Tomar café à noite para se manter acordado pode ter um efeito que vai além da simples falta de sono: de acordo com um novo estudo científico, o hábito pode aumentar a impulsividade e induzir a comportamentos arriscados. Uma equipe de biólogos da Universidade do Texas em El Paso (UTEP) conduziu a pesquisa, publicada na revista iScience, e o estudo representa um avanço importante na compreensão de como o horário de consumo da cafeína afeta o cérebro.
O estudo examinou como o consumo noturno de cafeína afeta a inibição e a impulsividade em moscas-das-frutas. Os pesquisadores Erick Saldes, Paul Sabandal e Kyung-An Han lideraram o estudo. A equipe não escolheu o modelo animal de forma aleatória: a espécie Drosophila melanogaster aparece amplamente em pesquisas científicas devido às suas semelhanças genéticas e neurais com os seres humanos, o que a torna ideal para investigar comportamentos como a impulsividade.
A motivação para a pesquisa partiu de um dado simples, mas revelador. “A cafeína é a substância psicoativa mais consumida no mundo, com cerca de 85% dos adultos nos Estados Unidos a utilizando regularmente”, afirmou Sabandal, professor assistente de pesquisa no Departamento de Ciências Biológicas da UTEP. “Dada a popularidade da cafeína, queríamos explorar se fatores adicionais influenciam seu impacto no controle comportamental.”
As moscas consumiram cafeína sob diversas condições, em diferentes doses, consumo noturno versus diurno e em combinação com privação de sono. E depois foram avaliadas quanto à impulsividade por meio da exposição a um forte fluxo de ar, um estímulo naturalmente desagradável que normalmente as faz parar de se mover.
Os resultados foram claros. “Em condições normais, as moscas param de se mover quando expostas a um forte fluxo de ar”, explicou Saldes, atualmente especialista em pesquisa científica na Universidade de Illinois College of Medicine Peoria e ex-doutorando da UTEP. “Descobrimos que as moscas que consumiram cafeína à noite tiveram mais dificuldade em suprimir o movimento. Exibindo comportamentos impulsivos, como voos imprudentes, mesmo diante dessas condições adversas.” O consumo durante o dia, por sua vez, não gerou o mesmo efeito.
Mulheres são mais sensíveis ao efeito noturno da cafeína
Um dos achados mais relevantes do estudo diz respeito às diferenças entre os sexos. Apesar de apresentarem níveis comparáveis de cafeína no organismo, as fêmeas demonstraram impulsividade significativamente maior do que os machos após o consumo noturno da substância.
Para Han, a explicação ainda precisa ser aprofundada. “As moscas não têm hormônios humanos como o estrogênio. O que sugere que outros fatores genéticos ou fisiológicos estão por trás dessa maior sensibilidade nas fêmeas”, pontuou a professora. “Compreender esses mecanismos nos ajudará a entender melhor como a fisiologia noturna e os fatores específicos do sexo modulam os efeitos da cafeína.”
Alerta para trabalhadores noturnos
Os achados podem ter implicações diretas para trabalhadores em turnos noturnos, profissionais de saúde, militares e outras pessoas que consomem café regularmente durante a madrugada para manter o estado de alerta. Além disso, os pesquisadores alertam que esses grupos podem estar inadvertidamente expostos a um maior risco de julgamento prejudicado e tomada de decisões impulsivas.
A professora Han conduziu o estudo no laboratório que coordena no Departamento de Ciências Biológicas da UTEP, onde a equipe se concentra na base neurobiológica da plasticidade comportamental, incluindo aprendizado, memória e dependência. Além de interações gene-ambiente relevantes para o Alzheimer e demências relacionadas.
Os pesquisadores concluem que os resultados revelam um risco até então pouco reconhecido no uso noturno de cafeína. E que compreender esses mecanismos pode ajudar a desenvolver diretrizes mais precisas sobre o horário ideal de consumo.
O otimismo marca a abertura da safra 2025/26 no Estado de São Paulo. Segundo o novo levantamento do Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA) e da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), divulgado pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento, as principais culturas de grãos e o café devem puxar o crescimento da produção paulista, enquanto a laranja e a cana-de-açúcar ainda enfrentam retração de área e produtividade limitada.
