A atemoia, fruta híbrida resultante do cruzamento entre a cherimoia e a fruta-do-conde, está em plena safra e ganhando cada vez mais espaço no mercado nacional. Com seu formato de coração, polpa cremosa e sabor equilibrado entre doce e cítrico, a fruta se destaca tanto para consumo in natura quanto para preparações como sucos, sorvetes e sobremesas.
Originária dos Estados Unidos em 1908, a atemoia chegou ao Brasil na década de 1950, inicialmente cultivada em São Bento do Sapucaí e Caçapava (SP). Hoje, o país se consolida como um dos principais produtores mundiais, com São Paulo e Minas Gerais respondendo por mais de 90% da produção nacional, segundo dados do IBGE (2017).
Além do sabor agradável, a atemoia é rica em fibras, vitaminas do complexo B e antioxidantes, contribuindo para a digestão e o fortalecimento do sistema imunológico. A Cooperativa Agroindustrial APCC, de Pilar do Sul (SP), revela que 60% da produção é exportada. Mas a demanda interna vem crescendo, podendo inverter essa proporção nos próximos anos.
Desafios no cultivo: o combate à antracnose
Apesar do sucesso, os produtores enfrentam um grande desafio: a antracnose, doença causada pelo fungo Colletotrichum theobromicola, que ataca ramos e frutos, reduzindo a produtividade. O problema foi identificado há oito anos em Caçapava (SP). E desde então, CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral) e Instituto Biológico trabalham em conjunto com agricultores para desenvolver estratégias de controle.
Uma das soluções em teste é o uso de bioinsumos, como bactérias do gênero Bacillus, que podem reduzir a dependência de defensivos químicos. “A combinação balanceada entre produtos biológicos e químicos é a melhor estratégia para o manejo sustentável da doença”, explica Ricardo Harakava, pesquisador do Instituto Biológico.
Atemoia TEC: tecnologia e cooperação no campo
Com o objetivo de compartilhar conhecimento e soluções, a equipe organizadora criou o Atemoia TEC, evento anual que reúne produtores, pesquisadores e consultores. A última edição, em março de 2025, em Capão Bonito (SP), atraiu mais de 250 participantes de 28 cidades. Incluindo representantes de Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina. A próxima edição será em Holambra II (SP), em 2026.
Com colheita até outubro, a atemoia segue como uma aposta promissora para a fruticultura brasileira, unindo sabor, nutrição e oportunidades de negócio.
O Papa Francisco manteve uma relação profunda e constante com a agricultura, especialmente no que diz respeito à promoção da agricultura familiar, sustentabilidade e combate à fome global. Em diversas mensagens e discursos, ele destacou a importância da família como “húmus frutuoso” e modelo de partilha para uma agricultura sustentável. Que beneficia não apenas o setor agrícola, mas toda a humanidade e o meio ambiente.
O papa Francisco morreu nesta segunda-feira (21), aos 88 anos, em Roma. O falecimento foi confirmado pelo Vaticano às 2h35 no horário de Brasília (7h35 local). Jorge Mario Bergoglio liderou a Igreja Católica por quase 12 anos.
O Papa Francisco recebeu no Vaticano em 2023 membros da Associação Agrária “Jovens Agricultores” da Espanha, destacando a importância espiritual e ecológica do trabalho no campo. Em seu discurso, o Pontífice afirmou que a fome vai além da escassez de alimentos: é também a ausência de Deus na vida das pessoas.
Agricultores: os primeiros ecologistas
Francisco lembrou suas raízes argentinas, país marcado pela agricultura. E enalteceu os trabalhadores rurais como “os primeiros ecologistas”, por seu contato direto com a terra e os animais.
“A vocação divina de quem trabalha no campo os torna testemunhas da ecologia integral que o mundo precisa”, disse. Para ele, essa missão combina o cuidado com a criação e o serviço à sociedade, sendo uma resposta ao chamado de Deus.
Alimento como dom, não como arma
O Papa questionou os agricultores sobre o propósito de seu trabalho e respondeu: “Deus pede que vejam a terra como uma herança para seus filhos e a produção como um dom para saciar a fome do mundo. Mas a fome não é só de pão – é também de Deus, que se fez alimento na Eucaristia para nutrir a humanidade.”
