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  • Mapeamento inédito revela geografia do cacau na Amazônia

    Mapeamento inédito revela geografia do cacau na Amazônia

    Um novo estudo técnico mapeou 121 mil hectares de cacau plantados nos estados do Pará e Rondônia. E traçou pela primeira vez um retrato detalhado da produção cacaueira na Amazônia brasileira. O levantamento multitemporal combina sensoriamento remoto, imagens de radar, inteligência computacional e auditoria em campo para qualificar a expansão da cultura sob a ótica da sustentabilidade, da restauração ambiental e da rastreabilidade exigida pelos mercados internacionais.

    Cacau em área de sistemas agroflorestais (SAF). Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    A equipe responsável atualizou os dados do Pará para 2024, já que o último levantamento datava de 2022. Em Rondônia, o estudo estabeleceu a primeira linha de base territorial da cacauicultura estadual. Pesquisadores cruzaram as informações geográficas do cacau com as bases do TerraClass e do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). E concluíram que o avanço do cacaueiro não derruba floresta nativa: ele ocupa principalmente pastagens e vegetação secundária já alteradas no passado.

    Pesquisadores apresentam resultados na ExpoCacau 2026

    A equipe apresentará os resultados completos em 26 de agosto, durante a ExpoCacau 2026, em Ilhéus (BA). O evento reúne mais de 6 mil participantes e cerca de 60 expositores entre produtores, técnicos, especialistas, empresas e organizações da cadeia do cacau.

    Adriano Venturieri, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental (PA) e autor principal do trabalho, defende que a cacauicultura ocupa papel estratégico na Amazônia contemporânea. Segundo ele, a cultura gera renda para milhares de famílias rurais e recupera solos alterados, devolvendo produtividade a paisagens antes ocupadas por pastagens degradadas.

    Norte concentra metade da produção nacional de cacau

    Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a região Norte responde por 50% de toda a safra nacional de cacau, com produção regional de aproximadamente 148 mil toneladas em um total de 297 mil toneladas colhidas no país. O Pará lidera a produção nacional com cerca de 137,5 mil toneladas de amêndoas secas, volume que representa 46% do cacau brasileiro e 92% do total produzido na região Norte.

    Rondônia ocupa a segunda posição na região Norte e a quarta no país, com colheita estimada em 8,6 mil toneladas de amêndoas. Embora cultive uma área menor que o Pará, o estado se destaca pela eficiência técnica. Sua produtividade média supera 1.250 kg por hectare, uma das maiores do Brasil.

    Metodologia combina satélites, radar e validação em campo

    Mapear cacaueiros em meio à densa vegetação amazônica representa um desafio para a ciência geoespacial, já que as copas das plantas, especialmente em sistemas sombreados, apresentam semelhança espectral com florestas nativas ou vegetações secundárias.

    infográfico

    Para superar essa barreira, a equipe técnica estruturou uma metodologia híbrida de alta precisão, combinando imagens e dados de múltiplos satélites. Imagens com resolução de 50 centímetros permitiram identificar detalhes de meio metro no terreno, diferenciando o cacau cultivado a pleno sol daquele integrado em Sistemas Agroflorestais (SAFs).

    Para confirmar as informações extraídas das imagens, os pesquisadores realizaram expedições de campo em dez municípios das regiões da Transamazônica e Nordeste Paraense, além de municípios de Rondônia. Venturieri explica que a integração entre imagens de radar, satélites de alta resolução e validação em solo gerou informações georreferenciadas de elevada acurácia.

    Pará registra salto de 33% na área plantada

    O mapeamento de 2024 identificou 116.436 hectares cultivados com cacau no Pará, distribuídos em 61 municípios. Em comparação com a linha de base de 2022, que somava 87.309 hectares, a área cultivada cresceu 33,26%, um incremento líquido de 29.128 hectares em apenas dois anos.

    O estudo, no entanto, alerta para a composição tecnológica desse crescimento. Do total expandido entre 2022 e 2024, os produtores implantaram 63% (18.350 hectares) em sistemas de monocultivo a pleno sol. E apenas 37% (10.777 hectares) em Sistemas Agroflorestais, que consorciam o cacaueiro com espécies florestais e frutíferas.

    Venturieri pondera que ambos os sistemas fortalecem a economia rural, mas a maior expansão do cultivo a pleno sol indica que os produtores têm respondido a estímulos econômicos de curto prazo. Para o pesquisador, esse cenário reforça a necessidade de ampliar incentivos públicos para os Sistemas Agroflorestais, que garantem maior diversificação e serviços ecossistêmicos.

    A agricultura familiar sustenta a cacauicultura paraense. O mapeamento identificou 31.843 áreas produtivas, das quais 84,65% têm até 5 hectares e 74,55% não ultrapassam 50 hectares. Medicilândia lidera a produção municipal com 35.203 hectares, seguida por Uruará (17.024 hectares), Brasil Novo (10.162 hectares) e Altamira (7.301 hectares), todos no eixo da Transamazônica e Oeste do Pará. Tomé-Açu, com 6.981 hectares, se consolida como polo de referência em Sistemas Agroflorestais no nordeste paraense.

    Rondônia surge com vocação natural para agrofloresta

    Rondônia passa a contar, pela primeira vez, com um mapeamento territorial completo de sua cacauicultura. O estudo estabeleceu a linha de base estadual em 5.340 hectares cultivados em 51 municípios.

    Diferentemente do Pará, Rondônia concentra sua produção em Sistemas Agroflorestais. Nas áreas antropizadas mapeadas com cacau no estado,  que somam 5.339,83 hectares, os produtores cultivam 62% (3.310 hectares) em SAFs e 38% (2.029 hectares) a pleno sol.

    Foto: Adriano Venturieri/Embrapa

    A cacauicultura rondoniense também se apoia fortemente na agricultura familiar: o levantamento identificou 38.108 áreas produtivas, e 75% delas ocupam até 5 hectares. Jaru lidera a produção estadual com 832,13 hectares, seguido por Porto Velho (352,87 hectares), Theobroma (305,43 hectares), Ouro Preto do Oeste (297,41 hectares) e Mirante da Serra (260,28 hectares). Juntos, 11 municípios respondem por 62,6% da área cultivada no estado.

