Uma operação conjunta entre o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e autoridades venezuelanas resultou na repatriação de 127 canários-da-terra (Sicalis flaveola flaveola) à Venezuela, entre os dias 9 e 12 de dezembro. As aves foram interceptadas pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, na capital amazonense, em uma ação de combate ao tráfico internacional de fauna silvestre.
As aves estavam sendo transportadas ilegalmente para Guarulhos, em São Paulo, onde seriam comercializadas no mercado negro de animais silvestres. Após a apreensão, os canários foram encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres do Amazonas (Cetas/AM), unidade do Ibama especializada no atendimento de fauna apreendida.
No Cetas, os animais receberam atendimento veterinário especializado e foram submetidos a rigorosos protocolos de avaliação sanitária e monitoramento, garantindo as condições adequadas para a repatriação.
Em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e a Polícia Federal, a equipe do Ibama realizou análises morfológicas detalhadas e estudos de isótopos estáveis nos espécimes apreendidos. Os resultados foram conclusivos: os canários-da-terra possuem distribuição natural exclusiva no território venezuelano e não fazem parte da fauna nativa brasileira.
Diante dessa constatação científica, a soltura das aves em território nacional foi descartada. Segundo especialistas, a introdução de espécies exóticas no ambiente pode causar sérios desequilíbrios ecológicos, incluindo competição com espécies nativas, transmissão de doenças e alteração de ecossistemas locais.
Diplomacia ambiental em ação
Com base nos laudos técnicos, o governo brasileiro iniciou as tratativas diplomáticas com as autoridades ambientais venezuelanas para viabilizar o retorno dos animais ao seu habitat de origem. O processo envolveu articulação entre órgãos ambientais dos dois países e seguiu protocolos internacionais de cooperação em biodiversidade.
A entrega oficial dos 127 canários-da-terra aos representantes do órgão ambiental venezuelano ocorreu na quinta-feira, 11 de dezembro, concluindo com sucesso a missão de repatriação.
Compromisso contra o tráfico de animais
A operação reforça a atuação do Ibama no combate ao tráfico internacional de fauna e destaca a importância da cooperação entre países para a proteção da biodiversidade. De acordo com o instituto, a destinação ambientalmente adequada de animais apreendidos é prioridade, assegurando que retornem ao seu ambiente natural sempre que possível.
O tráfico de animais silvestres é considerado a terceira atividade ilegal mais lucrativa do mundo, movimentando bilhões de dólares anualmente. No Brasil, o comércio ilegal de fauna é crime ambiental previsto na Lei 9.605/98, com penas que variam de seis meses a um ano de detenção, além de multas.
Conscientização é fundamental
O Ibama reforça o alerta à população: não compre animais silvestres. Ao recusar o comércio ilegal, cada cidadão contribui diretamente para a preservação da fauna brasileira e combate redes criminosas que lucram com o sofrimento animal e a destruição da biodiversidade.
Para denunciar o tráfico de animais silvestres, a população pode utilizar a Linha Verde do Ibama pelo telefone 0800-61-8080 ou fazer denúncias online através do portal do instituto.
A história começa bem antes do que imaginávamos. Enquanto cientistas ao redor do mundo tentavam entender porque populações inteiras de sapos, rãs e pererecas estavam desaparecendo, a resposta estava escondida em museus brasileiros desde 1916. Um fungo microscópico, silencioso e letal, já habitava nosso território décadas antes de se tornar uma ameaça global.
O vilão da história tem nome científico complicado: Batrachochytrium dendrobatidis, chamado simplesmente de Bd pelos pesquisadores. Esse fungo quitrídio causa uma doença devastadora chamada quitridiomicose, que já levou ao declínio de pelo menos 500 espécies de anfíbios anuros ao redor do planeta.
Mas não é qualquer linhagem do fungo que está no centro desta descoberta. É especificamente a Bd-Brazil, uma variante genética que, como o nome sugere, nasceu aqui. E um estudo publicado recentemente na revista Biological Conservation finalmente comprova o que pesquisadores brasileiros suspeitavam há anos: essa linhagem se originou mesmo no Brasil e se espalhou para o mundo todo.
A polêmica sobre a origem do fungo
A jornada para confirmar a origem brasileira da linhagem não foi simples. Em 2012, quando os cientistas identificaram essa variante pela primeira vez no país, batizaram ela de Bd-Brazil. Parecia óbvio, certo? Nem tanto.
Em 2018, um artigo na prestigiada revista Science contestou essa origem. Os autores argumentaram que a linhagem poderia ter vindo da Península Coreana, propondo até renomear o genótipo como Bd-Asia-2/Bd-Brazil. Foi uma reviravolta que colocou em xeque a hipótese brasileira.
Mas os pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) não desistiram. Liderados por Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia, e com trabalho de doutorado de Luisa P. Ribeiro, a equipe reuniu evidências de múltiplas fontes para resolver essa controvérsia de uma vez por todas.
“Esse genótipo tem alta prevalência em diferentes espécies nativas do Brasil, com registros muito antigos”, explica Ribeiro, primeira autora do estudo apoiado pela FAPESP. “Quando olhamos em outros lugares, os registros são bem mais recentes e ocorrem apenas em rãs-touro e outras espécies exóticas.”
