Autor: Beto Ribeiro

  • Alface sobe até 90% e seca muda mercado de alimentos na Europa

    Alface sobe até 90% e seca muda mercado de alimentos na Europa

    A alface virou um dos principais símbolos da crise climática que atinge a agricultura europeia neste verão.

    No Reino Unido, a combinação de seca prolongada e calor intenso derrubou a produção da hortaliça, reduziu a oferta no mercado e fez o preço no atacado subir cerca de 90%. O cenário levou redes de supermercados, distribuidores e restaurantes a recorrerem a fornecedores da Espanha para manter o abastecimento.

    O problema ocorre justamente no período em que o país normalmente concentra sua produção de verão, diminuindo a necessidade de importações.

    Calor interrompe o desenvolvimento das plantas

    A falta de chuva chegou em um dos momentos mais importantes do ciclo das hortaliças.

    Embora muitos produtores utilizem sistemas de irrigação, a escassez de água reduziu a capacidade de manter o solo úmido durante as sucessivas ondas de calor.

    Como consequência, parte das plantações apresentou crescimento irregular, folhas menores e perda de qualidade comercial.

    Em diversas propriedades, agricultores passaram a colher menos unidades por hectare, reduzindo a oferta disponível para o mercado.

    Espanha volta a abastecer o Reino Unido

    Diante da quebra de safra, distribuidores precisaram reorganizar rapidamente a cadeia de abastecimento.

    Em vez de comprar a produção britânica, empresas voltaram a importar alface cultivada na Espanha, país acostumado a produzir em condições de temperaturas mais elevadas.

    A mudança representa uma situação incomum para esta época do ano, quando a maior parte da demanda costuma ser atendida pelos agricultores locais.

    Além da Espanha, fornecedores da Holanda também passaram a complementar o abastecimento de algumas regiões.

    Preços sobem e pressionam toda a cadeia

    A alta da alface não ocorreu de forma isolada.

    O tomate acumulou aumento superior a 60% no mercado atacadista britânico. A batata também ficou mais cara, enquanto outras hortaliças apresentam tendência de valorização caso o tempo seco continue.

    Para supermercados e restaurantes, o aumento dos custos representa um desafio adicional justamente durante o período de maior consumo de saladas e refeições leves no verão europeu.

    Ao mesmo tempo, produtores enfrentam despesas maiores com irrigação e redução na produtividade.

    Agricultura sente os efeitos das mudanças climáticas

    Plantação de Alface
    Foto: Embrapa/Italo Ludke

    Especialistas avaliam que episódios de calor extremo tendem a se tornar mais frequentes nas próximas décadas.

    As hortaliças estão entre as culturas mais sensíveis às variações de temperatura porque dependem de grande disponibilidade de água e apresentam ciclos curtos de desenvolvimento.

    Quando o solo perde umidade rapidamente, as plantas reduzem o crescimento para preservar energia. Como resultado, a produtividade cai e parte da produção perde valor comercial.

    Esse comportamento já preocupa agricultores em diferentes regiões da Europa.

    Supermercados pedem medidas ao governo

    A crise mobilizou produtores, indústrias e grandes redes varejistas.

    Mais de uma centena de empresas do setor alimentício solicitaram ao governo britânico medidas para fortalecer a produção nacional e reduzir a vulnerabilidade provocada pelos eventos climáticos extremos.

    Entre as reivindicações estão investimentos em infraestrutura hídrica, ampliação da capacidade de armazenamento de água e incentivos para tornar a agricultura mais resiliente.

    O objetivo é diminuir a dependência de importações durante períodos de clima severo.

    Brasil acompanha o cenário

    Embora o problema esteja concentrado na Europa, o mercado brasileiro observa a situação com atenção.

    Além disso, oscilações na oferta internacional podem alterar fluxos comerciais, influenciar preços e criar oportunidades para exportadores de alimentos.

    Além disso, a sequência de eventos extremos reforça um alerta que também vale para o Brasil: investir em irrigação, manejo da água e adaptação das lavouras tornou-se uma estratégia cada vez mais importante para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.

  • Parasita que devora animais vivos faz EUA investirem milhões

    Parasita que devora animais vivos faz EUA investirem milhões

    Uma das pragas mais temidas da pecuária voltou ao centro das atenções nos Estados Unidos. O governo americano anunciou um novo pacote de investimentos para impedir o avanço da mosca-da-bicheira-do-Novo-Mundo, inseto capaz de provocar ferimentos graves e até matar animais quando o tratamento não ocorre a tempo.

    Desta vez, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) destinou US$ 25 milhões para construir uma unidade de distribuição de moscas estéreis em Douglas, no Arizona. A medida fortalece a barreira sanitária na fronteira com o México e amplia a capacidade de resposta diante da ameaça.

    Como a mosca-da-bicheira ameaça os rebanhos

    O perigo não está na mosca adulta, mas nas larvas.

    As fêmeas procuram feridas abertas em bovinos, ovinos, caprinos, equinos e outros animais de sangue quente. Em seguida, depositam os ovos sobre esses machucados.

    Pouco tempo depois, as larvas eclodem e passam a consumir tecido vivo. Como consequência, a lesão aumenta rapidamente e favorece infecções secundárias.

    Sem tratamento imediato, o quadro se agrava. Além de perder peso, o animal sofre intenso estresse e pode morrer nos casos mais graves.

    Embora a pecuária concentre a maior parte dos prejuízos, o parasita também pode atingir animais silvestres, cães, gatos e, em situações raras, seres humanos.

    Técnica reduz a população do inseto

    Em vez de depender apenas de produtos químicos, os Estados Unidos apostam em uma estratégia biológica desenvolvida há décadas.

    O método consiste na criação de milhões de machos estéreis em laboratório.

    Depois disso, equipes especializadas liberam esses insetos nas áreas de risco.

    Ao cruzarem com as fêmeas selvagens, eles impedem o nascimento de novas gerações. Assim, a população da praga diminui gradualmente até desaparecer em determinadas regiões.

    Por isso, especialistas consideram essa tecnologia uma das ferramentas mais eficientes já utilizadas no controle da mosca-da-bicheira.

    Nova estrutura amplia a defesa na fronteira

    O novo centro funcionará em Douglas, cidade localizada na divisa entre os Estados Unidos e o México.