O milho de primeira safra desponta como o principal destaque. A produção esperada é de 2,01 milhões de toneladas, alta de 38% em relação ao ciclo anterior. O avanço reflete tanto a expansão de 23,1% da área plantada quanto o aumento de 12,2% na produtividade, que deve alcançar 7.469 kg/ha. Cinco regiões estratégicas concentram 58,6% do total produzido no estado.
A soja segue o mesmo ritmo positivo. A estimativa aponta para 4,57 milhões de toneladas, crescimento de 11% frente à safra passada. A produtividade média deve atingir 3.663 kg/ha, considerada recorde. A região de Itapeva lidera a produção, com quase 19% do total estadual, seguida por Assis e Ourinhos. Juntas, essas três regiões respondem por 39,7% do volume produzido em São Paulo.
Café mantém protagonismo e aumenta produtividade
O levantamento também projeta avanço no setor cafeeiro, com colheita estimada em 4,7 milhões de sacas de 60 kg. Apesar da redução de 0,9% na área cultivada, a produtividade deve subir 5,7%. A regional de Franca mantém a liderança e deve responder por mais de 57% da produção estadual, com cerca de 2 milhões de sacas.
Em seguida aparecem São João da Boa Vista, com 1,1 milhão de sacas (23,6%), e Ourinhos, que supera Marília pela primeira vez e assume a terceira posição no ranking paulista.
Laranja e cana recuam na safra 2024/25
Os números consolidados da safra 2024/25 mostram dificuldades para a citricultura e a cana-de-açúcar. A produção de laranja fechou em 268,7 milhões de caixas, alta de 2,8% na produtividade (30.965 kg/ha), mas com redução de 9,5% da área cultivada. O recuo está ligado ao avanço do greening, doença que ameaça pomares em todo o mundo, e às variações climáticas registradas durante o ciclo.
Já a cana-de-açúcar destinada à indústria fechou o período com 390,9 milhões de toneladas, queda de 4,6% ante a safra anterior. A área total recuou 4,8%, para 5,5 milhões de hectares, enquanto a produtividade, de 78.057 kg/ha, cresceu levemente 0,5%. As regionais de São José do Rio Preto (8,2%), Barretos (7,2%) e Ribeirão Preto (6,8%) concentram 22,2% da produção estadual.
Como o levantamento foi realizado
O levantamento do IEA-APTA contou com a participação das Casas de Agricultura dos 645 municípios paulistas, entre novembro e dezembro de 2025. O estudo reúne as culturas de maior relevância econômica e avalia o comportamento da área plantada, produtividade e volume produzido. O instituto divulga cinco relatórios anuais com previsões e estimativas sobre a agricultura paulista.
Em Rondônia, na fronteira entre Amazônia e Cerrado, um grão antes visto como “amargo” está ganhando protagonismo nas xícaras e nos debates sobre clima. O robusta amazônico, cultivado por povos indígenas e pequenos produtores. Mais adaptado ao calor do que o arábica, ele desponta como peça estratégica para manter a oferta global de café em um cenário de temperaturas em alta e eventos extremos cada vez mais frequentes.
Dentro da Terra Indígena Sete de Setembro, entre Rondônia e Mato Grosso, o café não nasceu como tradição ancestral, mas como herança incômoda. As primeiras lavouras foram deixadas por colonos e invasores que ocuparam a região antes da demarcação, trazendo consigo desmatamento, violência e ruptura territorial.
Diante desse legado, parte do povo Paiter Suruí quis arrancar os pés de café. Outra parte viu ali uma oportunidade de ressignificar a cultura e transformar a plantação em fonte de renda. E de proteção da floresta. Ao longo dos anos, com capacitações técnicas e parcerias, os indígenas aprenderam a manejar, fermentar e beneficiar o grão, elevando a qualidade da bebida e conquistando mercados de maior valor agregado.
Hoje, cerca de 130 a 140 famílias Paiter Suruí produzem robusta amazônico em pequenas áreas, em um território de mais de 248 mil hectares, onde o modo de vida tradicional segue ligado à floresta e ao extrativismo. O grão cultivado ali já foi reconhecido como patrimônio cultural e imaterial de Rondônia. E vem se consolidando como um café de origem, com identidade própria.
Robusta em alta em um planeta mais quente
Historicamente, o robusta foi visto como um café de menor prestígio, associado a blends baratos e a uma bebida mais áspera. Isso quando comparado ao arábica. Mas a combinação entre ciência, manejo adequado e clima mais quente está mudando essa percepção, dentro e fora do Brasil.