O trabalho de detetive científico
Para provar que a Bd-Brazil realmente se originou aqui, os pesquisadores viraram verdadeiros detetives. Eles cruzaram dados de várias fontes: literatura científica antiga, amostras de anfíbios preservados em museus desde o século 19, análises genéticas de rãs criadas em ranários brasileiros e investigações sobre o comércio internacional de carne de rã.
Colaboradores estrangeiros examinaram nada menos que 2.280 espécimes de anfíbios coletados entre 1815 e 2014, guardados em museus de zoologia ao redor do mundo. Quarenta deles testaram positivo para o Bd.
Microscopia do fungo quitrídio Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), agente causador da quitridiomicose, mostra zoosporângios e zoósporos responsáveis pela infecção em anfíbios. Foto: Mariana Pontes/Fapesp/LEAD Technologies Inc. V1.01
O registro mais antigo de infecção? Um sapo da espécie Alytes obstetricans, coletado em 1915 nos Pireneus franceses. Mas o segundo mais antigo veio de um sapo brasileiro da espécie Megaelosia goeldii, presente no Rio de Janeiro, coletado em 1964.
Aqui está o detalhe crucial: a Bd-Brazil já estava presente no Brasil em 1916, duas décadas antes das primeiras rãs-touro norte-americanas chegarem ao país. Isso já tinha sido indicado em um artigo de 2014 na Molecular Ecology, mas agora as evidências ficaram ainda mais robustas.
As rãs-touro: vetores involuntários da tragédia
Se o fungo é brasileiro, como ele se espalhou pelo mundo? A resposta está nos ranários e no apetite global por carne de rã.
A rã-touro (Aquarana catesbeiana), espécie norte-americana, foi introduzida no Brasil pela primeira vez em 1935. Uma segunda população chegou nos anos 1970. Os criadores brasileiros descobriram que esse animal de grande porte e carne saborosa era perfeito para a aquicultura comercial.
O problema é que as rãs-touro criadas em ranários brasileiros carregavam a Bd-Brazil. E quando essas rãs começaram a ser exportadas para diversos países, levaram o fungo junto.
Os pesquisadores analisaram impressionantes 3.617 rotas do comércio internacional de carne de rã, envolvendo 48 países. Apenas 12 foram identificados como exportadores, 21 como importadores e 15 faziam os dois papéis.
Ranário brasileiro dedicado à criação de rãs-touro (Aquarana catesbeiana). Uso de água do entorno sem tratamento e alta densidade de animais podem contribuir para infecção por fungo presente no ambiente. Foto: Luisa Ribeiro
O Brasil exportou diretamente para os Estados Unidos entre 1991 e 2009. Os americanos, por sua vez, exportaram para a Coreia do Sul em 2004 e 2008. A linhagem foi detectada em todos esses países, mas sempre em datas posteriores à sua presença confirmada no Brasil.
“Não poderíamos identificar exatamente a linhagem em uma grande amostra de anfíbios depositados em museus, uma vez que a conservação nem sempre é a desejável para manter essa informação”, reconhece Toledo. “Por isso, identificamos apenas presença ou ausência do fungo nesses indivíduos e buscamos outras evidências que pudessem indicar ou não a origem brasileira.”
Por que isso importa?
A Bd-Brazil é prevalente no Brasil, com mais da metade das ocorrências em alguns ranários. Paradoxalmente, ela é menos virulenta que outras linhagens, como a Bd-GPL, provavelmente originária da Ásia.
Aqui no Brasil, o fungo está presente tanto em criações comerciais quanto na natureza. Algumas espécies nativas até carregam o patógeno sem desenvolver a doença. Mas quando exportado para outros ecossistemas, o fungo encontra anfíbios sem defesas evolutivas contra ele.
O resultado? Declínio catastrófico de populações em diversos países.
Ribeiro, que atualmente realiza pós-doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta a importância da descoberta: “Mesmo sem sabermos a linhagem em todos os casos, encontramos registros mais antigos do que os reportados anteriormente na literatura e apresentamos uma revisão de registros históricos de Bd no mundo.”
O alerta dos cientistas
O estudo, que integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, traz um recado urgente para autoridades sanitárias e ambientais globalmente.
Os autores ressaltam a necessidade urgente de medidas de prevenção robustas: controles rígidos de importação, triagem sistemática de patógenos em animais comercializados e protocolos rigorosos de quarentena. Tudo isso com regulamentação e monitoramento em escala global para salvaguardar as espécies nativas.
A descoberta também levanta questões sobre nossa responsabilidade. Se um patógeno brasileiro se espalhou pelo mundo através do comércio, que outros riscos invisíveis podem estar viajando nas cargas de animais vivos que cruzam fronteiras diariamente?
Por enquanto, os cientistas conseguiram resolver um mistério de décadas. A Bd-Brazil nasceu aqui, cresceu aqui, e daqui partiu para se tornar uma ameaça global aos anfíbios. Resta agora usar esse conhecimento para proteger as espécies que ainda restam.
