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  • Café robusta amazônico: de “patinho feio” a trunfo do Brasil contra a crise climática

    Café robusta amazônico: de “patinho feio” a trunfo do Brasil contra a crise climática

    Em Rondônia, na fronteira entre Amazônia e Cerrado, um grão antes visto como “amargo” está ganhando protagonismo nas xícaras e nos debates sobre clima. O robusta amazônico, cultivado por povos indígenas e pequenos produtores. Mais adaptado ao calor do que o arábica, ele desponta como peça estratégica para manter a oferta global de café em um cenário de temperaturas em alta e eventos extremos cada vez mais frequentes.

    Dentro da Terra Indígena Sete de Setembro, entre Rondônia e Mato Grosso, o café não nasceu como tradição ancestral, mas como herança incômoda. As primeiras lavouras foram deixadas por colonos e invasores que ocuparam a região antes da demarcação, trazendo consigo desmatamento, violência e ruptura territorial.

    Diante desse legado, parte do povo Paiter Suruí quis arrancar os pés de café. Outra parte viu ali uma oportunidade de ressignificar a cultura e transformar a plantação em fonte de renda. E de proteção da floresta. Ao longo dos anos, com capacitações técnicas e parcerias, os indígenas aprenderam a manejar, fermentar e beneficiar o grão, elevando a qualidade da bebida e conquistando mercados de maior valor agregado.

    Hoje, cerca de 130 a 140 famílias Paiter Suruí produzem robusta amazônico em pequenas áreas, em um território de mais de 248 mil hectares, onde o modo de vida tradicional segue ligado à floresta e ao extrativismo. O grão cultivado ali já foi reconhecido como patrimônio cultural e imaterial de Rondônia. E vem se consolidando como um café de origem, com identidade própria.

    Robusta em alta em um planeta mais quente

    Historicamente, o robusta foi visto como um café de menor prestígio, associado a blends baratos e a uma bebida mais áspera. Isso quando comparado ao arábica. Mas a combinação entre ciência, manejo adequado e clima mais quente está mudando essa percepção, dentro e fora do Brasil.

    Pesquisas mostram que o robusta tolera temperaturas mais elevadas do que o arábica. E tende a ter papel crucial na manutenção da oferta, à medida que áreas adequadas para café encolhem com o avanço da crise climática. Entre o início dos anos 1990 e 2023, a participação do robusta no total produzido no mundo subiu de cerca de 28% para algo em torno de 44%. Este movimento foi impulsionado principalmente por Brasil, Vietnã e países da Ásia e da África.

    Ao mesmo tempo, relatórios recentes indicam que os principais países produtores já enfrentam mais dias de calor prejudicial à cultura do café, aumento de secas e maior pressão de pragas e doenças. Em cenários projetados até 2050, a área global com condições ideais para o cultivo de café, tanto arábica quanto robusta, pode cair pela metade ou mais, dependendo do nível de aquecimento e de adaptação tecnológica.

    Embrapa, genética e manejo de precisão

    No Brasil, a resposta passa por pesquisa genética, sistemas produtivos mais eficientes e integração com a floresta. Em duas décadas, programas da Embrapa e de instituições parceiras multiplicaram a produtividade do robusta, combinando materiais genéticos de conilon e robusta em cruzamentos voltados para maior rendimento, tolerância a calor e seca e aprimoramento sensorial.

    Hoje, dezenas de novos cruzamentos estão em teste em Rondônia e em outras regiões, buscando plantas mais resilientes a extremos climáticos, com melhor xícara e maior estabilidade de produção. Ao lado da genética, pesquisadores e técnicos reforçam que o salto de qualidade depende de colheita seletiva, pós-colheita cuidadosa e secagem adequada, práticas que podem transformar um robusta genérico em um robusta especial.

    Outro eixo é o manejo integrado com árvores e fragmentos florestais, que ajudam a regular temperatura, manter umidade, favorecer polinizadores e controlar pragas de forma natural. Esse desenho, mais próximo de sistemas agroflorestais, ganha destaque justamente na Amazônia, onde a pressão por abertura de áreas para pecuária ainda é forte.

    Pequenas propriedades mostram o caminho

    Na região das Matas de Rondônia, selo de Indicação Geográfica concedido ao território de cafés robusta de qualidade, cerca de 10 mil propriedades cultivam café, em sua maioria pequenas e conduzidas por famílias. Apesar de o café ocupar menos de 1% da área em alguns municípios, a cultura tem servido como alternativa à conversão de floresta em pasto quando associada a boas práticas ambientais.

    Um exemplo citado por técnicos e entidades do setor é o de famílias que adotam irrigação mais eficiente, plantio de árvores para proteger nascentes, criação de abelhas para reforçar a polinização e rotação de culturas com milho, feijão e outras espécies para recuperar o solo. Com esse modelo, é possível gerar renda significativa em poucos hectares, reduzindo a pressão por desmatamento e agregando valor via turismo rural, visitas guiadas e venda direta.

    Entre os Paiter Suruí, o robusta amazônico também já levou prêmios nacionais e internacionais. Incluindo notas máximas em protocolos específicos para avaliação de canephora e destaque em concursos de cafés especiais. O resultado é um produto que carrega, ao mesmo tempo, narrativa de território, conservação florestal e protagonismo indígena em cadeias de valor antes dominadas por grandes produtores.

