Tag: Agrotóxicos

  • Nova estratégia da Anvisa reduz tempo de análise de agrotóxicos

    Nova estratégia da Anvisa reduz tempo de análise de agrotóxicos

    A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) lançou uma estratégia inédita de fiscalização no setor de agrotóxicos. A iniciativa inclui visitas técnicas às indústrias para verificar in loco se as informações dos processos de registro correspondem ao processo produtivo real e atendem às normas vigentes.

    A primeira inspeção ocorreu entre 16 e 18 de dezembro de 2025, na empresa Nortox, em Arapongas (PR). Com essa visita, a Anvisa finalizou a implementação das etapas da metodologia otimizada de análise de produtos agrotóxicos formulados a partir de produto técnico equivalente, conforme estabelece a Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) 950/2024.

    A agência elaborará um cronograma de visitas técnicas para 2026, que será acordado previamente com as empresas selecionadas.

    Metodologia reduz tempo de análise sem comprometer segurança

    A RDC 950/2024 reduziu significativamente o tempo que a Anvisa dedica às análises toxicológicas baseadas apenas em documentação, sem comprometer o rigor técnico. A medida permite que a agência direcione esforços para atividades de pós-mercado, como as visitas técnicas que verificam a conformidade das informações apresentadas no registro.

    Até 2 de janeiro de 2026, a Anvisa concluiu cerca de 750 avaliações toxicológicas de agrotóxicos formulados obtidos a partir de produtos técnicos equivalentes. O resultado representa uma redução de 75% na fila desses produtos.

    Estratégia se expande para outros tipos de produtos

    Diante dos resultados expressivos, a Diretoria Colegiada da Anvisa aprovou a RDC 1.005/2025, que estende a mesma estratégia aos produtos formulados obtidos a partir de produto técnico não equivalente.

    A nova resolução promove harmonização na análise para diferentes tipos de produtos formulados. A medida mantém os benefícios da otimização sem aumentar o risco sanitário ou o custo regulatório.

    Ferramentas digitais e novos prazos

    A Anvisa aprimora o procedimento de avaliação toxicológica sem alterar os critérios técnicos já estabelecidos. O processo utiliza a Ferramenta de Leitura Otimizada no Registro de Agrotóxicos (FLORA) e a Declaração de Constituição e Informação de Perigo do Agrotóxico (DCIPA).

    As empresas devem apresentar a DCIPA e a FLORA para todos os processos previstos na RDC 1.005/2025, incluindo os já protocolados e os novos. Para petições anteriores à vigência da resolução, as empresas têm até 2 de julho de 2026 para protocolar os documentos via Sistema Solicita.

    A agência disponibilizou uma Nota Técnica com diretrizes para a correta classificação dos produtos formulados obtidos a partir de produto técnico não equivalente. As empresas registrantes declararão a classificação de perigo do produto formulado por meio da DCIPA.

    Controle sanitário mais rigoroso

    O protocolo dos novos requisitos não substitui a submissão dos demais documentos previstos nos regulamentos sanitários vigentes. A Anvisa pode analisar a documentação integral protocolada a qualquer momento, mesmo com a avaliação otimizada.

    A resolução estabelece que inconsistências nas informações podem resultar na revisão das decisões adotadas sob o novo procedimento, a qualquer tempo.

    A Anvisa espera atuar de forma mais efetiva com as novas medidas, fortalecendo o controle sanitário e garantindo maior segurança sobre a veracidade dos dados utilizados na avaliação toxicológica. O objetivo é criar um ambiente regulatório mais robusto e ativo, com impacto direto na proteção da saúde da população.

  • Glifosato em plantações gera problemas respiratórios em comunidades da Amazônia

    Glifosato em plantações gera problemas respiratórios em comunidades da Amazônia

    Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) revelou um cenário alarmante no Baixo Tapajós, região amazônica onde plantações de soja em terras griladas estão expulsando comunidades tradicionais através do que especialistas chamam de “sufocamento”. O estudo, publicado na revista científica Environment and Planning E: Nature and Space, documenta os impactos do uso de agrotóxicos sobre indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

    Durante 18 meses de trabalho etnográfico, o pesquisador Fabio Zuker, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, investigou como a aplicação intensiva de glifosato em monoculturas de soja está provocando dificuldades respiratórias, problemas alimentares e prejuízos econômicos às populações locais.

    Impactos diretos na saúde das comunidades

    O fenômeno do sufocamento acontece de forma literal e metafórica, segundo o pesquisador. “Literalmente, as pessoas não conseguem respirar devido à intensa aplicação de agrotóxicos. Elas se trancam em suas casas, relatando dificuldade para respirar”, explica Zuker.

    Do ponto de vista metafórico, o sufocamento representa a supressão da capacidade dessas comunidades manterem suas tradições, produções e relações com o território. O estudo mostra como o uso de agrotóxicos em terras griladas funciona como estratégia de expulsão das populações tradicionais da Amazônia.

