Tag: Agricultura sustentável

  • Hortas circulares revolucionam renda de agricultores familiares em Minas

    Hortas circulares revolucionam renda de agricultores familiares em Minas

    Uma técnica inovadora de cultivo está mudando a realidade de agricultores familiares em Minas Gerais. As hortas circulares, modelo desenvolvido e difundido pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), apresentam-se como alternativa sustentável para geração de renda e segurança alimentar no estado.

    O sistema funciona com curvas de nível que retêm toda a água da chuva dentro da área de plantio. Essa característica permite reduzir significativamente a erosão em terrenos inclinados e otimizar o aproveitamento da irrigação em áreas planas, tornando o cultivo mais eficiente e econômico.

    A iniciativa integra o projeto “Expansão e fortalecimento da cadeia produtiva de arroz em Minas Gerais, com foco em sustentabilidade e segurança alimentar”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

    Segundo a pesquisadora Janine Guedes, coordenadora do projeto pela Epamig, a ação fortalece a agricultura familiar de forma abrangente. “Dentro desse projeto do arroz, temos uma linha de ação voltada ao fortalecimento da agricultura familiar. A pesquisadora Polyanna Oliveira já trabalhava com essas hortas, e conseguimos integrar como uma das ações”, explica.

    O trabalho é realizado em parceria com a Emater e prefeituras municipais, facilitando o acesso dos produtores ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Durante o período chuvoso, as equipes retornam às propriedades para introduzir unidades de arroz de sequeiro, ampliando as possibilidades de cultivo.

    Sistema sustentável e replicável

    As hortas agroecológicas circulares destacam-se pela versatilidade e facilidade de implementação. O modelo adapta-se a diferentes espaços e condições de solo, podendo receber diversos tipos de hortaliças, leguminosas e frutíferas.

    “A escolha do que plantar depende da disponibilidade de área, água e do interesse do produtor”, destaca a pesquisadora Polyanna Oliveira, responsável pela metodologia das hortas circulares.

    No município de Perdões, região Sul de Minas, o projeto prevê a instalação de sete unidades demonstrativas de arroz e seis hortas circulares. A secretária de Agricultura local, Luciana Arriel, celebra os resultados: “Temos acompanhado de perto e visto que os produtores estão gostando do modelo. O formato circular ajuda na manutenção da umidade e na prevenção de pragas”.

    Uma das hortas já implantadas beneficia o Projeto Vida Nova, instituição que atende 85 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. “Fornecemos dois lanches diários e almoço semanal para os matriculados. Essa horta nos ajuda muito. Já utilizamos beterraba, alface e outros alimentos que enriqueceram nossa alimentação”, relata Cleuza Maria Augusto Oliveira, diretora da instituição.

    Agricultores aprovam a técnica

    Dulcineia Carvalho Ribeiro da Silva e Wilson Antônio Ferreira da Silva, produtores de hortaliças há sete anos, adotaram o cultivo circular há dois meses. Os resultados já são visíveis: “As plantas ficaram mais bonitas e a irrigação é mais fácil. Nossa ideia é ampliar o plantio circular”, afirmam os agricultores, que comercializam a produção no PNAE, na feira municipal e através de vendas diretas.

    O plantio das Unidades Demonstrativas de Arroz em Perdões está previsto para novembro. Segundo Janine Guedes, haverá cultivo exclusivo de arroz e sistemas consorciados com café. A pesquisadora destaca ainda um benefício adicional: “A palha do arroz pode auxiliar na adubação do solo. Recomendamos que os produtores utilizem esse material nas hortas, pois é rico em nutrientes, especialmente nitrogênio”.

    O modelo de hortas circulares representa um avanço significativo para a agricultura familiar em Minas Gerais, combinando sustentabilidade ambiental, eficiência produtiva e inclusão social – pilares fundamentais para o desenvolvimento rural do estado.

  • Programa transforma agricultor em produtor de morango orgânico no Sul de Minas

    Programa transforma agricultor em produtor de morango orgânico no Sul de Minas

    O agricultor familiar José Lucas Faria Corrêa, de 26 anos, está colhendo os frutos de uma nova aposta em sua propriedade rural, localizada em Seritinga, no Sul de Minas Gerais. Após anos dedicados ao cultivo de hortaliças, o jovem produtor decidiu inovar e investir na produção agroecológica de morangos, com o suporte técnico do programa Futuro no Campo, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG).

    A primeira safra de morangos começou a ser colhida neste ano, resultado de um projeto iniciado em maio de 2025 em uma área de 500 m². A mudança representa não apenas a diversificação da produção familiar, mas também a busca por novos mercados e o aumento da geração de renda na propriedade.

    Do sonho à realidade: assistência técnica faz a diferença

    Acompanhado pela Emater-MG desde 2021, quando realizou o Cadastro de Agricultor Familiar (CAF), José Lucas já fornecia hortaliças para escolas municipais por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). No entanto, foi a partir da participação no Futuro no Campo que o jovem encontrou o incentivo necessário para realizar um antigo sonho.

    “Com o Futuro no Campo, eu estou aprendendo muita coisa que eu não sabia, um sonho que eu tenho há muito tempo. A Emater me mostrou que é possível trabalhar com orgânicos, basta saber o que está fazendo. Então eu comecei a buscar conhecimentos para poder plantar o morango”, conta o produtor.