    Para Venturieri, Rondônia trilha uma trajetória singular e promissora. O mapeamento mostra que sistemas agroflorestais sob gestão da agricultura familiar sustentam mais de 60% da cacauicultura estadual. O pesquisador considera esse cenário um ativo estratégico para estruturar uma cadeia produtiva orientada por padrões socioambientais desde sua origem.

    Dados reforçam conformidade com regras ambientais internacionais

    Bases de monitoramento ambiental mostram que 96% das áreas cultivadas no Pará e 98% em Rondônia ocupam locais desflorestados antes de 2020. Venturieri destaca que essa informação ganha relevância diante da legislação da União Europeia, já que o cacau é uma commodity sujeita a controles rígidos de origem.

    O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) proíbe a importação de commodities provenientes de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. O mapeamento identificou que produtores implantaram apenas 3,9% do cacau antropizado no Pará e 2% em Rondônia em áreas desmatadas após 2021, dados que permitem aos exportadores gerenciar riscos e comprovar conformidade socioambiental.

    O levantamento ainda identificou 11.444 hectares no Pará e 148,78 hectares em Rondônia de cacau cultivado sob cobertura de florestas nativas, aproveitadas como sombreamento natural.

    Foto: Adriano Venturieri/Embrapa

    Venturieri conclui que a expansão do cacau na Amazônia não impulsiona novo desmatamento. Ela representa, segundo ele, uma solução concreta para reabilitar terras alteradas e gerar renda. O pesquisador define o mapeamento como instrumento indispensável de rastreabilidade para atender tanto à legislação brasileira quanto às exigências do mercado internacional. Para a Amazônia, ele defende que o desafio estratégico não está apenas em ampliar a área cultivada. Mas em garantir que essa expansão ocorra com qualidade territorial, sustentabilidade e competitividade.

    Vitor Stella, do CocoaAction Brasil, reforça que entender a dinâmica de expansão da cacauicultura na Amazônia ajuda a antecipar o futuro da cadeia produtiva. Segundo ele, conhecer para onde a cultura avança, em quais sistemas produtivos e sob quais condições permite identificar gargalos, orientar políticas públicas e direcionar investimentos e assistência técnica para onde são mais necessários. Stella destaca que o objetivo final é fazer a expansão do cacau acontecer de forma sustentável, com mais produtividade, conservação e geração de renda para o produtor rural.

  • Pirarucu de 2,45 metros poderia bater recorde mundial, mas dois detalhes impediram

    Pirarucu de 2,45 metros poderia bater recorde mundial, mas dois detalhes impediram

    Um pirarucu de 2,45 metros foi capturado por um grupo de amigos durante uma pescaria no Rio Teles Pires, em Sinop (MT), na última segunda-feira (17).

    Nativo da bacia amazônica e considerado um dos maiores peixes de escamas de água doce do mundo, o pirarucu (Arapaima gigas) chamou a atenção dos pescadores pelas dimensões.

    Segundo o empresário e barista Felipe Barp Rossetto, o peixe foi fisgado pelo engenheiro Júnior Santin, que estava em um caiaque. Felipe, o policial científico Lucas Cambrussi e Vilson Rossetto, aposentado e responsável pela organização da viagem, acompanhavam a pescaria em um barco próximo.

    “Quando o Júnior viu que um peixe grande mordeu a isca, ele começou a gritar. Então, fomos até lá e descobrimos que era um pirarucu”, relata Felipe.

    https://www.instagram.com/reel/DcQ7g90ktM0/?igsi=MTlyMzhsejJ5dXhpeA==

    Grupo levou mais de uma hora para retirar peixe da água

    Após perceberem o tamanho do pirarucu, os amigos iniciaram o trabalho para retirá-lo da água. Segundo Felipe, a tarefa demorou mais de uma hora e exigiu a participação de todo o grupo.

    “Foi uma sensação surreal, um misto absurdo de adrenalina, emoção e alegria. A energia tomou conta, foi simplesmente indescritível. Quase não conseguimos tirá-lo da água de tão grande e pesado.”

    A pesca faz parte das viagens realizadas pelos amigos catarinenses há anos. O objetivo, segundo Felipe, era justamente encontrar um exemplar de grandes proporções em Mato Grosso.

    “Era um sonho realmente. Nós vamos sempre ao Mato Grosso para tentar capturar um peixe grande, só não imaginávamos que seria tão grande assim.”

    Por que o pirarucu não será considerado recorde?

    Apesar dos 2,45 metros, a captura não deverá ser homologada como recorde pela Brazilian Game Fish Association (BGFA).

    De acordo com as informações apresentadas pelo grupo, o atual recorde da espécie na entidade é de 2,33 metros, pertencente a Luiz Eduardo Quadro Moraes, após uma captura no Rio Guariba, em Apuí (AM).

    O novo exemplar, portanto, seria 12 centímetros maior. O grupo, porém, não cumpriu dois requisitos necessários para a homologação.

    O primeiro problema foi a medição. Os pescadores tinham uma trena convencional e uma régua da BGFA que permitia registrar exemplares de até 1,50 metro. Para um peixe de 2,45 metros, seria necessária uma fita de medição oficial adequada a animais maiores.

    Outro impedimento foi a impossibilidade de soltura do pirarucu.

    Regra do Ibama determina abate em áreas onde espécie é invasora

    O grupo afirma ter abatido o exemplar em cumprimento à Instrução Normativa Ibama nº 7/2026, publicada em março deste ano.

    A norma declara o pirarucu como espécie exótica invasora quando encontrado fora de sua área de ocorrência natural e estabelece regras para o controle populacional.

    Nas áreas abrangidas pela medida, os exemplares capturados não devem ser devolvidos ao ambiente natural e precisam ser abatidos.

    “A portaria fala, inclusive, que o pescador tem por obrigação fazer o abate. Para nós, que sempre pescamos esportivamente e soltamos os peixes, até causa uma sensação estranha ter que abater um peixe assim tão grande, mas é necessário por ser uma espécie invasora e para ajudar no controle populacional”, afirma Felipe.

