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  • China dá preferência à soja brasileira em retaliação aos EUA

    China dá preferência à soja brasileira em retaliação aos EUA

    A China deu um passo inesperado e comprou, nos últimos dias, pelo menos 40 cargas de soja brasileira — o equivalente a mais de 2,4 milhões de toneladas do grão. Segundo apuração da Bloomberg, esse volume representa cerca de um terço do consumo mensal médio chinês, com entregas previstas entre maio e julho.

    O movimento, além de expressivo, é sintomático. A tensão crescente entre Pequim e Washington tem provocado efeitos colaterais pelo mundo, e o agronegócio está no olho do furacão. Com a escalada de tarifas entre os dois gigantes, a soja americana perdeu espaço. O Brasil, então, entrou em cena com força total.

    Nos últimos meses, o governo Trump subiu o tom e impôs tarifas de até 145% sobre produtos chineses. A China respondeu no mesmo nível, aumentando as taxas sobre produtos dos EUA, inclusive a soja. Resultado: os importadores chineses passaram a evitar o grão norte-americano e buscar alternativas mais vantajosas — e o Brasil, com seu preço competitivo e produto de qualidade, virou a bola da vez.

    Brasil assume o protagonismo

    Essa nova leva de compras reforça uma tendência que já vinha se desenhando. Em março de 2025, o Brasil embarcou 10,25 milhões de toneladas de soja, um salto de quase 60% em relação a fevereiro. Do total exportado no primeiro trimestre, 79% foi parar na China.

    A força do Brasil nesse mercado não é à toa. A agricultura por aqui tem avançado graças a práticas como o cultivo em novas áreas e o sistema da safrinha, que permite duas colheitas no mesmo terreno durante o ano. Isso significa mais produção, mais grão no mercado e mais poder de barganha com grandes compradores — como os chineses.

    No radar dos especialistas

    Analistas do setor acreditam que a demanda chinesa por soja brasileira tende a crescer ainda mais, enquanto durar o impasse comercial com os Estados Unidos. Mas o otimismo vem com um certo pé no freio. Se o ritmo de compras se mantiver alto e o estoque brasileiro apertar, o preço da soja pode subir nos próximos meses, especialmente no quarto trimestre, quando tradicionalmente a China volta a olhar para a safra americana.

    No pano de fundo, a estratégia chinesa vai além de uma birra tarifária. A busca por fornecedores mais confiáveis, com produto competitivo e sustentável, tem colocado o Brasil em evidência. Com safras recordes e logística aprimorada, o país não apenas aproveita a brecha deixada pelos americanos, mas reforça sua posição como líder mundial no setor.

    Enquanto isso, os EUA se veem em uma encruzilhada. Recuperar espaço no mercado chinês — que já foi seu maior cliente — vai exigir mais do que diplomacia: será preciso preço, qualidade e, sobretudo, confiança.

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  • Artigo: a longa estrada entre o campo e o supermercado

    Artigo: a longa estrada entre o campo e o supermercado

    A conexão entre o agronegócio e o varejo brasileiro é mais do que estratégica — é vital para o funcionamento do mercado de alimentos no país. Essa relação, construída ao longo do tempo, é baseada em uma interdependência sólida: o agronegócio precisa do varejo para chegar ao consumidor final, enquanto o varejo depende da produção agrícola para manter suas gôndolas abastecidas com produtos frescos e de qualidade. Ainda que esse elo esteja cada vez mais fortalecido, ele enfrenta uma série de desafios estruturais, logísticos e culturais que impactam diretamente o dia a dia tanto de produtores quanto de supermercadistas.

    Entre os principais pontos positivos dessa relação, destaca-se o estreitamento de parcerias, sobretudo com pequenos produtores. Mercados menores, como redes regionais, muitas vezes encontram nesses fornecedores locais uma forma de garantir produtos mais frescos, preços mais competitivos e até mais agilidade no abastecimento. O contato direto elimina intermediários, o que pode beneficiar tanto o produtor — que recebe melhor remuneração — quanto o varejista, que reduz custos e fortalece a economia local. Isso é particularmente importante em estados como o Paraná, onde a força do agronegócio regional contribui significativamente para a cadeia de abastecimento dos supermercados. Uma relação de confiança e proximidade é essencial para garantir não só o fluxo contínuo de mercadorias, mas também a manutenção de padrões de qualidade. No entanto, o caminho entre o campo e a gôndola está longe de ser simples.

    Logística

    A logística ainda representa um gargalo significativo. Embora algumas regiões do Brasil contem com infraestrutura de transporte mais adequada, o cenário nacional é desigual. Em muitas áreas do país, a precariedade das estradas, a distância entre centros produtores e consumidores e a falta de alternativas modais encarecem o frete e comprometem o abastecimento.

    Empresário Pedro Della’Nora

     

    Dados da CNT (Confederação Nacional do Transporte) apontam que cerca de 65% das cargas no Brasil ainda são transportadas por rodovias, sendo que muitas delas estão em estado crítico de conservação. Isso faz com que o frete pese no bolso do consumidor e limite a competitividade do pequeno varejista.

    Armazenagem

    A situação se agrava com a falta de capacidade de armazenagem. Segundo levantamento da FAO(Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), o Brasil só tem capacidade para armazenar cerca de 65% da sua produção agrícola, quando o ideal seria 120%. Isso obriga os produtores a escoarem sua produção imediatamente após a colheita. Pressionando ainda mais a logística e gerando perdas de qualidade e aumento de custos. Em produtos perecíveis, como frutas, legumes e verduras, isso pode ser fatal para o varejo, que depende da entrega diária e da qualidade visual dos alimentos para conquistar o consumidor.