Pesquisas mostram que o robusta tolera temperaturas mais elevadas do que o arábica. E tende a ter papel crucial na manutenção da oferta, à medida que áreas adequadas para café encolhem com o avanço da crise climática. Entre o início dos anos 1990 e 2023, a participação do robusta no total produzido no mundo subiu de cerca de 28% para algo em torno de 44%. Este movimento foi impulsionado principalmente por Brasil, Vietnã e países da Ásia e da África.
Ao mesmo tempo, relatórios recentes indicam que os principais países produtores já enfrentam mais dias de calor prejudicial à cultura do café, aumento de secas e maior pressão de pragas e doenças. Em cenários projetados até 2050, a área global com condições ideais para o cultivo de café, tanto arábica quanto robusta, pode cair pela metade ou mais, dependendo do nível de aquecimento e de adaptação tecnológica.
Embrapa, genética e manejo de precisão
No Brasil, a resposta passa por pesquisa genética, sistemas produtivos mais eficientes e integração com a floresta. Em duas décadas, programas da Embrapa e de instituições parceiras multiplicaram a produtividade do robusta, combinando materiais genéticos de conilon e robusta em cruzamentos voltados para maior rendimento, tolerância a calor e seca e aprimoramento sensorial.
Hoje, dezenas de novos cruzamentos estão em teste em Rondônia e em outras regiões, buscando plantas mais resilientes a extremos climáticos, com melhor xícara e maior estabilidade de produção. Ao lado da genética, pesquisadores e técnicos reforçam que o salto de qualidade depende de colheita seletiva, pós-colheita cuidadosa e secagem adequada, práticas que podem transformar um robusta genérico em um robusta especial.
Outro eixo é o manejo integrado com árvores e fragmentos florestais, que ajudam a regular temperatura, manter umidade, favorecer polinizadores e controlar pragas de forma natural. Esse desenho, mais próximo de sistemas agroflorestais, ganha destaque justamente na Amazônia, onde a pressão por abertura de áreas para pecuária ainda é forte.
Pequenas propriedades mostram o caminho
Na região das Matas de Rondônia, selo de Indicação Geográfica concedido ao território de cafés robusta de qualidade, cerca de 10 mil propriedades cultivam café, em sua maioria pequenas e conduzidas por famílias. Apesar de o café ocupar menos de 1% da área em alguns municípios, a cultura tem servido como alternativa à conversão de floresta em pasto quando associada a boas práticas ambientais.
Um exemplo citado por técnicos e entidades do setor é o de famílias que adotam irrigação mais eficiente, plantio de árvores para proteger nascentes, criação de abelhas para reforçar a polinização e rotação de culturas com milho, feijão e outras espécies para recuperar o solo. Com esse modelo, é possível gerar renda significativa em poucos hectares, reduzindo a pressão por desmatamento e agregando valor via turismo rural, visitas guiadas e venda direta.
Entre os Paiter Suruí, o robusta amazônico também já levou prêmios nacionais e internacionais. Incluindo notas máximas em protocolos específicos para avaliação de canephora e destaque em concursos de cafés especiais. O resultado é um produto que carrega, ao mesmo tempo, narrativa de território, conservação florestal e protagonismo indígena em cadeias de valor antes dominadas por grandes produtores.
Risco de monocultura e desafio da escala
O avanço do robusta, porém, não vem sem riscos. Especialistas e lideranças indígenas alertam que preços em alta podem estimular a expansão de monoculturas em larga escala. Portanto, substituindo sistemas diversificados de pequenos produtores por grandes áreas contínuas de café, com maior impacto ambiental.
Cafeicultura em terras indígenas é sustentável e gera renda para essas comunidades. Foto: Aliny Melo/Embrapa
Sem políticas públicas que valorizem quem mantém floresta em pé, o robusta pode se tornar vetor de novo ciclo de desmatamento em áreas amazônicas e de transição, caso seja tratado apenas como commodity de curto prazo. Daí a defesa por incentivos fiscais, crédito diferenciado e programas de compras públicas que priorizem café de origem sustentável, com rastreabilidade e participação de comunidades tradicionais.
Outra frente é a mudança cultural no consumo. Pesquisadores e baristas vêm construindo uma nova gramática sensorial para o canephora, com rodas de aromas e sabores específicas, argumentando que robusta e conilon devem ser avaliados em seus próprios termos, e não pela régua do arábica. Isso abre espaço para que mercados especializados e cafeterias passem a apresentar o robusta não como “segunda categoria”, mas como um outro perfil de bebida.