    Risco de monocultura e desafio da escala

    O avanço do robusta, porém, não vem sem riscos. Especialistas e lideranças indígenas alertam que preços em alta podem estimular a expansão de monoculturas em larga escala. Portanto, substituindo sistemas diversificados de pequenos produtores por grandes áreas contínuas de café, com maior impacto ambiental.

    Cafeicultura em terras indígenas é sustentável e gera renda para essas comunidades. Foto: Aliny Melo/Embrapa

    Sem políticas públicas que valorizem quem mantém floresta em pé, o robusta pode se tornar vetor de novo ciclo de desmatamento em áreas amazônicas e de transição, caso seja tratado apenas como commodity de curto prazo. Daí a defesa por incentivos fiscais, crédito diferenciado e programas de compras públicas que priorizem café de origem sustentável, com rastreabilidade e participação de comunidades tradicionais.

    Outra frente é a mudança cultural no consumo. Pesquisadores e baristas vêm construindo uma nova gramática sensorial para o canephora, com rodas de aromas e sabores específicas, argumentando que robusta e conilon devem ser avaliados em seus próprios termos, e não pela régua do arábica. Isso abre espaço para que mercados especializados e cafeterias passem a apresentar o robusta não como “segunda categoria”, mas como um outro perfil de bebida.

    Iniciativas globais e papel do Brasil

    A preocupação com o futuro do café também mobiliza redes internacionais de pesquisa. A World Coffee Research (WCR) ampliou recentemente seu programa de melhoramento para incluir robusta em uma rede global de países como Vietnã, Gana, Índia, Indonésia, Ruanda e Uganda. Eles responsáveis por grande parte da produção mundial dessa espécie.

    O objetivo é testar materiais genéticos em diferentes condições de solo e clima, acelerar o desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes e compartilhar dados entre instituições. Esse esforço vem ganhando peso à medida que o café se torna símbolo da vulnerabilidade da agricultura à crise climática. E ao mesmo tempo, campo de prova para estratégias de adaptação.

    No Brasil, pesquisadores, agricultores e lideranças indígenas destacam que o país, maior produtor de café do mundo, tem oportunidade de liderar uma transição para sistemas que combinem robusta de alta qualidade com conservação de florestas e valorização de produtos não madeireiros, como castanha-do-brasil, açaí, cacau e outras espécies nativas. Esses produtos ainda representam fatia muito pequena do PIB nacional, mas são apontados como caminho para uma economia florestal de longo prazo.

    A floresta, o café e quem vive nela

    Para os Paiter Suruí e outras comunidades amazônicas, o café é hoje mais do que uma mercadoria: é uma ferramenta de afirmação territorial. Ao transformar cafezais herdados de invasores em lavouras de robusta amazônico de alta qualidade, eles mostram que é possível gerar renda mantendo a floresta em pé e ampliando o reconhecimento de seus conhecimentos tradicionais.

    Lideranças indígenas lembram, contudo, que não se pode falar em futuro do café na Amazônia sem falar em quem vive dentro da floresta. A mensagem é clara: o grão robusta pode ser mais resistente ao calor, mas a verdadeira robustez do sistema depende de políticas públicas, consumo responsável e da capacidade de ouvir, e remunerar, os povos que há séculos manejam esses territórios.

  • Algas marinhas podem ajudar grãos do Cerrado a resistirem à seca

    Algas marinhas podem ajudar grãos do Cerrado a resistirem à seca

    Pesquisadores da Embrapa Agroenergia, em Brasília (DF), estão avaliando o potencial de algas marinhas brasileiras como base para um bioestimulante agrícola capaz de aumentar a tolerância de culturas como trigo e canola ao estresse hídrico. Em testes realizados em casa de vegetação, os cientistas observaram incrementos de até 160% na formação de síliquas da canola. E crescimento radicular até 12% maior no trigo, características essenciais para a manutenção da produtividade em períodos de seca.

    O projeto, chamado Algoj, conta com parceria da CBKK e recebe apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). As pesquisadoras Simone Mendonça e Patrícia Abrão coordenam a iniciativa desde 2023 e consideram os resultados preliminares promissores. A próxima etapa prevê testes em campo, onde fatores ambientais não sofrem controle.

    Algas brasileiras: bioinsumo e geração de renda

    Além do impacto agronômico, o projeto busca valorizar a biodiversidade marinha nacional. As algas utilizadas são cultivadas em diferentes pontos da costa brasileira, contribuindo para a geração de emprego e renda a comunidades pesqueiras. “É uma oportunidade para unir sustentabilidade, adaptação climática e valorização de recursos naturais do Brasil”, destaca Mendonça.

    Nos dois primeiros anos de pesquisa, os cientistas analisaram quatro espécies de algas e selecionaram três com maior potencial biotecnológico. O foco foi extrair metabólitos secundários, conhecidos como fitormônios, que atuam como sinalizadores químicos capazes de estimular respostas benéficas nas plantas.

    Após vários testes de secagem e extração, quatro extratos foram selecionados a partir de ensaios com mudas de tomate da variedade BRS Zamir, desenvolvida pela própria Embrapa.

    Resultados positivos em grãos do Cerrado

    Em seguida, o projeto avançou para experimentos com trigo e canola, culturas de inverno em expansão no Cerrado, bioma que enfrenta estiagens cada vez mais severas.

