Nas águas tranquilas dos igarapés da Amazônia, um predador desenvolveu uma estratégia impressionante para caçar sem ser percebido. O peixe-folha (Monocirrhus polyacanthus) utiliza uma camuflagem extremamente eficiente, assumindo a aparência de uma folha morta para se aproximar de suas presas.
Como ele se disfarça
O segredo está na anatomia. O corpo achatado apresenta formas, linhas e tonalidades que reproduzem com precisão a aparência de uma folha em decomposição caída na água.
Além disso, pequenas expansões na pele lembram o pecíolo das folhas, reforçando ainda mais o disfarce. A coloração marrom também varia conforme as características do ambiente, enquanto os movimentos lentos acompanham a correnteza, simulando o deslocamento natural da vegetação.
Peixe permanece praticamente invisível para outros organismos — Foto: Reprodução/Blog do Pescador
A principal tática do peixe-folha é a caça por emboscada. Na maior parte do tempo, ele permanece imóvel ou se movimenta lentamente, reproduzindo o comportamento de uma folha sendo carregada pela água.
Quando um pequeno peixe, camarão ou outro organismo se aproxima sem perceber o perigo, o predador entra em ação. Com movimentos discretos das nadadeiras, ele ajusta sua posição e aguarda o momento ideal para atacar.
Então ocorre o golpe final: sua mandíbula protrátil se expande rapidamente, criando um poderoso efeito de sucção capaz de engolir a presa inteira em apenas alguns milissegundos.
Camuflagem também ajuda na sobrevivência
O mimetismo não serve apenas para capturar alimento, mas também como mecanismo de defesa.
Ao se confundir com folhas acumuladas no fundo dos rios, o peixe-folha reduz significativamente as chances de ser identificado por possíveis predadores. Por isso, a adaptação garante vantagens tanto na obtenção de alimento quanto na própria sobrevivência.
Entre os principais benefícios dessa estratégia estão:
Economia de energia, já que não precisa perseguir suas presas;
Menor exposição a predadores presentes no ambiente;
Alta eficiência na captura de alimento graças ao fator surpresa.
Conservação dos igarapés é fundamental para a espécie
A sobrevivência do peixe-folha depende diretamente da preservação dos igarapés e da vegetação que abastece esses ambientes com folhas e matéria orgânica.
Alterações na cobertura vegetal podem reduzir a disponibilidade dos micro-habitats utilizados pela espécie, comprometendo sua capacidade de caça e proteção.
Pesquisadores registraram pela primeira vez a existência de uma espécie de aranha capaz de imitar a aparência de fungos parasitas. A espécie, denominada Taczanowskia waska, foi encontrada na porção equatoriana da Floresta Amazônica e amplia o conhecimento científico sobre a biodiversidade da região.
A descoberta ocorreu após a publicação de uma fotografia do animal na plataforma de ciência iNaturalist. Inicialmente, observadores acreditaram que o organismo retratado fosse um fungo. No entanto, análises posteriores revelaram tratar-se de uma aranha.
“Descobertas como essas demonstram o valor das coleções científicas. Elas nos permitem classificar novas espécies e compará-las com espécimes históricos. Aliadas à colaboração internacional e à ciência cidadã, isso abre novas oportunidades para a pesquisa da biodiversidade”, destacou a pesquisadora Nadine Dupérré, uma das autoras do trabalho.
A pesquisa foi conduzida pelo Instituto Leibniz para Análise da Mudança da Biodiversidade (LIB), da Alemanha.
Segundo os cientistas, a Taczanowskia waska apresenta estruturas alongadas que se estendem até o abdômen, além de uma coloração clara semelhante à observada em fungos do gênero Gibellula, conhecidos por parasitar aranhas.
Dessa forma, a espécie utiliza a aparência de fungo como estratégia de camuflagem, reduzindo o risco de ser identificada por predadores.
