Tag: Cacau

  • Do cacau ao ovo de chocolate: como a crise global explica os preços altos

    Do cacau ao ovo de chocolate: como a crise global explica os preços altos

    A aproximação da Páscoa aquece não só as vendas de ovos de chocolate, mas também o comércio exterior do principal insumo da data: o cacau. E, neste ano, o consumidor brasileiro sente esse movimento no bolso com mais intensidade. O chocolate em barra e bombom acumula alta de 24,77% em 12 meses até janeiro de 2026. Mais de cinco vezes acima da inflação geral de 4,44%, segundo o IPCA.

    chocolate amargo
    Foto: Sigmund/Unsplash

    Para Ahmed El Khatib, professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FECAP, o aumento não é pontual nem exclusivamente sazonal. “Antes mesmo do efeito Páscoa, o chocolate já vinha encarecendo forte no Brasil. Isso revela que o problema é estrutural, envolvendo matéria-prima, energia, frete e embalagens”, explica.

    O choque do cacau em 2024 ainda ressoa

    O principal gatilho foi a crise histórica no mercado de cacau em 2024, quando a cotação internacional ultrapassou US$ 10 mil por tonelada, mais que o triplo da média histórica. Quebras sucessivas de safra na África Ocidental, sobretudo na Costa do Marfim e em Gana, responsáveis por cerca de 60% da produção mundial, derrubaram a oferta global.

    “Doenças nas lavouras, eventos climáticos extremos associados ao El Niño e o envelhecimento dos cacaueiros reduziram drasticamente a oferta. Como o cacau representa entre 30% e 40% do custo industrial do chocolate, o repasse foi inevitável”, afirma Ahmed.

    Mesmo com a correção dos preços internacionais para a faixa de US$ 5 mil por tonelada, o consumidor ainda não sente alívio. “A indústria trabalha com contratos futuros e estoques. Muitas empresas travaram preços quando o cacau estava muito caro. O reflexo na gôndola ocorre com defasagem”, explica. Outro fator que amplifica o custo doméstico: o cacau tem cotação em dólar, e qualquer desvalorização do real encarece ainda mais a matéria-prima para a indústria nacional.

    Brasil exporta cacau, mas ainda depende de importações

    Esse cenário global se conecta diretamente à posição contraditória do Brasil no comércio exterior do setor. Embora o país figure como produtor e exportador relevante de cacau e derivados,com exportações que cresceram mais de 86% entre 2021 e 2025, aproximando-se de US$ 1 bilhão, ele ainda recorre ao mercado externo para abastecer a própria indústria.

    Em 2024, o Brasil importou cerca de 41 mil toneladas de derivados de cacau, entre manteiga, pó e pasta, com investimento superior a US$ 160 milhões. Costa do Marfim, Gana e Malásia lideraram o fornecimento. No segmento de chocolates prontos, o país importou mais de 20 mil toneladas, vindas principalmente de países europeus e da Argentina.

    Para a CEO da Accrom Consultoria em Logística Internacional, Cristiane Fais, a Páscoa escancarou a complexidade dessa cadeia. “O Brasil exporta derivados, mas ainda depende da importação para equilibrar a produção interna. Em datas como esta, a logística precisa ser ainda mais eficiente para evitar rupturas no abastecimento e aumento de custos.”

    Cristiane Fais, CEO da Accrom Consultoria em Logística Internacional. Foto: Divulgação

    Ela destaca que câmbio, frete e instabilidades climáticas nos países produtores pressionam diretamente o preço final ao consumidor. “Qualquer oscilação na produção internacional ou no transporte pode refletir rapidamente nas prateleiras. Empresas que atuam com importação e exportação precisam estar preparadas para cenários voláteis.”

    Alta apareceu nas prateleiras

    Levantamentos em grandes varejistas confirmam o impacto. Um ovo de 277g que custava em média R$ 45 passou para R$ 56,99, alta superior a 26%. Outros produtos registraram aumentos entre 16% e 25%.

    O consumidor pode perceber essa pressão de três formas, segundo Ahmed: aumento nominal do preço, redução da gramatura com valor semelhante, ou promoções mais seletivas. O professor lembra ainda que o ovo de Páscoa concentra custos além do chocolate. “O consumidor não paga apenas pelo chocolate, mas por toda a estrutura sazonal que envolve o produto” (embalagem especial, marketing e logística refrigerada).

    A antecipação das vendas, cada vez mais comum desde janeiro, também segue uma lógica clara. “A Páscoa representa de 25% a 30% do faturamento anual do setor de chocolates. Antecipar as vendas dilui risco, melhora o giro de estoque e ajuda no fluxo de caixa”, explica Ahmed.

    Quando os preços podem cair?

    Há expectativa de superávit global de cacau até o fim de 2026. Se o cenário se confirmar, parte do alívio pode chegar ao consumidor ao longo de 2027. Mas sem retorno aos patamares anteriores ao choque.

