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  • Peixe e castanha: como a dieta amazônica protege ribeirinhos do mercúrio do garimpo

    Peixe e castanha: como a dieta amazônica protege ribeirinhos do mercúrio do garimpo

    A resposta para um dos maiores problemas ambientais da Amazônia pode estar justamente no prato dos ribeirinhos. Enquanto o garimpo ilegal contamina rios com mercúrio, a mesma dieta baseada em peixe que expõe essas comunidades ao metal tóxico parece também protegê-las dos seus efeitos devastadores.

    O segredo? O selênio, um mineral essencial encontrado principalmente na carne de peixes e na castanha do Brasil. Segundo estudo publicado recentemente na revista científica Chemosphere, esse elemento pode estar funcionando como um verdadeiro antídoto natural contra a intoxicação por mercúrio.

    O paradoxo do peixe amazônico

    Para os ribeirinhos que vivem nas bacias dos rios Tapajós e Amazonas, no Pará, o peixe não é opcional — ele representa 80% da proteína consumida diariamente. Isso significa exposição constante ao mercúrio, já que o metal usado para separar ouro no garimpo contamina os peixes através da água.

    Mas aqui surge o paradoxo: mesmo com níveis altíssimos de mercúrio no organismo, essas populações não apresentam os sintomas esperados de intoxicação. A explicação pode estar nos também elevados níveis de selênio que eles consomem naturalmente.

    “Esta é a maior coorte humana rastreando mercúrio e selênio nessas populações amazônicas”, explica Gabriel Neves Cezarette, pesquisador da USP Ribeirão Preto e da Université de Pau et des Pays de l’Adour, na França. Ele destaca que essas comunidades estão “entre as mais impactadas pelo mercúrio” mas, curiosamente, apresentam “valores distintos de selênio no sangue, geralmente entre os mais altos do mundo”.

    Como foi feito o estudo

    A pesquisa coordenada pelo professor Fernando Barbosa Júnior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP, analisou 1.089 adultos de 13 comunidades ribeirinhas. De forma pioneira, a equipe coletou e examinou três tipos de amostras: sangue, plasma e urina.

    Cada uma dessas análises revelou informações complementares. O sangue mostra a carga recente de mercúrio e selênio no corpo. O plasma indica quanto desses elementos está biodisponível. Ou seja, circulando livremente e capaz de interagir com tecidos. Já a urina oferece um panorama da excreção, principalmente do mercúrio inorgânico.

    As amostras foram processadas por espectrometria de massas com plasma indutivamente acoplado, uma técnica tão sensível que consegue detectar elementos químicos mesmo em concentrações mínimas.

    Descobertas que desafiam expectativas

    Os resultados trouxeram surpresas. Pesquisadores encontraram diferentes níveis de mercúrio nos indivíduos dependendo da frequência com que comiam peixe — o que era esperado. Mas os níveis de selênio se mantiveram consistentemente altos em todas as comunidades estudadas, independente da dieta específica de cada uma.

    Mais intrigante ainda: apesar dos valores extremamente elevados de selênio (que em outras circunstâncias causariam selenose, com sintomas como queda de cabelo, fragilidade de unhas, problemas gastrointestinais e até danos renais), nenhum dos participantes apresentou esses problemas.

    “As correlações positivas das concentrações de mercúrio encontradas no sangue e plasma e excretadas pela urina são explicadas pela interação com os níveis, também altos, de selênio”, acredita Cezarette.

    A ciência por trás da proteção

    Um segundo estudo, conduzido em parceria com a Unicamp e liderado pela professora Ljubica Tasic, foi além e aplicou uma abordagem inédita em metabolômica, o estudo de pequenas moléculas no organismo.

    Os cientistas descobriram que subgrupos com níveis mais elevados de selênio apresentaram mudanças significativas no perfil metabólico. Indivíduos altamente expostos ao mercúrio, mas com bastante selênio no corpo, tinham um metabolismo mais parecido com pessoas que exibiam baixas concentrações de ambos elementos.

    Cezarette explica que isso provavelmente está “relacionado à formação de complexos entre o mercúrio-selênio e à atuação de selenoproteínas em mecanismos de defesa antioxidante”. Selenoproteínas são proteínas especiais que contém selênio em sua estrutura e são essenciais para manter a saúde humana funcionando adequadamente.

    Por que isso importa

    O mercúrio orgânico presente nos peixes é um neuro tóxico potente. Ele se liga às proteínas do organismo humano, provocando estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e danos ao sistema nervoso central. Exposições crônicas também causam problemas cardiovasculares, imunológicos e alterações no metabolismo energético.

    “Medir simultaneamente essas matrizes pode ajudar a compreender a dinâmica de absorção, distribuição e excreção, além de identificar possíveis interações que existam entre o mercúrio e o selênio no organismo”, explica o professor Barbosa Junior.

    Da ciência para as comunidades

    Após concluir o estudo, os pesquisadores não ficaram apenas nos laboratórios. Eles voltaram às comunidades ribeirinhas para campanhas de conscientização.

    “Preparamos alguns flyers, algumas palestras em uma linguagem mais acessível para que eles conheçam um pouco mais sobre a problemática do mercúrio, sobre as perspectivas que temos em relação a como diminuir esses efeitos tóxicos”, conta Cezarette.

    Para Barbosa Junior, os resultados “fornecem subsídios para políticas públicas de saúde e segurança alimentar, destacando a necessidade de monitoramento contínuo da exposição ao mercúrio e manutenção adequada de selênio na dieta”.

    Os pesquisadores já planejam complementar esses achados com técnicas ainda mais avançadas para identificar as possíveis interações entre mercúrio, selênio e outras moléculas do organismo humano.

    Enquanto isso, a descoberta reforça a importância de estratégias de comunicação de risco e programas de vigilância ambiental e nutricional que podem proteger comunidades vulneráveis. Especialmente enquanto o garimpo ilegal continuar contaminando os rios amazônicos.

    A natureza, ao que tudo indica, já havia fornecido uma solução parcial para o problema que o próprio ser humano criou. Agora cabe à ciência entender completamente esse mecanismo e às políticas públicas garantir que essas populações continuem tendo acesso a uma alimentação que, paradoxalmente, as expõe e protege ao mesmo tempo.