    Nesse sentido, a proximidade entre lavoura e ponto de venda torna-se um fator estratégico. Quanto mais local for o produtor, menores os custos com transporte, menores os riscos de perda e maior o frescor dos produtos. Essa lógica tem impulsionado redes regionais a investirem em relações mais próximas com produtores locais, muitas vezes de pequeno porte, capazes de abastecer com regularidade e flexibilidade. Para garantir que os alimentos cheguem em boas condições, também é necessário o uso de caminhões climatizados e investimentos em logística de refrigeração — outro desafio especialmente para redes menores ou mais afastadas dos grandes centros.

    Além dos obstáculos operacionais, o setor também enfrenta um consumidor em transformação. Nos últimos anos, houve um crescimento evidente da demanda por produtos agroecológicos, sustentáveis e saudáveis. Uma pesquisa da Organis (Associação de Promoção dos Orgânicos) apontou que 36% dos brasileiros já consomem produtos orgânicos. E que o setor movimentou ao menos R$ 7 bilhões em 2024. Esse comportamento reflete uma nova consciência alimentar, ligada à saúde e ao bem-estar, e que exige do varejo — e, por consequência, do agronegócio — mais responsabilidade, rastreabilidade e qualidade.

    Desafios

    Essa mudança de mentalidade vem acompanhada do desafio de manter o abastecimento em um cenário de alta demanda. Para o varejo, isso significa ter uma oferta constante de alimentos frescos e saudáveis. Para o produtor, principalmente o pequeno, representa a oportunidade de diversificar sua produção e acessar mercados mais exigentes. O problema é que ainda faltam políticas públicas e incentivos que favoreçam essa integração produtiva e comercial. Incentivar o microdesenvolvimento agrícola pode ser uma alternativa para fortalecer a cadeia de abastecimento, promover a inclusão produtiva e combater os efeitos da inflação de alimentos.

    É inegável que o Brasil tem potencial para tornar essa relação entre o campo e o varejo ainda mais eficiente e equilibrada. Mas para isso, será preciso investir de forma contínua em infraestrutura, reduzir a burocracia nas relações comerciais, criar políticas de fomento à produção local e apoiar iniciativas de inovação tecnológica tanto no campo quanto nas lojas.

    Em um país de dimensões continentais, onde o agronegócio é um dos principais pilares da economia, garantir o bom funcionamento da ponte entre o campo e o varejo é, antes de tudo, uma questão de soberania alimentar. O que está em jogo não é apenas a logística ou o custo do frete. Mas a forma como o alimento chega à mesa do brasileiro.

    *Pedro Della’Nora é empresário do setor supermercadista, fundador do Ideal Supermercado, que conta com duas lojas no estado do Paraná.

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

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  • Engenheiro mecânico no agro

    Engenheiro mecânico no agro

    O mercado tradicional para engenheiros mecânicos tem se mostrado cada vez mais desafiador, com redução de vagas formais e salários abaixo das expectativas. Muitos profissionais encontram dificuldades para se inserir em grandes empresas e acabam migrando para outras áreas ou enfrentando longos períodos sem trabalho. Nesse cenário, atuar de forma autônoma surge como uma alternativa viável. Permitindo que o engenheiro explore nichos menos saturados e com alta demanda por seus serviços.

    E o agronegócio se apresenta como um desses nichos, oferecendo oportunidades para quem busca independência profissional e deseja aplicar seus conhecimentos em um setor essencial para a economia do país. De acordo com o boletim “Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro”, elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o agronegócio brasileiro empregou, no terceiro trimestre de 2024, 28,4 milhões de pessoas, representando 26% das ocupações no país.

    Mas apesar da força do setor, a conexão entre a engenharia mecânica e o agronegócio ainda é pouco explorada, e existe uma demanda significativa reprimida por esse profissional no campo. Deve haver uma maior conscientização para que mais negócios exijam laudos e Anotações de Responsabilidade Técnica (ART) que somente um profissional técnico especializado pode emitir.

    Daniel Lemos, engenheiro mecânico e fundador da Engenhando Soluções

    Dessa maneira, o mercado agropecuário apresenta oportunidades concretas para engenheiros mecânicos autônomos. Especialmente em relação a máquinas pesadas, maquinários utilizados em operações fabris e também nas atividades de estocagem, tanto de grãos quanto de líquidos, com a inspeção de silos e tanques, por exemplo. Equipamentos como caldeiras, compressores e vasos de pressão, que exigem conformidade com normas como a NR-13, são áreas que também necessitam de acompanhamento especializado.

    Contribuição significativa

    A engenharia mecânica pode contribuir significativamente ainda para a modernização do agronegócio, tornando os processos mais eficientes e automatizados. Com a mecanização crescente, a demanda por profissionais que dominem essas tecnologias só tende a aumentar. Além disso, a busca por energias renováveis no setor abre mais um campo de atuação. A engenharia mecânica entra forte em áreas como energia eólica e solar, cuidando da estrutura e do funcionamento dos equipamentos.

    Outra tendência do setor é a adoção da agricultura de precisão, que envolve o uso de sensores, drones e sistemas integrados para aumentar a produtividade e reduzir desperdícios, e o engenheiro mecânico tem papel fundamental nesses equipamentos e tecnologias.

