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  • Nova lista cataloga 863 espécies de aves em São Paulo

    Nova lista cataloga 863 espécies de aves em São Paulo

    Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Instituto de Pesquisas Ambientais divulgaram uma nova edição da lista oficial de aves do Estado de São Paulo. O trabalho cataloga 863 espécies, distribuídas em 31 ordens e 93 famílias, e fornece o registro de referência para cada uma delas.

    A publicação, disponível na revista científica Papéis Avulsos de Zoologia, adiciona 76 novas espécies e subespécies em comparação com o catálogo anterior, lançado em 2011. Os pesquisadores também reavaliaram todas as espécies descritas nas listas anteriores.

    “Foi um pente-fino por bastante tempo para conferir todas as espécies e subespécies que ocorrem em São Paulo”, explica Stephanie Lee, mestranda do Instituto de Biociências (IB) da USP e primeira autora do artigo.

    Conhecer para proteger: lista orienta políticas públicas

    O inventário identifica 125 espécies ameaçadas de extinção e 20 já consideradas regionalmente extintas no território paulista. Segundo os pesquisadores, a atualização oferece base sólida para o desenvolvimento de políticas de conservação no estado.

    “O trabalho integra o princípio de ‘conhecer para proteger’, ou seja, é o ponto de partida para que as demais ações de pesquisa e de conservação sejam efetivas”, afirma Lee.

    Luís Fábio Silveira, curador da Seção de Aves do Museu de Zoologia (MZ) da USP e coautor do estudo, reforça a importância do trabalho para as políticas públicas. “Além de organizar o conhecimento de um grupo de animais muito popular, ele dá um passo seguro para a elaboração de políticas públicas de conservação no Estado”, destaca.

    Metodologia pioneira inclui subespécies no mapeamento

    O estudo se destaca como um dos pioneiros a reunir tanto espécies quanto subespécies — subgrupos com características ligeiramente diferentes dentro das espécies. Segundo Silveira, a presença de subespécies refina o nível das análises científicas.

    Foto: Luís Fábio Silveira

    Os pesquisadores basearam o trabalho na revisão de registros ornitológicos, na publicação de 2011 e em bancos de dados e coleções de museus. As espécies aparecem divididas entre lista primária, secundária e terciária, conforme a metodologia do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos. A lista primária confere o maior grau de confiabilidade, com registros documentados e verificáveis independentemente.

    Diversidade e destruição: o paradoxo paulista

    A diversidade de tipos de vegetação (Cerrado e Mata Atlântica) e de clima faz com que São Paulo abrigue cerca de 40% das espécies de aves do Brasil. No entanto, o estado também lidera o ranking nacional de espécies extintas e ameaçadas.

    “São Paulo tem um número muito grande de aves, que chega a quase metade das espécies do País todo. Por outro lado, é o Estado que tem o maior número de espécies extintas e ameaçadas de extinção no País”, aponta Silveira.

    A perda de habitat figura como a principal causa de ameaça à extinção. Por ser o estado mais populoso do Brasil, São Paulo sofre intensa exploração, e os ambientes naturais vêm desaparecendo ao longo do tempo.

    Cerrado paulista conserva apenas 3% de área original

    O Cerrado, segundo Lee, conta atualmente com apenas 3% de remanescentes naturais no estado. “Muitos dos bichos que estão ameaçados no Estado de São Paulo são justamente os que dependem desse ambiente”, completa a pesquisadora.

    Algumas espécies extintas no estado possuem apenas registros muito antigos. Amostras de peles datam do século 19, coletadas pelo naturalista austríaco Johann Natterer, que veio ao Brasil após a chegada da Família Real. “Algumas das peles de aves do Estado só se encontram no Museu de História Natural de Viena”, explica Lee.

    Lista oficial de fauna ameaçada precisa de atualização

    Segundo a lista de fauna ameaçada do Estado de São Paulo, publicada em 2018 pelo Decreto Estadual nº 63.853, 125 espécies estão ameaçadas e 20 já são consideradas regionalmente extintas.

    Lee aponta que essa lista já se encontra desatualizada e que o governo do Estado trabalha para lançar uma nova versão. “Se a gente não sabe que determinada espécie ocorre aqui em São Paulo, como ela vai ser avaliada na lista de fauna ameaçada do Estado?”, questiona.

    A pesquisadora complementa que muitos dos animais considerados criticamente ameaçados provavelmente já desapareceram. Com a nova lista, os cientistas garantem que todas as espécies sejam levadas em consideração nas análises de risco de extinção e nas medidas de conservação.

  • Peixe e castanha: como a dieta amazônica protege ribeirinhos do mercúrio do garimpo

    Peixe e castanha: como a dieta amazônica protege ribeirinhos do mercúrio do garimpo

    A resposta para um dos maiores problemas ambientais da Amazônia pode estar justamente no prato dos ribeirinhos. Enquanto o garimpo ilegal contamina rios com mercúrio, a mesma dieta baseada em peixe que expõe essas comunidades ao metal tóxico parece também protegê-las dos seus efeitos devastadores.

    O segredo? O selênio, um mineral essencial encontrado principalmente na carne de peixes e na castanha do Brasil. Segundo estudo publicado recentemente na revista científica Chemosphere, esse elemento pode estar funcionando como um verdadeiro antídoto natural contra a intoxicação por mercúrio.

    O paradoxo do peixe amazônico

    Para os ribeirinhos que vivem nas bacias dos rios Tapajós e Amazonas, no Pará, o peixe não é opcional — ele representa 80% da proteína consumida diariamente. Isso significa exposição constante ao mercúrio, já que o metal usado para separar ouro no garimpo contamina os peixes através da água.

