Tag: amazônia

  • Exposição reúne 800 peças indígenas no Dia dos Povos Originários

    Exposição reúne 800 peças indígenas no Dia dos Povos Originários

    O Jardim Botânico de São Paulo recebe a exposição “Povos Originários”, que destaca a diversidade cultural indígena no Brasil e na Amazônia. A mostra reúne mais de 800 peças originais e abre ao público neste domingo (19), Dia dos Povos Originários, com entrada gratuita para visitantes do parque.

    O acervo apresenta artefatos de mais de 100 povos indígenas e revela aspectos do cotidiano, da espiritualidade e da organização social dessas comunidades. A exposição também inclui peças com até 11 mil anos, organizadas em espaços que percorrem desde as culturas originárias até os impactos da colonização europeia.

    Entre os destaques, a mostra exibe objetos pessoais do Marechal Cândido Rondon, conhecido por sua atuação na defesa dos povos indígenas e por fundar o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que antecedeu a Funai. O público encontra cartas com conteúdo humanitário e itens de uso cotidiano, como perneira militar, isqueiro e capacete.

    Outro ponto de atenção é a luva ritual de formigas tucandeiras, utilizada pelo povo Sateré-Mawé em ritos de passagem. Durante a cerimônia, jovens inserem as mãos em luvas com formigas de ferrão venenoso, em um teste de resistência e maturidade.

    A exposição também apresenta uma borduna cerimonial do povo Rikbaktsá, ornamentada com penas e cabelos naturais, símbolo de liderança e autoridade dentro da comunidade.

    A expografia utiliza iluminação em tons quentes para valorizar texturas e cores dos materiais naturais, reforçando a experiência imersiva do visitante.

    As peças pertencem ao acervo do Instituto Cultural Soto. A visitação ocorre diariamente, das 9h às 17h, no Jardim Botânico de São Paulo.

    Serviço

    Foto: Divulgação Zoo São Paulo
    • Jardim Botânico: ingresso antecipado por R$ 19,90; no dia, R$ 39,90
    • Zoológico de São Paulo: antecipado por R$ 59,90; no dia, R$ 119,90
    • Simba Safari: antecipado por R$ 59,90; no dia, R$ 119,90
    • Combo com cinco atrações (Zoo SP, Jardim Botânico, Simba Safari, Mundo Dino e Acqua Zoo): de R$ 379,50 por R$ 129,90 antecipado; no dia, R$ 149,90
  • Parceria na Amazônia instala estação climática e ajuda comunidades locais

    Parceria na Amazônia instala estação climática e ajuda comunidades locais

    Pesquisadores e comunidades ribeirinhas estão unindo forças para monitorar o clima na Amazônia. A iniciativa ganhou um novo avanço com a instalação de uma estação meteorológica na comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, localizada na Floresta Nacional de Tefé, no município de Alvarães.

    A ação, liderada pelo Instituto Mamirauá, busca ampliar a rede de monitoramento climático na região. Além disso, o projeto pretende fortalecer a capacidade das comunidades locais de se adaptar às mudanças climáticas.

    Monitoramento para entender o clima

    A estação instalada já começou a coletar dados essenciais. Entre eles estão temperatura, umidade do ar, velocidade e direção do vento, radiação solar e volume de chuvas.

    Essas informações são fundamentais. Isso porque ajudam pesquisadores a compreender como o clima tem mudado na Amazônia Central. Ao mesmo tempo, permitem acompanhar fenômenos como secas, cheias e variações no nível dos lagos.

    Segundo especialistas, esses dados também contribuem para melhorar modelos climáticos e previsões do tempo. Dessa forma, o monitoramento ganha importância tanto científica quanto prática.

    Foto: Reprodução/Bianca Darski
    Foto: Reprodução/Bianca Darski
    Foto: Reprodução/Bianca Darski

    Parceria com comunidades fortalece projeto

    Desde o início, os pesquisadores envolveram diretamente os moradores da região. A própria comunidade participou da escolha do local da estação e discutiu seus benefícios.

    Para os ribeirinhos, o projeto representa mais do que ciência. Ele traz informações que podem impactar o dia a dia. Com dados mais precisos, moradores conseguem planejar melhor atividades como pesca, transporte e produção local.

    Além disso, a iniciativa estimula o interesse de jovens pela ciência. Escolas da comunidade já demonstram potencial para integrar esse conhecimento ao ensino.

    Projeto amplia rede na região

    A estação faz parte do projeto Lagos Sentinelas da Amazônia, coordenado pelo Instituto Mamirauá e financiado pelo CNPq.