    A escolha não ocorreu por acaso. A região representa uma das principais portas de entrada para animais provenientes do território mexicano.

    Com a nova unidade, o USDA espera acelerar a distribuição das moscas estéreis sempre que surgirem focos da praga.

    Ao mesmo tempo, o governo mantém outro projeto estratégico em andamento: a construção de uma fábrica de grande porte no Texas, responsável pela produção em larga escala desses insetos.

    Juntas, as duas estruturas deverão ampliar significativamente a capacidade de resposta das autoridades sanitárias.

    Avanço da praga elevou o nível de alerta

    Foto: USDA

    Nos últimos meses, a identificação de novos focos na América Central e no México aumentou a preocupação do setor pecuário americano.

    Diante desse cenário, o USDA endureceu temporariamente as regras para a entrada de bovinos mexicanos.

    Agora, entretanto, o governo iniciou uma reabertura gradual das importações.

    Douglas será o primeiro ponto autorizado a receber animais novamente. Ainda assim, cada etapa dependerá do cumprimento rigoroso das medidas sanitárias estabelecidas pelas autoridades americanas.

    Restrição também afetou o mercado

    As limitações impostas às importações reduziram a oferta de bovinos para frigoríficos dos Estados Unidos.

    Como resultado, os preços da carne permaneceram elevados durante vários meses.

    Mesmo assim, técnicos do governo avaliam que reforçar o controle sanitário continua sendo mais vantajoso do que enfrentar uma disseminação ampla da praga em regiões produtoras.

    Segundo eles, um surto de grandes proporções poderia provocar prejuízos muito superiores aos impactos temporários sobre o mercado.

    Brasil também acompanha a situação

    Embora o investimento tenha como foco o território americano, o assunto interessa diretamente aos pecuaristas brasileiros.

    A mosca-da-bicheira ocorre em diversos países das Américas e exige monitoramento permanente das propriedades rurais.

    Por isso, veterinários orientam os produtores a examinarem qualquer ferida identificada nos animais.

    Quanto mais cedo ocorrer o diagnóstico, maiores serão as chances de recuperação e menores tendem a ser os prejuízos econômicos.

    Além disso, boas práticas de manejo, inspeções frequentes e programas de vigilância sanitária continuam sendo fundamentais para preservar a saúde dos rebanhos e garantir a competitividade da pecuária no mercado internacional.

  • Calor extremo ameaça alimentos na Europa e alerta o Brasil

    Calor extremo ameaça alimentos na Europa e alerta o Brasil

    O verão de 2026 está impondo um dos maiores desafios já enfrentados pela agricultura britânica. A combinação de calor extremo e escassez de chuvas comprometeu a produção de hortaliças em diversas regiões do Reino Unido, reduziu a oferta de alimentos e obrigou supermercados, restaurantes e distribuidores a recorrerem às importações justamente no período em que o país costuma abastecer o próprio mercado.

    Os efeitos já chegaram às prateleiras. Segundo representantes do setor ouvidos pelo jornal britânico The Guardian, os preços no atacado dispararam nas últimas semanas. O tomate ficou mais de 60% mais caro, a alface americana registrou alta próxima de 90% e a batata acumula valorização superior a 40%.

    O cenário também preocupa autoridades, varejistas e produtores, que classificam a atual temporada como uma das mais difíceis das últimas décadas.

    Brócolis perde metade da produção

    Entre as culturas mais afetadas está o brócolis. Em algumas propriedades, a produtividade caiu cerca de 50%, consequência direta das temperaturas elevadas e da falta de água para irrigação.

    David Simmons, produtor da Riviera Produce e integrante da diretoria da Brassica Growers’ Association, afirmou ao The Guardian que os agricultores passaram a unir duas cabeças de brócolis para atingir o peso mínimo exigido pelo mercado.

    “O Reino Unido enfrenta uma grande escassez de brócolis neste momento. Estamos importando produtos da Espanha e da Holanda para atender aos pedidos”, afirmou.

    Segundo ele, a preocupação agora se concentra na couve-flor, que também pode apresentar redução significativa de oferta nas próximas semanas caso o clima permaneça seco.

    Importações voltam ao centro do abastecimento

    A queda da produção obrigou distribuidores a fazer um movimento considerado incomum para esta época do ano.

    Tradicionalmente, durante o verão, boa parte das hortaliças consumidas no Reino Unido é produzida internamente. Desta vez, porém, empresas voltaram a comprar grandes volumes na Espanha para evitar desabastecimento.

    Tim O’Malley, presidente da distribuidora Nationwide Produce, afirmou ao The Guardian que a situação é mais grave do que muitos consumidores imaginam.

    “A situação é pior do que o público imagina. Estamos ficando sem água”, disse.

    Segundo o executivo, verduras folhosas, alface americana e brócolis foram as culturas mais prejudicadas. Mesmo enfrentando temperaturas elevadas, produtores espanhóis conseguem manter parte da produção graças à infraestrutura de irrigação desenvolvida ao longo de décadas.

    Cenouras enfrentam o pior ano da história

    A situação também preocupa os produtores de cenoura.

    Rodger Hobson, agricultor de Yorkshire responsável por cerca de 4% da produção britânica da cultura, classificou 2026 como o pior ano já registrado em sua propriedade.

    “É de partir o coração e para o bolso”, afirmou ao The Guardian.

    Segundo Hobson, temperaturas acima de 25°C já reduzem significativamente o desenvolvimento das plantas. Quando os termômetros ultrapassam os 30°C, praticamente todo o crescimento da cultura é interrompido.

    Caso não ocorram chuvas consistentes nas próximas semanas, a produção nacional poderá acabar meses antes do previsto, obrigando o país a ampliar as importações durante a primavera europeia.

    Colheitas antecipadas preocupam agricultores

    Além das hortaliças, outras culturas também apresentam perdas importantes.

    A safra inglesa de ervilhas caiu cerca de um terço em relação ao esperado. Já a colheita de cereais começou mais cedo do que o habitual, reflexo direto das altas temperaturas e da rápida perda de umidade do solo.

    Produtores estudam adotar variedades mais resistentes ao calor, semelhantes às cultivadas no sul da Europa. No entanto, representantes do setor defendem que apenas mudanças tecnológicas não serão suficientes.