    O mito do vazio amazônico

    A pesquisa questiona o imaginário de que a região amazônica estaria desocupada. Zuker demonstra que esse “vazio” é produzido intencionalmente, e não uma característica natural da floresta. “A ideia é que o vazio na Amazônia é produzido, e não natural. Foi criado ao longo da história, desde a Marcha para o Oeste no governo Vargas até o Plano de Integração Nacional da ditadura militar”, contextualiza o pesquisador.

    Segundo o estudo, pequenos fragmentos de mata e comunidades remanescentes criam uma “farsa” que esconde a real dimensão da devastação. Da beira das estradas, trechos de floresta mascaram os vastos campos de soja que dominam a paisagem.

    Beto, morador e trabalhador rural da região, relatou ao pesquisador: “Só tem umas casinhas ali, na beira da estrada. E nada mais. Antes havia uma comunidade grande aqui. Só umas árvores ali. É tudo soja atrás”.

    Grilagem e expansão do agronegócio

    O trabalho evidencia como a expansão do agronegócio na Amazônia está associada à grilagem de terras e ao uso indiscriminado de agrotóxicos, como o glifosato. A aplicação de glifosato em plantações de soja funciona como instrumento de morte química induzida, segundo a pesquisa.

    Os fragmentos florestais que sobrevivem são descritos como “bolhas” que restam aqui e ali, disfarçando a extensão real do desmatamento e da monocultura na região do Baixo Tapajós.

    Resistência dos povos tradicionais

    Apesar da violência, o estudo destaca processos de resistência dessas comunidades. “O que está colocado em jogo é uma tensão entre forças que levam à violência e ao apagamento, e a resistência constante de coletivos indígenas, quilombolas e ribeirinhos”, afirma Zuker.

    O pesquisador trabalhou especialmente com os tupinambás do Baixo Tapajós, resgatando a ideia de um “território vivo” em contraposição ao vazio. Nessa concepção, múltiplos seres não humanos têm papel fundamental na defesa territorial e na manutenção da biodiversidade.

    “Todos esses encantados, esses outros seres que compõem esse território de múltiplas formas de vida, não somem. Eles têm a possibilidade de reaparecer”, explica o pesquisador, referindo-se aos processos de retomada e mobilização contra o avanço do agronegócio.

    Propostas de solução

    Zuker defende que o desenvolvimento humano nas comunidades amazônicas deve ocorrer com a floresta em pé. “Nada indica que o desmatamento seja um caminho importante para que exista uma melhoria na vida dessas pessoas”, afirma.

    Entre as soluções propostas estão:

    • Melhores práticas regulatórias e fiscalização no uso de agrotóxicos.
    • Proibição da comercialização no Brasil de agrotóxicos vetados em seus países de origem.
    • Diálogo entre diferentes setores para promover respeito à existência ecológica e ao conhecimento local.

    O pesquisador alerta para a dificuldade de produzir conhecimento sobre os efeitos de substâncias invisíveis que agem no longo prazo, especialmente quando há repressão por parte de grupos com poder político e econômico na região.

    Complementaridade entre diferentes áreas do conhecimento

    O estudo representa um esforço de documentação que une ciências sociais e outras áreas do saber. “Junto com análises de ciências sociais, conseguimos demonstrar também a partir de narrativas, de histórias de vida, de casos, um padrão de violência local”, explica Zuker.

    Essa abordagem multidisciplinar evidencia a dimensão dos danos que os agrotóxicos como o glifosato causam em comunidades tradicionais da Amazônia e ajuda a combater o imaginário colonial de vazio que justifica a ocupação violenta desses territórios.

    O artigo científico completo está disponível na revista Environment and Planning E: Nature and Space.

    Com informações de Jean Silva, do Jornal da USP, em matéria que que pode ser acessada aqui.

  • Brasil bate recorde de registros de bioinsumos

    Brasil bate recorde de registros de bioinsumos

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) encerrou 2025 com recorde histórico de registros de bioinsumos e avanços na modernização regulatória de agrotóxicos. Segundo dados publicados no Ato nº 63 da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins (CGAA/SDA/Mapa), o país registrou 912 novos produtos ao longo do ano, consolidando a liderança brasileira em inovação e segurança fitossanitária.

    Dos registros concedidos, 323 correspondem a produtos técnicos, destinados ao uso industrial, enquanto 162 são bioinsumos, o maior volume já contabilizado no Brasil. A categoria inclui produtos biológicos, microbiológicos, bioquímicos, extratos vegetais e reguladores de crescimento, com aplicações inclusive na produção orgânica.

    Além disso, o Mapa aprovou seis ingredientes ativos inéditos (Ipflufenoquina, Fluoxastrobina, Fluazaindolizine, Isopirazam, Fenpropidin e Ciclobutrifluram) e 19 formulações baseadas em moléculas novas, reforçando a modernização da base de defensivos agrícolas no país.

    Inovação e competitividade no campo

    A introdução de novos ingredientes ativos fortalece o manejo integrado de pragas, reduz riscos de resistência e amplia as opções de controle fitossanitário. Segundo o ministério, essas incorporações estimulam a pesquisa nacional e colocam o agronegócio brasileiro em posição de destaque no mercado global.