Francisco alertou contra a transformação dos alimentos em “arma” ou objeto de especulação, citando bloqueios em zonas de conflito e manipulação de preços. “Ninguém merece isso – nem os animais, nem as pessoas, nem Deus”, condenou.
Reconhecendo os desafios da profissão, o Pontífice encorajou os agricultores a não desanimarem: “Toda vocação tem sua cruz. Vocês trabalham sem feriados, mas a maior dificuldade é a incompreensão de quem não valoriza esse serviço essencial à vida.”
Por fim, confiou seu trabalho à Virgem Maria, para que permaneçam próximos de Jesus, “que na Cruz se tornou alimento para a humanidade”.
O papa Francisco morreu nesta segunda-feira (21), aos 88 anos, em Roma. O falecimento foi confirmado pelo Vaticano às 2h35 no horário de Brasília (7h35 local). Jorge Mario Bergoglio liderou a Igreja Católica por quase 12 anos.
Em nota oficial, o Vaticano afirmou: “O Bispo de Roma, Francisco, retornou à casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e de Sua Igreja […] Recomendamos a alma do Papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Trino”.
Durante a VIII Conferência Global do Fórum Rural Mundial, realizada em março do ano passado em Vitoria-Gasteiz, Espanha, o Papa Francisco enviou uma mensagem clara e inspiradora: “Na família está o futuro da agricultura”. O evento, que teve como tema central “Agricultura Familiar: sustentabilidade do nosso planeta”, reuniu mais de 150 líderes de 60 países, incluindo o Ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar do Brasil, Luiz Paulo Teixeira Ferreira.
Trabalho solidário das famílias
O pontífice elogiou as famílias que se dedicam à agricultura, destacando seu trabalho solidário e o cuidado respeitoso com a terra. Segundo ele, essas famílias promovem sistemas agroalimentares mais inclusivos, resilientes e eficientes, apesar de ainda enfrentarem pobreza e falta de oportunidades.
Francisco afirmou: “As famílias que trabalham na agricultura são louváveis pela forma solidária e delicada com que cultivam a terra. Favorecendo sistemas agroalimentares mais inclusivos e eficientes.”
Reconhecendo os desafios enfrentados pelos pequenos agricultores, o Papa transmitiu uma palavra de conforto e solidariedade, ressaltando a proximidade da Igreja com essas comunidades.
Além disso, o pontífice destacou o papel insubstituível das mulheres rurais. “As mulheres rurais representam uma bússola segura para suas famílias e um ponto de apoio firme para o progresso da economia. Especialmente nos países em desenvolvimento.”
O Papa Francisco também enfatizou a importância dos jovens na agricultura. “A verdadeira revolução para um futuro alimentar começa com a formação e potencialização das novas gerações. A juventude traz soluções inovadoras para problemas antigos e a coragem necessária para promover mudanças.”
O Brasil liderou nesta quinta-feira (17), em Brasília, uma reunião estratégica do BRICS sobre agricultura e sustentabilidade. O ministro Carlos Fávaro conduziu a abertura do encontro no Palácio do Itamaraty. A Reunião Ministerial do Grupo de Trabalho de Agricultura (AWG) contou com representantes dos 11 países do bloco.
Atualmente, o BRICS inclui Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Indonésia, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Em resumo, o objetivo do encontro foi discutir soluções conjuntas para os desafios agrícolas globais e promover práticas sustentáveis no setor.
Os países do BRICS concentram cerca de 30% das terras agrícolas do mundo e metade da população global. Em geral, também respondem por 30% da pesca extrativa e 70% da produção aquícola mundial. Além disso, reúnem mais da metade dos 550 milhões de estabelecimentos familiares agrícolas do planeta. Esses agricultores produzem cerca de 80% dos alimentos em termos de valor. Por isso, o bloco ocupa posição estratégica na segurança alimentar global. Carlos Fávaro destacou a responsabilidade dos países em liderar uma agenda sustentável e inclusiva para o setor. — O futuro da agricultura depende da nossa capacidade de inovar com equidade, produzir com responsabilidade e cooperar com confiança — afirmou Fávaro.
O ministro também ressaltou o papel do BRICS como protagonista na produção global de grãos, carnes, fertilizantes e fibras. Durante a reunião, os países firmaram compromissos importantes na nova Declaração Ministerial de Agricultura.