    Ahmed Sameer El Khatib  é professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP). Foto: Divulgação

    Ahmed ilustra a dimensão desse possível alívio: em um ovo de R$ 70, cerca de 30% do preço final tem ligação direta com o cacau. “Se o preço internacional cair 30% e o movimento for totalmente repassado, o impacto máximo seria cerca de R$ 6 de redução. Na prática, como o repasse costuma ser parcial, a queda poderia ser de aproximadamente R$ 3, levando o produto de R$ 70 para cerca de R$ 67. “Mesmo com superávit, dificilmente veremos uma volta aos preços antigos. Há rigidez para baixo no varejo e outros custos continuam elevados”, conclui.

    Como economizar nesta Páscoa

    Apesar do cenário adverso, o consumidor pode adotar estratégias simples. A principal dica do professor é comparar o preço por grama, não o valor total do ovo. “Comparar alternativas como barras e caixas de bombom pode gerar economia relevante.”

    Outra saída é montar kits alternativos. “Combinar uma barra de chocolate com uma caixa menor e um mimo adicional costuma sair mais barato do que um ovo grande, que concentra custo de embalagem e sazonalidade.” Pesquisar em supermercados, atacarejos e e-commerce também ajuda, já que a dispersão de preços tende a crescer em anos de alta.

    Ahmed encerra com um alerta direto: “A última semana antes da Páscoa costuma ser emocionalmente mais cara. Em um cenário de preços elevados, planejamento deixa de ser apenas uma boa prática e passa a ser uma necessidade financeira.”

  • Páscoa agridoce: chocolate fica mais caro mesmo com queda de 60% no preço do cacau

    Páscoa agridoce: chocolate fica mais caro mesmo com queda de 60% no preço do cacau

    O consumidor brasileiro vai pagar mais pelo chocolate nesta Páscoa. E a queda de cerca de 60% nos preços internacionais do cacau ainda não explica o contrário. O mercado vive um cenário agridoce em 2026: as cotações das amêndoas recuaram nas bolsas, mas os efeitos não chegaram às prateleiras. A razão é direta; boa parte da indústria comprou a matéria-prima quando os preços ainda estavam nas máximas históricas.

    Ao longo de 2025, fabricantes reajustaram portfólios, reformularam produtos e repassaram custos ao consumidor. Com a demanda ainda pressionada, o setor entra na principal data do calendário chocolateiro sem folga de margem.

    Os dados confirmam o movimento. Na Europa, produtos à base de cacau atingem os maiores preços dos últimos anos. Nos Estados Unidos, os índices de preços ao produtor e ao consumidor seguem elevados, mesmo com correções recentes. No Brasil, chocolates em barra e doces registraram variações acima do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). Um sinal claro de que o consumidor vai sentir o impacto no bolso.

    Brasil entre os maiores processadores do mundo

    O país ocupa a oitava posição no ranking mundial de processamento de cacau, posição que mantém nas últimas cinco safras. Esse peso global torna ainda mais relevantes as discussões sobre abastecimento e fluxo comercial. Especialmente agora, quando o setor acumula desafios em diversas frentes.

    A capacidade de processamento brasileira supera a produção doméstica. Para cobrir a diferença, o país recorre às importações: em média, 17% das amêndoas processadas vieram do exterior nos últimos cinco anos, com cerca de 80% originárias da Costa do Marfim.

    É justamente nesse ponto que o cenário se complica. A suspensão das importações de amêndoas do principal fornecedor africano, combinada com mudanças no regime de drawback, aumenta as preocupações com a atividade de moagem no país e eleva as incertezas sobre o abastecimento de médio e longo prazo.

    Exportações mostram comportamento misto em 2026

    No comércio exterior, os primeiros dois meses do ano revelam um quadro dividido. As exportações de pó de cacau caíram 23% entre janeiro e fevereiro na comparação com o mesmo período de 2025, enquanto as de manteiga avançaram 37%. O movimento é inverso ao do ano passado, quando o pó cresceu 21% e a manteiga recuou 13%.

    Mesmo com exportações de manteiga e pó ainda acima da média histórica em fevereiro, o setor opera sob pressão crescente.

    “A Páscoa deste ano reforça um cenário agridoce para o mercado de cacau. Embora a recente correção das cotações internacionais possa sinalizar algum alívio adiante, os efeitos ainda não chegam de forma clara ao consumidor final”, afirma Carolina França, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets. “Enquanto isso, a indústria segue lidando com um ambiente de demanda fragilizada e desafios adicionais para o abastecimento e a operação no Brasil.”

  • Minas Gerais aposta em polo de cacau para multiplicar produção

    Minas Gerais aposta em polo de cacau para multiplicar produção

    Minas Gerais está se movimentando para transformar o estado em um novo polo nacional de produção de cacau. Com apenas 480 hectares plantados e ocupando o décimo lugar no ranking dos maiores produtores do país, o governo mineiro aposta em novas regiões de cultivo, parcerias científicas e inovações tecnológicas para mudar esse cenário. E e a data não poderia ser mais simbólica: as iniciativas ganham força justamente na semana em que se celebra o Dia Mundial do Cacau.