    Matéria do Jornal da USP, de autoria de Carol Castro

  • O fenômeno do açaí e a revolução sustentável da Amazônia

    O fenômeno do açaí e a revolução sustentável da Amazônia

    Pense numa revolução silenciosa que começou nos palmeirais da Amazônia e hoje conquista o mundo. De uns anos pra cá, o açaí deixou de ser apenas um alimento tradicional das comunidades ribeirinhas e virou fenômeno global. Mas essa história vai muito além das tigelas de café da manhã – ela revela como o Brasil está construindo uma bioeconomia que valoriza a floresta em pé.

    Enquanto o mundo todo discute sustentabilidade, comunidades no Pará já mostram na prática como extrair valor da floresta sem derrubá-la. O açaí se transformou num caso de sucesso que ninguém previa. De repente, aquela frutinha que sempre alimentou populações locais virou commodity internacional – mas com uma diferença essencial: ela precisa da floresta em pé para existir.

    “O açaí representa um daqueles raros momentos onde todo mundo ganha”, analisa uma especialista do setor. “As comunidades aumentam sua renda, o mundo recebe um alimento nutritivo e a floresta se mantém de pé.”

    O sucesso do açaí abriu caminho para outros produtos da floresta. Cupuaçu, camu-camu e castanhas começam a seguir o mesmo caminho – e isso é crucial para diversificar a economia da região. A grande sacada está em mostrar que a Amazônia vale mais em pé do que derrubada.

    Mas a estrada não é sem obstáculos. O desafio maior é garantir que os benefícios cheguem de verdade para quem vive na floresta. Tem muito empresário de fora querendo ficar com a maior parte do bolo, enquanto as comunidades tradicionais ficam com as migalhas.

    O desafio que ainda persiste

    Apesar dos avanços, o desmatamento continua sendo a ameaça que ronda esse sucesso todo. Enquanto algumas áreas investem no açaí sustentável, outras ainda veem a floresta como obstáculo ao progresso. O grande teste da bioeconomia será provar que ela pode gerar mais riqueza que a destruição.

    Tem também a questão da regulamentação – falta uma estrutura que proteja melhor os pequenos produtores e garanta preços justos. Sem isso, o risco é do negócio se concentrar nas mãos de poucos.

    O futuro que já começou

    O caso do açaí prova que o Brasil tem todas as cartas na manga para liderar a nova economia verde. A pergunta que fica é: vamos saber jogar esse jogo? Enquanto isso, nas feiras de Belém, nos mercados de São Paulo e nas prateleiras da Europa, o açaí conta sua história de sucesso – uma história que ainda está só no começo.

    O que vem por aí? Muito mais que frutas. A próxima fronteira são os bioativos, cosméticos naturais e medicamentos derivados da biodiversidade. A Amazônia tem milhares de espécies esperando sua vez. E o açaí mostrou o caminho.

  • Ibama apreende 1,3 tonelada de pescado ilegal

    Ibama apreende 1,3 tonelada de pescado ilegal

    A região da Calha Norte, no Pará, virou palco de duas grandes operações do Ibama que trouxeram resultados expressivos no combate à degradação ambiental. Entre o final de outubro e meados de novembro, as equipes conseguiram frear atividades ilegais que vinham crescendo na região.

    O trabalho começou em terra firme e depois avançou pros rios. Com apoio da Força Nacional de Segurança Pública, os fiscais percorreram municípios onde o desmatamento vinha acelerando. Algo que os sistemas de monitoramento Deter e Brasil Mais já vinham sinalizando há algum tempo.

    Durante a Operação Calha Norte, que rolou entre 28 de outubro e 9 de novembro, as equipes aplicaram autos de infração que totalizaram R$ 4.250.000,00. Além das multas pesadas, 775,36 hectares foram embargados. Ou seja, essas áreas não podem mais ser exploradas até que a situação seja regularizada.

    A estratégia do Ibama focou em três frentes principais: parar as atividades ilegais no flagrante, identificar e punir os responsáveis, e garantir proteção pras áreas que ainda tavam vulneráveis. Os dados de satélite mostraram que era necessário agir rápido, antes que mais floresta fosse derrubada.

    Mais de uma tonelada de pescado apreendido no período proibido

    Logo depois das ações terrestres, veio a Operação Rios Federais. No dia 15 de novembro, os fiscais interceptaram 1,3 tonelada de peixe que tinha sido capturado ilegalmente no rio Amazonas, perto de Óbidos.

    O pescado incluía principalmente mapará (Hypophthalmus spp.) e aracu (Schizodon fasciatus), espécies protegidas nesta época do ano pelo período de defeso, quando a lei proíbe a pesca para garantir a reprodução dos peixes.

    Foto: Ibama/PA

    Diferente de outras apreensões onde o produto acaba perdido, nesse caso todo o pescado foi doado pra comunidade local depois dos procedimentos administrativos. Uma medida que evita desperdício e ainda ajuda quem precisa.

    Entenda o que é o defeso e porque ele existe

    O defeso é aquele período do ano em que determinadas espécies não podem ser pescadas. No Pará, a Portaria Ibama nº 48/2007 estabelece que entre 15 de novembro e 15 de março a pesca de várias espécies fica totalmente proibida.

    Mas porque isso? Simples: é justamente nessa época que os peixes se reproduzem. Se a pesca continuasse normalmente, os estoques naturais entrariam em colapso e, em alguns anos, poderia não ter mais peixe suficiente nem pra alimentar as comunidades locais.

    As espécies protegidas durante esse período incluem pirapitinga, curimatá, mapará, aracu, pacu, jatuarana, fura-calça e branquinha. Pescadores profissionais cadastrados recebem seguro-defeso durante esses meses pra compensar a parada obrigatória.

    Por que essas operações fazem diferença

    Pode parecer que uma tonelada de peixe ou algumas centenas de hectares embargados não mudam muita coisa no contexto da Amazônia inteira. Mas especialistas em conservação explicam que essas ações tem um efeito muito além dos números.

    Primeiro, elas mostram presença do Estado em regiões remotas onde muitas vezes a fiscalização é escassa. Segundo, servem como alerta pra quem pensa em desrespeitar as regras ambientais. E terceiro, talvez o mais importante, protegem diretamente ecossistemas que são fundamentais pro equilíbrio ambiental de toda a região.

    A proteção das florestas e o respeito aos ciclos reprodutivos das espécies aquáticas não são apenas questões ambientais abstratas. Elas afetam diretamente a segurança alimentar das comunidades ribeirinhas e a manutenção da biodiversidade que torna a Amazônia única no planeta.

    Portanto, as operações integradas do Ibama demonstram que o combate aos crimes ambientais precisa acontecer em múltiplas frentes. Tanto em terra quanto na água, tanto contra o desmatamento quanto contra a exploração ilegal dos recursos naturais.

