A segunda quinzena de novembro elevou a umidade no cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo Mineiro.
As chuvas favoreceram o desenvolvimento das lavouras e indicaram boa condição hídrica nas principais áreas produtoras de citros.
No entanto, pesquisadores do Cepea alertam para os impactos de ventos fortes e granizos registrados em vários municípios. Esses eventos extremos causaram enfolhamento das plantas e derrubaram frutos e flores em propriedades atingidas. Além disso, as intempéries aumentaram o risco de doenças ao comprometer a estrutura das árvores.
O problema surge em período decisivo para a colheita da safra 2025/26 e formação da temporada 2026/27.
Em São Paulo, Avaré, Pratânia e São Manuel registraram granizo nas últimas semanas. Antes disso, essas cidades já haviam enfrentado chuvas intensas acompanhadas por ventos fortes.
O noroeste paulista também sofreu com instabilidades climáticas e acumulados elevados de precipitações.
Segundo colaboradores do Cepea, a maior frequência de eventos extremos em 2025 preocupa o setor citrícola.
Apesar disso, o volume total de chuvas segue considerado adequado nas regiões produtoras. Além do clima úmido, as temperaturas ficaram mais amenas desde o inverno. Esse cenário favoreceu a florada e sustentou o desenvolvimento das plantas. Por isso, técnicos projetam uma safra mais produtiva de citros no cinturão agrícola.
Até agora, a qualidade dos frutos da safra 2025/26 permanece satisfatória na maioria das regiões.
Um estudo apresentado pelo Centro Estratégico de Excelência em Políticas de Águas e Secas (CEPAS), em parceria com a Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará, projeta que até o final do século o Nordeste brasileiro poderá ter até 99% de seu território sob condições áridas e semiáridas. O levantamento, divulgado no Boletim CEPAS na COP30, indica que o fenômeno da desertificação tende a se intensificar nas próximas décadas, especialmente no interior cearense, caso as emissões de gases de efeito estufa sigam em alta.
Projeções alarmantes
Com base em 19 modelos climáticos globais (CMIP6), o estudo avaliou a evolução das classes climáticas de Thornthwaite — que medem o equilíbrio entre temperatura e umidade — sob dois cenários de emissões: o intermediário (SSP2-4.5) e o de altas emissões (SSP5-8.5).
Os resultados mostram que, mesmo com ações moderadas de mitigação, a área classificada como árida deve saltar de 3% para 26% do Nordeste até 2100, enquanto o semiárido avançará de 43% para quase 60%. Em um cenário extremo, de altas emissões, o quadro é ainda mais grave: o território árido pode alcançar 56,7% da região, e o semiárido, 42,4% — o que representa 99% da área total.
“O futuro está sob disputa e a COP30 é uma arena importantíssima desta batalha”, afirma o relatório. “O planeta e o semiárido nordestino podem ser diferentes, com menos estresse hídrico, dependendo das decisões tomadas pelos Estados e coletivos humanos.”
Impactos no Ceará e no semiárido
O Ceará deve sentir os efeitos antes do restante da região. O estudo aponta que áreas hoje subúmidas — como os sertões dos Inhamuns, o Cariri e o médio Jaguaribe — tendem a se tornar semiáridas já nas próximas duas décadas. “O Ceará apresenta antecipação e intensificação da aridização em relação ao conjunto do Nordeste”, destaca o documento. “Os refúgios altimétricos e litorâneos resistem por mais tempo, mas encolhem e se fragmentam até 2100.”
Entre as consequências diretas estão a redução da recarga subterrânea, o aumento da intermitência dos rios, a pressão sobre reservatórios. Por fim, aqueda na produtividade agrícola. O avanço do clima seco também ameaça a biodiversidade e amplia a vulnerabilidade de comunidades rurais.
Voz dos cientistas
Para o professor Alexandre Araújo Costa, da Universidade Estadual do Ceará, o quadro exige urgência. “Identificar as possibilidades e limites de adaptação dos sistemas humanos e naturais em nosso semiárido é uma tarefa urgente”, afirma.
Foto: Wilson Dias – Agência Brasil
O engenheiro José Kerlly Soares de Araújo, pesquisador do grupo de risco climático da Universidade Federal do Ceará, reforça a gravidade das projeções: “O avanço da aridez, mesmo sob cenários moderados, evidencia a necessidade de fortalecer políticas públicas antecipatórias e inovar em tecnologias de uso eficiente da água.”