    Canola em casa de vegetação. Foto: Agnaldo Chaves/Embrapa

    Nos testes com canola, uma das formulações de algas antecipou o florescimento e aumentou a produtividade sob limitação de água, resultados superiores aos obtidos com produtos comerciais de referência. No trigo de sequeiro, a aplicação promoveu crescimento de raízes até 12% maior, favorecendo o aproveitamento de água no solo.

    O pesquisador Agnaldo Chaves ressalta que os dados referem-se a condições controladas. “Se conseguirmos replicar de 5% a 10% desses resultados em lavouras comerciais, será um avanço importante para a produtividade”, avalia.

    Inovação no transporte e conservação do bioinsumo

    Outro desafio enfrentado pelo grupo foi desenvolver uma formulação que garantisse estabilidade e baixo custo de transporte. Para isso, a equipe criou um extrato seco em pó, obtido pelo processo de spray dryer, com apenas 1,5% de umidade. A técnica preserva os fitormônios sensíveis ao calor e aumenta o rendimento da produção em até 80%.

    Com a fase de testes em casa de vegetação concluída em janeiro de 2026, o projeto busca renovar a parceria e levar os experimentos para o campo experimental e áreas de produtores. Lá, serão definidas doses ideais, épocas de aplicação e a viabilidade comercial do bioestimulante.

    Ainda há pontos em estudo, como a combinação ideal de diferentes espécies de algas e o desempenho do extrato em regiões com regimes de chuva distintos. “Somente os testes em campo vão mostrar o real potencial do produto e sua adaptação às condições climáticas brasileiras”, afirma Mendonça.

    A expectativa é que a tecnologia resulte em um bioinsumo sustentável, produzido com recursos da biodiversidade nacional, capaz de fortalecer a resiliência das lavouras brasileiras à seca e apoiar a adaptação da agricultura às mudanças climáticas.

  • Do fruto à inovação: jatobá vira farinha, licor e pomada cicatrizante

    Do fruto à inovação: jatobá vira farinha, licor e pomada cicatrizante

    Pesquisadores brasileiros estão impulsionando o uso do jatobá, fruto nativo de casca dura presente em cinco biomas; Amazônia, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga. Tradicionalmente conhecido pelo uso de sua madeira, o jatobá começa a se firmar como uma planta alimentícia não convencional (PANC) de alto potencial econômico e sustentável.

    O Projeto Jatobá, conduzido pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Tupã e coordenado pela geógrafa Izabel Castanha Gil, tem como principal meta organizar e valorizar a cadeia produtiva do fruto. “Mapeamos os pontos de coleta em cerca de 30 municípios paulistas e trabalhamos com grupos indígenas do Mato Grosso, que já utilizam o jatobá tradicionalmente. Também articulamos ações de reflorestamento com a espécie”, explica Izabel.

    A iniciativa reúne parcerias com universidades e instituições como o Sebrae, Fatec Marília, Embrapii e Cati-SP. O objetivo é unir pesquisa, inovação e capacitação para transformar o jatobá em fonte de renda e conservação ambiental.

    Entre os produtos desenvolvidos estão farinha de jatobá (já usada na merenda escolar), vinagres feitos da casca, creme com cacau e amendoim, mistura para bolo instantâneo, licor e xarope. Segundo Izabel, o próximo desafio é encontrar parceiros que garantam escala de produção.

    Na área de panificação, a Fatec Marília criou um fermento natural à base da seiva do jatobá, rico em cálcio, ferro, magnésio e fibras, e totalmente livre de glúten. No Oeste paulista, o município de Adamantina foi reconhecido em 2025 como Cadeia Produtiva Local (CPL) do jatobá, o que possibilita novos incentivos para produtores e empreendedores.

    Até queijo

    A inovação também chega aos laticínios. Uma queijaria local desenvolveu queijo trufado com creme de jatobá, cacau e amendoim. Além de queijo curado em licor de jatobá, resultado de parcerias com o projeto.

    Pesquisadores de Porto Alegre colaboram com o desenvolvimento de um larvicida natural contra o Aedes aegypti, feito a partir da resina do jatobá, atualmente em fase de testes de campo. A mesma resina é base para uma pomada cicatrizante que passa por estudos bioquímicos avançados. “A produção ainda é experimental, mas a demanda crescente já mobiliza comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul”, destaca Izabel.

    Ele também integra programas de reflorestamento e compensação ambiental, com potencial para gerar créditos de carbono. Mais de 20 mil mudas já foram plantadas em propriedades privadas e áreas públicas da região.

    Árvore de jatobá. Foto: Wilson Fortunato/Flickr

    A árvore leva de 10 a 12 anos para frutificar. Mas depois disso, pode produzir até 200 quilos de frutos a cada dois anos, mantendo a produtividade por mais de um século. Com tanto potencial, o jatobá se firma como símbolo de sustentabilidade, inovação e valorização da biodiversidade brasileira.

  • Brasil acumula déficit bilionário de carbono no solo causado pela agropecuária

    Brasil acumula déficit bilionário de carbono no solo causado pela agropecuária

    A conversão de vegetação nativa em áreas agropecuárias nos seis biomas brasileiros resultou em um déficit alarmante de 1,4 bilhão de toneladas de carbono na camada superficial do solo (0 a 30 centímetros). Essa perda equivale à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, segundo estudo inédito publicado na revista científica Nature Communications.

    A pesquisa foi desenvolvida por cientistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon/USP), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e da Embrapa. E avaliou mais de 370 estudos científicos para traçar o primeiro mapeamento completo do estoque de carbono no Brasil antes das intervenções humanas.

