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  • USP entra no Top 15 mundial em Ciências Agrárias

    USP entra no Top 15 mundial em Ciências Agrárias

    A Universidade de São Paulo (USP) conquistou uma posição de destaque mundial em uma área diretamente ligada ao agronegócio. A instituição aparece como a 14ª melhor do planeta em Ciências Agrárias no NTU Performance Ranking of Scientific Papers for World Universities 2026.

    O resultado coloca a universidade brasileira entre as principais referências internacionais em pesquisa agrícola. Além disso, reforça a presença da ciência produzida no País em áreas relacionadas à agricultura, pecuária, sustentabilidade e inovação.

    Na classificação geral do NTU, a USP ficou na 55ª posição mundial, avançando uma colocação em relação a 2025. Entre as universidades brasileiras, ocupa o primeiro lugar.

    Ciências Agrárias colocam USP no Top 15

    O desempenho em Ciências Agrárias chama atenção porque coloca a USP no Top 15 mundial da área. A posição ajuda a dimensionar a relevância internacional da pesquisa agrícola desenvolvida no Brasil.

    O ranking elaborado pela Universidade Nacional de Taiwan concentra a avaliação na produção científica das instituições. Portanto, considera indicadores que permitem medir tanto a quantidade quanto a influência das pesquisas publicadas.

    Três aspectos têm peso na nota final: excelência das pesquisas, com 40%; impacto, com 35%; e produtividade, com 25%.

    Além disso, a metodologia considera a frequência com que os estudos são citados e a quantidade de artigos publicados em periódicos científicos de destaque. A análise acompanha tanto a produção recente quanto o desempenho acumulado ao longo dos anos.

    Ranking das universidades brasileiras no NTU 2026

    A USP aparece com ampla vantagem entre as instituições brasileiras classificadas. A Unicamp, segunda colocada no País, ocupa a 358ª posição mundial.

    Brasil Universidade Mundo
    1º Universidade de São Paulo (USP) 55º
    2º Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) 358º
    3º Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) 382º
    4º Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) 435º
    5º Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 453º

    USP também avança em produção científica

    O bom desempenho não aparece apenas na classificação de Taiwan. No Academic Ranking of World Universities (ARWU) 2026, conhecido como Ranking de Xangai, a USP permaneceu como a universidade mais bem colocada do Brasil.

    A instituição ficou na faixa entre as 101ª e 150ª melhores universidades do mundo. O levantamento avalia mais de 2,5 mil instituições e utiliza indicadores relacionados principalmente à produção científica.

    Entre os critérios estão pesquisadores e ex-alunos vencedores de Prêmios Nobel e Medalhas Fields, pesquisadores altamente citados, artigos publicados nas revistas Nature e Science e trabalhos indexados em bases científicas internacionais.

    Um indicador, entretanto, chama atenção. A USP alcançou a 30ª posição mundial em volume de publicações científicas indexadas.

    Ciência produzida pode chegar ao campo

    Para o agronegócio, o resultado em Ciências Agrárias ganha importância porque o conhecimento produzido pelas universidades pode posteriormente chegar às propriedades rurais.

    Pesquisas envolvendo produtividade, genética, solos, nutrição animal, sustentabilidade, novas tecnologias e sistemas de produção, por exemplo, ajudam no desenvolvimento de soluções aplicadas ao campo.

    Em entrevista ao Jornal da USP, o reitor da Universidade de São Paulo, Aluisio Augusto Cotrim Segurado, destacou a relação entre produção acadêmica e demandas da sociedade.

    “O resultado das avaliações reforça a relevância da produção acadêmica, cujo conhecimento gerado se converte em ciência de melhor qualidade e na formulação de políticas públicas voltadas às necessidades da sociedade e do País”, afirmou.

    De acordo com Segurado, o desempenho também demonstra a capacidade da universidade de reunir diferentes frentes de atuação.

    “O desempenho da USP evidencia também a força de uma universidade que articula ensino, pesquisa e extensão, forma profissionais e participa de redes nacionais e internacionais de colaboração científica, produzindo conhecimento de impacto e respondendo aos desafios da sociedade contemporânea”, disse.

    Ranking não mostra toda a universidade

    Apesar dos resultados, o reitor faz uma ressalva sobre a interpretação das classificações internacionais. Para ele, os rankings são ferramentas importantes, mas não conseguem representar todas as dimensões de uma universidade pública.

    “Devemos pontuar, entretanto, que os rankings são instrumentos importantes para acompanhar tendências e identificar oportunidades de aprimoramento, mas não traduzem, isoladamente, a complexidade de uma universidade pública”, afirmou.

    Assim, para o setor agropecuário, a 14ª posição mundial em Ciências Agrárias é um dos números de maior destaque. O resultado coloca a pesquisa brasileira entre as referências internacionais justamente em uma área estratégica para o País.

  • Veterinária: Brasil tem 2 universidades entre as melhores do mundo

    Veterinária: Brasil tem 2 universidades entre as melhores do mundo

    O Brasil tem duas universidades entre as 100 melhores do mundo em Veterinária. A Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp) aparecem na edição 2026 do QS World University Rankings by Subject.

    As duas instituições estão na faixa entre a 51ª e a 100ª posições em Veterinary Science. Nessa parte da classificação, o QS reúne as universidades em grupos e, portanto, não estabelece uma colocação individual para cada uma.

    O ranking avaliou instituições de diferentes países e selecionou as 100 que mais se destacaram na área. Além disso, a classificação permite comparar o desempenho das universidades em diferentes aspectos acadêmicos e científicos.

    No topo, por exemplo, o domínio se concentra principalmente em universidades dos Estados Unidos e do Reino Unido.