    Essa é a primeira unidade instalada dentro do projeto. No entanto, outras quatro estações já estão previstas. Elas devem monitorar áreas como os lagos de Coari, Janauacá, Serpa e o Lago Grande de Monte Alegre, ampliando a cobertura geográfica.

    Com isso, pesquisadores pretendem construir uma base de dados mais ampla e consistente. Assim, será possível analisar mudanças climáticas em diferentes pontos da Amazônia.

    Eventos extremos acendem alerta

    Nos últimos anos, a região enfrentou eventos climáticos severos. Secas históricas registradas em 2023 e 2024 impactaram diretamente rios, lagos e comunidades.

    Diante desse cenário, o monitoramento contínuo se torna ainda mais necessário. Com dados de longo prazo, pesquisadores conseguem identificar padrões e prever riscos com maior precisão.

    Além disso, essas informações ajudam na formulação de políticas públicas. O objetivo é reduzir a vulnerabilidade de populações que dependem diretamente dos recursos naturais.

    Lagos como “sentinelas” do clima

    Os lagos amazônicos ocupam uma posição estratégica na paisagem. Por estarem em áreas mais baixas, eles acumulam e refletem mudanças ambientais ao redor.

    Por isso, especialistas os consideram verdadeiros “sentinelas” das transformações climáticas. Qualquer alteração no clima tende a impactar diretamente esses ecossistemas.

    Esse fenômeno já ficou evidente em episódios recentes, como a morte de botos em lagos da região durante períodos de seca extrema.

    Informação chega direto às comunidades

    Outro diferencial do projeto está na forma de divulgação dos dados. As informações coletadas não ficam restritas aos pesquisadores.

    Mensalmente, os dados são compartilhados por rádio, e-mail e até grupos de WhatsApp. Dessa forma, mais de 900 moradores da região já acompanham as atualizações climáticas. Essa comunicação direta fortalece a autonomia das comunidades. Ao mesmo tempo, transforma informação científica em ferramenta prática para o cotidiano.

  • Animais que só existem na Amazônia e estão desaparecendo

    Animais que só existem na Amazônia e estão desaparecendo

    A Floresta Amazônica, conhecida como o bioma mais biodiverso do planeta, guarda espécies que não existem em nenhum outro lugar do mundo.

    No entanto, esse patrimônio natural enfrenta uma ameaça crescente. Estudos recentes mostram que animais exclusivos da região já estão na chamada “linha vermelha” da extinção.

    Esse cenário preocupa pesquisadores. Isso porque a Amazônia abriga milhões de espécies, muitas ainda desconhecidas pela ciência.

    Espécies únicas e ameaçadas

    Entre os exemplos mais emblemáticos está o boto-cor-de-rosa, símbolo cultural da região e presente em lendas amazônicas.

    Além dele, outras espécies raras também enfrentam risco, como o macaco-aranha-de-cara-branca, um primata que só existe na Amazônia e depende diretamente da floresta para sobreviver.

    Esses animais possuem distribuição limitada. Ou seja, qualquer alteração no ambiente pode comprometer diretamente sua sobrevivência.

    O avanço da ameaça é real

    O número de espécies ameaçadas na Amazônia aumentou significativamente nos últimos anos.

    Levantamentos indicam que mais de 500 espécies da região já estão em risco de extinção, com crescimento superior a 65% em uma década.

    Esse avanço está diretamente ligado a fatores como desmatamento, mineração, queimadas e expansão agrícola.

    Além disso, a fragmentação do habitat dificulta a reprodução e reduz as chances de sobrevivência das espécies.

    Animais que podem desaparecer silenciosamente

    Muitos desses animais não são amplamente conhecidos pelo público. Ainda assim, desempenham papéis essenciais no equilíbrio do ecossistema.

    O macaco-aranha, por exemplo, atua na dispersão de sementes, ajudando a regenerar a floresta.

    Já espécies aquáticas, como o peixe-boi-da-amazônia, sofrem com poluição, caça e destruição de habitats.

    Quando essas espécies desaparecem, todo o sistema natural entra em desequilíbrio.

    Por que isso importa para o mundo

    A Amazônia não é importante apenas para o Brasil. Ela influencia diretamente o clima global, os ciclos de chuva e a biodiversidade do planeta.

    Por isso, a perda de espécies vai além da questão ambiental. Ela impacta economia, agricultura e qualidade de vida em escala global.

