das informações que a entidade apresentou. Entre os documentos que fundamentam tecnicamente a declaração de emergência estão o Ofício ANAPA nº 053/2026 e o respectivo Memorando Técnico sobre a cadeia produtiva do alho.

    Para Cursino, o decreto de São Gotardo representa um sinal concreto de que a crise já não atinge apenas as propriedades rurais e começa a produzir consequências sobre toda a economia das regiões produtoras.

    “Quando o produtor perde sua capacidade financeira, o impacto chega ao comércio, às revendas de fertilizantes e defensivos, às máquinas agrícolas, aos prestadores de serviços e aos trabalhadores. Existe todo um ecossistema econômico dependente da produção agrícola. É isso que estamos vendo ser colocado em risco”, alerta.

    O Decreto nº 263 reforça essa relação ao apontar que a economia urbana, o setor de serviços, o comércio varejista e parte das receitas municipais dependem diretamente do fluxo de renda e do poder de compra que a agropecuária regional gera.

    Associação cobra medidas de defesa comercial

    Uma das principais cobranças da ANAPA mira uma resposta mais rápida dos órgãos federais responsáveis pela defesa comercial brasileira. A entidade afirma ter apresentado ao Governo Federal levantamentos sobre a concorrência que o alho brasileiro enfrenta, incluindo as condições de entrada dos produtos vindos da Argentina e da China, e cobra a conclusão das análises e a adoção das medidas cabíveis.

    “Nós apresentamos os problemas e também apontamos caminhos para melhorar as condições do mercado e enfrentar a concorrência desleal. O setor produtivo fez a sua parte. Agora precisamos que os órgãos responsáveis analisem essas demandas e tomem as decisões necessárias com a urgência que a situação exige”, afirma Rafael Cursino.

    Além das medidas de defesa comercial, a associação considera indispensável avançar em instrumentos de renegociação e alongamento das dívidas rurais, além de mecanismos de crédito capazes de preservar a capacidade produtiva dos agricultores.

    O decreto de São Gotardo prevê articulação com a União, o Governo de Minas Gerais, instituições financeiras, cooperativas e entidades representativas. E estabelece como um de seus objetivos ampliar o acesso dos produtores a mecanismos de prorrogação, alongamento, renegociação e reestruturação de suas obrigações.

    Crise ameaça mais de 250 mil empregos no país

    A ANAPA alerta que a crise não deve ser tratada como um problema restrito a São Gotardo. A entidade acompanha dificuldades em outras regiões produtoras e teme que a deterioração econômica se espalhe pelos principais polos de produção de alho do país.

    Levantamentos do setor relacionam a cadeia do alho a mais de 250 mil empregos. Isso somando os postos de trabalho diretos e indiretos vinculados à produção e às atividades que dependem dela.

    “Estamos falando de uma cultura que gera muito emprego e renda e que foi construída ao longo de décadas no Brasil. Se não houver medidas urgentes, teremos produtores deixando a atividade, redução da produção brasileira e perda de empregos. O decreto de São Gotardo precisa ser entendido como um alerta para o país”, ressalta Cursino.

    Segundo a associação, o momento exige uma atuação coordenada dos ministérios e órgãos federais responsáveis pela agricultura, comércio exterior, defesa comercial e política econômica.

    “O produtor brasileiro não pede proteção contra a concorrência legítima. O que queremos é concorrência justa e condições para continuar produzindo no Brasil. Os estudos chegaram, os alertas foram emitidos e agora um município importante decreta emergência econômica. É hora de transformar os diagnósticos em medidas concretas”, conclui o presidente da ANAPA.