  • Como o chocolate fino está salvando a Amazônia

    Como o chocolate fino está salvando a Amazônia

    Imaginem uma clareira no coração da Amazônia. O ar, úmido e quente, carrega um aroma inconfundível: chocolate. Dentro de um domo geodésico que mais parece uma nave espacial pousada na floresta, Jhanne Franco observa um grupo de alunos. Eles não estão colhendo cacau para vender como commodity a preços baixos. Eles estão dominando, da amêndoa à barra, a arte de fazer chocolate fino.

    Essa cena, na comunidade Surucuá, às margens do Rio Tapajós, é a face mais tangible de uma revolução silenciosa. Uma nova geração de fabricantes de chocolate no Brasil está reescrevendo as regras do jogo. Eles não produzem apenas doces; eles criam barras com “identidade”, capazes de contar a história da floresta e, ao mesmo tempo, protegê-la.

    Da semente à oportunidade

    O projeto é um braço do Instituto Amazônia 4.0. A ideia, germinada pelos cientistas Carlos e Ismael Nobre, é simples na teoria e ousada na prática: construir uma bioeconomia que valorize a floresta em pé. Em vez de ver a Amazônia apenas como fornecedora de matéria-prima bruta, a iniciativa ensina as comunidades a transformarem seu tesouro biológico em produtos de alto valor.

    “Costumávamos jogar fora as sementes de cupuaçu. Agora, fazemos cupulate com elas”, conta Mariane Souza Chaves, uma agricultora local, em um depoimento que sintetiza a mudança de mentalidade. O cupulate, primo frutado do chocolate, é uma das inovações que surgem dos Laboratórios Criativos da Amazônia, as biofábricas móveis e sustentáveis do projeto.

    A lógica econômica é irrefutável. Enquanto um quilo de cacau no mercado convencional pode valer cerca de R$ 10, um quilo de chocolate artesanal de qualidade alcança facilmente R$ 300. É um valor agregado de mais de 2.000% que, se ficar nas mãos das comunidades, se transforma em um poderoso antídoto contra o desmatamento.

    A fábrica portátil do futuro

    A biofábrica em Surucuá é um espetáculo de inovação. Alimentada por 60 painéis solares, a estrutura chega de barco, é montada em dias e começa a operar. Dentro, máquinas de pequena escala, todas automatizadas, torram as amêndoas de cacau e refinam a massa. Os alunos programam receitas em um sistema, que guia todo o processo.

    Cacau sustentável

    “Você configura sua receita passo a passo, e o sistema envia informações para o equipamento. Ele avisa quando você precisa adicionar um ingrediente”, explica Jhanne Franco, enfatizando que o objetivo não é dar uma receita pronta, mas ensinar a ciência por trás do chocolate. O resultado são criações únicas, misturadas com frutas e especiarias da própria floresta, como uma barra com um toque picante que lembra canela – o segredo bem guardado de uma aluna.

    Um novo modo de vida

    Francisco Maia, que ajudou a trazer a biofábrica para Surucuá após cinco dias de estrada e seis horas de barco, vê a iniciativa como um “novo modo de vida”. Gera renda, melhora a qualidade de vida e, o mais importante, dá aos jovens uma razão para ficar.

    “Essa renda alternativa é um incentivo para os jovens permanecerem aqui e preservarem nosso conhecimento cultural”, reforça Mariane.

    Após o treinamento, a biofábrica móvel seguirá para a próxima comunidade ribeirinha ou quilombola, deixando para trás parte do equipamento e, principalmente, o conhecimento. O projeto é itinerante, mas seu legado é permanente: a prova concreta de que é possível criar uma economia próspera que não explora a Amazônia, mas que celebra e sustenta a sua imensa riqueza.

    E no final, tudo se resume a isso: o gosto complexo e profundo de um chocolate que carrega, em cada pedaço, o sabor da inovação, o aroma da resistência e a doce promessa de um futuro para a floresta

  • COP30: Ibama apresenta estratégia para salvar peixes-boi

    COP30: Ibama apresenta estratégia para salvar peixes-boi

    O Ibama apresentou durante a COP30, conferência da ONU sobre mudanças climáticas realizada em 2025, um programa de conservação que reúne instituições públicas, universidades e organizações da sociedade civil para proteger os peixes-boi na Amazônia. A iniciativa desenvolvida no Pará resgata, reabilita e solta esses mamíferos aquáticos enquanto fortalece a proteção de seus habitats naturais.

    O superintendente do Ibama no Pará, Alex Lacerda de Souza, explicou que o programa atua em múltiplas frentes. As equipes resgatam peixes-boi encalhados, reabilitam os animais e preparam indivíduos aptos para retornarem à natureza. O trabalho inclui campanhas de conscientização, treinamentos em primeiros socorros e transferência dos animais para recintos de readaptação em ambiente natural.

    Encalhes aumentam e refletem crise ambiental

    Os registros de encalhes cresceram nos últimos anos, principalmente de filhotes. “Enquanto anos anteriores registraram ocorrências pontuais, 2023 e 2025 apresentaram picos significativos”, afirmou Alex. Segundo o superintendente, o aumento reflete a degradação de habitats, os efeitos das mudanças climáticas e pressões históricas sobre a espécie.

    O programa estabelece como metas o fortalecimento das solturas, o monitoramento dos indivíduos na natureza e a expansão territorial. “A ideia prevê que o programa alcance inicialmente o Amazonas e o Amapá. Em breve, inauguraremos mais recintos de aclimatação para viabilizar a soltura desses animais”, declarou Alex.

    Rede de parceiros amplia resultados

    A iniciativa conta com diversos parceiros: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Universidade Federal do Pará (UFPA), Zoounama e Instituto Bicho D’Água. Recentemente, o Grupamento Aéreo de Segurança Pública do Pará (GRAESP), o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (IDEFLOR-Bio) e a Prefeitura de Soure aderiram ao programa.

    Foto: Divulgação/Ibama

    Alex destacou que a cooperação com ONGs e empresas privadas potencializa os resultados. “Felizmente, o Pará possui parceiros excelentes e de longa data. A iniciativa privada contribui significativamente por meio de apoio, doações e recursos”, declarou. O Centro de Triagem de Animais Silvestres de Benevides, inaugurado em outubro com apoio da ONG Proteção Animal Mundial, exemplifica essa colaboração bem-sucedida.