Segurança alimentar e combate à fome
Os países reafirmaram o apoio à Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Ao mesmo tempo, também se comprometeram com políticas públicas focadas na redução da insegurança alimentar e promoção da nutrição.
Valorização da agricultura familiar
Os ministros reconheceram a importância dos agricultores familiares, povos indígenas e comunidades locais. Eles geram renda no campo e manejam os recursos naturais de forma sustentável. Portanto, o BRICS vai fortalecer políticas públicas e ampliar a cooperação técnica dentro da Década da Agricultura Familiar da ONU (2019–2028).
Parceria para restauração de terras
Foi lançada a Parceria dos BRICS para a Restauração de Terras. Ou seja, a iniciativa quer recuperar áreas degradadas e fortalecer a agricultura sustentável e a segurança alimentar. Portanto, o grupo vai investir em pesquisa sobre degradação do solo, estimular soluções técnicas e buscar financiamento com bancos de desenvolvimento e setor privado.
Pesca e aquicultura sustentáveis
Os ministros criaram um diálogo sobre Pesca e Aquicultura. O objetivo é promover práticas sustentáveis, apoiar pescadores artesanais e integrar energias renováveis às cadeias produtivas. Ao mesmo tempo, o BRICS também reconheceu a pesca artesanal como patrimônio cultural.
Inclusão de mulheres e jovens
Os países firmaram compromisso com a igualdade de gênero nos setores agrícola e aquícola. Ou seja, as medidas incluem acesso a crédito, tecnologia e inovação para mulheres. Também houve apoio à permanência de jovens no campo, com políticas de acesso à terra, educação e financiamento.
Inovação e sustentabilidade na agricultura
O encontro reforçou o foco em uma agricultura sustentável, resiliente ao clima e baseada em práticas agroecológicas. Em resumo, os países defenderam o uso de bioinsumos, conservação da biodiversidade e manejo eficiente da água. Além disso, também apoiaram o fortalecimento da Plataforma de Pesquisa Agrícola dos BRICS (BARP).
Tecnologia para pequenos produtores
Os ministros destacaram a importância de máquinas adaptadas à realidade da agricultura familiar. O objetivo é aumentar a produção e estimular a organização coletiva por meio de cooperativas e associações.
Comércio agrícola sustentável
Os países avançaram na proposta de criar um Mecanismo de Financiamento de Importações de Alimentos, inspirado na FAO. A ideia é apoiar países em desenvolvimento com base em práticas sustentáveis. Também foi debatida a criação de uma Bolsa de Grãos do BRICS para facilitar o comércio interno.
Certificação eletrônica no comércio
Os ministros promoveram o uso de certificados eletrônicos fitossanitários e veterinários. A medida visa tornar o comércio mais seguro e eficiente. Também foi apoiada a adoção de normas da ONU/CEFACT e a interconexão entre plataformas nacionais de certificação.
Plano de Ação 2025–2028
Durante o encontro, os países iniciaram a negociação do novo Plano de Ação para Cooperação Agrícola. O documento vai consolidar e operacionalizar os compromissos assumidos nesta reunião.
Convite à COP 30 em Belém
Ao final do evento, o ministro Fávaro convidou os países do BRICS para participarem da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30), que será realizada em novembro, na cidade de Belém (PA). — A COP será uma oportunidade histórica para integrar as agendas de agricultura, clima e desenvolvimento sustentável — destacou o ministro.
O pastoreio de patos é uma prática secular que ganha destaque global como modelo de agricultura sustentável. Originária da China e do Japão, a técnica utiliza as aves como aliadas naturais no controle de pragas em plantações de arroz, reduzindo a dependência de pesticidas químicos e fortalecendo a saúde do solo.
Os patos são soltos nos campos de arroz após o plantio, onde desempenham três funções essenciais:
Controle biológico: consomem larvas, caramujos e insetos prejudiciais às plantações, sem danificar os grãos de arroz devido à sua dieta específica.
Aeração do solo: ao caminharem pela lama, revolvem e oxigenam a água, facilitando o crescimento das raízes.
Fertilização natural: seus excrementos enriquecem o solo com nutrientes, substituindo adubos artificiais.
Foto: Reprodução Redes Sociais
Pastores especializados conduzem os bandos para diferentes parcelas do arrozal, garantindo cobertura uniforme, e recolhem as aves ao final do dia em galpões protegidos contra predadores.