Chamado à ação
Além disso, na avaliação do diretor do CEPAS, Francisco de Assis de Souza Filho, o Nordeste é hoje “a fronteira climática do Brasil”. Ele defende que a gestão hídrica precisa se tornar adaptativa, integrando ciência, políticas públicas e comunidades locais.
O boletim encerra, portanto, com três recomendações principais para os debates da COP30, que será realizada em Belém:
Reconhecer que o processo de aridização é antecipado e amplamente corroborado por evidências científicas;
Basear as respostas em ciência e gestão integrada dos recursos hídricos;
Planejar a adaptação de forma territorial, com foco especial no semiárido nordestino.
“Os sistemas de recursos hídricos devem se preparar para maior pressão de escassez”, conclui o estudo. Ou seja, “A adaptação precisa ser rápida, integrada e territorialmente focalizada.”
O fenômeno climático La Niña, embora de baixa intensidade, permanece com duração prolongada e acende um alerta para o agronegócio brasileiro. A atual configuração deve perdurar até o início do outono de 2026, impactando diretamente o plantio da soja e a segunda safra do milho.
Isabella Pliego, analista da Biond Agro, destaca que, mesmo fraco, o La Niña gera efeitos significativos devido à sua coincidência com um momento de transição climática e alta sensibilidade agrícola. “O potencial de duração amplia o impacto estratégico para a produção”, ressalta.
Modelos do CPC/NOAA indicam aproximadamente 55% de chance de transição para neutralidade entre janeiro e março de 2026. Os efeitos mais fortes devem ocorrer entre dezembro e fevereiro, fase crítica para o desenvolvimento da soja, milho e algodão.
O fenômeno já apresenta sinais claros: o resfriamento do Pacífico, associado ao aquecimento anômalo do Atlântico Sul, reforça o padrão de chuvas irregulares e temperaturas elevadas no Centro-Sul, enquanto Norte e Nordeste devem receber chuvas acima da média.
Regiões
No Centro-Oeste e partes do Sudeste, a combinação climática tem favorecido a regularização das chuvas e temperaturas amenas, beneficiando o avanço do plantio da soja. Conforme dados do IMEA, Mato Grosso já semeou mais de 60% da área prevista em outubro, superando a média histórica.
Já o Norte e Nordeste devem observar melhora no recarregamento hídrico e recuperação das pastagens, enquanto o Sul do Brasil enfrenta chuvas irregulares e episódios de veranico, reduzindo a umidade do solo. A região sul, sobretudo Rio Grande do Sul e oeste de Santa Catarina, corre risco de queda na produtividade da soja e do milho de primeira safra, principalmente se as estiagens coincidirem com o florescimento e enchimento dos grãos.
A volatilidade dos preços no mercado de grãos costuma aumentar durante anos La Niña. Quebras no Sul do Brasil e na Argentina podem valorizar prêmios de exportação, abrindo oportunidades para o Brasil.
Para mitigar riscos, especialistas recomendam estratégias integradas, como travar preços gradualmente, contratar seguro agrícola nas áreas mais vulneráveis e avaliar fixações cambiais. “Equilibrar preço, câmbio, seguro e manejo garante estabilidade até o fim da safra”, orienta Pliego.
“O sucesso da safra depende do equilíbrio entre clima, manejo e gestão. Com informação e planejamento, o La Niña pode se transformar em oportunidade de eficiência e rentabilidade,” conclui a analista da Biond Agro.
A combinação de dias quentes, noites frias e a alternância entre períodos de seca e umidade tem criado um ambiente propício para o surgimento e o agravamento de doenças em lavouras de milho, feijão e algodão. Essas condições climáticas exigem maior vigilância dos produtores rurais para evitar prejuízos significativos.
Conforme a professora Adriana Matos, do curso de Agronomia da Una Jataí, o clima atual favorece o desenvolvimento de patógenos que exploram o estresse das plantas. “Algumas doenças se instalam justamente quando a planta está mais vulnerável. A mancha branca no milho, por exemplo, é típica deste período com noites mais frias, especialmente em milhos semeados mais tarde”, explica.