    A norma alcança dez regiões hidrográficas:

    • Atlântico Nordeste Ocidental;
    • Parnaíba;
    • Atlântico Nordeste Oriental;
    • São Francisco;
    • Atlântico Leste;
    • Atlântico Sudeste;
    • Paraná;
    • Uruguai;
    • Atlântico Sul;
    • Paraguai.

    Também está incluída a porção superior da bacia hidrográfica do rio Madeira, a montante da barragem de Santo Antônio, em Rondônia.

  • Especiarias amazônicas conquistam mercados na Europa, Ásia e Oriente Médio

    Especiarias amazônicas conquistam mercados na Europa, Ásia e Oriente Médio

    Mais de 50 empresas brasileiras participam nesta semana da edição Amazônia do Exporta Mais Brasil, no Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), em Manaus.

    A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) é quem promove a iniciativa, que reúne 13 compradores internacionais de 11 países interessados em ampliar seus fornecedores.

    Compradores da Argentina, China, Colômbia, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Israel, Itália, Líbano, Países Baixos, República Tcheca e Rússia buscam produtos como açaí, café, castanha-do-brasil, frutas processadas, pescado amazônico e outras proteínas animais.

    Trabalho de inteligência comercial aproxima Brasil e Europa

    Vincent Furlan, especialista do escritório da ApexBrasil em Bruxelas, atribui essa aproximação ao trabalho de inteligência comercial que a Agência desenvolve no Brasil e no exterior.

    “Primeiro, precisamos identificar fornecedores amazônicos capazes de atender às exigências dos compradores europeus. A ApexBrasil conhece as empresas brasileiras. E ao mesmo tempo, nossa equipe em Bruxelas conhece as demandas do mercado europeu e mantém relacionamento com esses compradores”, afirma Furlan.

    Segundo ele, esse trabalho permitiu trazer empresas da República Tcheca, dos Países Baixos e da Itália interessadas em superfoods amazônicos, produtos que ganham valorização crescente na Europa por seus atributos nutricionais e de saúde.

    Furlan destaca ainda que, além da qualidade dos produtos, fatores como rastreabilidade, certificações e sustentabilidade decidem a conquista de espaço no mercado europeu.

    “O comprador europeu quer conhecer a história do produto, saber como ele foi produzido e quais benefícios oferece. Certificações e sustentabilidade são aspectos fundamentais para quem deseja acessar esse mercado.”

    Foto: ApexBrasil

    Rodada facilita contato direto entre empresas e compradores

    Para as empresas brasileiras, o Exporta Mais Brasil reúne, em um único ambiente, compradores efetivamente interessados em determinados produtos e mercados. Esse formato reduz custos de prospecção e acelera a abertura de novos negócios.

    A Polpa Norte, empresa especializada na produção de açaí, sorvetes e polpas de frutas amazônicas, exporta atualmente para cerca de 20 países e participa das ações da ApexBrasil há mais de duas décadas. Renato Geller, diretor de exportação da empresa, explica que a rodada facilita o contato direto com compradores qualificados.

    “A grande dificuldade é identificar o comprador que realmente tem interesse no seu produto. A vinda desses compradores para a região é muito interessante porque concentra empresas que já atuam no segmento e permite realizar reuniões com representantes de diversos mercados em um único lugar”, diz Geller.

    Conhecer a origem dos produtos faz diferença

    Para os compradores, visitar as empresas e acompanhar de perto os processos produtivos representa um diferencial importante na construção de novos negócios.

    Lourdes Vignolo, diretora da empresa holandesa NH Superfoods, destaca que as visitas permitem verificar aspectos fundamentais para atender às exigências do mercado europeu.

    “É muito importante que a ApexBrasil organize esses encontros porque essa é a melhor maneira de conhecer os produtores e as instalações. Assim conseguimos entender como os alimentos são produzidos. Além de verificar os processos, o controle de qualidade e os padrões de segurança alimentar que buscamos na Europa”, afirma.

    Segundo Lourdes, o contato direto com as empresas brasileiras também fortalece a construção de relações comerciais de longo prazo e amplia a confiança entre compradores e fornecedores. Especialmente em um mercado que valoriza cada vez mais a origem, a rastreabilidade e a sustentabilidade dos produtos.

    Plano de R$ 210 milhões busca diversificar mercados após tarifas dos EUA

    A edição Amazônia do Exporta Mais Brasil acontece um dia após o lançamento do Plano de Diversificação de Exportações, que a ApexBrasil apresentou em São Paulo. A iniciativa prevê R$ 210 milhões em investimentos para apoiar até 5.300 empresas brasileiras impactadas pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos, por meio de ações voltadas à abertura de novos mercados.

    A estratégia contempla 36 mercados prioritários e combina rodadas de negócios, participação em feiras internacionais, consultorias especializadas, bolsas de exportação e atendimento individualizado para ampliar a presença das empresas brasileiras no comércio internacional.

    A trajetória da Castanhas Ouro Verde, participante desta edição do Exporta Mais Brasil, ilustra como a diversificação de mercados pode fortalecer a competitividade das empresas brasileiras diante das mudanças no comércio internacional. Lucas Santana, representante da empresa, conta que os Estados Unidos chegaram a ser o principal destino das exportações da empresa. Mas as tarifas impostas pelo governo norte-americano aceleraram a busca por novos mercados.

    “Os Estados Unidos já foram nosso maior mercado e as tarifas tiveram um impacto muito grande para a empresa. Ficamos quatro meses sem vendas, mas isso também nos levou a buscar novos clientes. Hoje crescemos muito na União Europeia, no Oriente Médio e em outros mercados. A ApexBrasil sempre foi nosso braço direito na área comercial. Um dos eventos que mais impulsionou nossa expansão foi justamente uma edição do Exporta Mais Brasil promovida pela Apex”, relata Santana.

    Manaus recebe o Conexões Produtivas na sexta-feira

    A programação da ApexBrasil em Manaus segue na sexta-feira (14) com o Conexões Produtivas: Oportunidades para a Indústria no Acordo Mercosul-União Europeia — Edição Manaus.