    O Licenciamento Ambiental do Ibama também contribui para o programa. Uma condicionante da licença concedida à empresa TGS para pesquisa sísmica marítima resultou na estruturação de um Centro de Reabilitação de Peixes-boi em Castanhal, uma Unidade de Estabilização de Animais Marinhos em Soure e um recinto de aclimatação pré-soltura em Soure, inaugurado em 3 de novembro.

    O “jardineiro da Amazônia”

    O Trichechus inunguis, peixe-boi-da-Amazônia, é um mamífero aquático herbívoro endêmico da bacia amazônica e o menor entre os três tipos de peixe-boi existentes. Conhecido como “jardineiro da Amazônia”, o animal controla a proliferação de plantas aquáticas e dispersa sementes entre áreas de várzea e igapós, favorecendo a regeneração dos ecossistemas.

    O peixe-boi também mantém a navegabilidade dos cursos d’água. Cada animal consome entre 40 e 60 quilos de plantas aquáticas diariamente, o equivalente a cerca de 10% de seu peso corporal. Esse consumo evita a obstrução natural de canais e permite o fluxo hídrico em áreas mais estreitas.

  • Brasil explora apenas 1% do mercado global de produtos florestais sustentáveis

    Brasil explora apenas 1% do mercado global de produtos florestais sustentáveis

    Um estudo recente conecta a riqueza da Amazônia com oportunidades no mercado internacional. Segundo ele, o Brasil explora apenas 1% do mercado global de produtos florestais sustentáveis

    O estudo identifica cinco produtos com maior potencial de expansão no mercado internacional: castanha-da-Amazônia, café, açaí, cacau e pescados. O manejo sustentável permite explorar esses itens, que se destacam pela importância econômica, ambiental e simbólica. Juntos, eles formam um retrato da nova economia da floresta, que alia tradição, inovação e conservação.

    Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, destaca que a floresta pode gerar renda e oportunidades. “A Apex contribui com dados, estudos e estratégias para transformar produtos amazônicos em motores de uma nova economia. Que é sustentável do ponto de vista social, ambiental e econômico”, afirma.

    “O mundo movimenta cerca de US$ 300 bilhões em produtos compatíveis com a floresta. O Brasil, que tem a maior floresta tropical do planeta, participa com apenas 1% desse total. Isso mostra o tamanho da oportunidade que temos”, explica Viana.

    O presidente da ApexBrasil calcula que o país pode expandir significativamente sua presença no mercado. “Se conseguirmos ampliar a participação dos nossos produtos da biosocioeconomia e da floresta, podemos transformar a realidade da Amazônia. Em vez de movimentar cerca de US$ 300 milhões, poderíamos gerar mais de US$ 2 bilhões aqui na região”, acrescenta.

    Castanha-da-Amazônia enfrenta desafio de agregação de valor

    A castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa) representa um dos produtos mais emblemáticos da Amazônia. Além de seu alto valor nutricional e econômico, a castanheira funciona como espécie-chave para a floresta. A árvore alimenta a fauna e sustenta modos de vida tradicionais há séculos.

    As castanheiras vivem mais de mil anos. A lei proíbe o corte dessas árvores — uma conquista histórica para a conservação. Jorge Viana alerta, porém, que “ainda falta uma política de incentivo ao plantio de castanheiras. A regeneração natural é lenta e precisamos garantir que essa cadeia continue viva.”

    O Brasil exporta cerca de US$ 20 milhões em castanha atualmente. O valor fica pequeno quando comparado à Bolívia, que ultrapassa US$ 100 milhões. Viana identifica o desafio: agregar valor, ampliar o beneficiamento local e fortalecer cooperativas. A Cooperacre serve como referência em industrialização sustentável do produto.

    Café amazônico combina produtividade com preservação

    O café entrou no Brasil pela Amazônia em 1727. Quase 300 anos depois, a região protagoniza uma nova fase com o café amazônico, que a Embrapa desenvolveu em Rondônia.

    A Embrapa adaptou essa variedade ao clima tropical. A alta produtividade representa uma oportunidade única para pequenos produtores e para a recuperação de áreas degradadas.

    “O café amazônico é um produto compatível com a floresta, que pode ser 50 a 100 vezes mais rentável que a pecuária. Ele simboliza uma nova economia amazônica, que gera renda sem destruir”, destaca Viana.

    Rondônia e Acre lideram o avanço desse café, com exportações superiores a US$ 130 milhões. O produto alia tecnologia, sustentabilidade e alto potencial no mercado de cafés especiais.

    Açaí evolui de alimento regional para superalimento global

    O açaí (Euterpe oleracea) evoluiu de alimento tradicional das populações ribeirinhas para o status de superalimento global. O fruto representa o exemplo mais bem-sucedido de um produto compatível com a floresta. A Amazônia toda cultiva açaí, e o fruto movimenta cadeias produtivas que envolvem milhares de famílias, sobretudo no Pará e no Amapá.

    Jorge Viana coloca o açaí como peça central na agenda climática: “Com a COP30 no Brasil, teremos recursos inéditos para restauração florestal e sistemas agroflorestais. O açaí precisa estar no centro dessas políticas.”

    Além de ativo econômico, o açaí desempenha papel estratégico na recuperação de áreas degradadas. O fruto consolida sistemas agroflorestais (SAFs), que combinam produção e conservação. O Brasil também avança em soluções tecnológicas e sanitárias para ampliar exportações e agregar valor.

    Cacau amazônico busca reconquistar mercado global

    A floresta amazônica originou o cacau (Theobroma cacao), uma das bases da biosocioeconomia brasileira. Embora a produção africana tenha transformado o fruto em seu símbolo — Costa do Marfim e Gana respondem por cerca de 70% da produção mundial —, a Amazônia guarda as raízes genéticas e culturais do cacau.

    Viana destaca uma distorção no mercado: apenas 6% a 7% do valor do chocolate global permanece com os produtores de cacau. Indústrias da Europa e dos Estados Unidos capturam a maior parte. “Isso precisa mudar. O produtor amazônico precisa receber melhor remuneração, e o Brasil tem que voltar a ocupar seu espaço como referência em cacau de origem”, defende.

    Após décadas de retração causada pela vassoura-de-bruxa, o setor vive um renascimento. O Brasil voltou a produzir centenas de milhares de toneladas. O país investe em tecnologias de cultivo a pleno sol, inovação que pode revolucionar o setor e ampliar a produção nacional.