Iniciativas globais e papel do Brasil
A preocupação com o futuro do café também mobiliza redes internacionais de pesquisa. A World Coffee Research (WCR) ampliou recentemente seu programa de melhoramento para incluir robusta em uma rede global de países como Vietnã, Gana, Índia, Indonésia, Ruanda e Uganda. Eles responsáveis por grande parte da produção mundial dessa espécie.
O objetivo é testar materiais genéticos em diferentes condições de solo e clima, acelerar o desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes e compartilhar dados entre instituições. Esse esforço vem ganhando peso à medida que o café se torna símbolo da vulnerabilidade da agricultura à crise climática. E ao mesmo tempo, campo de prova para estratégias de adaptação.
No Brasil, pesquisadores, agricultores e lideranças indígenas destacam que o país, maior produtor de café do mundo, tem oportunidade de liderar uma transição para sistemas que combinem robusta de alta qualidade com conservação de florestas e valorização de produtos não madeireiros, como castanha-do-brasil, açaí, cacau e outras espécies nativas. Esses produtos ainda representam fatia muito pequena do PIB nacional, mas são apontados como caminho para uma economia florestal de longo prazo.
A floresta, o café e quem vive nela
Para os Paiter Suruí e outras comunidades amazônicas, o café é hoje mais do que uma mercadoria: é uma ferramenta de afirmação territorial. Ao transformar cafezais herdados de invasores em lavouras de robusta amazônico de alta qualidade, eles mostram que é possível gerar renda mantendo a floresta em pé e ampliando o reconhecimento de seus conhecimentos tradicionais.
Lideranças indígenas lembram, contudo, que não se pode falar em futuro do café na Amazônia sem falar em quem vive dentro da floresta. A mensagem é clara: o grão robusta pode ser mais resistente ao calor, mas a verdadeira robustez do sistema depende de políticas públicas, consumo responsável e da capacidade de ouvir, e remunerar, os povos que há séculos manejam esses territórios.
Os exportadores de café do Brasil intensificam a defesa após nova investigação comercial dos Estados Unidos. O governo de Donald Trump acusa países, incluindo o Brasil, de falhas contra trabalho forçado. O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) mobiliza estratégias para responder à investigação baseada na seção 301.
O diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos, afirma que o setor já dialoga com a Associação Americana de Café. Além disso, a entidade pretende atuar diretamente nos debates e apresentar dados sobre o Brasil.
Matos reconhece que a apuração gera preocupação entre exportadores brasileiros. Ele cita um caso recente no México, onde a Justiça americana condenou uma fazenda por irregularidades trabalhistas. Por isso, o Cecafé estruturou um plano estratégico para proteger a imagem do café brasileiro.
Estratégia inclui documentos e legislação
O setor prepara documentos técnicos para explicar a legislação trabalhista brasileira aos Estados Unidos. Também destaca fiscalizações em fazendas e regras rígidas adotadas no país. Além disso, o Brasil possui a lista suja do trabalho análogo à escravidão, usada como referência internacional. Segundo Matos, essas informações serão apresentadas diretamente no processo.
Apoio do governo e reforço na fiscalização
O Cecafé também auxilia o governo brasileiro na produção de documentação técnica. Esse trabalho ocorre por meio do Pacto Social do Café com o Ministério do Trabalho. Matos afirma que a contratação de mais de 800 auditores fiscais, prevista para 2025, fortalece a defesa.
Tarifas e riscos comerciais entram no radar
Atualmente, o café em grão e o torrado do Brasil permanecem fora de tarifas nos Estados Unidos. Por outro lado, o café solúvel enfrenta taxa de 10%, com risco de subir para 15%. Matos avalia que a investigação aumenta os riscos para o setor exportador.
Setor aposta em diálogo para reduzir impactos
Na semana passada, representantes do Cecafé participaram da Convenção da Associação Americana de Café, na Flórida. O evento reuniu cerca de 800 profissionais e discutiu incertezas no mercado global. Por fim, Matos afirma que o setor mantém atuação ativa para reduzir ameaças. Ele defende maior aproximação entre empresas brasileiras e americanas para sustentar decisões comerciais.