    Entre as principais reivindicações está o aumento dos investimentos em reservatórios para armazenar água das chuvas do inverno e da primavera, garantindo irrigação durante os meses mais secos.

    Supermercados cobram ação do governo

    A preocupação extrapolou o campo.

    As maiores redes varejistas do Reino Unido, juntamente com fabricantes, distribuidores e atacadistas de alimentos, enviaram um documento ao governo britânico alertando que incêndios florestais, secas prolongadas e eventos climáticos extremos passaram a representar uma ameaça concreta à segurança alimentar nacional.

    As empresas defendem políticas públicas voltadas ao fortalecimento da produção doméstica e à redução da dependência das importações.

    Calor atinge toda a Europa

    Os impactos não se restringem ao Reino Unido.

    Diversos países europeus registram perdas em culturas como trigo, batata, tomate e oliveiras, pressionados pela combinação de seca prolongada, incêndios florestais e sucessivas ondas de calor.

    Especialistas avaliam que a tendência aumenta a volatilidade do mercado internacional de alimentos e pode influenciar o comércio agrícola nos próximos meses, principalmente se as condições climáticas extremas persistirem até o fim do verão no Hemisfério Norte.

  • Raça Sardo Negro: conheça o gado mexicano de origem brasileira

    Raça Sardo Negro: conheça o gado mexicano de origem brasileira

    Uma raça bovina criada no México, mas com forte DNA brasileiro, chama atenção pela aparência incomum e pela capacidade de produzir carne e leite. O nome ainda é pouco conhecido por aqui. No entanto, o Sardo Negro se tornou um dos exemplos mais curiosos de como a genética desenvolvida no Brasil ganhou espaço além das fronteiras.

    Enquanto o Nelore domina as pastagens nacionais e o Gir se consolidou como referência na pecuária leiteira tropical, uma raça criada do outro lado da América Latina chama atenção justamente por carregar parte desse patrimônio genético brasileiro. O nome pode soar estranho para muitos produtores, mas o Sardo Negro já ocupa espaço importante na pecuária mexicana.

    À primeira vista, ele até pode lembrar outras raças zebuínas. Porém, basta observar com mais atenção para perceber que há algo diferente. A pelagem branca contrasta com manchas negras bem definidas. A cabeça escura parece ter sido desenhada à mão. O conjunto faz o animal se destacar no pasto como poucos.

    Touro Sardo Negro de propriedade do Rancho Oro Verde, no México
    Foto: Rancho Oro Verde

    Por trás da aparência existe uma história que atravessa fronteiras e mostra como a genética desenvolvida no Brasil ajudou a moldar uma nova raça no continente.

    Como surgiu o Sardo Negro

    A história começa nas primeiras décadas do século XX.

    Na época, o México buscava animais mais adaptados ao calor, aos parasitas e às longas estiagens. A solução veio do Brasil, que já investia na criação e no melhoramento de raças zebuínas originárias da Índia.

    Diversos exemplares de Gir, Guzerá, Indubrasil e Nelore foram levados para fazendas mexicanas. Durante anos, criadores selecionaram os animais que apresentavam melhor desempenho produtivo, maior fertilidade e melhor adaptação ao ambiente tropical.

    @sardonegrodeoroverde

    Ejemplares de la raza Sardo Negro, Baluarte de OV. 36 meses y Comodin de OV. 26 meses. #sementales sardonegro semen #ganaderiamexicana #sardonegrodeoroverde #mexico #veracruz #rancho #ranchlife

    ♬ Epic Music(836381) – Pavel

    O resultado desse trabalho apareceu décadas depois.

    Em 1978, a Associação Mexicana de Criadores de Zebu reconheceu oficialmente o Sardo Negro como uma raça própria, resultado de um longo processo de seleção genética conduzido no país.

    Mais do que uma mistura de raças, o Sardo Negro passou a reunir características próprias e estabilidade genética suficiente para ser criado como uma população independente.

    A raça aposta na dupla aptidão

    Ao contrário de muitas raças especializadas, o Sardo Negro foi desenvolvido para entregar equilíbrio.

    As vacas apresentam boa produção de leite para sistemas tropicais, enquanto os machos oferecem desempenho satisfatório para produção de carne. Essa dupla aptidão tornou a raça especialmente interessante para propriedades que buscam diversificar a renda.

    Sardo Negro tem comportamento equilibrado
    Foto: Rancho Oro Verde

    Além disso, produtores mexicanos destacam outras características frequentemente associadas ao Sardo Negro:

    • rusticidade em ambientes quentes;
    • boa fertilidade;
    • habilidade materna;
    • resistência a parasitas;
    • longevidade produtiva;
    • facilidade de adaptação a diferentes sistemas de criação.

    Esses atributos ajudam a reduzir custos de manejo e explicam por que a raça conquistou espaço em diversas regiões mexicanas.

    A genética brasileira continua presente

    Embora tenha sido desenvolvida no México, a influência brasileira permanece evidente.

    Grande parte das características funcionais do Sardo Negro vem diretamente das linhagens de zebuínos importadas do Brasil durante o século passado. Isso faz da raça uma espécie de “prima distante” do rebanho brasileiro.

    Na prática, ela representa um exemplo de como programas de melhoramento genético podem transformar um conjunto de animais importados em uma nova população adaptada às necessidades locais.

    É como se a genética brasileira tivesse atravessado a fronteira, aprendido um novo sotaque e construído uma identidade própria.

    Por que a raça quase não existe no Brasil?

    Curiosamente, o país que forneceu boa parte da base genética praticamente não cria o Sardo Negro.

    Não há uma associação brasileira dedicada à raça nem registros de criação comercial em larga escala. A preferência dos pecuaristas nacionais continua concentrada em raças já consolidadas, como Nelore, Gir, Guzerá, Brahman e Tabapuã.

    Além disso, o Brasil desenvolveu programas próprios de seleção genética capazes de atender às necessidades da pecuária nacional, reduzindo o interesse pela importação de uma raça formada no exterior.

    Ainda assim, o Sardo Negro desperta curiosidade justamente por mostrar um caminho diferente para a utilização da genética zebuína brasileira.

    Um exemplo de como a genética viaja pelo mundo

    No agronegócio, a genética circula quase tanto quanto as commodities.