    Metodologia abrangente revela escala do problema

    Os pesquisadores analisaram 4.290 amostras de solo coletadas em diferentes profundidades em áreas de vegetação nativa e de uso agropecuário em todo o país. O trabalho permitiu calcular as diferenças no estoque de carbono orgânico entre os seis biomas brasileiros, cinco tipos de solo e diversos níveis de intensificação do manejo agrícola.

    “Ao mesmo tempo em que quantifica o problema, a pesquisa aponta oportunidades de incremento de carbono com a mudança de práticas agropecuárias, iniciativas de políticas públicas ou ações privadas”, explica Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa e coautor do estudo.

    Segundo João Marcos Villela, primeiro autor do artigo e bolsista da Esalq/USP, o trabalho estabelece uma linha de base sobre a perda de carbono no Brasil. “Esse trabalho serve como ponto de referência para ações futuras”, afirma Villela. Ele destaca que o CCarbon aprovou um projeto para ampliar a coleta de dados de forma padronizada em todo o território nacional.

    Clima determina perdas e ganhos de carbono

    A análise confirmou que o clima exerce papel fundamental no balanço de perdas e armazenamento de carbono orgânico no solo. Regiões mais frias e úmidas, como Pampa e Mata Atlântica, apresentaram maiores estoques de carbono. Isso em comparação aos biomas de clima tropical, como Cerrado, Pantanal, Caatinga e Amazônia.

    Os dados também revelaram que áreas com maior estoque inicial de carbono sofreram perdas mais significativas quando convertidas para uso agropecuário. Portanto, estabelecendo uma correlação direta entre potencial de armazenamento e vulnerabilidade à degradação.

    Práticas sustentáveis reduzem perdas pela metade

    Um dos achados mais relevantes do estudo refere-se ao impacto das diferentes práticas agrícolas na retenção de carbono. A conversão de vegetação nativa em monocultura resultou em perda média de 22% na matéria orgânica do solo. Enquanto em sistemas agrícolas integrados a redução foi de apenas 8,6%.

    O sistema de plantio direto também demonstrou maior eficiência na preservação do carbono, com perda de 11,4%, contra 21,4% no cultivo convencional. Uma diferença de 47% entre as duas técnicas de manejo.

    Cerrado e Mata Atlântica concentram 72% do potencial de recuperação

    A quantificação do déficit de carbono permitiu aos pesquisadores mapear as regiões com maior potencial de recarbonização. Aproximadamente 72% da capacidade de recuperação está concentrada em dois biomas. O Cerrado, com potencial de 0,53 bilhão de toneladas de carbono, e a Mata Atlântica, com 0,48 bilhão de toneladas.

    “Entender qual a diferença dessa diversidade de climas, biomas e sistemas produtivos, tanto no âmbito de perdas quanto de ganhos, serve para direcionar soluções mais adaptadas”, destaca Villela.

    Impacto nas metas climáticas brasileiras

    O estudo indica que, ao recarbonizar apenas um terço do potencial estimado, o Brasil poderá alcançar a meta de redução de emissões entre 59% e 67% estabelecida nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) do Acordo de Paris até 2035.

    Daniel Potma, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e vinculado à UEPG durante o estudo, ressalta a importância dos dados para o mercado de carbono brasileiro. “Conhecendo o tamanho do ‘pote’, 1,4 bilhão de toneladas de carbono, é possível saber quanto isso vale em termos de recursos, o que poderá ser um chamariz para atrair investimentos na economia da descarbonização”, afirma.

    Ciência brasileira ganha reconhecimento internacional

    A publicação na Nature Communications, periódico de alto impacto científico, fortalece o reconhecimento da pesquisa brasileira sobre emissões de gases de efeito estufa na agropecuária nacional. Segundo Barioni, informações confiáveis obtidas em âmbito nacional são fundamentais para respaldar a diplomacia brasileira nas negociações climáticas globais.

    O estudo contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além de parceria privada com Bayer e Shell Brasil. O banco de dados completo foi disponibilizado em formato aberto para utilização em futuras pesquisas.

  • Soja e algodão em sucessão cortam custos com pragas e revitalizam o solo do Cerrado

    Soja e algodão em sucessão cortam custos com pragas e revitalizam o solo do Cerrado

    Com a colheita da soja 2025/26 em andamento, produtores de regiões como o Mato Grosso já direcionam a atenção para a cultura sucessora: o algodão. A rotação entre soja e algodão consolida uma estratégia eficiente para manter o solo produtivo durante quase todo o ano, mas exige planejamento detalhado para superar desafios como plantas daninhas, soqueiras e a pressão de pragas.

    Especialistas afirmam que o sucesso desse sistema depende, em grande parte, da escolha correta da biotecnologia aplicada à semente de soja. A rotação adequada promove uma redução significativa na incidência de doenças, pragas como o bicudo-do-algodoeiro e plantas invasoras, melhorando também a saúde e a estrutura do solo.

    Janela curta e escolha estratégica da semente

    A principal limitação para o produtor que adota a sucessão soja-algodão é a estreita janela de plantio. Para contornar esse obstáculo, a seleção de variedades de soja de ciclo precoce e com a biotecnologia correta torna-se uma decisão fundamental.