    O secretário de Agricultura, Thales Fernandes, é um dos maiores entusiastas da expansão do cacau em Minas e aponta o Norte do estado como área prioritária. Para ele, as condições climáticas da região, altas temperaturas e baixa umidade, aliadas a tecnologias de irrigação criam um ambiente promissor para a cultura.

    “Outra estratégia tem sido o plantio consorciado com as plantações de banana. Um sistema agroflorestal que utiliza a bananeira como proteção para o cacau, garantindo sombreamento e umidade”, explica o secretário.

    O município de Jaíba lidera a produção estadual com 256 hectares plantados, o equivalente a 53,3% de toda a área cultivada em Minas. Na sequência aparecem Janaúba (120 hectares), Bandeira (64 hectares) e Matias Cardoso (25 hectares).

    Epamig testa cultivo a pleno sol no semiárido

    Uma das apostas mais inovadoras vem da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). Um novo projeto de pesquisa com novas cultivares de cacau está em fase de preparação. E deve ser implantado em abril de 2026 nos Campos Experimentais de Mocambinho e Gorutuba.

    “O objetivo é determinar a melhor forma de cultivar o cacau aqui na nossa região. Como estamos em uma área de semiárido, e o cultivo tradicional do cacau é feito à sombra, a proposta é justamente testar algo diferente: o cultivo a pleno sol e a aplicação de proteção solar parcial”, afirma Wlly Dias, pesquisadora da Epamig e coordenadora do projeto.

    Os resultados serão comparados com plantas cultivadas em consórcio com banana. “Com isso, queremos entender se é viável produzir cacau aqui sem sombra ou se o sombreamento ainda é essencial”, acrescenta a pesquisadora.

    A Epamig recebeu um convite para integrar o Centro Tecnológico de Cacau e Cultura de Regiões não Tradicionais, em parceria com as Universidades Federais de Viçosa (UFV) e de Lavras (UFLA). Reforço científico que, segundo Wlly, “favorece muito o trabalho em função da geração de conhecimento que a parceria proporcionará”.

    Empregos e exportações em alta

    Além do potencial produtivo, o cacau já se consolida como fonte relevante de renda no campo mineiro. Segundo Deny Sanábio, coordenador técnico estadual de fruticultura da Emater-MG, cada hectare plantado gera dois empregos diretos e quatro indiretos.

    O crescimento foi tão expressivo nos últimos anos que a cultura passou a integrar oficialmente o levantamento de safra da Emater-MG, que monitora mais de 40 frutas no território mineiro. “A inclusão deste produto nos levantamentos ajuda na formulação de políticas públicas”, destaca Sanábio.

    No campo das exportações, os números confirmam o potencial. Segundo a assessora técnica da Secretaria de Agricultura, Manoela Teixeira, Minas registra um volume total de 7 mil toneladas exportadas de cacau e seus derivados, entre chocolates, preparações alimentícias, cacau em pó, manteiga, gordura e óleo, movimentando US$ 64,9 milhões.

    O desafio agora é transformar esse potencial em escala. Com Pará e Bahia liderando o ranking nacional, Minas Gerais quer mostrar que o semiárido e o cerrado também têm espaço, e condições, para produzir um cacau de qualidade.

  • Drawback do cacau cai de 2 anos para 6 meses: o que muda para produtores e indústria

    Drawback do cacau cai de 2 anos para 6 meses: o que muda para produtores e indústria

    O governo federal reduziu de dois anos para seis meses o prazo máximo para importação de amêndoas de cacau com isenção de Imposto de Importação em regime de drawback. A mudança, publicada no Diário Oficial da União por meio da Medida Provisória 1341/2026, atende a uma demanda do setor produtivo e contou com atuação direta da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e das federações de agricultura e pecuária da Bahia (Faeb), do Espírito Santo (Faes), do Pará (Faepa) e de outros estados produtores.

    O drawback é um mecanismo tributário que suspende impostos sobre insumos importados quando a indústria os utiliza para fabricar produtos destinados à exportação, como manteiga, pó e líquor de cacau. Adotado em todo o mundo como instrumento de competitividade no comércio exterior, o regime passou a funcionar, segundo produtores, como ferramenta de pressão sobre os preços da amêndoa nacional.

    Crise de preços motivou a medida

    O contexto que levou à MP é de colapso nos preços ao produtor. A arroba do cacau, que no início de 2025 era comercializada entre R$ 800 e R$ 1.000. E fechou em R$ 175,00 em 13 de março de 2026. Uma queda de 5,41% apenas naquele dia, segundo o Mercado do Cacau. Sobre esse preço ainda incidem descontos médios de aproximadamente R$ 100 aplicados pelas indústrias processadoras na compra da amêndoa nacional.

    Em 2025, as importações brasileiras de cacau totalizaram 112,8 mil toneladas, alta de 16,8% sobre as 96,6 mil toneladas do ano anterior, com 41,6 mil toneladas originárias da Costa do Marfim. Os portos da Bahia concentraram quase 70 mil toneladas do produto estrangeiro desembarcado no país.