    Mas aqui surge o paradoxo: mesmo com níveis altíssimos de mercúrio no organismo, essas populações não apresentam os sintomas esperados de intoxicação. A explicação pode estar nos também elevados níveis de selênio que eles consomem naturalmente.

    “Esta é a maior coorte humana rastreando mercúrio e selênio nessas populações amazônicas”, explica Gabriel Neves Cezarette, pesquisador da USP Ribeirão Preto e da Université de Pau et des Pays de l’Adour, na França. Ele destaca que essas comunidades estão “entre as mais impactadas pelo mercúrio” mas, curiosamente, apresentam “valores distintos de selênio no sangue, geralmente entre os mais altos do mundo”.

    Como foi feito o estudo

    A pesquisa coordenada pelo professor Fernando Barbosa Júnior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP, analisou 1.089 adultos de 13 comunidades ribeirinhas. De forma pioneira, a equipe coletou e examinou três tipos de amostras: sangue, plasma e urina.

    Cada uma dessas análises revelou informações complementares. O sangue mostra a carga recente de mercúrio e selênio no corpo. O plasma indica quanto desses elementos está biodisponível. Ou seja, circulando livremente e capaz de interagir com tecidos. Já a urina oferece um panorama da excreção, principalmente do mercúrio inorgânico.

    As amostras foram processadas por espectrometria de massas com plasma indutivamente acoplado, uma técnica tão sensível que consegue detectar elementos químicos mesmo em concentrações mínimas.

    Descobertas que desafiam expectativas

    Os resultados trouxeram surpresas. Pesquisadores encontraram diferentes níveis de mercúrio nos indivíduos dependendo da frequência com que comiam peixe — o que era esperado. Mas os níveis de selênio se mantiveram consistentemente altos em todas as comunidades estudadas, independente da dieta específica de cada uma.

    Mais intrigante ainda: apesar dos valores extremamente elevados de selênio (que em outras circunstâncias causariam selenose, com sintomas como queda de cabelo, fragilidade de unhas, problemas gastrointestinais e até danos renais), nenhum dos participantes apresentou esses problemas.

    “As correlações positivas das concentrações de mercúrio encontradas no sangue e plasma e excretadas pela urina são explicadas pela interação com os níveis, também altos, de selênio”, acredita Cezarette.

    A ciência por trás da proteção

    Um segundo estudo, conduzido em parceria com a Unicamp e liderado pela professora Ljubica Tasic, foi além e aplicou uma abordagem inédita em metabolômica, o estudo de pequenas moléculas no organismo.

    Os cientistas descobriram que subgrupos com níveis mais elevados de selênio apresentaram mudanças significativas no perfil metabólico. Indivíduos altamente expostos ao mercúrio, mas com bastante selênio no corpo, tinham um metabolismo mais parecido com pessoas que exibiam baixas concentrações de ambos elementos.

    Cezarette explica que isso provavelmente está “relacionado à formação de complexos entre o mercúrio-selênio e à atuação de selenoproteínas em mecanismos de defesa antioxidante”. Selenoproteínas são proteínas especiais que contém selênio em sua estrutura e são essenciais para manter a saúde humana funcionando adequadamente.

    Por que isso importa

    O mercúrio orgânico presente nos peixes é um neuro tóxico potente. Ele se liga às proteínas do organismo humano, provocando estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e danos ao sistema nervoso central. Exposições crônicas também causam problemas cardiovasculares, imunológicos e alterações no metabolismo energético.

    “Medir simultaneamente essas matrizes pode ajudar a compreender a dinâmica de absorção, distribuição e excreção, além de identificar possíveis interações que existam entre o mercúrio e o selênio no organismo”, explica o professor Barbosa Junior.

    Da ciência para as comunidades

    Após concluir o estudo, os pesquisadores não ficaram apenas nos laboratórios. Eles voltaram às comunidades ribeirinhas para campanhas de conscientização.

    “Preparamos alguns flyers, algumas palestras em uma linguagem mais acessível para que eles conheçam um pouco mais sobre a problemática do mercúrio, sobre as perspectivas que temos em relação a como diminuir esses efeitos tóxicos”, conta Cezarette.

    Para Barbosa Junior, os resultados “fornecem subsídios para políticas públicas de saúde e segurança alimentar, destacando a necessidade de monitoramento contínuo da exposição ao mercúrio e manutenção adequada de selênio na dieta”.

    Os pesquisadores já planejam complementar esses achados com técnicas ainda mais avançadas para identificar as possíveis interações entre mercúrio, selênio e outras moléculas do organismo humano.

    Enquanto isso, a descoberta reforça a importância de estratégias de comunicação de risco e programas de vigilância ambiental e nutricional que podem proteger comunidades vulneráveis. Especialmente enquanto o garimpo ilegal continuar contaminando os rios amazônicos.

    A natureza, ao que tudo indica, já havia fornecido uma solução parcial para o problema que o próprio ser humano criou. Agora cabe à ciência entender completamente esse mecanismo e às políticas públicas garantir que essas populações continuem tendo acesso a uma alimentação que, paradoxalmente, as expõe e protege ao mesmo tempo.

    Matéria do Jornal da USP, de autoria de Carol Castro

  • Pesquisa da USP mapeia cardápio de papagaios urbanos

    Pesquisa da USP mapeia cardápio de papagaios urbanos

    Imagine caminhar pelo campus da Universidade de São Paulo, na Zona Oeste da capital, e se deparar com uma vibrante revoada de periquitos-verdes. A cena, cada vez mais comum, é o ponto de partida de uma investigação científica que desvendou os hábitos à mesa desses moradores alados.