    Os produtos equivalentes, versões genéricas que promovem concorrência e reduzem custos, representaram a maior parte dos registros. Parte dessas liberações resultou de decisões judiciais associadas a processos antigos, protocolados entre 2015 e 2016.

    Modernização do marco regulatório

    Para garantir maior transparência e eficiência, o Mapa publicou o Ato nº 62, de 22 de dezembro de 2025, que centraliza o protocolo de registros por meio do Sistema Eletrônico de Informações (SEI/Mapa). Desde setembro, todos os novos pedidos passaram a tramitar exclusivamente pela plataforma digital, substituindo registros diretos na Anvisa e no Ibama.

    A medida também prioriza produtos com menor impacto ambiental e à saúde humana. Porém, sem alterar a tramitação dos processos antigos, o que reforça a segurança jurídica do setor.

    O ministério reforça que o número de registros não indica aumento automático no uso de defensivos. A aplicação depende de fatores técnicos, como área plantada, manejo de pragas e condições climáticas. Em 2024, 58,6% das marcas comerciais de agrotóxicos químicos e 13,6% dos ingredientes ativos registrados não chegaram a ser comercializados.

    Mais fiscalização e controle

    Em 2025, o Mapa intensificou a fiscalização e a revisão técnica de produtos, publicando chamamentos públicos e o Ato nº 61, que suspendeu 34 registros de agrotóxicos. As ações envolveram revisões sobre ingredientes como Glifosato, 2,4-D, Atrazina e Acefato, além da apreensão de 1.946 litros de produtos ilegais durante operações de campo.

    O registro no Brasil continua a seguir um processo tripartite rigoroso, com avaliações da Anvisa, Ibama e Mapa, que consideram impactos à saúde, ao meio ambiente e à eficácia agronômica.

    O balanço de 2025 integra as ações iniciadas pela Lei nº 14.785/2023, que introduziu o modelo de protocolo único e rastreabilidade. Para 2026, o ministério planeja lançar o Sistema Unificado de Informação, Petição e Avaliação Eletrônica (SISPA), em parceria com Anvisa e Ibama, consolidando o avanço digital da regulação.

    Segundo a diretora do Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas, Edilene Cambraia Soares, “o país reforça sua liderança global ao combinar transparência, segurança e inovação. Com destaque para a expansão dos bioinsumos como pilar da agricultura sustentável”.

  • Lei dos Agrotóxicos completa 2 anos

    Lei dos Agrotóxicos completa 2 anos

    A Lei dos Agrotóxicos (Nº 14.785/23) completa dois anos de vigência no dia 27 de dezembro. O marco legal traz avanços significativos em segurança agronômica, toxicológica e controle de qualidade dos defensivos agrícolas.

    Três órgãos federais dividem a responsabilidade regulatória: Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura e Pecuária. Essa estrutura tripartite fortalece o ambiente regulatório e garante processos mais criteriosos.

    “A atualização do marco legal trouxe um ambiente regulatório mais moderno, técnico e alinhado à realidade do campo, com benefícios diretos para a inovação, a segurança alimentar e a competitividade do Brasil”, afirma Arthur Gomes, diretor de Defensivos Químicos da CropLife Brasil.

    Tecnologia presente em 100% das principais lavouras

    O setor utiliza defensivos agrícolas em quase todas as lavouras das principais culturas brasileiras, como soja, milho, cana e algodão. Esses produtos controlam pragas e doenças que ameaçam a produtividade.

    O mercado brasileiro apresenta consolidação, maturidade e ampla regulação. Os agricultores aplicam produtos químicos somente com prescrição técnica de profissionais habilitados. A legislação exige critérios rigorosos para minimizar impactos à saúde e ao meio ambiente.

    Após mais de duas décadas sem atualização, o marco legal ainda atravessa processo de regulamentação para operacionalização completa.

    Sistema unificado aumenta transparência

    A CropLife Brasil reconhece os benefícios do arcabouço regulatório modernizado. A lei considera as particularidades nacionais de clima, sistemas de produção e posição estratégica do Brasil na segurança alimentar global.

    O novo marco estabelece processos avançados e critérios claros para pesquisa e desenvolvimento de novos insumos. A legislação contribui para produção sustentável de alimentos seguros e fortalece a inovação no campo.

    A transparência aumenta com a definição de prazos e procedimentos para avaliação de novas moléculas. Os produtores acessam tecnologias inovadoras em tempo adequado, o que melhora o controle de pragas e eleva a competitividade internacional do Brasil na produção de alimentos, fibras, energia e combustível.

    Avaliação de Risco e SISPA marcam avanços científicos

    “A nova lei incorpora metodologias científicas consolidadas, como a Avaliação de Risco, e avança com instrumentos como o SISPA, que aumentam a transparência e a previsibilidade do processo regulatório, embora a agilidade nos registros ainda seja um desafio para o setor”, comenta Rafael Cordioli, especialista de Defensivos Químicos da CropLife Brasil.

    O Marco Legal implementa o Sistema Unificado de Informação, Petição e Avaliação Eletrônica (SISPA). O sistema beneficia o processo regulatório nos três órgãos responsáveis (MAPA, ANVISA e IBAMA) e organiza as informações com transparência.

    O setor ainda enfrenta desafios na agilidade dos registros, especialmente para produtos inovadores que resultam de pesquisa e desenvolvimento tecnológico da indústria.

    560 novos defensivos chegam ao mercado

    O marco regulatório não influencia diretamente a adoção de agroquímicos nas lavouras. Os agricultores aplicam esses produtos conforme a necessidade pontual de controlar pragas e doenças. O avanço real acontece no cardápio e nas características dos produtos disponíveis.

    Em 2025, o Brasil registra 560 novos defensivos químicos, recorde na série histórica. O número supera os 541 produtos de 2024, ano que anteriormente detinha o recorde. A diferença entre os anos aparece na distribuição entre produtos técnicos (base industrial obtida diretamente da matéria-prima) e produtos formulados (baseados em produtos técnicos e ingredientes ativos já registrados).

    O comparativo mostra retração nos registros de produtos formulados e crescimento nos produtos técnicos.

    Genéricos dominam aprovações

    Quase 95% dos registros referem-se a produtos já existentes no mercado. Nesse caso, o sistema aprova produtos genéricos com moléculas já validadas.

    Do ponto de vista da inovação, seis novas moléculas obtiveram aprovação para produtos técnicos e 19 novos produtos formulados receberam registro.

    Entre 2022 e 2024, a indústria de insumos químicos mantém predominância no faturamento do setor agrícola. O segmento representa 70% do montante total, equivalente a R$ 81,6 bilhões.

  • Anvisa lança página sobre riscos de exposição a agrotóxicos

    Anvisa lança página sobre riscos de exposição a agrotóxicos

    A Anvisa lançou uma nova página dedicada à avaliação dos riscos de exposição a agrotóxicos para operadores, trabalhadores, residentes e transeuntes. A iniciativa amplia o acesso público a informações técnicas e regulatórias sobre os impactos desses produtos na saúde humana.

    O espaço digital reúne materiais essenciais para compreender como a Agência realiza as análises de risco, incluindo instrumentos normativos como a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 998/2025, que estabelece diretrizes para avaliação da exposição a agrotóxicos e produtos de controle ambiental. Também estão disponíveis o Guia nº 84/2025, um documento de Perguntas e Respostas, e a calculadora avaliAR, com manual, apêndices e vídeos explicativos.

    A página apresenta os principais conceitos utilizados na análise do risco ocupacional e da exposição ambiental, explicando de forma acessível como a Anvisa identifica e avalia diferentes formas de contato com agrotóxicos durante e após a aplicação no campo.

    Segundo a Agência, o conteúdo busca esclarecer o processo regulatório e fortalecer ações preventivas voltadas à proteção da saúde da população rural. A medida também reforça a transparência da Anvisa na condução de avaliações técnicas que orientam políticas públicas e práticas seguras no uso de defensivos agrícolas.

    Com a publicação, a Anvisa pretende ampliar o entendimento da sociedade sobre a importância de critérios científicos rigorosos na análise de agrotóxicos. Além de contribuir para a redução de riscos à saúde humana em áreas agrícolas.

  • Vendas de agrotóxicos sobem, mas glifosato perde força

    Vendas de agrotóxicos sobem, mas glifosato perde força

    O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) divulgou os números completos da comercialização de agrotóxicos e bioinsumos no país em 2024. Os dados revelam um mercado em transformação, com o crescimento simultâneo das vendas de produtos químicos e de alternativas biológicas.

    No ano passado, o Ibama processou 7.358 relatórios de 289 empresas, que declararam informações sobre 6.100 marcas comerciais. As vendas totais de agrotóxicos químicos apresentaram alta, principalmente nos produtos técnicos, um movimento que um aumento significativo nas importações também impulsionou.

    Glifosato lidera, mas perde espaço; mercado vê movimentações

    O herbicida glifosato e seus sais mantiveram a primeira posição no ranking de ingredientes ativos mais vendidos, com 231,9 mil toneladas comercializadas. No entanto, o volume representou uma redução frente ao ano anterior.

    O fungicida mancozebe assumiu a segunda colocação, com um salto de vendas de 52,3 mil para 75,1 mil toneladas. Herbicidas como 2,4-D e acefato também mantiveram posições altas e registraram crescimento. Entre as mudanças mais notáveis, o glufosinato – sal de amônio subiu da oitava para a sexta posição, e o cletodim entrou no top 10, substituindo o dibrometo de diquate.

    Bioinsumos ganham força com nova legislação

    Os boletins evidenciaram um crescimento expressivo na produção e na comercialização de bioinsumos. O setor cresceu principalmente pelas vendas de produtos formulados a partir de agentes microbiológicos de controle.

    A partir de 2024, uma reorganização dos relatórios, conforme a Lei 15.070/2024, passou a separar os dados em quatro subcategorias: agentes biológicos, agentes microbiológicos de controle, produtos bioquímicos e produtos semioquímicos. Essa mudança desvinculou os produtos bioquímicos dos relatórios de agrotóxicos químicos, onde apareciam antes.

    Muitos registros não viram vendas

    A análise do Ibama aponta uma característica marcante do setor: uma grande parte dos produtos registrados não chega ao mercado. Em 2024, 58,6% das marcas comerciais de agrotóxicos químicos com registro válido e 13,6% dos ingredientes ativos não registraram nenhuma comercialização. Além disso, 47 empresas mantiveram registros de agrotóxicos químicos sem reportar qualquer atividade de venda.

    Metodologia e Limitações

    O Ibama ressalta que os dados têm origem em declarações das próprias empresas detentoras dos registros. A legislação protege informações sobre estoques, que portanto não são divulgadas. O órgão também alerta que eventuais inconsistências nos números podem surgir, com possibilidade de retificação futura.

    Os relatórios completos de 2024 estão disponíveis para consulta pública na página Relatórios de comercialização de agrotóxicos do site do Ibama.

  • Revista científica retira estudo sobre segurança do glifosato após 25 anos

    Revista científica retira estudo sobre segurança do glifosato após 25 anos

    A revista científica norte-americana Regulatory Toxicology and Pharmacology despublicou oficialmente um artigo de 2000 que defendia a segurança do glifosato, agrotóxico mais utilizado no mundo. A decisão expõe problemas éticos, falta de integridade científica e levanta dúvidas sobre os resultados da pesquisa que influenciou políticas regulatórias em diversos países, incluindo o Brasil.

    Gary M. Williams, Robert Kroes e Ian C. Munro assinaram o estudo publicado em abril de 2000, que concluía que o glifosato não representava risco de desenvolvimento de câncer em humanos. No entanto, documentos internos da Monsanto divulgados em 2017 durante processos judiciais nos Estados Unidos, conhecidos como “Monsanto Papers”, revelaram que funcionários da empresa ajudaram a redigir o artigo sem o devido reconhecimento como coautores.

    Em um e-mail de 2015, William Heydens, executivo da Monsanto, sugeriu repetir a estratégia adotada no artigo de 2000. “Uma opção seria manter os custos baixos fazendo nós mesmos a redação e eles apenas editariam e assinariam seus nomes, por assim dizer. Lembre-se que foi assim que lidamos com Williams, Kroes e Munro, 2000”, escreveu Heydens, segundo documentos judiciais.

    O editor-chefe da revista, Martin van den Berg, destacou em comunicado de dezembro de 2025 várias “preocupações” e “problemas críticos” no estudo. Entre eles, a falta de clareza sobre os verdadeiros autores do texto e a ausência de menção ao envolvimento de funcionários da Monsanto, atualmente parte do grupo Bayer, na redação do artigo.

    O artigo também baseou suas conclusões exclusivamente em estudos não revisados por pares e fornecidos pela própria Monsanto. Portanto, ignorando pesquisas já publicadas à época que contradiziam suas conclusões. Além disso, investigações indicam que os autores podem ter recebido compensações financeiras não divulgadas da empresa.

    Estudo influenciou regulamentação do glifosato no Brasil e no mundo

    A pesquisa exerceu influência significativa em debates regulatórios sobre o uso de agrotóxicos globalmente. No Brasil, o artigo foi um dos estudos científicos citados no processo de reavaliação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que manteve a substância autorizada no país. O processo iniciou em 2008 e concluiu em 2019, quando a Anvisa determinou que o agrotóxico não causava prejuízos à saúde.

    Pesquisadores Alexander Kaurov, da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, e Naomi Oreskes, historiadora da ciência da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, solicitaram formalmente a retratação do artigo. Em análise publicada em setembro de 2024, eles descobriram que o artigo está entre os 0,1% mais citados na literatura acadêmica sobre glifosato.

    Van den Berg tentou, sem sucesso, obter esclarecimentos do único autor ainda vivo, Gary M. Williams. Robert Kroes faleceu em 2006 e Ian Munro em 2011. A despublicação seguiu uma análise cuidadosa das diretrizes do COPE (Committee on Publication Ethics), que regem o comportamento acadêmico.

    Anvisa utilizou estudo controverso na reavaliação do agrotóxico no Brasil

    O glifosato serve como base para mais de cem produtos disponíveis no mercado brasileiro, com uso em plantações agrícolas e também em jardins. Em 2015, durante o processo de reavaliação no Brasil, a IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), ligada à OMS (Organização Mundial da Saúde), classificou a substância como “provavelmente cancerígena” em humanos.

    Procurada pela imprensa, a Anvisa informou que “qualquer consideração seria necessário a avaliação da área técnica”. E destacou que o artigo em questão “não foi o único dado, pesquisa ou informação utilizada para avaliação da Anvisa”. A agência afirmou que, para o processo de reavaliação, analisa um conjunto extenso de dados e estudos relacionados ao tema.

    Karen Friedrich, toxicologista do Grupo Temático de Saúde e Ambiente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), observa que a prática de “ghostwriting” aparece diversas vezes nos Monsanto Papers. Indicando que funcionários da Monsanto teriam escrito outros artigos assinados posteriormente por cientistas e publicados em revistas científicas.

    Bayer afirma que glifosato é seguro e usado há mais de 40 anos

    A Bayer, em nota enviada à imprensa, afirmou que o glifosato tem sido usado “com segurança e sucesso em todo o mundo há mais de 40 anos”. A empresa declarou ainda acreditar que “o envolvimento da Monsanto foi adequadamente citado nos agradecimentos”. E que “o consenso entre órgãos reguladores em todo o mundo que conduziram suas próprias avaliações independentes baseadas no peso das evidências é que o glifosato pode ser usado com segurança conforme orientado e não é cancerígeno”.

    A Bayer adquiriu a Monsanto em 2018 por US$ 63 bilhões e herdou um passivo de mais de 67 mil processos judiciais nos Estados Unidos. Ações movidas por vítimas de câncer resultaram em bilhões de dólares em indenizações, e a empresa já pagou US$ 11 bilhões para resolver extrajudicialmente mais de 100 mil processos.

    Em janeiro de 2024, um júri da Pensilvânia condenou a Bayer ao pagamento de US$ 2,25 bilhões após concluir que a Monsanto “não alertou sobre os perigos” do Roundup. A empresa aguarda decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a admissibilidade de um novo recurso relacionado aos litígios do glifosato.

    Especialistas pedem nova reavaliação do produto no país

    Alan Tygel, membro da coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, afirma que a despublicação do artigo “coloca em xeque o próprio resultado da reavaliação da Anvisa”. Ele defende que a reavaliação de agrotóxicos no Brasil deve ser iniciada quando há informações científicas novas sobre os produtos que estão em uso. E propõe que a venda desses agrotóxicos seja liminarmente suspensa para proteger a saúde das pessoas.

    Karen Friedrich também defende que “a Anvisa deveria colocar o glifosato em reavaliação novamente, porque as pessoas estão adoecendo e morrendo por conta desse agrotóxico”.

    A despublicação reforça as suspeitas sobre os danos da substância à saúde humana. E abre caminho para novos questionamentos à comercialização do produto no Brasil e no mundo. O advogado Brent Wisner, que representou vítimas em processos contra a Monsanto, classificou o estudo como “o exemplo por excelência de como empresas como a Monsanto podem minar fundamentalmente o processo de revisão por pares através de ghostwriting, seleção tendenciosa de estudos não publicados e interpretações enviesadas”.

  • Ibama apreende 30 mil litros de agrotóxicos irregulares

    Ibama apreende 30 mil litros de agrotóxicos irregulares

    O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) identificou aproximadamente 30 mil litros de agrotóxicos em situação irregular durante operação de fiscalização em Campos Lindos, no Tocantins. A ação, conduzida pela Divisão de Proteção Ambiental do Tocantins (Dipam-TO), resultou na aplicação de R$ 1,5 milhão em multas ambientais.

    O município fiscalizado integra o Matopiba, uma das principais fronteiras agrícolas do país, que abrange territórios do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A região é reconhecida nacionalmente pela intensa atividade agropecuária. E também pela expansão do agronegócio.

    Irregularidades detectadas em propriedades rurais

    As equipes do Ibama vistoriaram 22 propriedades rurais durante a operação, com foco no controle da origem, legalidade, validade e condições de armazenamento dos agrotóxicos utilizados na região. As inspeções incluíram verificação detalhada de documentação e análise da conformidade dos produtos químicos.

    Entre as principais irregularidades identificadas estão o armazenamento inadequado de produtos, uso de agrotóxicos vencidos e comercialização de insumos sem procedência legal comprovada. Os responsáveis pelas infrações têm prazo de 30 dias para promover a destinação adequada dos produtos por meio da logística reversa, conforme estabelece a legislação ambiental brasileira.

    Autuações e notificações

    A fiscalização resultou na lavratura de seis autos de infração, totalizando aproximadamente R$ 1,5 milhão em penalidades. Além das multas, foram emitidas 11 notificações complementares determinando a destinação ambientalmente correta dos insumos irregulares encontrados nas propriedades.

    Foto: Ibama/TO

    A operação mobilizou servidores do Ibama Tocantins distribuídos em duas frentes de trabalho. Durante toda a ação, as equipes seguiram rigorosamente os protocolos de segurança, com uso obrigatório de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), garantindo a proteção dos fiscais em situações de exposição a substâncias potencialmente perigosas.

    A ação reforça o compromisso do órgão ambiental com o controle e fiscalização do uso de agrotóxicos em regiões de intensa atividade agrícola. Buscando prevenir danos ambientais e garantir o cumprimento da legislação.

  • Comunidades indígenas recebem ações sobre impactos dos agrotóxicos

    Comunidades indígenas recebem ações sobre impactos dos agrotóxicos

    O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) promoveu uma série de ações educativas sobre o uso de agrotóxicos em quatro comunidades indígenas do Mato Grosso do Sul. A equipe de Educação Ambiental do Ibama/MS estimulou o diálogo sobre os impactos dessas substâncias na saúde humana, no meio ambiente e na cultura local.

    As aldeias Guassuty (Aral Moreira), Te’yikue (Caarapó), Guyraroká (Caarapó) e Taquara (Juti) receberam oficinas educativas, rodas de conversa, dinâmicas participativas e vivências agroecológicas.

    A Escola Polo Municipal Indígena Arandu Renda Guarani/Kaiowá, em Guassuty, sediou a primeira oficina. O encontro reuniu 51 pessoas, incluindo representantes da Funai, DSEI/Sesai, Iagro e Embrapa. Os participantes discutiram o uso inadequado de embalagens de agrotóxicos e destacaram a importância de resgatar práticas culturais ancestrais para fortalecer a comunidade.

    Te’yikue identifica áreas prioritárias para restauração ecológica

    Em Te’yikue, a equipe técnica realizou atividades na Escola Municipal Indígena Ñandejara Polo e visitou nascentes e córregos indicados pelos moradores. A comunidade apontou estes locais como áreas de preocupação ambiental. Os técnicos agora planejam desenvolver um projeto de restauração ecológica focado na recuperação de recursos hídricos e na promoção da saúde ambiental.

    O diálogo em Guyraroká gerou trocas de saberes sobre os efeitos dos agrotóxicos no corpo humano. Os participantes relataram sintomas crônicos associados ao uso prolongado dessas substâncias. A comunidade propôs uma ação de reflorestamento comunitário para recuperar áreas degradadas e fortalecer a relação com a natureza.

    Foto: Erika Lopez/Ibama/MS

    TaA Aldeia Taquara, em Juti, fechou a programação com ampla participação comunitária. A liderança local mobilizou os moradores e ofereceu apoio logístico, incluindo alimentação. As atividades incluíram vivência agroecológica e entrega de mudas e materiais educativos. A comunidade demonstrou interesse em criar uma associação voltada à produção de alimentos agroecológicos.

    A iniciativa resultou na elaboração de diagnósticos participativos em cada aldeia. Os documentos identificam os principais desafios, conflitos locais, parceiros atuantes e soluções reconhecidas pelas próprias comunidades. Esses diagnósticos servirão de base para futuras ações de educação ambiental e para fortalecer a autonomia indígena frente aos impactos dos agrotóxicos.

  • Mercado de bioprotetores cresce 29% e coloca Brasil na liderança mundial

    Mercado de bioprotetores cresce 29% e coloca Brasil na liderança mundial

    O mercado global de bioprotetores movimentou US$ 8,2 bilhões em 2023 e deve atingir US$ 25,7 bilhões até 2030, segundo a consultoria Research and Markets. O Brasil lidera esse crescimento explosivo. A Kynitec revela que a área potencial tratada com agentes de biocontrole saltou de 35 milhões de hectares na safra 2021/2022 para 58 milhões em 2023/2024, um crescimento superior a 29% em cinco anos.

    Os bionematicidas dominam 47% da área tratada, superando os bioinseticidas (36%) e biofungicidas (17%). Em culturas estratégicas como soja, milho e algodão, os bionematicidas já ultrapassam os produtos químicos convencionais. Já em 2015, esses produtos biológicos representavam apenas 6% do mercado nacional. Em 2022, atingiram 75%, enquanto os nematicidas químicos despencaram de 94% para 25%.

    Apesar do avanço expressivo, os bioprotetores ainda ocupam apenas 4% do total de produtos fitossanitários que os agricultores utilizam no Brasil, o que revela um enorme potencial de expansão.

    Fungos e bactérias lideram controle biológico nas lavouras

    Os agentes de biocontrole mais importantes e amplamente comercializados incluem fungos como Trichoderma spp., Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae, Isaria fumosorosea e Clonostachys rosea. As bactérias do gênero Bacillus — incluindo B. subtilis, B. amyloliquefaciens, B. licheniformis, B. methylotrophicus, B. velezensis e B. thuringiensis — também protagonizam essa revolução.

    Esses organismos combatem patógenos do solo e da parte aérea através de diferentes modos de ação. O Trichoderma, por exemplo, age por parasitismo, competição, antibiose e estímulo à defesa natural da planta. As espécies de Bacillus se destacam pela capacidade de formar biofilmes, produzir metabólitos antimicrobianos e induzir resistência sistêmica nas culturas.

    No Brasil, o Trichoderma responde por cerca de 17% da área tratada com bioprotetores e a Beauveria, por 16%. O grupo das espécies de Bacillus, no entanto, lidera com aproximadamente 25% da área protegida.

    O que são bioprotetores e como funcionam na agricultura

    Os bioprotetores ganham protagonismo como solução estratégica para o controle de doenças em plantas. Mais do que substituir agrotóxicos, esses produtos baseados em organismos vivos, como fungos, bactérias, vírus e até ácaros, atuam de forma inteligente. Eles protegem as culturas agrícolas sem agredir o meio ambiente, a saúde dos agricultores e dos consumidores.

    Planta tratada com Bacillus. Foto: Divulgação Embrapa

    Diferentemente dos chamados “fungicidas ou biofungicidas”, que pressupõem a morte do patógeno, os bioprotetores atuam por outros mecanismos: competição, parasitismo, antibiose e indução da resistência da planta. Por isso, especialistas defendem cada vez mais o termo “bioprotetor” como o mais apropriado para englobar os diversos tipos de ação desses organismos.

    Em vez de eliminar o agente causador da doença, muitos bioprotetores fortalecem as defesas naturais da planta, competem por nutrientes e espaço, estabilizam o ambiente e previnem o surgimento de novos surtos.

    Definição científica orienta uso sustentável

    A definição mais aceita de controle biológico de doenças considera a redução das atividades determinantes da doença através da ação de organismos vivos, excluindo-se o homem. Esse controle pode ocorrer de forma natural, conservacionista, clássica (introdução de inimigos naturais) ou aumentativa (aplicação em larga escala).

    Os bioprotetores incluem microrganismos avirulentos, plantas melhoradas geneticamente, organismos antagonistas de patógenos e até produtos naturais derivados desses seres vivos. Agricultores podem integrar seu uso a práticas culturais, criando ambientes mais favoráveis à planta e menos propícios à doença. Em muitos casos, os bioprotetores não “matam” o patógeno, mas interferem na sua reprodução ou impedem que ele cause danos à cultura.

    Inovações tecnológicas ampliam fronteiras do biocontrole

    Nos últimos anos, pesquisadores passaram a explorar agentes não tradicionais como bioprotetores. Os micovírus, vírus que infectam fungos e reduzem sua virulência,  já atuam na China para controlar o crestamento do castanheiro.

    Os bacteriófagos, vírus que atacam bactérias específicas sem afetar seres humanos ou animais, demonstram potencial para controlar doenças bacterianas em plantas. Ácaros predadores e micófagos, como Orthotydeus lambi e Ricoseius loxocheles, combatem o oídio da videira e a ferrugem do cafeeiro, respectivamente.

    A criação desses organismos em laboratório e o desenvolvimento de formulações compatíveis com defensivos agrícolas representam desafios que cientistas precisam superar para ampliar seu uso comercial.

    Desenvolvimento exige processo rigoroso de seleção

    O desenvolvimento de um novo bioprotetor exige um processo rigoroso que envolve várias etapas: avaliação da cultura e da doença-alvo, isolamento de organismos antagonistas no ambiente de interesse (como o semiárido brasileiro), testes de eficácia em laboratório e campo, produção massal e formulação estável, além da integração ao sistema produtivo.

    Essa abordagem permite selecionar agentes adaptados às condições locais e às necessidades específicas dos agricultores. O controle do mofo-branco da soja com Trichoderma e Bacillus ilustra a importância de integrar o bioprotetor ao manejo agrícola, incluindo culturas subsequentes.

    Programa Bioinsumos impulsiona inovação no setor

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) criou o Programa Bioinsumos em 2020 e desempenha papel fundamental na ampliação do uso de bioprotetores no país. O programa promove produtos e tecnologias de origem biológica que favorecem o crescimento das plantas, melhoram a saúde do solo e contribuem para a sustentabilidade dos sistemas agropecuários.

    O decreto que criou o programa define bioinsumos como produtos ou tecnologias de origem vegetal, animal ou microbiana que interferem positivamente no crescimento e defesa das plantas. Agricultores podem utilizá-los na produção, armazenamento e beneficiamento de alimentos.

    Desafios e oportunidades para consolidar liderança brasileira

    Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, reconhece os avanços, mas identifica desafios para consolidar o uso de bioprotetores no Brasil. As prioridades incluem:

    • Desenvolver bioherbicidas para reduzir o uso de químicos no controle de plantas daninhas
    • Ampliar a diversidade de microrganismos disponíveis comercialmente
    • Produzir fungos em sistemas mais sustentáveis, como fermentação líquida
    • Desenvolver produtos adaptados às mudanças climáticas que aumentem a eficiência do uso de nutrientes
    • Abrir coleções microbianas públicas para empresas e pesquisadores desenvolverem novos produtos
    • Investir em formação técnica e científica de profissionais da cadeia dos bioinsumos

    “A substituição de agrotóxicos por bioprotetores não representa apenas uma tendência de mercado — constitui uma resposta à demanda por práticas agrícolas mais conscientes, seguras e resilientes. Ao proteger as plantas sem comprometer o meio ambiente, os bioprotetores restabelecem o equilíbrio dos agroecossistemas, reduzem a exposição de trabalhadores rurais a produtos tóxicos e oferecem alimentos mais seguros aos consumidores”, explica Bettiol.

    “Com ciência, políticas públicas e inovação trabalhando em conjunto, o Brasil tem tudo para seguir como líder mundial no desenvolvimento e uso de bioprotetores. E, mais do que isso, tem a oportunidade de construir uma agricultura com menos veneno e mais vida”, conclui o pesquisador.