    O encontro será promovido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a ApexBrasil e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), e reunirá representantes para discutir as oportunidades abertas pelo acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.

    Entre os destaques estão painéis sobre inteligência de mercado, demandas do mercado europeu, oportunidades para empresas da Amazônia e estratégias para ampliar a inserção de produtos brasileiros no comércio internacional.

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  • Peixes amazônicos já respiram plásticos, aponta estudo

    Peixes amazônicos já respiram plásticos, aponta estudo

    A poluição por plástico já chegou a diferentes ambientes da Amazônia. Uma pesquisada realizada pela Agência Pública mostra que microplásticos estão presentes em rios, igarapés e lagos da região e já foram encontrados no organismo de peixes.

    O problema vai além da presença das partículas na água. Dependendo da espécie e do ambiente, os resíduos podem ser ingeridos junto com os alimentos ou ficar presos nas brânquias, estruturas fundamentais para a respiração dos animais.

    Microplástico chega às brânquias e ao sistema digestivo

    Um dos levantamentos analisou peixes das bacias dos rios Guamá e Acará-Capim, no Pará. Os pesquisadores encontraram partículas plásticas nas brânquias e no trato digestivo de praticamente todos os animais avaliados.

    Ao todo, foram identificadas 383 partículas, com uma média de 5,6 partículas por peixe. A contaminação também apareceu em espécies com hábitos alimentares diferentes, incluindo predadores.

    O resultado chama atenção porque mostra que o problema não está restrito aos peixes que vivem no fundo ou se alimentam de sedimentos. As partículas podem circular pela cadeia alimentar e chegar a diferentes espécies.

    Além disso, o contato com as brânquias pode provocar danos físicos e interferir na respiração e no funcionamento do sistema imunológico dos animais.

    Pirarucu enfrenta um risco ainda mais particular

    Entre as espécies amazônicas, o pirarucu apresenta uma característica que aumenta a preocupação dos pesquisadores.

    O peixe consegue respirar diretamente o ar atmosférico graças a uma bexiga natatória modificada, que funciona de maneira semelhante a um pulmão. Em ambientes com pouco oxigênio, ele precisa subir à superfície para respirar.

    pirarucu
    O pirarucu tem grande importância econômica e alimentar para comunidades da região (Foto: Rodolfo Pongelupe)

    Segundo os pesquisadores ouvidos pela reportagem, essa adaptação pode aumentar o contato do animal com microplásticos que ficam próximos à superfície da água. Em determinadas condições, as partículas poderiam entrar no órgão responsável pela respiração aérea e provocar obstruções ou processos inflamatórios.

    Igarapés podem concentrar mais poluição

    Embora os grandes rios tenham enorme volume de água, isso não significa que estejam livres da contaminação.

    Nos rios Amazonas, Negro, Tapajós e Tocantins, monitoramentos encontraram concentrações consideradas baixas em alguns pontos. Já igarapés próximos a áreas urbanas podem apresentar condições mais preocupantes, especialmente quando recebem esgoto e lixo descartado de maneira irregular.

    Em Manaus, por exemplo, pesquisas já registraram concentrações de até 74.550 microplásticos por metro cúbico em igarapés urbanos.

    O comportamento das águas amazônicas também influencia a distribuição das partículas. Durante o período de cheia, os rios conectam áreas de várzea e florestas inundáveis, facilitando o transporte dos poluentes. Na seca, por outro lado, os microplásticos podem ficar mais concentrados em canais, sedimentos e ambientes isolados.

    Plástico também aparece no fundo dos rios

    A contaminação não fica apenas na superfície.

    Um dos casos estudados é o do tamoatá, peixe que vive próximo ao fundo de lagos e áreas de várzea e se alimenta de detritos presentes nos sedimentos. Esse comportamento pode aumentar a exposição às partículas que se acumulam no leito dos ambientes aquáticos.

    No sedimento do rio Negro, a concentração de microplásticos foi estimada em aproximadamente 13 milhões de partículas por metro cúbico.

    Experimentos com o tamoatá também indicaram que pequenas quantidades de microplásticos na alimentação podem estar associadas a aumento do estresse e perda de peso. Os pesquisadores destacam, porém, que ainda são necessários estudos para compreender como esses efeitos acontecem em diferentes espécies e condições ambientais.

    Contaminação preocupa também a pesca

    O problema ganha uma dimensão ainda maior quando considerado o papel do pescado na alimentação amazônica.

    No Amazonas, uma pessoa consome, em média, cerca de 14 quilos de peixe por ano, aproximadamente cinco vezes a média nacional de 2,8 quilos. Em comunidades ribeirinhas, esse consumo pode ser ainda maior.

    Por isso, a presença de microplásticos nos peixes desperta preocupação tanto pela conservação das espécies quanto pela segurança alimentar das populações que dependem da pesca.

    Os pesquisadores ressaltam que ainda não existem dados suficientes para determinar qual é o impacto do consumo de peixes amazônicos contaminados por microplásticos sobre a saúde humana. A possibilidade de exposição pela alimentação, entretanto, é considerada plausível.

    O que ainda precisa ser descoberto

    A Amazônia abriga mais de 3 mil espécies de peixes, e os cientistas ainda conhecem pouco sobre os efeitos específicos dos microplásticos em grande parte delas.

    Além da ingestão, os pesquisadores querem entender como as partículas se movimentam entre rios, lagos, igarapés e áreas de várzea. A dinâmica das cheias e secas, o tipo de água e até a presença de plantas aquáticas podem alterar a distribuição desses resíduos.

    Assim, o avanço das pesquisas será fundamental para medir o impacto da poluição sobre a biodiversidade, a pesca e os ecossistemas amazônicos.

  • Gigante da Amazônia: pescador captura pirarucu de 77 kg

    Gigante da Amazônia: pescador captura pirarucu de 77 kg

    Um pirarucu de 77 quilos chamou a atenção de moradores e amantes da pesca nesta quarta-feira (5), após ser capturado em um açude localizado no município de Rio Largo, na Região Metropolitana de Maceió (AL). O tamanho do peixe impressionou quem acompanhava a pescaria e rapidamente transformou o momento em motivo de celebração.