    Foto: José Carlos Motta Junior/Cedida pelo pesquisador

    Pesquisadores do Instituto de Biociências da USP foram a campo para responder uma pergunta: o que os papagaios, maracanãs e periquitos comem para prosperar em meio ao concreto? A resposta veio através das lentes das câmeras. Eles documentaram nada menos que 2.929 eventos de alimentação, um verdadeiro banquete composto por 83 itens diferentes.

    O cardápio? Quase inteiramente vegetariano e majoritariamente arbóreo. As estrelas do estudo foram três espécies: o periquito-verde, a maracanã-nobre e o famoso papagaio-verdadeiro. Juntos, eles foram responsáveis por 97% das “refeições” registradas. Enquanto o periquito-verde mostrou um paladar eclético, saboreando frutos, sementes e néctar com equilíbrio, as outras duas espécies demonstraram uma clara preferência por sementes.

    O professor José Carlos Motta Junior, que coordenou a pesquisa, resume a lógica com uma simplicidade que dispensa rodeios. “Tendo alimento e o local para fazer ninho, eles vão prosperar. E é o que a gente nota aqui.” Ele mesmo se surpreende com a explosão populacional. “Há cerca de dez ou 15 anos, não se via a quantidade de papagaios que observamos hoje.”

    A chave do sucesso está nas árvores (principalmente as nativas)

    O segredo para essa convivência bem-sucedida na selva de pedra parece estar na própria paisagem da Cidade Universitária. O campus é um oásis de verde, com uma cobertura arbórea extensa que mistura espécies nativas e exóticas. Os dados do estudo são um testemunho dessa relação: 59,5% das plantas consumidas pelas aves eram nativas, respondendo por impressionantes 67,7% de tudo que eles comeram.

    O coordenador da pesquisa utilizou apenas registros fotográficos para trazer rigor às análises. Foto: José Carlos Motta Junior/Cedida pelo pesquisador

    Isso é um recado claro para os planejadores urbanos. A pesquisa sugere, com todas as letras, a importância vital de priorizar árvores regionais na arborização das cidades. Mas as aves também demostram uma incrível capacidade de adaptação. Elas não fazem questão só do que é da terra. Consomem as exóticas também, uma prova da sua “plasticidade adaptativa”, como explica Motta Junior.

    O pulso do gênio: fotografando o prato dos pássaros

    O que realmente diferencia esse trabalho é o método. Ao invés de confiar apenas na observação rápida com binóculos, a equipe adotou a fotografia como ferramenta principal de coleta de dados. “A gente só considerou documentado o que tem fotografia ou vídeo,” afirma o professor.

    Foto: José Carlos Motta Junior/Cedida pelo pesquisador

    A técnica revelou detalhes que olho nu poderia facilmente perder. “Algumas vezes a gente via eles pegando a flor e achava que era para obter o néctar na base,” conta Motta Junior. “Mas, quando você amplia mais a foto, vê que, na verdade, ele está comendo o pólen, não o néctar.” No laboratório, cada imagem vira um mundo a ser explorado com calma, garantindo um rigor muito maior às análises.

    Reescrevendo o final da história

    Essa é apenas a primeira página de uma história mais longa. A equipe agora quer investigar o impacto ecológico dessas aves. A visão tradicional na ciência sempre pintou os psitacídeos como vilões para as plantas, porque eles predam as sementes. Mas o panorama está mudando.

    “Cada vez mais se descobrem casos, ainda que em menor número, de dispersão de sementes e até de polinização realizadas por essas aves,” revela o pesquisador. As descobertas sobre seu cardápio misto, com forte consumo de nativas, mas a adaptação às exóticas, oferecem informações preciosas. “É o tipo de dado que pode ser útil para [os planejadores] planejarem futuramente que tipo de planta plantar,” finaliza Motta Junior, apontando para um futuro onde a cidade possa ser planejada não só para as pessoas, mas também para sua vida selvagem.

    O artigo completo “Diet Of Parrots In An Urban Area Of São Paulo, Southeast Brazil” está disponível online aqui. Para mais informações, é possível entrar em contato com o professor José Carlos Motta Junior pelo e-mail [email protected].

  • Comunidades ribeirinhas trocam alimentação tradicional por produtos industrializados

    Comunidades ribeirinhas trocam alimentação tradicional por produtos industrializados

    Ribeirinhos da Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, consomem cada vez menos peixe, farinha de mandioca e frutas locais. No lugar desses alimentos tradicionais, arroz branco, macarrão instantâneo, refrigerantes e óleo vegetal dominam a mesa das famílias. Um estudo do Instituto de Biociências (IB) da USP documenta essa transformação radical e aponta consequências graves para a saúde e a cultura dessas comunidades.

    A bioantropóloga Mariana Inglez conduziu a pesquisa entre 2019 e 2023, conquistando o prêmio Tese Destaque USP na categoria Inclusão Social e Cultural. Os números revelam uma mudança drástica: o consumo de gorduras provenientes de alimentos comprados saltou de 21% para 71% em duas décadas. Proteínas e carboidratos industrializados também triplicaram na dieta local.

    Nutricídio ameaça identidade cultural

    O termo “nutricídio” define esse processo. O médico Llaila O Afrika criou o conceito em 1993 para descrever como populações marginalizadas perdem acesso a uma alimentação saudável. A pesquisa mostra que essa perda vai além da nutrição e atinge a identidade cultural.

    “Quando falo nessa transição nutricional, estou falando da substituição de alimentos que fazem parte da identidade de um povo, que têm uma relação com o ambiente e uma relação com aspectos simbólicos, culturais e afetivos. Geralmente são alimentos muito mais saudáveis”, explica Mariana ao Jornal da USP.