    Segundo a extensionista da Emater-MG, Milene da Silva Soares, o acompanhamento próximo foi fundamental para encorajar a inovação. “O apoio contínuo da Emater com os jovens do Futuro no Campo foi o que animou o produtor a tentar essa cultura nova. Já que ele sempre plantou hortaliças”, explica.

    Planos de expansão e certificação orgânica

    Com expectativas positivas para a safra atual, José Lucas já planeja os próximos passos. Entre os objetivos estão a expansão da área cultivada, a comercialização dos morangos em feiras regionais e, futuramente, o investimento em processamento e certificação orgânica dos produtos.

    José Lucas, produtor rural. Foto: Divulgação/Emater-MG

    Como participante do Futuro no Campo, o agricultor recebe acompanhamento técnico contínuo e participa de visitas técnicas especializadas. E também será contemplado com um kit de ferramentas, sementes de hortaliças e sistema de irrigação fornecidos pelo programa.

    Futuro no Campo: investindo na juventude rural

    Desenvolvido pela Emater-MG, o programa Futuro no Campo tem como foco principal a sucessão familiar rural e a valorização dos jovens agricultores. A iniciativa atende jovens com idade entre 16 e 29 anos, oferecendo acompanhamento técnico, incentivo à inovação e capacitações práticas para estimular a permanência no meio rural.

    O programa reúne três projetos principais: Jovens do Café, Jovens do Leite e Jovem Empreendedor Rural. Com ações voltadas para avicultura de postura, apicultura, fruticultura e olericultura.

    Atualmente, 506 jovens participam da iniciativa em todo o estado. A seleção dos beneficiários ocorreu por meio de edital público, que considerou critérios sociais, produtivos e educacionais. Além da assistência técnica especializada, os participantes também recebem capacitação virtual e presencial, além de kits para implantação das atividades.

    O investimento inicial no Futuro no Campo foi de R$ 1,9 milhão, com recursos próprios da Emater-MG.

  • Fortaleza e Juazeiro recebem eventos do Dia Mundial da Alimentação

    Fortaleza e Juazeiro recebem eventos do Dia Mundial da Alimentação

    Quatro organizações internacionais promovem entre 15 e 17 de outubro uma série de eventos em Fortaleza (CE) e Juazeiro (BA) para celebrar o Dia Mundial da Alimentação (DMA) 2025. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Programa Mundial de Alimentos (WFP), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) organizam atividades no 2º Festival Ceará Sem Fome e no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia.

    A programação marca os 80 anos da FAO e traz o slogan “De Mãos Dadas por uma alimentação melhor e um futuro melhor”. As entidades focam na promoção de sistemas agroalimentares inclusivos e sustentáveis como estratégia para combater a insegurança alimentar.

    Projeto beneficiará 5 mil produtores em três países

    Durante os eventos, o FIDA lançará o projeto “Melhoramento Participativo dos Recursos Genéticos e Sistemas de Sementes para a Produção Agroecológica – Raízes Agroecológicas”. A iniciativa, financiada pela União Europeia e executada pelo IICA em parceria com a Embrapa, beneficiará mais de 5 mil pequenos produtores agroecológicos do Brasil, Argentina e Bolívia.

    O projeto capacitará agricultores em técnicas de melhoramento genético participativo e conservação da agrobiodiversidade. A ação também promove a inclusão e o empoderamento de mulheres, comunidades indígenas e tradicionais, enfrentando a escassez de recursos no setor.

    Fortaleza recebe projeções e debates sobre segurança alimentar

    Na quarta-feira (15/10), as organizações instalam o estande do Dia Mundial da Alimentação no 2º Festival Ceará Sem Fome, evento organizado pelo governo estadual. O espaço oferece materiais promocionais sobre o trabalho das agências e exibe vídeos institucionais, incluindo um minidocumentário sobre o 80º aniversário da FAO.

    Os representantes das agências da ONU – Jorge Meza (FAO), Daniel Balaban (WFP) e Hardi Vieira (FIDA) – participam da abertura oficial ao lado do governador Elmano de Freitas, da primeira-dama Lia de Freitas e do ministro do Desenvolvimento Agrário (MDA), Paulo Teixeira.

    O painel “De mãos dadas por alimentos melhores e um futuro melhor” acontece às 11h e representa um dos momentos centrais da programação. As autoridades concedem coletiva de imprensa às 13h40, seguida pela solenidade institucional às 14h.

    Capital cearense ganha projeção mapeada e iluminação especial

    Na quinta-feira (16/10), data oficial do DMA, Fortaleza se destaca nacionalmente com intervenções visuais. A fachada do Museu da Imagem e do Som (MIS), em frente ao Palácio da Abolição, recebe às 18h30 uma projeção mapeada com vídeo produzido pela FAO. O conteúdo convida o público a refletir sobre alimentação saudável e incentiva ações coletivas pela erradicação da fome, desnutrição e insegurança alimentar.

    No mesmo dia, às 19h, a Arena Castelão recebe iluminação azul, cor oficial da FAO, reforçando a visibilidade da campanha na capital cearense.

    Juazeiro sedia abertura do Congresso de Agroecologia

    Em Juazeiro (BA), o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia acontece de 15 a 18 de outubro na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). A Associação Brasileira de Agroecologia organiza o evento, que conta com participação das agências da ONU.

    Na quarta-feira (15/10), às 19h, o diretor-país do FIDA, Arnoud Hamleers, representa as organizações na Conferência de Abertura. No dia seguinte (16/10), às 17h30, Meza e Hamleers participam de ato público na Orla ao lado do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, e do ministro do MDA.