    Logo após retirar o animal da água, o pescador comemorou o feito e brincou que o peixinho frito do fim de semana já estava garantido.

    A captura também ganhou destaque pelo porte do peixe. Embora seja uma espécie típica da Amazônia, o pirarucu pode ser criado em açudes, viveiros e sistemas de piscicultura em diversas regiões do Brasil.

    O pirarucu pode ultrapassar 2 metros de comprimento — Foto: Divulgação/IDSM

    Gigante da Amazônia

    O pirarucu (Arapaima gigas) é uma das espécies mais emblemáticas da Amazônia e figura entre os maiores peixes de água doce do planeta. Adaptado aos rios, lagos e áreas alagadas da região, ele possui uma característica incomum: além das brânquias, consegue respirar oxigênio diretamente do ar, precisando subir regularmente à superfície.

    Além da importância ecológica, o pirarucu também tem grande relevância econômica. Sua carne é considerada nobre, possui poucas espinhas e apresenta alta aceitação no mercado brasileiro e internacional.

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  • “Bolsa pirarucu”: entenda quem pode receber o benefício

    “Bolsa pirarucu”: entenda quem pode receber o benefício

    A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) começou a receber, nesta terça-feira (4), as notas fiscais e demais documentos necessários para o pagamento do Programa de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) da Sociobiodiversidade, voltado ao manejo comunitário do pirarucu (Arapaima gigas) no Amazonas. As associações, cooperativas, colônias de pescadores e manejadores e manejadoras interessados têm até 30 de setembro para enviar a documentação pelo sistema SociobioNet.

    O PSA Pirarucu remunera instituições e trabalhadores habilitados na Chamada Pública nº 01/2026 que mantêm os estoques naturais da espécie e conservam ecossistemas aquáticos em áreas protegidas da Amazônia. Além de enviar a documentação exigida no edital, as instituições precisam manter o cadastro ativo no Sistema de Cadastro Nacional de Produtores Rurais e Demais Agentes (Sican) da Conab.

    Como funciona o envio pelo SociobioNet

    Os interessados devem instalar o sistema SociobioNet, desenvolvido pela própria Conab, em um computador. O processo dispensa login ou autenticação prévia, já que os dados pessoais são preenchidos diretamente no formulário. Depois de baixar o sistema, o usuário consegue preencher os dados e inserir as notas fiscais offline. Apenas a transmissão final dos documentos para a Conab exige conexão com a internet.

    O PSA Pirarucu reconhece e paga por cinco frentes de trabalho realizadas pelos manejadores:

    • o planejamento participativo anual do manejo
    • o zoneamento de lagos e ambientes aquáticos
    • a contagem e o monitoramento dos estoques da espécie
    • a vigilância comunitária ambiental e territorial
    • e a pesca controlada seguida de comercialização formal.

    Por que o manejo do pirarucu importa para a Amazônia

    O pirarucu é o maior peixe de escamas de água doce do mundo, podendo atingir até 4,5 metros de comprimento e pesar 200 quilos, e chegou a ficar ameaçado de extinção por causa da pesca predatória. O modelo de manejo comunitário, iniciado em 1999 em uma comunidade da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, reverteu esse quadro e hoje é considerado um dos grandes sucessos da conservação da biodiversidade no Brasil, com a metodologia envolvendo contagem de estoques, proteção de áreas de reprodução e limite de captura. Ou seja, não mais que 30% da população de pirarucus adultos por comunidade.

    Foto: Divulgação/IDSM

    Passadas mais de duas décadas, a prática já envolve mais de 1.300 famílias em 25 municípios do Amazonas. E se espalhou por 32 áreas entre unidades de conservação, terras indígenas e áreas de acordo de pesca. Além do impacto ambiental, o manejo tem gerado renda e fortalecido a organização comunitária. Em Carauari, por exemplo, a cadeia produtiva do pirarucu já alcança diretamente mais de 1 mil manejadores e manejadoras em 47 comunidades, com participação crescente de mulheres em etapas como beneficiamento e comercialização.

    Sobre o Programa

    O PSA Pirarucu resulta da atuação conjunta do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), da Conab, do Ibama e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com participação de manejadores, organizações comunitárias e parceiros que atuam na cadeia do pirarucu no Amazonas.

    O programa integra o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). E tem entre suas missões reconhecer o protagonismo de povos indígenas, comunidades tradicionais, pescadores e agricultores familiares na conservação e no manejo sustentável da biodiversidade. O SociobioNet está disponível na página da Conab.

  • Vídeo: Casal de pirarucus guia filhotes em rio brasileiro

    Vídeo: Casal de pirarucus guia filhotes em rio brasileiro

    Uma cena incomum registrada nas águas do Rio Teles Pires, em Mato Grosso, viralizou nas redes sociais. O vídeo mostra um casal de pirarucus conduzindo centenas de filhotes enquanto atravessa uma área de águas rasas.

    Esse comportamento ajuda a proteger os pequenos contra predadores.

    As imagens foram captadas pelo pescador e influenciador Tiger Bilzerian na região de Porto Santo Expedito, em Itaúba.

    Comportamento surpreendeu até observadores da espécie

    Embora o cuidado parental faça parte do ciclo de vida do pirarucu, o que mais chamou atenção no registro foi a quantidade de filhotes acompanhando os pais.

    Segundo Tiger Bilzerian, é comum que muitos filhotes sejam perdidos ao longo do desenvolvimento devido à ação de predadores naturais.

    “Os predadores atacam os filhotes. É comum que, no fim do trajeto, sobrem cerca de 50, dependendo do habitat. Esse casal deve ter uma estratégia muito boa porque, desse tamanho, já era para ter bem menos filhotes.”

    https://www.instagram.com/reel/DbZCw1yJF4X/?igsh=MTYxOHdzNzg5aGJt

    No vídeo, é possível observar os filhotes se movimentando próximos aos adultos, que parecem liderar o grupo durante o percurso.