Taczanowskia waska, nova espécie de aranha, apresenta estruturas no abdômen que imitam fungos parasitas — Foto: David Diaz-Guevara/Reprodução Phys
Para aumentar a eficiência dessa estratégia, a aranha permanece imóvel em áreas das folhas onde esses fungos costumam se desenvolver. Assim, torna-se ainda mais difícil distingui-la do ambiente natural.
Além de revelar características inéditas do pouco estudado gênero Taczanowskia, a descoberta contribui para ampliar o conhecimento sobre a rica fauna amazônica presente na região equatoriana da floresta.
Cinco vacas abandonadas em uma ilha remota no sul do Oceano Índico deram origem a uma das histórias mais curiosas da evolução animal. Sozinhos, cercados pelo mar e expostos a ventos incessantes, os bovinos se multiplicaram até formar uma população de quase 2 mil cabeças e retomaram comportamentos típicos de animais selvagens.
O caso ocorreu na Ilha Amsterdã, território francês localizado a cerca de 4,4 mil quilômetros de Madagascar. Sem rios permanentes, castigada por chuvas frequentes e rajadas de vento que varrem a paisagem, a ilha parecia um lugar improvável para a sobrevivência de um rebanho. Ainda assim, os animais prosperaram.
Agora, um estudo baseado no material genético de 18 bovinos ajuda a explicar esse fenômeno e lança luz sobre os mecanismos que permitiram a adaptação de um grupo tão pequeno de animais a um ambiente tão hostil.
Uma aposta fracassada que mudou a história da ilha
Os registros históricos indicam que, em 1871, um fazendeiro chamado Heurtin e sua família deixaram a Ilha da Reunião e tentaram se estabelecer na Ilha Amsterdã para criar gado. A empreitada durou apenas alguns meses.
O isolamento, o clima adverso e as dificuldades de adaptação fizeram a família desistir do projeto e retornar. As vacas ficaram para trás. O que parecia o fim de uma experiência malsucedida acabou se tornando o início de um experimento involuntário da natureza.
DNA revela mistura de europeus e zebus
As análises genéticas mostraram que o rebanho era formado por descendentes de duas linhagens distintas. Cerca de 75% de sua herança genética veio de bovinos taurinos europeus, próximos ao atual gado Jersey. Os outros 25% vieram de zebus originários do Oceano Índico.
Essa combinação ajudou a explicar o sucesso dos animais. Os ancestrais europeus já estavam adaptados a condições climáticas semelhantes às encontradas na Ilha Amsterdã. Em outras palavras, parte do caminho já estava pavimentada antes mesmo de os bovinos desembarcarem no local.
De animais domésticos a uma sociedade selvagem
Ao longo de poucas gerações, o gado passou por um processo conhecido como feralização, quando animais domesticados recuperam comportamentos típicos da vida selvagem.
Os pesquisadores identificaram sinais de seleção natural em genes ligados ao sistema nervoso, indicando mudanças comportamentais profundas. Além disso, observadores descreveram grupos organizados de forma semelhante aos de grandes herbívoros selvagens, com estruturas sociais complexas, separação entre machos e fêmeas e formação de grupos reprodutivos durante determinadas épocas do ano.
As vacas, que um dia dependeram da ação humana, reaprenderam a viver sozinhas. O mugido do curral deu lugar ao silêncio de uma população totalmente adaptada à natureza.
Nem gigantes, nem miniaturas
Alguns cientistas, no entanto, acreditavam que os animais haviam diminuído de tamanho para sobreviver aos recursos limitados da ilha, fenômeno conhecido como nanismo insular.
A genética, porém, contou outra história. Os animais fundadores já eram naturalmente pequenos, semelhantes ao gado Jersey e ao zebu de Madagascar. A pesquisa não encontrou evidências de redução adicional no porte dos bovinos ao longo das gerações.
O fim de uma população única
Foto: François Cola
Apesar de sua relevância científica, a população foi completamente abatida em 2010.
Ambientalistas consideravam o gado uma ameaça ao ecossistema local por causa do pisoteio da vegetação e do potencial impacto sobre espécies endêmicas, como o albatroz-de-Amsterdã e a árvore Phylica arborea.