Pescadores que navegavam pelo Rio Ivinhema, em Mato Grosso do Sul, registraram um momento raro e impressionante da natureza: uma sucuri-verde (Eunectes murinus) predando um jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris). As imagens, que voltaram a circular nas redes sociais esta semana, mostram a cobra completamente enrolada em sua presa, em uma demonstração da força e da paciência características da espécie.
https://www.instagram.com/reel/DHlnR8KRi1m
No vídeo, é possível observar a sucuri mantendo o jacaré firmemente preso em seus anéis musculosos, aguardando que o réptil sucumba por asfixia. Segundo o autor das imagens, o embate entre os dois animais teria durado aproximadamente três dias, evidenciando a resistência de ambas as espécies e a estratégia de caça da sucuri.
Embora o registro tenha sido divulgado inicialmente no início do ano, o material ganhou nova repercussão nas últimas semanas, chamando a atenção de especialistas em vida selvagem e curiosos sobre a fauna brasileira.
A sucuri-verde é considerada uma das maiores e mais pesadas cobras do mundo. Ela pode atingir até 9 metros de comprimento e pesar mais de 200 quilos. Encontrada principalmente na Bacia Amazônica e no Pantanal, a espécie é conhecida por seu comportamento aquático e por sua técnica de caça por constrição.
Diferentemente das serpentes venenosas, a sucuri mata suas presas através da constrição, enrolando-se ao redor do animal e apertando gradualmente até que a vítima morra por asfixia ou parada cardíaca. A dieta da espécie é variada e inclui capivaras, veados, aves aquáticas e, como mostra o vídeo, jacarés de pequeno e médio porte.
A espécie é semi-aquática e passa grande parte do tempo submersa ou próxima a corpos d’água, onde encontra melhores condições de caça e termorregulação. Apesar de seu tamanho impressionante, a sucuri-verde não representa perigo significativo para humanos, sendo geralmente tímida e evitando o contato.
Jacaré-de-papo-amarelo: predador que virou presa
O jacaré-de-papo-amarelo é um crocodiliano de médio porte nativo do Brasil, encontrado principalmente em rios, lagoas e pântanos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país. A espécie pode chegar a 2,5 metros de comprimento e apresenta coloração amarelada característica na região da mandíbula e do pescoço, o que facilita sua identificação.
Apesar de ser um predador topo de cadeia em muitos ecossistemas, o jacaré-de-papo-amarelo pode se tornar presa de animais maiores, como grandes sucuris e onças-pintadas. A espécie está classificada como “Pouco Preocupante” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Mas enfrenta ameaças devido à perda de habitat e à caça ilegal.
Os jacarés desempenham papel ecológico fundamental no controle de populações de peixes e outros animais aquáticos, contribuindo, portanto, para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos brasileiros.
Encontro raro reforça riqueza da biodiversidade
O registro feito no Rio Ivinhema reforça a riqueza da biodiversidade de Mato Grosso do Sul. E também a importância da preservação dos ecossistemas aquáticos da região. Interações predatórias entre grandes répteis, embora naturais, raramente são documentadas, tornando o vídeo um importante registro científico e educacional.
Especialistas ressaltam que episódios como este demonstram a complexidade das relações ecológicas nos biomas brasileiros. E, além disso, a necessidade de políticas efetivas de conservação ambiental para garantir a sobrevivência dessas espécies emblemáticas da fauna nacional.
A turista Eunyce Ribeiro compartilhou um registro raro de duas onças-pintadas descansando em uma árvore às margens de um rio no Pantanal mato-grossense. A criadora de conteúdo, que acumula mais de 100 mil seguidores no Instagram, publicou o vídeo essa semana em seus stories e reels.
As imagens mostram a onça deitada sobre um galho, observando o movimento ao redor. Eunyce narra a cena com entusiasmo e afirma que chegou “na hora certa” para registrar o felino. O animal aparece tranquilo e atento à margem do rio durante o passeio de barco.
“A onça no Pantanal! É lógico que a blogger aqui não poderia deixar de fazer esse registro lindo, né?”, escreveu a influenciadora na legenda. O vídeo recebeu centenas de comentários em poucas horas.
Pesquisadores e fotógrafos que atuam no Pantanal identificaram as duas onças como Patrícia e seu filhote Makala. A fêmea se destaca como uma das mais famosas da região e serve como referência de maternidade entre os felinos. Makala, por sua vez, herdou o território da mãe e aparece com frequência em avistamentos feitos por guias e biólogos.
O Parque Estadual Encontro das Águas, onde Eunyce fez o registro, concentra a maior população de onças-pintadas do planeta. Especialistas consideram a presença de fêmeas com filhotes, como Patrícia, um indicador positivo para a conservação da espécie. O cenário demonstra estabilidade populacional e abundância de alimento no bioma pantaneiro.
Internautas encheram a publicação de elogios. “Que linda, nossa blog arrasa”, comentou uma seguidora. Outra brincou com a situação: “Nyce, minha filha, cuidado com essas onças, são lindas demais, mas vem embora menina”.
Agentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) resgataram 35 aves silvestres durante operação realizada entre 14 e 16 de outubro nos municípios mineiros de Arcos, Lagoa da Prata e Moema. A Operação Gênesis reuniu equipes do Ibama, da Companhia de Polícia Militar de Meio Ambiente de Minas Gerais e da Guarda Civil Municipal de Lagoa da Prata.
Foto: Divulgação/Ibama
A fiscalização identificou um esquema de fraude no Sistema de Controle e Monitoramento da Atividade de Criação Amadora de Pássaros (SisPass). Criadores registravam nascimentos falsos de filhotes no sistema e reutilizavam anilhas antigas em aves capturadas ilegalmente na natureza. O esquema visava dar aparência de legalidade aos animais para comercializá-los.
Os agentes encontraram aves com anilhas que indicavam mais de 20 anos de idade, período incompatível com a expectativa de vida das espécies. A operação resultou em seis autos de infração, totalizando R$ 154 mil em multas. As autoridades excluíram cerca de 200 registros fraudulentos do SisPass.
O Ibama encaminhou os animais ao Hospital Veterinário da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) para avaliação. A maioria das aves apresentava sinais de maus-tratos devido às condições sanitárias inadequadas do cativeiro.
Fiscalização impede tráfico internacional de 18 aves nativas no Aeroporto de Guarulhos
No último sábado (18), agentes do Ibama impediram o tráfico internacional de 18 aves silvestres brasileiras no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. A fiscalização detectou os animais através do raio-x durante a inspeção de bagagens.
Um dos exemplares resgatados pelo Ibama, espécie saíra-lagarta. Foto: Marcos Hiroshi/Ibama
Os fiscais encontraram as aves escondidas em pequenas caixas dentro de uma mala. Entre os animais resgatados estavam sete saíras-douradinhas (Tangara cyanoventris), cinco saíras-sete-cores (Tangara seledon), dois tangarazinhos (Ilicura militaris), duas saíras-lagartas (Tangara desmaresti) e duas saíras-militares (Tangara cyanocephala). Algumas espécies enfrentam ameaça de extinção.
Um passageiro belga tentava embarcar para a França sem documentação que autorizasse o transporte dos animais. O infrator recebeu multa de R$ 72 mil por violação do Decreto nº 6.514/2008, que trata da captura, transporte e maus-tratos a animais silvestres.
O Ibama encaminhou as aves ao Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras), no Parque Ecológico do Tietê. Os animais recebem atendimento veterinário e cuidados especializados para garantir sua reabilitação e posterior retorno à natureza.
Saíra-militar resgatada pelo Ibama. Foto: Marcos Hiroshi/Ibama
O transporte irregular de espécies nativas ameaça a biodiversidade brasileira e compromete o equilíbrio dos ecossistemas. As operações reforçam a importância da fiscalização constante contra o tráfico de animais silvestres, crime que coloca em risco a conservação das espécies e dos biomas brasileiros.
O programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP) financia projetos estratégicos que monitoram espécies terrestres e marinhas ameaçadas na região. As iniciativas fortalecem Unidades de Conservação e ampliam o conhecimento científico sobre a biodiversidade local.
O MegaCoast-PR, que a Associação MarBrasil coordena, acompanha a megafauna marinha, incluindo golfinhos, baleias, tartarugas, aves e tubarões. O projeto One Blue Health avalia a saúde dos ecossistemas através de análises integradas de fauna, ambiente e seres humanos. Em terra, o Monitora Serra do Mar observa grandes mamíferos e aves ameaçadas, como onça-pintada, anta, queixada, puma, veado, cateto, macuco, inhambus, urus e jacutinga, além de monitorar o ecossistema de Floresta Atlântica.
Região abriga patrimônio natural da humanidade
O litoral paranaense representa uma das regiões mais singulares do Brasil. A Unesco reconhece a área como Patrimônio Natural da Humanidade. O território abriga áreas Ramsar, sítios de relevância internacional para conservação de áreas úmidas, e integra a Grande Reserva Mata Atlântica — maior remanescente protegido do bioma no mundo, com quase 3 milhões de hectares de áreas naturais, florestas, manguezais e águas costeiras preservadas no Paraná, Santa Catarina e São Paulo.
A região funciona como berçário, área de alimentação e rota migratória para espécies raras, endêmicas e ameaçadas.
“A região abriga espécies que só ocorrem aqui, como o papagaio-de-cara-roxa, uma ave endêmica do litoral norte do Paraná e sul de São Paulo. Também serve de rota para baleias-francas, golfinhos, tubarões-martelo, raias-manta e aves migratórias que vêm da Antártica e da Europa”, explica Camila Domit, pesquisadora do Laboratório de Ecologia e Conservação (LEC) da UFPR e da Associação MarBrasil, coordenadora do projeto MegaCoast-PR.
A Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) protege o papagaio-de-cara-roxa há mais de 20 anos e conseguiu reverter a tendência de desaparecimento da espécie.
DNA ambiental revoluciona monitoramento marinho
O projeto MegaCoast emprega DNA ambiental, metodologia inovadora que revoluciona o monitoramento de espécies marinhas. Os pesquisadores coletam amostras de água e identificam, por meio de fragmentos genéticos presentes no líquido, quais espécies de animais ou microrganismos circulam naquele ecossistema.