    Sêmen, embriões e animais vivos cruzam oceanos há décadas. Em muitos casos, ajudam a construir novas raças adaptadas a diferentes realidades produtivas.

    O Sardo Negro é um retrato desse movimento. Sua história mostra que o legado do zebu brasileiro não ficou restrito às fazendas nacionais. Pelo contrário. Ele ajudou a escrever um capítulo importante da pecuária mexicana.

    Enquanto isso, muitos brasileiros sequer ouviram falar dessa raça.

    Talvez esse seja o aspecto mais curioso de toda a história: um gado criado com forte influência genética do Brasil tornou-se conhecido fora do país antes mesmo de despertar atenção por aqui. Às vezes, a própria genética encontra caminhos inesperados para contar sua história.

  • Top 10: veja as picapes médias mais vendidas em junho

    Top 10: veja as picapes médias mais vendidas em junho

    A liderança da Toyota Hilux entre as picapes médias ficou ainda mais evidente em junho. Dados oficiais da Fenabrave mostram que o modelo encerrou o mês com 3.888 emplacamentos, mantendo vantagem confortável sobre as principais rivais e confirmando sua força tanto no agronegócio quanto entre consumidores urbanos.

    Além da tradição no mercado brasileiro, a Hilux continua sendo uma das principais escolhas de produtores rurais, empresas e frotistas. Isso acontece porque o modelo reúne reputação de robustez, boa liquidez no mercado de usados e uma ampla rede de concessionárias espalhada pelo país.

    Enquanto isso, a principal mudança do mês ocorreu na disputa pela vice-liderança.

    Ford Ranger disputa vice-liderança do segmento com Chevrolet S10
    Foto: Ford

    A Chevrolet S10 ultrapassou a Ford Ranger por apenas 13 unidades, em uma das diferenças mais apertadas do segmento. A S10 registrou 2.964 emplacamentos, enquanto a Ranger somou 2.951 unidades.

    Logo atrás, a Mitsubishi Triton manteve a quarta colocação de forma isolada. Ao mesmo tempo, novas marcas começam a ganhar espaço em um segmento que, durante muitos anos, foi dominado por poucas fabricantes.

    Ranking das picapes médias mais vendidas em junho de 2026

    Posição Modelo Emplacamentos
    1º Toyota Hilux 3.888
    2º Chevrolet S10 2.964
    3º Ford Ranger 2.951
    4º Mitsubishi Triton 1.500
    5º GWM Poer 623
    6º Ram Dakota 613
    7º Volkswagen Amarok 419
    8º Fiat Titano 410
    9º Nissan Frontier 123
    10º JAC Hunter 60

    Hilux segue como referência no segmento

    A Hilux continua sendo a principal referência entre as picapes médias comercializadas no Brasil.

    Além de atender às necessidades do trabalho no campo, o modelo também conquistou espaço entre consumidores que utilizam o veículo na cidade e em viagens. Por isso, a Toyota consegue manter um desempenho consistente mesmo em um mercado cada vez mais competitivo.

    Ao mesmo tempo, a disputa entre S10 e Ranger mostra que as montadoras têm investido pesado em tecnologia, segurança, conforto e eficiência.

    A nova geração da picape da Ford elevou significativamente o nível da concorrência, enquanto a Chevrolet respondeu com uma renovação importante da S10, que voltou a ganhar força nas vendas em 2026.

    Ram Dakota ganha espaço entre as tradicionais

    Ram Dakota chama atenção no ranking das mais vendidas
    Foto: Stellantis

    Outro destaque do levantamento é o desempenho da Ram Dakota. Com 613 emplacamentos, o modelo terminou junho na sexta colocação e ficou muito próximo da GWM Poer, quinta colocada.

    Embora ainda esteja distante das líderes do segmento, a picape demonstra que a estratégia da Ram de ampliar sua atuação no mercado brasileiro começa a produzir resultados.

    A Dakota aposta, por exemplo, em um conjunto voltado para quem procura uma alternativa às líderes tradicionais.

    O modelo combina cabine moderna, elevado nível de equipamentos e motorização turbodiesel, buscando atender tanto ao público que utiliza a picape no trabalho quanto aos consumidores que priorizam conforto e tecnologia para o uso diário.

    Além disso, a presença da Dakota amplia a concorrência justamente em um segmento historicamente concentrado em poucas marcas. Ou seja, quanto maior a variedade de opções, maior tende a ser a disputa por preço, equipamentos e serviços oferecidos ao consumidor.

    Mercado recebe novas concorrentes

    O ranking também evidencia a chegada de novas marcas ao segmento. A GWM Poer já aparece na quinta posição, à frente da Ram Dakota, enquanto a Fiat Titano busca ampliar sua participação no mercado após o início das vendas.

    Já modelos tradicionais, como Volkswagen Amarok e Nissan Frontier, registraram desempenho mais discreto em junho, refletindo um cenário de concorrência crescente e renovação acelerada entre as picapes médias.

    Fonte: Fenabrave.

  • El Niño pode encarecer alimentos; veja os mais ameaçados

    El Niño pode encarecer alimentos; veja os mais ameaçados

    O alerta começa no prato. Arroz, óleos vegetais, açúcar, milho, trigo e até o café podem entrar no radar de pressão nos preços caso o El Niño se confirme nos próximos meses.

    O Banco Mundial estima uma probabilidade de 61% a 87% de formação do fenômeno entre meados de 2026 e 2027, com risco direto para a produção agrícola em áreas sensíveis da Ásia, da África e de parte do Leste Asiático.

    O dado mais preocupante envolve o arroz. Segundo o Banco Mundial, a produção pode cair de 20% a 50% nas regiões mais afetadas pelo fenômeno. Isso acende um sinal amarelo para países dependentes do cereal e também para o mercado internacional de alimentos.

    Quais alimentos podem ficar mais caros

    O arroz aparece como o alimento mais vulnerável no alerta do Banco Mundial. A razão é simples: boa parte da produção mundial depende de regimes de chuva regulares, especialmente na Ásia. Quando o El Niño altera esse equilíbrio, algumas regiões enfrentam seca, enquanto outras sofrem com chuvas fora de hora.

    Foto: Seapa/MG

    Além do arroz, outros produtos também podem sentir os efeitos do fenômeno. Óleos vegetais, açúcar, milho, trigo e café entram no radar porque dependem de clima estável em fases decisivas da lavoura.