    O lançamento oficial do projeto “Raízes Agroecológicas” ocorre na sexta-feira (17/10), das 14h às 16h, em formato híbrido com tradução simultânea português-espanhol.

    FAO completa 80 anos de atuação global

    A FAO nasceu após a Segunda Guerra Mundial com a missão de apoiar a recuperação da produção de alimentos em países devastados pelos conflitos. Atualmente, a organização trabalha para construir sistemas agroalimentares mais eficientes, inclusivos e sustentáveis, sem deixar ninguém para trás.

    Este ano, o DMA contará com comemorações especiais em 150 países. Em Roma, sede da organização, inaugura-se o Museu e Rede de Alimentação e Agricultura (FAO MuNe), que oferece ao público uma experiência imersiva nas tradições alimentares e agrícolas e apresenta inovações do setor. A cerimônia oficial conta com a presença do Papa Leo XIV e do Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

    Serviço

    FORTALEZA (CE)

    • Festival Ceará Sem Fome – Centro de Eventos do Ceará
    • Av. Washington Soares, 999 – Salão Mundaú
    • Painel “De mãos dadas por alimentos melhores e um futuro melhor”
    • 15/10 | 11h às 12h
    • Coletiva de imprensa com agências da ONU e Governo do Ceará
    • 15/10 | 13h40
    • Solenidade de abertura oficial com autoridades
    • 15/10 | 14h
    • Estande da FAO + Vídeos institucionais e minidoc FAO 80 anos
    • 15/10 | 8h às 18h
    • Projeção mapeada do vídeo da FAO – Museu da Imagem e do Som
    • Av. Barão de Studart, 410 – Meireles
    • 16/10 | 18h30
    • Iluminação especial da Arena Castelão (cor azul FAO)
    • 16/10 | 19h

    JUAZEIRO (BA)

    • 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia – UNIVASF Juazeiro
    • Av. José de Sá Maniçoba, s/n – Centro
    • Conferência de Abertura com representantes da ONU
    • 15/10 | 19h
    • Ato público na Orla com autoridades federais e estaduais
    • 16/10 | 17h30
    • Lançamento do projeto “Raízes Agroecológicas”
    • 17/10 | 14h às 16h
    • Formato híbrido, com tradução português-espanhol
  • Mercado de bioprotetores cresce 29% e coloca Brasil na liderança mundial

    Mercado de bioprotetores cresce 29% e coloca Brasil na liderança mundial

    O mercado global de bioprotetores movimentou US$ 8,2 bilhões em 2023 e deve atingir US$ 25,7 bilhões até 2030, segundo a consultoria Research and Markets. O Brasil lidera esse crescimento explosivo. A Kynitec revela que a área potencial tratada com agentes de biocontrole saltou de 35 milhões de hectares na safra 2021/2022 para 58 milhões em 2023/2024, um crescimento superior a 29% em cinco anos.

    Os bionematicidas dominam 47% da área tratada, superando os bioinseticidas (36%) e biofungicidas (17%). Em culturas estratégicas como soja, milho e algodão, os bionematicidas já ultrapassam os produtos químicos convencionais. Já em 2015, esses produtos biológicos representavam apenas 6% do mercado nacional. Em 2022, atingiram 75%, enquanto os nematicidas químicos despencaram de 94% para 25%.

    Apesar do avanço expressivo, os bioprotetores ainda ocupam apenas 4% do total de produtos fitossanitários que os agricultores utilizam no Brasil, o que revela um enorme potencial de expansão.

    Fungos e bactérias lideram controle biológico nas lavouras

    Os agentes de biocontrole mais importantes e amplamente comercializados incluem fungos como Trichoderma spp., Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae, Isaria fumosorosea e Clonostachys rosea. As bactérias do gênero Bacillus — incluindo B. subtilis, B. amyloliquefaciens, B. licheniformis, B. methylotrophicus, B. velezensis e B. thuringiensis — também protagonizam essa revolução.

    Esses organismos combatem patógenos do solo e da parte aérea através de diferentes modos de ação. O Trichoderma, por exemplo, age por parasitismo, competição, antibiose e estímulo à defesa natural da planta. As espécies de Bacillus se destacam pela capacidade de formar biofilmes, produzir metabólitos antimicrobianos e induzir resistência sistêmica nas culturas.

    No Brasil, o Trichoderma responde por cerca de 17% da área tratada com bioprotetores e a Beauveria, por 16%. O grupo das espécies de Bacillus, no entanto, lidera com aproximadamente 25% da área protegida.

    O que são bioprotetores e como funcionam na agricultura

    Os bioprotetores ganham protagonismo como solução estratégica para o controle de doenças em plantas. Mais do que substituir agrotóxicos, esses produtos baseados em organismos vivos, como fungos, bactérias, vírus e até ácaros, atuam de forma inteligente. Eles protegem as culturas agrícolas sem agredir o meio ambiente, a saúde dos agricultores e dos consumidores.

    Planta tratada com Bacillus. Foto: Divulgação Embrapa

    Diferentemente dos chamados “fungicidas ou biofungicidas”, que pressupõem a morte do patógeno, os bioprotetores atuam por outros mecanismos: competição, parasitismo, antibiose e indução da resistência da planta. Por isso, especialistas defendem cada vez mais o termo “bioprotetor” como o mais apropriado para englobar os diversos tipos de ação desses organismos.