    As 10 melhores universidades do mundo em Veterinária

    Veja as primeiras colocadas no QS World University Rankings by Subject 2026 em Veterinary Science:

    Posição Universidade País Nota
    1º Royal Veterinary College, University of London Reino Unido 98,2
    2º University of California, Davis Estados Unidos 95,8
    3º Cornell University Estados Unidos 94,7
    4º University of Guelph Canadá 92,8
    5º Texas A&M University Estados Unidos 90,7
    6º Colorado State University Estados Unidos 89,4
    6º University of Edinburgh Reino Unido 89,4
    8º The Ohio State University Estados Unidos 89,0
    9º Utrecht University Holanda 88,7
    10º Iowa State University Estados Unidos 88,4

    O Royal Veterinary College (RVC), ligado à Universidade de Londres, manteve a liderança mundial. A instituição alcançou 98,2 pontos e, além disso, obteve a pontuação máxima em reputação acadêmica.

    Logo depois, aparece a University of California, Davis, com 95,8 pontos. A universidade norte-americana ocupa a segunda colocação mundial e, ao mesmo tempo, lidera o ranking dentro dos Estados Unidos.

    Na sequência, Cornell University completa o pódio. University of Guelph e Texas A&M, por sua vez, fecham as cinco primeiras posições.

    Onde aparecem USP e Unesp?

    Foto de tigresa em atendimento na UNESP

    Depois das dez primeiras colocadas, o ranking segue até chegar ao grupo no qual aparecem as duas representantes brasileiras.

    A USP e a Unesp estão na faixa 51-100 do mundo em Veterinary Science no QS 2026.

    Nesse intervalo, entretanto, o QS deixa de divulgar uma posição ordinal específica. Por isso, não é possível estabelecer qual das duas brasileiras aparece à frente.

    Ainda assim, a classificação coloca as duas universidades paulistas entre as 100 instituições de maior destaque internacional em ciência veterinária na edição de 2026.

    O resultado também mantém o Brasil representado em um grupo que reúne algumas das principais universidades e centros de pesquisa veterinária do planeta.

    UFMG deixou o Top 100

    Por outro lado, o levantamento de 2026 apresenta uma mudança importante em relação à edição anterior.

    Em 2025, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também figurava entre as 100 melhores do mundo em Veterinária. Na ocasião, a área estreou na classificação da universidade já dentro do Top 100.

    Em 2026, porém, Veterinária da UFMG não permaneceu no Top 100. Com isso, o Brasil passou de três para duas universidades nesse grupo.

    A mudança, contudo, não permite concluir que houve perda de qualidade do curso. O QS não divulgou uma justificativa específica para a saída da Veterinária da UFMG do Top 100.

    Além disso, a classificação funciona de maneira comparativa. Isso significa que o resultado de uma instituição também depende do desempenho das demais universidades analisadas.

    Dessa forma, mudanças podem ocorrer de uma edição para outra mesmo sem uma piora absoluta na qualidade acadêmica de determinada instituição.

    Como o QS avalia as universidades?

    Fachada da Faculdade de Medicina Veterinária da USP

    O QS World University Rankings by Subject analisa o desempenho das instituições em áreas específicas do conhecimento.

    Em Veterinary Science, a metodologia combina indicadores relacionados à reputação acadêmica, reputação entre empregadores e impacto da produção científica. Além disso, a avaliação considera aspectos relacionados à colaboração internacional em pesquisa.

    Entre os indicadores científicos está o índice H, usado para mensurar a produtividade e a influência dos trabalhos acadêmicos produzidos pelos pesquisadores.

    Portanto, o levantamento não funciona como uma avaliação exclusiva da graduação em Medicina Veterinária. Na prática, ele considera a força acadêmica, científica e internacional da universidade naquela área.

    Assim, uma instituição com forte produção científica e pesquisadores altamente citados pode ganhar destaque no levantamento. Ao mesmo tempo, a reputação construída junto à comunidade acadêmica e aos empregadores também influencia o resultado.

    No Brasil, por fim, a edição de 2026 deixa USP e Unesp como as duas representantes nacionais entre as 100 melhores do mundo em Veterinária.

  • Cientistas descobrem “impressão digital” da tainha brasileira

    Cientistas descobrem “impressão digital” da tainha brasileira

    Uma pesquisa inédita conduzida por cientistas da Embrapa identificou uma espécie de “impressão digital química” da tainha brasileira (Mugil liza), capaz de apontar a origem geográfica do peixe a partir de pequenas moléculas presentes em seu músculo.

    A descoberta representa um avanço para a rastreabilidade, a autenticidade e a valorização de produtos pesqueiros no país.

    Aparelho de RMN (Foto: Pedro Coppi/Embrapa)

    Técnica funciona como um raio-X 

    Para conseguir esses resultados, a equipe utilizou a espectroscopia por Ressonância Magnética Nuclear de Hidrogênio (RMN de ¹H), que mapeia a posição dos átomos de hidrogênio nas moléculas, em conjunto com a metabolômica, ciência que estuda os metabólitos, pequenas moléculas produzidas pelo organismo durante as reações químicas cotidianas.

    Essa combinação permitiu aos pesquisadores diferenciar tainhas capturadas em três localidades brasileiras e detectar variações na composição do músculo ligadas ao ambiente, à salinidade, ao comportamento fisiológico e à alimentação dos peixes.

    Para Fabíola Fogaça, pesquisadora, o estudo representa um avanço para a ciência de alimentos e para a cadeia produtiva do pescado no país.

    “O grande diferencial desse estudo é demonstrar que é possível identificar a origem geográfica da tainha por meio de um perfil metabólico altamente específico, que atua como uma assinatura química do pescado. É uma ferramenta inovadora para autenticação, rastreabilidade e agregação de valor”, afirma.

    Rigor científico sustenta resultados

    Os cientistas envolvidos no trabalho coletaram amostras em diferentes estações do ano na Lagoa de Araruama (RJ), na Baía de Sepetiba (RJ) e no litoral de Santa Catarina.

    Além disso, um equipamento de Ressonância Magnética Nuclear de alta resolução mapeou a estrutura molecular das substâncias presentes no músculo do peixe com precisão elevada.

