Se você vive em cidade grande, já deve ter cruzado com um saruê – ou gambá‑de‑orelha‑preta – atravessando calçada, fuçando lixo ou sumindo em debaixo de carro. Para boa parte da população, o reflexo é o mesmo: medo, repulsa, até vontade de espantar ou matar. Porém, o que parece problema noturno é, na prática, um faxineiro da natureza, com papel direto na saúde e no equilíbrio ambiental das áreas urbanas.
O saruê é um marsupial onívoro, ou seja, come de tudo: frutas, insetos, pequenos animais e restos orgânicos de lixo. Essa dieta variada o coloca na posição de controlador natural de pragas, porque consome baratas, escorpiões, carrapatos, ratos e até alguns animais peçonhentos.
Como o faxineiro atua no ecossistema urbano
Se olhar com mais frieza, o saruê cumpre duas funções que muitos gestores públicos gastam dinheiro tentando resolver com veneno e controle químico. Na primeira, ele reduz populações de pragas urbanas, diminuindo a chance de infestações de baratas, escorpiões e carrapatos em áreas residenciais. Na segunda, ao se alimentar de frutas e carregar sementes em suas fezes, ajuda a dispersar vegetação em áreas verdes e remanescentes de mata, atuando como um jardineiro involuntário.
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Outro ponto pouco conhecido é a resistência do saruê a alguns venenos de animais peçonhentos. Isso significa que, em vez de sumir diante de escorpiões ou aranhas, ele passa a se alimentar desses bichos, o que aumenta sua eficiência como controlador biológico. Em áreas onde a fauna nativa foi reduzida, o saruê entra como predador que não foi chamado pelo homem, mas que acaba compensando, em parte, a ausência de outros controles naturais.
O conflito entre preconceito e urgência ecológica
Apesar disso, o saruê continua sendo visto como incômodo, sujo ou perigoso. Muitas pessoas não sabem que o animal é, na maioria das vezes, tímido e prefere fugir ou se fingir de morto quando ameaçado, um comportamento conhecido como tanatose. Outros ainda espalham informações erradas de que o saruê é agressivo ou responsável por doenças, quando o maior risco costuma vir da falta de manejo de lixo, não do próprio animal.
Além disso, por causa da expansão urbana e da perda de habitat, o saruê foi se aproximando cada vez mais das cidades, onde encontra comida fácil em lixeiras e áreas mal fechadas. Se por um lado isso aumenta o contato com o ser humano e gera irritação, por outro demonstra que o sistema urbano está, indiretamente, criando condições para que esse faxineiro entre em cena.
O que o saruê muda para quem vive na cidade?
Para quem mora em bairro, condomínio ou área com muita vegetação, o saruê não é só um bicho esquisito que passa de noite. Ele é um agente de controle de pragas que, por não ser intencional, acaba subestimado. Em vez de depender apenas de inseticidas e raticidas, a convivência informada com o saruê pode reduzir pressão de baratas, escorpiões e carrapatos em espaços que já estão próximos de casa.
Ecologistas e especialistas em fauna urbana recomendam, então, duas atitudes simples: não alimentar o saruê e manter o lixo bem fechado ou dentro de áreas seguras. Ao mesmo tempo, orientam que, ao invés de matar ou envenenar, seja chamada uma equipe de fauna ou de meio ambiente para captura e soltura em áreas de vegetação mais adequadas. Assim, o faxineiro continua trabalhando, só que em um lugar onde sua função faz mais sentido e gera menos atrito com o dia a dia urbano.
Em outras palavras, o saruê é um dos casos em que o preconceito está na frente da leitura prática: o bicho que muita gente vê como problema pode ser, na verdade, um dos aliados silenciosos para evitar pragas maiores e manter o ecossistema urbano um pouco mais equilibrado.

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