Entre as doenças mais frequentes na estação estão o mofo branco, que afeta feijão e algodão, e a mancha branca no milho. Outro alerta é a ramulária no algodão, que se desenvolve em condições de umidade noturna elevada causadas pelo orvalho e dias quentes. A doença começa na parte inferior da planta, local de difícil alcance para fungicidas, prejudicando a qualidade e a produtividade da fibra.
As recentes chuvas salvaram muitas lavouras, porém aumentaram a umidade, favorecendo a proliferação de fungos e outras doenças. Além disso, o avanço do bicudo-do-algodoeiro tem causado estragos na safra atual, especialmente pela falta de controle das plantas tigueras, que funcionam como ponte para a praga. A ausência de manejo adequado no ano passado facilitou a chegada precoce e em grande número desse inseto.
Foto: Adriana Matos/Divulgação
Para minimizar prejuízos, a recomendação é atuar preventivamente, monitorando sinais iniciais nas lavouras. Conhecer o híbrido ou cultivar é fundamental, pois alguns são mais sensíveis a doenças. Aplicar defensivos antes do surgimento de sintomas visuais e acompanhar a evolução das infecções são medidas essenciais.
A professora Matos reforça a importância do manejo integrado de pragas e doenças, destacando a rotação de técnicas e produtos para evitar resistência. “As mudanças climáticas têm antecipado o aparecimento das doenças e dificultam o controle, pois nem sempre o clima permite a aplicação ideal dos produtos”, alerta. A antecipação, o monitoramento constante com armadilhas e o manejo adaptado às condições são chave para garantir a saúde das plantas e a produtividade das lavouras.
A Defesa Civil de São Paulo reforçou neste domingo (7) o alerta para queimadas. O interior do estado segue em condições críticas. A massa de ar seco persiste sobre o interior do país. A fraca intensidade da massa polar não conseguiu mudar o cenário.
O alerta da Defesa Civil classifica como emergencial o risco em todo o norte, nordeste, noroeste e oeste paulistas até quinta-feira (11). Na sexta-feira (12), a situação deve melhorar. O nível deve cair para alerta em grande parte do estado e risco alto em Campinas. O padrão da Defesa Civil tem quatro níveis: baixo, alto, alerta e emergência. Este último representa maior perigo de incêndios.
Além de São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Tocantins e Bahia enfrentam baixa umidade. O Inmet registrou índices abaixo de 12% neste domingo. O órgão recomenda cuidados extras com incêndios e atenção à saúde, especialmente de crianças e adolescentes expostos ao ar seco.
Desde maio, o interior paulista permanece sob risco de queimadas. No entanto, 2025 registra queda de 70% nos focos em relação a anos anteriores. As condições de umidade mais favoráveis e a ação preventiva dos bombeiros e da Defesa Civil contribuíram para esse resultado.
No Brasil, estados também reduziram focos e áreas queimadas em comparação a 2023 e 2024, considerados anos atípicos. Equipes nacionais e estaduais intensificaram ações conjuntas de combate e fiscalização. O aumento das penas contra queimadas ilegais reforçou os resultados positivos.
A produção de azeite de oliva no Rio Grande do Sul recuou em 2025. O estado, que responde por 80% do azeite nacional, produziu 190,3 mil litros. O número representa uma queda significativa frente aos 580,2 mil litros de 2023. Problemas climáticos explicam a baixa produtividade.
A informação é do Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva). A entidade divulgou os dados nesta segunda-feira (1º/09), durante a Expointer, em Esteio (RS). Apesdo do recuo, o setor projeta uma forte retomada nos próximos ciclos.
O excesso de umidade no Sul do país prejudicou a safra gaúcha. A expectativa inicial para 2024 era atingir 1 milhão de litros em todo o Brasil. A produção nacional ficou em 343 mil litros, puxada principalmente por São Paulo e Minas Gerais.
O frio intenso dos últimos meses, no entanto, trouxe otimismo. “O clima recente favoreceu os pomares. Agora precisamos que a chuva não atrapalhe na florada”, disse Flávio Obino Filho, presidente do Ibraoliva. Santa Catarina e Paraná surgem como novos polos de produção, impulsionando a expansão da olivicultura no país.
Pesquisa é o maior desafio
O Brasil cultiva atualmente 10 mil hectares de oliveiras. Metade dessa área já está em produção plena. O maior gargalo para o crescimento do setor, segundo Obino Filho, é a falta de investimento em pesquisa.
“Produtores desenvolvem suas próprias pesquisas. Queremos parcerias público-privadas e com universidades”, explicou. A variedade Arbequina, de origem espanhola, é a que melhor se adaptou ao Brasil. Ela é a base para a produção de azeites puros ou blends.
Olivoturismo: potencial adormecido
O setor também enxerga no turismo uma grande oportunidade. O “olivoturismo” já é realidade em cidades como Sant’Ana do Livramento (RS), que possui a Rota das Oliveiras. Encruzilhada do Sul, dona da maior área de cultivo do estado, também planeja desenvolver a atividade.
O coordenador do Programa Pró-Oliva da Secretaria de Agricultura do RS, Paulo Lipp João, vê um potencial enorme. “É um potencial ainda adormecido. Podemos criar rotas turísticas muito interessantes em municípios como Encruzilhada, Pelotas e Bagé”, observou.
Para fomentar o setor, o Ibraoliva promove em dezembro, em Bagé (RS), o Seminário Binacional e o 6º Encontro Estadual de Olivicultura. O evento trará especialistas e produtores do Uruguai, cujas pesquisas servem de referência para a região da Campanha e Fronteira Oeste gaúchas.
As lavouras de trigo no Rio Grande do Sul entraram na fase reprodutiva com condições climáticas ideais. Segundo o Informativo Conjuntural da Emater/RS-Ascar, divulgado nesta quinta-feira (14/08), 4% da área já está florescendo, enquanto 96% permanece em desenvolvimento vegetativo.
Chuvas regulares, aliadas a períodos de sol intenso e temperaturas baixas desde julho, garantem um crescimento mais vigoroso das plantas. As lavouras exibem coloração verde intensa e densidade populacional adequada, com número de afilhos superior ao da safra passada – sinal de maior potencial produtivo.
Adubação e manejo reforçam produtividade
Os agricultores finalizam a adubação nitrogenada, etapa crucial para suprir as necessidades nutricionais do trigo. Em áreas com desenvolvimento inicial lento, a umidade do solo em níveis ideais acelerou a recuperação.
O estado fitossanitário das lavouras é excelente, sem pragas ou doenças significativas. O controle de plantas daninhas segue o calendário técnico, evitando competição por recursos. Aplicações preventivas de fungicidas também avançam, especialmente em regiões que já iniciaram a floração.
A Emater/RS-Ascar projeta uma área cultivada de 1.198.276 hectares no estado, com produtividade estimada em 2.997 kg/ha. Se as condições atuais se mantiverem, a safra pode superar as expectativas.
Neste 18 de julho de 2025, o Paraná relembra os 50 anos da Geada Negra, um dos eventos climáticos mais marcantes de sua história. O fenômeno, registrado em 1975, destruiu cerca de 60% dos cafezais do estado — na época, o maior produtor de café do Brasil — e acelerou uma profunda mudança no perfil agrícola regional. A data, símbolo do fim do ciclo do café paranaense, também representa o início de um novo capítulo marcado pela diversificação produtiva e pela modernização do agronegócio paranaense.
Na madrugada de 18 de julho de 1975, temperaturas negativas surpreenderam agricultores e autoridades. Segundo relatos de Eugênio Stefanelo, então diretor do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná, a catástrofe já era prevista na véspera por causa da queda abrupta nas temperaturas. O saldo da geada foi devastador: cerca de 1,1 milhão de hectares dos 1,8 milhão de hectares plantados de café foram perdidos. O Paraná, que atingira 21,3 milhões de sacas e tinha 64% da produção nacional de café, perderia rapidamente protagonismo no setor.
Foto: Arquivo MIS/PR
Em 1975, a produção estadual chegou a 10,2 milhões de sacas, metade da safra nacional na época. O efeito negativo, porém, se consolidou nos anos seguintes. A participação paranaense foi caindo sucessivamente, para menos de 10% nos anos 1990, 5% nos anos 2000 e apenas 3% na década seguinte.
Diversificação e novos caminhos para a agricultura paranaense
O fim da hegemonia cafeeira levou o Paraná a se reinventar. A partir da catástrofe climática, agricultores se viram forçados a diversificar a produção. Os campos deram lugar à soja e outros grãos, o setor de hortifruticultura se fortaleceu e cadeias de proteína animal, como avicultura e suinocultura, cresceram significativamente. Segundo Stefanelo, o processo de diversificação permanece até hoje, inclusive com cafeicultores remanescentes focados na produção de cafés especiais.
Atualmente, a safra de café paranaense é de cerca de 718 mil sacas (43,1 mil toneladas) em uma área de 25,4 mil hectares, apenas 1% da colheita nacional. O Valor Bruto de Produção (VBP) do café no Paraná somou R$ 1,13 bilhão em 2024, equivalente a 0,6% da renda agropecuária estadual.
A principal região produtora do estado é o Norte Pioneiro, com duas indicações geográficas (IG): Café do Norte Pioneiro do Paraná e Café de Mandaguari, reconhecidos nacionalmente pela qualidade. O município de Carlópolis destaca-se, sendo responsável por 25% da produção estadual. De acordo com o Deral, cerca de 30% da produção paranaense já se encaixa na categoria de cafés especiais em safras favoráveis.
Evolução do café paranaense: qualidade, exportação e inclusão
O Paraná também investiu em diferenciação de mercado. O Concurso Café Qualidade Paraná, que chega à 22ª edição em 2025, apoia a excelência do produto local. Ainda há o incentivo à participação feminina, com projetos como o “Mulheres do Café” do IDR-Paraná, que promovem não só a produção, mas também agregação de valor e turismo rural.
Nas exportações, o Paraná enviou 21,8 mil toneladas de café verde e 33 mil toneladas de café solúvel ao exterior em 2024, o que gerou US$ 433 milhões. O desempenho segue positivo em 2025, apesar das preocupações com tarifas americanas.
Geada Negra e mudanças climáticas
Fenômenos de geada negra — fruto de massas polares secas que queimam as plantas pelo frio extremo — não são exclusivos do passado. O Paraná segue sujeito a eventos climáticos extremos e investe em monitoramento e tecnologia para minimizar os impactos. Em 2021, por exemplo, outra sequência de geadas prejudicou culturas como o milho e o café, lembrando a fragilidade da agricultura diante das mudanças climáticas.
Cinquenta anos depois, a Geada Negra segue como marco na memória coletiva dos agricultores e inspiração para estratégias de enfrentamento de desafios ambientais.
O avanço de frentes frias intensas no Centro-Sul do Brasil preocupa produtores de café e cana-de-açúcar, que enfrentam riscos elevados de prejuízo com a chegada de geadas e temperaturas mínimas. Segundo levantamento da StoneX, eventos climáticos extremos como esses afetam diretamente o metabolismo das plantas, comprometendo a produtividade e a qualidade das safras.
A intensidade dos danos provocados pelo frio depende de fatores microclimáticos, como topografia do terreno, posição das lavouras e umidade local.
Carolina Jaramillo Giraldo, Analista de Inteligência de Mercado. Foto: Divulgação Stone X
“Também influenciam fatores climáticos de grande escala, como os fenômenos El Niño/La Niña e a Oscilação Antártica, que interferem de forma significativa nas condições do tempo no Brasil”, explica a analista de Inteligência de Mercado, Carolina Jaramillo Giraldo.
Cana-de-açúcar: prejuízo imediato e colheita antecipada
No caso da cana-de-açúcar, temperaturas abaixo de 5 °C ocorrem ao menos uma vez por ano em grande parte do Centro-Sul. Áreas produtoras do Mato Grosso, por exemplo, registram até sete dias anuais com frio intenso. Quando os termômetros se aproximam de 0 °C, os produtores enfrentam queima de folhas, morte de gemas, paralisação do crescimento e queda na qualidade industrial e produtividade.
Após a geada, a necessidade de colheita imediata compromete o rendimento, pois muitas vezes a cana ainda não atingiu o ponto ideal. “Na safra 2021/22, a produtividade já vinha em queda devido à estiagem. Com as geadas e, posteriormente, incêndios em agosto, a quebra foi ainda maior. A moagem final ficou em 524,1 milhões de toneladas — cerca de 60 milhões abaixo da expectativa inicial de 580 milhões”, pontua o analista de Inteligência de Mercado, Marcelo Di Bonifácio Filho.
