Bruna Marquezine já revelou que o açaí está no seu ranking de comidas favoritas. Em uma participação no canal americano First We Feast, a atriz apresentou alimentos brasileiros ao público estrangeiro e falou sobre a forma como gosta de consumir a fruta, inclusive com leite em pó.
“É açaí, não é ‘açái’. ‘Eu vou querer uma tigela de ‘açái’… É açaí, ok? (risos). Alguns tomam com canudo, mas eu prefiro com colher. No Brasil, se come com o que você quiser, granola, frutas… Mas eu gosto com isso (leite em pó). Deve parecer nojento, mas é muito bom.”
O açaí, especialmente na forma de polpa, contém fibras, lipídios e compostos fenólicos, além de antocianinas, pigmentos responsáveis pela coloração característica do fruto.
A composição, entretanto, pode variar de acordo com a espécie, o genótipo e o processamento. Pesquisas da Embrapa encontraram diferenças importantes entre amostras de polpas comerciais.
Ajuda no intestino!
As fibras presentes no açaí podem contribuir para o funcionamento intestinal quando fazem parte de uma alimentação equilibrada e de uma ingestão adequada de líquidos.
Além disso, o fruto possui antocianinas e outros compostos fenólicos associados à atividade antioxidante.
Cuidado com os acompanhamentos
O perfil nutricional da preparação pode mudar bastante dependendo dos ingredientes adicionados.
Polpa de açaí sem grandes quantidades de açúcar é diferente de uma tigela preparada com xarope, leite condensado, chocolates, caldas e outros produtos açucarados.
Por isso, o cuidado não precisa ser com o fruto em si, mas principalmente com a quantidade consumida e os acompanhamentos escolhidos.
Frutas frescas, sementes ou outros ingredientes pouco processados podem ser alternativas para complementar a preparação.
A cooperativa Amazonbai, que reúne produtores agroextrativistas do Bailique e do Beira Amazonas, assinou um contrato de cinco anos para fornecer 15 mil toneladas de açaí a uma das maiores redes de distribuição de alimentos da China.
O acordo, fechado em maio durante a feira Sial China, em Xangai, garante destino comercial para a produção da cooperativa até 2031.
A precisão sobre o alcance do negócio evita distorções. O acordo assegura o escoamento da produção de uma cooperativa específica. Portanto, não da safra inteira do Amapá, como chegou a circular em algumas publicações. As 15 mil toneladas serão distribuídas ao longo dos cinco anos de vigência do contrato, o que resulta em uma média aproximada de 3 mil toneladas por ano.
Para quem produz, o formato muda o jogo. Um comprador fixo por cinco anos permite planejar colheita, processamento e entrega com antecedência, em vez de negociar preço a cada nova safra. Uma vantagem rara para a produção extrativista, historicamente refém da oscilação de preços no momento da colheita.
Como o negócio foi fechado
O contato decisivo aconteceu na Sial China, considerada a maior feira de alimentos e bebidas da Ásia. A edição de 2026 reuniu mais de 5 mil expositores de dezenas de países e recebeu cerca de 180 mil visitantes profissionais, com participação brasileira recorde: 82 empresas exportadoras do país marcaram presença, ante 54 na edição anterior, segundo a ApexBrasil. A agência de promoção de exportações projetava movimentar cerca de 3,3 bilhões de dólares em negócios imediatos e futuros durante o evento.
A ida da Amazonbai a Xangai não foi espontânea. O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) articulou a participação por meio do programa Rotas de Integração Nacional, e o governo federal destinou cerca de R$ 207 mil para levar cooperativas brasileiras à feira. Um investimento público com resultado comercial rastreável.
Quem é a Amazonbai e por que o modelo importa
A Amazonbai reúne agroextrativistas que coletam o açaí diretamente da floresta em pé, sem substituir a vegetação nativa por outro sistema de cultivo. Esse modelo sustenta o apelo do produto junto a compradores internacionais: a renda gerada pela coleta concorre diretamente com alternativas de uso da terra que exigiriam desmatamento, o que torna a floresta preservada mais valiosa em pé do que derrubada.
Segundo o presidente da cooperativa, Amiraldo Picanço, a parceria pode abrir caminho para que produtos da Amazonbai e de outras organizações brasileiras ganhem espaço no mercado asiático. A leitura da cooperativa aponta para uma porta de entrada mais ampla, não apenas para um contrato pontual.
O que ainda falta para o açaí embarcar
Contrato assinado ainda não significa produto na prateleira chinesa. Para exportar alimentos à China, empresas estrangeiras precisam obter o registro GACC (sigla para a Administração Geral de Alfândegas da China), licença obrigatória que envolve adequação de instalações de beneficiamento, rastreabilidade da origem e controle sanitário em cada etapa da cadeia.