    Pesquisador Luiz Alberto Colnago durante experimentos (Foto: Pedro Coppi/Embrapa)

    Colnago, especialista em ressonância magnética nuclear na Embrapa Instrumentação, explica que a técnica identificou compostos químicos relacionados à alimentação, ao metabolismo e às condições ambientais às quais cada peixe esteve exposto ao longo da vida.

    “Diferentemente de métodos convencionais, que muitas vezes não fornecem informações detalhadas sobre as alterações bioquímicas do pescado, a RMN oferece uma análise rápida, abrangente e não destrutiva da amostra. O resultado é um perfil metabólico detalhado que funciona como um ‘código de barras químico’, capaz de diferenciar peixes de regiões distintas.”

    A equipe identificou 23 compostos químicos naturais no músculo das tainhas, entre eles lactato, creatina, taurina e aminoácidos relevantes para o metabolismo. Esses marcadores revelam informações sobre gasto de energia, atividade muscular, alimentação e adaptação ao ambiente.

    O tamanho do peixe e a sazonalidade tiveram pouca influência sobre o perfil metabólico geral, o que reforça a confiabilidade dos metabólitos como indicadores de origem.

    Lagoa de Araruama imprime assinatura química única

    As condições extremas da Lagoa de Araruama, a maior lagoa hipersalina permanente do mundo, com salinidade média de 52%, influenciam diretamente o metabolismo das tainhas.

    Essa cenário ambiental provoca adaptações fisiológicas específicas, refletidas no perfil químico detectado pela ressonância.

    Portanto, o estudo mostra que a hipersalinidade altera os mecanismos de osmorregulação, o metabolismo energético e o uso de aminoácidos pelos peixes.

    Lagoa de Araruana (Foto: Delano Campello/Wikimedia Commons)

    “O ambiente deixa marcas bioquímicas detectáveis nos peixes. A Lagoa de Araruama produz uma assinatura metabólica muito característica, associada à salinidade extrema e às adaptações fisiológicas da espécie”, destaca Fogaça.

    Descoberta pode combater fraudes

    Além do avanço científico, a pesquisa tem aplicação prática direta para o setor pesqueiro e para políticas de certificação de origem. Segundo os autores, a tecnologia pode ajudar a combater fraudes comerciais, a substituição de espécies e a falsificação de procedência no mercado de pescados.

    O estudo também vai servir de base técnica para o pedido de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Denominação de Origem, da tainha da Lagoa de Araruama junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

    Colnago, que atua há mais de 30 anos com ressonância magnética nuclear, avalia que o uso da técnica na rastreabilidade de peixes pode impactar diretamente o combate à adulteração geográfica e à comercialização irregular de espécies.

    “A identificação precisa da procedência ajuda a proteger consumidores, fortalecer sistemas de fiscalização e valorizar produtos regionais”, enfatiza o pesquisador.

    O estudo também incorporou ferramentas de inteligência artificial na análise e na organização dos resultados.

    “A integração entre metabolômica, ressonância magnética e inteligência artificial demonstra como diferentes áreas da ciência podem atuar de forma complementar na produção de conhecimento aplicado à segurança alimentar”, acrescenta Colnago.

    Como a Ressonância Magnética Nuclear analisa o perfil químico dos alimentos

    A RMN é conhecida como técnica de diagnóstico médico por imagem. No entanto, o que pouca gente sabe é que cientistas já a utilizavam desde a década de 1950 para determinar a estrutura de moléculas naturais e sintéticas, incluindo biomoléculas.

    Na Embrapa Instrumentação, pesquisas com RMN de baixo campo para análises de produtos agroindustriais motivaram a criação do aparelho SpecFit, desenvolvido em parceria com a startup Fine Instrument Technology (FIT), usado para medir o teor de óleo em frutos de dendezeiros.

    O estudo com as tainhas empregou um aparelho de RMN de alto campo, método analítico que usa ímãs potentes para gerar espectros detalhados de moléculas. Segundo Colnago, a técnica permite investigações estruturais complexas, autenticação geográfica e estudos de metabolômica, com princípio de funcionamento similar ao dos equipamentos médicos e laboratoriais.

    Em vez de gerar imagens, a técnica produz sinais eletrônicos interpretados a partir da composição química da amostra, como açúcares, aminoácidos, gorduras e ácidos orgânicos.

    O que é a metabolômica

    A metabolômica analisa pequenas moléculas produzidas pelo metabolismo dos organismos, os metabólitos. Aplicada ao sangue, por exemplo, ela indica em uma única análise a quantidade de compostos como glicose, creatinina e ácido úrico.

    Enquanto métodos convencionais dependem de um exame diferente para cada metabólito. Esses compostos funcionam como indicadores bioquímicos do estado fisiológico, da alimentação e das condições ambientais às quais um organismo foi exposto.

    No caso das tainhas, a metabolômica permitiu identificar compostos capazes de diferenciar peixes de regiões geográficas distintas, criando uma verdadeira “assinatura química” do pescado brasileiro.

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  • Pesquisadores criam fertilizante que “regenera” solos degradados

    Pesquisadores criam fertilizante que “regenera” solos degradados

    A degradação de solos representa um dos maiores desafios ambientais e econômicos do Brasil. Levantamento do MapBiomas mostra que, entre 1986 e 2021, cerca de 25% da vegetação nativa do País entrou em algum processo de degradação. Ou seja, o equivalente a aproximadamente 135 milhões de hectares. A atividade agropecuária figura entre as principais causas desse cenário.

    Para enfrentar o problema, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um novo fertilizante com potencial para recuperar áreas degradadas. A iniciativa reúne especialistas da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e de duas startups incubadas na própria USP: a Quanticom e a MOF Tech.

    Liane Rossi, professora do Instituto de Química da USP e uma das responsáveis pelo desenvolvimento do material, destaca o potencial da tecnologia. “Ele pode funcionar como um regenerador de solo e, portanto, poderia ser aplicado em solos degradados para melhorar a possibilidade de agricultura”, afirma.