    O cacau amazônico compõe sistemas agroflorestais junto com o açaí e a castanha. Esse tripé de sustentabilidade une recomposição florestal e geração de renda local. “O cacau está vivendo uma nova fase: é cultura, é economia e é inclusão social”, resume Viana.

    Piscicultura amazônica representa fronteira econômica inexplorada

    A Amazônia detém 12% da água doce do planeta e um dos maiores potenciais pesqueiros do mundo. Com 4 mil quilômetros de rios navegáveis e 25% da biodiversidade global, a região funciona como berço natural de espécies e alimentos sustentáveis.

    Jorge Viana defende que o Brasil transforme esse patrimônio em nova fronteira econômica sustentável: “Se temos 12% da água doce do planeta, precisamos manejar essa água para produzir proteína.”

    Espécies emblemáticas como pirarucu, tambaqui e tilápia sustentam a piscicultura amazônica. A atividade representa uma fonte estratégica de renda, alimentação e exportação, ainda pouco explorada.

    A ApexBrasil apoia o avanço dessa cadeia. A agência promove o pescado brasileiro em novos mercados e integra projetos-modelo de manejo sustentável, especialmente na Bacia dos Solimões. Comunidades extrativistas já lideram exemplos de sucesso na região.

    “A piscicultura pode se tornar o maior ativo econômico da Amazônia, unindo conservação da água, produção de proteína e geração de renda local”, conclui Viana.

    COP30 abre janela de oportunidade para biosocioeconomia

    O trabalho da ApexBrasil com esses produtos exemplifica a visão de uma biosocioeconomia de floresta em pé. Essa abordagem une saber tradicional, inovação tecnológica e acesso a mercados internacionais.

    Com a COP30 em Belém, o mundo volta seus olhos à Amazônia. O Brasil tem a oportunidade de mostrar que desenvolvimento e conservação podem caminhar juntos. “A floresta pode ser nossa maior fonte de riqueza e de equilíbrio climático. Cabe a nós transformar esse potencial em realidade”, finaliza Jorge Viana.

  • Brasil cria plano contra desastres naturais com investimento de R$ 100 milhões do BNDES

    Brasil cria plano contra desastres naturais com investimento de R$ 100 milhões do BNDES

    O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai investir R$ 100 milhões em estudos que fundamentarão um plano nacional para enfrentar desastres naturais no Brasil. A instituição financeira formalizou na sexta-feira (7) um protocolo de intenções com a Marinha do Brasil e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) para desenvolver essa cooperação estratégica.

    A solenidade aconteceu em Belém, no interior do navio Atlântico, atracado no porto da capital paraense. O evento também prestou homenagem ao militar português Pedro Teixeira, figura histórica do período colonial que liderou a primeira expedição fluvial subindo o rio Amazonas e contribuiu decisivamente para estabelecer as fronteiras atuais no norte do país.

    O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, o Comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, a diretora do Cemaden, Regina Célia Alvalá, e a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos, participaram da cerimônia.

    Brasil enfrenta aumento de desastres climáticos

    O navio Atlântico, conhecido informalmente como Gigante da Marinha, servirá como base de operações das Forças Armadas durante a COP30. A embarcação executa tarefas de controle de áreas marítimas e missões humanitárias, incluindo o auxílio a vítimas de desastres naturais.

    O protocolo responde ao crescimento na frequência e intensidade de desastres no país nos últimos anos, especialmente aqueles associados às mudanças climáticas. Esses eventos ameaçam vidas e causam perdas significativas ao desenvolvimento socioeconômico brasileiro. As instituições unem esforços técnicos, científicos e institucionais para fortalecer a capacidade nacional de prevenção, monitoramento e resposta.

    “Desastres extremos ocorrem com cada vez mais frequência e intensidade. Desenvolvemos esforços de prevenção, com programa de descarbonização e outras iniciativas. Mas também precisamos nos preparar para a resposta: salvar vidas em primeiro lugar e recuperar as estruturas, as comunicações, a economia”, afirma Mercadante.

    Experiência do Rio Grande do Sul inspira plano nacional

    O presidente do BNDES destacou a atuação da instituição após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul entre o final de abril e início de maio de 2024. “Recuperamos a economia gaúcha. O Rio Grande do Sul cresceu 4,9% em 2024, enquanto o Brasil cresceu 3,4%. O estado cresceu mais porque o acesso ao crédito que liberamos impediu que empresas quebrassem e que ocorresse desemprego em massa. Precisamos estudar essas experiências e criar um plano nacional para enfrentar desastres naturais”, declarou.

    Foto: Rafael Silva / BNDES

    Mercadante projeta que os estudos subsidiarão a conclusão do plano nacional até outubro de 2025. O documento indicará caminhos para adaptação e reconstrução em situações extremas. “O Estado precisa chegar com ciência e pesquisa. Como responder à urgência e emergência? Quais providências tomar? Como chegar nas regiões afetadas? Além de salvar vidas, o que reconstruir? Comunicação, infraestrutura? Como recuperar melhor? Qual o tamanho do investimento necessário? Precisamos estudar isso para as áreas mais críticas”, explicou.

    Cada instituição contribui com sua expertise

    O protocolo valoriza as vocações específicas de cada instituição. A Marinha do Brasil oferece seu conhecimento e experiência como braço operacional do Estado, por meio de um Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais – Defesa Civil. O Cemaden, vinculado ao MCTI, contribui com sua experiência no monitoramento de desastres e na modelagem de dados preditivos. O BNDES aporta sua capacidade técnica e financeira para construir soluções emergenciais e viabilizar ações conjuntas.

    As três instituições iniciarão a formação de uma rede que poderá expandir futuramente e agregar institutos de pesquisas, especialistas em proteção civil e representantes do setor produtivo.

    O Comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, considera que o protocolo reforça o compromisso brasileiro com o fortalecimento da resiliência nacional diante da intensificação dos eventos climáticos extremos. “A experiência operacional da Marinha, aliada à excelência técnica do Cemaden e à capacidade estratégica do BNDES, traduz a união entre defesa, ciência e desenvolvimento em favor da proteção da vida e da segurança da população”, destacou.

    Mudanças climáticas exigem resposta coordenada

    A ministra Luciana Santos considera a atuação coordenada fundamental para o sucesso na execução de políticas públicas. Segundo ela, as mudanças climáticas já intensificam as chuvas, tornam as enchentes mais frequentes e agravam as ondas de calor, atingindo sobretudo as comunidades vulneráveis. “Só com pesquisa, ferramentas adequadas e conhecimento aplicado teremos respostas realmente efetivas diante desse cenário”, completou.

