Você sabia que aqueles hipopótamos que Pablo Escobar trouxe para a Colômbia nos anos 80 agora ameaçam engolir rios inteiros? O que começou como excentricidade de um narcotraficante virou uma invasão fora de controle. Nesta segunda (13/4), o governo colombiano anunciou que vai sacrificar 80 deles para frear o estrago.
De quatro animais a uma horda incontrolável
Tudo começou na Hacienda Nápoles, o paraíso particular de Escobar. Ele importou quatro hipopótamos africanos para seu zoológico particular, junto com girafas e zebras. Depois da morte dele em 1993, a fazenda virou ruína. Os outros bichos foram levados embora, mas ninguém quis os hipopótamos. Eles escaparam e se espalharam pela bacia do rio Magdalena.
Hoje, o censo de 2022 do Ministério do Meio Ambiente conta pelo menos 169. Sem freio, especialistas preveem mais de 500 até 2030 e mil em 2035. Na Colômbia, sem predadores naturais nem secas como na África, eles se multiplicam rápido. O Instituto Humboldt alerta: esses megaherbívoros devoram vegetação nativa, pisoteiam o terreno e soltam toneladas de cocô que poluem a água.
Uma ameaça real
Os hipopótamos não param quietos nas margens. Eles contaminam rios, afugentam pescadores e atacam quem se aproxima. Um estudo na revista Animals de 2021 analisou encontros em Uganda: 87% dos casos entre humanos e hipopótamos, de 1923 a 1994, acabaram em morte. Aqui, pescadores e ribeirinhos vivem com medo de barcos virados ou pisadas fatais.
A biodiversidade sofre mais ainda. Peixe-boi e tartarugas de rio perdem habitat e comida. Registros mostram ataques a pessoas, perseguições em rios, hipopótamos em estradas e encontros com crianças, diz o Instituto Humboldt. Classificados como espécie exótica invasora desde 2022, eles bagunçam ecossistemas inteiros.
Plano Polêmico: Eutanásia e Busca por Adotantes
A ministra Irene Vélez assinou um plano com 7,2 bilhões de pesos colombianos (uns R$ 10 milhões). A meta: reduzir 33 hipopótamos por ano. Prioridade para translocação a zoológicos no exterior, mas ninguém topou ainda. “Acreditamos que isso tem a ver com a pobreza genética e possíveis danos genéticos“,explicou Vélez à Blu Radio.
Todos vêm dos mesmos quatro ancestrais, o que gera defeitos congênitos. Transporte custa caro, avisa Natalia Ramírez, diretora de Biodiversidade. Resta a eutanásia ética: injeções ou dardos, a R$ 70 mil por animal, sem contar o enterro por saúde pública. Do ponto de vista científico, esta é uma ação necessária, defendeu Vélez.
Críticas e o Passado de Fracassos
Nem todo mundo aplaude. A senadora Andrea Padilla, que é ativista pelos direitos dos animais, se manifestou contra a decisão, classificando-a como “simplista e cruel”.
“Nunca apoiarei a matança de criaturas saudáveis; ainda mais quando, como neste caso, são vítimas da irresponsabilidade, negligência, indiferença e corrupção do Estado”, escreveu em sua conta na rede X.
O governo tentou de tudo desde os anos 2000: castração química, abate seletivo. Nada segurou o boom populacional. Agora, com esse protocolo técnico, prometem ética e segurança. Mas o risco persiste: sem controle, a manada pode virar um monstro irreversível para a Colômbia.
O império de excessos de Escobar ia além do dinheiro
Antes mesmo dos hipopótamos virarem um problema ambiental de grandes proporções, Pablo Escobar já havia construído em torno de si a imagem de um homem fascinado por animais raros e pela ideia de transformar riqueza em espetáculo. Sua Hacienda Nápoles funcionava quase como um zoológico particular, reunindo espécies trazidas de vários lugares do mundo, em uma demonstração clara de ostentação e poder. Esse interesse por bichos exóticos ajudou a reforçar a aura de excessos que cercava o narcotraficante, sempre associado a histórias que misturavam luxo, extravagância e crueldade.
É nesse contexto que surgiu também a lenda do “unicórnio” pedido pela filha, Manuela, uma narrativa que atravessou os anos justamente porque combina com a imagem exagerada que Escobar cultivava. A história ajuda a mostrar como, ao redor dele, tudo parecia maior do que a realidade comum, inclusive o tipo de capricho que um pai bilionário e violento estaria disposto a atender. Mais do que uma curiosidade folclórica, esse episódio revela o mesmo impulso que levou Escobar a cercar sua propriedade de animais incomuns: o desejo de impor fantasia, controle e espetáculo até nos detalhes mais absurdos da vida familiar.