    Em vez de eliminar o agente causador da doença, muitos bioprotetores fortalecem as defesas naturais da planta, competem por nutrientes e espaço, estabilizam o ambiente e previnem o surgimento de novos surtos.

    Definição científica orienta uso sustentável

    A definição mais aceita de controle biológico de doenças considera a redução das atividades determinantes da doença através da ação de organismos vivos, excluindo-se o homem. Esse controle pode ocorrer de forma natural, conservacionista, clássica (introdução de inimigos naturais) ou aumentativa (aplicação em larga escala).

    Os bioprotetores incluem microrganismos avirulentos, plantas melhoradas geneticamente, organismos antagonistas de patógenos e até produtos naturais derivados desses seres vivos. Agricultores podem integrar seu uso a práticas culturais, criando ambientes mais favoráveis à planta e menos propícios à doença. Em muitos casos, os bioprotetores não “matam” o patógeno, mas interferem na sua reprodução ou impedem que ele cause danos à cultura.

    Inovações tecnológicas ampliam fronteiras do biocontrole

    Nos últimos anos, pesquisadores passaram a explorar agentes não tradicionais como bioprotetores. Os micovírus, vírus que infectam fungos e reduzem sua virulência,  já atuam na China para controlar o crestamento do castanheiro.

    Os bacteriófagos, vírus que atacam bactérias específicas sem afetar seres humanos ou animais, demonstram potencial para controlar doenças bacterianas em plantas. Ácaros predadores e micófagos, como Orthotydeus lambi e Ricoseius loxocheles, combatem o oídio da videira e a ferrugem do cafeeiro, respectivamente.

    A criação desses organismos em laboratório e o desenvolvimento de formulações compatíveis com defensivos agrícolas representam desafios que cientistas precisam superar para ampliar seu uso comercial.

    Desenvolvimento exige processo rigoroso de seleção

    O desenvolvimento de um novo bioprotetor exige um processo rigoroso que envolve várias etapas: avaliação da cultura e da doença-alvo, isolamento de organismos antagonistas no ambiente de interesse (como o semiárido brasileiro), testes de eficácia em laboratório e campo, produção massal e formulação estável, além da integração ao sistema produtivo.

    Essa abordagem permite selecionar agentes adaptados às condições locais e às necessidades específicas dos agricultores. O controle do mofo-branco da soja com Trichoderma e Bacillus ilustra a importância de integrar o bioprotetor ao manejo agrícola, incluindo culturas subsequentes.

    Programa Bioinsumos impulsiona inovação no setor

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) criou o Programa Bioinsumos em 2020 e desempenha papel fundamental na ampliação do uso de bioprotetores no país. O programa promove produtos e tecnologias de origem biológica que favorecem o crescimento das plantas, melhoram a saúde do solo e contribuem para a sustentabilidade dos sistemas agropecuários.

    O decreto que criou o programa define bioinsumos como produtos ou tecnologias de origem vegetal, animal ou microbiana que interferem positivamente no crescimento e defesa das plantas. Agricultores podem utilizá-los na produção, armazenamento e beneficiamento de alimentos.

    Desafios e oportunidades para consolidar liderança brasileira

    Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, reconhece os avanços, mas identifica desafios para consolidar o uso de bioprotetores no Brasil. As prioridades incluem:

    • Desenvolver bioherbicidas para reduzir o uso de químicos no controle de plantas daninhas
    • Ampliar a diversidade de microrganismos disponíveis comercialmente
    • Produzir fungos em sistemas mais sustentáveis, como fermentação líquida
    • Desenvolver produtos adaptados às mudanças climáticas que aumentem a eficiência do uso de nutrientes
    • Abrir coleções microbianas públicas para empresas e pesquisadores desenvolverem novos produtos
    • Investir em formação técnica e científica de profissionais da cadeia dos bioinsumos

    “A substituição de agrotóxicos por bioprotetores não representa apenas uma tendência de mercado — constitui uma resposta à demanda por práticas agrícolas mais conscientes, seguras e resilientes. Ao proteger as plantas sem comprometer o meio ambiente, os bioprotetores restabelecem o equilíbrio dos agroecossistemas, reduzem a exposição de trabalhadores rurais a produtos tóxicos e oferecem alimentos mais seguros aos consumidores”, explica Bettiol.

    “Com ciência, políticas públicas e inovação trabalhando em conjunto, o Brasil tem tudo para seguir como líder mundial no desenvolvimento e uso de bioprotetores. E, mais do que isso, tem a oportunidade de construir uma agricultura com menos veneno e mais vida”, conclui o pesquisador.

  • CNA apresenta posicionamento do agro brasileiro para COP 30 em Belém

    CNA apresenta posicionamento do agro brasileiro para COP 30 em Belém

    A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) elaborou o documento “Agropecuária Brasileira na COP 30” para apresentar os compromissos e conquistas do setor durante a Conferência sobre as Mudanças Climáticas. O evento acontecerá entre 10 e 21 de novembro, em Belém. As federações estaduais ratificaram a publicação, que mostra ao mundo as práticas sustentáveis consolidadas no campo brasileiro.

    O material destaca tecnologias como plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de áreas degradadas e uso de bioinsumos. Essas práticas comprovam que o Brasil desenvolveu uma das agriculturas mais eficientes e ambientalmente responsáveis do planeta.

    Setor rural contribui para combater mudanças climáticas

    O documento funciona como instrumento estratégico de posicionamento internacional. A CNA reforça que o setor rural integra a solução para enfrentar as mudanças climáticas, contrariando narrativas que associam a agropecuária brasileira apenas a problemas ambientais.