Expansão global e inovações
A técnica, conhecida como “ped lai thoong” na Tailândia, já mobiliza milhares de patos – como os 10 mil da raça Khaki Campbell usados em Nakhon Pathom para combater caramujos após a colheita. No Japão, a tradição ganhou um upgrade tecnológico com o desenvolvimento de patos robôs que auxiliam na colheita, misturando inovação e práticas ancestrais.
Foto: Reprodução Redes Sociais
Agricultores relatam redução de custos com insumos químicos e alimentação das aves, já que os patos se nutrem das pragas dos campos. Estima-se que o método permita até três safras anuais em algumas regiões da Tailândia, com impacto positivo na produtividade.
Para especialistas, a prática reforça a importância da harmonia entre agricultura e ecossistemas, oferecendo um modelo replicável em áreas que buscam diminuir a pegada ambiental.
As mudanças climáticas representam um risco crescente para a produção agrícola no Brasil. Segundo um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), cerca de 46% das doenças que afetam lavouras no país devem se tornar mais severas até o final deste século. O levantamento projeta impactos significativos sobre culturas estratégicas como arroz, milho, soja, café, cana-de-açúcar, hortaliças e frutas — pilares da economia agrícola nacional.
De acordo com os pesquisadores, o aumento das temperaturas médias e as alterações no regime de chuvas devem criar condições favoráveis à proliferação de fungos, vírus e vetores, exigindo uma reestruturação nos sistemas nacionais de monitoramento e controle fitossanitário.
Estudo abrange mais de 300 patossistemas agrícolas
O estudo conduzido pela Embrapa analisou 304 patossistemas — conjunto formado por uma planta hospedeira e o respectivo patógeno — relacionados a 32 das principais culturas agrícolas brasileiras. Os dados indicam que os fungos são os patógenos mais prevalentes, presentes em aproximadamente 80% dos casos avaliados.
Com a elevação da temperatura média podendo ultrapassar 4,5°C em determinadas regiões do país até 2100, doenças como a antracnose e o oídio tendem a se intensificar. Alterações no volume e distribuição das chuvas também devem influenciar diretamente a dinâmica dessas doenças.
“A previsão de doenças em um cenário de mudança climática é um desafio complexo que exige continuidade nas pesquisas e implementação de novas estratégias de adaptação”, afirma Francislene Angelotti, pesquisadora da Embrapa Semiárido. Ela ressalta a necessidade de investimentos para fortalecer a infraestrutura fitossanitária nacional.
Vetores e pragas também devem se multiplicar
As doenças transmitidas por vetores como pulgões, cochonilhas, tripes, moscas-brancas e ácaros também estão entre as maiores preocupações dos pesquisadores. O ciclo de vida desses insetos tende a se encurtar com o aumento do calor, o que resulta em populações maiores e mais ativas ao longo do ano.
Mudanças climáticas favorecem fungos patogênicos e vetores de doenças como pulgões e moscas-branca. Divulgação Embrapa
De acordo com Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, o impacto será direto sobre culturas já vulneráveis a essas pragas, como batata, banana, tomate, citros e milho. “O aquecimento acelera o desenvolvimento dos insetos e prolonga sua longevidade, o que pode aumentar significativamente as infestações”, explica.
Eficiência dos defensivos pode cair
Além do aumento das doenças, as mudanças climáticas também podem comprometer a eficácia dos defensivos agrícolas. A absorção, o transporte e a degradação dos fungicidas nas plantas podem sofrer alterações sob novas condições climáticas. E isso exigirá adaptações nas estratégias de manejo.
Com a eficácia reduzida, pode haver a necessidade de aplicações mais frequentes, elevando os custos de produção e o risco ambiental. Esse cenário já impulsiona a busca por alternativas sustentáveis, como os agentes biológicos de controle — os biopesticidas.
Brasil lidera o mercado de biocontrole, mas precisa avançar
O Brasil é atualmente o maior produtor e consumidor de biopesticidas do mundo e possui a maior área agrícola sob controle biológico. Segundo a consultoria Research and Markets, o mercado global desses produtos deve atingir US$ 19,49 bilhões até 2030.