    Como funciona a tecnologia

    O fertilizante utiliza Redes Metal-Orgânicas, as MOFs, sigla em inglês para Metal Organic Frameworks. Esses materiais se degradam de forma rápida e controlada e fornecem componentes minerais importantes para o solo. A comunidade científica reconheceu essa tecnologia com o Prêmio Nobel de Química de 2025.

    Liane compara o material a uma esponja. A estrutura porosa, repleta de espaços vazios, permite que as MOFs carreguem substâncias previamente selecionadas para beneficiar o ecossistema do solo. Quando o material se decompõe naturalmente, ele libera esses elementos no ambiente.

    Liane Rossi. Foto: Currículo Lattes

    Apesar dos resultados positivos, a pesquisadora reforça que o novo fertilizante não substitui os produtos tradicionais. “Nos nossos estudos, mantivemos a prática usual de fertilização do solo e adicionamos o novo material, em quantidade menor, como um condicionador, para que os fertilizantes convencionais operem ou sejam melhor aproveitados quando combinados com ele”, explica.

    A origem do projeto

    Uma série de reuniões entre especialistas da USP e da Unesp deu início à parceria. Segundo Liane, os pesquisadores das duas instituições não conheciam as MOFs até então e se interessaram rapidamente pelo potencial do material.

    O projeto evoluiu a partir dessas primeiras conversas e alcançou etapas avançadas de aplicação em campo. “Tivemos 45 meses de financiamento pela Shell. Com isso, montamos uma equipe aqui em São Paulo para a parte de seleção e escalonamento de síntese do material”, relata a pesquisadora.

    As startups criadas na USP também contribuíram diretamente para o avanço da pesquisa. A MOF Tech ampliou a escala de produção do material, enquanto a Quanticom conduziu os estudos de campo.

    Próximos passos dependem de novos investimentos

    O projeto ainda está em desenvolvimento e precisa de financiamento adicional para avançar. “A fase atual demandaria mais estudos e em maior escala em campo. Isso implica maior escala de síntese do material e, então, um possível investimento na MOF Tech”, diz Liane.

    Os estudos já realizados indicam que o produto melhora o desenvolvimento das plantas e a saúde do solo. Ainda assim, a pesquisadora defende a realização de novas etapas de teste antes de definir a disponibilidade do fertilizante para aplicação agronômica em larga escala.

    Por /Jornal da USP

  • Frutas nativas do Brasil mostram potencial contra o envelhecimento celular

    Frutas nativas do Brasil mostram potencial contra o envelhecimento celular

    Jabuticaba, açaí, cambuci, guaraná, marolo e outras frutas nativas brasileiras podem ajudar a prevenir doenças crônicas associadas à inflamação e ao estresse oxidativo. Essa é a principal conclusão de uma revisão científica que reuniu estudos publicados nas últimas décadas e encontrou evidências de que compostos bioativos presentes nesses frutos protegem as células contra danos relacionados ao envelhecimento e ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas.

    Pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP conduziram o estudo, que integrou o doutorado da nutricionista Maria Carolina Zsigovics Alfino sob orientação da professora Elizabeth Aparecida Ferraz da Silva Torres. A equipe colaborou com pesquisadores da Universidad Autónoma do Chile e desenvolveu a pesquisa dentro do grupo Alimentos, Nutrição e Saúde Mental da FSP, que investiga o potencial de compostos bioativos da biodiversidade brasileira para prevenir e controlar doenças crônicas não transmissíveis.

    Ciência que pode virar política pública

    Para a professora Elizabeth Torres, o estudo avança na transformação de evidências científicas em subsídios para recomendações alimentares e estratégias de saúde pública. “Doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e neurodegenerativas, estão entre as principais causas de adoecimento e mortalidade no mundo. Identificar alimentos acessíveis e ricos em compostos bioativos capazes de auxiliar na prevenção dessas doenças tem impacto direto na promoção da saúde pública”, afirma.

    Apesar dos resultados promissores, a pesquisadora reconhece uma limitação importante: a maioria das evidências vem de estudos com modelos celulares ou animais. “Ensaios clínicos com seres humanos ainda são escassos”, relata Torres.

    Como os compostos agem no organismo

    De acordo com Maria Carolina Alfino, os compostos bioativos das frutas nativas brasileiras controlam diretamente a inflamação e o estresse oxidativo. Substâncias como flavonoides, antocianinas, carotenoides e ácidos fenólicos neutralizam radicais livres e reforçam os mecanismos naturais de defesa antioxidante do organismo.

    Essas substâncias também reduzem a produção de moléculas inflamatórias e regulam processos celulares associados ao desenvolvimento de doenças. “Ao controlar o estresse oxidativo e a inflamação crônica, dois mecanismos associados ao envelhecimento e ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas, as substâncias contribuem para a manutenção da saúde e para a prevenção de doenças crônicas”, explica a nutricionista.

    Torres acrescenta que os benefícios não se limitam à polpa dos frutos. “Cascas, sementes e outros subprodutos geralmente descartados também apresentaram potencial biológico, ampliando as possibilidades de aproveitamento sustentável desses alimentos”, diz.

    Jabuticaba concentra o maior número de estudos

    Entre as frutas analisadas, a jabuticaba lidera o volume de pesquisas. Estudos com extratos da casca, da polpa e até dos galhos da planta apontaram elevada atividade antioxidante e capacidade de reduzir marcadores inflamatórios associados à obesidade, à resistência à insulina, a inflamações intestinais e a alterações cardiovasculares. As antocianinas, os flavonoides e o ácido elágico presentes no fruto respondem principalmente por esses efeitos. Segundo Alfino, esses compostos neutralizam radicais livres, reduzem danos celulares e modulam processos inflamatórios envolvidos no desenvolvimento de doenças crônicas.