    Além disso, cientistas alertam que muitas dessas espécies podem desaparecer antes mesmo de serem completamente estudadas.

    Um futuro que ainda pode ser revertido

    Apesar do cenário preocupante, especialistas afirmam que ainda há tempo para reverter parte dos danos.

    A preservação de áreas protegidas, o combate ao desmatamento e políticas públicas eficazes são fundamentais para garantir a sobrevivência dessas espécies.

    Além disso, a conscientização da população tem papel decisivo. Afinal, proteger a Amazônia não é apenas preservar uma floresta. É garantir que espécies únicas, que não existem em nenhum outro lugar do mundo, continuem existindo.

  • Mulheres da Amazônia transformam cacau orgânico em chocolate artesanal

    Mulheres da Amazônia transformam cacau orgânico em chocolate artesanal

    Na Comunidade da Missão, a cerca de 8 quilômetros de Tefé (AM), 22 mulheres transformam cacau orgânico colhido na floresta em barras de chocolate e ovos de Páscoa artesanais. O grupo alia técnicas herdadas de gerações anteriores a um modelo agroecológico certificado, produzindo chocolates que chegam ao mercado mais baratos que os industrializados. E com história dentro da embalagem.

    Foto: Tácia Melo/Instituto Mamirauá

    A produção segue o ritmo da floresta. Em dezembro, as produtoras adentram a mata para colher os frutos. Com a chegada do verão amazônico, retiram as amêndoas e iniciam a secagem. A partir daí, cada etapa, fermentação, torra, moagem, acontece nas próprias casas, com fornos artesanais e moinhos manuais. O resultado são bombons de castanha com chocolate, barras de cacau e ovos de Páscoa que chegam à comunidade e à cidade de Tefé.

    “Esse trabalho vem das nossas mães, dos nossos antepassados. A gente aprendeu com elas a cuidar da terra, a produzir sem destruir e a valorizar o que é nosso”, diz Bernadete Araújo, coordenadora do Grupo de Produção Orgânica da Comunidade. “Hoje, com ajuda de parceiros e instituições, a gente continua fazendo com muito orgulho.”

    Certificação pioneira

    O grupo não apenas produz, ele também abriu caminho. Em 2021, tornou-se o primeiro da região de Tefé a conquistar a certificação orgânica, resultado de um processo iniciado em 2019 que incluiu visitas de verificação, avaliação de pares e o preenchimento do Plano de Manejo Orgânico (PMO), exigido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O coletivo se formalizou primeiro como Organização de Controle Social (OCS) e depois evoluiu para Sistema Participativo de Garantia (SPG).

    O Instituto Mamirauá acompanha a iniciativa desde 2020, oferecendo assessoria técnica em manejo agroecológico, apoio nas etapas de certificação e acesso a políticas públicas.

    “Temos contribuído com o fortalecimento da produção orgânica, com cursos que envolvem a prática do manejo agroecológico de diversas espécies frutíferas naquela região, incluindo o cacau”, afirma Fernanda Viana, coordenadora do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá.

    Outras instituições também integram essa rede de apoio: IFAM, Sebrae, Sempa, Prefeitura de Tefé, a Rede Maniva de Agroecologia (Rema) e a empresa Na’Kau.

    Páscoa com sabor de floresta

    Para este ano, as produtoras apostam na expansão das vendas. Com preços abaixo dos chocolates industriais e o diferencial orgânico e artesanal, os produtos ganham cada vez mais espaço fora da comunidade.

    Foto: Tácia Melo/Instituto Mamirauá

    Além da comercialização, a Páscoa de 2025 marca uma estreia: no dia 4 de abril, a Comunidade da Missão realiza a 1ª Caça aos Ovos de Páscoa para as crianças locais, com estande de venda de ovos de chocolate. A iniciativa transforma a produção em celebração. E mostra que, na Amazônia, chocolate também é cultura.

  • Café robusta amazônico: de “patinho feio” a trunfo do Brasil contra a crise climática

    Café robusta amazônico: de “patinho feio” a trunfo do Brasil contra a crise climática

    Em Rondônia, na fronteira entre Amazônia e Cerrado, um grão antes visto como “amargo” está ganhando protagonismo nas xícaras e nos debates sobre clima. O robusta amazônico, cultivado por povos indígenas e pequenos produtores. Mais adaptado ao calor do que o arábica, ele desponta como peça estratégica para manter a oferta global de café em um cenário de temperaturas em alta e eventos extremos cada vez mais frequentes.