    Uma seca no momento errado, por exemplo, pode reduzir a produtividade. Chuva excessiva na colheita também pode comprometer qualidade e oferta.

    No caso do açúcar, o risco passa por países importantes na produção de cana. Já os óleos vegetais dependem fortemente da oferta de palma, soja e outras oleaginosas. Por isso, qualquer quebra relevante em países produtores pode mexer com os preços globais.

    Por que o Banco Mundial acendeu o alerta

    O El Niño não age sozinho. Esse é o ponto central do alerta.

    O Banco Mundial afirma que o risco climático aparece em um momento de custos ainda elevados para o produtor. Na atualização mais recente sobre segurança alimentar, a instituição informou que os preços dos fertilizantes subiram 35% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mesmo com algum alívio nas últimas semanas, o mercado ainda não se estabilizou.

    Foto: Divulgação AGCO

    Na prática, isso significa que muitos agricultores entram na temporada com menos margem para reagir. Se o fertilizante fica caro, parte dos produtores reduz a aplicação. Quando isso se soma a seca, calor ou excesso de chuva, o impacto aparece mais tarde, na colheita.

    Além disso, conflitos geopolíticos, custos de energia e gargalos logísticos continuam pressionando o mercado global de alimentos. Por isso, uma nova rodada de El Niño pode atingir um sistema que já opera sob tensão.

    O que é o El Niño

    O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal. Essa mudança altera a circulação dos ventos e mexe com o regime de chuvas em várias partes do planeta.

    Em algumas regiões, o fenômeno aumenta o risco de seca. Em outras, provoca chuva excessiva. Para a agricultura, o problema está justamente nessa quebra de padrão.

    A lavoura precisa de água no momento certo. Também precisa de temperatura adequada durante florescimento, enchimento de grãos e colheita. Quando o clima foge do roteiro, o produtor perde previsibilidade.

    Como isso pode afetar o Brasil

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    O Brasil não aparece como o centro do alerta do Banco Mundial, mas não fica fora da conta.

    Em anos de El Niño, o país costuma registrar mudanças importantes no clima. O Sul tende a enfrentar mais chuva, enquanto partes do Norte e do Nordeste podem sofrer com calor e seca. No Centro-Oeste e no Sudeste, os efeitos variam conforme a intensidade do fenômeno e a época do ano.

    Para o agro brasileiro, isso pode afetar soja, milho, café, cana, arroz e pecuária. O impacto não é automático, mas o risco aumenta quando o fenômeno coincide com fases sensíveis da safra.

    No café, por exemplo, calor intenso e irregularidade nas chuvas podem prejudicar florada e formação dos grãos. No milho, a falta de água durante o desenvolvimento reduz produtividade. Já no arroz, excesso ou falta de chuva pode comprometer plantio, manejo e colheita.

    O bolso sente antes da estatística

    O consumidor normalmente percebe a crise climática quando ela chega ao supermercado.

    Primeiro, o produtor enfrenta perda de produtividade. Depois, a indústria paga mais pela matéria-prima. Em seguida, o varejo repassa parte desse aumento. Nem sempre o movimento é imediato, mas ele costuma aparecer quando a quebra de safra atinge produtos básicos ou cadeias muito dependentes de importação.

    Por enquanto, o mercado global ainda tem algum alívio em grãos como milho e trigo, favorecidos por boas safras em algumas regiões. Mesmo assim, o Banco Mundial afirma que os riscos seguem inclinados para novas pressões, principalmente se o El Niño se confirmar e afetar países produtores ao mesmo tempo.

    O alimento mais sensível é o arroz

    Entre todos os produtos citados, o arroz merece atenção especial.

    O cereal é base alimentar em países populosos da Ásia e da África. Também tem forte peso social, porque qualquer alta costuma atingir diretamente famílias de menor renda. Se a produção cair nas regiões mais expostas, governos podem restringir exportações para proteger o mercado interno.

    Quando isso acontece, o preço internacional sobe. Foi assim em outras crises recentes de alimentos. O país produtor tenta segurar oferta doméstica, mas o mercado global sente a redução do volume disponível.

    É por isso que o alerta do Banco Mundial sobre queda potencial de 20% a 50% na produção de arroz em áreas afetadas chama tanta atenção. Não se trata apenas de uma estatística agrícola. É um risco para a segurança alimentar.

    O que observar nos próximos meses

    Infográfico sobre efeitos no El nino nos proximos meses

    Os próximos meses serão decisivos para confirmar a intensidade do fenômeno e seus impactos sobre as safras.

    Se o El Niño ganhar força, o mercado deve acompanhar de perto a produção de arroz na Ásia, o comportamento das monções, a oferta de óleos vegetais, a safra de cana em países relevantes e o desenvolvimento de culturas como milho, trigo e café.

    No Brasil, o produtor também terá de olhar para o céu com mais cuidado. O país tem tecnologia, escala e experiência para lidar com variações climáticas. Ainda assim, quando o clima muda rápido demais, até sistemas bem preparados sentem o baque.

    O alerta do Banco Mundial não significa que todos esses alimentos vão subir ao mesmo tempo. Mas mostra que o risco aumentou. E, quando o clima mexe com arroz, grãos, açúcar e óleos vegetais, o impacto raramente fica restrito ao campo.

  • Milhões de aves morrem na França após onda de calor

    Milhões de aves morrem na França após onda de calor

    As primeiras notícias não vieram das plantações nem dos rebanhos. Vieram dos aviários.

    Em poucos dias, granjas de diferentes regiões da França começaram a registrar uma sequência incomum de mortes de frangos. À medida que o calor aumentava, as temperaturas permaneciam elevadas mesmo durante a madrugada e, pouco a pouco, milhares de aves deixavam de resistir. Em algumas áreas, o número de animais mortos cresceu tão rapidamente que a estrutura responsável pelo recolhimento das carcaças entrou em colapso.

    Como resultado, o problema ganhou dimensão nacional e passou a simbolizar uma crise que já alcança boa parte do campo francês. Reportagem publicada pelo jornal Le Monde mostra que a onda de calor provocou perdas expressivas na avicultura, afetou a produção de leite, castigou lavouras e obrigou agricultores a rever, mais uma vez, como enfrentar um clima que se tornou menos previsível.