No entanto, especialistas apontam que ainda há um longo caminho a percorrer para adaptar esses bioinsumos às novas condições climáticas. “Precisamos desenvolver, com urgência, produtos biológicos capazes de aumentar a eficiência do uso de nitrogênio e reduzir o estresse das plantas”, defende Bettiol. Ele também destaca a necessidade de soluções para doenças estratégicas, como a ferrugem asiática da soja e a ferrugem do cafeeiro.
Adaptação exige monitoramento, cooperação e políticas públicas
Diante das projeções, pesquisadores recomendam uma resposta coordenada, que envolva ações como análise de risco, adaptação de sistemas agrícolas, fortalecimento da vigilância fitossanitária e ampliação de investimentos em ciência e inovação. O uso de sistemas de cultivo diversificados, a integração de tecnologias de manejo, o emprego de biopesticidas e a adoção de modelos preditivos de epidemias são medidas defendidas para o curto prazo.
“O enfrentamento desses desafios exige políticas públicas eficazes e a articulação entre agricultores, cientistas e governos para garantir segurança alimentar e sustentabilidade”, reforça Angelotti.
Diversidade agrícola amplia o desafio fitossanitário
A diversidade climática e agrícola do Brasil, que abrange desde culturas tropicais até temperadas, exige análises regionais detalhadas sobre os riscos fitossanitários em cenários futuros. Emília Hamada, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, afirma que é essencial realizar estudos com base na distribuição espacial e temporal dos patógenos, incluindo experimentações de campo.
Ela destaca que os modelos climáticos indicam aumento da severidade de doenças fúngicas como antracnose e oídio. O que reforça a urgência na adoção de medidas preventivas e de adaptação em todas as regiões produtoras.
O estudo da Embrapa conclui que os efeitos das mudanças climáticas já estão sendo sentidos no campo. Com planejamento estratégico, incentivo à inovação e articulação entre ciência, governo e setor produtivo, o Brasil pode não apenas mitigar os impactos negativos. M-as também transformar os desafios em oportunidades para modernizar seu sistema de defesa vegetal e garantir a sustentabilidade da produção agrícola no futuro.
A lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), uma das pragas agrícolas mais devastadoras do mundo, espalhou-se por mais de 80 países, destruindo lavouras e desenvolvendo resistência a inseticidas. Mas um estudo australiano traz uma esperança: fungos nativos que infectam e consomem as lagartas de dentro para fora surgem como uma arma promissora no controle biológico.
Originária das regiões tropicais das Américas, a lagarta-do-cartucho já invadiu Europa, Ásia, África e Austrália, ameaçando a segurança alimentar. As mariposas adultas podem migrar até 1.400 quilômetros em 30 horas, impulsionadas por ventos e pelo comércio internacional, segundo Johnnie van den Berg, zoólogo da Universidade North-West, na África do Sul, em entrevista à Live Science. Além disso, tem outras dificuldades em seu combate:
Reprodução explosiva: uma fêmea fértil põe de 1.000 a 2.000 ovos em sua vida.
Danos invisíveis: as larvas, difíceis de detectar, destroem folhas de milho em uma semana.
Dieta variada: além do milho, atacam trigo, algodão, cana-de-açúcar e hortaliças.
Fungos como “inimigos naturais”
Com a resistência da praga a pesticidas químicos, cientistas buscam alternativas sustentáveis. Fungos australianos, ainda em estudo, mostraram capacidade de:
Infectar as lagartas através do contato com esporos.
Consumir seus tecidos internos, levando à morte em dias.
Reduzir a proliferação sem danos ao meio ambiente.
“Esses fungos agem como controladores naturais, oferecendo uma solução de baixo custo e alta eficácia”, explica um pesquisador envolvido no estudo.
Desafios no controle da praga
Apesar do potencial, métodos alternativos — como vírus específicos, extratos botânicos e culturas geneticamente modificadas — enfrentam obstáculos:
Escalabilidade: aplicação em larga escala ainda é limitada.
Custo-benefício: tecnologias como CRISPR são caras para pequenos agricultores.
Velocidade de adaptação: a lagarta-do-cartucho desenvolve resistência rapidamente.
Por que isso importa?
Segurança alimentar: a praga reduz até 50% da produção de milho em regiões afetadas.
Impacto econômico: prejuízos globais chegam a US$ 13 bilhões anuais, segundo a FAO.
Sustentabilidade: fungos podem reduzir o uso de agrotóxicos, protegendo ecossistemas.