    Para o diretor técnico adjunto da CNA, Maciel Silva, o instrumento estava distorcendo o mercado interno. “Como as importações de amêndoas são realizadas predominantemente via regime de drawback, o instrumento pode estar associado ao aumento dos estoques da indústria no mercado interno e prejudica o produtor com baixa remuneração”, afirma. Segundo ele, ao limitar o prazo a seis meses, a MP busca compatibilizar o uso do regime com a necessidade de maior equilíbrio entre a demanda industrial e a sustentação da produção nacional.

    Como funcionava e o que muda

    Antes da MP, as empresas tinham até 12 meses, prorrogáveis por mais 12, para exportar os derivados produzidos a partir das amêndoas importadas com benefício fiscal. Porém, com a nova regra, esse prazo cai para seis meses, sem possibilidade de prorrogação para essa categoria de insumo.

    Foto: Wenderson Araujo/Sistema CNA/Senar

    A intenção do governo é limitar a formação de grandes estoques de cacau importado e tornar o mercado mais alinhado à oferta interna. A expectativa do setor produtivo é que a medida force as moageiras a comprar mais amêndoa brasileira. Especialmente em estados como Bahia e Pará, que concentram a maior parte da cacauicultura nacional.

    Indústria contesta e projeta perdas bilionárias

    A mudança, porém, abriu um impasse com a indústria processadora. A Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau afirma que o governo adotou a medida sem diálogo com o setor e pode gerar efeitos negativos na cadeia produtiva. Atualmente, cerca de 22% das amêndoas processadas no país são importadas. E 99% dessas operações estão vinculadas ao regime de drawback.

    A indústria brasileira tem capacidade instalada próxima de 275 mil toneladas por ano. Mas processa cerca de 195 mil toneladas, operando com aproximadamente 30% de ociosidade. Para a AIPC, reduzir o acesso ao insumo importado amplia essa ociosidade sem resolver o problema de preços. E que. portanto, segundo a entidade, deriva da dinâmica global de oferta e demanda.

    Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) projeta que a medida pode resultar em perda de mais de 5 mil empregos formais e informais. Além da redução das exportações de derivados entre US$ 400 milhões e US$ 700 milhões, equivalente a até R$ 3,5 bilhões, em cinco anos.

    Produtores agradecem, mas pedem mais

    A Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC) agradeceu a medida. Mas fez ressalvas sobre o impacto a longo prazo: “O ponto central continua sendo o retorno da previsão de safra do cacau brasileiro. É a partir dessa informação que se poderá avaliar, com responsabilidade, se existe ou não necessidade de importação de cacau.”

    Vale lembrar que a MP entra em vigor imediatamente. Mas o Congresso Nacional do Brasil precisa convertê-la em lei em até 120 dias. Caso contrário, a medida perde a eficácia e gera insegurança jurídica para toda a cadeia.

  • Brasil redefine o que é chocolate: nova lei muda regras do jogo para a indústria

    Brasil redefine o que é chocolate: nova lei muda regras do jogo para a indústria

    O Brasil pode estar a um passo de mudar definitivamente o padrão do chocolate comercializado no país. A Câmara dos Deputados aprovou, na noite de terça-feira (17), o Projeto de Lei 1769/19, que regulamenta os percentuais mínimos de cacau na composição de chocolates produzidos e vendidos no território nacional, incluindo produtos importados. O texto, que recebeu alterações pelos deputados, retorna agora ao Senado antes de seguir à sanção presidencial.

    Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar

    A proposta vai além de uma questão técnica: ela toca em um ponto sensível para consumidores, fabricantes e varejistas; a transparência sobre o que, de fato, está dentro de cada barra, bombom ou ovo de Páscoa vendido nas prateleiras.

    O que muda na composição

    O texto determina que o chocolate deve conter ao menos 35% de sólidos totais de cacau. Desse total, o produto precisa apresentar no mínimo 18% de manteiga de cacau e 14% de sólidos isentos de gordura. A lei limita o uso de outras gorduras vegetais a, no máximo, 5%.

    As regras variam por tipo de produto. Para o chocolate ao leite, passa a ser exigido o mínimo de 25% de sólidos totais de cacau e 14% de sólidos de leite ou derivados. O chocolate em pó deve conter ao menos 32% de sólidos totais de cacau. Já o chocolate branco deve ter no mínimo 20% de manteiga de cacau e 14% de sólidos totais de leite. Para os achocolatados, o projeto impõe pelo menos 15% de sólidos ou manteiga de cacau.

    O projeto cria ainda uma nova categoria denominada “chocolate doce”, para produtos com mínimo de 25% de sólidos totais de cacau, dos quais pelo menos 18 pontos percentuais devem ser de manteiga de cacau e 12 pontos percentuais isentos de gordura.

    Rótulo na frente, sem letra miúda

    Um dos pontos centrais da proposta é a obrigatoriedade de rotulagem clara. A informação sobre o percentual de cacau deverá constar na embalagem frontal do produto, em tamanho não inferior a 15% da área, em caracteres legíveis para fácil visualização.