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
Para um produto extrativista, coletado em áreas de várzea e transportado por via fluvial, essa adequação tende a ser mais desafiadora do que para uma cadeia industrial convencional. O ritmo de obtenção da certificação deve determinar quando os primeiros embarques efetivamente começam.
Por que a China aposta no açaí amazônico
O interesse chinês reflete o perfil do mercado consumidor local. A China é um dos maiores compradores de alimentos do mundo. E tem ampliado a demanda por produtos com valor nutricional, origem controlada e apelo de sustentabilidade. O açaí se encaixa nesse perfil e tem múltiplas aplicações industriais, de bebidas e sobremesas a polpas congeladas e itens industrializados. O que multiplica os canais de venda dentro do mesmo mercado.
Mais do que o fruto em si, o que se negocia é a história de origem. A associação com floresta preservada e comunidades extrativistas funciona como diferencial competitivo em mercados que valorizam procedência e rastreabilidade.
A estrutura por trás do contrato
O acordo não nasceu isolado. A Amazonbai integra a Rota do Açaí, iniciativa que oferece assistência técnica, apoio à certificação, logística e beneficiamento a cooperativas locai. Ou seja, exatamente as áreas em que pequenos produtores costumam enfrentar mais dificuldade ao tentar acessar compradores internacionais. No Amapá, ações ligadas ao Selo Amapá reforçam esse movimento, buscando valorizar no mercado externo produtos regionais associados a práticas sustentáveis.
Cumprir um contrato de cinco anos exige regularidade de volume, padrão constante de qualidade e capacidade logística para entregar dentro do prazo, safra após safra, em uma cadeia que depende de coleta em áreas de difícil acesso. Também fica em aberto a forma como o resultado financeiro será repartido entre os cooperados. Fator que, mais do que o tamanho do contrato, vai definir se o acordo cumpre a promessa de gerar renda para quem efetivamente coleta o fruto.
O Brasil voltou a ganhar destaque no cenário internacional graças à qualidade de suas frutas. Desta vez, jabuticaba, açaí e guaraná entraram para a lista das 100 frutas mais bem avaliadas do mundo no ranking do Taste Atlas.
A plataforma, considerada uma das principais enciclopédias da gastronomia mundial, elaborou o ranking com base nas avaliações de seus usuários. Na atualização publicada em 1º de julho, o Truskawka Kaszubska, uma variedade de morango cultivada na Polônia, conquistou a primeira colocação.
A jabuticaba alcançou a 19ª posição, com nota 4,3, e tornou-se a fruta brasileira mais bem colocada na classificação.
Além do sabor marcante, a fruta chama atenção pelo valor nutricional. Segundo a Embrapa, a polpa concentra minerais importantes, enquanto as sementes fornecem fibras e proteínas. Já a casca reúne antioxidantes e também pode fazer parte da alimentação.
Outro diferencial aparece na forma de crescimento dos frutos. Em vez de surgirem nos galhos, eles nascem diretamente no tronco da árvore. Esse fenômeno, conhecido como caulifloria, facilita a polinização e a dispersão das sementes.
Açaí reforça a importância da Amazônia
O açaí aparece na 40ª posição, com nota 4,1. Originário da Amazônia, o fruto ganhou espaço no mercado internacional por reunir proteínas, fibras, lipídios e minerais. Por isso, muitos especialistas o classificam como um superalimento.
No Pará, estado responsável por mais de 90% da produção nacional, moradores consomem o açaí tradicionalmente com farinha de mandioca e peixe. Além desse hábito regional, a indústria utiliza o fruto na fabricação de sorvetes, bebidas, geleias e diversos outros produtos.
Guaraná completa a presença brasileira
O guaraná ocupa a 79ª posição do ranking, com nota 3,9. Assim como o açaí, ele é nativo da Amazônia e desempenha papel importante na indústria alimentícia.
Empresas utilizam o pó e o xarope para produzir sucos, enquanto o extrato serve como ingrediente de refrigerantes e bebidas energéticas.
Além disso, a Embrapa informa que o Brasil é o único produtor comercial de guaraná do mundo. Atualmente, produtores cultivam a espécie principalmente na Bahia, Amazonas, Acre, Rondônia, Pará e Mato Grosso, abastecendo tanto o mercado interno quanto o exterior.
Jabuticaba, açaí, cambuci, guaraná, marolo e outras frutas nativas brasileiras podem ajudar a prevenir doenças crônicas associadas à inflamação e ao estresse oxidativo. Essa é a principal conclusão de uma revisão científica que reuniu estudos publicados nas últimas décadas e encontrou evidências de que compostos bioativos presentes nesses frutos protegem as células contra danos relacionados ao envelhecimento e ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas.
Pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP conduziram o estudo, que integrou o doutorado da nutricionista Maria Carolina Zsigovics Alfino sob orientação da professora Elizabeth Aparecida Ferraz da Silva Torres. A equipe colaborou com pesquisadores da Universidad Autónoma do Chile e desenvolveu a pesquisa dentro do grupo Alimentos, Nutrição e Saúde Mental da FSP, que investiga o potencial de compostos bioativos da biodiversidade brasileira para prevenir e controlar doenças crônicas não transmissíveis.