    Mara, moradora de uma das comunidades estudadas, confirma a mudança. “Antes a gente consumia basicamente alimentos naturais, por exemplo, o peixe que a gente pescava, a caça, a farinha que produzimos aqui mesmo. No café da manhã, tomava com uma farinha de tapioca ou uma tapioquinha. Hoje em dia, houve um avanço na questão da alimentação industrializada”, relata. O Jornal da USP optou por não identificar seu sobrenome e a comunidade onde vive para preservar sua segurança e privacidade.

    Mulheres sofrem mais com transição alimentar

    Mariana analisou 177 participantes entre adultos, jovens e crianças. Todos ganharam peso nas últimas duas décadas, mas as mulheres enfrentam os piores impactos. Elas apresentam maior risco de desenvolver hipertensão, obesidade e diabetes.

    “Geralmente as mulheres deixam ‘as melhores partes’ para os parceiros e para as crianças. Então, são as primeiras que vão enfrentar a insegurança alimentar e aí, consecutivamente, as que mais vão consumir alimentos ultraprocessados, que não têm tanto poder nutritivo, mas que são mais calóricos”, afirma a pesquisadora.

    Políticas públicas inadequadas agravam problema

    A pesquisa aponta falhas nas políticas de alimentação. Cestas básicas distribuídas às comunidades contêm majoritariamente ultraprocessados, incompatíveis com a cultura alimentar ribeirinha. A merenda escolar repete o erro, contrariando as orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB).

    O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP desenvolveu o guia em 2014, junto com o Ministério da Saúde. O documento orienta profissionais e políticas públicas sobre alimentação saudável, mas suas recomendações não chegam adequadamente às comunidades tradicionais.

    A pandemia de covid-19 agravou a insegurança alimentar. A crise interrompeu cadeias de abastecimento e fontes de renda locais. “Os povos tradicionais, negros, afro-indígenas, ribeirinhos e periféricos foram grupos mais vulneráveis durante a pandemia”, diz Mariana. Para ela, o sistema atual perpetua desigualdades que começaram na prática colonial.

    Mudanças climáticas reduzem disponibilidade de alimentos locais

    A crise climática adiciona mais um obstáculo. Chuvas diminuem, temperaturas sobem e a produção agrícola encolhe. Os rios oferecem menos peixes. As comunidades encontram cada vez mais dificuldade para depender exclusivamente dessas fontes.

    Foto: Mariana Inglez/ Jornal da USP

    “Hoje em dia o feijão que vem é industrializado, mas antes a gente comia o feijão que plantávamos, [atualmente] raramente se planta aqui na nossa comunidade”, conta Mara.

    Ribeirinhos ainda preferem alimentação tradicional

    Mariana comparou seus dados com informações coletadas entre 2002 e 2009 por Bárbara Piperata, referência em antropologia nutricional na Amazônia. A pesquisadora conviveu diretamente com as comunidades durante quatro anos e constatou que a preferência local permanece inalterada.

    “Existe uma percepção local do que é uma comida de verdade que faz bem para a saúde, e não é comida ultraprocessada. Então, quando existe a possibilidade de escolher, vão comer um peixe cozido com farinha”, afirma.

    A tese “Transição nutricional em comunidades ribeirinhas da Amazônia brasileira: ‘escolhas’ entre alimentos tradicionais e industrializados na região de Caxiuanã, Pará, Brasil” defende uma abordagem biocultural. O professor Rui Sérgio Sereni Murrieta orientou o trabalho no Programa de Pós-Graduação em Ciências (Genética e Biologia Evolutiva) do IB-USP.

    A pesquisa integra dimensões biológicas, socioculturais, econômicas e ambientais para compreender alimentação, saúde e modos de vida na região. Adota um ponto de vista decolonial que valoriza a vivência das populações ribeirinhas e as coloca no centro do debate sobre saúde humana e ambiental.

    Por Mariana Inglez/Jornal da USP

  • Pesquisadores transformam urina em fertilizante usando energia solar

    Pesquisadores transformam urina em fertilizante usando energia solar

    Pesquisadores da Universidade de Stanford e da USP desenvolveram um sistema que transforma urina em fertilizante nitrogenado utilizando energia solar. O Solar-ECS usa painéis fotovoltaicos para recuperar sulfato de amônia da urina hidrolisada, criando uma alternativa mais barata e sustentável ao processo industrial convencional.

    A urina contém nitrogênio suficiente para atender cerca de 14% da demanda global por fertilizantes agrícolas, segundo estudos. A tecnologia aproveita esse potencial desperdiçado e pode revolucionar tanto a agricultura quanto o saneamento básico.

    Acesso desigual aos fertilizantes motiva pesquisa

    Países de alta renda concentram as instalações de produção de fertilizantes nitrogenados atualmente. Essa distribuição geográfica eleva os preços e dificulta o acesso para nações de baixa e média renda.

    O processo industrial atual utiliza o método Haber-Bosch, no qual o hidrogênio e o nitrogênio reagem quimicamente para maximizar a síntese do amoníaco. Embora esse método viabilize grande parte da produção mundial de alimentos, ele demanda grandes quantidades de combustíveis fósseis, contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa.

    “Grande parte dos alimentos consumidos hoje só podem ser produzidos graças ao processo atual. Porém, além de ter acesso mal distribuído no mundo, ele demanda a queima de altas quantidades de combustíveis fósseis”, explica Amilton Botelho Junior, engenheiro químico e um dos autores da publicação na revista Nature Water.

    Como funciona o sistema Solar-ECS

    O sistema converte nitrato (NO3-) presente na urina em amônia (NH4+) através de oxirredução química, processo que envolve transferência de partículas de carga negativa entre elementos.

    O reator possui três compartimentos principais: ânodo (polo negativo), cátodo (polo positivo) e uma câmara com ácido sulfúrico. O processo começa com a urina no ânodo, onde ocorre a conversão da amônia. Uma membrana catiônica no segundo compartimento permite apenas a passagem de cátions.