    Pedro Borges, gerente de Marketing de Licenciamento para a Região Norte na Corteva Agriscience, explica que a escolha errada da semente pode criar problemas na cultura seguinte. “O produtor deve evitar variedades de soja STS nessa rotação. O controle de plantas voluntárias de soja no algodoeiro fica comprometido, pois os herbicidas mais usados para esse manejo são do grupo ALS, os mesmos da tecnologia STS”, detalha Borges.

    Ele destaca que o Sistema Enlist® oferece uma solução, com um portfólio de variedades de soja não-STS desenvolvidas para esse cenário. A tecnologia auxilia no controle eficaz de plantas daninhas de difícil manejo e das soqueiras do algodão, preparando o terreno para a próxima safra.

    Controle de “ponte verde” e inimigos da produtividade

    Eliminar as soqueiras (restos de caule e raiz) e as plantas voluntárias que nascem após a colheita é uma etapa crucial. Essas plantas funcionam como uma “ponte verde”, hospedando pragas e doenças que atacam a cultura subsequente.

    “O controle da soqueira do algodão é vital para reduzir a pressão do bicudo e da ramulária. Da mesma forma, plantas daninhas como o capim pé-de-galinha e a vassourinha-de-botão, muito comuns no Centro-Oeste, causam grandes perdas produtivas se não forem manejadas na entressafra”, avalia o especialista da Corteva.

    A rotação de culturas com biotecnologias compatíveis, portanto, não só otimiza o uso da terra, mas também quebra o ciclo de pragas e patógenos, reduzindo a dependência de intervenções corretivas e gerando economia para o produtor.

  • Invasão de javalis preocupa produtores em Goiás

    Invasão de javalis preocupa produtores em Goiás

    O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) intensificou as ações de monitoramento e diálogo com produtores rurais na região da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. A iniciativa busca conter o avanço do javali (Sus scrofa), espécie exótica invasora que ameaça o Cerrado e causa prejuízos à agricultura local.

    Ibama e ICMBio atuam de forma integrada no monitoramento e prevenção da espécie exótica invasora na região da Chapada dos Veadeiro. Foto: DBFlo/Ibama

    Introduzido no Brasil nos anos 1960, o javali figura entre as cem piores espécies invasoras do mundo. Isso segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Sua alta capacidade de reprodução, adaptação e a ausência de predadores naturais favorecem a rápida expansão, impactando o meio ambiente e as lavouras. Especialmente as de milho e soja.

    No fim de novembro, equipes do Ibama realizaram vistorias em 28 propriedades rurais de seis municípios goianos. Alto Paraíso, São João da Aliança, Colinas do Sul, Nova Roma, Teresina de Goiás e Cavalcante. As inspeções, executadas no entorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV), unidade administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), registraram danos pontuais causados por javalis, como destruição de plantações e estruturas rurais, além de impactos em nascentes e áreas de preservação permanente.

    Registros se espalham

    De acordo com o Ibama, os registros concentram-se na região centro-sul de Alto Paraíso de Goiás, próxima ao Parque. O órgão considera o momento estratégico para intensificar o monitoramento e evitar a disseminação da espécie para novas áreas.

    O analista ambiental Guilherme Destro, da Superintendência do Ibama em Goiás, explica que o órgão pretende criar uma rede de colaboração envolvendo produtores rurais, instituições públicas e entidades do terceiro setor. “Os produtores estão na linha de frente e serão fundamentais para detectar sinais da presença da espécie e aplicar medidas de controle”, afirma.

    Foto: DBFlo/Ibama

    O Ibama e o ICMBio oferecerão apoio técnico e promoverão práticas de manejo para reduzir os focos de javalis já identificados. As informações coletadas devem orientar o mapeamento das rotas de invasão e o planejamento das ações preventivas. O objetivo é proteger a biodiversidade local e reduzir os prejuízos econômicos causados ao setor produtivo.

    A experiência em Goiás deve servir de modelo para outras regiões do país, fortalecendo a estratégia nacional de controle da fauna exótica invasora e a prevenção de impactos socioambientais no campo.

  • De vilã à atração: a mudança na relação com as onças

    De vilã à atração: a mudança na relação com as onças

    A expansão agropecuária está colocando em risco a sobrevivência dos grandes felinos selvagens do Brasil. Uma pesquisa pioneira da Unesp mapeou mais de 14 mil observações de nove espécies de felinos para entender como esses predadores estão se adaptando à perda de habitat em biomas como Cerrado, Amazônia e Pantanal.

    O estudo, publicado na revista científica Biological Conservation, revela que onças-pintadas, suçuaranas e jaguatiricas enfrentam paisagens cada vez mais fragmentadas, o que os força a circular próximo de fazendas, estradas e áreas urbanas – situações frequentemente perigosas tanto para os animais quanto para os humanos.

    Desmatamento ameaça habitat de grandes felinos

    Os números são alarmantes. Segundo a ONG Global Witness, apenas nos estados do Pará e Mato Grosso, foram desmatados 27 milhões de hectares do habitat original das onças-pintadas, uma área superior ao território do Reino Unido.

    Vanesa Bejarano Alegre, autora principal do trabalho e doutora pelo Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro, explica que grandes carnívoros dependem de extensas áreas preservadas para caçar suas presas naturais, como capivaras e jacarés. Quando esses animais escasseiam devido à destruição ambiental, os felinos invadem propriedades rurais em busca de bezerros e aves domésticas.

    “O resultado são confrontos violentos com cães de guarda e fazendeiros armados”, destaca a pesquisadora.