    O relator do projeto, deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), destacou no plenário que o problema não é apenas a falta de cacau, é a falta de informação. Segundo ele, não são raros os casos de produtos com baixíssimo teor de cacau que se apresentam como “chocolates de verdade”, ou que tentam confundir o consumidor rotulando-se como “sabor chocolate”. Para o deputado, a medida busca equilibrar as relações de consumo e garantir que o consumidor exerça sua liberdade de escolha de forma informada.

    A norma tem prazo de adaptação: as regras entram em vigor 360 dias após a publicação. Empresas que descumprirem estarão sujeitas às sanções previstas no Código de Defesa do Consumidor e na legislação sanitária, sem prejuízo de penalidades civis ou penais.

    Um mercado bilionário sob pressão

    A aprovação ocorre em um momento de turbulência no setor. Em 2025, o mercado de chocolates movimentou R$ 26 bilhões no Brasil, mas a indústria enfrentou o ciclo de alta do cacau mais intenso em décadas. Os contratos internacionais de cacau chegaram a ultrapassar US$ 11 mil por tonelada em abril de 2024, um recorde histórico.

    A crise impactou diretamente a oferta. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), na Páscoa de 2025, o aumento médio nos preços dos chocolates foi de 18,9%, o maior em 13 anos, o que levou a uma queda de 22% na produção de ovos de Páscoa em relação ao ano anterior.

    A boa notícia para o setor é que o cenário começa a mudar. Mais recentemente, a commodity recuou para pouco mais de US$ 3 mil por tonelada no fim de fevereiro de 2026. Mas a queda não elimina os desafios imediatos: o CEO da Cacau Show, Alexandre Costa, afirmou à em entrevista recente que 2025 foi um dos anos mais difíceis para o setor em termos de lucratividade.

    A pressão por qualidade e o consumidor mais exigente

    Paradoxalmente, a crise do cacau acelerou exatamente o debate que a nova lei pretende endereçar. Com o aumento dos custos, parte da indústria passou a substituir chocolate puro por misturas mais baratas, o que afeta o sabor e a percepção do consumidor, segundo especialistas.

    Foto: Divulgação – Mapa

    Ao mesmo tempo, o consumidor demonstra crescente interesse por produtos de maior qualidade. Dados mostram que mesmo com a alta de preços, a classe C manteve o interesse por marcas premium, com crescimento de 9,4% no consumo desse segmento.

    Esse movimento dialoga com uma tendência estrutural no setor exportador. As exportações brasileiras de chocolate, cacau e derivados avançaram 86,1% entre 2021 e 2025, somando quase US$ 1 bilhão. Foram impulsionadas por um salto na qualidade da produção nacional e por programas que promovem chocolates finos do tipo “bean to bar”, do grão à barra, nos mercados internacionais.

    Impacto para fabricantes e varejo

    A nova regulação exigirá reformulações de produto para marcas que hoje operam abaixo dos percentuais mínimos estabelecidos. Além disso, o prazo de 360 dias para adequação é considerado apertado por parte do setor, especialmente para fabricantes menores, que dependem de fornecedores e têm menor capacidade de absorver custos de reformulação.

    Por outro lado, marcas que já operam com teores elevados de cacau podem se beneficiar da nova lei como diferencial competitivo. Já que o rótulo frontal obrigatório tornará a comparação entre produtos mais simples e direta para o consumidor.

    O relator defendeu que a regulamentação tende a valorizar o cacau brasileiro, que tem ganhado destaque no mercado internacional nos últimos anos. E também afirmou que a medida contribui para o crescimento equilibrado da economia e para a soberania nacional.

    O projeto retorna agora ao Senado Federal, que deverá analisar as mudanças feitas pelos deputados. Caso seja aprovado novamente, o texto seguirá para sanção presidencial. O calendário legislativo ainda é uma incógnita, mas o setor já monitora o trâmite com atenção. E começa a calcular o impacto de uma transformação que pode redefinir, de vez, o que o brasileiro chama de chocolate.

  • Queda global do cacau agrava dívidas e paralisa pagamentos a agricultores

    Queda global do cacau agrava dívidas e paralisa pagamentos a agricultores

    O mercado global de cacau enfrenta sua pior crise em anos. Depois de um pico histórico em 2024, os preços desabaram em 2025 e colocaram em risco o sustento de milhares de famílias produtoras em Gana e na Costa do Marfim, responsáveis por mais de 60% da produção mundial.

    O contraste entre o preço crescente do chocolate nas prateleiras e a queda do valor do cacau pago aos agricultores evidencia o desequilíbrio da cadeia de valor. Em muitas comunidades rurais da África Ocidental, produtores não recebem há meses e já enfrentam escassez de recursos básicos.

    Em Gana, a Ghana Cocoa Board (Cocobod) fixou em outubro passado o preço de compra em quase US$ 5.300 por tonelada, mas a cotação internacional despencou para menos de US$ 3.500. A diferença gerou uma dívida estimada em US$ 3 bilhões e atrasou pagamentos a cerca de 800 mil produtores, comprometendo a renda de centenas de vilarejos agrícolas.