    Milhraes de frangos na França
    Reprodução: ciwf.fr

    Embora as autoridades ainda consolidem os levantamentos, entidades do setor afirmam que a mortalidade registrada nas granjas está entre as mais severas associadas a episódios recentes de calor intenso no país.

    O calor chegou antes do esperado

    O verão europeu sempre exige atenção dos produtores rurais, mas, neste ano, o calor apareceu mais cedo e com intensidade acima da média em várias regiões francesas.

    Além disso, dias consecutivos de temperaturas elevadas foram seguidos por noites abafadas. Para a avicultura, essa combinação costuma ser uma das mais difíceis de enfrentar. Sem o resfriamento natural durante a madrugada, as aves permanecem sob estresse por muito mais tempo.

    Foi justamente esse cenário que se repetiu nas principais áreas produtoras.

    Na Bretanha, região que concentra grande parte da produção francesa de frangos, produtores passaram a relatar perdas em diferentes sistemas de criação. Ao mesmo tempo, à medida que os dias avançavam, aumentava também a dificuldade para retirar rapidamente os animais mortos das propriedades.

    Segundo o Le Monde, algumas autoridades locais autorizaram medidas excepcionais para evitar problemas sanitários, incluindo o enterramento das carcaças em determinadas situações. A decisão foi tomada porque o volume de aves mortas ultrapassou a capacidade operacional das empresas encarregadas da coleta.

    Por que as aves sofrem tanto com o calor

    Entre os animais criados para produção de alimentos, poucos reagem tão rapidamente ao calor quanto as aves.

    Diferentemente dos bovinos e dos suínos, elas praticamente não conseguem dissipar calor pela pele. Como não transpiram, dependem da respiração para tentar reduzir a temperatura corporal.

    Quando o ambiente permanece muito quente, o organismo acelera a frequência respiratória. Ao mesmo tempo, o consumo de ração diminui e a necessidade de água aumenta. Se o calor persiste por muitas horas, especialmente sem alívio durante a noite, o sistema deixa de compensar o excesso de temperatura. É nesse momento, portanto, que cresce o risco de hipertermia e de mortalidade.

    Por isso, ondas de calor prolongadas costumam atingir primeiro a avicultura. Mesmo granjas equipadas com ventiladores, exaustores e sistemas de resfriamento evaporativo podem enfrentar dificuldades quando as temperaturas permanecem elevadas por vários dias consecutivos.

    O prejuízo vai além da perda dos animais

    A morte das aves representa apenas parte do problema.

    Cada lote perdido interrompe o ciclo de produção, reduz a oferta de carne de frango e aumenta os custos das granjas. Além do impacto econômico direto, os produtores precisam lidar com questões sanitárias, logística para retirada das carcaças e limpeza completa das instalações antes da chegada de um novo plantel.

    Foi justamente essa sequência de desafios que chamou a atenção na França. Em diversas propriedades, o esforço deixou de ser apenas salvar os animais que ainda permaneciam vivos. Além disso, passou a incluir medidas emergenciais para evitar que o acúmulo de carcaças provocasse novos riscos à saúde animal e ao meio ambiente.

    Enquanto isso, a previsão de novas temperaturas elevadas mantinha produtores e autoridades em estado de alerta. Com isso, a preocupação já não se limitava aos aviários. Aos poucos, outros setores da agricultura francesa começavam a sentir os efeitos da mesma onda de calor.

  • Fazendeiro cria “armadura” para proteger ovelhas de ataques de lobos

    Fazendeiro cria “armadura” para proteger ovelhas de ataques de lobos

    Uma espécie de armadura para ovelhas chamou a atenção de produtores rurais e especialistas em fauna na Europa. Desenvolvido na Áustria, o equipamento funciona como uma cota de malha moderna: uma rede com pontas de plástico que envolve o animal e promete impedir que lobos consigam alcançar sua garganta durante um ataque.

    A invenção é obra do austríaco Rudolf Schaubach, de 72 anos, ex-agricultor e ex-caçador. Depois de três anos de testes, ele registrou a tecnologia no Escritório Europeu de Patentes e passou a defendê-la como uma alternativa para reduzir os prejuízos causados pelos ataques aos rebanhos sem recorrer ao abate dos predadores.

    Ao jornal austríaco Kronen Zeitung, resumiu a proposta em uma frase: buscava uma forma de fazer com que “os dois possam viver livres”, em referência às ovelhas e aos lobos.

    A ideia, no entanto, saiu rapidamente do campo para os tribunais. O primeiro teste com animais acabou interrompido após denúncias de entidades de proteção animal, que acusaram o inventor de maus-tratos.

    ovelha com armadura de proteção
    Foto: Rudolf Schaubach

    O caso passou a ser investigado pelas autoridades austríacas e reacendeu um debate que cresce em diversos países europeus: como proteger os rebanhos diante do avanço da população de lobos sem comprometer o bem-estar dos animais nem a conservação da espécie.

    A discussão ganhou força justamente em um momento de mudança nas políticas ambientais da União Europeia. Com o aumento dos ataques ao rebanho em vários países, governos vêm flexibilizando regras para o controle da espécie, enquanto produtores buscam novas formas de convivência com um predador que voltou a ocupar antigas áreas de ocorrência.

    Proteção busca impedir a mordida fatal

    A estrutura mede cerca de 1,5 metro por 1,6 metro e pesa entre dois e três quilos, valor semelhante ao peso da lã produzida por uma ovelha adulta.

    A rede utiliza pontas de plástico revestidas por mangueiras de borracha e permanece presa ao corpo por faixas elásticas. Segundo o inventor, a intenção não é ferir o lobo, mas tornar a mordida desconfortável.

    Em entrevista à revista Der Spiegel, Schaubach explicou que a proteção foi projetada para defender justamente a região onde o predador costuma atacar. “O lobo sempre morde o pescoço. Quando ele encontrar as pontas, vai sentir dor, mas não ficará gravemente ferido”, afirmou.

    Na avaliação dele, a experiência tende a mudar o comportamento do animal. “Ele vai se lembrar disso”, disse o inventor à publicação alemã, ao defender que o desconforto provocado pelas pontas pode ser suficiente para evitar novos ataques.

    Teste terminou antes do esperado

    O primeiro teste ocorreu em maio de 2026 em uma propriedade localizada na região de Gailtal, no estado austríaco da Caríntia.