O método já detectou bactérias que sinalizam riscos não apenas para a fauna, mas também para a saúde humana.
“Detectamos bactérias com alta resistência a antibióticos, o que levanta questões sobre a relação entre saúde do ecossistema, da fauna e dos humanos. Golfinhos compartilham conosco a cadeia alimentar e funcionam como sentinelas da saúde ambiental. Quando eles adoecem, nós também ficamos vulneráveis”, afirma Camila Domit.
Rastreamento acústico conecta Paraná a rede nacional
O MegaCost-PR inova também com rastreamento acústico de animais marinhos, em parceria com o LEC/UFPR e o Projeto Meros do Brasil. A iniciativa conecta o Paraná a uma rede de telemetria que se estende do Norte ao Sul do país.
Foto: Divulgação
O sistema permite identificar áreas prioritárias para conservação e acompanhar trajetos de espécies migratórias ameaçadas, como peixes ósseos, tubarões, raias e tartarugas marinhas. Essas informações subsidiam políticas públicas brasileiras e convenções internacionais das quais o Brasil participa, como a Comissão de Espécies Migratórias (CMS).
Ciência cidadã aproxima comunidade da conservação
O projeto incentiva a participação popular no monitoramento. “Qualquer pessoa pode contribuir registrando avistagens de golfinhos, baleias e tartarugas em nosso site ou comunicando via perfil de mídia social @lecufpr. A ciência cidadã colabora com o monitoramento e aproxima comunidades pesqueiras e litorâneas do processo de construção do conhecimento regional da biodiversidade”, completa a pesquisadora.
O diálogo com comunidades tradicionais e pescadores artesanais locais também ajuda a mitigar conflitos pelo uso de áreas comuns entre espécies ameaçadas e atividades econômicas. “As mesmas áreas de alta produtividade pesqueira servem de alimentação para fauna marinha. Mapeamos essas sobreposições e construímos, junto com as comunidades, soluções que conciliem direitos e usos, integrando conservação, aspectos culturais e segurança alimentar”, explica Camila.
Grandes mamíferos desaparecem da Mata Atlântica
A floresta litorânea também emite sinais de alerta. O Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, que reúne diferentes iniciativas voltadas à conservação de espécies-chave da Mata Atlântica, inclui o projeto Monitora Serra do Mar. O BLP apoia a iniciativa, que o IPeC – Instituto de Pesquisas Cananeia executa com o Instituto Manacá.
O projeto acompanha quatro espécies emblemáticas: onça-pintada, onça-parda, anta e queixada. Todas enfrentam ameaças na Mata Atlântica, sendo que três delas já aparecem classificadas como “criticamente ameaçadas” no Paraná.
“A anta praticamente desapareceu das florestas de terras baixas do litoral, e a onça-pintada mantém hoje uma população muito baixa, restrita a áreas remotas da Serra do Mar”, alerta Roberto Fusco, coordenador do projeto Monitora Serra do Mar.
Espécies funcionam como sentinelas ambientais
Especialistas consideram essas espécies como sentinelas ambientais. Por serem mais vulneráveis à caça e à perda de habitat, esses animais desaparecem primeiro, indicando assim a qualidade de conservação de uma floresta. Além disso, são espécies-guarda-chuva: sua proteção garante a conservação de diversos outros organismos e do próprio habitat.
Apesar do cenário crítico, Fusco vê sinais de esperança. “Em áreas com fiscalização intensiva, identificamos indícios de recuperação. Esses dados nos permitem recomendar regiões estratégicas para reforço populacional, com solturas de antas e queixadas. No caso da onça-pintada, os desafios logísticos e genéticos são maiores, mas não descartamos essa possibilidade”.
Plataforma SMART digitaliza monitoramento
As novas ferramentas de monitoramento formam parte central da estratégia de conservação que o BLP apoia. Uma delas é o SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tools), plataforma que dezenas de países usam e que digitaliza e padroniza dados de campo. O sistema permite que patrulhas registrem em tempo real desde avistamentos de fauna até atividades ilícitas como caça e extração de palmito.
Foto: Divulgação
No Paraná, essa tecnologia se integrou ao Programa Monitora, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), iniciativa nacional que coleta e analisa informações sobre biodiversidade em UCs de todo o país. Em parceria com o Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, gestores de UCs da região receberam treinamento para aplicar o SMART, utilizar armadilhas fotográficas e sistematizar dados na produção de indicadores sobre médios e grandes mamíferos ameaçados de extinção e alvos de caça ilegal.
Comunidades locais reforçam fiscalização
Essa integração fortaleceu a fiscalização e o manejo da biodiversidade e abriu espaço para o engajamento da sociedade. “Ao capacitar comunidades locais para usar essas ferramentas, consolidamos Agentes de Monitoramento que reforçam a fiscalização, ampliam a intolerância à caça ilegal e ainda geram renda”, explica Roberto Fusco.