    Com as empresas exportadoras incapazes de vender os grãos, a Cocobod interveio para evitar o colapso completo do setor. Mesmo assim, muitos agricultores seguem sem receber. A instituição reduziu em fevereiro o salário de sua diretoria em até 20% e anunciou que os pagamentos estão sendo regularizados gradualmente.

    O cacau representa aproximadamente 7% do PIB de Gana e responde por cerca de 15% das receitas de exportação do país. Diante da crise, o governo planeja ampliar o processamento interno dos grãos para agregar valor e reduzir a dependência das exportações brutas.

    Custos altos e incerteza no campo

    Os produtores enfrentam dificuldades para manter as lavouras. Cultivar um hectare de cacau em Gana custa, em média, US$ 1.000 por ano, valor que inclui mão de obra e insumos agrícolas. Com a queda no preço pago por tonelada, muitos temem ficar no prejuízo em 2026.

    Lideranças rurais criticam as medidas adotadas até agora e defendem o reajuste do preço mínimo garantido aos produtores. “Os custos não reduziram, mas o valor do cacau caiu. Isso inviabiliza nossa sobrevivência”, afirmou um agricultor da região de Suhenso.

    Situação semelhante na Costa do Marfim

    Na vizinha Costa do Marfim, maior produtora mundial de cacau, o cenário é parecido. Armazéns estão lotados de sacas que as cooperativas não conseguem vender, já que o preço interno fixado pelo Conselho do Café e do Cacau ficou muito acima do valor internacional.

    Na tentativa de destravar o mercado, o governo anunciou um corte de 50% no preço pago aos agricultores. Ainda assim, produtores relatam dificuldades para escoar a safra e sustentar suas famílias.

    Com a falta de compradores, estima-se que até o fim de março o país acumule mais de 200 mil toneladas de cacau sem destino. Agricultores afirmam que escolas, comércios e transportes locais já sentem o impacto da crise econômica gerada pela paralisação das exportações.

    “Quando não há dinheiro, não há paz nas famílias. E hoje, o cacau é o que nos mantém vivos”, resumiu um produtor da região de Bangolo.

  • Como as mulheres estão redesenhando o agronegócio capixaba

    Como as mulheres estão redesenhando o agronegócio capixaba

    No Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8), o Espírito Santo registra avanços concretos na participação feminina no agronegócio e na pesca artesanal. Produtoras, gestoras, empreendedoras e lideranças comunitárias ocupam cada vez mais espaço nas cadeias produtivas do Estado.

    A Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) coordena quatro iniciativas voltadas ao fortalecimento da atuação das mulheres no campo e no litoral capixaba: Elas no Campo e na Pesca, Mulheres do Café, Mulheres do Cacau e Marisqueiras em Rede. Os programas combinam qualificação técnica, incentivo ao empreendedorismo e apoio à organização produtiva.

    “As mulheres estão cada vez mais à frente da produção, da gestão das propriedades e da inovação no meio rural”, afirmou o secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli. “O Governo do Estado tem trabalhado para ampliar oportunidades e garantir que essas mulheres tenham acesso à capacitação, tecnologia e mercados.”

    Elas no Campo e na Pesca: capacitação e expansão até 2028

    Lançado em 2019 em parceria com o Incaper, o programa Elas no Campo e na Pesca promove visibilidade, autonomia econômica e liderança entre agricultoras e pescadoras capixabas.

    Em 2025, o programa realizou seis capacitações em parceria com o Sebrae, pelo projeto Delas. Atendendo 86 mulheres nos municípios de São José do Calçado, Mimoso do Sul, Vitória, Jerônimo Monteiro e Itapemirim. Os encontros abordaram vendas, marketing, empreendedorismo, marca pessoal, formação de preço e inteligência emocional.

    O programa também levou produtoras a feiras como a Feira Sabores da Terra, a ESX, a FEAFES, a Coffees e o Festival Internacional do Café Conilon. Com representantes de diversas cadeias produtivas, incluindo mulheres da reforma agrária, indígenas e quilombolas.

    Para o triênio 2026–2028, a Fapes aprovou um novo projeto pelo programa Inovagro, com investimento de R$ 599.498,00. Entre as ações previstas estão o mapeamento do perfil socioeconômico das participantes, ampliação da assistência técnica, inserção dos produtos no mercado formal e implantação de unidades demonstrativas para a produção de pimenta-do-reino no norte do Estado. O início das atividades está previsto para abril de 2026.

    Mulheres do Café: mais de 1.600 atendidas em um ano

    O projeto Mulheres do Café qualifica produtoras, estimula a troca de experiências e agrega valor à produção cafeeira capixaba.

    Em 2025, as ações voltadas às mulheres do café, em conjunto com o programa Elas no Campo e na Pesca, encerraram o ano com 1.633 mulheres atendidas em 67 atividades, entre capacitações, feiras, Dias de Campo, palestras, excursões e podcast.

    Mulheres do Cacau: associações como legado

    O Mulheres do Cacau aproxima produtoras das tecnologias de cultivo e processamento, garante assistência técnica e estimula a organização coletiva na cadeia cacaueira.