    Foto de uma jabuticabeira com jabuticabas no galho.
    Jabuticaba lidera volume de pesquisas. Foto: Rodarte/Agro Em Campo

    O açaí e o guaraná também figuram entre as espécies mais investigadas. No guaraná, os estudos apontam potencial neuroprotetor ligado à ação conjunta da cafeína e das catequinas. Essas substâncias reduzem danos provocados pelo estresse oxidativo e pela inflamação, fatores associados à degeneração celular e a doenças que afetam o sistema nervoso.

    Já o açaí desperta interesse não só pela polpa, mas também pelos subprodutos, especialmente as sementes. Estudos experimentais mostram que essas estruturas concentram elevadas quantidades de procianidinas, compostos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Os resultados sugerem potencial para reduzir processos inflamatórios relacionados a distúrbios metabólicos e a complicações cardiovasculares e renais.

    Efeitos sobre a saúde do cérebro

    A revisão também identificou evidências de que os compostos bioativos das frutas nativas protegem o sistema nervoso. Substâncias presentes principalmente no guaraná ajudam a reduzir a neuroinflamação, processo associado a doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson e a alguns transtornos psiquiátricos.

    “As propriedades bioativas encontradas no guaraná atuam em mecanismos de redução da ativação excessiva de células inflamatórias do cérebro e na diminuição da produção de citocinas pró-inflamatórias, moléculas que participam da resposta inflamatória do organismo”, afirma Alfino.

    açaí na árvore
    Açaí desperta interesse não só pela polpa, mas também pelos subprodutos,. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    O estudo destaca ainda um possível impacto positivo dessas frutas sobre a microbiota intestinal: as propriedades bioativas favorecem o crescimento de bactérias benéficas e reduzem processos inflamatórios sistêmicos, fortalecendo a conexão entre intestino e cérebro. Nesse contexto, o guaraná se destacou pelos efeitos neuroprotetores, enquanto a jabuticaba apresentou resultados promissores no controle da inflamação intestinal e na proteção das células contra danos oxidativos.

    Para Alfino, os resultados reforçam a importância de valorizar espécies nativas ainda pouco presentes na alimentação dos brasileiros. Segundo a pesquisadora, a globalização dos hábitos alimentares concentrou o consumo em frutas como maçã, banana e laranja, enquanto muitas espécies brasileiras com elevado valor nutricional permanecem pouco conhecidas pela população.

  • Microcrustáceo marinho é usado em método inédito para rastrear poluição por carbono

    Microcrustáceo marinho é usado em método inédito para rastrear poluição por carbono

    Um estudo internacional liderado por pesquisadores da USP e de instituições francesas revelou, pela primeira vez, como partículas de carbono negro, um dos principais poluentes gerados pela queima incompleta de combustíveis fósseis, são ingeridas e transformadas dentro de organismos marinhos microscópicos. Publicado em artigo da revista científica Environmental Science & Technology, o trabalho adotou uma avançada técnica de microscopia para acompanhar, em tempo real e sem o uso de marcadores químicos, o comportamento do poluente conhecido como carbono negro em copépodes do gênero Acartia, pequenos crustáceos que compõem grande parte do zooplâncton oceânico.

    O zooplâncton é o conjunto de organismos que tem capacidade de se locomover nas águas dos oceanos e não ser levado pelas correntes marinhas. O carbono negro é considerado um importante agente de aquecimento climático e um contaminante amplamente presente nos oceanos. Apesar disso, pouco se sabia sobre a forma como ele interage biologicamente com organismos marinhos. Os experimentos foram realizados com partículas coletadas diretamente da emissão de motores a diesel na cidade de São Paulo. E o material foi preparado em diferentes formas, particulada e dissolvida, para avaliar seu comportamento óptico e biológico.

    Como é o processo

    A pesquisa mostrou que os copépodes ingerem partículas provenientes da fuligem de motores a diesel. E que essas partículas sofrem alterações estruturais ao longo do trato digestivo. Segundo os cientistas, o ambiente intestinal dos animais modifica o arranjo molecular do material poluente. Com isso, transformando agregados sólidos em estruturas mais dispersas e potencialmente mais reativas.

    “Os resultados obtidos neste trabalho possuem implicações globais, principalmente por se tratar de um ecossistema de influência central na dinâmica mundial: o meio marinho”, destaca Maria Luiza Vicente, primeira autora do estudo e pesquisadora correspondente junto com o professor Francisco Gontijo Guimarães, ambos do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.

    A técnica empregada permitiu diferenciar, com alta precisão, as partículas de carbono negro dos pigmentos naturais presentes nos organismos, criando o que os autores chamaram de “linha de base intestinal livre de pigmentos”. Isso possibilitou observar diretamente a presença do poluente dentro do intestino dos animais vivos. Os resultados também revelaram alterações fisiológicas associadas à ingestão do material. Os copépodes expostos ao carbono negro apresentaram dilatação intestinal semelhante à observada durante a alimentação natural, indicando que o organismo processa o poluente como se fosse alimento.

    Riscos ambientais

    Além dos impactos imediatos observados nos organismos analisados, os pesquisadores alertam para possíveis riscos ambientais decorrentes desse processo. Como o zooplâncton ocupa a base da cadeia alimentar marinha, a contaminação pode atingir peixes, crustáceos maiores e outros animais marinhos, ampliando a circulação do carbono negro nos ecossistemas oceânicos.

    “A técnica desenvolvida é, de fato, inovadora, principalmente por revelar formas antes não diretamente estudadas desses contaminantes em meio aquoso. Portanto, permitindo entender seu processo de transformação in vivo“, ressalta Maria Luiza Vicente.

    Os cientistas destacam, ainda, que as alterações sofridas pelas partículas dentro do intestino dos copépodes podem aumentar a capacidade de dispersão do poluente na água, favorecendo sua permanência no ambiente e potencializando efeitos tóxicos relacionados ao estresse oxidativo e à presença de compostos químicos derivados da combustão.