    Tirso Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), ressalta a necessidade de desconstruir o mito de que a agropecuária brasileira opera de forma rudimentar.

    “O setor agropecuário representa parte vital na construção das soluções para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Cada vez mais tecnológico e sustentável, o agro sustenta a economia nacional e a preservação ambiental. Pois entende que a qualidade do solo e dos recursos hídricos impacta diretamente a produção”, afirma Meirelles.

    CNA defende acesso facilitado a financiamento climático

    A transição para uma economia de baixo carbono e a adaptação dos sistemas produtivos exigem investimentos de larga escala. O financiamento climático destinado aos países em desenvolvimento, reforçado no Acordo de Paris, representa condição fundamental para fortalecer a resiliência climática e viabilizar ações de mitigação e adaptação.

    A CNA defende maior acesso dos produtores rurais a recursos internacionais, com linhas simplificadas e justas. A entidade propõe que os fundos considerem a realidade dos países em desenvolvimento, garantindo previsibilidade e condições adequadas para a transição sustentável no agro.

    Produção de baixo carbono alinha Brasil a metas globais

    O documento enfatiza a produção com baixa emissão de carbono, alinhada às metas de descarbonização global. A Confederação destaca que o agro brasileiro já reduz emissões de forma efetiva através da adoção de tecnologias inovadoras e da preservação de florestas nativas em propriedades rurais, que sequestram grandes quantidades de carbono.

    Ao demonstrar avanços em métricas concretas, a agropecuária nacional reforça sua legitimidade para acessar mercados internacionais cada vez mais exigentes em sustentabilidade e rastreabilidade.

    Dados contestam narrativas negativas sobre o agro brasileiro

    O presidente da Faesp ressalta a importância de desconstruir narrativas negativas que associam o agro brasileiro ao desmatamento ilegal e à degradação ambiental. O documento da CNA apresenta dados que evidenciam o oposto: produtores rurais brasileiros preservam cerca de 33% do território nacional em áreas de vegetação nativa dentro das propriedades, diferencial único no cenário mundial.

    Essa informação reposiciona a imagem do Brasil nos fóruns internacionais e garante que políticas ambientais não funcionem como barreiras comerciais disfarçadas contra a produção nacional.

    O documento reforça a importância da articulação internacional do agro brasileiro em eventos como a COP 30. Ao unir evidências técnicas, experiências práticas e políticas públicas já implementadas, o setor demonstra capacidade de dialogar com a sociedade e com mercados externos de forma transparente e propositiva.

    A desconstrução de narrativas representa não apenas uma defesa, mas uma estratégia ativa para consolidar o protagonismo do Brasil na agenda global de sustentabilidade. O setor demonstra que o futuro da agropecuária pode ser, simultaneamente, produtivo, inclusivo e ambientalmente responsável.

  • Prêmio Mulheres do Agro está com votação popular aberta

    Prêmio Mulheres do Agro está com votação popular aberta

    A 8ª edição do Prêmio Mulheres do Agro abriu a votação popular da categoria Ciência e Pesquisa. Entre 1º e 12 de setembro, o público pode acessar o site oficial, conhecer as finalistas e escolher a pesquisadora que merece reconhecimento por desenvolver projetos inovadores e sustentáveis para o agronegócio.

    O prêmio, realizado em parceria com a Bayer e a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), tem como objetivo destacar o papel das mulheres na ciência aplicada ao setor e incentivar a representatividade feminina em posições de liderança e inovação.

    Como funciona a votação

    As finalistas foram selecionadas por uma banca técnica especializada, que avaliou trajetórias acadêmicas, profissionais e pessoais, considerando pesquisas inovadoras, soluções sustentáveis e tecnologias aplicadas ao campo.

    A etapa final é conduzida pelo voto popular, que garante participação da comunidade no reconhecimento dessas cientistas.

    “A categoria Ciência e Pesquisa valoriza o papel fundamental das mulheres na inovação do agronegócio e fortalece o protagonismo feminino na ciência”, afirma Amanda Bernardi, gerente de Engajamento Científico para a América Latina da Bayer.

    Conheça as finalistas

    Carolina Cardoso Deuner –  é engenheira agrônoma (UFV), mestre em Fitossanidade (UFPel) e doutora em Fitopatologia (UFLA). Professora da Universidade de Passo Fundo (UPF), coordena o Curso de Especialização em Proteção de Plantas e atua como fitopatologista da Protscience Soluções Agronômicas. Sua pesquisa foca no manejo integrado de doenças em grandes culturas, com ênfase no controle químico e biológico, sempre com foco na inovação e sustentabilidade.

    Dalilla Carvalho Rezende –  é engenheira agrônoma formada pela Universidade Federal de Viçosa, com mestrado e doutorado em Fitopatologia pela ESALQ/USP e pós-doutorado na mesma instituição. Professora do Instituto Federal do Sul de Minas, atua na graduação e pós-graduação, com pesquisas voltadas ao manejo sustentável de doenças de plantas, uso de produtos naturais e biológicos, e desenvolvimento de tecnologias aplicadas à cafeicultura e fruticultura.

    Solange Maria Bonaldo –  é professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), referência em fitopatologia e nanotecnologia aplicada à agricultura. Agrônoma formada pela Universidade Estadual de Maringá, mestra em Produção Vegetal e doutora em Fitopatologia, dedica-se ao controle biológico de doenças, diagnóstico de enfermidades e uso de nanosistemas agrícolas para melhorar eficiência produtiva e sustentabilidade nos sistemas agrícolas de Mato Grosso.