    Como resultado direto do projeto, quatro associações de mulheres do cacau já funcionam no Estado. E seguem recebendo apoio da Seag para capacitações e participação em espaços de comercialização.

    Marisqueiras em Rede: sustentabilidade no litoral capixaba

    Voltado às pescadoras artesanais, o Marisqueiras em Rede fortalece a organização produtiva e incentiva alternativas sustentáveis de renda no litoral capixaba.

    A iniciativa, realizada em parceria com a Associação de Pescadores de Jacaraípe (ASPEJ), o Sebrae e a Petrobras, atua em dez municípios: Serra, Vitória, Cariacica, Vila Velha, Guarapari, Anchieta, Piúma, Itapemirim, Marataízes e Presidente Kennedy.

  • Brasil suspende importação de amêndoas de cacau da Costa do Marfim

    Brasil suspende importação de amêndoas de cacau da Costa do Marfim

    O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) suspendeu, nesta terça-feira (24), a importação de amêndoas fermentadas e secas de cacau provenientes da Costa do Marfim. A decisão, publicada em despacho no Diário Oficial da União, foi motivada pelo risco fitossanitário representado pela mistura de grãos de países vizinhos às cargas destinadas ao Brasil.

    A medida atende uma demanda da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que vinha pressionando o governo federal pela adoção de ações imediatas de proteção à cadeia produtiva do cacau. A entidade avaliou positivamente a decisão, classificando-a como essencial para a segurança dos produtores rurais brasileiros.

    Por que a Costa do Marfim preocupa o setor?

    Segundo o Mapa, o elevado fluxo de grãos oriundos de países vizinhos para o território marfinense aumenta o risco de contaminação das cargas exportadas ao Brasil por pragas e doenças. A mistura de amêndoas de diferentes origens nas remessas representa uma ameaça direta às lavouras nacionais. Especialmente nos estados do Pará, Bahia e Espírito Santo, principais polos produtores do país.

    “A suspensão da importação de amêndoas de cacau da Costa do Marfim é medida cautelar de extrema relevância. Acreditamos na competência técnica da Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa para que, com base em critérios científicos, tome a decisão mais assertiva para a proteção do cacau nacional”, afirmou Maciel Silva, diretor técnico adjunto da CNA.

    Além da suspensão temporária, o Sistema CNA, mobilizado por sindicatos e Federações de Agricultura dos estados produtores, reforçou junto ao Executivo e ao Legislativo a necessidade do envio de uma missão técnica à Costa do Marfim. O objetivo é avaliar in loco a situação produtiva, fitossanitária e o trânsito das amêndoas no país exportador antes de qualquer retomada das importações.

    Agenda para fortalecer o produtor brasileiro

    Em paralelo à questão das importações, a CNA avança em uma agenda estruturante voltada ao fortalecimento da cacauicultura nacional. Por meio de reuniões regionais com produtores, a entidade tem mapeado gargalos comuns e construído propostas para o curto e médio prazo em eixos como transparência na precificação, comércio justo, sanidade vegetal e organização produtiva.

    “Junto aos Sindicatos e Federações temos buscado meios de ampliar a competitividade da cacauicultura com foco no desenvolvimento econômico sustentável. A avaliação adequada da importação é parte relevante do plano de trabalho para que os produtores tenham condição de permanecerem na atividade”, destacou Maciel Silva.

    O Brasil figura entre os maiores produtores mundiais de cacau e o setor movimenta bilhões de reais na economia de estados como Bahia e Pará. A proteção fitossanitária da cultura é considerada estratégica tanto para a segurança alimentar quanto para a competitividade do agronegócio nacional.

  • Mercado do cacau se normaliza e oferece oportunidade para indústrias de chocolate

    Mercado do cacau se normaliza e oferece oportunidade para indústrias de chocolate

    O mercado global de cacau voltou a operar em níveis reais próximos e, em alguns casos, inferiores, aos registrados antes da crise de 2023. A recente correção nas cotações internacionais reduziu parte dos prêmios acumulados nos últimos dois anos e melhorou a relação de risco para indústrias que buscam previsibilidade de custos em 2026.

    Segundo Caio Santos, consultor em gerenciamento de riscos da StoneX, o principal fator dessa retração veio de Gana, que reformulou seu sistema de financiamento das compras internas de cacau. “O novo modelo estabelece o pagamento de 70% do valor FOB ao produtor e usa títulos domésticos para financiar o fluxo comercial”, afirma. A medida tende a destravar o escoamento da safra e a reduzir a retenção de grãos, diminuindo os riscos de originação no curto prazo. Aspecto essencial para indústrias que dependem de fornecimento contínuo.

    Na Costa do Marfim, o governo manteve o preço mínimo em CFA 2.800/kg até o fim da safra principal, em 31 de março. Assim, criando um contraste com o corte aplicado por Gana. Esse descompasso entre os dois maiores produtores globais pode estimular o comércio informal nas fronteiras e alterar o ritmo dos embarques, com impacto direto sobre os diferenciais regionais, monitorados de perto por compradores industriais.