    O produtor equipou três ovelhas com a proteção e levou os animais para uma área onde lobos já haviam atacado rebanhos. A ovelha “Ananas”, seu cordeiro “Cabanossi” e outro animal passaram a usar a proteção enquanto câmeras monitoravam o local para registrar um eventual encontro com o predador.

    Infográfico sobre o projeto

    Entretanto, o experimento durou poucos dias.

    Após denúncias de entidades de proteção animal, um veterinário oficial determinou a retirada do equipamento antes que as câmeras registrassem qualquer ataque de lobo.

    Entidade aponta riscos ao bem-estar das ovelhas

    A organização Tierschutz Austria protocolou uma denúncia contra o inventor e também contra o produtor responsável pelo teste.

    A ativista Madeleine Petrovic classificou a invenção como “uma péssima ideia”. Segundo ela, um perito judicial concluiu que a estrutura compromete a movimentação das ovelhas e pode aumentar o risco de acidentes durante uma fuga, principalmente em áreas com vegetação densa.

    Os críticos também afirmam que a proteção cobre apenas parte do corpo, deixando patas e úbere vulneráveis. Dessa forma, o equipamento não impediria completamente os ataques.

    Além disso, a entidade pediu a abertura de um procedimento administrativo por suposta violação da legislação austríaca de proteção animal.

    Inventor rejeita as acusações

    Schaubach contesta todas as críticas e afirma que muitos dos questionamentos partiram de pessoas que nunca acompanharam os testes de perto.

    Em entrevista ao Der Spiegel, ele disse que as ovelhas usaram o equipamento durante três ou quatro dias sem apresentar qualquer dificuldade. “A ovelha deitou, levantou e o cordeiro mamou normalmente. Não vejo o que haveria de inadequado nisso”, afirmou.

    O inventor também criticou a forma como o projeto passou a ser avaliado. “Ninguém entrou em contato comigo”, declarou à revista alemã, ao afirmar que boa parte das críticas foi feita por pessoas que apenas assistiram a vídeos ou viram fotografias divulgadas na internet.

    Schaubach rejeitou ainda os argumentos de que o equipamento poderia provocar desidratação, impedir que as ovelhas se deitassem ou ser pesado demais para os animais. “Isso é um absurdo”, disse ao Der Spiegel.

    Enquanto a investigação segue em andamento, ele trabalha em uma segunda versão do projeto. A nova proposta protegerá principalmente o pescoço e a parte inferior do corpo, reduzindo o peso da estrutura e facilitando o uso nas propriedades.

    Investimento já supera 50 mil euros

    O desenvolvimento da tecnologia consumiu entre 50 mil e 60 mil euros, incluindo despesas com patente e assessoria jurídica.

    Até agora, nenhuma unidade foi comercializada. O inventor procura uma empresa para fabricar o equipamento em escala industrial.

    Em entrevista ao Der Spiegel, Schaubach afirmou que a adoção em larga escala dependerá de incentivos públicos. “Essas redes precisariam receber subsídios da União Europeia para que os produtores pudessem comprá-las”, afirmou.

    Segundo ele, a expectativa é que cada unidade tenha vida útil de várias décadas e possa acompanhar os animais durante toda a temporada de pastejo, reduzindo o custo para os pecuaristas ao longo do tempo.

    Ataques de lobos continuam pressionando a pecuária

    ovelha com armadura de proteção
    Foto: Rudolf Schaubach

    O debate ocorre em um momento de crescimento da população de lobos em diferentes regiões da Europa.

    Na Alemanha, registros oficiais mostram que mais de 4 mil animais de produção foram mortos por lobos em 2024. Mais de 90% das vítimas eram ovelhas e cabras.

    Na Áustria, especialmente na Caríntia, cerca de 2 mil criadores mantêm aproximadamente 50 mil ovelhas. Mesmo com cercas elétricas, cães de guarda e outras medidas de proteção, os ataques continuam ocorrendo.

    Esse cenário aumentou a pressão por soluções que permitam reduzir as perdas sem eliminar os predadores.

    Europa flexibiliza regras para controle do lobo

    O avanço dos conflitos também influenciou a política ambiental europeia.

    Em maio de 2025, os países da União Europeia aprovaram a redução do nível de proteção do lobo. A espécie deixou de ser considerada “estritamente protegida” para passar à categoria de “protegida”, o que facilita o controle populacional em regiões onde os ataques aos rebanhos são recorrentes.

    Na Alemanha, novas regras aprovadas em março de 2026 também ampliaram a possibilidade de abate sob condições específicas. Em áreas com excesso de lobos e histórico de ataques, a legislação passou a permitir a retirada dos animais de forma mais rápida.

    Mesmo assim, organizações ambientalistas defendem que o fortalecimento das medidas de proteção dos rebanhos continua sendo a estratégia mais eficiente para reduzir os prejuízos dos produtores.

    Debate continua sem consenso

    A invenção de Rudolf Schaubach transformou uma solução experimental em um debate que ultrapassou as fronteiras da Áustria.

    De um lado, produtores enxergam na proteção uma alternativa para diminuir as perdas sem recorrer ao abate de lobos. De outro, entidades de defesa animal questionam se o equipamento realmente respeita o bem-estar das ovelhas.

    Enquanto as autoridades austríacas analisam a denúncia, o inventor aperfeiçoa o projeto e aguarda uma oportunidade para retomar os testes. O resultado poderá indicar se a chamada “armadura” para ovelhas representa uma nova ferramenta de proteção dos rebanhos ou apenas mais um capítulo na busca por um equilíbrio entre a produção pecuária e a conservação da fauna europeia.

  • Filhote de jaguatirica mobiliza resgate em Mato Grosso

    Filhote de jaguatirica mobiliza resgate em Mato Grosso

    Encontrar um filhote de animal silvestre sozinho costuma despertar um impulso imediato: ajudar. Foi exatamente o que aconteceu na tarde de terça-feira (30), em uma estrada rural de Peixoto de Azevedo, no norte de Mato Grosso. Um morador avistou um filhote de jaguatirica sem a presença da mãe e procurou o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso (CBMMT).