    Quando a amônia passa do ânodo para o cátodo, os cátions entram em contato com solução de cloreto de sódio, transformando a amônia em gás. No terceiro compartimento, uma membrana separa os gases para uma solução de ácido sulfúrico. Os elementos então se misturam, formando sulfato de amônia pronto para fertilização.

    Painéis solares geram energia e calor para o processo

    A equipe transformou um problema tradicional dos painéis fotovoltaicos em solução. Os pesquisadores aproveitam o calor gerado pelos painéis durante o uso para aquecer os reatores, aumentando a eficiência da extração de amônia.

    “Conseguimos gerar energia elétrica, não só de maneira limpa, mas utilizando luz solar, o que reduz o consumo de energia elétrica da rede”, destaca Botelho Junior, que participou da pesquisa durante estágio na Universidade Stanford.

    Os testes aconteceram em diferentes condições climáticas. A equipe expôs os painéis na área externa do campus em dias ensolarados e nublados. Experimentos em laboratório permitiram simular variações climáticas entre dias de verão e inverno.

    Impactos além da agricultura

    O sistema pode beneficiar o tratamento de águas residuais e reduzir a poluição hídrica. Regiões superfertilizadas perdem atualmente até 70% do nitrogênio para o meio ambiente, causando excesso de nutrientes em rios e reservatórios e resultando em perda de biodiversidade.

    “Após os testes, as amostras de urina vinham com uma coloração muito mais clara, sem a coloração amarela e odor característicos. Isso mostra um papel muito importante na remoção de um dos principais componentes da urina [o nitrogênio]”, explica o pesquisador.

    Portanto, o acesso ao saneamento básico também pode melhorar com o projeto. O sistema funciona com reatores modulares e flexíveis, permitindo plantas que atendam grandes cidades ou se adaptem a regiões isoladas.

    Comunidades sem acesso ideal à rede de esgoto poderão futuramente tratar resíduos tradicionalmente descartados e gerar soluções agrícolas de alto valor agregado.

    Desafios para expansão

    A viabilidade econômica representa a maior dificuldade para integração em larga escala. Os materiais reagentes, especialmente a eletricidade, apresentam custo elevado. Ainda assim, o uso da energia solar marca um avanço significativo.

    “Onde tem gente, tem urina”, observa Botelho Junior. “O mundo todo tem um forte potencial de nitrogênio que não é aproveitado.”

    A equipe possui conhecimento suficiente para escalonar a técnica. “É claro que aumentando a escala do processo você vai trazer novos desafios, mas acho que isso também faz parte, e não diria que são problemas que vão demorar muito tempo para serem solucionados”, avalia o engenheiro.

    Aplicações futuras

    Botelho Junior revela planos de expandir a tecnologia para obtenção de materiais críticos da mineração, como lítio, níquel, cobalto e elementos terras raras. Esse conjunto de 17 minerais estratégicos é essencial para diversos equipamentos. Embora abundantes em várias partes do mundo, esses elementos aparecem em baixa densidade.

    O estudo demonstra que processos biológicos podem substituir métodos industriais caros e poluentes, oferecendo benefícios ambientais e econômicos. “O impacto ambiental é positivo, porque o processo é desenvolvido e produz amônia a partir de um efluente biológico”, conclui o pesquisador.

    Com informação de Yasmin Constante, do Jornal da USP

  • Espécie de rã-foguete extinta é descrita a partir de único exemplar, guardado em museu há 62 anos

    Espécie de rã-foguete extinta é descrita a partir de único exemplar, guardado em museu há 62 anos

    Quem anda hoje pelo bairro Tarumã, em Curitiba, entre prédios, um autódromo e o maior shopping center da capital paranaense, pode ter dificuldade em imaginar riachos, campos abertos e áreas alagadas. Mas, nos anos 1960, a área abrigou uma biodiversidade desconhecida. Em um estudo apoiado pela FAPESP, pesquisadores descreveram uma espécie de rã-foguete que viveu naquela área e que, apesar de nova para a ciência, provavelmente está extinta na natureza.

    No estudo publicado na revista Zootaxa, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Smithsonian Institution, nos Estados Unidos, descreveram a nova espécie, nomeada como Dryadobates erythropus, a partir de um único exemplar coletado pela herpetóloga norte-americana Doris M. Cochran (1898-1968) em 1963, durante visita ao Brasil com a entomóloga Doris H. Blake (1892-1978).

    O único exemplar conhecido do sapinho, bastante ressecado, está depositado no acervo do Museu Nacional de História Natural da Smithsonian Institution (NMNH-SI), em Washington, nos Estados Unidos, onde Cochran trabalhou por quase 50 anos.

    Provavelmente extinta

    A nova espécie, cujo indivíduo tem cerca de 14 milímetros de comprimento, é considerada “provavelmente extinta”, pois não teve outros exemplares encontrados na natureza nem depositados em museus de história natural. Ela faz parte do gênero recentemente descrito Dryadobates, que tem pelo menos 13 espécies, sendo sete já descritas, quatro delas extintas entre os anos 1960 e 1980 (leia mais em: agencia.fapesp.br/55121).

    “As espécies viventes desse gênero são de sapinhos diurnos, bastante abundantes, que seriam fáceis de encontrar na natureza. Dado que o hábitat da D. erythropus foi destruído e que nenhum outro espécime foi coletado em levantamentos extensivos, em diversas localidades de São Paulo e Paraná ao longo dos últimos 60 anos, é mais provável que esteja extinta”, explica Taran Grant, professor do Instituto de Biociências (IB) da USP e primeiro autor do estudo.