    Regina Célia Alvalá destacou que o Cemaden acumula quase 15 anos de experiência e emite alertas de desastres com bastante antecedência. Para ela, a soma de esforços resultará em ampliação do conhecimento e inovações tecnológicas. “Fazemos parte dessa parceria com muita alegria. Esperamos avançar ainda mais, sempre com o objetivo de salvaguardar vidas e contribuir para que o meio ambiente sofra menos impactos”, disse a diretora do Cemaden.

    O protocolo também busca contribuir com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, estabelecidos na Agenda 2030, e reforçar as ações brasileiras como signatário do Marco de Sendai, criado pelo Escritório das Nações Unidas para Redução de Riscos de Desastres (UNDRR).

    Homenagem a Pedro Teixeira Resgata história da soberania amazônica

    A cerimônia homenageou Pedro Teixeira, militar português do período colonial que participou da fundação de Belém, onde viveu e morreu. Suas expedições fluviais contribuíram para a incorporação da Amazônia ao território nacional. O BNDES entregou ao Comando da Marinha uma placa de metal em reconhecimento ao legado do militar.

    O reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Gilmar Pereira da Silva, participou da homenagem e anunciou a criação de uma comissão de estudos sobre a história de Pedro Teixeira. “É uma honra muito grande colocar a universidade à disposição do Brasil para desenvolver pesquisas e reflexões sobre esse país”, declarou.

    Pedro Teixeira atuou contra incursões de franceses, ingleses e holandeses na região. Com apoio de índios tupinambás, construiu uma estrada ligando Belém ao Maranhão e abriu caminhos que fortaleceram a ocupação e defesa do território. Na Câmara dos Deputados, tramita um projeto de lei do senador Beto Faro (PT-PA) que propõe reconhecer o legado de Pedro Teixeira e incluir seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

    A expedição mais memorável conduzida por Teixeira durou mais de dois anos e começou em 1637. Com cerca de 50 grandes canoas, 70 soldados e mais de 1,2 mil indígenas, subiu o Rio Amazonas e o Rio Negro em uma façanha sem precedentes para sua época.

    “No início do século 20, defendiam que a Amazônia é patrimônio da humanidade e que os brasileiros não têm condição de administrá-la. Defendiam a internacionalização da gestão da Amazônia. E nós respondemos: a Amazônia é reconhecidamente brasileira. Muito do fato de ela ser brasileira se deve a Pedro Teixeira”, afirmou Mercadante.

  • Café robusta amazônico conquista mercado internacional

    Café robusta amazônico conquista mercado internacional

    A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) recebe dez compradores internacionais em Rio Branco neste sábado e domingo (2 e 3 de novembro) para a primeira etapa da edição Cafés Especiais do programa Exporta Mais Brasil. A iniciativa marca o início de uma agenda estratégica para ampliar a presença do café brasileiro de alta qualidade no mercado global.

    Os visitantes estrangeiros, vindos da América do Sul, América do Norte, Europa, Oriente Médio, Ásia e África, participam de visitas técnicas a fazendas e cooperativas que produzem café robusta amazônico. A programação inclui ainda atividades de cupping e encontros de negócios diretos com produtores do Acre e de Rondônia.

    “A Amazônia tem mostrado ao Brasil e ao mundo seu potencial para produzir cafés especiais, combinando tradição, tecnologia e sustentabilidade. Iniciar a agenda do Exporta Mais Brasil no Acre é um reconhecimento da força do nosso estado na produção de cafés diferenciados e de origem amazônica”, afirma Jorge Viana, presidente da ApexBrasil.

    Governo Federal apoia setor cafeeiro com abertura de 500 mercados

    A iniciativa integra o esforço do Governo Federal para apoiar o setor cafeeiro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já realizou mais de 18 encontros internacionais em parceria com a ApexBrasil e o Itamaraty, o que resultou na abertura de cerca de 500 novos mercados para produtos brasileiros.

    A ação também faz parte das medidas de diversificação de mercados voltadas a exportadores brasileiros afetados pelas tarifas dos Estados Unidos. O programa reforça o compromisso com a sustentabilidade e incentiva a geração de renda para produtores rurais na Amazônia, alinhando-se ao contexto da COP30.

    Produção amazônica cresce 4,6% ao ano

    Segundo dados do IBGE, a região amazônica ampliou sua produção de café robusta em 4,6% ao ano desde 2019. Portanto, um desempenho muito superior à média nacional de 1,6%. Os produtores alcançaram esse avanço por meio de ganhos de produtividade, o que reforça o papel sustentável da região na cafeicultura.

    A produtividade regional apresentou forte crescimento, com alta anual de 9,7% em Rondônia e 9,1% no Acre desde 2019.

    Agenda segue para Minas Gerais e Espírito Santo

    Após a etapa do Acre, o programa segue para Minas Gerais e Espírito Santo. O grupo de compradores receberá novos integrantes e totalizará 24 participantes vindos da América do Norte e do Sul, Europa, Oriente Médio e Ásia.

    Entre 4 e 6 de novembro, os visitantes participam da Semana Internacional do Café (SIC) em Belo Horizonte (MG). Esse é um dos principais eventos do setor, aberto a produtores de cafés arábica, robusta e conilon de todo o Brasil. A jornada se encerra entre 9 e 14 de novembro nas regiões de Matas de Minas (MG) e Caparaó (MG/ES), reconhecidas nacionalmente pela produção de cafés especiais.

    O Exporta Mais Brasil conta com o apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Nacional). Nesta edição, a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) e associações regionais de produtores também apoiam a iniciativa: Conselho das Entidades de Café de Matas de Minas, Associação de Produtores de Cafés Especiais do Caparaó (APEC) e Cafeicultores Associados da Região de Matas de Rondônia (CAFERON).

    Exportações crescem 456 vezes em dois anos

    A ApexBrasil tem desempenhado papel decisivo na ampliação das exportações de robusta amazônico por meio de ações estratégicas de promoção comercial. Em agosto de 2023, a Agência levou 20 compradores de 11 países a Cacoal (RO), onde eles se reuniram com 23 produtores locais. A missão resultou em R$ 8 milhões em negócios até 2024.

    A Luckin Coffee, maior rede de cafeterias da China, estava entre os compradores presentes. A visita marcou o início de uma parceria estratégica que culminou, em junho de 2024, na assinatura de um acordo para fornecimento de até 120 mil toneladas de café brasileiro, no valor de US$ 500 milhões.