    Três perfis ecológicos de felinos brasileiros

    O estudo propôs uma classificação inédita para os felinos nacionais, dividindo-os em três categorias conforme sua tolerância a ambientes modificados pelo homem:

    • Generalistas – Adaptam-se bem a áreas antropizadas. Incluem a onça-parda, o jaguarundi e o gato-do-mato-grande (embora este último tenha surpreendido os cientistas ao evitar fazendas).
    • Especialistas flexíveis – Toleram proximidade humana, mas preferem habitats naturais. Neste grupo estão a onça-pintada (Panthera onca) e a jaguatirica (Leopardus pardalis), que evitam estradas mas utilizam paisagens heterogêneas.
    • Especialistas estritos – Altamente dependentes de cobertura florestal densa. Espécies como L. wiedii, L. guttulus e L. tigrinus raramente são vistas em áreas abertas.

    A análise utilizou dados de câmeras automáticas (camera traps) instaladas em diversos biomas brasileiros, cruzados com informações de uso do solo fornecidas pela rede MapBiomas.

    Convivência entre fazendeiros e onças mostra sinais de melhora

    Raíssa Sepulvida Alves, bióloga de campo da Panthera Brasil e coautora do estudo, observa avanços na relação entre produtores rurais e grandes felinos nos últimos 15 anos.

    Foto: Ailton Lara/Instagram

    “Antigamente, qualquer morte de gado era automaticamente atribuída às onças, resultando em retaliação. Hoje, com manuais de boas práticas e técnicas de manejo, a situação melhorou”, afirma.

    Entre as medidas eficazes estão cercas elétricas, recolhimento noturno do gado para currais distantes da mata e proteção reforçada para bezerros. Além disso, o turismo de observação de onças em regiões como Porto Jofre, às margens do Rio Cuiabá, tem transformado a percepção local.

    “As pessoas perceberam que as onças valem mais vivas do que mortas. Elas geraram uma nova fonte de renda e deixaram de ser vilãs”, conta Sepulvida.

    Desafios para conservação em um país continental

    Bejarano ressalta que não existe uma solução única para todos os contextos brasileiros. “O Brasil é um continente. Existem inúmeras comunidades com perspectivas diferentes sobre a natureza. Algumas matam por matar, outras não. Esse é o maior desafio na preservação de grandes carnívoros”, analisa.

    O estresse causado por ruídos humanos e a necessidade de forragear em áreas perigosas têm consequências graves. Pesquisas mostram que os felinos apresentam níveis elevados de cortisol e se alimentam de forma apressada nesses ambientes, reduzindo sua expectativa de vida.

    Menos de 5% do Pantanal está protegido

    Um dado preocupante é que menos de 5% do Pantanal está dentro de unidades de conservação formalmente protegidas. A maior parte do bioma consiste em propriedades privadas, o que torna essencial o trabalho de coexistência desenvolvido por organizações como a Panthera.

    O estudo também destaca a importância do compartilhamento de dados científicos. Muitas câmeras instaladas para monitorar outras espécies acabam registrando felinos, e essas informações podem ser reaproveitadas em novas pesquisas.

    Foto: Italo Garcia Alves/ Roceiro Viajante/Redes Sociais

    “Há biomas enormes, como a Amazônia, sofrendo com a falta de dados abertos”, alerta Bejarano, que atualmente trabalha como pós-doutoranda no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

    A pesquisa revela lacunas críticas no conhecimento científico sobre felinos brasileiros e oferece subsídios para políticas públicas de conservação adaptadas às necessidades específicas de cada espécie.

  • Produtor tem a maior nota da história no Concurso de Cafés de Minas

    Produtor tem a maior nota da história no Concurso de Cafés de Minas

    O agricultor familiar João Pedro Emerick Ramos, de Alto Jequitibá, na região das Matas de Minas, alcançou um feito inédito no 22º Concurso de Qualidade dos Cafés de Minas Gerais, promovido pela Emater-MG. Seu café atingiu 93,2 pontos, a maior nota já registrada desde o início da competição.

    Foto: Divulgação Emater-MG

    O anúncio dos vencedores ocorreu nesta semana, durante solenidade na sede da Emater-MG, em Belo Horizonte. As amostras foram avaliadas pela metodologia da Specialty Coffee Association (SCA), referência mundial na classificação de cafés especiais.

    Aos 24 anos, João Pedro cultiva 20 hectares de café com a família e o apoio técnico da Emater-MG. O café premiado leva o nome João Miguel, homenagem ao filho do produtor. “Desde 2019 trabalhamos com café especial. É um esforço conjunto da família, com muita dedicação e carinho. Nosso objetivo é sempre fazer tudo com excelência”, contou o campeão.

    Com o título estadual, João Pedro recebeu R$ 10 mil em prêmio. E também foi reconhecido como Produtor Destaque do programa Certifica Minas Café, o maior programa público de certificação de propriedades cafeeiras do país.

    Recorde de participação e valorização do café mineiro

    A edição de 2025 do concurso bateu recorde de inscrições, com 1.857 amostras provenientes de 162 municípios mineiros. Foram mais de 10 mil xícaras avaliadas em todas as etapas. A disputa envolveu as quatro principais regiões produtoras (Sul de Minas, Cerrado, Matas de Minas e Chapada de Minas) em duas categorias: Café Natural e Café Cereja Descascado/Despolpado/Desmucilado, com cafés 100% Arábica da safra 2025.