    O pesquisador assina o trabalho com Paulo Durães Pereira Pinheiro, atualmente pesquisador no NMNH-SI, que teve bolsa de pós-doutorado da FAPESP até 2023.

    Dryadobates vem de Dryades, uma ninfa da mitologia grega, nome que o naturalista von Martius deu à Mata Atlântica em sua obra Flora Brasiliensis. O sufixo “bates” quer dizer “aquele que anda”. Erythropus é uma referência a “pé vermelho”, como eram apelidados os trabalhadores rurais que trabalhavam descalços na terra avermelhada característica do norte do Paraná.

    Outras três espécies do gênero já haviam sido nomeadas em referência ao Estado onde foram encontradas: D. alagoanus, D. carioca e D. capixaba, as últimas duas aparentemente extintas.


    Dryadobates bokermanni, que vive no sul da Bahia, é uma das sete espécies descritas do mesmo gênero, que pode ter 13 no total (foto: Taran Grant/IB-USP)

    Diário de campo

    Para assegurar a localidade exata em que o sapinho foi coletado, Grant teve de recorrer a outros registros além do que estava escrito em uma etiqueta presa ao animal. A Smithsonian Institution, à qual o museu é vinculado, possui um grande arquivo dedicado aos seus pesquisadores.

    No material referente a Cochran, Grant encontrou seu diário de viagem pelo Brasil. O documento se mostrou essencial para certificar a localidade do animal. “Por conta do que conhecíamos da distribuição desse grupo, quando vimos a referência a Curitiba pensamos que ela poderia ter se confundido com algum animal coletado no Rio de Janeiro, onde esteve antes”, diz Grant.

    No entanto, as características do animal não condizem com os que Cochran descreve como tendo coletado em uma lagoa e suas margens no Rio de Janeiro. Em contraste, as anotações sobre Tarumã de 9 de janeiro de 1963 são bem claras ao contar que dois sapos foram capturados em um “grande campo cheio de formigueiros e moitas mastigadas por vacas”.

    A localidade do sapinho descrito agora está cerca de 550 quilômetros ao sul da espécie mais próxima, D. olfersioides, de Angra dos Reis, também extinta. A grande distância sugere que houve outras populações do gênero entre essas duas localidades, fossem das espécies descritas ou de extintas que talvez nunca sejam conhecidas.

    Museômica e DNA histórico

    Entre as sete espécies de Dryadobates formalmente descritas até agora, três só se tornaram conhecidas graças ao uso do chamado DNA histórico (hDNA). Em alguns casos, a técnica pode recuperar material genético mesmo de animais conservados em museus há mais de 100 anos.

    Como parte de seu projeto apoiado pela FAPESP, que possibilitou a instalação de um laboratório para esse tipo de análise na USP, Grant tentou extrair hDNA do sapinho coletado por Doris Cochran em 1963. Sem sucesso.

    “O curador do museu onde o exemplar está depositado nos autorizou a retirar um pequeno pedaço de tecido para extração de DNA, mas não conseguimos encontrar material genético de sapo em quantidade suficiente, apenas contaminação de DNA humano e de bactérias”, conta.

    Por conta do estado de conservação do exemplar, o pesquisador acredita que o animal morreu antes de ser fixado em álcool, ainda no saco de coleta. Essa hipótese é reforçada pela presença de areia aderida à pele do sapinho. Portanto, o DNA provavelmente começou a se degradar muito antes do que se fosse conservado em álcool, que preserva moléculas que podem ser identificadas depois.

    Recuperação de DNA

    As técnicas de museômica, como são chamadas, permitem recuperar trechos de DNA que tenham a partir de 20 nucleotídeos, que depois são combinados para montar sequências maiores. O DNA do sapinho ressecado de Cochran, porém, está tão degradado que não foi possível identificar trechos maiores do que 20 nucleotídeos, impossibilitando sua identificação molecular. “Quem sabe, com o avanço da tecnologia, essa identificação genética possa ser feita no futuro”, diz o pesquisador.

    Mesmo sem os dados genéticos, os autores apontam características na morfologia que diferenciam o animal de seus parentes mais ao norte, permitindo classificá-lo como uma nova espécie.

    Para Grant, além de ser mais um alerta para a necessidade de amostrar constantemente as áreas naturais e protegê-las, o trabalho é importante por relembrar as figuras históricas de Doris Cochran e Doris Blake, duas mulheres cientistas que viajaram o mundo e trouxeram grandes contribuições para seus campos de pesquisa. “Não fossem elas, não saberíamos que um dia tivemos essa espécie”, encerra Grant.

    Por André Julião | Agência FAPESP

  • Pesquisadores da USP descobrem bactérias que combatem doenças da soja

    Pesquisadores da USP descobrem bactérias que combatem doenças da soja

    Pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, identificaram bactérias nas Ilhas de Alcatrazes e Palmas, no litoral de São Paulo, que combatem pragas dos cultivos de soja. Os microrganismos demonstram potencial para o desenvolvimento de produtos biológicos inovadores que oferecem alternativas sustentáveis ao uso de fungicidas químicos.

    O estudo triou 20 cepas de Streptomyces spp., isoladas das duas ilhas próximas a São Sebastião, no litoral paulista. Os cientistas testaram os microrganismos contra importantes fitopatógenos da soja, incluindo a mancha-alvo (Corynespora cassiicola), a podridão seca da haste e da vagem (Phomopsis sojae), a podridão de carvão da raiz (Macrophomina phaseolina) e a mancha púrpura da semente (Cercospora kikuchii).