Para a professora Elizabeth Torres, o estudo avança na transformação de evidências científicas em subsídios para recomendações alimentares e estratégias de saúde pública. “Doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e neurodegenerativas, estão entre as principais causas de adoecimento e mortalidade no mundo. Identificar alimentos acessíveis e ricos em compostos bioativos capazes de auxiliar na prevenção dessas doenças tem impacto direto na promoção da saúde pública”, afirma.
Apesar dos resultados promissores, a pesquisadora reconhece uma limitação importante: a maioria das evidências vem de estudos com modelos celulares ou animais. “Ensaios clínicos com seres humanos ainda são escassos”, relata Torres.
Como os compostos agem no organismo
De acordo com Maria Carolina Alfino, os compostos bioativos das frutas nativas brasileiras controlam diretamente a inflamação e o estresse oxidativo. Substâncias como flavonoides, antocianinas, carotenoides e ácidos fenólicos neutralizam radicais livres e reforçam os mecanismos naturais de defesa antioxidante do organismo.
Essas substâncias também reduzem a produção de moléculas inflamatórias e regulam processos celulares associados ao desenvolvimento de doenças. “Ao controlar o estresse oxidativo e a inflamação crônica, dois mecanismos associados ao envelhecimento e ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas, as substâncias contribuem para a manutenção da saúde e para a prevenção de doenças crônicas”, explica a nutricionista.
Torres acrescenta que os benefícios não se limitam à polpa dos frutos. “Cascas, sementes e outros subprodutos geralmente descartados também apresentaram potencial biológico, ampliando as possibilidades de aproveitamento sustentável desses alimentos”, diz.
Jabuticaba concentra o maior número de estudos
Entre as frutas analisadas, a jabuticaba lidera o volume de pesquisas. Estudos com extratos da casca, da polpa e até dos galhos da planta apontaram elevada atividade antioxidante e capacidade de reduzir marcadores inflamatórios associados à obesidade, à resistência à insulina, a inflamações intestinais e a alterações cardiovasculares. As antocianinas, os flavonoides e o ácido elágico presentes no fruto respondem principalmente por esses efeitos. Segundo Alfino, esses compostos neutralizam radicais livres, reduzem danos celulares e modulam processos inflamatórios envolvidos no desenvolvimento de doenças crônicas.
Jabuticaba lidera volume de pesquisas. Foto: Rodarte/Agro Em Campo
O açaí e o guaraná também figuram entre as espécies mais investigadas. No guaraná, os estudos apontam potencial neuroprotetor ligado à ação conjunta da cafeína e das catequinas. Essas substâncias reduzem danos provocados pelo estresse oxidativo e pela inflamação, fatores associados à degeneração celular e a doenças que afetam o sistema nervoso.
Já o açaí desperta interesse não só pela polpa, mas também pelos subprodutos, especialmente as sementes. Estudos experimentais mostram que essas estruturas concentram elevadas quantidades de procianidinas, compostos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Os resultados sugerem potencial para reduzir processos inflamatórios relacionados a distúrbios metabólicos e a complicações cardiovasculares e renais.
Efeitos sobre a saúde do cérebro
A revisão também identificou evidências de que os compostos bioativos das frutas nativas protegem o sistema nervoso. Substâncias presentes principalmente no guaraná ajudam a reduzir a neuroinflamação, processo associado a doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson e a alguns transtornos psiquiátricos.
“As propriedades bioativas encontradas no guaraná atuam em mecanismos de redução da ativação excessiva de células inflamatórias do cérebro e na diminuição da produção de citocinas pró-inflamatórias, moléculas que participam da resposta inflamatória do organismo”, afirma Alfino.
Açaí desperta interesse não só pela polpa, mas também pelos subprodutos,. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
O estudo destaca ainda um possível impacto positivo dessas frutas sobre a microbiota intestinal: as propriedades bioativas favorecem o crescimento de bactérias benéficas e reduzem processos inflamatórios sistêmicos, fortalecendo a conexão entre intestino e cérebro. Nesse contexto, o guaraná se destacou pelos efeitos neuroprotetores, enquanto a jabuticaba apresentou resultados promissores no controle da inflamação intestinal e na proteção das células contra danos oxidativos.
Para Alfino, os resultados reforçam a importância de valorizar espécies nativas ainda pouco presentes na alimentação dos brasileiros. Segundo a pesquisadora, a globalização dos hábitos alimentares concentrou o consumo em frutas como maçã, banana e laranja, enquanto muitas espécies brasileiras com elevado valor nutricional permanecem pouco conhecidas pela população.