O clima favorece a safra brasileira de café 2026/27 na maioria das regiões produtoras. Após um dezembro desafiador, 2026 trouxe condições climáticas mais favoráveis ao campo. Em dezembro, altas temperaturas e poucas chuvas prejudicaram o desenvolvimento das lavouras. Desde o início de 2026, no entanto, o cenário climático confirma perspectivas positivas aos produtores.
Segundo pesquisadores do Cepea, chuvas marcaram a primeira quinzena de março nas regiões produtoras.
Essas precipitações ajudaram o enchimento dos grãos de café arábica. Além disso, as chuvas contribuíram para o desenvolvimento final do café robusta.
Com isso, o clima favorável reforça a expectativa de safra recorde de café em 2026/27. A produção de arábica deve impulsionar principalmente esse resultado positivo.
No caso do robusta, pesquisadores indicavam uma expectativa inicial menos promissora para a temporada.
Apesar disso, as condições climáticas também favoreceram o desenvolvimento dessa variedade.
Embora março registre chuvas menos volumosas, o cenário ainda sustenta projeções otimistas. Assim, agentes do setor passaram a apostar em uma colheita próxima à safra passada.
A produção de café do Brasil na safra 2026/27 pode chegar a 75,3 milhões de sacas. A projeção consta da primeira revisão da estimativa da StoneX, empresa global de serviços financeiros, que realizou novas visitas de campo entre janeiro e março nas principais regiões produtoras do país.
O número supera em 6,5% a projeção preliminar de novembro, quando a consultoria apontava 70,7 milhões de sacas.E representa crescimento de 20,8% frente à temporada anterior.
“Depois da estimativa preliminar divulgada em novembro, voltamos a campo para avaliar com mais precisão as condições das lavouras. Apesar das instabilidades climáticas registradas no início do ciclo, observamos uma recuperação importante das plantas, favorecida pela melhora das chuvas, pela boa umidade no solo e por temperaturas mais amenas”, afirma Leonardo Rossetti, especialista em inteligência de mercado da StoneX.
O técnico de pesquisa de campo João Pena explica que o pegamento da florada superou as expectativas iniciais. “De fato houve alguns problemas no início do ciclo, com irregularidade de chuvas e episódios de abortamento de flores. Mas, no retorno a campo, verificamos que o pegamento foi superior ao esperado, o que contribuiu para a revisão positiva da produção”, diz Pena.
Arábica rumo ao recorde histórico
Para o café arábica, a consultoria projeta produção de 50,2 milhões de sacas, o que seria um recorde absoluto para a variedade. Embora algumas lavouras ainda não operem em condições ideais, praticamente todas as principais regiões apresentaram melhora desde a última avaliação.
Sul de Minas, Matas de Minas, Cerrado Mineiro e São Paulo devem registrar crescimento significativo na próxima colheita. A recuperação segue anos em que condições climáticas adversas limitaram o potencial produtivo das lavouras, incluindo os impactos mais severos observados na safra 2025/26.
“Mesmo que algumas regiões ainda apresentem produtividades abaixo do potencial máximo, a safra 2026/27 mostra uma recuperação relevante em relação ao ciclo anterior”, destaca Rossetti.
No caso do café robusta (conilon), a projeção elevou a estimativa para 25,1 milhões de sacas. O volume fica 2,8% abaixo do recorde do ano passado, mas ainda representa um patamar historicamente alto para a cultura.
As projeções para Espírito Santo e Bahia subiram levemente, mas permanecem abaixo dos níveis da temporada passada, movimento esperado após a supersafra anterior. A principal surpresa positiva veio de Rondônia, onde a produção deve crescer cerca de 66% em relação à safra anterior.
Expansão de área e tecnologia sustentam crescimento estrutural
A empresa de consultorua atribui o avanço da produção brasileira a fatores estruturais consolidados nos últimos anos: expansão da área cultivada, entrada de novas lavouras em produção e adoção crescente de tecnologias e materiais genéticos mais produtivos, especialmente no conilon.
Os preços elevados do café no mercado também contribuíram para que produtores mantivessem níveis adequados de adubação e manejo.
“O conjunto formado por expansão de área, avanço tecnológico e renovação do parque cafeeiro impulsiona o crescimento da produção brasileira. Mesmo com diferenças regionais de produtividade, esses fatores estruturais ajudam a sustentar um cenário positivo para a safra”, conclui Pena.