    Mercado aquecido impulsiona pesquisa

    A descoberta surge em momento estratégico para o agronegócio brasileiro. O mercado de bioinsumos agrícolas no Brasil registra expansão superior a 10% ao ano nos últimos cinco anos. “A demanda por produtos biológicos, especialmente para grandes culturas como a soja, estimula empresas e produtores a buscar soluções inovadoras para integrar ao manejo fitossanitário”, afirma o engenheiro agrônomo Juan Lopes Teixeira, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Microbiologia Agrícola da Esalq.

    Teixeira desenvolveu a pesquisa sob orientação da professora Simone Possedente de Lira, do Departamento de Ciências Exatas.

    Duas gerações de produtos biológicos

    O projeto apresenta duas inovações principais. A primeira utiliza células vivas de Streptomyces spp. no desenvolvimento de produtos biológicos — tecnologia presente em menos de 15 produtos no mundo. A segunda emprega metabólitos secundários desses microrganismos para o controle de doenças.

    Os testes selecionaram quatro cepas para avançar no desenvolvimento de fungicidas de primeira geração. Uma cepa foi escolhida para produzir um produto de terceira geração. Os resultados in vitro alcançaram níveis de controle superiores a 53% em cultivos paralelos (feitos com diferentes culturas numa mesma área) e acima de 88% em cultivos cercados (em espaço confinado). Os metabólitos secundários ultrapassaram 84% de controle.

    Agricultura regenerativa e resistência a fungicidas

    Os resultados contribuem para uma agricultura mais regenerativa e reduzem a pressão de seleção de patógenos resistentes a fungicidas químicos. “Os biológicos atuam de forma complementar, proporcionam maior sustentabilidade no manejo de doenças e preservam a eficácia das moléculas sintéticas”, conclui o engenheiro agrônomo.

    A descoberta posiciona o Brasil como referência em biotecnologia agrícola e oferece aos produtores de soja ferramentas mais sustentáveis para o controle de doenças nas lavouras.

    Por Caio Albuquerque – Jornal da USP

  • Pesquisadores aproveitam algas na fabricação de matéria-prima para construção civil

    Pesquisadores aproveitam algas na fabricação de matéria-prima para construção civil

    Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma argila cerâmica mais leve que a normalmente utilizada na construção civil graças à adição de algas do gênero Sargassum no processo de fabricação.

    Comuns na região central do oceano Atlântico, essas algas marrons – também conhecidas como sargaço – têm se deslocado em grandes quantidades para praias do Caribe, dos Estados Unidos e da região Norte brasileira, onde tornaram-se um problema. Seu acúmulo nas praias pode trazer efeitos nocivos à saúde humana por causa dos gases emitidos durante a decomposição, além de prejudicar o turismo, a pesca e a biodiversidade local.

    “Normalmente, o sargaço é coletado e descartado em aterros sanitários sem qualquer uso prático. Por isso, decidimos pesquisar uma forma de aproveitar essa grande quantidade de biomassa nas praias”. É o que conta João Adriano Rossignolo, professor do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA-USP), que coordenou o estudo.

    Em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o grupo da USP testou o uso da alga na fabricação de argilas cerâmicas, utilizadas na construção civil para diminuir o peso do concreto, em lajes para melhorar o conforto térmico e na jardinagem. A investigação contou com apoio da FAPESP.

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    O sargaço foi incorporado às amostras nas proporções de 20% e 40% – e também 0%, para comparação. Em seguida, as amostras foram moldadas e sinterizadas (processo que compacta a argila por calor, tornando-a sólida) a temperaturas de 800 °C, 900 °C e 1.000 °C em fornos convencionais e de micro-ondas.

    Com os materiais prontos, foram realizados diversos ensaios para avaliar fatores como absorção de água, porosidade e resistência à compressão. Além disso, foi feita uma comparação entre o ciclo de vida (metodologia que avalia os impactos ambientais de um produto desde a extração da matéria-prima até o descarte final) da argila expandida convencional e das diferentes formulações acrescidas de sargaço.

    Resultados

    Os resultados, publicados no Journal of Materials in Civil Engineering, indicam que a adição de sargaço levou a uma redução na densidade aparente dos agregados de argila cerâmica leve, especialmente na concentração de 40%. No entanto, apenas os materiais sinterizados em forno de micro-ondas atenderam aos requisitos de resistência para todas as temperaturas. Quanto ao ciclo de vida, as versões com sargaço apresentaram melhor desempenho ambiental em comparação à argila expandida comum.

    Isso levou os pesquisadores a concluir que os agregados de argila cerâmica leve com sargaço sinterizado em forno micro-ondas são uma alternativa viável para mitigar os prejuízos provocados pela grande quantidade da alga no litoral, com consumo reduzido de recursos naturais e maior eficiência energética.

    Material é usado para diminuir o peso do concreto, para melhorar o conforto térmico em lajes e em jardinagem. Foto: João Adriano Rossignolo/FZEA-USP

    Além desse trabalho, a equipe avaliou a viabilidade de usar a alga na produção de painéis particulados, destinados à indústria de móveis e à construção civil. E em telhas de fibrocimento, colocando as cinzas de sargaço como substitutas do calcário. “Os resultados foram surpreendentes, pois conseguimos usar 30% de sargaço nos painéis e substituir 100% do calcário com as suas cinzas. Com resultados que atendem plenamente às normas vigentes para esses produtos e melhoram a durabilidade e as propriedades mecânicas dos materiais”, diz Rossignolo.

    O artigo Life cycle assessment of lightweight ceramic clay aggregates sintered in a microwave oven with the incorporation of Sargassum spp. particles pode ser lido em: https://ascelibrary.org/doi/10.1061/JMCEE7.MTENG-20224.