    A vencedora será anunciada no Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, em 22 de outubro, com transmissão online. A premiada receberá R$ 20 mil para investir em pesquisas ou novos projetos na instituição a que estiver vinculada.

  • Cooperativa de Tomé-Açu impulsiona agrofloresta sustentável

    Cooperativa de Tomé-Açu impulsiona agrofloresta sustentável

    O cooperativismo na Amazônia assume múltiplas faces e mostra que há caminhos possíveis para conciliar produção agrícola, inclusão social e preservação ambiental. Enquanto na comunidade de Anã, em Santarém, o turismo ecológico fortalece famílias ribeirinhas e protege o ecossistema; em Tomé-Açu, no nordeste do Pará, agricultores encontraram na agrofloresta a resposta para frear a degradação causada pela expansão da pecuária e da soja. Neste município, a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (CAMTA) se tornou símbolo de inovação, tradição e desenvolvimento sustentável — um modelo replicável para toda a Amazônia.

    Quase um século de cooperação

    Fundada em 1929 por imigrantes japoneses, a cooperativa nasceu em meio ao desafio de adaptar cultivos tropicais ao clima e ao solo amazônicos. Com o tempo, consolidou-se como protagonista na difusão de técnicas agrícolas e na criação de alternativas sustentáveis para crises enfrentadas pela região. Hoje, reúne mais de 600 famílias cooperadas e alcança um faturamento anual superior a R$ 124 milhões.

    Alberto Oppata, Presidente da CAMTA – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    Seu parque agroindustrial permite beneficiamento e exportação de cacau, açaí, pimenta-do-reino, cupuaçu, maracujá e outras frutas tropicais. Os produtos chegam a mercados como da Europa, Ásia e América do Norte. Cada um leva consigo não apenas qualidade e rastreabilidade, mas também a marca de uma agricultura que respeita o meio ambiente e valoriza a diversidade cultural local.

    “Estamos celebrando também os 96 anos da imigração japonesa, que trouxe conhecimento agrícola e visão de comunidade para esta região”, recorda o presidente da cooperativa, Alberto Oppata. Para ele, o segredo da longevidade está na resiliência: depois da praga que dizimou a pimenta-do-reino nos anos 1960, os produtores aprenderam que diversificação e inovação eram o único caminho.

    Agrofloresta como alternativa de futuro

    O grande diferencial da cooperativa está na difusão dos Sistemas Agroflorestais (SAFs), em que culturas agrícolas se misturam com espécies nativas da floresta. Essa integração recupera áreas degradadas, melhora o microclima, protege a biodiversidade e garante renda contínua ao agricultor.

    Ernesto Suzuki, Cooperado CAMTA/ CEO Casa Suzuki – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    Um exemplo emblemático é o SAF dendê, conduzido pelo cooperado Ernesto Suzuki. Desde 2008, em parceria com a Natura, a Embrapa e instituições de pesquisa, ele testa técnicas de cultivo sustentável da palmeira, combinada a espécies como cacau, açaí e andiroba. O resultado é produção sem queimadas, com adubação orgânica e baixo custo de manutenção. “Hoje, conseguimos produzir dendê, cacau, açaí e andiroba juntos, mantendo equilíbrio ecológico e garantindo receita desde o primeiro ano”, explica Suzuki.

    Além da produção agrícola, Suzuki criou a Casa Suzuki em 2023, espaço dedicado à valorização da biodiversidade. Lá, cacau é transformado em chocolates finos, pesquisas com cogumelos avançam em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e turistas vivenciam experiências únicas, como o banho de floresta.

    Histórias que preservam a memória e a floresta

    A diversidade também marca a trajetória da família Mineshita, que há mais de três décadas aposta no sistema consorciado como forma de enfrentar pragas e garantir renda estável. Em 20 hectares, sendo 15 cultivados, o engenheiro agrônomo Armando Tamotsu Mineshita produz cacau, açaí, cupuaçu, banana, pitaya, rambutan e mangostão.

    Armando Mineshita, agricultor e cooperado CAMTA – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    O modelo adotado cria um microclima que mantém a umidade, reduz o uso de adubos químicos e proporciona conforto até na hora da colheita. “Trabalhar no sol é difícil, mas aqui, pela manhã ou à tarde, a temperatura é sempre agradável”, comenta o agricultor. A produção atual chega a 10 toneladas de cacau, 7 de açaí e 7 de cupuaçu por ano.

    Para Mineshita, a grande lição é que a diversificação gera riqueza. “Aqui, aprendemos que é possível produzir em grande escala e, ao mesmo tempo, cuidar da floresta. A diversidade protege e fortalece a produção.”

    Inovação, inclusão e bioeconomia

    A Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu não é apenas uma associação de produtores. É também espaço de pesquisa, formação técnica e valorização social. A organização promove cursos de capacitação, mantém parcerias com universidades e empresas privadas e incentiva a participação feminina na gestão, com um comitê voltado para mulheres cooperadas.

    Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    Com esse trabalho, a cooperativa se tornou exemplo da bioeconomia amazônica, em que biodiversidade e conhecimento científico se transformam em geração de renda e oportunidades. Reconhecida nacional e internacionalmente, a experiência de Tomé-Açu é estudada por universidades e organismos multilaterais como modelo de agricultura tropical sustentável.