    Ciclo global do carbono

    Outro ponto de preocupação é o possível impacto sobre o ciclo global do carbono. Como os copépodes desempenham papel fundamental no transporte de matéria orgânica para regiões profundas do oceano, a transformação do carbono negro por esses organismos pode interferir nos mecanismos naturais de armazenamento de carbono e, consequentemente, nas dinâmicas climáticas globais. Especialistas também apontam que a presença contínua desse material nos oceanos pode comprometer o equilíbrio ecológico, afetando processos de alimentação, reprodução e sobrevivência de espécies marinhas sensíveis à poluição.

    Para Maria Luiza Vicente, a descoberta ajuda a compreender melhor o destino ambiental do carbono negro nos oceanos e o papel do zooplâncton na transformação desse poluente. “A parceria internacional envolvida não apenas viabilizou minha dupla titulação no doutorado, mas também promoveu a sinergia entre o estudo dos impactos de poluentes emergentes e técnicas ópticas avançadas na fronteira do conhecimento”, afirma.

    No futuro, segundo a pesquisadora, com os avanços das pesquisas ecotoxicológicas, esses dados poderão subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas ao tratamento de poluentes no meio marinho. Acreditamos que este estudo abre caminhos para desvendarmos o destino de poluentes de carbono emergentes e o real cenário do estoque de carbono nos oceanos”, conclui.

    Além dos cientistas do IFSC, a pesquisa contou com a participação de pesquisadores da Universidade de Toulon, na França, e do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O trabalho teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do programa internacional USP-Cofecub/Campus France.

    Texto: Rui Sintra/Arte: Livia Bortoletto/Publicado no Jornal da USP

  • IA prevê produção de soja no Brasil com 72% de precisão antes da colheita

    IA prevê produção de soja no Brasil com 72% de precisão antes da colheita

    Um grupo de pesquisadores brasileiros desenvolveu um modelo de inteligência artificial capaz de estimar a produtividade das lavouras de soja no Centro-Oeste do país antes mesmo da colheita. O sistema, que combina imagens do satélite Sentinel-2, variáveis climáticas e dados históricos do IBGE, atingiu 72% de acurácia e margem de erro inferior a 302 quilos por hectare. Resultados que podem transformar o monitoramento agrícola em um país onde a soja movimentou US$ 52 bilhões em exportações entre 2024 e 2025.

    O estudo, intitulado Soybean yield estimation in the Brazilian Midwest using Sentinel-2 imagery, foi publicado na revista científica Big Earth Data e analisou municípios de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul durante três safras consecutivas, de 2019/2020 a 2021/2022. A pesquisa é fruto do projeto PreCISIA (Predição de Colheita por Imagem de Satélite e Inteligência Artificial), financiado pelo CNPq e desenvolvido em parceria com a empresa Espectro Ltda., pesquisadores da Unesp, da Universidade Estadual de Londrina e da Universidade de Pequim.

    Por que prever a safra de soja se tornou urgente

    O Brasil é o maior produtor mundial de soja há pelo menos uma década, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Na safra 2023/2024, no entanto, o setor enfrentou uma lição dura: estimativas iniciais da Conab projetavam 162 milhões de toneladas, mas o resultado final ficou em 147,7 milhões. Uma queda de quase 10%, atribuída a períodos de calor extremo e chuvas irregulares. O prejuízo estimado para o setor produtivo superou R$ 28 bilhões, de acordo com relatório da FAO.

    É justamente nesse contexto de crescente instabilidade climática que ferramentas preditivas como a desenvolvida pela equipe ganham relevância. “O momento na agricultura é uma era de ouro em comparação com o passado, quando faltavam dados para fazer análises”, afirma Michel Eustáquio Dantas Chaves, professor da Unesp e colaborador do estudo. “Dados de satélite permitem monitorar safras e ciclos de produção, algo que até pouco tempo era inviável, especialmente em nível de cultura.”

    Como o modelo funciona

    A pesquisa, desenvolvida como dissertação de mestrado de Ester de Carvalho Pereira, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), sob orientação da professora Ana Cláudia dos Santos Luciano, utilizou algoritmos de aprendizado de máquina para identificar quais variáveis tinham maior peso na estimativa de produtividade.

    Os resultados mostraram que precipitação acumulada, radiação solar e déficit hídrico foram os fatores climáticos mais determinantes. Entre os dados de satélite, destacaram-se bandas espectrais relacionadas ao infravermelho e ao chamado red edge, uma faixa altamente sensível à atividade fotossintética das plantas.

    A partir daí, os pesquisadores construíram seis modelos distintos, cada um correspondendo a uma janela temporal diferente do desenvolvimento da cultura, de 30 a 180 dias após o plantio. O melhor desempenho ocorreu no modelo de 150 dias, período coincidente com o enchimento de grãos — fase decisiva para a produtividade final da soja.

    “Considerando um modelo que utilizava todas as informações dos seis meses estudados, tínhamos aproximadamente 400 variáveis. Mas quando criamos um modelo de 30 dias, que já gerou um resultado bem interessante, trabalhamos com cerca de 80 variáveis”, explica Ester.

    Limitações e potencial de aplicação

    Os pesquisadores reconhecem que o modelo não substitui levantamentos de campo realizados por órgãos oficiais, mas pode complementá-los com monitoramento contínuo em larga escala. Uma das principais dificuldades encontradas foi a ausência de dados detalhados em nível de propriedade rural, o que levou o grupo a recorrer a mapeamentos do IBGE e do projeto MapBiomas.

    “Se você quiser um nível de detalhe para que o produtor veja de fato a área dele, o modelo não vai atender. Mas em nível de governo, município e política pública, o trabalho se aplica muito bem”, avalia Luciano.

    O estudo também evidencia um problema estrutural recorrente na ciência brasileira: a desvalorização de dados produzidos nacionalmente. “Temos tantos monitoramentos feitos por nós, com tecnologia brasileira, que muitas vezes são subutilizados aqui, mas utilizados por outros países”, diz Luciano. China, Estados Unidos e União Europeia mantêm sistemas próprios de monitoramento das lavouras brasileiras a partir de bases de dados do Brasil.