Pesquisadores australianos planejam testar os fungos em campo. Enquanto isso, agricultores são orientados a:
Monitorar lavouras com armadilhas luminosas.
Rotacionar culturas para quebrar o ciclo da praga.
Um avanço científico brasileiro acaba de ganhar destaque global: o bioinseticida Virumix, desenvolvido para combater a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), demonstrou eficiência superior a 85% em testes de campo realizados em Mato Grosso. A praga, que ataca mais de 200 cultivos – como milho, soja e algodão –, é responsável por prejuízos bilionários à agricultura. O produto, feito à base de um vírus natural (Baculovirus spodoptera), será lançado em 3 de abril de 2025, durante a inauguração de uma biofábrica em Sorriso (MT), marcando um novo capítulo no controle biológico de pragas no Brasil.
Fruto de uma parceria entre Embrapa Milho e Sorgo, IMAmt e Comdeagro, o Virumix é o primeiro bioinseticida microbiológico da linha do IMAmt. Sua fórmula utiliza o SfMNPV, um vírus entomopatogênico que infecta exclusivamente a lagarta-do-cartucho, preservando plantas, animais e seres humanos.
Principais vantagens:
Segurança ambiental: não afeta insetos benéficos, essenciais para o equilíbrio do ecossistema.
Versatilidade: compatível com outros agroquímicos e indicado para sistemas orgânicos.
Custo-benefício: dosagem de 50g/hectare, com embalagem inicial de 2kg (cobre 40 hectares).
“O Virumix é uma resposta à resistência da praga a biotecnologias e agroquímicos. Ele reduz custos e impactos ambientais”, explica Álvaro Salles, diretor-executivo do IMAmt e da Comdeagro.
Como funciona o controle biológico?
O pesquisador Fernando Hercos Valicente, da Embrapa, detalha que o sucesso do produto depende de aplicação estratégica:
Monitoramento semanal da lavoura para detectar infestações precoces (lagartas com menos de 1 cm).
Aplicação no início da manhã ou após as 16h, quando as temperaturas são mais baixas.
Uso de espalhante adesivo para garantir cobertura uniforme.
“Não podemos perder a primeira aplicação. A lagarta ataca o milho uma semana após a germinação”, alerta Valicente.
Biofábrica
A nova unidade em Sorriso (MT) permitirá produção em larga escala do Virumix, inicialmente distribuído pela Comdeagro. O Brasil, já líder global em bioinsumos, vê o setor crescer 14% ao ano, com projeção de ultrapassar US$ 10 bilhões até 2032.
O Virumix foi desenvolvido a partir de um vírus entomopatogênico, o que significa que é específico para combater o inseto-alvo. Foto: Fernando Valicente/Embrapa
“Estamos convertendo nossa biodiversidade em soluções sustentáveis. O Virumix é um exemplo de inovação aberta que posiciona o país na vanguarda da agricultura tropical”, afirma Sara Rios, chefe-adjunta de Transferência de Tecnologia da Embrapa.
O lançamento ocorrerá na Comdeagro (BR-163, Km 712, Zona Rural de Sorriso), com presença de pesquisadores e representantes do agronegócio. A data reforça o compromisso do Programa Nacional de Bioinsumos, criado em 2020 para reduzir a dependência de insumos importados e impulsionar a bioeconomia.
Uma curiosidade: o nome Virumix combina “vírus” e “mix”, refletindo a integração de tecnologias naturais no combate à praga.
O Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) acaba de lançar um curso online e gratuito sobre controle biológico, em parceria com a Embrapa Meio Ambiente. A iniciativa visa capacitar produtores rurais e profissionais do agronegócio na técnica que utiliza organismos vivos para combater pragas, reduzindo impactos ambientais e fortalecendo a sustentabilidade no campo.
O módulo “Controle Biológico”, disponível na plataforma do Sindiveg, aborda:
Funcionamento da técnica: Uso de macro e microrganismos (como fungos e insetos) para controlar patógenos e pragas.
Vantagens: Equilíbrio ecológico, redução de químicos e aumento da produtividade agrícola.
Regulamentação no Brasil: Impacto da Lei nº 15.070/2024, sancionada em dezembro de 2024, que fortalece o mercado de bioinsumos.
Segundo Fábio Kagi, gerente de Assuntos Regulatórios do Sindiveg, “o controle biológico é essencial para a agricultura moderna, garantindo plantas mais resistentes e safras sustentáveis”.