    Símbolo da Amazônia que dá certo

    As histórias de Oppata, Suzuki e Mineshita mostram que o futuro da Amazônia pode ser construído com base em tradição, ciência e cooperação. Mais que produzir alimentos, a cooperativa e seus associados criam uma narrativa de resistência e esperança: a de que é possível conciliar floresta em pé, qualidade de vida no campo e desenvolvimento econômico.

    Com quase um século de história, a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu permanece como símbolo vivo de que a agricultura amazônica não precisa repetir o modelo predatório. Ao contrário: pode ser inspiração para o Brasil e para o mundo.

  • Produtores rurais de Anápolis ganham apoio para proteger recursos hídricos

    Produtores rurais de Anápolis ganham apoio para proteger recursos hídricos

    O Programa Produtor de Água de Anápolis (PPA Anápolis) busca ampliar a disponibilidade e a qualidade da água, com ações como recuperação de vegetação nativa, conservação do solo e saneamento rural.

    Até agora, o programa já atuou em 88 hectares nas bacias do Ribeirão Piancó, Rio das Antas e Rio Caldas, em Anápolis. A meta é conservar mais de 2 mil hectares até 2029, beneficiando diretamente 100 propriedades rurais.

    Várias instituições fecharam um Acordo de Cooperação Técnica para impulsionar o programa. Entre elas estão Seapa, Semad, Emater Goiás, Saneago e a ONG TNC Brasil. O objetivo é consolidar Goiás como referência em práticas agrícolas de baixo impacto ambiental.

    O PPA Anápolis surgiu para reduzir os riscos de escassez de água na região, que já enfrentou crise no abastecimento. As bacias atendidas são essenciais para Anápolis, incluindo o Distrito Agroindustrial (DAIA), polo econômico do estado.

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    A adesão ao programa é voluntária. Os participantes recebem assistência técnica e podem ter acesso a pagamentos por serviços ambientais (PSA). Uma das primeiras propriedades beneficiadas, a Fazenda Três Pontas, já adotou medidas como terraceamento e recuperação de estradas.

    “O programa une produção sustentável, recuperação do Cerrado e segurança hídrica. Queremos expandi-lo para mais cidades”, afirmou Pedro Leonardo Rezende, secretário de Agricultura de Goiás.

    Para Stella Miranda, gerente de Sustentabilidade da Seapa, as ações conservacionistas evitam crises hídricas e valorizam o trabalho no campo. “Além de preservar, garantimos água para todos e agregamos valor à produção rural”, destacou.

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  • Novas variedades transformam cultivo de mandioquinha-salsa

    Novas variedades transformam cultivo de mandioquinha-salsa

    A mandioquinha-salsa virou um negócio lucrativo em Santa Catarina. Em pouco mais de uma década, a produtividade média subiu de 12 para 35 toneladas por hectare. O custo de produção caiu 56%. O avanço veio com novas variedades desenvolvidas pela Epagri em parceria com agricultores e pesquisadores.

    Até 2012, os produtores dependiam apenas do cultivar Senador Amaral, que não se adaptava bem ao clima local. A falta de opções levou a perdas por pragas e doenças. A Epagri então testou materiais genéticos em Angelina, na Grande Florianópolis. As melhores plantas, rústicas e produtivas, deram origem às variedades SCS380 Inca e SCS381 Coqueiral, lançadas em 2022.

    Variedades de mandioquinha-salsa são adaptadas às condições climáticas de Santa Catarina. Foto: Epagri

    A Inca produz mais de 30 toneladas por hectare. A Coqueiral chega a 40 toneladas, contra apenas 12 do Senador Amaral. Em 2023, as novas variedades já ocupavam 98% da área plantada em SC e 90% no Paraná, somando 2 mil hectares. Cerca de 900 famílias catarinenses e 1,5 mil em outros estados já adotaram a tecnologia.

    Bruno Dias, de Angelina, abandonou a mandioquinha-salsa por causa da baixa produtividade. Com a Coqueiral, retomou o cultivo em sistema orgânico. Em 2023, colheu 39 toneladas por hectare, com apenas 1% de descarte. A renda chegou a R$ 42,9 mil, com custos de apenas 8%.

     

    O Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), da Epagri, ajudou a reduzir 70% dos fertilizantes e 65% dos agrotóxicos. A erosão caiu 90%, e muitas lavouras dispensaram irrigação. Hoje, o sistema já cobre 30% das áreas no estado.

    A mandioquinha-salsa já movimenta R$ 25 milhões em Angelina só com raízes. Com tecnologia e manejo adequado, a cultura avança para o Vale do Itajaí e Planalto Norte, consolidando Santa Catarina como referência no setor.

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  • Cientista brasileira premiada reforça papel dos biológicos no agro

    Cientista brasileira premiada reforça papel dos biológicos no agro

    A pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, foi laureada em 2025 com o Prêmio Mundial de Alimentação (World Food Prize), conhecido como o “Nobel da Agricultura”, foi idealizado por Norman E. Borlaug. Referência mundial em fixação biológica do nitrogênio.  Após a realização de sua palestra, “Bioinsumos para a promoção de crescimento e nutrição”, no painel sobre  Bioinsumos na cultura da soja, durante o X CBSoja, na tarde de terça-feira, 23, ela concedeu uma entrevista coletiva aos jornalistas presentes no evento. Acompanhe os principais momentos.

    Como a senhora recebeu o reconhecimento da World Food Prize Foundation?