    Falta de profissionais

    A escassez de engenheiros mecânicos especializados no agronegócio é um fator que precisa ser superado, mas também torna as oportunidades ainda maiores. Para se destacar, é essencial conhecer os equipamentos e as necessidades do setor, além de compreender as dores dos clientes. A maior dificuldade dos engenheiros atualmente é entender a demanda real do cliente. É preciso ir a campo, conversar com profissionais do setor, visitar feiras, se aprofundar no tema e entender o que realmente é necessário

    E devemos somar a tudo isso o fato de que os engenheiros mecânicos precisam despertar para a atuação de forma autônoma. O modelo de emprego tradicional tem desvalorizado a profissão, com salários abaixo do ideal. E os engenheiros mecânicos precisam aprender a enxergar oportunidades para oferecer e desenvolver seus serviços lidando diretamente com o cliente, sem depender de vínculos empregatícios.

    Com a crescente necessidade de eficiência do agronegócio, a engenharia mecânica se posiciona como um setor-chave para a evolução do campo, mas cabe aos profissionais da área se especializarem e buscarem inserção nesse mercado promissor.

    *Daniel Lemos, engenheiro mecânico e fundador da Engenhando Soluções

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  • Artigo: o setor agropecuário na Austrália

    Artigo: o setor agropecuário na Austrália

    Desde dezembro do ano passado, a Austrália acrescentou uma nova lista, a CSOL, com mais de 450 profissões em demanda no país, voltada para quem deseja ser patrocinado por empresas locais. O setor de agropecuária segue em destaque nessa lista de profissões qualificadas para a migração com novas ocupações sendo reconhecidas e incluídas. Essa atualização reflete a crescente demanda por profissões especializadas em diversas áreas do agronegócio, ampliando as oportunidades para quem deseja atuar na Austrália.

    Anteriormente a Austrália dividia as profissões em três listas. A primeira era voltada para áreas rurais e regiões afastadas dos centros urbanos, que necessitavam de algumas profissões específicas. A segunda abrangia as profissões em demanda na Austrália como um todo, mas dentro de cada estado e a curto prazo. Já a terceira reunia as profissões de altíssima demanda, essenciais para o país a médio e longo prazo.

    Com essa estrutura, era possível identificar quais profissionais tinham um caminho mais claro para a residência permanente, ou seja, a possibilidade de morar no país como residente permanente e, depois, tornar-se cidadão australiano. Agora, com a nova atualização na legislação, a Austrália ampliou as oportunidades para quem deseja trabalhar no país. Há uma grande necessidade de profissionais de diversas áreas, tornando este um ótimo momento importante para dar o próximo passo.

    Possibilidades

    Com as mudanças, há um leque ainda maior de possibilidades para aqueles que desejam construir uma carreira sólida e contribuir para o crescimento do agronegócio no país.

    Michelle Helou, advogada e agente de migração referência na Austrália

    Entre as profissões adicionadas no setor de agro na lista de demandas estão pesquisadores e técnicos focados em agricultura, aquicultura e manejo de recursos naturais. Isso incluí também cientistas especializados em pesquisa agropecuária, agrônomos, técnicos em agritech, além de especialistas em irrigação e manejo de árvores.

    Outros cargos que estão com alta demanda são cientista de pesquisa agrícola, agronomista, técnico em zootecnia, técnico de irrigação, entomologista, entre outros. Essa expansão reforça a importância de inovação e sustentabilidade no setor.

    Além das novas inclusões, algumas profissões já estavam previamente em alta demanda, como consultores e cientistas agrícolas, gestores florestais, veterinários, silvicultor, consultor agrícola, cientista agrícola. Isso mostra que a Austrália continua valorizando profissionais com expertise no desenvolvimento e gestão do setor agropecuário.

    *Michele Helou é advogada e agente de migração referência na Austrália.
    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

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  • Artigo: como o acordo do Mercosul e da UE afeta o agro brasileiro?

    Artigo: como o acordo do Mercosul e da UE afeta o agro brasileiro?

    Recentemente, o Mercosul e a União Europeia (EU) fecharam um novo acordo comercial, que estava em discussão há anos, que promete liberar 99% das exportações agrícolas brasileiras para o bloco europeu, sendo assim, esse novo acordo irá abrir portas para um mercado de mais de 450 milhões de consumidores, facilitando o acesso dos produtos brasileiros no mercado europeu, mas tendo que cumprir as exigências ambientais e sanitárias estabelecidas pela União Europeia.

    Renata Bueno, advogada, ex-parlamentar italiana e presidente do Instituto Cidadania Italiana.

    Desde o dia 1º de janeiro de 2025, a União Europeia aprovou o Regulamento Anti Desflorestamento (EUDR). A legislação proíbe a importação de produtos oriundos de áreas desmatadas. Independentemente de a prática ter ocorrido de forma legal ou ilegal no país de origem. Entretanto para atender às exigências da União Europeia que aprovou o Regulamento Anti Desflorestamento, os produtores brasileiros terão de comprovar que seus produtos não estão ligados ao desmatamento. Isso irá exigir a apresentação de documentos detalhados, como a geolocalização das áreas de produção. A rastreabilidade e a transparência da cadeia produtiva serão fundamentais para garantir a continuidade das exportações para a União Europeia.

    Novas regulamentações

    Com as novas regulamentações, os pequenos e médios produtores encontram desafios pela frente, podendo encontrar dificultar com os custos da adaptação às novas regras. Para minimizar impactos negativos, os exportadores brasileiros devem investir em tecnologias de rastreabilidade e transparência. Garantindo a conformidade com as exigências europeias e reforçando a competividade do setor no mercado internacional.

    Com a implementação do Regulamento Anti Desflorestamento irá acontecer um esforço conjunto do setor produtivo, do governo e das entidades representativas para assegurar que o Brasil continue sendo um protagonista no comércio agrícola global. Ou seja, parcerias com organizações não governamentais (ONGs) e instituições financeiras também podem ajudar a financiar a transição para práticas mais sustentáveis. O governo brasileiro pode desempenhar um papel crucial, oferecendo apoio técnico e financeiro aos produtores.

    É essencial equilibrar o crescimento econômico e a sustentabilidade, garantindo que as exigências ambientais não se tornem barreiras intransponíveis para os produtores brasileiros.

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

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  • Artigo – Compartilhar riscos e resultados

    Artigo – Compartilhar riscos e resultados

    O agronegócio é um dos setores mais voláteis da economia. Dependente de variáveis como clima, câmbio e oscilações de mercado, o setor apresenta riscos constantes que exigem uma gestão eficaz para manter a competitividade e a sustentabilidade financeira. Neste contexto, os programas de incentivos de curto prazo (ICP) podem ser ferramentas valiosas para equilibrar riscos e promover resultados sustentáveis.

    A lei de participação nos lucros ou resultados (PLR) também oferece um importante diferencial ao setor ao possibilitar que as empresas que seguem as regras estabelecidas pela legislação implementem programas de ICP de forma eficiente, aproveitando os benefícios da ausência de natureza salarial e de habitualidade, assim como da bastante relevante isenção de contribuições sociais.

    O agronegócio é um setor muito sensível porque a sua natureza envolve altos custos de produção, prazos longos de colheita e margens pressionadas por fatores externos. A incerteza causada por eventos climáticos adversos ou alterações regulatórias pode desestabilizar os planos financeiros. Tornando necessário um modelo de gestão que permita flexibilidade e capacidade de resposta rápida.

    Estratégias de remuneração

    Mesmo diante deste cenário, estratégias de remuneração bem desenhadas podem ser um importante diferencial. Os programas de incentivos de curto prazo permitem compartilhar riscos e resultados, engajando lideranças e colaboradores para que atuem como verdadeiros parceiros do negócio.

    Para que um programa de incentivos seja eficiente, algumas boas práticas podem ser adotadas com o objetivo de reduzir os efeitos da volatilidade e reforçar o alinhamento de objetivos. Uma importante prática é a definição de limites claros de remuneração variável, estabelecendo um teto para os pagamentos, evitando que os ganhos se tornem desproporcionais em relação ao desempenho real da empresa. Este teto deve ser cuidadosamente definido: não pode ser alto demais, a ponto de comprometer o caixa da empresa em momentos críticos, nem tão baixo que desestimule os colaboradores. O equilíbrio deve levar em conta a alta imprevisibilidade do setor e a necessidade por recompensas sólidas.

    Gatilhos

    Outra boa prática é evitar metas com gatilhos estreitos demais. O gatilho é o pré-requisito mínimo (aceitável) de resultado para que ocorra o pagamento do incentivo de curto prazo. Quando o gatilho é muito próximo à meta, ele pode se tornar um obstáculo, gerando frustração logo nos primeiros meses do ciclo de metas se os resultados estiverem abaixo do esperado. Isso pode levar os profissionais a reduzirem seu empenho e até a postergarem esforços e investimentos para o ciclo seguinte, desistindo do ciclo atual e, consequentemente, comprometendo o desempenho geral. Programas bem desenhados devem prever metas realistas e revisões para manter o engajamento constante e evitar a desmotivação ao longo do período de apuração.

    Também é recomendado o diferimento de pagamentos. Parte da remuneração pode ser postergada e condicionada à permanência do colaborador na empresa, reforçando o compromisso com a continuidade e o desempenho de longo prazo. Além disso, essa parcela diferida pode ser corrigida com base em indicadores econômico-financeiros da empresa, alinhando ainda mais os interesses de todos com os resultados corporativos.

    Outro ponto crucial é que o setor do agronegócio demanda indicadores que reflitam sua realidade financeira e operacional. Além das tradicionais métricas como EBITDA, margem percentual e lucro líquido, indicadores como geração de caixa operacional e redução do nível de endividamento são essenciais para medir e estimular a saúde financeira.

    Benefícios de um programa de ICP bem estruturado

    1. Retenção de profissionais estratégicos: os colaboradores com alto desempenho tendem a permanecer em empresas que reconhecem e recompensam seus resultados de forma clara e consistente.
    2. Alinhamento de interesses: vincular os pagamentos variáveis aos resultados financeiros e operacionais promove uma cultura de comprometimento e corresponsabilidade.
    3. Gestão de riscos financeiros: com um modelo de remuneração que ajusta os custos em função do desempenho, é possível manter as despesas controladas em anos de baixa performance e recompensar adequadamente nos anos de crescimento.

    Os benefícios são evidentes, porém é preciso tomar cuidado para evitar os erros mais frequentes na implementação de programas de ICP, como por exemplo a fixação de metas inalcançáveis, pois objetivos muito agressivos podem desmotivar em vez de engajar. Outros importantes pontos de atenção incluem a garantia do entendimento e transparência quanto ao funcionamento do plano aos participantes. Assim como o monitoramento e aprimoramento contínuo do desenho, já que programas de incentivo precisam ser revistos periodicamente. Isso para se manterem alinhados à realidade do mercado e às prioridades estratégicas da empresa.

    Sustentabilidade dos negócios

    Programas de Incentivo de Curto Prazo podem ser aliados-chave na sustentabilidade dos negócios. Isso tendo em vista que o setor do agronegócio exige, mais do que boas práticas de gestão financeira, estratégias de retenção e incentivo robustas, que compartilhem riscos e resultados de forma equilibrada. Um programa de incentivo bem desenhado pode ser o diferencial entre uma empresa que apenas reage às adversidades versus outra que lidera o mercado com resiliência e propósito.

    Investir em um ICP bem estruturado significa reconhecer que, no agronegócio, os desafios podem ser compartilhados, assim como os frutos do sucesso. Dessa forma, é possível transformar incertezas em oportunidades e reforçar a posição de mercado das empresas que buscam crescer de forma sustentável e consistente.

    * Gustavo Siciliano, associado sênior da SG Comp Partners, consultoria especializada em gestão de remuneração

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  • O Agro está ficando tech: desafios e oportunidades na era da tecnologia

    O Agro está ficando tech: desafios e oportunidades na era da tecnologia

    O agronegócio brasileiro é um dos pilares da economia nacional, responsável por cerca de 25% do PIB, com taxas de crescimento notáveis ano após ano. Embora reconhecido por sua contribuição econômica, o setor atravessa uma transformação crucial, impulsionada pela integração da tecnologia, que merece atenção especial.

    O perfil do produtor rural brasileiro está passando por mudanças. Pesquisas recentes indicam um avanço na digitalização dos produtores, impulsionado por uma infraestrutura tecnológica cada vez mais robusta e por novas formas de interação com o mercado e distribuidores. Em paralelo, os investimentos em tecnologia também estão em evolução, reforçando um cenário cada vez mais tecnológico.

    Diante desse panorama, surgem algumas questões: qual é o nível de digitalização dos produtores? Como evoluíram os investimentos em tecnologia entre produtores e distribuidores? E, olhando para o futuro, quais são os desafios e oportunidades que o setor enfrentará nos próximos anos?

    O produtor está se tornando mais digital

    A digitalização do agronegócio brasileiro ainda é um movimento recente, marcado por desafios e oportunidades. Apesar de o país contar com mais de 5 milhões de produtores rurais, aproximadamente 80% das terras agrícolas estão concentradas nas mãos de apenas 9% dos proprietários. Essa concentração facilita estratégias para alcançar grandes produtores, mas exige abordagens digitais para alcançar os outros 91%, predominantemente pequenos agricultores.

    Hoje, apenas 600 mil produtores utilizam plataformas online, evidenciando que a digitalização ainda está em estágio inicial. Revendas tradicionais ainda dominam o acesso ao mercado (46%), mas a penetração dos marketplaces digitais cresce entre grandes propriedades, com adoção variando de 32% a 45%. A conectividade é particularmente forte entre os jovens: 82% dos produtores com menos de 25 anos estão conectados, enquanto a taxa cai para 5% entre os acima de 55 anos. Essa mudança geracional acelera a transição de modelos tradicionais “porteira a porteira” para transações digitais.

    Os sistemas produtivos e a tecnologia

    A evolução dos investimentos em tecnologia nos sistemas produtivos é fundamental para o fortalecimento e a competitividade do agronegócio brasileiro. À medida que o setor enfrenta desafios como a crescente demanda por alimentos, a escassez de recursos naturais e as mudanças climáticas, a adoção de tecnologias inovadoras torna-se uma estratégia essencial para maximizar a eficiência e a produtividade. As principais áreas de aplicações incluem agricultura de precisão, desenvolvimento genético e Internet das Coisas (IoT), que estão moldando a forma como os produtores rurais gerenciam suas operações.

    Nos últimos anos, o investimento em tecnologias voltadas para a agricultura de precisão tem crescido exponencialmente, refletindo uma mudança significativa na abordagem da produção agrícola. De acordo com a Embrapa, o mercado de agricultura de precisão no Brasil deve atingir um valor de R$ 30 bilhões até 2025. Isso com um crescimento anual de aproximadamente 15%. Esse crescimento é impulsionado pela adoção de tecnologias como drones, sensores e sistemas de monitoramento. Eles permitem uma gestão mais eficiente das lavouras, resultando em aumento de produtividade e redução de custos operacionais. Estudos também apontam que o uso de tecnologia no campo pode aumentar a produção agrícola em até 70% até 2050, ajudando a atender à crescente demanda global por alimentos.

    Além disso, a adoção da IoT está transformando a gestão das operações agrícolas. Atualmente, cerca de 12 milhões de hectares no Brasil (18% do total) são monitorados por dispositivos IoT. Eles promovem maior precisão na irrigação e aplicação de defensivos. Essas inovações não apenas aumentam a eficiência do uso de recursos, mas também promovem práticas agrícolas mais sustentáveis, como a redução de desperdício de água em até 30%. Com a crescente conscientização sobre a importância da sustentabilidade, a tendência é de que os investimentos em tecnologias verdes e soluções que promovam a eficiência ambiental aumentem consideravelmente, moldando o futuro do setor agropecuário.

    A cadeia que atende o Agro

    Com o avanço da digitalização entre produtores, o comportamento de compra e as expectativas em relação aos canais de venda também estão mudando. No entanto, muitas empresas que atendem o setor têm demorado a acompanhar essa transformação.

    Embora existam avanços pontuais em P&D, suprimentos, marketing e atendimento ao cliente, os investimentos em tecnologias digitais nas empresas do setor seguem baixos. Em 2023, apenas 1% da receita das empresas foi destinada à tecnologia, com previsão de um modesto aumento para 1,1% em 2024. Além disso, aproximadamente 75% desses recursos são usados para manutenção de estruturas já existentes, sem foco em inovação ou criação de novas fontes de receita.

    Essa falta de foco em transformação digital limita o crescimento do setor e sua capacidade de atender às novas gerações de produtores. Empresas precisam diversificar suas estratégias de mercado, adotando canais digitais que ofereçam praticidade e experiências personalizadas. Isso não apenas amplia sua relevância. Mas também permite a coleta de dados de consumo, reestruturação de equipes comerciais, aprimoramento de ofertas personalizadas e fortalecimento do relacionamento com a próxima geração de líderes rurais.

    O amanhã e os desafios

    Com a digitalização acelerada dos produtores rurais brasileiros, é imprescindível que as empresas que atendem a esse setor acompanhem esse ritmo dinâmico. A transformação digital deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade estratégica para atender às novas expectativas dos produtores. Adaptar-se a esse cenário significa investir em plataformas digitais, equipes capacitadas e abordagens mais personalizadas.

    Empresas que aproveitarem essa oportunidade terão a chance de se posicionar como parceiras de confiança, contribuindo para um agronegócio mais eficiente, sustentável e competitivo. Ao alinhar-se às demandas dos produtores conectados, o setor pode transformar desafios em oportunidades, moldando um futuro inovador e promissor para o agro brasileiro.

    Lucas Palotta é Team Leader na Peers Consulting + Technology, engenheiro formado pela UNICAMP, com 5 anos de experiência em consultoria de negócios. Atuação em projetos em múltiplos setores, com foco em gestão do exercício orçamentário, implementação de Transformation Offices (TO), aplicação de frameworks ágeis em equipes e projetos, desenvolvimento de estratégias inovadoras de abastecimento e lideranças de negociações em larga escala.

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

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  • Artigo: como a flutuação do dólar afeta o agronegócio

    Artigo: como a flutuação do dólar afeta o agronegócio

    O ano de 2024 foi marcado por reviravoltas no mercado cambial. O dólar comercial começou o ano cotado a R$4,89, impulsionado por um otimismo inicial em relação à política fiscal brasileira. Mas esse cenário mudou rapidamente. Com uma combinação de fatores internos e externos — das incertezas na política econômica às tensões geopolíticas globais —, a moeda americana encerrou o ano a R$6,19, pressionando os custos de importação e alterando o equilíbrio da competitividade brasileira no mercado internacional.

    Para um país como o Brasil, onde cerca de 88% das transações comerciais internacionais são realizadas em dólar, essas oscilações têm um impacto direto na economia. E para o agronegócio, setor que move grande parte da nossa balança comercial, a questão se torna ainda mais crítica.

    Mas, afinal, a alta do dólar é boa ou ruim para o agronegócio brasileiro? A resposta não é tão simples. Se por um lado a valorização da moeda americana torna os produtos brasileiros mais baratos e competitivos no mercado externo, impulsionando as exportações, por outro, encarece a aquisição de insumos importados, aumentando os custos de produção. Esse efeito duplo pode ser visto nos principais produtos que movimentaram o comércio exterior do Brasil em 2024.

    Impacto da flutuação do dólar

    A soja, um dos carros-chefes das exportações, por exemplo, foi beneficiada pelo dólar alto, aumentando a receita dos produtores em reais. No entanto, esse benefício foi parcialmente anulado pelo encarecimento dos fertilizantes, um dos principais insumos da lavoura. O setor sucroalcooleiro, quarto produto brasileiro mais exportado, enfrentou um desafio semelhante. Embora o açúcar tenha se valorizado no mercado internacional, o aumento dos preços dos combustíveis impactou os custos logísticos, reduzindo a margem de lucro dos exportadores.

    Já no lado das importações, os principais produtos adquiridos pelo Brasil — em especial combustíveis, adubos e fertilizantes químicos — demonstram a alta dependência do país em relação a insumos externos. Isso encareceu a produção agrícola e reduziu a competitividade do setor, exigindo um planejamento financeiro mais rigoroso para manter a rentabilidade.

    Se 2024 nos ensinou algo, foi que a preparação e a tecnologia são fundamentais para enfrentar esse cenário de incertezas. Para 2025, especialistas projetam um cenário ainda instável, com o dólar mantendo um padrão de alta volatilidade. Nesse contexto, a adoção de estratégias inteligentes torna-se indispensável. Empresas do agronegócio precisam investir em tecnologia para monitorar suas cadeias de suprimentos, usar dados para otimizar sua logística e explorar alternativas de hedge cambial para reduzir riscos.

    No comércio exterior, a previsibilidade é a chave para a competitividade. Quem se antecipar, entender os movimentos do mercado e usar tecnologia a seu favor, estará melhor preparado para tirar proveito das oportunidades. E minimizar os impactos das flutuações cambiais no futuro.

    Por Helmuth Hofstatter, CEO e fundador da Logcomex, empresa líder em tecnologia para o comércio global.