    Dentro da Terra Indígena Sete de Setembro, entre Rondônia e Mato Grosso, o café não nasceu como tradição ancestral, mas como herança incômoda. As primeiras lavouras foram deixadas por colonos e invasores que ocuparam a região antes da demarcação, trazendo consigo desmatamento, violência e ruptura territorial.

    Diante desse legado, parte do povo Paiter Suruí quis arrancar os pés de café. Outra parte viu ali uma oportunidade de ressignificar a cultura e transformar a plantação em fonte de renda. E de proteção da floresta. Ao longo dos anos, com capacitações técnicas e parcerias, os indígenas aprenderam a manejar, fermentar e beneficiar o grão, elevando a qualidade da bebida e conquistando mercados de maior valor agregado.

    Hoje, cerca de 130 a 140 famílias Paiter Suruí produzem robusta amazônico em pequenas áreas, em um território de mais de 248 mil hectares, onde o modo de vida tradicional segue ligado à floresta e ao extrativismo. O grão cultivado ali já foi reconhecido como patrimônio cultural e imaterial de Rondônia. E vem se consolidando como um café de origem, com identidade própria.

    Robusta em alta em um planeta mais quente

    Historicamente, o robusta foi visto como um café de menor prestígio, associado a blends baratos e a uma bebida mais áspera. Isso quando comparado ao arábica. Mas a combinação entre ciência, manejo adequado e clima mais quente está mudando essa percepção, dentro e fora do Brasil.

    Pesquisas mostram que o robusta tolera temperaturas mais elevadas do que o arábica. E tende a ter papel crucial na manutenção da oferta, à medida que áreas adequadas para café encolhem com o avanço da crise climática. Entre o início dos anos 1990 e 2023, a participação do robusta no total produzido no mundo subiu de cerca de 28% para algo em torno de 44%. Este movimento foi impulsionado principalmente por Brasil, Vietnã e países da Ásia e da África.

    Ao mesmo tempo, relatórios recentes indicam que os principais países produtores já enfrentam mais dias de calor prejudicial à cultura do café, aumento de secas e maior pressão de pragas e doenças. Em cenários projetados até 2050, a área global com condições ideais para o cultivo de café, tanto arábica quanto robusta, pode cair pela metade ou mais, dependendo do nível de aquecimento e de adaptação tecnológica.

    Embrapa, genética e manejo de precisão

    No Brasil, a resposta passa por pesquisa genética, sistemas produtivos mais eficientes e integração com a floresta. Em duas décadas, programas da Embrapa e de instituições parceiras multiplicaram a produtividade do robusta, combinando materiais genéticos de conilon e robusta em cruzamentos voltados para maior rendimento, tolerância a calor e seca e aprimoramento sensorial.

    Hoje, dezenas de novos cruzamentos estão em teste em Rondônia e em outras regiões, buscando plantas mais resilientes a extremos climáticos, com melhor xícara e maior estabilidade de produção. Ao lado da genética, pesquisadores e técnicos reforçam que o salto de qualidade depende de colheita seletiva, pós-colheita cuidadosa e secagem adequada, práticas que podem transformar um robusta genérico em um robusta especial.

    Outro eixo é o manejo integrado com árvores e fragmentos florestais, que ajudam a regular temperatura, manter umidade, favorecer polinizadores e controlar pragas de forma natural. Esse desenho, mais próximo de sistemas agroflorestais, ganha destaque justamente na Amazônia, onde a pressão por abertura de áreas para pecuária ainda é forte.

    Pequenas propriedades mostram o caminho

    Na região das Matas de Rondônia, selo de Indicação Geográfica concedido ao território de cafés robusta de qualidade, cerca de 10 mil propriedades cultivam café, em sua maioria pequenas e conduzidas por famílias. Apesar de o café ocupar menos de 1% da área em alguns municípios, a cultura tem servido como alternativa à conversão de floresta em pasto quando associada a boas práticas ambientais.

    Um exemplo citado por técnicos e entidades do setor é o de famílias que adotam irrigação mais eficiente, plantio de árvores para proteger nascentes, criação de abelhas para reforçar a polinização e rotação de culturas com milho, feijão e outras espécies para recuperar o solo. Com esse modelo, é possível gerar renda significativa em poucos hectares, reduzindo a pressão por desmatamento e agregando valor via turismo rural, visitas guiadas e venda direta.

    Entre os Paiter Suruí, o robusta amazônico também já levou prêmios nacionais e internacionais. Incluindo notas máximas em protocolos específicos para avaliação de canephora e destaque em concursos de cafés especiais. O resultado é um produto que carrega, ao mesmo tempo, narrativa de território, conservação florestal e protagonismo indígena em cadeias de valor antes dominadas por grandes produtores.

    Risco de monocultura e desafio da escala

    O avanço do robusta, porém, não vem sem riscos. Especialistas e lideranças indígenas alertam que preços em alta podem estimular a expansão de monoculturas em larga escala. Portanto, substituindo sistemas diversificados de pequenos produtores por grandes áreas contínuas de café, com maior impacto ambiental.

    Cafeicultura em terras indígenas é sustentável e gera renda para essas comunidades. Foto: Aliny Melo/Embrapa

    Sem políticas públicas que valorizem quem mantém floresta em pé, o robusta pode se tornar vetor de novo ciclo de desmatamento em áreas amazônicas e de transição, caso seja tratado apenas como commodity de curto prazo. Daí a defesa por incentivos fiscais, crédito diferenciado e programas de compras públicas que priorizem café de origem sustentável, com rastreabilidade e participação de comunidades tradicionais.

    Outra frente é a mudança cultural no consumo. Pesquisadores e baristas vêm construindo uma nova gramática sensorial para o canephora, com rodas de aromas e sabores específicas, argumentando que robusta e conilon devem ser avaliados em seus próprios termos, e não pela régua do arábica. Isso abre espaço para que mercados especializados e cafeterias passem a apresentar o robusta não como “segunda categoria”, mas como um outro perfil de bebida.

    Iniciativas globais e papel do Brasil

    A preocupação com o futuro do café também mobiliza redes internacionais de pesquisa. A World Coffee Research (WCR) ampliou recentemente seu programa de melhoramento para incluir robusta em uma rede global de países como Vietnã, Gana, Índia, Indonésia, Ruanda e Uganda. Eles responsáveis por grande parte da produção mundial dessa espécie.

    O objetivo é testar materiais genéticos em diferentes condições de solo e clima, acelerar o desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes e compartilhar dados entre instituições. Esse esforço vem ganhando peso à medida que o café se torna símbolo da vulnerabilidade da agricultura à crise climática. E ao mesmo tempo, campo de prova para estratégias de adaptação.

    No Brasil, pesquisadores, agricultores e lideranças indígenas destacam que o país, maior produtor de café do mundo, tem oportunidade de liderar uma transição para sistemas que combinem robusta de alta qualidade com conservação de florestas e valorização de produtos não madeireiros, como castanha-do-brasil, açaí, cacau e outras espécies nativas. Esses produtos ainda representam fatia muito pequena do PIB nacional, mas são apontados como caminho para uma economia florestal de longo prazo.

    A floresta, o café e quem vive nela

    Para os Paiter Suruí e outras comunidades amazônicas, o café é hoje mais do que uma mercadoria: é uma ferramenta de afirmação territorial. Ao transformar cafezais herdados de invasores em lavouras de robusta amazônico de alta qualidade, eles mostram que é possível gerar renda mantendo a floresta em pé e ampliando o reconhecimento de seus conhecimentos tradicionais.

    Lideranças indígenas lembram, contudo, que não se pode falar em futuro do café na Amazônia sem falar em quem vive dentro da floresta. A mensagem é clara: o grão robusta pode ser mais resistente ao calor, mas a verdadeira robustez do sistema depende de políticas públicas, consumo responsável e da capacidade de ouvir, e remunerar, os povos que há séculos manejam esses territórios.

  • Ditadura na Amazônia: Comissão aprova pensão de R$ 3 mil para colonos

    Ditadura na Amazônia: Comissão aprova pensão de R$ 3 mil para colonos

    Em uma decisão histórica esta semana, a Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que concede uma pensão especial vitalícia a trabalhadores rurais que foram levados pelo governo federal para projetos de colonização na Amazônia durante o período da ditadura militar.

    Relatora, deputada Célia Xakriabá (Psol-MG). Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados/ Agência Câmara de Notícias

    O benefício, no valor de R$ 3.018 (equivalentes a dois salários mínimos atuais), visa reparar os danos causados às famílias que migraram para a região entre 1971 e 1974 e foram assentadas pelo Incra ao longo das rodovias BR-163 (Cuiabá-Santarém) e BR-230 (Transamazônica).

    A proposta aprovada é um substitutivo da relatora, deputada Célia Xakriabá (Psol-MG), que manteve alterações feitas anteriormente pela Comissão de Agricultura. O texto original é de autoria do deputado Airton Faleiro (PT-PA).

    Quem tem direito e como comprovar?

    A pensão não será automática. Para receber o valor, o trabalhador rural precisará apresentar prova material da época, como documentos fornecidos pelo Incra ou órgãos oficiais. Apenas a prova testemunhal não será aceita, uma medida inserida para evitar fraudes e equiparar o processo às regras previdenciárias rurais.

    Além disso, a relatora incluiu critérios socioeconômicos rigorosos: o beneficiário deve ter renda familiar per capita igual ou inferior a 1/4 do salário mínimo, garantindo que a indenização chegue às famílias em situação de maior vulnerabilidade.

    Reparação histórica e o paralelo com os “soldados da borracha”

    Em seu parecer, Célia Xakriabá comparou a situação desses colonos à dos “soldados da borracha”; migrantes enviados à Amazônia na primeira metade do século XX que viveram em condições análogas à escravidão.

    “A realidade dos projetos de colonização, em vez de prosperidade, era de luta pela subsistência. A fome era uma ameaça real e constante. O governo prometeu infraestrutura e apoio, mas milhares de famílias foram deixadas em condições precárias e ao abandono”, justificou a deputada no parecer.

    Regras do benefício: transferência e acúmulo

     

    O texto aprovado define regras claras para a concessão da pensão especial:

    • Valor: R$ 3.018,00, reajustado anualmente conforme o salário mínimo.
    • Transmissão: em caso de falecimento do titular, a pensão poderá ser transferida aos dependentes, desde que estes também comprovem baixa renda.
    • Acúmulo de benefícios: a pensão não poderá ser acumulada com aposentadorias do INSS ou regimes próprios. Também fica vedado o acúmulo com outras indenizações pagas pela União ou pelo Incra pelos mesmos fatos. No entanto, a lei garante ao beneficiário o direito de optar pelo valor mais vantajoso.

    Próximos passos no Congresso

    O projeto tramita em caráter conclusivo. Isso significa que, após passar pela Comissão de Direitos Humanos, ele ainda precisa ser analisado pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ).

    Se aprovado nessas instâncias, seguirá diretamente para o Senado. Para virar lei, a proposta precisa ser aprovada tanto pela Câmara quanto pelo Senado, sem a necessidade de passar pelo plenário principal, a menos que haja recurso.

    Fonte: Agência Câmara de Notícias

  • Mulheres lideram revolução no turismo sustentável brasileiro

    Mulheres lideram revolução no turismo sustentável brasileiro

    As mulheres representam 44% dos empreendedores no turismo sustentável brasileiro, número expressivamente superior à média nacional de 34% em todos os setores. Entre os viajantes, a presença feminina chega a 70%, segundo relatório de impacto da Vivalá Turismo Sustentável.

    A busca por relações mais justas explica esse cenário. “No modelo tradicional, as mulheres ocupam funções operacionais, enquanto os cargos de decisão seguem majoritariamente masculinos”, explica Mariana Oliveira, coordenadora de operações da Vivalá. “Já o turismo responsável contribui para reduzir desigualdades de gênero e promove ambientes mais acolhedores para viajantes.”

    O turismo de base comunitária, que combina geração de renda local com imersão cultural, tende a ampliar esses números. O setor avança no cumprimento da equidade de gênero, um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU.

    Liderança feminina na Amazônia inspira modelo de turismo comunitário

    Às margens do Rio Negro, Horenilde da Silva Gomes, a Nilde, comanda a Caboclo’s House Ecolodge, hospedagem considerada top 1% das melhores do mundo pelo TripAdvisor. Filha de ribeirinhos, ela cresceu com 13 irmãos no Lago de Acajatuba, a 70 km de Manaus.

    Nilde, CEO da Caboclo’s House Ecolodge. Foto: Divulgação Vivalá

    “A floresta, o rio, a sabedoria popular e a vida comunitária moldaram quem sou”, conta Nilde. O turismo entrou em sua vida quando o pai recebia visitantes na Casa de Farinha e a mãe ensinava medicina natural com plantas.

    Em 2005, após trabalhar em um hotel de selva, Nilde enxergou seu caminho. Com os pais, comprou um flutuante e abriu um restaurante. Depois, adquiriram um terreno e criaram a Caboclo’s House, projeto familiar ribeirinho liderado por mulheres.

    “As dificuldades financeiras eram grandes, e ser mulher empreendendo na região não era simples”, lembra. Em 2017, uma viajante conectou Nilde a um grupo de interessados na experiência local. A parceria com a Vivalá ampliou horizontes.