Pesquisadores da Amazônia sequenciaram pela primeira vez o genoma completo do açaí (Euterpe oleracea Mart.), um avanço que promete acelerar o melhoramento genético da palmeira e abrir novas frentes de pesquisa biotecnológica. O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Embrapa Amazônia Oriental. E identificou os genes responsáveis por características como produtividade elevada, maior concentração de antocianinas e resistência a doenças.
A descoberta também explica um mistério botânico que intrigava produtores e consumidores: por que alguns frutos de açaí são roxos e outros, verdes. Além disso, o mapeamento genético abre caminho para o desenvolvimento de novos produtos a partir de moléculas de interesse da indústria, como corantes naturais e antioxidantes.
Os resultados foram publicados na revista científica Genome, no artigo “The genome sequence of the açaí berry (Euterpe oleracea Mart.) and RNA-Seq analysis of the fruit ripening”.
Como a pesquisa foi conduzida
O estudo partiu da seleção de amostras de açaizeiro armazenadas no banco genético da Embrapa Amazônia Oriental. O centro de pesquisa disponibilizou material da cultivar BRS Pai d’Égua para o sequenciamento do DNA, além de frutos em diferentes estágios de maturação de duas variedades distintas: uma que produz frutos roxos e outra que gera frutos verdes, conhecida popularmente como “açaí branco”.
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
O Laboratório de Engenharia Biológica (EngBio) da UFPA, localizado no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, em Belém, ficou responsável pela extração e sequenciamento do DNA, assim como pela montagem do genoma utilizando ferramentas de bioinformática.
O que explica a diferença de cor entre os frutos
A comparação genética entre as amostras de açaí roxo e branco revelou que a coloração mais comum do fruto resulta da ativação de uma enzima específica, ligada à síntese de antocianinas. Já a variedade branca apresenta uma inibição generalizada dos genes que dão início a esse processo de pigmentação.
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
Para a pesquisadora Elisa Moura, da Embrapa Amazônia Oriental e uma das autoras do estudo, essas descobertas têm potencial para transformar o trabalho de campo. Segundo ela, o sequenciamento permite identificar regiões do genoma que funcionam como marcadores genéticos, eliminando a necessidade de aguardar cerca de seis anos para obter dados sobre produção de antocianinas e produtividade das plantas.
Um caminho mais curto para novas variedades
O conhecimento do genoma do açaí representa um ponto de partida estratégico para identificar genes ligados a características desejáveis da planta. Moura destaca que, embora não exista atualmente nenhuma doença com impacto grave sobre a produção de açaí, o sequenciamento já oferece uma base importante caso surja alguma enfermidade no futuro, permitindo identificar com mais agilidade os genes relacionados à resistência.
Pesquisadora Elisa Moura. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
A pesquisa também avança na busca por variedades de açaí mais adaptadas ao cultivo em terra firme. Como a palmeira é nativa de áreas de várzea, sujeitas a alagamentos sazonais, o desenvolvimento de plantas que tolerem ambientes com menos água tem sido uma das prioridades dos estudos da Embrapa.
Maria do Socorro Padilha, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e responsável pela equipe que lançou a primeira cultivar de açaí em 2005, dimensiona o impacto da nova ferramenta genética. Segundo ela, o desenvolvimento daquela primeira cultivar levou 24 anos de trabalho em campo. Com os dados genômicos disponíveis hoje, esse prazo poderia cair para entre oito e dez anos.
Pesquisadora Socorro Padilha. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
A pesquisadora explica que informações consistentes sobre o genoma da espécie permitem realizar boa parte da seleção genética dentro do laboratório. Portanto, tornando o processo significativamente mais rápido. Os dados de campo, levantados pelas equipes que avaliam as palmeiras de açaí, poderão agora ser cruzados com as informações geradas pelas áreas de biologia molecular, genética e bioinformática.
Novas rotas biotecnológicas para a indústria
Para além do melhoramento genético do açaizeiro, o professor Rafael Baraúna, do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA e coautor do artigo, aponta dois campos de aplicação para a descoberta. O primeiro envolve a geração de conhecimento sobre a biologia da planta. Com a perspectiva de criação de uma base de dados pública que sirva de apoio a outros pesquisadores da região.
O segundo campo está relacionado à pesquisa aplicada. O mapeamento genético pode contribuir para a produção de moléculas de interesse das indústrias farmacêutica e cosmética. Depois de identificados os genes responsáveis por compostos como corantes naturais e antioxidantes, cientistas poderão recorrer a técnicas de engenharia biológica para induzir microrganismos, como bactérias e leveduras, a produzir essas substâncias em larga escala em ambiente laboratorial.
Professor Rafael Baraúna. Foto: Vinícius Braga/Embrapa
Baraúna afirma que esse processo, batizado pelos pesquisadores de criação de rotas biotecnológicas, representa uma alternativa mais sustentável para atender à demanda industrial. Segundo o professor, a produção controlada em laboratório reduz a exploração direta da planta no campo. E ao mesmo tempo aumenta a oferta das substâncias procuradas pelo mercado.
Financiamento e equipe
A pesquisa contou com financiamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além de Elisa Moura, Maria do Socorro Padilha e Rafael Baraúna, assinam o artigo os pesquisadores Maria Silvanira Ribeiro Barbosa, Sávio de Souza Costa, Davi Josué Marcon, Adan Rodrigues de Oliveira, Lucas da Silva e Silva, Maria Paula Cruz Schneider, Juarez Antônio Simões Quaresma, Diego Assis das Graças, Adonney Allan de Oliveira Veras, Simone de Miranda Rodrigues e Artur Silva.
Quatro décadas de melhoramento genético do açaí
A Amazônia abriga duas espécies de açaí com viabilidade comercial. O açaí-solteiro (Euterpe precatoria Mart.) predomina no Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima e se desenvolve em tronco único. Já o açaí de touceira (Euterpe oleracea Mart.), nativo do Pará, Amapá e Maranhão, cresce a partir de múltiplos troncos na base. E responde atualmente pela maior parte da produção nacional.
O trabalho de melhoramento genético da Embrapa com o açaí de touceira teve início na década de 1990, resultando no lançamento de duas variedades adaptadas ao cultivo em terra firme. Uma mudança relevante, já que a espécie é originária de áreas de várzea sujeitas a alagamentos temporários.
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
A primeira cultivar, batizada de BRS Pará, foi lançada em 2005 com foco no aumento de produtividade. Em 2019, a Embrapa apresentou a BRS Pai d’Égua. Ela, além do rendimento elevado, trouxe como diferencial a distribuição mais equilibrada da colheita ao longo do ano quando submetida à irrigação. Portanto, minimizando a escassez do fruto durante o período de entressafra no Pará.
Atualmente, o projeto Melhoraçaí – Fase III dá continuidade às pesquisas com o açaí de touceira e também busca selecionar genótipos da espécie Euterpe precatoria Mart. (açaí-solteiro) para abastecer o mercado de polpa nos estados do Acre e Roraima.
Um passeio ao parque Beto Carrero, nos anos 1990, mudou a trajetória de Orival Chaves. Na época, sua sogra, dona Dolores, notou frutinhas caídas ao pé de uma palmeira, provou e garantiu: era açaí, e estava delicioso. O casal pediu autorização ao gerente do parque, colheu um cacho e passou o dia comendo, sujando as roupas e gestando, sem saber, um negócio que décadas depois renderia 15 toneladas de fruto por ano.
Orival, hoje com 73 anos, mora com a esposa Carmem, natural de Tucuruí (PA), em uma chácara na localidade de Rio Novo, em Itajaí. Os dois se conheceram em Brasília em 1973 e se casaram em 1982, quando vieram morar em Santa Catarina. Com saudade dos frutos de sua terra, Carmem trouxe as primeiras sementes de açaí juçara. O casal plantou, a palmeira se adaptou bem ao clima local e hoje os 10 mil pés da propriedade abastecem um público crescente, e exigente.
“Agora não preciso buscar cliente, eles vêm de longe comprar o fruto. Já cheguei a vender 10 toneladas para um comprador de Garuva”, conta Orival.
Durante anos, Orival conciliou a chácara com a pesca. A virada veio com dona Dolores, que trouxe do Pará uma máquina de beneficiar açaí com capacidade para 5 kg. O que começou como produção para consumo próprio virou negócio. Em 2016, Orival deixou definitivamente o mar para viver da terra.
Hoje, a propriedade vende polpa congelada diretamente ao consumidor. Sem xaropes, sem aditivos, do jeito que os paraenses consomem: com arroz, peixe e farinha.
Sistema agroflorestal atrai Epagri e vira evento técnico
A produção sustentável de açaí a partir da juçara (Euterpe edulis), espécie nativa da Mata Atlântica protegida por lei desde 2008, e que chamou a atenção do engenheiro-agrônomo e extensionista rural da Epagri, Antônio Henrique dos Santos. Entusiasta dos sistemas agroflorestais, ele indicou a propriedade de Orival para a nutricionista e extensionista social Mabel Gomes Dias Lago, que organizou, no dia 5 de maio, a 1ª Reunião Técnica “Sistema Agroflorestal na Produção de Açaí Juçara”.
O objetivo era claro: inspirar outros agricultores a produzir um fruto de alto valor comercial mantendo a palmeira viva. Uma alternativa economicamente mais interessante e legalmente segura em relação à extração de palmito, que exige o corte da planta nativa e é ilegal.
A programação reuniu o relato de Orival, orientações sobre legislação ambiental com o extensionista Fábio Arenhart, dicas de manejo sustentável de solo com Antônio e uma demonstração prática de colheita. Como a palmeira juçara é alta e os agricultores do Sul não têm o hábito de escalar o tronco como os do Norte, Orival mostrou uma solução simples: um bambu adaptado que derruba o cacho maduro direto no saco, sem desperdício.
Barbacuá: do sul do estado ao Litoral Norte
A segunda parte do evento apresentou o projeto “Juçaras por aí” e a agroindústria Barbacuá, criada por Márcio Reis, 34 anos, que trabalha com juçara desde 2016. “Era uma alternativa à extração de palmito, que produz só uma vez e representa risco legal, já que o corte da palmeira nativa é ilegal”, explica Márcio.
Márcio promove ações nas escolas para estimular a conscientização ambiental e construir uma relação de afeto com a Mata Atlântica. Foto: Divulgação
A Barbacuá nasceu em 2019 e produziu 40 toneladas de polpa em 2025. A matéria-prima vem de um viveiro com 160 mil palmeiras em Praia Grande e de 80 agricultores parceiros. Em 2024, Márcio expandiu o projeto para o Litoral Norte com oficinas em escolas de Itajaí, Ilhota e Joinville, despertando nas crianças uma relação afetiva com a Mata Atlântica. O IMA (Instituto do Meio Ambiente de SC) reconheceu o projeto como agente de compensação socioambiental.
A meta é semear dois milhões de mudas de juçara na região, junto a outras nove espécies nativas da Mata Atlântica, e fortalecer a relação de agricultores familiares e comunidades tradicionais com os frutos do bioma. Produtores interessados em participar podem acessar o perfil @somosbarbacua no Instagram.
Açaí juçara na cozinha: do brownie ao pudim
Para encerrar o evento, Mabel conduziu uma oficina culinária que surpreendeu os participantes com a versatilidade da polpa: brownie funcional com pasta de amendoim, molho barbecue, pão e pudim de açaí. “Quis mostrar outras formas de usar a polpa, não só como alternativa de consumo, mas também como fonte de renda, com produtos de alto valor de mercado”, afirma a extensionista.
Foto: Renata Rosa/Epagri
Em termos nutricionais, o açaí juçara concentra compostos bioativos, potássio, magnésio, ferro, vitaminas A, C e E, além de antioxidantes.
A seguir, a receita de pudim de açaí que fez sucesso na reunião técnica:
Pudim de Açaí
Ingredientes
1 lata de leite condensado
Polpa de açaí (mesma medida do leite condensado)
6 ovos
1 xícara de açúcar (para a calda)
Modo de preparo
Derreta o açúcar na forma de pudim em fogo baixo, mexendo sem parar até formar um caramelo. Espalhe pela forma e reserve. No liquidificador, bata o leite condensado, a polpa de açaí e os ovos por cinco minutos. Transfira para a forma caramelizada e asse em banho-maria, a 180°C, por cerca de uma hora. Deixe esfriar, leve à geladeira e sirva gelado.
Serviço:
Produtores interessados no projeto Barbacuá podem seguir @somosbarbacua no Instagram.
A Amazônia tem mais de 11 mil empresas ligadas à bioeconomia. Elas geram 200 mil empregos diretos e quase 1 milhão de empregos indiretos nos nove estados da região. Os dados estão no livro Bioindústrias na Amazônia: contribuições para o desenvolvimento sustentável na Amazônia Legal, lançado durante o Bioeconomy Amazon Summit (BAS), em Belém, na noite de quarta-feira.
A publicação é resultado de parceria entre o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e também funciona como plataforma de inteligência de negócios.
“Não é só um livro. É a reunião de trabalhos e também uma plataforma de BI, disponível para consulta e pesquisas”, disse Ricardo Araújo, analista de produtividade e inovação da ABDI.
Para Gabriela Savian, diretora de políticas públicas do IPAM, o levantamento revela uma lógica produtiva diferente da industrial tradicional. “A publicação traz um diagnóstico aprofundado de um processo de indústria que não é necessariamente como a gente imagina, de uma fábrica com uma chaminezinha. É o processo de pensar como amazonizar a indústria, ao invés de industrializar a Amazônia”, afirmou.
130 startups, da bebida de jambu ao aditivo de motor
A terceira edição do BAS, realizada entre os dias 12 e 14 de maio em Belém, reuniu 130 startups do universo de 11 mil empresas. O portfólio inclui fabricantes de bebidas, cosméticos, alimentos, biofertilizantes, biojóias, bioaditivos para motores à combustão e serviços de regeneração de áreas degradadas.
Foto: Flavia Bessa/Embrapa
Entre os casos mais emblemáticos, a Apoema, sediada em Coroatá (MA), aposta no aproveitamento total do coco de babaçu. Além de atuar em alimentos e bebidas, a startup desenvolveu um aditivo para redução do consumo de combustível, testado em parceria com uma grande cervejaria brasileira.
Outro destaque foi a Sinimbu. Fundada com foco na produção de um concentrado de jambu para drinks. A planta é conhecida pela dormência que provoca nos lábios, a empresa descobriu potencial em outros segmentos. A fundadora Tatiana Sinimbu criou o spray “tremidão”, voltado a prolongar o prazer durante a atividade sexual, e posicionou o produto como “estimulante sensorial”. As duas empresas participaram da primeira edição do evento, em 2023, e estão em fase de captação de recursos.
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
O açaí também ganhou novos contornos no evento. A Maçaix atua na valorização do açaí de origem, conceito similar ao terroir do café e do vinho. A empresa desenvolveu processos para processar a fruta em até 12 horas após a colheita, preservando sabor e nutrientes e reduzindo o uso de açúcar. Em parceria com o Instituto Nacional de Tecnologia do Brasil, também criou tecnologia para extrair antioxidantes do caroço do açaí, subproduto ainda pouco aproveitado comercialmente.
Hub de convergência
Criado em 2023 pela KPTL e pela Kyvo, o BAS se consolidou como principal ponto de encontro da bioeconomia amazônica. O objetivo é facilitar o compartilhamento de soluções, acelerar negócios e conectar tecnologia, ciência e saberes tradicionais.
Nas duas edições anteriores, o evento projetou soluções de mais de 300 empreendedores amazônicos para o mercado internacional. Nesta edição, participaram também 60 instituições, 30 representantes de comunidades tradicionais e iniciativas nas áreas de financiamento sustentável, inovação territorial, reflorestamento e cultura.
O potencial econômico do bioma amazônico é estimado em aproximadamente US$ 140 bilhões.
Produtores de açaí no Pará passaram a contar com um novo modelo de apoio que promete mudar a dinâmica da produção no campo.
O Projeto de Integração da Cadeia do Açaí foi lançado na última semana, em Belém, com foco na organização produtiva, capacitação e aumento da renda no campo. A iniciativa busca, ao mesmo tempo, fortalecer a atividade e estimular o desenvolvimento sustentável na região.
O programa de fomento, idealizado pela Polpanorte, prevê a integração dos diferentes elos da cadeia, do campo à indústria. Além disso, reúne apoio de instituições como Banco do Brasil, SENAR, FAEPA e Embrapa.
Com isso, produtores passam a contar com acesso a crédito, assistência técnica e garantia de compra da produção, o que cria um ambiente mais previsível para quem atua na base da cadeia.
Crédito e orientação no campo
Um dos principais avanços está no acesso facilitado a financiamento. Dessa forma, produtores conseguem investir no plantio, melhorar a estrutura da propriedade e ampliar a produção.
Além disso, o acompanhamento técnico ajuda a corrigir falhas no manejo e aumentar a produtividade. Ao mesmo tempo, esse suporte contínuo permite decisões mais seguras ao longo do ciclo produtivo.
Garantia de venda reduz riscos
Outro ponto central é a garantia de compra da produção. Na prática, o produtor passa a ter mais segurança e, assim, reduz a exposição às oscilações de preço.
Além disso, evita dificuldades na comercialização, o que torna a atividade mais estável. Dessa maneira, a previsibilidade aumenta e impacta diretamente a renda no campo.
Cadeia produtiva mais organizada
Além de apoiar o produtor individual, o modelo também busca organizar toda a cadeia do açaí. Ou seja, conecta desde o plantio até o escoamento da produção.
Com isso, cria uma relação mais estruturada entre campo e mercado. Ao mesmo tempo, a integração entre os diferentes elos tende a melhorar a qualidade do produto e ampliar a competitividade.
Açaí ganha força no agro
Nos últimos anos, a demanda pelo fruto cresceu dentro e fora do país. Por isso, o açaí se consolidou como um dos produtos mais relevantes do agro na região Norte.
Diante desse cenário, iniciativas que aumentam a segurança e incentivam a produção ganham ainda mais importância para o setor.
Expansão deve alcançar mais regiões
A expectativa é que o modelo avance para outros municípios nos próximos meses. Para isso, a atuação acontece diretamente no campo, com orientação e acompanhamento próximo.
Assim, o objetivo é garantir resultados no curto, médio e longo prazo, fortalecendo a atividade e ampliando oportunidades para produtores.
A Polpanorte lança no próximo dia 26 de março, em Belém, o Projeto de Integração da Cadeia do Açaí, um programa de fomento que une cinco instituições para fortalecer a produção, ampliar a renda dos agricultores e promover o desenvolvimento sustentável da região amazônica.
O projeto reúne o Banco do Brasil como agente financeiro, além de EMATER, SENAR/ATEG, FAEPA e Embrapa, responsáveis pelo suporte técnico e científico. Juntos, os parceiros oferecem aos produtores acesso facilitado a crédito, assistência técnica contínua e garantia de compra da colheita enquanto o contrato de financiamento estiver vigente.
“O açaí faz parte da identidade e da vida de milhares de pessoas do estado. O que estamos construindo é um modelo capaz de valorizar quem está na base da cadeia, levando conhecimento, estrutura e acesso ao mercado”, afirma o CEO da Polpanorte, João Zeppone. “Nosso compromisso é transformar todo esse potencial em desenvolvimento, com impacto direto na renda e na qualidade de vida dessas famílias.”
O Pará concentra 93,8% do valor total da produção de açaí no Brasil, segundo dados recentes da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas. O fruto representa uma das principais fontes de renda para milhares de famílias no estado e ocupa papel central na dinâmica econômica regional e nacional.
O projeto mira justamente esse elo mais vulnerável da cadeia: o produtor rural. As adesões garantem financiamento com taxas de juros abaixo das praticadas no mercado, além de um mecanismo de garantia que reduz os riscos da operação de crédito. O programa também eleva a qualidade da matéria-prima e estimula boas práticas de manejo.
Atuação direta nos municípios paraenses
Após o lançamento oficial, o programa parte para o trabalho de campo. “A próxima etapa prevê atuação direta em diversos municípios paraenses, levando informação técnica aos produtores e iniciando o processo de adesão”, explica Renata Nobre, gerente Administrativa da Polpanorte. Segundo ela, a garantia de compra da produção é um dos grandes diferenciais: “Esse mecanismo reduz significativamente os riscos para o produtor rural e contribui para a organização e o fortalecimento de toda a cadeia.”
A iniciativa não parte do zero. A empresa já aplicou programas semelhantes no Paraná, com foco na produção de morango e acerola. Nesses projetos, a empresa ofereceu assistência técnica e garantiu a compra da safra ou de parte dela, o que gerou mais previsibilidade de renda, reduziu perdas e incentivou o investimento no plantio. O projeto paraense adapta esse modelo consolidado à realidade local, com o objetivo de criar uma cadeia do açaí mais eficiente e integrada.
SERVIÇO
Lançamento do Projeto de Integração da Cadeia do Açaí
A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) deu início à introdução do açaí nos projetos públicos de irrigação de Alagoas, em consórcio com culturas de ciclo curto como batata-doce, mandioca e milho. A estratégia busca ampliar a renda, reduzir riscos e fortalecer a segurança produtiva dos agricultores familiares da região, onde a rizicultura e a cana-de-açúcar dominam historicamente a produção.
A Codevasf opera três projetos de irrigação no estado: o Boacica, em Igreja Nova; o Itiúba, em Porto Real do Colégio; e o Marituba, em Penedo. O piloto começou no Projeto Boacica, onde a empresa distribuiu mudas de açaí e implantou sistemas de irrigação por microaspersão em áreas de 0,5 hectare em lotes de produtores que aderiram à iniciativa.
Alternativa ao preço volátil do arroz
O superintendente regional da Codevasf em Alagoas, João Paulo Tavares, defende a diversificação como o caminho mais seguro para garantir rentabilidade no campo. “A rizicultura é uma atividade agrícola tradicional no Baixo São Francisco. No entanto, sofre mais intensamente com as variações de preço, o que reduz a margem de lucro dos produtores”, afirmou durante visita técnica aos lotes.
Para ele, o açaí, cultura com bom valor agregado e mercado consumidor consolidado, representa uma alternativa promissora. “Iniciamos o cultivo do açaí, bastante apreciado pela gastronomia local, em consórcio com outras culturas. Assim, teremos a produção de arroz aliada a outros itens, trazendo maior segurança a quem trabalha no campo”, acrescentou.
Foto: Codevasf
Tavares também destacou o peso econômico dos projetos: somente em 2024, as áreas irrigadas da Codevasf em Alagoas injetaram cerca de R$ 57,6 milhões na economia local, contribuindo diretamente para o PIB estadual e municipal.
Açaí em consórcio resolve o problema do tempo de espera
Como o açaí leva pelo menos três anos para produzir os primeiros frutos, a Codevasf optou por associar a cultura a itens de ciclo curto, garantindo renda ao produtor enquanto o açaizeiro se desenvolve. O engenheiro agrônomo Cleudson Bernardino, responsável pelo acompanhamento técnico, explica que os agricultores já iniciaram os plantios e testam diferentes variedades.
“No Projeto Boacica, houve boa adesão. Já temos agricultores cultivando açaí em consórcio com batata-doce, mandioca e milho, além de produtores que pretendem associar a cultura à banana”, relatou. Segundo ele, a produção de arroz e cana-de-açúcar continua como atividade principal. Mas passa a conviver com o açaí e as culturas de ciclo curto na área de policultura dos lotes, separada da rizicultura.
O agricultor Antônio Messias, que cultiva arroz, cana-de-açúcar, milho e banana no Projeto Boacica, celebra a novidade. “A diversificação de cultivos é muito importante para o produtor rural. Desde que soubemos da proposta, criamos uma grande expectativa, e hoje ela é realidade. Não precisamos viver apenas da cana, podemos investir em outras culturas. No espaço onde estão implantando o açaí, estou cultivando batata-doce e macaxeira”, contou.