Crédito caro coloca gestão do agro à prova

Andav 2026

Escrito por

em

,

O agronegócio brasileiro atravessa um período em que produzir mais já não basta. Crédito mais caro, pressão sobre as margens, necessidade de capital de giro e mudanças na relação entre produtores, distribuidores e financiadores estão aumentando a importância da gestão e da capacidade de adaptação no campo. Esse cenário esteve no centro do 15º Congresso Nacional da Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav), realizado de 11 a 13 de agosto, em São Paulo.

Com o tema “Agroeconomia brasileira: reflexões para o futuro”, o evento reuniu mais de 18 mil participantes nos quatro pavilhões do Transamérica Expo Center. Ao todo, foram mais de 24 mil metros quadrados de área de exposição e mais de 250 marcas. A programação abordou temas como economia, crédito, inovação, bioenergia, mercado, gestão e reforma tributária.

Mais do que apresentar produtos e tecnologias, o congresso colocou em discussão mudanças que atingem diferentes elos da cadeia. Nesse ambiente, a distribuição ganhou destaque pela posição estratégica entre indústria, tecnologia e produtor rural. Ao mesmo tempo, o aumento da complexidade financeira exige decisões mais precisas de empresas e produtores.

Crédito caro aumenta pressão sobre o agro

A situação financeira do setor foi um dos principais pontos levantados durante o Congresso. Segundo Ezequiel Wilbert, CEO da Safegold, o agronegócio convive com crédito mais caro, margens pressionadas e maior necessidade de capital de giro.

Para o executivo, esse ambiente também ajuda a explicar o crescimento das recuperações judiciais no setor. Wilbert ressalvou, porém, que o número ainda representa uma parcela pequena diante da dimensão do agronegócio brasileiro.

“O avanço das RJs sinaliza que existem empresas e produtores operando com ciclos financeiros mais apertados, crédito mais caro e menor margem para absorver erros de gestão ou mudanças de mercado”, afirmou.

Nesse contexto, a gestão financeira passa a ter peso ainda maior. Wilbert defendeu que empresários conheçam com precisão seus custos e margens, acompanhem o ciclo financeiro e avaliem o impacto da dívida sobre a geração de caixa.

“Não basta olhar crescimento ou faturamento; é preciso saber se a operação efetivamente gera caixa suficiente para sustentar o capital de giro e o endividamento”, disse.

A avaliação feita durante a Andav, portanto, aponta para uma mudança de foco. O crescimento continua sendo importante, mas precisa vir acompanhado de controle financeiro, qualidade das informações e capacidade de tomar decisões em um ambiente de maior pressão.

Tecnologia busca eficiência no campo

Ao lado dos debates financeiros, a inovação apareceu como outro eixo importante para a competitividade do agronegócio. Soluções biológicas, tecnologias voltadas à fisiologia vegetal, agricultura regenerativa e inteligência artificial estiveram entre os assuntos discutidos no Congresso.

Foi nesse contexto que o Grupo Casa Bugre participou do evento, no ano em que completa 45 anos. A empresa esteve ao lado de Krilltech, Agrilife Solutions e Terrus Regeneração, apresentando soluções relacionadas à nutrição vegetal, bioinsumos, eficiência fisiológica e agricultura regenerativa.

Entre os exemplos apresentados esteve o conceito de Nutrifisiologia, desenvolvido pela Agrilife Solutions. A proposta busca integrar fisiologia vegetal e nutrição para ampliar o aproveitamento dos nutrientes e tornar o manejo mais eficiente.

A empresa também apresentou soluções à base de microalgas, além do VacStress, voltado ao preparo de soja e milho diante de situações de estresse abiótico. Já a Krilltech levou tecnologias baseadas em nanopartículas de carbono, enquanto a Terrus Regeneração apresentou uma plataforma de agricultura regenerativa baseada na análise da tipologia de argila.

Para Everton Campos, a inovação precisa estar ligada ao resultado econômico e ambiental. “O mercado não busca apenas produtividade. Hoje, eficiência precisa estar associada à rentabilidade para o produtor e para a distribuição, além de soluções com baixo ou zero impacto ambiental”, afirmou.

A participação da Casa Bugre também levou a discussão para além das tecnologias apresentadas nos estandes. Uma edição especial do podcast AgriforLife Talks foi gravada durante o Congresso, reunindo convidados para discutir geração de caixa, crédito, barter, mercado de capitais, inovação e novos modelos de relacionamento na cadeia.

Novos modelos aproximam crédito e produção

As mudanças no financiamento do agro também apareceram nas conversas realizadas durante o evento. Francisco Martinez, diretor-executivo do Broto, apresentou o Barter Broto, solução que digitaliza a operação de troca de grãos por insumos.

Nesse modelo, o produtor adquire os insumos necessários para a safra e utiliza parte da produção futura como forma de pagamento. A operação, segundo Martinez, é integrada ao Banco do Brasil, que assume o risco de crédito, enquanto a plataforma busca ampliar a agilidade e a rastreabilidade do processo.

O advogado Ruy de Toledo Piza, sócio do FAS Advogados, também apontou uma aproximação maior entre fabricantes, fornecedores de insumos, revendas, financiadores e empresas especializadas em soluções financeiras.

De acordo com Piza, o mercado vem recorrendo a estruturas mais sofisticadas para financiar o agronegócio, com a participação de instituições financeiras, gestoras, securitizadoras, fintechs e agtechs. A movimentação ocorre em um cenário marcado por crédito mais caro, inadimplência elevada e necessidade de capital de giro.

Ao mesmo tempo, a tecnologia amplia seu espaço nessa transformação. O executivo citou avanços em biodefensivos, bioprodutos e biossoluções, além da crescente interação com a inteligência artificial.

Competitividade depende de integração

As discussões da Andav apontaram para um agro em transformação. De um lado, produtores e empresas precisam lidar com um ambiente financeiro mais exigente. De outro, novas tecnologias e modelos de financiamento abrem caminhos para aumentar a eficiência e melhorar a capacidade de resposta da cadeia.

A conclusão que atravessou os diferentes debates é que produtividade, sozinha, não define mais a competitividade. Gestão financeira, inovação, acesso a crédito e eficiência produtiva precisam caminhar de forma integrada.

Nesse cenário, a distribuição também ganha uma função estratégica. O setor deixa de atuar apenas como elo comercial entre fabricantes e produtores e passa a participar de uma rede que envolve ciência, tecnologia, crédito e novas soluções para o campo.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *