Tag: Agro Brasil

  • Sertanejo com samba: Bruno & Marrone lançam hit com Zeca Pagodinho

    Sertanejo com samba: Bruno & Marrone lançam hit com Zeca Pagodinho

    Zeca Pagodinho já é figurinha carimbada aqui no portal, especialmente depois que mostramos o cuidado dele com sua horta comunitária, um hábito que qualquer produtor rural respeita. Mas agora, o “homem do quintal” decidiu levar sua simplicidade para um terreno bem conhecido por quem vive o agro: o palco das grandes arenas. Em uma parceria que parecia improvável, mas que soa como música para os ouvidos de quem não dispensa um bom churrasco de domingo, Zeca se uniu a Bruno & Marrone para lançar um hit que mistura a sofrência sertaneja com a malandragem do samba.

    A união de dois mundos que falam a mesma língua

    Engana-se quem pensa que o samba e o sertanejo moram em planetas distantes. No fundo, ambos tratam da vida real, do amor perdido e, claro, daquela cerveja gelada que acompanha o fim de semana na fazenda. A partir daí, a colaboração entre Bruno & Marrone e Zeca Pagodinho surge como um movimento natural de quem entende o que o povo gosta de ouvir. Enquanto a dupla sertaneja traz a potência vocal que ecoa nas feiras agropecuárias, Zeca entra com o gingado de quem sabe que a vida é curta para não celebrar.

    Os artistas se encontraram no Rio de Janeiro para as gravações do clipe — (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

    Querido em todos os cantos

    Não é segredo para ninguém que Zeca Pagodinho transita com facilidade por todos os públicos, mas sua conexão com o estilo de vida simples é o que realmente brilha. Recentemente, críticos musicais destacaram como ele se tornou o artista mais versátil do país, gravando desde clássicos com Ivan Lins até sucessos de boteco com os ícones de Goiás.

    E é claro, o impacto desse lançamento vai muito além das plataformas de streaming. Estamos falando de uma música desenhada para ser o tema oficial das confraternizações em volta do fogo de chão. A fluidez narrativa da faixa combina o violão sertanejo com o cavaquinho de forma tão orgânica que parece que eles sempre tocaram juntos. Além disso, essa união estratégica reforça uma tendência: o entretenimento no campo está cada vez mais diverso, absorvendo o que há de melhor na cultura brasileira sem perder a raiz.

    Em um trecho que já nasceu com cara de clássico, os artistas entoam: “Podem dizer que sou louco / De tanto eu amar você / Eu ando ligando pouco / Pro que os outros vão dizer / O que você quiser de mim / Eu só digo sim, me peça, me diz / É desse jeito que eu te amo / E é assim que sou feliz”.

  • Dia D do campo: Como o acordo Mercosul-UE muda o preço da sua safra hoje

    Dia D do campo: Como o acordo Mercosul-UE muda o preço da sua safra hoje

    Demorou exatos 26 anos, mas a espera acabou nesta sexta-feira. O acordo entre o Mercosul e a União Europeia finalmente saiu do papel e entrou em vigor, marcando o início de uma nova era para quem vive da terra no Brasil. Para o produtor rural, isso não é apenas uma notícia de política internacional; é uma mudança drástica na competitividade do produto brasileiro lá fora. A partir de agora, o jogo das exportações ganha novos componentes, com a queda gradual de tarifas que antes travavam o crescimento de setores estratégicos como a pecuária e a fruticultura.

    O fim das barreiras que sufocavam o lucro

    Muitos setores do agro brasileiro operavam com margens apertadas na Europa devido às altas taxas alfandegárias. Com a entrada em vigor do tratado, produtos como o café solúvel, sucos de frutas e carnes terão um alívio tributário progressivo. Além disso, o acesso a máquinas e tecnologias agrícolas fabricadas no velho continente deve ficar mais barato, facilitando a modernização de quem está no campo. Assim, o custo de produção pode cair enquanto a rentabilidade na ponta da venda tende a subir.

    O desafio das novas exigências ambientais

    Nem tudo é facilidade nessa nova rota comercial. A Europa é conhecida por ser um dos mercados mais exigentes do mundo em termos de sustentabilidade e rastreabilidade. “O acordo Mercosul-UE entra em vigor nesta sexta-feira após 26 anos, mas traz consigo o desafio de provar a origem verde da nossa produção”, afirmam especialistas do setor. No entanto, o agro brasileiro já vem se preparando para isso com tecnologias de monitoramento que poucos países possuem. O risco agora não é a falta de mercado, mas a necessidade de manter uma gestão impecável para não cair em barreiras não-tarifárias disfarçadas de normas ecológicas.

    A partir daí, o Brasil vira o centro do tabuleiro

    Com a entrada em vigor das novas regras, o Brasil consolida sua posição como o fornecedor de alimentos preferencial do bloco europeu. Em contraste com os produtores locais da Europa, que possuem custos de produção elevadíssimos, a eficiência brasileira ganha um fôlego extra sem as amarras dos impostos de importação. Por outro lado, essa proximidade exige que as associações de classe e o governo trabalhem juntos para garantir que os interesses do pequeno e médio produtor sejam protegidos contra flutuações bruscas de oferta.

    A consequência imediata dessa abertura será uma movimentação intensa nos portos e uma readequação dos contratos futuros. O produtor precisa ficar atento às novas cotas de exportação de carne bovina e frango, que serão ampliadas gradualmente ao longo dos próximos anos. Além disso, a entrada de fertilizantes e defensivos europeus com menores taxas pode dar um respiro no custo de insumos da próxima safra.

  • Soja recupera fôlego em Chicago: entenda por que o preço subiu hoje

    Soja recupera fôlego em Chicago: entenda por que o preço subiu hoje

    Hoje definitivamente não é um dia qualquer para o mercado de soja. Nesta sexta-feira, 1º de maio, as cotações da oleaginosa na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT) operaram no campo positivo e entregaram um respiro que o setor esperava há algum tempo. Por trás dessa recuperação, uma combinação de fatores que vai muito além das fronteiras do campo brasileiro: guerra, chuva, petróleo e câmbio se uniram para empurrar os preços para cima.

    Para quem acompanha o mercado de commodities, essa é exatamente a dinâmica que torna a soja tão fascinante e, ao mesmo tempo, tão imprevisível.

    Petróleo e tensão geopolítica deram o tom em Chicago

    Os contratos futuros da soja negociados na CBOT fecharam o pregão com preços mais altos para o grão e o óleo, enquanto o farelo recuou. O mercado buscou suporte na disparada do petróleo, sustentada pelas tensões que persistem no Oriente Médio.

    Esse elo entre energia e grãos não é coincidência. O óleo de soja acompanhou o movimento do petróleo por ser uma alternativa na produção de biocombustíveis, e a demanda consistente por esmagamento nos Estados Unidos também contribuiu para a alta.

    No entanto, há um componente geopolítico concreto por trás dessa pressão. O mercado repercutiu declarações do presidente Donald Trump sobre o Irã, aumentando a cautela dos investidores. Quando Washington faz ameaças ao regime iraniano, o petróleo sobe, o óleo de soja sobe junto, e os contratos futuros do grão ganham sustentação quase que automaticamente.

    Entre os contratos, o vencimento maio de 2026 subiu 9,25 centavos de dólar por bushel, fechando a US$ 11,82 1/4. Já o contrato julho de 2026 avançou 7,75 centavos, encerrando a US$ 11,97 por bushel. No farelo, houve queda de US$ 3,60, para US$ 323,80 por tonelada. O óleo de soja subiu 1,60 centavo, fechando a 74,12 centavos de dólar por libra-peso.

    Chuvas nos EUA atrasam plantio e sustentam preços

    Além do cenário energético, outro fator climático entrou na equação: atrasos no plantio provocados por excesso de chuvas no Meio-Oeste americano também influenciaram positivamente os preços.

    Quando o plantio atrasa, a oferta futura de grãos fica em xeque. E mercado que enxerga risco de oferta menor tende a precificar essa incerteza com alta nos contratos futuros. Nos Estados Unidos, o plantio de soja avançou para apenas 12% da área prevista, dobrando o ritmo da semana anterior, mas a previsão de chuvas intensas no Meio-Oeste pode interromper temporariamente os trabalhos de campo.

    Por outro lado, os ganhos mais expressivos não aconteceram. Ganhos mais expressivos ao grão foram limitados pela ampla oferta vinda da América do Sul. Brasil e Argentina seguem jogando o lado oposto dessa balança, com uma colheita robusta pressionando os preços de baixo para cima.

    Brasil sente a melhora: câmbio e portos aquecem negócios

    Do lado de cá do Atlântico, o efeito foi imediato. O mercado brasileiro de soja teve um dia mais aquecido, com avanço nas cotações e maior volume de negócios, especialmente nos portos.

    Segundo o analista Rafael Silveira, da Safras & Mercado, a melhora veio principalmente da combinação entre câmbio e mercado internacional. A valorização em Chicago e o dólar mais firme trouxeram sustentação aos preços internos.

    O dólar comercial encerrou o dia com alta de 0,39%, cotado a R$ 5,0014 para venda, oscilando entre R$ 4,9793 e R$ 5,0138 ao longo da sessão. Essa proximidade do dólar à marca de R$ 5,00 foi um dos gatilhos para destravar negócios que estavam represados.

    No mercado físico, os preços subiram em várias praças. Passo Fundo (RS) subiu de R$ 124,00 para R$ 125,00 por saca, e Santa Rosa (RS) avançou de R$ 125,00 para R$ 126,00.

    O que o produtor deve monitorar nas próximas semanas

    Apesar do alívio desta sexta, o cenário segue repleto de variáveis. Os investidores aguardavam os dados semanais de exportação norte-americana, com projeções entre 200 mil e 600 mil toneladas de soja em grão. Esses números, quando divulgados, têm capacidade de reforçar ou reverter os ganhos recentes.

    Além disso, na América do Sul, chuvas persistentes na Argentina, especialmente na província de Santa Fé, têm prejudicado o avanço da colheita, o que pode reduzir a oferta sul-americana no curto prazo e dar mais sustentação às cotações internacionais.

    Para o produtor brasileiro, o recado é claro: o momento exige atenção redobrada ao câmbio, ao preço do petróleo e ao clima no Meio-Oeste americano. São esses três termômetros, aparentemente distantes do campo, que definem o preço que chega à balança na colheita.

  • Monitoramento via satélite identifica áreas irrigadas a partir da umidade do solo

    Monitoramento via satélite identifica áreas irrigadas a partir da umidade do solo

    Imagine tentar descobrir se um campo foi irrigado olhando apenas para uma foto tirada do espaço. Parece simples, mas não é. Aquele círculo perfeito no solo, formado pelo pivô central, pode estar ali há anos sem que uma gota d’água tenha passado por ele na última safra. Era exatamente esse o problema que o governo federal precisava resolver, e a Embrapa Territorial acaba de entregar a solução.

    Um método desenvolvido pela Embrapa combina imagens do satélite Sentinel-2 com inteligência artificial para mapear, ano a ano, o crescimento ou a redução das áreas agrícolas efetivamente irrigadas no Brasil. Não as que têm estrutura de irrigação, não as que parecem irrigadas. As que, de fato, receberam água durante a safra.

    O problema que os círculos no solo não conseguem resolver

    O engenheiro agrônomo Rafael Mingoti, analista da Embrapa Territorial e responsável pelo mapeamento dos primeiros polos em Goiás, explica que o desafio inicial era gerar um mapeamento que permitisse verificar as diferenças entre as safras. E registrar os famosos círculos dos pivôs centrais simplesmente não funcionava para isso.

    “Registrar os tão conhecidos círculos formados no solo pelos pivôs centrais, por exemplo, não seria eficaz, pois são como uma cicatriz no solo que permanece de um ano para outro”, explica Mingoti.

    Além disso, buscar os equipamentos físicos de irrigação no campo também não resolvia o problema. Esses equipamentos podem estar presentes, mas desativados. “O objetivo é identificar as terras que foram efetivamente irrigadas no ano em questão e não as que apenas têm a infraestrutura”, enfatiza o pesquisador.

    Foi a partir daí que a equipe virou o jogo: em vez de procurar os equipamentos ou as marcas deixadas no solo, passou a analisar a umidade do solo diretamente. Os índices são extraídos de imagens do satélite Sentinel-2, de média resolução e acesso gratuito, fornecido pela Agência Espacial Europeia.

    Chuva ou irrigação? A IA entra em cena para distinguir os dois

    Resolver a questão da umidade trouxe um novo obstáculo, ainda mais sutil. Em Goiás, predominantemente, a irrigação não é utilizada no período de estiagem e sim durante o verão, quando as chuvas ocorrem e quando há vazão disponível nos cursos d’água. Especialmente por causa das mudanças climáticas e do aumento da duração dos veranicos, os agricultores recorrem à irrigação para evitar perdas.

    Mas se a irrigação acontece justamente quando chove, como saber de onde veio a umidade do solo?

    “Nós usamos outros indicadores. Geralmente as áreas irrigadas não são muito pequenas e têm formatos regulares, retângulos, círculos ou triângulos”, esclarece Mingoti. A inteligência artificial entra para cruzar esses padrões geométricos com os dados de umidade, separando o que é chuva do que é irrigação humana. Uma distinção que, antes desse método, simplesmente não existia em escala territorial.

    No entanto, identificar onde se irriga era só metade da demanda. O governo também precisa saber quanto, exatamente, está sendo irrigado.

    Vetorização: a técnica que mede com muito mais precisão

    Como inovação, o método utiliza recursos derivados do sensoriamento remoto com radar para chegar à área total. Diferentemente do método tradicional, que calcula a área somando pixels (quadros que compõem a imagem), a técnica de vetorização desenha o contorno real do terreno, como se seguisse a linha exata do local irrigado. Na contagem por pixels, o sistema considera o quadro inteiro, mesmo que parte do terreno que ele cobre não seja irrigada.

    O resultado, nas palavras do próprio Mingoti: “Quando os terrenos são vetorizados, eliminamos possíveis erros dentro e fora da área irrigada. Então, a medição é muito mais acurada.”

    Não é detalhe técnico por vaidade científica. Mais precisão significa políticas públicas melhores, investimentos mais bem direcionados e uso da água monitorado de verdade.

    7 mil hectares a mais: o dado que já chegou ao Ministério

    A Embrapa Territorial já aplicou o método no mapeamento de dois polos de irrigação em Goiás (Planalto Central e Vale do Araguaia) e de três no Mato Grosso (Sul, Médio Norte e Araguaia-Xingu). Os mapeamentos dos dois primeiros já foram entregues ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, e os outros estão em fase de validação.

    O mapeamento no polo Central de Goiás mostrou um aumento de 7 mil hectares nas áreas irrigadas entre 2023 e 2024. Houve crescimento em todos os 24 municípios que integram a região.

    Além de servir para a avaliação das políticas públicas, os dados do mapeamento têm um destino claro: a intenção é que sejam integrados ao Sistema Nacional de Informações sobre Irrigação, o Sinir.

    Coordenador-geral de sustentabilidade de projetos e polos de irrigação do MIDR, Antônio Guimarães Leite lembra ainda que a irrigação no período chuvoso cumpre um papel estratégico que vai além de compensar a falta de chuva. “Em algumas situações, isso permite estender a janela de cultivo e viabilizar até três colheitas no mesmo ano agrícola”, aponta.

    Com satélite, IA e dados precisos nas mãos, o agro brasileiro passou a enxergar o que antes ficava invisível. E o governo, finalmente, tem uma ferramenta à altura do desafio de gerir a água do campo.

  • Conexão além da vida? Égua relincha ao lado de caixão e comove família em SC

    Conexão além da vida? Égua relincha ao lado de caixão e comove família em SC

    Lágrimas e silêncio costumam ditar o ritmo de um velório, mas em Santa Catarina, um som diferente rompeu a atmosfera de luto e deixou todos os presentes arrepiados. Levada para se despedir de seu tutor, a égua de estimação de um idoso catarinense protagonizou uma cena que reforça os laços invisíveis entre humanos e animais. Ao se aproximar do caixão, o animal não apenas parou, mas relinchou alto, como se estivesse chamando por aquele que cuidou dela durante anos.

    Um pedido especial da família

    Realizar essa homenagem não foi um improviso de última hora. A ideia partiu da filha do falecido, que conhecia a relação profunda entre o pai e o animal. Segundo familiares, a égua era a grande companheira do idoso nas rotinas no campo. Assim, a decisão de levá-la até o local da cerimônia buscou honrar essa amizade que, para muitos ali, parecia transcender a compreensão humana básica sobre o comportamento animal.

    A ciência por trás do luto animal

    Cenas como essa levantam discussões sobre a capacidade cognitiva e emocional dos cavalos. Especialistas em comportamento animal explicam que equinos são extremamente sensíveis a odores e sinais auditivos, sendo capazes de reconhecer seus tutores mesmo em condições adversas. No entanto, o impacto visual de um animal expressando o que parece ser tristeza profunda gera um impacto imediato na audiência digital. “Ela sabia que ele estava ali, foi uma despedida de alma”, afirmou uma das presentes no vídeo que já soma milhares de visualizações.

    https://www.instagram.com/reel/DXwfKubyMq0/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

    Reação viral e comoção nas redes

    Imagens registradas por celulares mostram o momento exato em que a égua encosta o focinho no caixão. A partir daí, o vídeo se espalhou por grupos de mensagens e redes sociais, gerando milhares de comentários de internautas emocionados com a lealdade do bicho. Além disso, o episódio reacende o debate sobre a permissão de animais de estimação em cerimônias fúnebres, algo que vem se tornando mais comum como parte do processo de fechamento de ciclo para as famílias.

    O legado de uma amizade rural

    Finalizada a cerimônia, o sentimento que ficou entre os parentes foi de dever cumprido. O relincho, que para desconhecidos poderia ser apenas um som natural, para aquela família foi um recado claro de gratidão. Em contraste com a frieza de algumas despedidas modernas, a presença da égua trouxe uma humanidade visceral ao momento, provando que o luto, definitivamente, não é um sentimento exclusivo dos seres humanos.

  • Jararaca em piscina de bolinhas: cobra foi encontrada em restaurante de SP enquanto crianças brincavam

    Jararaca em piscina de bolinhas: cobra foi encontrada em restaurante de SP enquanto crianças brincavam

    Imagine estar encerrando o expediente, dar uma última olhada no espaço de brincar das crianças e perceber que uma bolinha está se movendo por conta própria. Foi exatamente isso que aconteceu com um funcionário de um restaurante em Suzano, no interior de São Paulo, na noite do último domingo, dia 26 de abril. Escondida entre as bolinhas coloridas da piscina infantil do estabelecimento, estava uma jararaca, uma das cobras mais perigosas do Brasil.

    O funcionário percebeu o detalhe que salvou todo mundo

    O funcionário notou que algo estava errado ao reparar em uma bolinha se movendo de forma estranha. Sem hesitar, acionou imediatamente a equipe do Reserva RP, santuário para animais silvestres localizado na região.

    Quem foi ao local foi o médico veterinário Celso Gatti, especialista em animais silvestres e um dos responsáveis pelo resgate. Ele chegou equipado com um gancho herpetológico, instrumento específico para manejo de serpentes, e uma caixa de transporte adequada para a espécie. “Um dos funcionários notou que a jararaca estava na piscina ao reparar uma bolinha se movendo. Logo, já me chamou”, contou.

    Depois do resgate, a jararaca foi levada para uma área de mata em um bairro próximo, longe de residências, e solta em segurança. O restaurante estava fechado no momento da descoberta, o que evitou que clientes, especialmente crianças, entrassem em contato com o animal.

    Como uma cobra venenosa foi parar em uma piscina de bolinhas?

    Embora ninguém saiba exatamente como a jararaca chegou ao local, o veterinário Celso Gatti acredita que ela saiu da mata densa nos fundos do restaurante. O animal provavelmente buscou a piscina em uma tentativa de encontrar abrigo ou alimento.

    De fato, o caso não surpreende os especialistas, visto que a jararaca domina grande parte do sudeste brasileiro. Como essa espécie habita áreas da Bahia ao Rio Grande do Sul, a proximidade entre a Mata Atlântica e os centros urbanos facilita tais encontros. Por esse motivo, moradores e donos de estabelecimentos próximos à vegetação devem encarar esses incidentes como um risco real e constante.

    Celso Gatti compartilhou as imagens do resgate no Instagram e a postagem rapidamente viralizou. Como resultado, o registro já somava mais de 1,6 milhão de visualizações até a tarde de quarta-feira. O veterinário utilizou a legenda para reforçar um alerta importante: o objetivo do vídeo não é causar pânico, mas sim garantir que a população redobre o cuidado em áreas onde o animal costuma circular.

    https://www.instagram.com/reel/DXwbaADyg_e/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

    Por que a jararaca é tão perigosa?

    Não é à toa que o caso assustou tanta gente. Segundo o Ministério da Saúde, o grupo das jararacas é o maior causador de acidentes com cobras no país, representando 69,3% das picadas registradas no Brasil em 2022, e sendo responsável por mais de 72% dos casos no estado de São Paulo.

    O veneno da jararaca é hemotóxico, ou seja, age diretamente no sangue e nos tecidos. Os principais sintomas da picada de uma jararaca adulta em humanos são dor e inchaço local, às vezes com manchas arroxeadas e sangramento no ferimento. Também podem ocorrer sangramentos em mucosas, como nas gengivas e no nariz. Em casos mais graves, há risco de necrose e insuficiência renal aguda.

    O veneno da jararaca pode provocar lesões locais como hemorragia e necrose que, em situações mais sérias, chegam a exigir amputação dos membros afetados. O soro antiofídico, produzido pelo Instituto Butantan e distribuído gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde, é o único tratamento eficaz e precisa ser aplicado por profissionais de saúde em ambiente hospitalar.

    O que fazer se encontrar uma cobra?

    Antes de tudo: não tente capturar o animal. Celso Gatti deixou orientações claras para quem se deparar com uma jararaca. Mantenha distância, afaste crianças e animais domésticos do local e acione imediatamente o serviço público de resgate de animais silvestres da sua cidade.

    Em caso de picada, a recomendação do Ministério da Saúde é que a vítima permaneça em repouso, se hidrate e seja levada ao hospital de referência para tratamento de acidentes ofídicos o mais rápido possível. Dois erros comuns que devem ser evitados: fazer torniquete no local da picada e tentar chupar o veneno. O torniquete não impede a circulação do veneno e apenas aumenta o risco de necrose e amputação do membro.

  • Como 18 dias sem chuva não derrubaram 135 sacas de soja

    Como 18 dias sem chuva não derrubaram 135 sacas de soja

    Enquanto a média nacional da soja no Brasil ronda cerca de 60 sacas por hectare, um grupo de produtores já está chegando a 90, 100 e até mais de 130 sacas por hectare. O que separa essas lavouras não é a semente, mas uma mudança radical na forma de pensar a calagem e a fertilidade do solo. O ponto central é um nutriente ainda pouco valorizado: o magnésio, analisado pela saturação na CTC em diferentes camadas do perfil

    O método que destrava a produtividade da soja (e o que você está ignorando no solo)

    O agrônomo Leandro Barcelos, por trás do recorde de 135,49 sacas por hectare da Agro Mallon no CESB 2025, defende que o limite produtivo da soja está menos na planta e mais na lógica herdada desde a década de 1990. A calagem tradicional foca em elevar o pH e o cálcio na camada de 0 a 20 cm, como se o solo fosse apenas um piso úmido.

    Barcelos propõe outro caminho: desenhar a arquitetura química do perfil do solo, com cálculo por saturação de magnésio na CTC nas camadas de 0–20 cm e 20–40 cm. Segundo ele, o foco quase exclusivo no cálcio mascara o fato de que o magnésio é o fator limitante em boa parte das fazendas. Solos tecnicamente “corrigidos” podem estar travando o sistema radicular por falta de equilíbrio entre cálcio e magnésio.

    Sem esse equilíbrio, a planta trava a clorofila e perde a capacidade de absorver fósforo, mesmo quando o nutriente é aplicado em doses altas. O produtor pode usar o melhor adubo do mercado, mas a porta de entrada da planta continua semi‑fechada.

    Magnésio na CTC: a porta de entrada

    A lógica de saturação de magnésio na CTC coloca o nutriente no centro da decisão de calagem. O carbonato de magnésio, por exemplo, tem maior dificuldade de dissociação que o do cálcio. Se o produtor não domina essa dinâmica, o investimento fica parado na superfície e não vira produtividade.

    Construir um perfil químico em profundidade elimina a “barreira invisível” que condena a soja a explorar só a superfície. Isso reflete diretamente na capacidade da planta de acessar água em camadas mais profundas. O resultado é um sistema radicular mais verticalizado, com raízes que descem até cerca de 1,5 metro, em vez de se espalharem apenas perto do solo.

    A planta sai da estaca zero com mais força, preparada para janelas de estresse hídrico. Barcelos compara com um produtor que investe fortunas em fertilizantes de última geração, mas deixa a porta de entrada da planta bloqueada. O resultado é lavoura morrendo de sede com água logo abaixo, porque o solo foi tratado como um depósito de insumos, não como um sistema biológico vivo.

    Como 18 dias de veranico não abateram 135 sacas/ha

    A prova de fogo do método veio na safra 2024/25, na Fazenda Santa Bárbara (Canoinhas/SC), unidade da Agro Mallon. O produtor Charles Adriano Breda colheu 135,49 sacas por hectare mesmo com 18 dias seguidos sem chuva. Para Barcelos, essa resiliência hídrica não é sorte e sim consequência direta da correção do perfil do solo.

    Com magnésio e cálcio equilibrados, a soja consegue aprofundar o sistema radicular e acessar o CAD em camadas de até 1,5 metro de profundidade. Esse comportamento vertical é o que sustenta a produtividade em períodos de estresse. Um ponto pouco explorado é a relação entre potássio e magnésio na CTC. Muitos produtores aumentam o K para ganhar peso de grão, mas sem magnésio adequado, ocorre inibição competitiva.

    Os nutrientes competem entre si e a planta perde produtividade. Essa combinação, aliada ao ajuste de calagem e adubação, fez a lavoura de Breda superar a média nacional de censo, em torno de 59 sacas por hectare, e a média auditada do CESB, próxima de 96 sacas por hectare. A fazenda se tornou campeã nacional de produtividade de soja sequeira.

    Histórias reais: de 60 para 90, 100 e mais

    A metodologia de “A Raiz da Solução” já é testada em dezenas de fazendas, com ganhos estruturais de produtividade mesmo em safra de clima apertado. No Cerrado Mineiro, o engenheiro agrônomo e produtor Eduardo Primon conta que o manejo focado em raiz e fisiologia elevou a média da fazenda de 70 para 90,5 sacas por hectare. Em áreas monitoradas, a lavoura chegou a 107 sacas por hectare.

    A estratégia passa por preparar a planta para o “embate” contra o clima ainda na fase de planejamento. O ajuste de fertilidade, calagem e profundidade do sistema radicular é feito antes do plantio. No Rio Grande do Sul, Márcio Natalli partiu de uma média de 60 sacas por hectare e chegou a 90 sacas graças ao investimento em construção do perfil do solo. Enquanto vizinhos sentiam o impacto do veranico, sua soja permanecia verde e a procurar água no fundo.

    Isso só é possível porque o sistema radicular atua onde o manejo comum não chega. Em Goiás, Francisco Luçardo também rompeu a barreira de 70 sacas, atingindo 100 sacas por hectare com ajuste nutricional profundo. A mensagem é a mesma: não basta colocar adubo; é preciso garantir que o solo esteja equilibrado em profundidade para que a planta absorva tudo o que é oferecido. O investimento vira saca, e saca vira lucro.

    Sair do “balcão” e virar engenheiro da própria lavoura

    Para Leandro Barcelos, o maior gargalo não é falta de tecnologia, e sim a dependência de pacotes prontos de revendedor. O produtor precisa parar de ficar na mão do balcão de vendas e de aceitar receitas que nem sempre a terra dele precisa. Lucratividade máxima só vem quando ele conquista independência técnica.

    Isso significa saber olhar para a análise de solo e decidir, com critério, o que vai aplicar, quando, qual fonte e em qual momento. É essa autonomia que sustenta a produtividade real, ajustada ao tempo e ao orçamento de cada fazenda. Parte dessa independência passa por capacitação técnica.

    Especialista em fertilidade do solo e fisiologia vegetal com mais de 40 anos de vivência no campo, Leandro Barcelos é o consultor agronômico por trás da conquista do último campeonato nacional de produtividade de soja do CESB 2025.

    Barcelos lança uma série gratuita de três aulas online, “As Verdades Ocultas para Colher Mais Soja”. Ela serve como porta de entrada para o evento presencial “ARDS Experience” e para o programa “A Raiz da Solução 2.0”. O objetivo é ajudar o produtor a construir um perfil de solo resiliente, atingir produtividades de três dígitos e respeitar sempre custo‑benefício e lucratividade.

  • O que o consumo de carne de burro na Argentina revela sobre situação do país

    O que o consumo de carne de burro na Argentina revela sobre situação do país

    A Argentina sempre foi o país do bife. Durante décadas, nenhuma outra nação no mundo consumiu tanta carne bovina per capita, e isso nunca foi só uma questão de dieta. Era identidade, orgulho e cultura. Hoje, porém, algo está mudando nos hábitos alimentares do país, e um projeto piloto na Patagônia escancara essa transformação de um jeito que nenhum indicador econômico consegue fazer com tanta clareza.

    Na cidade de Trelew, na província de Chubut, o produtor rural Julio Cittadini lançou o projeto “Burros Patagones” e passou a vender carne de burro em açougues e restaurantes locais. O resultado surpreendeu até ele. “O que colocamos à venda acabou em um dia. Em um dia e meio não restou nada”, relatou Cittadini. A iniciativa virou notícia nacional, gerou debate e acabou se tornando um termômetro involuntário da situação econômica argentina.

    Um projeto regional que ganhou proporção nacional

    A base da repercussão está em matérias de veículos argentinos como o Infobae e o Clarín, que abordaram uma iniciativa específica na Patagônia: a introdução da carne de burro como alternativa produtiva em regiões com dificuldades para manter a pecuária tradicional. Cittadini afirma que o projeto não foi concebido como resposta à atual situação econômica. Segundo ele, a iniciativa surgiu a partir das dificuldades enfrentadas pela pecuária e pela criação de ovelhas na região, devido ao clima rigoroso, ao relevo irregular e à presença de predadores.

    Ou seja, não se trata de um colapso generalizado da alimentação argentina. Mas o timing do projeto e a velocidade com que ele repercutiu revelam algo que vai além da Patagônia. A receptividade foi alta demais para ser ignorada, e o preço explica boa parte disso.

    O quilo da carne de burro é vendido por cerca de 7.500 pesos (cerca de R$ 27), enquanto a bovina pode chegar a 18 mil ou 19 mil pesos (R$ 65 ou R$ 69), quase três vezes mais. Nesse cenário, a escolha deixa de ser gastronômica e passa a ser matemática.

    O bife que virou item de luxo

    O aumento dos preços tornou a carne bovina um item de luxo no país, frustrando promessas de campanha de redução de valores e alterando profundamente os hábitos alimentares da população. Cortes comuns chegaram a ultrapassar 25 mil pesos por quilo, com alta superior a 10% em apenas um mês.

    A inflação acumulada de carnes e derivados na Argentina atingiu 55,1% em março, o maior nível desde abril de 2025. Na Grande Buenos Aires, o quilo da carne bovina registrou alta anual de 55%, chegando a 61,5% na região Noroeste, sendo o item com a maior alta no período.

    O açougueiro Gonzalo Moreira, de Buenos Aires, descreveu o impacto no dia a dia do seu negócio com uma objetividade desconcertante. “As pessoas deixaram a carne bovina, que caiu cerca de 20% nas compras, e passaram para o porco ou o frango. Um quilo de carne bovina custa entre 15 mil e 18 mil pesos. Já o porco fica entre 8 mil e 9 mil pesos”, disse. E completou: “A comida também começa a ser paga em parcelas. A gente vai reorganizando as vendas.”

    Uma identidade que se transforma aos poucos

    A mudança vai além do bolso. Ela mexe com algo muito mais profundo na cultura argentina. Há 60 anos, o consumo per capita de carne bovina chegava a 82 quilos por habitante, contra apenas 12 quilos somados de frango e suína. Hoje, o total de carnes consumidas gira em torno de 115 a 116 quilos por pessoa ao ano, sendo cerca de 51 quilos de frango, 45 quilos de bovina e entre 19 e 20 quilos de suína. O frango, há décadas considerado a alternativa popular, ultrapassou a carne bovina no consumo total. Uma virada histórica.

    Mais do que uma curiosidade gastronômica, o fenômeno expõe uma realidade clara: quando o bolso aperta, até tradições históricas entram em transformação. Até o próprio Milei reconheceu o problema publicamente. “Normalmente, os políticos fingem demência ou falam de outra coisa quando recebem um dado negativo. Mas como eu sou Milei e detesto a maneira como fazem política tradicional, e como odeio a inflação, e como este dado me gerou repulsa, vou falar sobre a inflação”, disse o presidente em evento com empresários.

    O que isso significa para o agronegócio regional

    Para o setor produtivo, o fenômeno tem ao menos dois lados. De um lado, sinaliza oportunidades em cadeias alternativas de proteína, tanto para a criação de burros quanto para a produção de frango e suíno, que crescem em participação no mercado argentino. Em regiões como a Patagônia, a criação de burros apresenta vantagens importantes pelo ambiente, e produtores locais apostam na expansão desse mercado, tanto pela demanda crescente quanto pelo potencial de desenvolvimento econômico em regiões áridas.

    Por outro lado, o enfraquecimento do consumo interno bovino é um sinal de alerta. A autorização para expandir a comercialização da carne de burro a nível nacional ainda depende da aprovação do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina. A cadeia ainda engatinha, e especialistas como Victor Tonelli apontam que o impacto produtivo atual é pontual. Mesmo assim, o debate que o tema abriu não vai embora tão cedo.

    O Banco Mundial prevê que a economia argentina crescerá 3,6% em 2026 e 3,7% em 2027, com uma das maiores expansões da região. Porém, trata-se de um crescimento desigual, como reconhecem os próprios economistas. E enquanto os números do PIB melhoram no papel, o argentino médio ainda está decidindo se consegue pagar pelo bife de sempre, ou se vai experimentar algo diferente.

  • Píton de 4,8 metros vira caso de polícia em Goiás após fuga e apreensão

    Píton de 4,8 metros vira caso de polícia em Goiás após fuga e apreensão

    Uma píton amarela de 4,8 metros virou caso de polícia em Goiás depois de ser entregue pelo próprio tutor à Polícia Civil. O animal, sem licença de criação nem documentação de origem, estava em Anápolis e chamou atenção pelo risco e pela irregularidade.

    A cobra pertence à espécie píton-molurus, um réptil exótico que não faz parte da fauna brasileira. Segundo a polícia, a documentação do Ibama é essencial para esse tipo de criação, e a ausência desses papéis levou à apreensão.

    Animal já havia fugido antes

    O caso ganhou ainda mais peso porque a cobra já tinha escapado antes. Na semana passada, ela foi encontrada às margens do rio Araguaia, na região de Aruanã, a cerca de 330 km do local onde vivia, e depois devolvida ao responsável.

    Segundo a investigação, o tutor disse que recebeu o animal há cerca de sete anos de uma vizinha e afirmou não saber mais onde ela mora. A polícia também apura as circunstâncias da posse e da origem da serpente.

    Espécie exótica preocupa autoridades

    A Polícia Civil alerta que a píton-molurus pode causar desequilíbrio ambiental por ser uma espécie exótica. Além disso, o porte do animal aumenta o risco em caso de fuga, manuseio inadequado ou criação fora das regras.

    Após a apreensão, a serpente foi encaminhada às autoridades competentes e a tendência é que siga para um zoológico. O episódio reforça o problema da criação irregular de animais silvestres exóticos no país.

  • Por que os morcegos são hospedeiros de tantos vírus diferentes?

    Por que os morcegos são hospedeiros de tantos vírus diferentes?

    Ebola. Nipah. Hendra. Marburg. SARS. COVID-19. A lista de vírus mortais que compartilham um ponto de origem em comum é longa e assustadora. E esse ponto é o morcego. Mais de 200 vírus de 27 famílias já foram isolados ou detectados em diferentes espécies desses mamíferos. O que intriga os cientistas não é apenas o número, mas o fato de que os morcegos carregam tudo isso sem adoecer. Como?

    A resposta está no sistema imunológico mais sofisticado que a evolução já produziu em um mamífero. E entendê-la pode mudar a medicina, a agricultura e a forma como o Brasil lida com surtos zoonóticos.

    O voo como origem de tudo

    A chave para entender a imunidade dos morcegos começa antes de qualquer vírus. Começa no ato de voar. Durante o voo, o metabolismo desses animais aumenta drasticamente, gerando níveis mais elevados de radicais livres de oxigênio e, consequentemente, mais moléculas de DNA danificado. Para qualquer outro mamífero, esse nível de estresse celular seria devastador.

    Segundo um estudo publicado no Emerging Infectious Diseases, morcegos liberam tanta energia quando voam que a temperatura corporal pode atingir entre 38 °C e 41 °C. Os patógenos que evoluíram dentro desses animais aprenderam a sobreviver nesse ambiente quente e turbulento. Fora dele, porém, num corpo humano com temperatura estável, esses mesmos vírus se comportam de forma errática e, muitas vezes, letal.

    O voo, portanto, não foi apenas uma vantagem evolutiva para fugir de predadores. Foi o motor que redesenhou o sistema imunológico desses animais de dentro para fora.

    O interferon que nunca dorme

    O principal elemento da resposta imune dos morcegos é a molécula de interferon, uma citocina que permite que as células imunológicas troquem sinais e que age diretamente contra patógenos. Em qualquer outro mamífero, o interferon é liberado em resposta a uma infecção. Nos morcegos, não. O interferon já circula em níveis permanentemente elevados, mesmo sem nenhum vírus presente, o que impede que o organismo seja sobrecarregado pela multiplicação precoce de um patógeno.

    Isso tem um impacto imediato: quando um vírus entra no corpo de um morcego, encontra uma defesa já ativada, não uma que precisa de horas ou dias para se organizar.

    Algumas espécies chegam a ter 46 genes para produzir interferons, enquanto humanos têm cerca de 20. Essa diferença não é pequena. É o tipo de vantagem que separa quem sobrevive de quem colapsa diante de um agente infeccioso.

    Há, porém, um custo que só os morcegos parecem conseguir pagar. Em humanos, níveis muito altos de interferon causam efeitos colaterais graves, como fadiga, arritmia cardíaca, hipertermia e fenômenos autoimunes como o lúpus. O corpo humano simplesmente não tolera o que o morcego usa como estado normal.

    Tolerância no lugar de eliminação

    Outro mecanismo central é a forma como os morcegos respondem à inflamação. No organismo desses mamíferos, a proteína NLRP3, responsável por ativar a resposta inflamatória de combate a infecções, praticamente não reage quando encontra uma carga viral. Isso significa que o corpo do morcego não tenta destruir o vírus a qualquer custo. Em vez disso, aprende a conviver com ele.

    Essa estratégia tem um nome na imunologia: tolerância a doenças. A abordagem limita os danos ao hospedeiro sem se preocupar em eliminar completamente o patógeno. O vírus replica, mas de forma controlada. O morcego sobrevive. E o vírus permanece, pronto para dar o salto quando houver contato com outro hospedeiro, como um humano.

    Morcegos possuem mutações e supressão de expressão de moléculas envolvidas nas respostas inflamatórias, o que permite que o sistema imunológico controle os vírus sem causar uma resposta exacerbada capaz de danificar tecidos. Esse equilíbrio fino é justamente o que os cientistas tentam replicar em laboratório para tratar doenças em humanos.

    O que isso tem a ver com a sua lavoura?

    Aqui o tema sai do laboratório e entra no campo. Os morcegos hospedam uma proporção significativamente maior de zoonoses do que todas as outras ordens de mamíferos. Esse dado preocupa e exige atenção do produtor rural, que convive com esses animais no ambiente agropecuário.

    No entanto, a mesma biologia que faz dos morcegos reservatórios virais os torna indispensáveis para a agricultura brasileira. Pesquisadores da UnB identificaram nas fezes de morcegos insetívoros urbanos mais de 40 espécies de insetos, muitos deles pragas agrícolas de culturas como soja, milho e algodão.

    O impacto econômico disso é concreto. Só a produção de milho no Brasil tem um benefício estimado de 390 milhões de dólares por ano com a supressão de pragas como a lagarta do cartucho e mariposas, segundo o professor Enrico Bernard, da UFPE. Além disso, morcegos de uma única caverna podem retirar até 82 toneladas de insetos em um ano.

    Exterminar esses animais, portanto, não é apenas um erro ecológico. É um prejuízo financeiro direto ao agronegócio. Pesquisadores são categóricos: exterminar morcegos não é saída para a prevenção de epidemias, e eles podem até trazer a solução para doenças futuras.

    “Em vez de tentar reinventar a roda, poderíamos aprender com o que a evolução desenvolveu no morcego, onde o resultado não é uma doença, mas é algo que permite a sobrevivência após a infecção por um vírus específico”, diz a imunologista Judith Mandl, da Universidade McGill.

    O morcego carrega o vírus. Carrega também a resposta. E a agricultura brasileira, que depende diretamente desse equilíbrio, precisa entender os dois lados dessa equação.