    Estratégia ajuda a evitar ataques

    De acordo com especialistas e observadores da fauna aquática, o deslocamento em águas rasas pode dificultar a aproximação de alguns predadores.

    Entre os principais riscos para os filhotes estão:

    • Peixe-cachorra;
    • Ariranhas;
    • Jacarés;
    • Grandes peixes carnívoros.

    A proteção oferecida pelos pais aumenta as chances de sobrevivência da prole nos primeiros meses de vida.

    O gigante das águas amazônicas

    O pirarucu é considerado um dos maiores peixes de água doce do mundo e pode ultrapassar dois metros de comprimento.

    O pirarucu é um dos maiores peixes de água doce com escamas do mundo, sendo considerado um verdadeiro gigante da Bacia Amazônica — Foto: Reprodução/GOV

    Nativo da Amazônia, ele se destaca não apenas pelo tamanho impressionante, mas também pelos comportamentos ligados à reprodução e ao cuidado com os filhotes, algo relativamente raro entre peixes de grande porte.

    Espécie também está no centro de debates ambientais

    Apesar de ser um símbolo da fauna amazônica, o pirarucu passou a ser considerado uma espécie exótica invasora quando encontrado fora de sua área natural de ocorrência.

    Neste ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou a pesca da espécie em diferentes regiões hidrográficas do país como forma de controle populacional.

    Segundo o órgão, o pirarucu possui grande capacidade de adaptação e pode impactar espécies nativas quando introduzido em ecossistemas onde não ocorre naturalmente.

  • Tambaqui vira espécie ameaçada no Brasil e divide opiniões

    Tambaqui vira espécie ameaçada no Brasil e divide opiniões

    O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) incluiu o tambaqui (Colossoma macropomum), um dos peixes mais consumidos na Amazônia brasileira, na lista nacional oficial de espécies da fauna aquática ameaçadas de extinção, publicada em abril.

    Tambaqui
    Foto: Josiane Tada/Flickr

    A Portaria nº 1.666, divulgada no mesmo dia 27 de abril, estabeleceu um prazo de 180 dias para a aprovação de um plano de recuperação populacional da espécie, prazo que termina em 25 de outubro. Caso o plano não avance até lá, a pesca do tambaqui poderá ser proibida em todo o território nacional. A entrada na lista, porém, não implica proibição imediata, desde que especialistas, sob coordenação do MMA, aprovem o plano de recuperação a tempo.

    Queda populacional motiva classificação como vulnerável

    O Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), coordenado pelo ICMBio, projetou uma queda de 43,4% na população de tambaqui ao longo de três gerações. E assim classificou a espécie como vulnerável. O peixe sofre forte pressão pesqueira em seu habitat natural há décadas. E ocorre naturalmente nas várzeas do rio Amazonas e na maioria de seus principais afluentes, distribuindo-se pelos estados do Acre, Rondônia, Amazonas e Pará.

    A piscicultura espalhou o tambaqui por outras regiões da América do Sul. E nos últimos 20 anos, compensou parcialmente as perdas populacionais nos estoques naturais. Isso ainda que o ICMBio não consiga precisar o real impacto da criação em cativeiro sobre essa recuperação.

    Pescadores da Amazônia contestam a decisão

    Vice-presidente da Colônia de Pescadores Z-23 de Alvarães, Castro teme que uma eventual proibição afete de forma desigual os pescadores artesanais, que trabalham com peixe de lago e não possuem viveiros, enquanto produtores de piscicultura poderiam seguir comercializando o tambaqui criado em cativeiro.

    Pescadores familiares se uniram a pesquisadores para pedir ao Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) a reversão da medida ou, ao menos, sua flexibilização em situações específicas.

    Igor Hister Lourenço, analista de pesquisa e desenvolvimento do Instituto Mamirauá, aponta a complexidade de aplicar uma restrição uniforme a toda a bacia amazônica: enquanto algumas áreas mantêm estoques abundantes, o rio Madeira registrou o desaparecimento do tambaqui e viu a espécie reaparecer recentemente após um longo período sem registros. Para Lourenço, estoques menores tornam a captura mais difícil e mais cara, o que naturalmente leva à diversificação da produção pesqueira, processo que já ocorre há anos, sem indicar necessariamente risco de desaparecimento da espécie. Ele também considera um erro o governo não ter consultado os pescadores antes da decisão, diante da escassez de dados sobre a dinâmica da pesca de pequena escala em toda a bacia.

    Falta de dados sobre comunidades tradicionais gera controvérsia

    O ICMBio reconhece uma limitação relevante na avaliação de risco: os dados de desembarque pesqueiro usados no estudo cobrem apenas áreas não protegidas, que correspondem a 61% da área de ocorrência do tambaqui.

    Tambaqui
    Foto: Derwisz/Flickr

    Unidades de conservação e terras indígenas, que somam os 39% restantes e apresentariam baixo risco de extinção, não contam com dados formais de desembarque. Uma lacuna que alimenta as críticas de pescadores e pesquisadores à decisão.

    Plano de recuperação avança sob pressão de prazo

    Roberto R. Gallucci, coordenador-geral do departamento de gestão compartilhada dos recursos pesqueiros do MMA, trata a conclusão do plano de recuperação até outubro como prioridade. O cronograma já definido prevê cooperação com o MPA e a participação de pescadores, gestores e pesquisadores. Um rascunho considerado crucial já foi apresentado, em 12 de junho. O MPA informou, por e-mail, que está reunindo contribuições técnicas para o plano, mas não disponibilizou o documento preliminar solicitado pela reportagem.

    A mesma atualização incluiu o peixe marinho peroá (Balistes capriscus) entre as espécies ameaçadas. A medida também gerou reação entre pescadores artesanais e o setor pesqueiro. Especialmente em Guarapari (ES), onde a associação local de pescadores (Aspeg) considera desproporcional penalizar quem usa métodos de baixo impacto. Aliás, um plano de recuperação para o peroá também está entre as prioridades do MMA.