    Hoje, Nilde coleciona prêmios e reconhecimento. “Ver o hotel entre os melhores do mundo prova que um sonho improvável deu mais que certo”, afirma.

    União feminina fortalece negócios na comunidade

    Nilde incentiva outras mulheres a buscar seu espaço. Um exemplo é Sueula Teixeira Andrade, fundadora do Cheiro da Floresta, que produz cosméticos naturais amazônicos. “Incentivei Sueula a acreditar no talento dela. Hoje ela vende produtos e oferece oficinas para hóspedes”, conta Nilde.

    Sueula participou de mentorias de empreendedorismo oferecidas pela Vivalá na região. “Aprendi a lidar com dinheiro e com meu negócio. As trocas me fizeram crescer e enxergar o potencial das minhas mãos”, diz.

    Seus ancestrais ensinaram Sueula a cuidar da floresta e manusear ervas e óleos. Com as capacitações, ela transformou paixão em negócio rentável. “A matéria-prima está no meu quintal. A cosmética natural mudou minha vida.”

    Sueula destaca a força feminina na comunidade. “A maioria dos empreendimentos de turismo sustentável tem mulheres na gestão. Nós nos fortalecemos juntas para mostrar que somos capazes, mesmo com os desafios.”

    Mulheres em campo ampliam segurança das viajantes

    Atualmente, 80% dos destinos da Vivalá contam com pelo menos uma mulher na equipe de campo. A organização fortalece a autonomia econômica feminina ao gerar oportunidades de renda justa no turismo comunitário.

    Mônica Azevedo Rodrigues, guia especializada em ecoturismo na Chapada dos Veadeiros, explica sua diferença: “Sei exatamente onde estão as dores e receios de outras mulheres. Há algo singular em compartilhar vivências com outra mulher; o reconhecimento genuíno de um lugar de fala compartilhado.”

    Foto: Divulgação Vivalá

    Guiar mulheres exige atenção redobrada à segurança, principalmente ao lidar com prestadores de serviço homens. A presença de lideranças femininas durante as viagens funciona como ato de empoderamento e transmite confiança.

    “Vejo mulheres tomando a frente nas próprias escolhas”, observa Mônica. “Querem incentivar outras a viajar sozinhas, a viver sem depender de companhia. A vida corre rápido demais para esperar o momento ideal.”

    A viajante Rita Alves sentiu essa diferença na Amazônia. “Vivenciei uma experiência real em comunidade ribeirinha, conduzida por mulheres e homens fortes, afetuosos e respeitosos com a floresta. A equipe realizou reunião prévia para alinhar expectativas. Me senti segura, respeitada e bem acompanhada.”

  • Do fruto à inovação: jatobá vira farinha, licor e pomada cicatrizante

    Do fruto à inovação: jatobá vira farinha, licor e pomada cicatrizante

    Pesquisadores brasileiros estão impulsionando o uso do jatobá, fruto nativo de casca dura presente em cinco biomas; Amazônia, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga. Tradicionalmente conhecido pelo uso de sua madeira, o jatobá começa a se firmar como uma planta alimentícia não convencional (PANC) de alto potencial econômico e sustentável.

    O Projeto Jatobá, conduzido pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Tupã e coordenado pela geógrafa Izabel Castanha Gil, tem como principal meta organizar e valorizar a cadeia produtiva do fruto. “Mapeamos os pontos de coleta em cerca de 30 municípios paulistas e trabalhamos com grupos indígenas do Mato Grosso, que já utilizam o jatobá tradicionalmente. Também articulamos ações de reflorestamento com a espécie”, explica Izabel.

    A iniciativa reúne parcerias com universidades e instituições como o Sebrae, Fatec Marília, Embrapii e Cati-SP. O objetivo é unir pesquisa, inovação e capacitação para transformar o jatobá em fonte de renda e conservação ambiental.

    Entre os produtos desenvolvidos estão farinha de jatobá (já usada na merenda escolar), vinagres feitos da casca, creme com cacau e amendoim, mistura para bolo instantâneo, licor e xarope. Segundo Izabel, o próximo desafio é encontrar parceiros que garantam escala de produção.

    Na área de panificação, a Fatec Marília criou um fermento natural à base da seiva do jatobá, rico em cálcio, ferro, magnésio e fibras, e totalmente livre de glúten. No Oeste paulista, o município de Adamantina foi reconhecido em 2025 como Cadeia Produtiva Local (CPL) do jatobá, o que possibilita novos incentivos para produtores e empreendedores.