  • Artigo: as novas estratégias para alavancar o agronegócio no exterior

    Artigo: as novas estratégias para alavancar o agronegócio no exterior

    Globalmente, o agronegócio vive o desafio de se adaptar a novos padrões comerciais. Mercados como o europeu e o asiático apresentam demandas crescentes por sustentabilidade e inovação. Enquanto a chamada Guerra Fria 2.0 força os países a se posicionarem frente a tensões entre grandes potências, conflitos armados significativos e contingenciamentos de mercados, como as ameaças tarifárias anunciadas por Donald Trump. Sobreviver nesse ambiente de alta competitividade e manter o protagonismo no mercado internacional, conservando a capacidade de se relacionar com todos os países, exigirá cada vez mais das empresas brasileiras negociadores atentos às movimentações geopolíticas, dotados de flexibilidade e capazes de se articular estrategicamente.

    A manutenção de uma postura de neutralidade nos relacionamentos comerciais ajuda a conservar portas abertas, mas não basta. É essencial investir na diversificação dos mercados para exportação e no acompanhamento próximo das políticas internacionais, estabelecendo diálogos contínuos com o governo e atuando no sentido de que a abordagem diplomática apoie o setor privado sem gerar incertezas.

    Com alto potencial de consumo, o mercado asiático merece atenção especial. Concentra 60% dos habitantes do planeta e cerca de 40% do PIB global, além de ter promovido a maior redução da pobreza dos últimos 30 anos, segundo o Banco Mundial. Mas o produto agrícola brasileiro ainda depara com restrições. Foram necessários anos de disputa na Organização Mundial de Comércio (OMC) para que o frango brasileiro entrasse na Indonésia, o que só aconteceu em 2019.

    Qualidade e certificações

    É fundamental investir em melhorias de qualidade e certificações que atendam aos padrões desses mercados. Além de trabalhar em parceria com entidades governamentais locais e promover feiras e missões comerciais. A construção de relacionamentos de longo prazo e a capacidade de se adaptar às preferências culturais locais são as chaves para a entrada e o fortalecimento dos produtos brasileiros nessas cobiçadas prateleiras.

    Um terceiro mandamento para empresas que buscam crescimento externo é a aproximação e a cooperação com a diplomacia brasileira. Nossos diplomatas conhecem as instituições internacionais, o que pode facilitar o acesso a mercados e o combate a barreiras e favorecimentos indevidos. Além disso, eles participam ativamente de reuniões de blocos econômicos. E possuem conhecimento detalhado das especificidades de importantes parceiros comerciais, como a União Europeia e a Associação de Nações do Sudeste Asiático. A colaboração entre setor privado e governo complementa esforços, recursos e expertises, propiciando articulações para penetrar nos mercados mais difíceis e favorecendo maior integração do setor agropecuário com as políticas comerciais externas do País.

    A questão ambiental é também um ponto de destaque nos mercados globais, especialmente na Europa e, cada vez mais, na Ásia. O Brasil tem uma posição dúbia nessa área, apresentando dados favoráveis, como o uso de energia limpa, mas também taxas preocupantes de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. A inserção de produtos agrícolas em mercados externos depende, em grande parte, da capacidade de atender às exigências ambientais. E de lidar com a visão que países e compradores têm do Brasil, o que requer investimento em tecnologia aplicada e marketing assertivo. Eficiência no uso de recursos naturais, economia circular e bioeconomia são requisitos estratégicos para se alinhar aos padrões internacionais, com melhoria de imagem e validação científica de métodos de produção que assegurem uma agricultura tropical sustentável.

    Transações multimoedas

    Por fim, é vital desenvolver competência para transações multimoedas. As trocas comerciais cada vez mais se afastam da predominância do dólar. E a instabilidade das moedas ocidentais, aliada ao aumento dos juros nos Estados Unidos, tem levado China e Rússia a privilegiarem as próprias moedas nas transações com outros países. O fenômeno é particularmente recorrente na Ásia e aponta uma tendência de médio e longo prazo. Investir em sistemas financeiros que suportem a diversidade cambial e buscar orientação sobre regulamentações financeiras globais são medidas favoráveis a essa nova dinâmica. A diversificação de moedas mitiga riscos financeiros, à medida que diminui a exposição à volatilidade do dólar, abre novas oportunidades de negócios e fortalece a resiliência das empresas em um ambiente econômico global em constante mudança.

    Enfim, há uma combinação de variantes em mutação. Algumas tendências já são claras, outras apenas começam a se delinear. O agronegócio brasileiro precisa estar atento a ambas para não ser surpreendido e conservar sua competitividade e protagonismo nos principais mercados mundiais.

    Solange Kurpiel é coordenadora de Projetos em Aprendizagem e Cultura no Imaflora
    Pablo Ibañez é professor de Geopolíticana Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro;
  • Artigo: produtor rural e pedido de recuperação judicial

    Artigo: produtor rural e pedido de recuperação judicial

    Ao fazermos uma retrospectiva do ano de 2024, constatamos um número recorde de pedidos de recuperação judicial no agronegócio. Segundo a Serasa Experian, os pedidos de recuperação judicial, entre produtores rurais como pessoa física, aumentaram 523%. Um número preocupantemente elevado.