Os autores do estudo, porém, observam que a decisão continua cercada de controvérsias. O rebanho prestava serviços ambientais, como a redução da vegetação rasteira e a manutenção de áreas que funcionavam como barreiras naturais contra incêndios. Além disso, medidas de controle de espécies invasoras, como roedores e gatos, só começaram anos depois da eliminação das vacas.
Uma lição para a conservação
Para os pesquisadores, o caso da Ilha Amsterdã deixa um alerta. Antes de erradicar populações de animais introduzidos que se tornaram selvagens, é preciso compreender sua história genética e seu potencial científico.
O destino dessas vacas mostra que a biodiversidade nem sempre cabe em definições simples de “nativa” ou “invasora”. Às vezes, ela surge de forma inesperada, cresce em silêncio e deixa perguntas que continuam ecoando muito depois de o último animal desaparecer.
Uma arara-canindé com plumagem branca e amarelada ganhou destaque nas redes sociais nos últimos dias. O raro exemplar foi fotografado pelo geógrafo e fotógrafo de natureza Clóvis Cruvinel em Aliança do Tocantins (TO).
Tradicionalmente reconhecida pelas cores azul e amarela, características da espécie, a ave surpreendeu pela aparência incomum. A alteração na coloração é resultado de uma condição genética rara chamada lutinismo, responsável pela ausência total de melanina, mantendo, no entanto, os pigmentos amarelos e avermelhados.
Segundo Cruvinel, a ave apresenta exatamente essa condição genética. Dessa forma, a falta de melanina faz com que a plumagem assuma tonalidades mais claras, enquanto os olhos costumam adquirir coloração avermelhada.
Foto: Reprodução/Clóvis Cruvinel
Em uma das fotografias, a ave aparece ao lado de outra arara-canindé com a coloração padrão da espécie.
Por conta da raridade, as imagens repercutiram entre observadores de aves, fotógrafos de natureza e pesquisadores. Casos de lutinismo são considerados incomuns na fauna silvestre e se tornam ainda mais raros quando ocorrem em aves de grande porte, como as araras.
Embora a aparência diferenciada impressione, a mutação genética pode trazer dificuldades para a sobrevivência da ave em ambiente natural.
De acordo com o biólogo especialista em aves Danilo Freitas Rangel, a ausência de melanina reduz a capacidade de camuflagem do animal, tornando-o mais vulnerável à ação de predadores.
“Ao eliminar a melanina e destacar uma coloração vibrante na plumagem, a ave perde sua camuflagem natural nas copas das árvores, transformando-se em um alvo fácil para predadores”, afirma.
Além dos riscos naturais, a raridade também pode aumentar a exposição ao tráfico de animais silvestres. Segundo o especialista, indivíduos com características incomuns costumam despertar o interesse de colecionadores ilegais.
“A beleza exótica e a extrema raridade dessas araras atraem a atenção de traficantes, que frequentemente monitoram ninhos para capturar filhotes ainda jovens”, alerta.
Por fim, Rangel destaca que registros como esse possuem grande importância científica. Segundo ele, a ocorrência ajuda pesquisadores a compreenderem melhor os processos evolutivos que continuam acontecendo na natureza.
Em meio às paisagens do Parque Estadual do Cantão, em Caseara, no oeste do Tocantins, uma cena incomum chamou a atenção nas redes sociais. O estudante Arthur Wieczorek, de 22 anos, registrou o momento em que interage com um grande jacaré-açu durante uma pescaria na região.
No vídeo compartilhado pelo jovem, é possível ouvir quando ele chama o animal pelo apelido carinhoso. “Joãozinho, vem cá. Vem cá, ‘caminha’. Eu pesquei uma piranha pra tu comer, ó. Ele tá vindo, o bicho é obediente”, comenta Arthur enquanto o réptil se aproxima da margem.
De acordo com Arthur, o comportamento do animal está relacionado à presença de peixes capturados durante a pescaria. Dessa forma, o jacaré se aproxima ao perceber a movimentação e os exemplares armazenados na rede.
“É um jacaré-açu de 4,5 metros de comprimento. A gente usa a canoa, que tem seis metros, como referência [para o tamanho]. Ele se aproximou porque viu os peixes dentro do puçá. Foi aí que vimos a naturalidade dele ao ficar perto das pessoas, e não demonstrou nenhuma agressividade. No final da pesca, jogamos peixes pra ele se alimentar”, relata.
Apesar da aparente tranquilidade do encontro, especialistas reforçam que não é recomendada a aproximação ou a interação direta com animais silvestres. Isso porque situações envolvendo fauna nativa podem representar riscos tanto para as pessoas quanto para os próprios animais.
Segundo Arthur, o jacaré permaneceu dentro da água, próximo à margem do rio, durante todo o período da atividade. No entanto, o animal se afastou apenas quando ele e os amigos decidiram encerrar a pescaria.
Ao recordar a experiência, o estudante destacou a imponência do réptil.
“Particularmente, nunca tinha visto uma espécie desse tamanho tão perto de um humano antes”, finaliza.
O Dia dos Namorados, celebrado nesta sexta-feira (12), ganhou uma versão diferenciada no Zoológico de São Paulo. Casais de espécies emblemáticas do parque, como rinocerontes, tigres, leões, hipopótamos, jabutis e cachorros-vinagre, receberam ambientações temáticas e alimentos preparados especialmente para a data.
A iniciativa integra o programa de enriquecimento ambiental desenvolvido pela instituição. A equipe técnica busca diversificar a rotina dos animais por meio de novos estímulos visuais, olfativos e gustativos.
Para tornar a experiência mais atrativa, biólogos e zootecnistas prepararam atividades personalizadas, respeitando os hábitos e preferências alimentares de cada espécie.
Romantismo nunca sai de moda
Os tigres-de-bengala Fred e Best encontraram um recinto decorado com almofadas temáticas e enriquecido com essências aromáticas para exploração territorial.
Já os rinocerontes-brancos Adão e Eva receberam uma refeição especial servida ao lado de grandes estruturas decorativas em formato de coração.
Além disso, os amigos Sininho e Pororó, moradores do Simba Safari, ganharam um arranjo artesanal produzido com frutas e verduras esculpidas em formato temático.
(Foto: Zoo SP)
Os cachorros-vinagre, Anita e Rondon, também foram incentivados a utilizar seus instintos naturais durante uma busca por petiscos escondidos em caixas decoradas especialmente para a data.
(Foto: Zoo SP)
Turismo impulsiona campanha promocional
Paralelamente à programação especial, o complexo do Zoológico de São Paulo mantém a campanha promocional “Brasileiro Paga Meia”, aproveitando o aumento do fluxo turístico registrado durante o período da Copa do Mundo.
Os ingressos adquiridos antecipadamente pela internet contam com descontos significativos. Confira os valores:
Zoológico (avulso): R$ 59,90 na compra antecipada | R$ 119,90 no dia da visita;
Combo Especial com cinco atrações (Zoo, Jardim Botânico, Simba Safari, Mundo Dino e Acqua Zoo): R$ 129,90 na compra antecipada, ante o valor original de R$ 379,50, ou R$ 149,90 na aquisição realizada no próprio dia do passeio.
Horários de funcionamento
O Zoológico de São Paulo e o Simba Safari, localizados na Avenida Miguel Estéfano, 4.241, no bairro Água Funda, em São Paulo (SP), funcionam de segunda a sexta-feira das 9h às 16h, com permanência permitida até as 17h.
Já aos sábados, domingos e feriados, a operação começa às 8h30 e segue até as 17h, com permanência autorizada até as 18h.
A crescente presença do abotoado (Pterodoras granulosus) em trechos do Rio Teles Pires, no norte do Mato Grosso, tem chamado a atenção de pescadores e órgãos ambientais. Embora a espécie não desperte interesse na pesca esportiva, por ser um peixe de menor valor comercial, o aumento de sua população levantou questionamentos sobre impactos na dinâmica da bacia hidrográfica.
Registros feitos por moradores e pescadores apontam grandes concentrações do peixe na região de Itaúba, município localizado a cerca de 580 quilômetros de Cuiabá.
A Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema) informou que os monitoramentos realizados pelos especialistas até o momento não identificaram indicadores que caracterizem uma infestação. Além disso, o órgão destacou que segue acompanhando a situação e poderá adotar medidas ambientais caso sejam constatadas alterações que exijam intervenção ou ações de manejo.
Mudanças ambientais favorecem a espécie
A pesquisadora e especialista em ictiofauna, Solange Arrolho, explicou que o abotoado já fazia parte da bacia, mas sua ocorrência era mais restrita a determinadas áreas do rio.
“Ele era natural no Rio Teles Pires, mas abaixo do que a gente chamava na época de Cachoeira das Sete Quedas, que hoje fica a Usina Hidrelétrica de Teles Pires. Quando ele chega no reservatório de Colíder e abaixo da usina, ele se sente confortável, principalmente porque ele é um bicho, além de ser migrador de longa distância, ele não tem grandes exigências alimentares. Ele come qualquer coisa, qualquer porcaria que está no rio, ele come”, explicou.
Segundo a especialista, o aumento da população está diretamente relacionado às condições ambientais e à ampla oferta de alimento encontrada atualmente em determinados trechos da bacia.
“Quando você tem uma grande quantidade de flutuantes, uma grande quantidade de ceva, que é o que nós estamos vendo, a explosão não é só do abotoado, mas de outras espécies também. Além de ter a ceva, restos de comida jogadas no rio, por exemplo, faz com que tenha um ambiente propício”, acrescentou.
Avanço descontrolado do peixe abotoado, também conhecido como armal, tem provocado preocupação entre pescadores — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Solange defende que o acompanhamento contínuo das populações de peixes presentes na bacia é a melhor forma de compreender os efeitos das transformações ambientais.
“Eles não são vilões, eles só estão atrás de sobreviver. Eles vão continuar se alimentando, continuar reproduzindo se continuar com o mesmo ritmo acelerado de mudanças no ambiente. Ele tem predador? Não. Os únicos predadores que podem tirar ele do rio é o homem”, destacou.
Além disso, a pesquisadora alerta que o descarte inadequado dos exemplares capturados não representa uma solução para o problema. Em contrapartida, ela defende o aproveitamento da carne para consumo humano.
Conheça o abotoado
O abotoado (Pterodoras granulosus) é um peixe de água doce encontrado nas bacias Amazônica, do Paraná e do Paraguai, ocorrendo em rios dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
A espécie possui uma carapaça resistente e espinhos de defesa, características que dificultam a ação de predadores. Além disso, alimenta-se de moluscos, insetos, frutos e sementes, vive em cardumes e apresenta alta resistência a ambientes com baixos níveis de oxigênio.
Espécie tem o cheiro e a aparência peculiar como os principais motivos do desinteresse em sua pesca — Foto: Flavioubaid/iNaturalist
Embora sua captura possa ser desafiadora devido à boca pequena, o peixe costuma voltar a atacar a isca após a primeira tentativa. Apesar do baixo valor comercial, o abotoado é apreciado em diversas comunidades ribeirinhas.
Como transformar o potencial da Amazônia em oportunidades econômicas e sustentáveis? Essa foi a principal discussão durante o lançamento da Agenda Zona Franca de Manaus (ZFM) 2050, realizado na última terça-feira (10), em Brasília (DF).
Desenvolvido pela Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam) e pelo Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), o documento reúne diagnósticos e propostas para os próximos 25 anos, visando ampliar a competitividade regional, diversificar a economia e transformar a combinação entre biodiversidade, ciência, tecnologia e indústria em um vetor permanente de crescimento.
Coração do Brasil
A iniciativa parte do entendimento de que a Amazônia concentra ativos estratégicos para o Brasil e para o mundo. No entanto, a região ainda enfrenta gargalos históricos relacionados à infraestrutura, logística, inovação e desenvolvimento social.
Ao apresentar a importância econômica da Zona Franca de Manaus, Antônio Silva, presidente da Fieam, ressaltou números expressivos registrados pelo modelo em 2025.
“Em 2025, tivemos um faturamento superior a US$ 41 bilhões e mais de 132 mil empregos diretos. Além de 600 mil postos de trabalhos indiretos induzidos em toda a Zona Franca de Manaus.”
Estratégia a longo prazo
Pensar o desenvolvimento amazônico exige planejamento de longo prazo. O presidente do Conselho Superior do Cieam, Luiz Augusto Rocha, afirmou que o documento representa um compromisso estratégico com o futuro da região e do país.
Além disso, Rocha destacou que a manutenção das garantias constitucionais da Zona Franca durante a tramitação da Reforma Tributária permitiu ampliar o debate para temas como inovação, competitividade e diversificação produtiva.
“A Zona Franca de Manaus é uma política de Estado. O documento nos convida a olhar além das urgências e além dos ciclos eleitorais. Construir uma visão de longo prazo é uma estratégia sólida e ambiciosa.”
Luiz Augusto Rocha, presidente do Conselho Superior do Cieam, e Antônio Silva, presidente da Fieam — Foto: Divulgação
Desindustrialização preocupa especialistas
O diagnóstico econômico que sustenta a proposta foi apresentado por Márcio Holland, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
Durante sua análise, o economista alertou para os impactos da desaceleração econômica e para a perda de participação da indústria na economia nacional.
“O Brasil desacelera e faz uma desindustrialização de forma prematura, antes mesmo de atingir uma renda per capita alta. Corremos o risco de nos tornar um país envelhecido e pobre.”
Segundo Holland, iniciativas como a Agenda ZFM 2050 tornam-se ainda mais relevantes ao oferecer caminhos para ampliar a competitividade e estimular novos investimentos produtivos.
De acordo com a empresária Rebecca Garcia, diretora da GBR Componentes e ex-deputada federal , muitos debates sobre a Amazônia ignoram as particularidades territoriais, sociais e logísticas da região.
“Há um grande equívoco em querer comparar a Amazônia com o resto do país. Nós vivemos em uma região que tem desafios permanentes.”
Ao abordar as perspectivas da bioeconomia, a empresária ressaltou que a Amazônia abriga uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, mas ainda enfrenta obstáculos que limitam seu aproveitamento econômico.
Rebecca Garcia, diretora da GBR Componentes — Foto: Divulgação
Além disso, ela defendeu maior integração entre setor produtivo e governo para garantir uma gestão mais eficiente dos recursos destinados ao desenvolvimento regional.
“O que a gente precisa é de planejamento. É uma contribuição da indústria, e ao lado da indústria precisa do acompanhamento do governo. Precisa ser compartilhada essa governança.”
Infraestrutura e logística
A necessidade de investimentos em infraestrutura também esteve no centro das discussões.
O deputado federal Capitão Alberto Neto ressaltou que o Amazonas preserva cerca de 97% da cobertura florestal e argumentou que as particularidades amazônicas precisam ser consideradas na formulação das políticas públicas.
Segundo o parlamentar, a ausência de investimentos contínuos em hidrovias e dragagem compromete tanto o abastecimento quanto o transporte de pessoas durante os períodos de seca.
Representando o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o subsecretário de Ciência e Tecnologia para a Amazônia, Dorival da Costa dos Santos, destacou os impactos econômicos e sociais gerados pela Zona Franca ao longo das últimas décadas.
“É o maior experimento de desenvolvimento do mundo. Produzimos bens de ponta e geramos retorno econômico, industrial e social.”
Ao mesmo tempo, o representante do governo reforçou que a preservação ambiental deve permanecer como eixo central da estratégia regional.