    Chaves reforça a crítica à falta de financiamento. “O dado é útil, acessível, cada vez mais preciso e existem cada vez mais pessoas que entendem de geoprocessamento, mas falta investimento condizente para ampliar o retorno à sociedade.” A limitação de recursos já levou ao encerramento de programas como o Cafésat e o Canasat, mantidos pelo INPE, e ameaça a continuidade de outros, como o TerraClass e o Prodes.

    Próximos passos

    Apesar dos desafios, o grupo segue aprimorando as ferramentas. Atualmente, os pesquisadores publicam boletins periódicos de monitoramento da soja em Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná, usando índices de vegetação obtidos por satélite. Em paralelo, Ester desenvolve seu doutorado com foco na cana-de-açúcar, próximo desafio da equipe.

    Para Chaves, o caminho passa necessariamente pela integração de diferentes bases de dados públicas. “Se não soubermos cruzar os dados do IBGE com os da Conab, do INPE ou da Embrapa, estaremos perdendo como cadeia produtiva e como Estado-nação.”

  • Queijo Canastra: estudo mostra o que realmente conquista o consumidor

    Queijo Canastra: estudo mostra o que realmente conquista o consumidor

    Mais do que um selo de autenticidade na embalagem, é a história por trás do produto que tem conquistado os consumidores brasileiros. Essa foi a principal conclusão de uma pesquisa sobre estratégias de divulgação do queijo Canastra nas redes sociais.

    O estudo, desenvolvido pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, apontou que o chamado storytelling (técnica de contar histórias sobre o produto, sua tradição e seus produtores) gera mais conexão emocional e influencia mais a decisão de compra do que os selos de Indicação Geográfica (IG).

    Segundo o pesquisador Leonardo Barretta, autor principal do levantamento, o storytelling se mostrou uma ferramenta mais eficiente para os produtores.

    “Storytelling é uma estratégia mais acessível, de baixo custo, personalizável para cada produtor; já o selo é importante, pois é a certificação oficial do produto, atestando sua autenticidade e legitimidade”, afirmou.

    O queijo Canastra possui maturação artesanal e sabor marcante reconhecido em todo o país — Foto: Aprocan

    Consumidores conhecem pouco os selos de IG

    A pesquisa também revelou que muitos brasileiros ainda não entendem o significado dos selos de Indicação Geográfica, usados para certificar a origem e autenticidade de produtos regionais.

    Para avaliar o impacto dessas estratégias, os pesquisadores ouviram 347 consumidores brasileiros, que visualizaram diferentes publicações sobre o queijo Canastra no Instagram. Alguns posts utilizavam storytelling, enquanto outros destacavam apenas o selo de IG.

    O resultado mostrou que as narrativas tiveram desempenho superior em todas as dimensões analisadas: percepção do produto, conexão emocional e intenção de compra.

    “Digamos que é o ‘pacote completo’. Nem toda estratégia consegue despertar essas três dimensões ao mesmo tempo, e o storytelling se provou capaz disso”, explicou Barretta.

    Já o uso isolado do selo de IG não provocou impacto significativo entre os participantes.

    Narrativas despertam mais interesse do que certificações

    Outro ponto observado foi que consumidores que já conheciam o queijo Canastra demonstraram maior intenção de compra, independentemente da estratégia utilizada.

    Para os pesquisadores, os resultados indicam que produtores precisam investir mais em comunicação emocional e menos apenas na exposição do selo de certificação.

    “Os produtores devem investir em boas narrativas sobre o produto, a região e a produção, mais do que apenas estampar o selo na embalagem”, destacou o pesquisador.

    Apesar disso, Barretta reforça que o selo de IG continua sendo importante para garantir autenticidade e combater fraudes envolvendo produtos que usam indevidamente o nome “queijo Canastra”.

  • Tecnologia brasileira pode revolucionar uso de fertilizantes

    Tecnologia brasileira pode revolucionar uso de fertilizantes

    Pesquisadores da Embrapa, da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um revestimento para fertilizantes capaz de liberar ureia de forma gradual e sincronizada com a necessidade das plantas. A solução combina um polímero derivado de óleo de mamona com nanoargila mineral e, nos testes com capim-piatã, dobrou a taxa de absorção de nitrogênio em comparação à ureia convencional.

    Revestimento à base de polímero derivado de óleo de mamona e argila mineral que é capaz de liberar de forma controlada a ureia. Foto: Pedro Octávio/Embrapa

    Nos experimentos de liberação em água, a ureia sem revestimento perdeu mais de 85% do nitrogênio em apenas quatro horas. Com o revestimento de poliuretano derivado de óleo de mamona, esse ritmo caiu. Mas o fertilizante ainda liberava cerca de 70% do nutriente em nove dias.

    A mudança mais expressiva veio com a adição de apenas 5% de nanoargila montmorilonita à matriz polimérica: a liberação caiu para 22% no mesmo período. Uma redução de 78 pontos percentuais.

    “A nanoargila cria uma espécie de barreira inteligente dentro do revestimento”, explica Caue Ribeiro, pesquisador da Embrapa e coordenador do Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA). “Além de dificultar fisicamente a passagem da água, ela interage quimicamente com o nitrogênio liberado. Assim, retém o nutriente por mais tempo e o libera de forma gradual, mais próxima do ritmo de absorção da planta.”

    Tecnologia inédita combina polímero renovável com mineral em escala nanométrica

    O revestimento usa poliuretano de origem renovável e biodegradável como base,um polímero que oferece boa adesão, resistência mecânica e degradação controlada. À essa matriz, os pesquisadores incorporaram montmorilonita em proporções que variaram entre 2% e 10% da massa da ureia.