    O sucesso da cooperação abriu caminho para um novo acordo, firmado para a compra de 240 mil toneladas do grão brasileiro entre 2025 e 2029, estimado em US$ 2,5 bilhões. A ApexBrasil articulou a negociação em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

    “Iniciativas como essa têm impulsionado significativamente o crescimento das exportações nacionais que incluem não apenas o robusta amazônico, mas também outros tipos de café, como o arábica. Nesse sentido a agenda segue para Minas Gerais e, em seguida Espírito Santo”, ressalta Jorge Viana.

    O volume exportado pela região Norte saltou de US$ 18 milhões em 2023 para US$ 131 milhões em 2024. Um aumento de sete vezes em relação ao ano anterior e 456 vezes superior ao registrado em 2022, quando as exportações totalizaram US$ 287 mil.

    Sobre o Exporta Mais Brasil

    A ApexBrasil criou o programa Exporta Mais Brasil para aproximar o comércio exterior de empreendedores de todas as regiões do país e potencializar exportações e oportunidades de negócios. Empresas de diferentes setores participam de rodadas de negócios, missões comerciais e ações de promoção internacional que conectam diretamente produtores brasileiros a compradores estrangeiros.

    Entre 2023 e 2024, o programa realizou 28 edições, apoiou 875 empresas brasileiras, promoveu a vinda de 305 compradores internacionais de 65 países e gerou R$ 553 milhões em negócios. As ações consolidam o Brasil como um dos principais fornecedores de produtos de alto valor agregado no mercado global.

  • Sambaquis da Amazônia revelam 3.500 anos de histórias

    Sambaquis da Amazônia revelam 3.500 anos de histórias

    Pesquisadores brasileiros e franceses descobrem nos sambaquis da Amazônia evidências de transformações profundas na biodiversidade e nas práticas alimentares dos povos indígenas que habitaram a floresta há milhares de anos. Os monumentos de conchas e terra, construídos por populações coletoras e pescadoras, guardam segredos sobre espécies hoje esquecidas e práticas alimentares que cientistas buscam resgatar.

    A arqueóloga Gabriela Prestes Carneiro, pesquisadora do Museu Nacional de História Natural (MNHN) da França e coordenadora da missão arqueológica franco-brasileira, apresentou os achados iniciais durante o Fórum Brasil-França “Florestas, Biodiversidade e Sociedades Humanas”, realizado em outubro no auditório da FAPESP, em São Paulo.

    Monumentos milenares funcionam como cápsulas do tempo

    “Os sambaquis funcionam como locais de memória que povos originários visitaram, reconstruíram e reocuparam ao longo de milhares de anos, desde cerca de 3 mil anos atrás. Essa longa duração nos permite estudar as transformações na biodiversidade e nas práticas alimentares”, explica Carneiro à Agência FAPESP.

    Os pesquisadores concentram seus esforços no sítio arqueológico do Munguba, localizado em área de várzea entre os rios Tapajós e Xingu, no Baixo Amazonas. Um pescador descobriu o local, e desde 2022 a equipe estabelece contato com as famílias que vivem no entorno. As primeiras datações indicam que os sambaquis remontam a cerca de 3.500 anos.

    Conchas preservam microfauna e revelam biodiversidade do passado

    As conchas que constituem os sambaquis liberam carbonato de cálcio durante sua degradação natural. O composto químico preserva restos orgânicos de animais e plantas, permitindo que os cientistas estudem sementes, grãos, escamas de peixes e vestígios de anfíbios, serpentes, mamíferos, morcegos e roedores presentes nos sedimentos.

    Gabriela Prestes Carneiro, pesquisadora do Museu Nacional de História Natural da França, durante o Fórum Brasil-França, na FAPESP: sambaquis são locais de memória que foram visitados, reconstruídos e reocupados desde cerca de 3 mil anos atrás. Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP

    “A análise dessa microfauna possibilita compreendermos a transformação daquele ambiente ao longo do tempo”, destaca a arqueóloga.

    Espécies esquecidas aparecem nas escavações

    Os pesquisadores identificaram nos sambaquis diversas espécies de moluscos que atualmente ninguém consome. O uruá (Sultana sultana), por exemplo, era picado, cozido e utilizado no preparo de farinha pelas populações tradicionais. “Muitas dessas espécies permanecem na memória das populações tradicionais da região”, relata Carneiro.

    A equipe encontrou, pela primeira vez em sítio arqueológico, mandíbula e vértebras de peixe-boi (Trichechus). Os pesquisadores também descobriram restos de peixes como bacus-pedra (Oxydoras niger e Doradidae) e tamoatá (Hoplosternum littorale), espécies com muitas espinhas que raramente aparecem nos mercados regionais hoje.

    “Essas espécies estão muito presentes nos sítios arqueológicos, mas hoje raramente as encontramos nos mercados de peixes”, observa a coordenadora da pesquisa.

    Dados arqueológicos impulsionam reintrodução de alimentos tradicionais

    Carneiro, responsável pela coleção de peixes do MNHN, aponta que transformações sociais e ambientais modificaram as práticas alimentares dos povos tradicionais da Amazônia. A carne de peixe cede espaço para frango congelado e alimentos industrializados.

    Pesquisadores de etnobiologia e nutrição aproveitam os dados dos estudos arqueológicos para desenvolver projetos que reintroduzem plantas consumidas no passado na merenda escolar de escolas públicas, como no município de Tefé, no Amazonas.

    “Podemos utilizar esses dados para reintroduzir não só alimentos, mas também práticas alimentares do passado no presente”, avalia a arqueóloga.

    Corrida contra o tempo: sítios arqueológicos ameaçados

    Os pesquisadores enfrentam uma corrida contra o tempo. Navios cargueiros que transportam principalmente soja passam muito próximos às margens do rio onde os sambaquis se localizam, ameaçando os sítios arqueológicos.

    “A passagem desses navios também destrói os materiais dos pescadores ribeirinhos que colocam suas armadilhas próximas desses sítios arqueológicos”, alerta Carneiro.

    A missão arqueológica conta com apoio inicial do Instituto Serrapilheira e, atualmente, do Ministério da Europa e dos Negócios Estrangeiros da França. O Fórum Brasil-França foi organizado pelo MNHN em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e a FAPESP, reunindo especialistas para discutir biodiversidade florestal, ecossistemas e suas relações com sociedades humanas do passado e do presente.