Para Camila Domit, o diálogo que nasce a partir desses resultados também é político. “Os dados do projeto devem orientar gestores públicos, empreendedores e órgãos licenciadores. Trata-se de qualificar as metodologias de monitoramento, reduzir custos e, sobretudo, harmonizar os diferentes usos do território sem perder de vista a vida que depende dele”.
Programa transforma passivo ambiental em investimento
O Programa Biodiversidade Litoral do Paraná surgiu em 2021 e promove conservação, pesquisa e uso responsável dos recursos naturais, fortalecendo Unidades de Conservação e impulsionando o desenvolvimento sustentável do litoral paranaense.
O Termo de Acordo Judicial (TAJ), firmado após o vazamento de óleo ocorrido em 2001, financia o Programa. A iniciativa transformou um passivo ambiental em investimento histórico em conservação: mais de R$ 110 milhões destinados a iniciativas estratégicas ao longo de dez anos.
O Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) iniciou uma campanha para eliminar uma velha conhecida das ruas e praças do estado: a espatódea (Spathodea campanulata). Embora suas flores alaranjadas chamem atenção, a espécie esconde um perigo real para as abelhas. Por isso, o governo decidiu proibir o plantio, a produção e a manutenção dessa árvore em todo o território catarinense.
A espatódea veio da África Ocidental e se espalhou pelo Brasil porque cresce rápido e tem aspecto ornamental. No entanto, pesquisadores descobriram que o néctar, o pólen e até a mucilagem das flores contêm substâncias tóxicas capazes de matar abelhas nativas. Além disso, o veneno também afeta a Apis mellifera, espécie exótica utilizada na produção de mel.
As abelhas polinizam a maior parte das frutas, legumes e grãos produzidos no país. Por isso, quando morrem intoxicadas, toda a cadeia natural e agrícola sofre as consequências. Sem elas, muitas lavouras não produzem e as florestas têm dificuldade em se regenerar.
“A publicação dessa lei é um passo importante para que cada vez mais a sociedade aprenda e se envolva no manejo consciente e responsável das espécies da flora e da fauna que lidam no dia a dia, buscando promover mais equilíbrio ambiental do que impactos”, afirma Elaine Zuchiwschi, coordenadora do Programa Estadual de Espécies Exóticas Invasoras do IMA.
Foto: Divulgação – IMA/SC
O que determina a lei catarinense
A Lei Estadual nº 17694 de 2019 proíbe o plantio, a produção e a manutenção da espatódea em Santa Catarina. Dessa forma, os exemplares existentes devem ser cortados e substituídos por árvores nativas. O descumprimento da norma pode gerar multa.
Nos espaços públicos, as prefeituras devem coordenar o manejo. Já nas propriedades privadas, o corte precisa de autorização municipal. Nas Áreas de Preservação Permanente, o morador pode fazer a remoção sem autorização, desde que realize o reflorestamento com acompanhamento técnico.
Árvores nativas indicadas para substituição
O IMA sugere que cada região priorize espécies nativas adaptadas ao clima e ao solo local. Essa substituição contribui para restaurar o equilíbrio ambiental e proteger a fauna.
Região litorânea: mangue formiga, aroeira e ingá cipó.
Mata Atlântica: ipê amarelo, pau angelim e corticeira.
Planalto e serra: canafístula, camboatá e caroba.
Região oeste: ipê roxo, timbaúva e canjerana.
Sociedade é chamada a participar
O IMA reforça que a colaboração da sociedade é essencial. Por isso, convida viveiristas, paisagistas e cidadãos a substituírem a espatódea por espécies nativas. A ação contribui diretamente para a proteção das abelhas e para a manutenção da polinização, processo vital para o equilíbrio ecológico e a produção de alimentos.
Além disso, o órgão destaca que preservar as abelhas significa proteger a base da vida no campo e nas cidades. Elas garantem que as plantas se reproduzam, sustentam o alimento dos animais e mantêm o ciclo natural funcionando.
As palmeiras amazônicas (Arecaceae) armazenam duas vezes mais água do que árvores dicotiledôneas como ipê, mogno e eucalipto. A descoberta integra um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, vinculado ao Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças Climáticas (CBioClima).
A professora Thaise Emilio, da Unesp e coordenadora do projeto, apresentou resultados preliminares da pesquisa durante o Fórum Brasil-França “Florestas, Biodiversidade e Sociedades Humanas”, realizado entre 1º e 2 de outubro no auditório da FAPESP. “As palmeiras funcionam como grandes reservatórios ou caixas d’água da floresta”, afirmou a pesquisadora.
Dominância das palmeiras na floresta amazônica
Apesar de representar apenas uma entre 171 famílias de plantas arborescentes na Amazônia, as palmeiras dominam a paisagem florestal tanto no dossel quanto no sub-bosque. Os cientistas levantam a hipótese de que populações humanas antigas domesticaram essas plantas há milhões de anos durante a ocupação e manejo da região.
“Ainda debatemos se os humanos enriqueceram a Amazônia com palmeiras ou se escolheram viver na floresta justamente pela abundância dessas plantas úteis, que possuem grande importância econômica”, explicou Emilio.
Thaise Emílio, professora da Unesp, coordenadora do projeto e pesquisadora associada ao CBioClima: apesar de ser apenas uma entre 171 famílias de plantas arborescentes na Amazônia, as palmeiras são extremamente dominantes na floresta, tanto no dossel como no sub-bosque. Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP
Atualmente, cerca de 75% da produção brasileira de produtos florestais não madeireiros provém de palmeiras. O açaí (Euterpe oleracea) sozinho responde por 50% desse total.
Capacidade única de retenção hídrica
Desde 2017, Emilio colabora com pesquisadores do Soleil Síncrotron, de Paris, e da Universidade de Bordeaux para analisar a resistência do xilema das palmeiras à embolia induzida pela seca. O xilema constitui o tecido vascular que transporta água e sais minerais das raízes para o restante da planta.
Os cientistas utilizaram o acelerador circular de partículas do Soleil Síncrotron para investigar seis espécies de palmeiras das subfamílias Arecoideae e Coryphoideae. A tecnologia permite examinar a composição e estrutura da matéria em escala molecular.
“Constatamos que as palmeiras apresentam vulnerabilidade à seca similar a outras angiospermas ou gimnospermas. Porém, elas concentram mais água dentro dos troncos e conseguem mobilizar esse recurso, tornando essa a estratégia mais importante para minimizar os riscos de embolia”, detalhou a pesquisadora.
Palmeiras retêm até 70% de água em seus troncos
Pesquisadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia, participaram de monitoramentos recentes que revelaram dados surpreendentes. Enquanto árvores dicotiledôneas armazenam no máximo 50% de seu volume em água, as palmeiras retêm até 70%. Durante períodos secos, essas plantas reservam ainda mais água do que nas estações chuvosas.
“Isso gera enormes impactos na biodiversidade da floresta amazônica, que ainda precisamos estimar”, afirmou Emilio.
Durante expedições na floresta em períodos de seca, a equipe observa que apenas as palmeiras produzem frutos. “Só elas dão frutos nessas épocas de seca. Isso mantém a alimentação dos animais e dos humanos que dependem desses recursos. Uma das hipóteses para explicar essa capacidade é justamente o funcionamento diferenciado dessas plantas, que armazenam mais água”, explicou a cientista.
Mudanças climáticas ameaçam serviço ecossistêmico
O serviço ecossistêmico prestado pelas palmeiras enfrenta ameaças devido ao declínio de espécies associadas a climas úmidos. A intensificação do ciclo hidrológico, marcada por secas e estações chuvosas mais extremas, compromete a abundância dessas plantas. “Isso terá um impacto muito importante para a dinâmica da floresta”, alertou Emilio.
Um estudo em andamento avalia através de modelagem o risco de morte de palmeiras em diferentes ambientes e condições climáticas. Os resultados preliminares indicam que essas plantas morrem duas vezes mais do que outras árvores. “A combinação de anos chuvosos e secos está causando uma mudança na dinâmica e nas características de regiões da floresta”, concluiu a pesquisadora.
O Museu Nacional de História Natural (MNHN) da França, a Universidade de São Paulo (USP) e a FAPESP organizaram o fórum que integrou a Temporada França-Brasil 2025. A programação celebra os 200 anos de relações diplomáticas entre os países.
Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, destacou que a Amazônia Legal ocupa aproximadamente 4 milhões de quilômetros quadrados do Brasil, área equivalente a 40% do tamanho da Europa. A floresta também se estende ao território da Guiana Francesa.
“Brasileiros e franceses compartilham a responsabilidade sobre essa floresta, uma das maiores reservas da biodiversidade do planeta. Portanto, seu destino pode determinar, em grande parte, o destino da humanidade”, avaliou Zago.
O presidente do MNHN, Gilles Bloch, reforçou o compromisso da instituição com as questões ambientais. “Os desafios ambientais compartilhados pela França e pelo Brasil são muito sérios. Este fórum reforça a tradição de colaboração que existe entre nós e a USP”, afirmou.
USP anuncia construção da Praça dos Museus
A vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, anunciou o projeto de construção da Praça dos Museus da USP, que reunirá acervos dos museus de Zoologia (MZ-USP) e de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP).
“A Universidade de São Paulo possui acervos museológicos ímpares e coleções científicas e culturais entre as maiores do mundo. Estamos construindo um novo espaço, com um projeto notável do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Esse novo museu será uma referência para toda a cidade, para o país e para o mundo”, destacou a vice-reitora.
A biodiversidade amazônica esconde uma joia nutricional que ainda permanece desconhecida pela maioria dos brasileiros. O piquiá (Caryocar villosum), fruto nativo da floresta amazônica, concentra propriedades nutricionais e terapêuticas que despertam o interesse crescente de pesquisadores, chefs de cozinha e indústrias de cosméticos.
O piquiazeiro, árvore típica da floresta pluvial amazônica, pertence à família das cariocaráceas e ocorre naturalmente nos estados do Amazonas, Roraima, Amapá, Pará, Maranhão, Rondônia e Mato Grosso Piquiá. A espécie também marca presença na Guiana Francesa, demonstrando sua adaptação ao clima tropical úmido.