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, em 10 de março de 2026, a resolução A/Res/80/249, que torna o 1º de outubro o Dia Internacional do Café. Uma conquista liderada pelo Brasil e apoiada por 97 países copatrocinadores, o maior número de adesões registrado em um projeto de resolução na 80ª sessão da AGNU.
A resolução relaciona diretamente o café aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, destacando sua contribuição para a geração de emprego e renda, a igualdade de gênero e o desenvolvimento rural. Para o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, reconhecer o valor do setor cafeeiro aumentará a conscientização sobre sua importância socioeconômica e fortalecerá sua contribuição para a erradicação da pobreza.
Uma data que já existia e agora ganhou peso institucional
Embora o Dia Internacional do Café já fosse celebrado desde 2015 por iniciativa da Organização Internacional do Café (OIC), a resolução da ONU legitima a data no calendário internacional, fortalecendo a relevância global do setor. Agora, a celebração passa a ter respaldo oficial da maior organização multilateral do mundo.
A resolução enfatiza que o café não é apenas um importante produto agrícola. Mas também possui profundo valor cultural e social, intimamente ligado à vida e às tradições de muitos países.
O peso social por trás de cada xícara
Os números evidenciam a dimensão humana do setor: cerca de 25 milhões de famílias no mundo dependem do café para sobreviver. E aproximadamente 80% delas são pequenos agricultores que operam em propriedades geralmente inferiores a cinco hectares. No Brasil, mais de 300 mil famílias dedicam-se à cafeicultura, distribuídas principalmente em Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Bahia.
A resolução também prevê um novo impulso para que países, organizações internacionais e demais agentes fortaleçam a cooperação, apoiem agricultores e comunidades produtoras, promovam a inovação e o desenvolvimento sustentável da indústria cafeeira, contribuindo para a implementação da Agenda 2030.
Brasil: liderança no campo e na diplomacia
O Brasil chegou a esta conquista como protagonista incontestável. O país é responsável por cerca de 35% de toda a produção mundial de café. E liderou as negociações que reuniram 18 países no grupo central da proposta. A iniciativa percorreu instâncias da FAO antes de chegar à Assembleia Geral, reunindo apoio de nações da América Latina, África e Ásia.
Em 2025, o Brasil exportou 40,04 milhões de sacas de 60 kg, e a receita bateu recorde histórico: US$ 15,586 bilhões. Um aumento de 24,1% em relação ao ano anterior e o maior valor registrado desde 1990, quando o Cecafé iniciou o levantamento. O resultado impressiona ainda mais considerando que o volume exportado caiu em relação a 2024. O que significa que o café brasileiro valeu mais, mesmo com menos quantidade embarcada.
Mercado em ebulição: preços recordes e desafios climáticos
A oficialização da data pela ONU coincide com um dos momentos mais turbulentos do mercado cafeeiro global. Os preços atingiram níveis máximos no início de 2025, com o índice de preços composto da OIC chegando a 310,12 centavos de dólar por libra em janeiro. Mais de 75% acima do registrado no mesmo período de 2024, configurando o maior patamar desde abril de 1977.
A escalada tem origem em fatores climáticos: condições adversas no Brasil e no Vietnã provocaram uma quebra significativa na oferta global, pressionando os estoques mundiais para níveis críticos. No segmento de cafés especiais, a valorização se intensificou ainda mais. O café arábica chegou a bater US$ 3,6945 por libra em 29 de janeiro de 2025, um marco para a formação de preço global.
Por que o 1º de outubro importa além da celebração
A criação de um Dia Internacional pela ONU vai além do simbolismo. Segundo a diplomata brasileira Carla Barroso Carneiro, que liderou a proposta junto à FAO, quando uma data internacional é estabelecida, o produto em questão ganha visibilidade global. O que se traduz em acesso a mercados, maior conscientização e potencial de aumento de renda para os produtores.
Para o setor cafeeiro, a conquista chega em um momento em que sustentabilidade, adaptação climática e comércio justo estão no centro do debate. A indústria do café tem passado por uma verdadeira revolução nos últimos anos, com crescimento expressivo dos cafés especiais (grãos com notas acima de 80 pontos em critérios como acidez, aroma e sabor) que se tornaram protagonistas nas cafeterias e feiras internacionais.
Com o café consolidado como símbolo econômico, cultural e social, o 1º de outubro ganha, a partir de agora, um peso que vai muito além da xícara.
Os preços do café voltaram a subir em março após quedas registradas em fevereiro. O avanço ocorre após impactos do conflito no Oriente Médio. Os dados do Cepea mostram recuperação de parte das perdas registradas no mês anterior.
Em fevereiro, as cotações caíram no Brasil e no exterior. O mercado reagiu à expectativa de safra recorde em 2026/27. No entanto, o cenário geopolítico mudou esse movimento. O conflito no Oriente Médio voltou a pressionar o mercado global.
Além das tensões geopolíticas, o dólar ganhou força frente ao real. Esse movimento também influenciou os preços internos. Outro fator importante envolve riscos logísticos no Estreito de Ormuz. A rota concentra parte relevante do transporte marítimo mundial.
As preocupações com possíveis bloqueios elevaram as cotações do arábica na bolsa internacional.
O café arábica negociado na ICE Futures registrou valorização. Como resultado, os preços também subiram no Brasil.
Dificuldades logísticas podem afetar oferta
Pesquisadores do Cepea alertam para impactos nas rotas comerciais globais. Com custos maiores e logística comprometida, produtores asiáticos podem enfrentar dificuldades para abastecer mercados ocidentais. Ou seja, esse cenário pode reduzir a oferta disponível em alguns destinos consumidores.
Negócios avançam no mercado spot
A recente valorização estimulou negócios no mercado físico brasileiro. Ainda assim, os pesquisadores relatam negociações com volumes reduzidos. Em geral, os produtores seguem cautelosos diante das incertezas no cenário internacional e nas cotações futuras.
O Brasil exportou 2,6 milhões de sacas de café em fevereiro de 2026, volume 23,5% menor que o registrado no mesmo mês do ano anterior. A receita cambial somou US$ 1,062 bilhão, queda de 14,7% na comparação com fevereiro de 2025, segundo dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
No acumulado dos oito primeiros meses da safra 2025/26, as exportações atingiram 26,04 milhões de sacas, retração de 22,6% ante igual período anterior. Apesar disso, a receita cresceu 5,3%, alcançando US$ 10,3 bilhões entre julho de 2025 e fevereiro de 2026.
Exportações de café no ano civil
Entre janeiro e fevereiro de 2026, o Brasil embarcou 5,41 milhões de sacas, retração de 27,3% frente ao primeiro bimestre de 2025. A receita cambial recuou 13%, de US$ 2,57 bilhões para US$ 2,24 bilhões.
Segundo o presidente do Cecafé, Márcio Ferreira, a redução das exportações está ligada, principalmente, à desvalorização dos preços do café arábica na Bolsa de Nova York. Ele explica que os fundos vêm liquidando posições compradas diante da expectativa de uma safra maior, movimento que pressiona as cotações.
Ferreira ressalta ainda que o dólar mais fraco frente ao real e a capitalização dos produtores têm limitado a oferta de novos negócios, reduzindo a competitividade do café brasileiro em relação a outras origens. “Essa tendência deve continuar até a chegada da nova safra, o que pode gerar perda de market share para o Brasil”, afirma.
O dirigente alerta também que tensões geopolíticas e gargalos logísticos podem agravar o cenário. Para ele, a recuperação das exportações deve ocorrer a partir da próxima safra, especialmente com o avanço do conilon a partir de maio e do arábica em junho.
Principais destinos do café brasileiro
A Alemanha permaneceu como o principal comprador do café do Brasil no primeiro bimestre de 2026, com 786,6 mil sacas, 14,5% do total, embora o volume tenha caído 20,1% frente ao mesmo período de 2025.
Os Estados Unidos ficaram na segunda posição, com 656 mil sacas (-45,8%), seguidos por Itália (568,6 mil sacas, +5,9%), Bélgica (331,7 mil, -6,8%) e Japão (315,8 mil, -34,5%).
Tipos de café exportados
O café arábica manteve a liderança nas exportações, com 4,42 milhões de sacas enviadas entre janeiro e fevereiro, 81,8% do total, mas 28,9% abaixo do volume de 2025.
O café solúvel respondeu por 10,6% das exportações, com 573,3 mil sacas (-11,5%), enquanto os cafés canéforas (conilon + robusta) somaram 408,4 mil sacas (-27,7%). E o café torrado ou moído atingiu 5,5 mil sacas (-38,7%).