    Nem sempre esses planos surtem o efeito esperado. O pargo (Lutjanus purpureus) teve seu status agravado de vulnerável para ameaçado mesmo com um plano de recuperação em vigor, segundo o Coletivo Nacional da Pesca e Aquicultura. A entidade atribui o resultado à disputa de protagonismo entre MMA e MPA. E defende repensar a gestão pesqueira com participação direta de quem pesca e de quem decide onde pescar.

    Atualmente, 490 espécies integram a lista de fauna aquática ameaçada no Brasil. O bagre-branco (Genidens barbus) e a corvina (Micropogonias furnieri), incluídos em atualizações anteriores, têm sua situação em revisão após recurso apresentado pelo MPA.

  • Castanha-da-amazônia: indígenas são remunerados por cuidar da floresta

    Castanha-da-amazônia: indígenas são remunerados por cuidar da floresta

    A castanha-da-amazônia produzida por povos indígenas da Terra Indígena Rio Branco, em Rondônia, ganhou um diferencial inédito na safra 2025/2026: pela primeira vez, a produção recebeu pagamento por serviços ambientais (PSA). A remuneração adicional reconhece o papel das comunidades na conservação da floresta, na proteção da biodiversidade e na manutenção dos ecossistemas locais.

    Castanha da amazonia
    Foto: Joze Medeiros/Embrapa

    A iniciativa nasceu de uma parceria entre a empresa Castanhas Ouro Verde Importação e Exportação Ltda. e a Cooperativa dos Povos Indígenas do Rio Branco (Coopirb). O acordo se desenvolveu dentro do projeto “Novas soluções tecnológicas e ferramentas para agregação de valor à cadeia produtiva da castanha-da-amazônia” (NewCast), coordenado pela Embrapa.

    A pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coordenadora do NewCast, Patrícia da Costa, explica que o projeto desenvolve e articula soluções tecnológicas para agregar valor à cadeia produtiva da castanha. Segundo ela, a experiência mostra que a integração entre tecnologia, organização social e mecanismos de valorização econômica fortalece as organizações locais e reconhece os serviços ambientais prestados pelas comunidades que conservam a floresta.

    A União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes) também apoiou as negociações com a empresa compradora. O que fortaleceu o diálogo comercial e a representação da cooperativa indígena no processo.

    Boas práticas elevam a qualidade e reduzem perdas na produção

    A adoção da tecnologia de Boas Práticas para produção de castanha-da-amazônia, desenvolvida pela Embrapa, contribuiu diretamente para a qualidade do produto comercializado. As orientações abrangem desde a coleta até o transporte, a lavagem, a seleção, a pré-secagem e o armazenamento das castanhas, o que reduz perdas e evita contaminações.

    O extrativista indígena Dalton Tupari destaca que essas práticas foram decisivas para a valorização da produção e para a negociação com a empresa compradora. Segundo ele, as recomendações orientam todo o processo, da coleta até a entrega. E agregam qualidade a um produto que já carrega a vantagem de estar associado à conservação da floresta.

    Na safra atual, a Coopirb comercializou cerca de sete toneladas de castanha-da-amazônia com pagamento adicional vinculado ao PSA. Para Tupari, o retorno econômico reforça a importância do trabalho das comunidades indígenas, que coletam e preservam a natureza e agora recebem valor diferenciado por isso. Uma prova de que conservar a floresta também gera renda para as famílias.

    Pesquisa, mercado e conhecimento tradicional se encontram na Amazônia

    A pesquisadora da Embrapa Rondônia Lúcia Wadt avalia que o resultado evidencia a importância de unir pesquisa, conhecimento tradicional, organização social e mercado. Ela lembra que a Embrapa apoia os povos Tupari e Aruá da Terra Indígena Rio Branco desde 2015 com a tecnologia de Boas Práticas, primeiro por meio do Pacto das Águas e, mais recentemente, do NewCast. Na safra 2025/2026, essas ações resultaram na valorização do produto pela qualidade e pelo serviço ambiental prestado pelas comunidades.

    Produtores são orientados quanto a cuidados desde a coleta até o transporte, lavagem, seleção, pré-secagem e armazenamento das castanhas. Foto: Lucia Wadt/Embrapa

    O contrato entre a Castanhas Ouro Verde e a Coopirb abrange comunidades indígenas de diferentes etnias em uma área de aproximadamente 236 mil hectares. Além do valor comercial da castanha, o acordo prevê pagamento adicional de 20% destinado à organização indígena, como reconhecimento pelos serviços ambientais prestados.

    A cooperativa gerencia os recursos de forma coletiva, com aplicação em ações comunitárias como infraestrutura, saúde, educação, fortalecimento cultural e melhoria das condições de produção. Esse modelo mantém parte do valor gerado pela cadeia produtiva dentro dos territórios indígenas, beneficiando diretamente as famílias extrativistas.

    Cooperativismo amplia o acesso das comunidades ao mercado

    A experiência reforça o papel estratégico das cooperativas na organização da produção e na ampliação do acesso a mercados. A atuação coletiva da Coopirb permite reunir a produção das comunidades, padronizar procedimentos, fortalecer a gestão comercial e ampliar a capacidade de negociação.

    Os resultados demonstram a importância da integração entre pesquisa, conhecimento tradicional, organização social e mercado. Foto: Joze Medeiros/Embrapa

    A iniciativa também demonstra a relevância de compradores comprometidos com práticas sustentáveis e com a valorização da origem dos produtos florestais. Ao reconhecer a qualidade da castanha produzida com boas práticas e remunerar os serviços ambientais ligados à conservação, a Castanhas Ouro Verde ajuda a consolidar um modelo de comercialização que une atividade econômica, inclusão produtiva e conservação ambiental.

    NewCast projeta um novo horizonte para a cadeia da castanha

    O projeto NewCast articula soluções tecnológicas, organizacionais e comerciais para agregar valor à cadeia produtiva da castanha-da-amazônia. A experiência na Terra Indígena Rio Branco mostra que a combinação entre tecnologia, organização social, cooperativismo, mercado estruturado e pagamento por serviços ambientais pode ampliar a renda das comunidades. Além de reduzir perdas, melhorar a qualidade do produto e valorizar os territórios indígenas da Amazônia.