Marcelo Di Bonifácio Filho, Analista de Inteligência de Mercado. Foto: Divulgação Stone X
Regiões como o noroeste do Paraná, sudeste de Mato Grosso do Sul e sul de São Paulo apresentam mais de 90% de chance de registrar temperaturas abaixo de 5 °C ao menos uma vez por ano. Áreas do Triângulo Mineiro, centro de Minas Gerais e oeste de Goiás também enfrentam riscos semelhantes.
Café: histórico de perdas e risco de queda na produção
A cultura do café arábica já sofreu severamente com geadas ao longo da história. O frio intenso pode causar estresse térmico, abortamento floral e queda expressiva na produção, como ocorreu em 2022.
“Em 2022, o potencial de produção era de 50 milhões de sacas, mas foram colhidas apenas 39,8 milhões, cerca de 20% abaixo do esperado. Isso teve impacto direto nos preços internacionais”, explica o gerente de Inteligência de Mercado do grupo, Fernando Maximiliano.
Fernando Maximiliano, Gerente de Inteligência de Mercado. Foto: Divulgação Stone X
Regiões como sul de Minas, noroeste do Paraná e sul de São Paulo apresentam mais de 90% de probabilidade de registrar ao menos um dia por ano com temperaturas abaixo de 5 °C. Em áreas de altitude no extremo sul de Minas Gerais, o risco de frio intenso é ainda maior, com até 18 dias anuais de temperaturas mínimas abaixo desse patamar em pontos específicos.
O frio reduz a fotossíntese e coloca as plantas em estado de “hibernação metabólica”, limitando o crescimento e a formação de gemas florais. Quando o frio ocorre durante a florada, o risco de abortamento floral aumenta, dificultando a previsão de perdas.
O mês de junho será marcado por contrastes no clima brasileiro. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a previsão indica chuvas acima da média no Norte do país, no leste do Nordeste e no Rio Grande do Sul.
No Norte, os maiores volumes devem ocorrer na faixa norte da região. Já no Nordeste, as chuvas se concentram no norte do Maranhão, Piauí e Ceará, além da faixa leste que vai da Paraíba a Sergipe. Em geral, nesses locais, os acumulados podem ultrapassar 80 milímetros.
Por outro lado, o interior do Nordeste tende a receber pouca chuva. No oeste da Bahia, sul do Maranhão e do Piauí, os volumes devem ficar abaixo de 60 milímetros, com possibilidade de dias consecutivos sem precipitações.
No Centro-Oeste e Sudeste, a tendência é de chuvas próximas ou abaixo da média. Em resumo, a previsão aponta acumulados inferiores a 100 milímetros. Ao mesmo tempo, em Mato Grosso do Sul e São Paulo, por exemplo, os volumes variam entre 30 e 80 milímetros.
No Sul do país, a situação será distinta entre os estados. No Paraná e Santa Catarina, as chuvas devem ficar abaixo da média histórica. Já no Rio Grande do Sul, os volumes previstos podem ultrapassar 140 milímetros.
Impacto nas lavouras
A previsão de chuvas acima da média no leste do Nordeste favorece o cultivo do feijão e do milho terceira safra na região do Sealba (Sergipe, Alagoas e Bahia). Em contrapartida, a redução das chuvas no Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) pode afetar o milho segunda safra, principalmente durante a fase de floração, que exige mais água.
No Centro-Oeste e Sudeste, o clima deve beneficiar culturas em fase de maturação. A previsão indica condições favoráveis para a colheita da cana-de-açúcar e do café. Em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, o trigo e o milho segunda safra não devem sofrer impactos negativos.
Na Região Sul, as chuvas abaixo da média no Paraná e em Santa Catarina devem ajudar na finalização da colheita do feijão e de cultivos da primeira safra.
Temperaturas acima da média
As temperaturas tendem a ficar acima da média em boa parte do país. No entanto, nas regiões Norte e Nordeste, os termômetros devem registrar valores entre 25°C e 28°C, dentro da média histórica.
Mesmo com a previsão de calor no centro-sul do país, algumas áreas devem registrar temperaturas abaixo de 20°C. Isso inclui o centro-sul de Minas Gerais, o leste de São Paulo e o sul de Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Além disso, regiões de maior altitude no Sul e Sudeste podem enfrentar quedas bruscas de temperatura com a chegada de massas de ar frio. Em alguns pontos, os termômetros podem marcar menos de 15°C.