    Para o presidente da Emater-MG, Otávio Maia, o concurso é essencial para o desenvolvimento da cafeicultura mineira. “É uma estratégia de extensão rural e assistência técnica que incentiva a melhoria contínua da qualidade e valoriza, principalmente, a agricultura familiar presente na cafeicultura”, afirmou.

    Premiação e mercado para os cafés campeões

    Durante o evento, a cafeicultora Beatriz Aparecida de Souza Guimarães, de Serra do Salitre, no Cerrado Mineiro, recebeu o prêmio Mulher Destaque em Qualidade, com a nota de 91 pontos. Os dois primeiros colocados também receberam prêmios em dinheiro oferecidos pelo Sicoob Crediminas.

    Os cafés campeões terão compra garantida pelo Supermercado Verdemar, que pagará até R$ 6 mil por saca e lançará, em 2026, uma linha especial com os produtos vencedores.

    O secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, Thales Fernandes, destacou o papel do café no agro mineiro. “De janeiro a novembro, o agronegócio estadual exportou US$ 18,1 bilhões, superando a mineração. O café responde por 52% dessas exportações”, ressaltou.

    O Concurso de Qualidade dos Cafés de Minas Gerais é promovido pela Emater-MG, em parceria com a Seapa, Ufla, Faepe e o Conselho Nacional do Café (CNC). E tem patrocínio do Sistema Sicoob Crediminas e dos Supermercados Verdemar.

    Vencedores – Categoria Cereja Descascado

    Matas de Minas
    1º João Pedro Emerick Ramos – Alto Jequitibá – 93,2 pts – CAMPEÃO ESTADUAL
    2º Flávio José Protásio de Abreu – Espera Feliz – 92,8 pts
    3º Tatiane Larissa Quintino – Manhuaçu – 92,2 pts

    Sul de Minas
    1º Flávio Roberto Carvalho Ferraz – Dom Viçoso – 88,8 pts
    2º João Onofre da Silva – São Pedro da União – 88,7 pts
    3º Thiago Chagas de Almeida – Muzambinho – 88,4 pts

    Cerrado
    1º Beatriz Aparecida de Souza Guimarães – Serra do Salitre – 91 pts
    2º Luciano Rodrigues Carneiro – Patrocínio – 88,8 pts
    3º Eduardo Pinheiro Campos – Presidente Olegário – 87,9 pts

    Chapada
    1º Vicente de Paula Rego de Lima – Angelândia – 88,2 pts
    2º Vílson dos Reis Resende – Rio Pardo de Minas – 86,8 pts

    Vencedores – Categoria Café Natural

    Matas de Minas.
    lass=”yoast-text-mark” />>1º José Alexandre de Abreu Lacerda – Espera Feliz – 92,8 pts
    2º Augusto Evaristo Lacerda – Espera Feliz – 92,3 pts
    3º Luiz Felipe Lacerda Gomes – Espera Feliz – 91,2 pts

    Sul de Minas.
    >1º Rosângela Camelo Sebe Barbosa – Dom Viçoso – 91,4 pts
    2º Gabriel Borges Oliveira – Carmo do Rio Claro – 91,1 pts

    3º Pieter Keijsers – São Sebastião do Paraíso – 90,6 pts

    Cerrado.
    1º Sílvia Nishikawa – Campos Altos – 89,4 pts
    2º Márcia Mayumi Tomizawa – Carmo do Paranaíba – 88,1 pts
    3º Thiago Corsi – Rio Paranaíba – 87,9 pts

    Chapada.
    1º Cláudio Fujio Nakamura – José Gonçalves de Minas – 87,4 pts
    2º Ecoagrícola – Francisco Dumont – 87 pts

    Produtor Certifica Minas Café: João Pedro Emerick Ramos – Alto Jequitibá

    Mulher Destaque em Qualidade/Certifica Minas Café: Beatriz Aparecida de Souza Guimarães – Serra do Salitre

    Extensionista Destaque: Antônio Fernando Teixeira – Carangola

  • Especialistas da Nigéria e Reino Unido conhecem modelo de agricultura irrigada

    Especialistas da Nigéria e Reino Unido conhecem modelo de agricultura irrigada

    Uma comitiva de professores e pesquisadores da Nigéria e do Reino Unido chegou ao Oeste da Bahia nesta semana para mergulhar no modelo de agronegócio regional. A Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), em Luís Eduardo Magalhães, recebeu a delegação. E apresentou os programas e ações que impulsionam o desenvolvimento do setor, com ênfase no potencial da agricultura irrigada no Cerrado.

    Durante a visita, a equipe da Aiba destacou iniciativas estratégicas que consolidam a região como um polo de produtividade e tecnologia. O intercâmbio permitiu aos especialistas internacionais conhecer, na prática, os pilares do sucesso local.

    Tour técnico mostra inovação no campo

    A programação incluiu uma visita a uma propriedade rural, onde os convidados viram de perto estruturas produtivas de referência. Eles observaram sistemas de irrigação por pivô central com alta eficiência hídrica, áreas irrigadas de grande escala e modelos que aliam produtividade e sustentabilidade.

    No campo, a comitiva também teve contato direto com a infraestrutura operacional: maquinários modernos, áreas de manejo, estruturas de apoio e tecnologias avançadas de gestão agrícola. Esses equipamentos integram a rotina das fazendas e são parte fundamental do alto desempenho do setor.