    Até queijo

    A inovação também chega aos laticínios. Uma queijaria local desenvolveu queijo trufado com creme de jatobá, cacau e amendoim. Além de queijo curado em licor de jatobá, resultado de parcerias com o projeto.

    Pesquisadores de Porto Alegre colaboram com o desenvolvimento de um larvicida natural contra o Aedes aegypti, feito a partir da resina do jatobá, atualmente em fase de testes de campo. A mesma resina é base para uma pomada cicatrizante que passa por estudos bioquímicos avançados. “A produção ainda é experimental, mas a demanda crescente já mobiliza comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul”, destaca Izabel.

    Ele também integra programas de reflorestamento e compensação ambiental, com potencial para gerar créditos de carbono. Mais de 20 mil mudas já foram plantadas em propriedades privadas e áreas públicas da região.

    Árvore de jatobá. Foto: Wilson Fortunato/Flickr

    A árvore leva de 10 a 12 anos para frutificar. Mas depois disso, pode produzir até 200 quilos de frutos a cada dois anos, mantendo a produtividade por mais de um século. Com tanto potencial, o jatobá se firma como símbolo de sustentabilidade, inovação e valorização da biodiversidade brasileira.

  • Pitaya avança na Amazônia: cooperativa em Manaus já colhe fruta-do-dragão quase o ano todo

    Pitaya avança na Amazônia: cooperativa em Manaus já colhe fruta-do-dragão quase o ano todo

    A pitaya avança pelo Brasil, e a Amazônia começa a figurar nesse mapa. Conhecida como fruta-do-dragão, a espécie originária das Américas domina prateleiras do Sudeste Asiático, mas nos últimos anos ganhou força na fruticultura brasileira, impulsionada por uma demanda interna crescente e pelo potencial de exportação.

    Os números confirmam a expansão. Dados da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) e do IBGE mostram que a produção nacional saltou de 1,5 mil tonelada em 2017 para mais de 6 mil toneladas em 2023. Duas forças explicam esse crescimento: as propriedades nutricionais da fruta e a remuneração atraente para quem produz.

    O cultivo ainda se concentra no Sudeste e no Sul, que respondem por 80% do total. Mas o Norte ganha terreno. O Pará já detém cerca de 10% da produção nacional, e o Amazonas estrutura projetos de fomento em diferentes municípios.

    Em Manaus, a Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Centro e Comércio Informal (Semac) distribuiu cerca de 30 mil mudas. Uma das beneficiadas foi a Copasa-Agro, cooperativa de agricultores familiares instalada no assentamento Terumã-Mirim, às margens da rodovia AM-010.

    “O clima quente favorece a colheita durante quase o ano todo”

    O cooperado Daniel Mendonça Sampaio plantou 2 mil pés de pitaya em meio hectare. Numa área total de três hectares, ele também cultiva pimenta, quiabo e pepino. Toda a família trabalha na terra. “O clima quente favorece a colheita durante quase o ano todo, mas o principal período vai de janeiro até maio”, explica Daniel.

    A pitaya pertence à família Cactaceae e cresce em cactos trepadores, adaptados a climas quentes e de boa luminosidade. Para a Semac, o Amazonas reúne condições ideais: calor intenso, luz abundante e regime regular de chuvas.

    Daniel produz cerca de 2 toneladas por ano só de pitaya. Parte vai para a prefeitura de Manaus, que usa a fruta na merenda escolar. O restante circula em feiras e mercados. O preço ao consumidor final oscila entre R$ 7 e R$ 15, conforme a época do ano.

    Doença ameaça lavouras

    A expansão na Região Norte enfrenta um obstáculo agronômico sério: o cancro da pitaya, doença que pode destruir toda a produção se o produtor não agir rápido. “Se não cuidar, é perda de 100%. Estamos controlando com produtos químicos e biológicos”, diz Daniel.

    A pitaya é rica em fibras, vitamina C, ferro, magnésio, compostos antioxidantes e polifenóis, nutrientes associados à proteção celular e ao baixo teor calórico.

    No mercado global, o Brasil ainda opera em escala modesta. O Vietnã produz mais de 600 mil toneladas por ano; a China, 36 mil; Taiwan, 27 mil. Os brasileiros colhem 6 mil toneladas. Mesmo assim, as exportações avançam: segundo dados do Comex Stat compilados pela Abrafrutas, o valor exportado cresceu de US$ 149,9 mil em 2020 para US$ 1,7 milhão em 2022. União Europeia, Canadá e Reino Unido lideram os destinos.