  • Pirarucu ganha “CPF Digital” e abre novos mercados

    Pirarucu ganha “CPF Digital” e abre novos mercados

    O maior peixe de água doce da Amazônia enfrenta um novo desafio, desta vez, positivo. Depois de superar a ameaça de extinção pela pesca predatória nos anos 1990, o pirarucu agora protagoniza uma revolução tecnológica que promete agregar valor à cadeia produtiva e aumentar a renda das comunidades ribeirinhas.

    A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) lançou o projeto “Sistema de Rastreabilidade: Inovação e Inteligência de Mercado na Cadeia Produtiva do Pirarucu da RDS Mamirauá”. A iniciativa combina tecnologia blockchain, infraestrutura física e novos canais de comercialização para fortalecer a sociobioeconomia amazônica.

    Blockchain garante rastreabilidade total do pescado

    O projeto traz três pilares inovadores. Primeiro, a FAS implementa blockchain para assegurar a procedência do pescado, com dados que o aplicativo Gygas coleta diretamente nas comunidades. Segundo, a organização constrói um flutuante de pré-beneficiamento na comunidade Santa Luzia do Jussara. Terceiro, a equipe cria a marca Gigantio, focada em estratégias de comercialização do filé de pirarucu.

    O investimento total alcança R$ 3,5 milhões. O aplicativo Gygas funciona mesmo em áreas de baixa conectividade e rastreia completamente o pirarucu — tanto a carne quanto a pele. A tecnologia blockchain assegura transparência e confiabilidade em toda a cadeia produtiva.

    O “CPF do pescado” substitui cadernos vulneráveis

    Na prática, o sistema funciona como um “caderno digital de dados” que registra cada fase do manejo, desde a captura nos lagos até a chegada ao consumidor final. A plataforma conecta esses registros, criptografa-os em sequência e impede alterações. No final, cada pirarucu recebe um QR Code único — o “CPF do pescado”.

    “É uma ferramenta que fortalece a sociobioeconomia e dá mais visibilidade ao trabalho das comunidades ribeirinhas e indígenas, mostrando ao mundo que é possível conservar a floresta e gerar renda de forma sustentável”, explica Wildney Mourão, gerente de Empreendedorismo e Negócios Sustentáveis da FAS.

    Comunidades abandonam planilhas de papel

    O Ibama regulamenta o manejo do pirarucu e autoriza a pesca de até 30% da população adulta por meio de cotas anuais. Para cumprir essa exigência, os comunitários já precisavam registrar e comprovar todos os dados da atividade.

    Antes, os manejadores anotavam informações como peso, comprimento, sexo e lago de origem em planilhas vulneráveis a rasuras, perdas ou danos pela umidade. Denilson dos Santos, jovem manejador e morador da comunidade ribeirinha, relata a transformação: “Com a novidade, ficou melhor do que quando a gente usava o caderno. Antes tinha o risco de molhar, porque tudo ficava junto à evisceração do peixe”.

    O aplicativo torna o processo mais ágil e confiável. A tecnologia gera automaticamente relatórios que facilitam a emissão dos documentos de legalização, assegurando a rastreabilidade e a conformidade do manejo sustentável.

    A FAS construiu o sistema com base em um princípio central: escutar quem diariamente lida com o manejo do pirarucu. “As comunidades já possuem seus próprios sistemas de manejo, que são métodos tradicionais. Nosso papel foi traduzir isso em uma solução digital que respeita essa lógica, ao mesmo tempo em que facilita processos, gera mais segurança e valoriza o trabalho da comunidade”, explica Matheus Vinícius, desenvolvedor de tecnologia da FAS.

    Impacto social atinge 180 pessoas em três comunidades

    O projeto beneficia diretamente 55 manejadores de pirarucu em três comunidades: Mangueira, Catiti e Jussara. A previsão indica ampliação da renda de 45 famílias, cerca de 180 pessoas, além da geração de 15 novos empregos.

    Foto: Rodolfo Pongelupe

    Os manejadores atuam na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, formando uma ampla rede de atores sociais cuja economia e cultura se ligam profundamente à pesca. A atividade responde por mais de 70% da produção de pirarucu no Amazonas e, dentro da reserva, o peixe representa a principal fonte de renda para as famílias ribeirinhas.

    “O sistema é um marco para transformar desafios históricos em oportunidades, unindo qualidade, transparência e protagonismo comunitário”, destaca Valcleia Lima, superintendente adjunta da FAS.

    Pele de pirarucu conquista mercado de moda e design

    O projeto também amplia a presença do pirarucu no mercado gastronômico. O Gigantio conectará associações e cooperativas comunitárias da Amazônia a chefs, restaurantes e hotéis de referência em todo o Brasil. A pele do peixe, por sua vez, ganha oportunidade de valorização em produtos de moda e design de alto valor agregado, criando novas frentes de negócio.

    Foto: Rodolfo Pongelupe

    “Isso é inteligência de mercado: uma estratégia que garante origem, eficiência e agrega valor ao pirarucu de manejo sustentável, promovendo iniciativas inovadoras como o Gigantio, clube de assinatura que comercializará o peixe diretamente com o setor gastronômico e hoteleiro de forma mais justa e responsável”, detalha Mourão.

    Positivo Tecnologia apoia bioeconomia amazônica

    A FAS executa o projeto “Sistema de Rastreabilidade: Inovação e Inteligência de Mercado na Cadeia Produtiva do Pirarucu da RDS Mamirauá” com apoio da Positivo Tecnologia, por meio do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), política pública da Suframa que o Idesam coordena.

    Leandro Rosa dos Santos, vice-presidente de Estratégia e Inovação da Positivo Tecnologia, afirma que a empresa tem responsabilidade com a Amazônia. “A inovação e a sustentabilidade fazem parte do DNA da Companhia, por isso é tão importante apoiar iniciativas que preservem o meio ambiente e o desenvolvimento econômico e social”, comenta. “Uma das nossas principais fábricas, responsável por boa parte da produção, está localizada na Zona Franca de Manaus. Participar desse projeto é, também, uma forma de retribuir e ressaltar a importância que os ecossistemas naturais têm para nós e para todo o planeta”.

    Foto: Rodolfo Pongelupe

    Thiago Boutin, líder técnico de PD&I da empresa, reforça: “A Positivo, como uma empresa 100% brasileira, tem orgulho de apoiar iniciativas que fortalecem a cadeia do pirarucu, um peixe que chegou a ficar ameaçado de extinção na década de 1990”.

    As ações contribuem diretamente para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), incluindo redução da pobreza, crescimento econômico, consumo e produção responsáveis e vida na água.