    O intercâmbio ofereceu aos pesquisadores uma visão detalhada sobre a eficiência, a escala e o alto nível de inovação tecnológica que marcam a agricultura irrigada baiana. A visita reforçou o papel da Aiba e dos produtores rurais da região como protagonistas e referências mundiais no agronegócio moderno.

    A experiência pratica fortalece os laços de cooperação internacional e evidencia a capacidade do Cerrado baiano em gerar conhecimento e soluções para a agricultura global.

  • Irrigação correta de trigo no Cerrado reduz emissão de gases

    Irrigação correta de trigo no Cerrado reduz emissão de gases

    A irrigação estratégica do trigo no Cerrado corta pela metade a emissão de gases de efeito estufa, aponta estudo inédito. A pesquisa foi conduzida pela Embrapa Cerrados e avaliou o manejo hídrico em condições tropicais. Os cientistas comprovaram que irrigar no momento correto mantém a produtividade e, ao mesmo tempo, reduz impactos climáticos.

    Além disso, o estudo definiu o ponto de equilíbrio entre rendimento da lavoura e sustentabilidade ambiental.
    Segundo os pesquisadores, o solo funciona como uma esponja que armazena água para as plantas. O melhor momento para irrigar ocorre quando o solo já consumiu 40% da água disponível. Para chegar a esse resultado, os cientistas testaram quatro níveis de esgotamento da umidade do solo. Os índices avaliados foram 20%, 40%, 60% e 80% antes de cada nova irrigação. O objetivo foi medir produtividade, consumo de água e emissão de gases poluentes. Os resultados foram publicados na revista Sustainability MDPI, em artigo científico internacional.

    Ponto ideal garante produção e menor impacto climático

    Foto: divulgação – Embrapa/Joseani Antunes

    Após dois anos, os pesquisadores identificaram 40% como o nível ideal de reposição da água no solo. Nesse cenário, o trigo apresentou alta produtividade e baixas emissões de gases de efeito estufa. Segundo a pesquisadora Alexsandra Oliveira, esse manejo gerou o melhor Potencial de Aquecimento Global.
    O indicador considera as emissões de óxido nitroso e metano na lavoura. Com irrigação aos 40%, a produção média chegou a 6,8 toneladas por hectare. Ao mesmo tempo, as emissões de óxido nitroso ficaram abaixo de 3 quilos por hectare. Esse gás é quase 300 vezes mais poluente que o dióxido de carbono.

    Por outro lado, o maior impacto ambiental ocorreu com irrigação após 60% de consumo da água do solo. Nesse caso, o Potencial de Aquecimento Global atingiu 1.185,8 quilos de CO₂ equivalente. Além disso, a produtividade caiu para 5,69 toneladas por hectare.

    Em comparação, o manejo aos 40% reduziu 41,3% das emissões totais. Ainda assim, garantiu quase 20% mais produtividade na lavoura. Oliveira afirma que pequenos ajustes geram grande efeito ambiental. Segundo ela, irrigação tardia eleva as emissões e prejudica a eficiência climática.

    Solo muito seco favorece gases poluentes

    A pesquisa mostrou que longos períodos de seca do solo estimulam a produção de gases nocivos.
    Depois disso, a irrigação intensa provoca reações microbianas indesejadas. Esses processos aumentam as liberações de óxido nitroso e metano.

    O pesquisador Jorge Antonini comparou o solo a uma caixa-d’água subterrânea. Segundo ele, excesso e falta de água provocam perdas produtivas e ambientais. Ele destaca que precisão hídrica garante rendimento e menor emissão de poluentes.

    Metano vira aliado em condição ideal

    O estudo também trouxe um achado importante sobre o comportamento do metano. Em vez de emitir esse gás, o solo passou a absorvê-lo da atmosfera. Esse efeito ocorreu nas condições ideais de irrigação observadas no experimento. De acordo com Oliveira, o solo bem drenado favorece microrganismos consumidores de metano.
    Assim, um vilão climático virou aliado da produção sustentável.

    Experimento ocorreu no Cerrado entre 2022 e 2024

    O estudo foi realizado na área da Embrapa Cerrados, em Planaltina, no Distrito Federal. As lavouras seguiram o sistema de plantio direto em sucessão soja-trigo. Os pesquisadores utilizaram as cultivares BRS 4782 RR e BRS 264.

    Para controle da umidade, o grupo instalou sondas a 70 centímetros de profundidade. O pesquisador Artur Müller explicou que essa é a principal região das raízes do trigo. Já as emissões foram medidas por câmaras estáticas fechadas. Esse método é adotado pelo IPCC, da Organização das Nações Unidas.

    Trigo irrigado ganha papel estratégico

    O trigo irrigado já ocupa mais de 30 mil hectares no Cerrado. A cultura ajuda a reduzir a dependência brasileira de importações. Além disso, fortalece a produção em regiões tropicais.

    O estudo avaliou, pela primeira vez, o sistema sucessão soja-trigo irrigado. Os dados confirmam viabilidade produtiva com menor impacto ambiental. Para Oliveira, o manejo aos 40% otimiza água e fertilizantes.
    A pesquisadora defende produção de trigo com baixo carbono nos trópicos.

    Próximos estudos ampliam análise climática

    A equipe vai testar irrigação em sistemas com milho, café e soja. Os pesquisadores querem avaliar efeitos de longo prazo no clima. Também buscam soluções para tornar o Brasil referência em agricultura sustentável.
    Com isso, esperam conciliar produtividade, segurança alimentar e conservação ambiental.