Parceria com a Embrapa: rigor científico garantido
O conteúdo foi desenvolvido com a colaboração do pesquisador Wagner Bettiol, da Embrapa Meio Ambiente, e revisado por especialistas do setor. Bettiol destaca:
Capacitação contínua: “Produtores precisam dominar técnicas inovadoras para obter sucesso no campo.”
Sustentabilidade: “O controle biológico é eficaz e ambientalmente seguro, beneficiando toda a cadeia produtiva.”
A analista do Sindiveg, Isabela Rivato, reforça que o curso surgiu após meses de pesquisa de campo e consultas a empresas e produtores: “Identificamos lacunas de informação e criamos um material preciso e acessível”.
Como funciona a plataforma do Sindiveg?
Além do novo módulo, a plataforma oferece cursos como:
Uso Correto e Seguro de Defensivos Agrícolas
Boas Práticas na Relação Agricultura e Apicultura
Aplicador Legal
Benefícios:
Certificado gratuito ao concluir cada módulo.
Conteúdo didático, com linguagem clara e exemplos práticos.
Acesso ilimitado para agricultores, apicultores e interessados em geral.
Por que o controle biológico é o futuro do agronegócio?
Redução de custos: Diminui a dependência de defensivos químicos.
Resiliência climática: Plantas tratadas com bioinsumos são mais resistentes a doenças e extremos climáticos.
Mercado em expansão: O Brasil é líder global em bioinsumos, com crescimento de 28% ao ano (dados de 2023).
Para se inscrever, acesse a plataforma do Sindiveg e cadastre-se gratuitamente.
A produção brasileira de tomate registrou um salto histórico em 2024, consolidando o país entre os líderes globais do setor. Segundo dados do IBGE, a safra alcançou 4,7 milhões de toneladas, com crescimento de 19,2% frente a 2023, além de expansão de 10,6% na área colhida (3.543 hectares). O avanço, porém, esbarra em um desafio crítico: o controle da mosca-branca, praga que ameaça produtividade e qualidade dos frutos.
Mosca-branca: inimiga Nº 1 do tomate brasileiro
Responsável por ataques a mais de 700 espécies de plantas, a mosca-branca (Bemisia tabaci) é uma das maiores preocupações dos produtores de tomate. De acordo com Fábio Kagi, gerente do Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal), o inseto causa danos diretos e indiretos:
Sucção de seiva, que pode levar à morte da planta em infestações severas;
Liberação de toxinas que provocam amadurecimento irregular dos frutos;
Transmissão de vírus associados a nanismo, folhas enrugadas e amarelecimento;
Fumagina, fungo que se desenvolve a partir de substâncias excretadas pelo inseto, bloqueando a fotossíntese.
“Sem controle preventivo, a praga compromete até 70% da colheita em casos extremos. O manejo deve ser contínuo, do plantio à colheita”, alerta Kagi.
Defensivos agrícolas e manejo integrado: chaves para a produtividade
Para frear a mosca-branca, especialistas reforçam a adoção de estratégias integradas, combinando:
Monitoramento constante das lavouras;
Rotação de culturas para quebrar o ciclo reprodutivo da praga;
Aplicação responsável de defensivos agrícolas, seguindo orientações técnicas e intervalos de segurança.
“Produtores incluem esses custos no planejamento porque sabem que, sem controle, os prejuízos são incalculáveis. O Brasil não pode perder seu protagonismo no mercado global por falhas no manejo”, destaca Kagi.
Por que o Brasil é destaque na produção de tomate?
Além do clima favorável e da tecnologia no campo, o país investe em pesquisa e regulamentação de defensivos. Segundo o Sindiveg, produtos aprovados pela Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura são essenciais para garantir segurança alimentar e eficácia no combate a pragas.
“Defensivos modernos são desenvolvidos para atuar com precisão, preservando a planta e reduzindo impactos ambientais. É um equilíbrio delicado, mas possível”, explica Kagi.
Com a demanda global por alimentos em alta, o Brasil tem oportunidade de ampliar exportações de tomate — desde que mantenha o rigor no controle fitossanitário. Para isso, a capacitação técnica dos produtores é fundamental.
“O manejo integrado não é custo, é investimento. Cada real gasto em prevenção retorna em produtividade e qualidade”, conclui o especialista.