    Vejo como um prêmio a uma vida dedicada à pesquisa. Fui eleita por um comitê internacional que avalia indicações do mundo todo. Imagino que minha persistência tenha contado: comecei a trabalhar com biológicos quando só se falava em adubação química. Nunca desisti, mesmo quando diziam que era perda de tempo. Hoje, colhemos os frutos.

    A senhora costuma falar em “micro revolução verde”. O que isso significa?

    É uma contraposição à Revolução Verde tradicional, baseada em químicos pesados. A nossa é com micro-organismos, algo mais sustentável e adaptado ao Brasil tropical. Comecei nos anos 70, com muita resistência. Hoje, 85% da soja usa inoculantes. Isso mostra que valeu a pena acreditar.

    A trajetória na Embrapa foi decisiva?

    Totalmente. Tive grandes mentores e, quando vim para Londrina, pude montar meu laboratório e fazer ciência com liberdade. Isso me deu autonomia para perseguir resultados de alta produtividade. A meta sempre foi pensar grande: se funciona pro grande, vai funcionar pro pequeno também.

    Esse modelo brasileiro pode ser exportado?

    Já é. Trabalhei por dez anos num projeto com a África Subsaariana. A realidade tropical aproxima muito o Brasil e o continente africano. Fizemos testes e os resultados foram semelhantes. Com transferência de tecnologia, podemos acelerar o desenvolvimento agrícola de lá.

    A pesquisa brasileira em fixação biológica reduziu a dependência externa?

    Com certeza. Só na última safra, economizamos quase 27 bilhões de dólares com nitrogênio que não precisamos importar. Sem nossas bactérias, seria inviável produzir soja nesse nível. E isso vem de 70 anos de pesquisa ininterrupta. Não pode parar.

    Quais os principais desafios atuais?

    Estamos enfrentando temperaturas altíssimas no solo, como em áreas do MATOPIBA. Isso afeta as bactérias. Já estamos estudando novas formulações e protetores. A pesquisa precisa ser contínua, porque os desafios mudam o tempo todo.

    Foto: Agro Em Campo/ Pedro H. Lopes

    O Brasil está preparado para expandir o uso de biológicos?

    O conhecimento está pronto. Mas o acesso ainda é concentrado no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. No Norte e Nordeste, falta distribuição. Estamos firmando parcerias, como com a Copadap, para garantir que os pequenos agricultores também recebam esses produtos.

    O que impede que tecnologias prontas saiam das gavetas?

    Muitas vezes, a indústria não vê viabilidade econômica. Temos produtos excelentes para culturas como morango, mas que são ignorados. Falta investimento, vontade política e também conhecimento sobre como transformar pesquisa em produto. Precisamos de apoio nessa ponte.

    Existe preconceito contra os biológicos?

    Sim, especialmente pelo marketing agressivo dos químicos. Tem gente que ainda recomenda 30 kg de nitrogênio para a soja — o que não é necessário. Também precisamos combater o uso indiscriminado de biológicos. Cada solo tem uma necessidade específica. Biológicos não são “tudo junto agora”.

    É seguro produzir o próprio biológico na fazenda?

    Só se houver controle de qualidade. Há casos de contaminação com patógenos humanos. É preciso estrutura, pessoas treinadas e boas práticas. Talvez associações ou cooperativas possam viabilizar isso, mas não é simples. A Embrapa não vende, mas orienta quem quer fazer direito.

    E na próxima safra, os biológicos ganham ainda mais espaço?

    Sim. O uso de inoculantes e tecnologias biológicas tende a crescer fortemente na safra 2025/26. Já vemos um movimento firme nesse sentido, e ele se intensificou com a crise de fertilizantes provocada pela pandemia e pela guerra. Muitos produtores perceberam o valor dos biológicos na prática. Ainda há espaço para ampliação, principalmente no Norte e Nordeste, onde o acesso é mais difícil. Mas, com a estruturação de parcerias e uma distribuição mais democrática, a expectativa é de crescimento sólido. Como dissemos, o conhecimento está pronto — só falta ele chegar a todos os agricultores.

    Conheça a trajetória de Mariangela Hungria

    Mariangela Hungria é engenheira agrônoma formada pela Esalq/USP, com mestrado em Solos e Nutrição de Plantas pela mesma instituição, doutorado em Ciência do Solo pela UFRRJ e pós-doutorado por três universidades de renome: Cornell University, University of California-Davis e Universidade de Sevilla.

    Pesquisadora da Embrapa desde 1982, iniciou sua carreira na unidade Agrobiologia, em Seropédica (RJ), e desde 1991 atua na Embrapa Soja, em Londrina (PR). Ao longo das décadas, se consolidou como uma das principais referências em microbiologia agrícola, com foco especial em fixação biológica de nitrogênio.

    Foi reconhecida entre os 100 mil cientistas mais influentes do mundo, segundo levantamento da Universidade de Stanford (EUA) em 2020. Em 2022 e 2025, liderou o ranking brasileiro nas áreas de Fitotecnia e Agronomia, segundo o site Research.com, especializado em avaliação de impacto acadêmico.

    Entre os diversos prêmios recebidos, destacam-se homenagens da Frente Parlamentar da Agropecuária, da Fundação Bunge, do Lenovo-Academia Mundial de Ciências e o Prêmio Frederico Menezes. Em 2025, foi agraciada com o Prêmio Mulheres e Ciência, concedido pelo CNPq em parceria com o Ministério das Mulheres, o British Council e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe.

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