O fruto apresenta forma esférica, ligeiramente achatada nos polos, com tamanho comparável ao de uma laranja grande. Sua casca marrom-acinzentada revela-se espessa e carnuda, abrigando quatro bagos em formato de rim. A polpa amarela, com espessura entre 3 e 10 milímetros, adere firmemente ao caroço central.
Riqueza nutricional: vitaminas e compostos bioativos do piquiá
O fruto destaca-se pelo alto teor de vitaminas A, B1, B2 e B5, além de concentrar taninos e substâncias fenólicas. Esses compostos conferem ao piquiá propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias reconhecidas pela medicina popular amazônica.
A polpa fornece óleo rico em gorduras boas, que a população amazônica utiliza tanto na culinária quanto para fins terapêuticos. Estudos recentes revelam que até as cascas do piquiá, que representam 65% do fruto, contêm compostos bioativos com propriedades antioxidantes e antienvelhecimento.
Como consumir o piquiá na culinária tradicional amazônica
O piquiá-amazônico torna-se comestível apenas após o cozimento, processo fundamental para amolecer a casca e cozinhar a polpa, preservando os nutrientes. A forma tradicional de consumo une a polpa cozida à farinha de mandioca, acompanhada de café, uma combinação apreciada há gerações.
Foto: Evandro Borel/Flickr
Enquanto crianças costumam consumir o fruto roendo diretamente a polpa, em outras regiões da Amazônia as pessoas raspam a polpa e misturam com arroz e carne. O piquiá também pode ser assado na brasa, preparado como doces em compotas e geleias, ou incorporado a pratos salgados como farofas e ensopados.
A versatilidade do fruto permite sua utilização em patês e cozidos com frango caipira, enquanto as castanhas torradas conquistam cada vez mais apreciadores. O óleo extraído da polpa serve principalmente para fritar peixes, conferindo sabor característico aos pratos regionais.
Potencial biotecnológico: do cosmético ao nutracêutico
Apesar de ser uma planta nativa da Amazônia, o Caryocar villosum ainda recebe pouca exploração do ponto de vista biotecnológico e nutracêutico. Pesquisadores trabalham no desenvolvimento de alimentos funcionais e produtos cosméticos a partir da polpa, amêndoa e óleo do fruto.
O uso biotecnológico do piquiá já permite a produção de sabonetes esfoliantes utilizando casca, polpa e semente, além de aplicações na fabricação de tintas e tingimento de tecidos. As substâncias aromáticas como fenólicos e flavonoides despertam interesse especial da indústria cosmética.
A exploração sustentável do piquiá representa uma oportunidade de valorizar a biodiversidade amazônica, gerar renda para comunidades locais e oferecer ao mercado nacional e internacional um ingrediente natural com múltiplas aplicações. Enquanto açaí e buriti já conquistaram protagonismo, o piquiá aguarda seu momento de reconhecimento como superalimento amazônico.
O Pantanal continua revelando suas maravilhas naturais. Recentemente, pesquisadores registraram na RPPN Eng. Eliezer Batista dois exemplares do discreto gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), sendo um deles portador de uma característica extremamente rara: a coloração avermelhada.
O gato-mourisco é conhecido por sua versatilidade cromática, podendo apresentar pelagem que varia do cinza tradicional até tons mais incomuns. No entanto, a coloração vermelha representa um fenômeno particularmente extraordinário na espécie, despertando o interesse da comunidade científica.
Esta não é a primeira vez que a variação cromática avermelhada é documentada na região. Pesquisadores do Instituto de Homem Pantaneiro (IHP) já haviam descrito o fenômeno em artigo científico publicado com base em estudos realizados na RPPN Acurizal, evidenciando que essa característica genética está presente em diferentes pontos do bioma pantaneiro.
Além de sua beleza singular, o gato-mourisco desempenha uma função ecológica fundamental no Pantanal. Este felino atua como regulador natural das populações de pequenos animais, contribuindo significativamente para o equilíbrio dos ecossistemas locais.
Sua dieta diversificada inclui roedores, aves de pequeno porte e outros animais que, sem o controle natural exercido por predadores como o gato-mourisco, poderiam proliferar descontroladamente e causar desequilíbrios ambientais.
O registro destes dois indivíduos na RPPN Eng. Eliezer Batista reforça a importância crucial dos programas de monitoramento de fauna selvagem. Essas iniciativas não apenas documentam a biodiversidade local, mas também fornecem dados essenciais para estratégias de conservação mais efetivas.
As Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) demonstram ser verdadeiros laboratórios a céu aberto, permitindo que cientistas acompanhem de perto o comportamento e as características de espécies nativas em seus habitats naturais.
Um tesouro a ser preservado
A descoberta da coloração avermelhada no gato-mourisco pantaneiro representa mais do que uma curiosidade científica. É um lembrete da riqueza genética ainda pouco conhecida da fauna brasileira e da urgente necessidade de proteger os habitats que abrigam essas variações únicas.
O Pantanal, reconhecido como uma das maiores planícies alagáveis do mundo, continua sendo um reservatório de surpresas biológicas que podem revolucionar nossa compreensão sobre a diversidade da vida selvagem sul-americana.