    A estrutura em lamelas da montmorilonita (plaquetas que se empilham como escamas em distâncias nanométricas) é o segredo do desempenho. Quando os pesquisadores dispersam essas camadas na matriz polimérica, elas se esfoliam ou intercalam, criando uma distribuição em nanoescala que altera profundamente as propriedades de transporte do revestimento.

    Ricardo Bortoletto-Santos, professor da Unaerp e responsável pela condução da pesquisa em seu pós-doutorado, destaca que esta é a primeira avaliação com plantas desse tipo de revestimento à base de óleo de mamona e nanoargila realizada no Brasil.

    Experimentos com capim-piatã comprovam dobro na absorção de nitrogênio

    Em casa de vegetação, os pesquisadores cultivaram capim-piatã por 135 dias e realizaram quatro cortes sequenciais da gramínea. O resultado foi consistente em todas as etapas: os vasos fertilizados com ureia revestida com nanoargila produziram mais biomassa seca e absorveram o dobro de nitrogênio em relação aos vasos com ureia convencional.

    “Os resultados destacam o papel crucial da nanoestrutura do revestimento em aumentar a eficiência do uso de nutrientes e, ao mesmo tempo, minimizar as perdas ambientais”, afirma Bortoletto-Santos.

    A ureia é o fertilizante nitrogenado mais usado no mundo, com teor de nitrogênio de cerca de 45% em massa. Sua alta solubilidade, porém, representa um problema agronômico e ambiental grave: em condições normais, ela se dissolve rapidamente no solo, gerando volatilização de amônia e emissões de óxido nitroso, um potente gás de efeito estufa.

    Barreira química supera barreira física no controle do nutriente

    O estudo revelou que a montmorilonita não age apenas como obstáculo físico à passagem da água, mas principalmente como barreira química, por meio de interações iônicas e adsorventes com o nitrogênio.

    Revestimento e ureia em grânulos. Foto: Caue Ribeiro, Ricardo Bortoletto-Santos e Alefe

    “Essa interação química permite que o nutriente seja liberado em sincronia com a necessidade de absorção da planta”, diz Ribeiro. Para o pesquisador, esse mecanismo abre caminho para sistemas de revestimento mais finos, sem comprometer o desempenho. O que torna a tecnologia economicamente viável e ambientalmente mais sustentável.

    Inovação entra na estratégia nacional de fertilizantes

    Alberto Carlos de Campos Bernardi, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, contextualiza a relevância estratégica da pesquisa. O Brasil importa hoje mais de 85% dos fertilizantes que consome, e o nitrogênio está entre os nutrientes mais críticos e caros dessa equação.

    “Esse estudo representa muito mais do que uma questão acadêmica. Ele se insere na estratégia de Estado para reduzir a vulnerabilidade externa e aumentar a sustentabilidade da agricultura brasileira, consideradas no Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) 2022-2050”, afirma Bernardi.

    Pesquisa publicada e aberta a parcerias

    Os resultados integram o artigo Role of Nanocomposite Structure in Polyurethane Coatings for Slow-Release Fertilizers: A Case Study with Brachiaria brizantha. Ele foi publicado em setembro de 2025 no periódico ACS Agricultural Science & Technology. Fapesp, CNPq, Capes e Finep financiaram o estudo.

    Os pesquisadores buscam parceiros para transferir a tecnologia ao setor produtivo. Interessados podem entrar em contato pelo e-mail [email protected].

  • O que aconteceria se as baratas desaparecessem? Biólogos explicam papel no meio ambiente

    O que aconteceria se as baratas desaparecessem? Biólogos explicam papel no meio ambiente

    Ninguém gosta de barata, e isso é quase um consenso. No entanto, esse inseto rejeitado e onipresente desempenha funções ecológicas essenciais. Se elas sumissem amanhã, provocariam um efeito em cadeia surpreendente.

    No ambiente natural, as baratas decompõem matéria orgânica. Além disso, contribuem para a polinização com hábitos herbívoros e servem de alimento para diversas espécies. Vespas, pequenos mamíferos e aves dependem delas para sobreviver. “Alguns insetos predam baratas, como certas vespas, aliadas no controle de infestações. Elas também integram a dieta de mamíferos e aves”, diz o biólogo André Coppe, do Instituto de Biociências da USP.

    “Lixeiras do meio ambiente”

    As baratas evitam até o transbordamento de esgotos. Esses locais úmidos, escuros e cheios de decomposição favorecem sua proliferação. Assim, elas decompõem detritos humanos diretamente.

    “De modo geral, as baratas atuam como ‘lixeiras do meio ambiente’. Dejetos e descartes humanos viram alimento para elas e outros decompositores”, explica o biólogo Matheus D’Oran, mestrando no Museu de Zoologia da USP.

    O que aconteceria se as baratas sumissem?

    Seu desaparecimento geraria um efeito dominó. Elas sustentam a cadeia alimentar e a ciclagem de nutrientes. “Predadores especializados, parasitoides e plantas dependentes delas sofreriam primeiro e poderiam sumir”, afirma Coppe.

    Em seguida, predadores superiores perderiam alimento. O lixo se acumularia, os odores aumentariam e a fertilidade do solo cairia. Por fim, o setor agropecuário sentiria o impacto no equilíbrio ecológico.

    Importância real, distância necessária

    Reconhecer o papel ecológico das baratas não significa conviver com elas dentro de casa. As espécies urbanas circulam por esgotos, lixo e dejetos, carregando microrganismos que representam risco real de contaminação. Manter a higiene domiciliar, evitar o acúmulo de lixo e não deixar restos de comida expostos são os passos básicos recomendados pelos especialistas.

    “As baratas existem por conta própria, sem razões utilitárias, e ocupam seus próprios nichos, se aproveitando, por vezes, do impacto que nosso sistema econômico gera no meio ambiente. Esses bichos surgiram naturalmente neste planeta e não evoluíram com o objetivo de satisfazer as necessidades humanas”, conclui D’Oran.