    O ano de 2024 não foi favorável para o agronegócio, com problemas que já se manifestavam desde 2023. Duas safras consecutivas ficaram abaixo do ideal, por causa de questões climáticas, de preço, além de conjecturas externas (guerras e oscilação política). Contudo, esses fatores isoladamente não justificariam um aumento tão expressivo nos pedidos de recuperação judicial. É inegável que alguns escritórios de advocacia também atuaram para convencer produtores rurais em dificuldades (ou não) de que esse processo seria uma alternativa viável a ser considerada.

    Vale ressaltar também que o instituto da recuperação judicial nas mãos erradas pode ser sinônimo de planejamento financeiro equivocado. Conhecemos casos de empresas que usam a recuperação judicial de modo antiético e temerário, ou seja, conseguem descontos à força, a qualquer preço, porque os credores são obrigados a conceder o desconto por conta da ordem judicial. Agem assim como um planejamento financeiro. Renovam a frota, compram produtos dos fornecedores, substituem o maquinário e, em seguida, pedem recuperação judicial. Há muita gente usando a recuperação judicial nesse sentido.

    Muitos produtores, sem experiência em todas essas situações, sem contato prévio com esse tipo de assessoria, optaram pela recuperação judicial.

    Basicamente, o que é a recuperação judicial?

    A Lei nº 14.112/2020 alterou a Lei de Falências e de Recuperação Judicial (Lei nº 11.101/2005), trouxe a possibilidade do produtor rural pessoa física requerer um plano de recuperação judicial similar àquele destinado aos microempresários individuais. Permitindo, desta forma, que produtores rurais pessoa física solicitassem recuperação judicial. Antes disso, apenas produtores rurais com registro na Junta Comercial por pelo menos dois anos podiam solicitar o benefício. De forma simplificada, recuperação judicial é o que antigamente se conhecia como concordata. Trata-se de um mecanismo utilizado quando uma pessoa ou empresa não consegue mais cumprir seus compromissos financeiros da maneira tradicional. É um processo judicial que busca a reestruturação da empresa em dificuldades econômicas, permitindo a renegociação de suas dívidas por meio da apresentação de um plano, que deverá ser seguido para o pagamento dos credores. Mas o que leva uma pessoa ou empresa a recorrer a esse recurso?

    Antes que a empresa quebre ou venha a falir, existe a possibilidade de solicitar a recuperação judicial. A legislação atual é mais avançada do que a antiga concordata, tendo como principal objetivo permitir que a empresa se reestruture. Contudo, em muitos casos no setor agropecuário, essa medida não era realmente necessária, especialmente porque esse processo abala a credibilidade da empresa e, até mesmo, do nicho de mercado como um todo.

    Recuperação judicial vale pra todos os débitos?

    A recuperação judicial permite a organização de todos os débitos, com exceção dos débitos tributários e daqueles garantidos por alienação fiduciária. Por isso, atualmente, os bancos utilizam amplamente esse instituto. Antes, era comum a hipoteca de terras; hoje, adota-se a alienação fiduciária. Esse mecanismo transfere, praticamente, a propriedade ao banco, que só exerce seus direitos sobre ela em caso de inadimplência.

    Se o juiz deferir o pedido, o solicitante, em regra, dispõe de seis meses para obter a aprovação do plano, prazo que, em alguns casos, pode ser prorrogado. A aprovação depende de votação dos credores em assembleia, quando podem ser negociados descontos e períodos mais longos.

    Muitas vezes, os advogados trabalham para que os agricultores consigam uma redução de 80% de um débito, com prazos de até 20 anos para pagamento. Analisamos vários pedidos, conhecemos produtores e empresas envolvidos como credores e concluímos que, em diversos casos, ainda não havia necessidade desse recurso.

    Aliás, quem se beneficia com a recuperação judicial?

    Normalmente, é o devedor, quando bem feita. E, em casos extremos, os credores acabam sendo beneficiados também, porque o processo organiza as dívidas e permite que todos recebam um pouco; ou seja, a vantagem é evitar a falência, como o próprio nome indica: recuperação.

    Em outras situações, os credores assumem parte da operação do devedor, o que nem sempre pode ser a opção cogitada para aqueles que usam desse mecanismo.

    Imaginemos uma situação: o devedor pede recuperação, faz uma negociação com um banco que não tinha alienação fiduciária e esse banco entra no rol de credores. Ele obtém uma redução de 50% do valor dos débitos e parcela isso em 10 anos. Com esse banco, dificilmente a empresa ou o produtor rural conseguirá operar futuramente.

    Se o empresário ou o produtor rural incluírem nesse processo praticamente todos os seus financiadores, como trabalharão no curto prazo depois? Quais serão suas fontes de financiamento? Dificilmente um produtor ou uma empresa que entrou em recuperação tem lastro ou caixa para isso.

    Todas as etapas, tanto a gestão do processo quanto a manutenção da atividade posterior, com fontes de financiamento e caixa, são essenciais. A empresa pode sair até mais forte, mas esse mecanismo não pode ser utilizado de forma precipitada, como vimos em casos recentes, nos quais, empresas e produtores, inviabilizaram suas atividades futuras.

    Há outras soluções antes de se chegar à recuperação judicial, como parcerias de negócio. Em algumas localidades, o produtor pode ter um parceiro local para adquirir sua produção ou fornecer insumos. Se ele tiver opções e estiver bem ciente do que está fazendo, essa é uma alternativa viável e menos onerosa.

    Eduardo Berbigier é advogado tributarista, especialista em Agronegócio, membro dos Comitês Juridico e Tributário da Sociedade Rural Brasileira e CEO do Berbigier Sociedade de Advogados.