    Ao perceber a vulnerabilidade do pequeno felino, o morador o recolheu com cuidado e seguiu até a sede do 6º Pelotão Independente de Bombeiro Militar (6º PIBM), em Matupá. A equipe recebeu o animal e iniciou o atendimento.

    A cena chamava atenção pela fragilidade do filhote. Logo nos primeiros minutos, os bombeiros concentraram os esforços em reduzir o estresse provocado pela mudança de ambiente e preparar um transporte seguro.

    Bombeiros priorizaram a segurança durante o transporte

    Os militares utilizaram equipamentos apropriados e aplicaram técnicas de manejo de fauna silvestre para proteger a integridade do animal durante todo o deslocamento. Além disso, evitaram contatos desnecessários para diminuir o estresse do filhote.

    Na sequência, a equipe levou a jaguatirica até a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), que agora conduz o atendimento especializado.

    Veterinários vão definir quando o animal poderá voltar à natureza

    Médicos-veterinários e técnicos da Sema iniciaram a avaliação clínica do filhote. A equipe verificará as condições de saúde, indicará os cuidados necessários e decidirá qual será o destino mais adequado para o animal.

    Se o desenvolvimento ocorrer como esperado, os especialistas devolverão a jaguatirica ao habitat natural. Caso o filhote ainda apresente alguma limitação, ele continuará sob acompanhamento até reunir condições para viver novamente em liberdade.

    O que fazer ao encontrar um filhote de animal silvestre

    Um filhote sozinho nem sempre significa abandono. Em muitas espécies, a mãe deixa a cria escondida por algum tempo enquanto procura alimento ou afasta possíveis predadores.

    Por isso, especialistas recomendam observar a situação antes de qualquer intervenção. Se o animal apresentar ferimentos, correr risco imediato ou permanecer sozinho por um longo período, o ideal é acionar os órgãos ambientais ou o Corpo de Bombeiros, que contam com equipes treinadas para realizar esse tipo de resgate.

  • El Niño está de volta; veja como ele pode afetar os alimentos no Brasil

    El Niño está de volta; veja como ele pode afetar os alimentos no Brasil

    A volta do El Niño acendeu um alerta no campo brasileiro. O fenômeno, provocado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, já está em formação e deve ganhar força ao longo do segundo semestre de 2026. O efeito mais direto para o consumidor pode aparecer no preço dos alimentos.

    Segundo o Ministério da Agricultura, a previsão para o trimestre julho, agosto e setembro indica chuva acima da média em áreas do Sul e chuva abaixo da média no centro-norte do país. Além disso, há risco maior de temperaturas elevadas, ondas de calor e incêndios florestais.

    Na prática, isso mexe com o calendário de plantio, a produtividade das lavouras e a oferta de produtos básicos. Soja, milho, feijão, arroz, café, frutas, hortaliças, leite e carne podem ser afetados, cada um de forma diferente.

    Safra recorde ajuda a reduzir os riscos

    O risco não significa quebra generalizada de safra. O Brasil entra neste período com uma produção de grãos estimada em 358,6 milhões de toneladas na safra 2025/26, a maior já projetada para o país, segundo a Conab.

    O El Niño costuma provocar excesso de chuva no Sul. Em anos mais intensos, isso pode atrasar o plantio, prejudicar a colheita e favorecer doenças nas lavouras. Já no Centro-Oeste, no Norte e em parte do Nordeste, o problema tende a ser o oposto: menos chuva, calor mais forte e maior pressão sobre pastagens e reservatórios.

    O milho e a soja ficam no centro da preocupação porque sustentam boa parte da cadeia de carnes. Quando o clima reduz a produção ou encarece a ração, o efeito pode chegar ao frango, ao suíno, ao leite e ao boi.

    O feijão e as hortaliças também merecem atenção. São culturas mais sensíveis a irregularidades de chuva e calor. Por isso, qualquer quebra regional costuma aparecer mais rapidamente no bolso do consumidor.

    O café também inspira atenção. Temperaturas muito altas e chuvas irregulares podem comprometer floradas e reduzir o potencial produtivo das lavouras. Como o Brasil é o maior produtor e exportador mundial, qualquer instabilidade climática tende a influenciar tanto os preços internos quanto o mercado internacional.

    O que pode acontecer com os preços dos alimentos

    O alerta chega em um momento em que os alimentos já pressionam o orçamento das famílias. Em maio, o IPCA acumulava alta de 4,72% em 12 meses, segundo o IBGE. Em junho, a prévia da inflação oficial mostrou avanço de 0,74% no grupo alimentação e bebidas.

    Embora uma safra recorde ajude a formar estoques e reduzir parte da pressão, eventos climáticos extremos podem alterar esse cenário. Caso ocorram perdas relevantes em regiões produtoras, a menor oferta tende a pressionar os preços ao consumidor.

    Quando os efeitos podem chegar ao consumidor

    A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos, informou que as condições de El Niño já estão estabelecidas e devem ganhar intensidade até o fim de 2026. A agência estima elevada probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade forte entre novembro e janeiro.

    Animação da Temperatura da Superfície do Mar no Pacífico — (Foto: NOAA)

    Os reflexos, entretanto, costumam aparecer de forma gradual. Primeiro, o clima interfere no desenvolvimento das lavouras. Depois, afeta a produtividade, altera os preços pagos aos produtores e, por fim, chega às gôndolas dos supermercados.

    O que produtores e consumidores devem observar

    Especialistas ressaltam que o El Niño representa um fator de risco, mas não uma garantia de perdas. O uso de sementes mais adaptadas, irrigação, seguro rural, monitoramento climático e planejamento das operações ajudam a reduzir os impactos sobre a produção.

    Ainda assim, os eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes. Por isso, produtores acompanham com atenção cada atualização das previsões meteorológicas para ajustar o manejo das lavouras.

    Imagem mostra bancada de frutas em um mercado
    Foto: Agro Em Campo/ Pedro H. Lopes

    Para o consumidor, a recomendação é acompanhar a evolução dos preços de produtos como arroz, feijão, café, carnes, leite, frutas e hortaliças ao longo do segundo semestre.

    O fenômeno começa no Oceano Pacífico, a milhares de quilômetros do Brasil. No entanto, seus efeitos podem atravessar continentes e, alguns meses depois, chegar à mesa dos brasileiros na forma de alimentos mais caros ou de uma oferta menor de determinados produtos.