    Válido para a safra 2025/2026, o acordo entre a Castanhas Ouro Verde e a Coopirb representa um avanço concreto na construção de modelos de negócios sustentáveis para produtos da sociobiodiversidade. Mais do que comercializar castanha, a iniciativa reconhece o papel dos povos indígenas na conservação da floresta. E mostra que produzir com qualidade e preservar a Amazônia podem caminhar juntos.

  • Cacau vira aliado da recuperação ambiental

    Cacau vira aliado da recuperação ambiental

    Desde meados da década de 1990, produtores paraenses recuperam terras degradadas por meio do plantio de cacau em Sistema Agroflorestal (SAF). Um levantamento da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), compartilhado com a Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), revela que o estado já recuperou 165 mil hectares até o ano passado. Ou seja, uma área equivalente a 231 mil campos de futebol.

    Cacau
    Foto: Secom – RO/Robson Paiva

    Municípios como Tomé-Açu, na região de integração do Rio Capim, e cidades sob influência da Rodovia Transamazônica (BR-230), como Altamira, Medicilândia e Brasil Novo, concentram parte relevante dessa expansão. Tomé-Açu, inclusive, desenvolveu um modelo próprio de manejo, batizado de Safta (Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu).

    Novas lavouras evitam áreas de floresta primária

    Uma pesquisa da Universidade Federal do Pará (UFPA), conduzida pelo campus de Altamira, na região do Xingu, identifica uma mudança de padrão na cacauicultura paraense. Os produtores implantam as novas lavouras predominantemente em áreas já alteradas, e não mais em terrenos de floresta nativa, como ocorria no passado.

    O estudo abrangeu todos os municípios cortados pela BR-230 e reforça as diretrizes do governo estadual, que nos últimos anos concentra esforços em ações de preservação ambiental por meio de culturas agroflorestais.

    O professor Miquéias Calvi, da Faculdade de Engenharia Florestal da UFPA, coordenou o trabalho ao lado da equipe da Faculdade de Engenharia Agronômica da instituição. Segundo ele, a cacauicultura paraense estabelece um ciclo virtuoso: os produtores reaproveitam majoritariamente pastagens degradadas, áreas em estágio inicial de degradação e zonas de sucessão secundária.

    “Isso é importante, pois mostra que as novas lavouras de cacau não estão avançando sobre as áreas de florestas primárias; o componente ambiental é muito interessante nestes sistemas de produção. Identificamos que 81% das novas lavouras de cacau a partir do ano de 2021 estão sendo implantadas em áreas alteradas ou degradadas. Estamos com padrão diferente do que comumente tem sido reportado em outras regiões do Brasil e do mundo”, explica Calvi.

    Terras degradadas voltam a gerar renda

    Para o pesquisador, o reaproveitamento dessas áreas traz ganhos diretos aos produtores rurais, já que solos improdutivos passam a gerar renda em pouco tempo. “Áreas que não estão trazendo nenhum tipo de rendimento ao produtor, em um curto espaço de tempo se tornarão produtivas. Isso mostra uma potencialidade ambiental e econômica da lavoura cacaueira”, defende.

    Calvi alerta, no entanto, para um risco:. Sem apoio de órgãos públicos na distribuição de mudas e sementes florestais, essas lavouras tendem a se converter em monocultivo a pleno sol. Já que solos degradados perdem parte da capacidade de regenerar árvores espontaneamente.

    Foto: Frank Nery /Secom – Governo de Rondônia

    “Órgãos como a Sedap, Seaf (Secretaria de Estado de Agricultura Familiar), Ideflor-Bio (Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará) e secretarias municipais de meio ambiente têm um papel fantástico de fomentar a produção e a distribuição de mudas e sementes florestais para que os agricultores implantem os seus sistemas agroflorestais”, afirma o professor.

    Legislação estadual exige plantio em sistema agroflorestal

    O engenheiro agrônomo Ivaldo Santana, coordenador do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Cacau (Procacau), destaca que a Lei estadual nº 7.093, de 16 de janeiro de 2008, criou o Funcacau (Fundo de Apoio à Cacauicultura do Pará) e determina o plantio de cacau exclusivamente em Sistema Agroflorestal, priorizando áreas já alteradas em vez de florestas nativas.

    Segundo Santana, o estado recuperou 165 mil hectares degradados com plantio de cacau em SAF desde 1996 até o ano passado. “É a prioridade da legislação que cria o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento e Consolidação da Cacauicultura] e do Fundo Cacau. Trabalhar o cacau com Sistemas Agroflorestais e em áreas alteradas. E nós estamos cumprindo essa orientação da legislação e do governo do estado do Pará”, destaca o coordenador.

    Governo distribui 13,5 milhões de sementes por ano

    A Sedap, por meio do Funcacau, injeta recursos na produção e aquisição de sementes híbridas fornecidas pela Ceplac, que são distribuídas a produtores que ampliam áreas plantadas e a novos cacauicultores. “Em média, a gente distribui 13,5 milhões de sementes por ano aos produtores. O Pará todo ano cresce em termos de 9 mil hectares com novas áreas de cacau. E mil produtores se incorporam à cadeia produtiva do cacau todos os anos”, complementa Santana.

    O Ideflor-Bio também contribui com o processo. A instituição produz e distribui gratuitamente mudas de espécies florestais para o sombreamento das lavouras de cacau, elemento essencial para a formação do SAF. O programa também distribui mudas de bananeira aos agricultores, usadas para o sombreamento provisório da cultura cacaueira.

    Programa Territórios Sustentáveis amplia ação em 45 municípios

    O Programa Territórios Sustentáveis (PTS), um dos eixos do Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA), soma-se às iniciativas de incentivo à produção sustentável em regiões pressionadas pelo desmatamento e com potencial de restauração florestal. Mais de 45 municípios paraenses já aderiram ao programa, conduzido pela Sedap.

    Na fase inicial, o programa prevê a implantação de um hectare de Sistema Agroflorestal em áreas antes degradadas ou desmatadas, com aporte de insumos e serviços às propriedades rurais por meio de convênios firmados com as prefeituras municipais.