Exportação de cafés diferenciados
Os cafés diferenciados, de qualidade superior, sustentáveis ou certificados, representaram 19,8% das exportações no primeiro bimestre, com 1,07 milhão de sacas. Uma queda de 40,7% na base anual. A receita cambial totalizou US$ 493,5 milhões, redução de 31,2%.
A Alemanha foi novamente o principal destino desse segmento, com 137,7 mil sacas (12,9%). Seguida por EUA (132,1 mil), Bélgica (130,5 mil), Itália (124,2 mil) e Holanda (86,3 mil).
Principais portos exportadores
O Porto de Santos concentrou 77,9% dos embarques brasileiros de café no primeiro bimestre, com 4,22 milhões de sacas. O complexo portuário do Rio de Janeiro respondeu por 18,2%, com 983,9 mil sacas, enquanto Paranaguá (PR) somou 66,9 mil sacas (1,2%).
O relatório completo do Cecafé, com os dados atualizados de fevereiro de 2026, pode ser consultado em www.cecafe.com.br.
Os preços do café fecharam em baixa nas bolsas internacionais, influenciados pela desvalorização do real e pelas previsões otimistas para a safra brasileira. O contrato de arábica para maio (KCK26) caiu 0,51%, enquanto o robusta para maio (RMK26) recuou 1,78% na ICE.
A queda do real frente ao dólar, que atingiu o menor nível em um mês e meio, levou produtores brasileiros a aumentar as vendas externas, estimulando realizações de lucro nos contratos futuros.
Além disso, as chuvas intensas em Minas Gerais, principal região produtora de arábica no Brasil, melhoraram as expectativas para a safra 2026. Segundo a Somar Meteorologia, o estado recebeu 78 mm de chuva na semana encerrada em 20 de fevereiro, 131% acima da média histórica.
Nas últimas cinco semanas, o café acumula queda acentuada. O arábica atingiu o menor valor em 15 meses, e o robusta caiu ao patamar mais baixo em quase sete meses. A estimativa da Conab prevê uma produção recorde de 66,2 milhões de sacas em 2026, alta de 17,2% frente a 2025.
O avanço é impulsionado pelo crescimento de 23,2% na colheita de arábica (44,1 milhões de sacas) e 6,3% no robusta (22,1 milhões). O Rabobank também projeta um novo recorde na produção global, com 180 milhões de sacas na safra 2026/27, cerca de 8 milhões a mais que no ciclo anterior.
Vietnã amplia exportações e reforça pressão sobre preços
O aumento das exportações do Vietnã, maior produtor mundial de robusta, intensificou o movimento de baixa. As vendas externas vietnamitas cresceram 38,3% em janeiro em relação ao mesmo período do ano passado, alcançando 198 mil toneladas. Em 2025, o país exportou 1,58 milhão de toneladas, alta de 17,5% no ano.
A colheita de 2025/26 deve atingir o maior volume em quatro anos, com 1,76 milhão de toneladas (29,4 milhões de sacas), segundo o Escritório Nacional de Estatísticas do Vietnã.
Estoques e exportações reforçam sinal de equilíbrio no mercado
Os estoques certificados pela ICE também mostraram recuperação. O arábica subiu para 524.139 sacas, maior nível em quase cinco meses, enquanto o robusta alcançou 4.662 lotes, o maior volume desde janeiro.
Mesmo assim, o Ministério do Comércio informou queda de 42,4% nas exportações brasileiras de café em janeiro, totalizando 141 mil toneladas. Já na Colômbia, o segundo maior produtor de arábica do mundo, a produção de janeiro despencou 34%, para 893 mil sacas.
Panorama global do café
A Organização Internacional do Café (OIC) relatou que as exportações mundiais caíram 0,3% no atual ano-safra, totalizando 138,6 milhões de sacas.
O relatório do Serviço de Agricultura Estrangeira (FAS/USDA) projeta aumento de 2% na produção global em 2025/26, para um recorde de 178,8 milhões de sacas. A produção de arábica deve cair 4,7%, enquanto a de robusta pode crescer 10,9%. O Brasil deve colher 63 milhões de sacas (-3,1%), e o Vietnã pode chegar a 30,8 milhões (+6,2%).
Os estoques finais globais devem cair 5,4%, de 21,3 milhões para 20,1 milhões de sacas, sinalizando que o aumento da produção deve ser parcialmente absorvido pela demanda.