    Por Thais Szegö | Agência FAPESP

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  • Fóssil de tartaruga gigante é descoberto no Acre

    Fóssil de tartaruga gigante é descoberto no Acre

    Uma equipe de paleontólogos brasileiros fez uma descoberta extraordinária no coração da Amazônia: o fóssil de uma Stupendemys geographicus. Ela é considerada a maior tartaruga de água doce que já existiu no planeta. O achado ocorreu no Rio Acre, em Assis Brasil (AC), dentro da Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre. E pode revolucionar o entendimento sobre a fauna pré-histórica da região.

    No dia 17 de junho, durante uma expedição na localidade de Boca dos Patos, pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificaram uma carapaça fossilizada com 1,8 metro de largura e comprimento estimado em 2,4 metros – indicando que o animal media quase o tamanho de um carro pequeno.

    O fóssil foi encontrado em sedimentos do Mioceno Superior, período que se estendeu entre 10,8 e 5,3 milhões de anos atrás, e estima-se que a tartaruga viveu há cerca de 9 milhões de anos16.

    A importância científica

    A Stupendemys geographicus é uma espécie já conhecida da ciência, mas raramente encontrada em bom estado de preservação. Edson Guilherme, coordenador do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas (LPP) da Ufac, explica que pesquisadores só haviam encontrado um exemplar completo antes, na Venezuela. “Agora, temos uma aqui no Acre, o que amplia nosso conhecimento sobre a distribuição geográfica desses animais”, afirmou.

    A Stupendemys era uma das maiores tartarugas de todos os tempos, superando até espécies marinhas como a Archelon. Os machos possuíam chifres ósseos no casco, usados em combates territoriais. Ela viveu em um ambiente pantanoso, coexistindo com jacaré-gigantes (Purussaurus) – um de seus predadores.

    O professor Carlos D’Apolito Júnior, um dos líderes da expedição, destacou que o fóssil está excepcionalmente bem preservado, o que permitirá estudos detalhados sobre a anatomia e o comportamento da espécie. “É um achado fundamental para entender a paleontologia da Amazônia e os ecossistemas do passado”, explicou.

    Desafios logísticos e próximos passos

    A retirada do fóssil exigiu esforços extras devido ao seu tamanho e peso. Primeiro, a equipe tentou transportar o material em uma caminhonete, mas precisou esperar um caminhão da Ufac para levá-lo até Rio Branco. Lá, ele passará por análises laboratoriais antes de ficar disponível para exposição ao público.

    A expedição faz parte do projeto “Novas Fronteiras no Registro Fossilífero da Amazônia Sul-Ocidental”, financiado por CNPq, FAPAC e FAPESP, com apoio de comunidades indígenas locais.

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  • Mamangava: abelha invasora passa a ser monitorada na fronteira do RS

    Mamangava: abelha invasora passa a ser monitorada na fronteira do RS

    Pesquisadores do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária (DDPA) iniciaram o monitoramento da abelha mamangava europeia invasora (Bombus terrestris) na fronteira entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai. O objetivo do estudo é identificar se a espécie já está em território brasileiro. Espécies exóticas invasoras figuram entre as principais causas de perda de biodiversidade e extinção de espécies nativas, ao lado das mudanças climáticas e da perda de habitats.

    “O estudo vai avaliar a atual condição de abundância e riqueza da mamangava nativa do Pampa. Além de elaborar uma lista de plantas utilizadas como recursos alimentares por espécies de mamangavas nativas e disponibilizar subsídios para conservação de mamangavas nativas do Bioma Pampa”, afirma Sidia Witter, coordenadora da pesquisa.

    A Bombus terrestris foi introduzida no Chile para polinização de culturas. Depois, invadiu a Argentina e pode se expandir para outros países sul-americanos, incluindo o Brasil, segundo estudo da Universidade de São Paulo (USP). A espécie já é considerada invasora em regiões como Austrália, Japão e Nova Zelândia, onde causa impactos negativos à flora e fauna locais.

    O projeto “Status das espécies de mamangavas nativas (Bombus) em áreas suscetíveis à invasão de Bombus terrestris na fronteira Brasil-Uruguai” avalia três áreas estratégicas: Aceguá, Pedras Altas e Santa Vitória do Palmar. Nessas localidades, pesquisadores capturam mamangavas durante visitas às flores a cada dois meses, durante um ano, e coletam as plantas utilizadas como recursos alimentares.

    Área experimental

    No CESIMET, em Hulha Negra, uma área experimental reúne cultivos de feijão, ervilhaca, cornichão e outras leguminosas. O objetivo é atrair mamangavas ao longo do ano, permitindo o levantamento de dados sobre abundância e riqueza das espécies nativas.

    Área do CESIMET, em Hulha Negra. Foto: Fernando Dias/Ascom Seapi

    Apesar da Bombus terrestris ser eficiente polinizadora, a espécie invasora pode competir com mamangavas nativas, transmitir doenças, afetar a produção de mel e prejudicar a polinização de culturas e plantas silvestres. “Há relatos de agressões de Bombus terrestris às flores de algumas plantas. Essas abelhas perfuram a pétala na base da flor para acessar o néctar no interior quando não conseguem alcançá-lo pela abertura natural da flor”. É o que explica André Luis Acosta, biólogo da USP. “Esses buracos geram impactos aos vegetais, pois as flores caem e não se tornam frutos. Assim, prejudicando a reprodução das plantas selvagens e a produtividade das plantas agrícolas”.

    Caso alguém encontre a mamangava em território brasileiro, a recomendação é não matar o inseto. Mas comunicar imediatamente ao Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) pelo e-mail [email protected]. Preferencialmente com foto e coordenada geográfica.

    O projeto conta com a colaboração de pesquisadores da USP, Ulbra, Unisinos e Ibama, fortalecendo o monitoramento e a conservação das espécies nativas do Bioma Pampa.

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