    Clima ajuda

    As condições climáticas na África Ocidental permanecem favoráveis ao desenvolvimento da safra intermediária, com chuvas dentro da média histórica. No entanto, a StoneX alerta que a possível transição de La Niña para neutralidade climática pode elevar as temperaturas na região produtora. Portanto, mantendo o risco climático no radar para o segundo semestre de 2026.

    Fora do eixo africano, o Equador registrou em janeiro uma queda de 36,8% nas exportações, totalizando 34.519 toneladas. Apesar da retração mensal, o acumulado da temporada segue acima do resultado do ano anterior, sinalizando uma recomposição gradual das origens secundárias. Ainda que marcada por alta volatilidade. Para indústrias que diversificam fornecedores, esse ajuste reforça a importância de estratégias geográficas mais amplas.

    Na ponta da demanda, as moagens de cacau na Costa do Marfim caíram 2,1% em janeiro, refletindo a sensibilidade do consumo a preços elevados. A análise deflacionada pelo índice global de alimentos da FAO mostra, contudo, que as cotações atuais já retornaram à faixa histórica, ficando abaixo dos picos registrados em 2010, 2015 e 2002.

    Com o realinhamento global, o momento favorece indústrias que desejam travar contratos de compra para 2026 a preços mais equilibrados. Especialistas sugerem o uso de instrumentos de proteção, como opções e swaps, para garantir flexibilidade tática diante de possíveis mudanças climáticas, políticas de preço ou distorções nos diferenciais regionais.

  • Brasil apresenta modelo sustentável de produção de cacau em encontro global em Amsterdã

    Brasil apresenta modelo sustentável de produção de cacau em encontro global em Amsterdã

    O Brasil apresentou ao mundo novos dados sobre a viabilidade econômica da produção de cacau em sistemas agroflorestais durante o Partnership Meeting 2026, em Amsterdã, principal conferência internacional do setor cacaueiro. O estudo foi conduzido pelo Instituto Arapyaú em parceria com o CocoaAction Brasil. E indica que o modelo agroflorestal oferece retorno financeiro competitivo, reduz riscos e amplia o acesso a investimentos sustentáveis.

    Foto: Divulgação

    A delegação brasileira é composta por representantes do Arapyaú, AIPC, Abicab, produtores rurais e outras entidades do setor. E participa de uma missão institucional entre 16 e 20 de fevereiro, com compromissos nas Embaixadas do Brasil na Bélgica e na União Europeia.

    Durante o evento, os representantes apresentam experiências nacionais em cultivo sustentável, novos mecanismos de financiamento e iniciativas de fortalecimento da cadeia produtiva, integrando o movimento Cacau Brasileiro, que busca reposicionar o país como líder global em produção de cacau sustentável e de qualidade.

    O estudo, intitulado “Viabilidade econômica de sistemas agroflorestais com cacau – Modelagens na Amazônia e na Mata Atlântica”, analisou 11 modelos produtivos em Pará e Bahia. Em todos os cenários, os índices financeiros mostraram desempenho positivo, com Taxa Interna de Retorno (TIR) superior à taxa de desconto e Valor Presente Líquido (VPL) positivo. As modelagens associaram o cacau a culturas como banana, mandioca, açaí, cupuaçu, coco e dendê. Além de espécies florestais de alto valor, como seringueira, mogno e ipê.

    Segurança a investidores

    Segundo Vinicius Ahmar, diretor de programas do Instituto Arapyaú, o levantamento oferece segurança a investidores e formuladores de políticas públicas. “Os resultados ampliam a previsibilidade econômica dos sistemas agroflorestais e orientam o desenvolvimento de instrumentos de financiamento e políticas mais adequadas ao setor”, afirma.

    A versão atualizada do estudo incorporou fatores recentes, como a volatilidade dos preços internacionais, o aumento dos custos de produção e as novas exigências de mercados internacionais, como o Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). As conclusões reforçam que o modelo agroflorestal está em linha com as metas climáticas e de biodiversidade. Além de se integrar ao Plano Inova Cacau 2030, que posiciona o Brasil como fornecedor global de cacau sustentável e rastreável.

    Apesar das perspectivas favoráveis, os pesquisadores apontam desafios à expansão. Como a falta de mudas e insumos, o crédito rural limitado e a carência de assistência técnica especializada. O relatório sugere ampliar o acesso a modelos inovadores de financiamento, como o Fundo Kawá, que combina recursos de mercado e filantrópicos em formato de blended finance.

    Evidências científicas do estudo

    Um relatório técnico complementar, elaborado pela professora Deborah Faria, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), reforça as evidências científicas do estudo. Encomendado pelo Governo dos Países Baixos em parceria com o Arapyaú e a Conservação Internacional, o documento reúne dados atualizados, entrevistas e análises sobre os sistemas agroflorestais de cacau no Brasil.

    Deborah destaca que a falta de assistência técnica contínua ainda limita a produtividade dos pequenos produtores. “A escassez de profissionais e os altos custos de acompanhamento dificultam o manejo adequado das lavouras e o controle de pragas e doenças”, explica.