‘Sem floresta em pé não há economia’, garante Dorival da Costa dos Santos — Foto: GOV
Desenvolvimento e preservação
O futuro da Amazônia dependerá da capacidade de transformar sua biodiversidade e estrutura produtiva em oportunidades concretas.
Para os defensores da Agenda ZFM 2050, esse processo exigirá planejamento de longo prazo, investimentos estruturantes e políticas capazes de conciliar crescimento econômico, inovação, bioeconomia e preservação ambiental.
Uma ação conjunta entre especialistas do Zoológico de São Paulo e da Unesp de Botucatu resultou em um marco para a medicina veterinária de animais silvestres no Brasil. As instituições realizaram a primeira transfusão de sangue entre onças-pintadas registrada no país, em um procedimento que ajudou a estabilizar um animal em estado crítico.
A doadora foi Ruana, uma onça-pintada fêmea de quatro anos que vive no Simba Safari. Ela cedeu 800 mililitros de sangue para Jack, um macho de 18 anos que enfrenta uma doença renal crônica. O procedimento foi considerado bem-sucedido e representa um avanço importante para o atendimento clínico de grandes felinos.
Onça-pintada Jack, de Sorocaba (SP), sedado para a realização da primeira transfusão de sangue da espécie no Brasil — Foto: Zoo São Paulo/Divulgação
Além disso, a iniciativa envolveu uma operação logística cuidadosa. A coleta ocorreu no hospital veterinário do Zoo São Paulo, e as bolsas de sangue foram transportadas sob rígido controle até o Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens (CEMPAS), em Botucatu, onde Jack recebeu a transfusão.
Procedimento pioneiro auxilia tratamento de onça idosa
O caso entrou para a história por ser o primeiro relato de uma transfusão sanguínea entre indivíduos da espécie realizada em território brasileiro.
Jack, que recebeu o sangue, tem 18 anos, uma idade considerada avançada para a espécie. O animal sofre com um quadro de insuficiência renal e necessitava de suporte emergencial para continuar o tratamento, que inclui sessões de hemodiálise.
Por outro lado, Ruana foi escolhida como doadora após avaliações que confirmaram seu excelente estado de saúde. Após a coleta, ela passou por uma série de exames complementares, incluindo avaliações de imagem e odontológicas.
Ruana contribuiu com cerca de 800 ml de sangue para Jack — Foto: Zoo São Paulo/Leandro Ferreira Amaral
A recuperação dos dois felinos apresentou resultados positivos. Enquanto Ruana retornou normalmente à sua rotina, Jack demonstrou melhora em aspectos importantes, como alimentação e postura.
Além do impacto imediato no tratamento, as equipes envolvidas pretendem publicar um relato científico conjunto sobre o caso. Dessa forma, o procedimento poderá servir de referência para futuros atendimentos clínicos de onças-pintadas no Brasil.
“A iniciativa reforça a importância da cooperação entre instituições na promoção da saúde e do bem-estar de animais sob cuidados humanos”, destacaram as equipes técnicas em nota.
Conservação da espécie
Os ganhos do procedimento não ficaram restritos à área clínica. Durante a sedação de Ruana, os veterinários aproveitaram a oportunidade para coletar material genético da onça.
Esse material será incorporado ao studbook, o livro de registros genealógicos da espécie. A ferramenta é fundamental para o manejo populacional e para a manutenção da diversidade genética das onças-pintadas, classificadas atualmente como vulneráveis na lista nacional de espécies ameaçadas de extinção.
Enquanto isso, Jack permanece sob monitoramento constante em Botucatu. A expectativa é que ele inicie sessões de hemodiálise para auxiliar o funcionamento dos rins e melhorar sua qualidade de vida.
Além disso, o Zoo São Paulo segue colaborando com o Plano de Ação Nacional do ICMBio, participando de programas de reprodução e conservação voltados à proteção da espécie. O objetivo é fortalecer a população de onças-pintadas e contribuir para que o maior felino das Américas continue presente em seu habitat natural.
A Ilha da Queimada Grande, localizada entre Itanhaém e Peruíbe, no litoral de São Paulo, ganhou fama internacional por abrigar a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), espécie endêmica considerada uma das serpentes mais perigosas do planeta. No entanto, a chamada Ilha das Cobras também é lar de outra serpente bem menos conhecida: a dormideira (Sibynomorphus mikanii), uma espécie inofensiva que se alimenta principalmente de lesmas e caracóis.
Além disso, a Queimada Grande é considerada a segunda ilha com maior densidade populacional de cobras do mundo. O local é o único habitat natural da jararaca-ilhoa. Já a dormideira também ocorre no continente e, segundo pesquisadores, apresenta poucas diferenças visíveis em relação aos exemplares encontrados fora da ilha.
De acordo com o pesquisador do Instituto Butantan, Otavio Marques, a presença da dormideira desperta interesse científico porque, ao contrário da jararaca-ilhoa, a espécie não sofreu mudanças aparentes durante o período de isolamento geográfico.
Segundo o pesquisador, seus hábitos noturnos e a alimentação baseada em lesmas permitiram que a serpente encontrasse na ilha condições muito semelhantes às existentes no continente. Dessa forma, a espécie manteve características praticamente inalteradas ao longo do tempo.
Dormideira pode ser encontrada em hortas e áreas úmidas
Conforme informações do Instituto Butantan, a dormideira é uma serpente de pequeno porte, terrestre e com hábitos predominantemente noturnos. Além disso, ela é totalmente inofensiva aos seres humanos.
Sua dieta é composta principalmente por lesmas e caracóis, motivo pelo qual a espécie costuma ser encontrada em hortas, áreas de cultivo e locais com vegetação úmida, ambientes comuns em diversas propriedades rurais.
Cobra dormideira na Ilha da Queimada Grande, entre Itanhaém e Peruíbe, SP — Foto: Instituto Butantan
A serpente não possui veneno. Em contrapartida, desenvolveu adaptações específicas no crânio e na mandíbula que permitem retirar moluscos de dentro das conchas sem quebrá-las, característica que chama a atenção dos pesquisadores.
Jararaca-ilhoa desenvolveu peçonha mais potente após isolamento
Enquanto a dormideira costuma passar despercebida, a jararaca-ilhoa permanece como a principal protagonista da Ilha da Queimada Grande. Segundo o biólogo Eric Comin, a espécie figura entre as serpentes mais peçonhentas e perigosas do mundo.
“Ela é uma jararaca de coloração meio esverdeada com tom voltado ao amarelo. Com isso, ela tem uma camuflagem muito boa”, disse Comin.
A origem da espécie está diretamente relacionada ao isolamento geográfico provocado pela elevação do nível do mar há aproximadamente 11 mil anos. Com a formação da ilha, uma população ancestral de jararacas ficou separada do continente e passou a evoluir de forma independente.
“Nesse isolamento, ela teve que caçar aves do continente que vão até a ilha. Para ela caçar essas aves, se ela pica a ave e a peçonha não é forte, a ave voa, vai embora e cai em outro lugar”, acrescentou o biólogo.
Jararaca-ilhoa na Ilha da Queimada Grande, conhecida como 2ª com maior densidade de cobras do mundo — Foto: João Rosa
Com o passar das gerações, a espécie desenvolveu uma peçonha cada vez mais eficiente para capturar aves, que representam a maior parte de sua alimentação. Assim, a seleção natural favoreceu indivíduos capazes de imobilizar rapidamente suas presas.
“Dentro desse isolamento geográfico […] a peçonha dela se potencializou de uma tal forma que a partir do momento que ela dava o bote, a ave já morria e ficava no galho”, completou Comin.
Por isso, a Ilha da Queimada Grande se tornou um dos mais importantes laboratórios naturais para estudos sobre evolução, adaptação de espécies e biodiversidade, temas de grande relevância para a conservação dos ecossistemas brasileiros.