Pesquisadores identificaram novas pistas sobre a origem da produção moderna de vinho a partir da análise de DNA de sementes de uva com cerca de 2 mil anos, encontradas na Toscana, na Itália. O estudo revela que vinhedos da era romana integravam uma rede agrícola avançada que influenciou diretamente a viticultura atual.
A equipe, liderada por cientistas da Universidade de York, analisou sementes preservadas em poços antigos no sítio arqueológico de Cetamura del Chianti. Etruscos, romanos e, posteriormente, italianos medievais habitaram o local.
Os pesquisadores sequenciaram o DNA de 80 sementes e identificaram um padrão genético consistente. A maioria pertenceu a uma única variedade de uva, mantida por séculos e transmitida diretamente dos etruscos aos romanos.
Além disso, a análise genética permitiu determinar a cor das uvas cultivadas na região. Os resultados mostram que o clone dominante produzia uvas brancas, o que surpreendeu a equipe, já que Chianti atualmente se destaca pelos vinhos tintos à base de sangiovese.
Segundo os cientistas, entre 300 a.C. e 300 d.C., os habitantes da região descartavam sementes em poços profundos. O ambiente sem oxigênio preservou o material genético ao longo dos séculos, possibilitando o estudo atual.
Império Romano
Com a expansão do Império Romano, novas variedades de uva chegaram à região. Os dados indicam que os romanos introduziram videiras de diferentes partes do império, ampliando a diversidade genética local.
Os testes também revelaram que o principal clone identificado em Cetamura possui forte relação genética com sementes antigas encontradas no sul da França. Esse dado reforça a existência de redes agrícolas de longa distância durante o período romano.
Portanto, para os pesquisadores, essas conexões ajudam a explicar como práticas agrícolas e variedades de uva se disseminaram e contribuíram para a padronização da produção de vinho ao longo da história.
O Brasil abriu mercado inédito para exportação de uvas ao Azerbaijão e ampliou destinos do agronegócio. O setor vitícola comemora a conquista histórica e reforça a presença internacional da fruta brasileira.
As autoridades dos dois países concluíram negociações e viabilizaram o novo acordo comercial. Em 2025, Brasil e Azerbaijão movimentaram US$ 24 milhões em comércio bilateral. O valor ainda é modesto, mas indica potencial de crescimento com a nova abertura.
A equipe de hortifrúti do Cepeadestaca que a aprovação integra um conjunto maior de avanços. O agronegócio brasileiro ampliou mercados por meio de ações coordenadas entre Mapa e MRE.
As iniciativas elevaram para 591 o total de aberturas desde o início de 2023. Os pesquisadores do Hortifrúti/Cepea afirmam que o novo destino amplia o escoamento das uvas.
Além disso, a abertura ocorre durante o período de exportações concentrado no primeiro semestre. Esse cenário pressiona a oferta interna e mantém o abastecimento doméstico sob controle.
A colheita de uvas de 2026 segue ativa na Serra do Sudeste, no Rio Grande do Sul, mesmo com o calendário avançando para abril. O clima ameno e as amplitudes térmicas elevadas prolongaram a maturação dos vinhedos, permitindo às vinícolas colher frutos com maior equilíbrio e qualidade.
Enquanto a Serra Gaúcha enfrentou condições mais desafiadoras, Encruzilhada do Sul consolidou sua posição como destaque nacional na vitivinicultura. A região registrou volumes expressivos e uvas com excelente sanidade, reforçando seu status como um dos principais terroirs brasileiros para vinhos tintos.
“A vindima de 2026 está sendo espetacular. As temperaturas mais amenas, especialmente à noite, favoreceram uma maturação lenta e completa das uvas”, afirma Juliano Carraro, diretor-comercial da Lidio Carraro. Ele destaca que a colheita avança com variedades como Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat, Malbec e Cabernet Franc, que serão finalizadas até o fim de abril.
O enólogo e diretor técnico Giovanni Carraro explica que a safra se destaca pela concentração das uvas. “Estamos observando altos índices de polifenóis e açúcares. Isso garante vinhos equilibrados, com potência, frescor e grande potencial de envelhecimento”, comenta.
Clima favorecendo
As condições climáticas ao longo do ciclo favoreceram o resultado. Chuvas no início da safra estimularam brotação uniforme e vigorosa. O tempo estável durante a floração formou cachos homogêneos, enquanto a estiagem e a grande amplitude térmica reduziram o tamanho das bagas e concentraram compostos, elevando a qualidade final.
Mesmo com episódios localizados de granizo no estado, os vinhedos da Lidio Carraro não sofreram danos graças ao uso de sistemas de proteção. Na Serra do Sudeste, os fenômenos climáticos ocorreram de forma isolada, preservando a produção.
O desempenho da região confirma uma tendência dos últimos anos: a Serra do Sudeste vem se consolidando como alternativa consistente à Serra Gaúcha na produção de tintos estruturados. O clima mais seco, as amplitudes térmicas amplas e a regularidade das safras sustentam o avanço de Encruzilhada do Sul como referência em vinhos de identidade e longevidade.
O mês de março marca a reta final da safra das uvas no Rio Grande do Sul, e o balanço anima o setor. A produção de 2026 deve se aproximar de 900 milhões de quilos colhidos. Um crescimento de até 15% sobre a safra anterior, segundo dados do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS). O volume supera as projeções iniciais e reforça o otimismo da vitivinicultura brasileira às vésperas da próxima edição da Wine South America (WSA), feira profissional que ocorre de 12 a 14 de maio, em Bento Gonçalves (RS).
A estimativa contempla uva destinada à indústria, ao consumo in natura e à elaboração de vinhos artesanais. Para muitas vinícolas, a WSA representa o primeiro grande palco para apresentar ao mercado as expectativas da nova colheita e ampliar conexões comerciais. O evento reúne produtores, compradores e especialistas da cadeia vitivinícola da América Latina.
Vinícola de Pinto Bandeira celebra condições climáticas favoráveis
Na Vinícola La Grande Bellezza, em Pinto Bandeira, na Serra Gaúcha, os proprietários Rossano Biazus e Cristiana Petriz descrevem uma colheita excepcional. “Todas as variedades se ajustaram bem às condições climáticas, resultando em uvas sadias e com maturação precisa. Chardonnay e Pinot Noir originaram vinhos base para espumantes muito equilibrados, enquanto as uvas tintas alcançaram sua maturação em excelentes condições”, destacam.
A vinícola planeja levar à WSA toda a sua linha de vinhos e espumantes. “É uma feira onde os vinhos nacionais se sentem à vontade, alinhados às expectativas dos compradores”, afirmam os proprietários.
Além de espaço para negociações, a WSA funciona como vitrine para tendências do setor. A realização na Serra Gaúcha, maior região produtora de vinhos e espumantes do país, favorece a prospecção comercial e oferece experiência imersiva aos compradores: representantes de redes varejistas, importadoras e distribuidoras podem visitar vinícolas da região e conhecer de perto os processos produtivos.
Safra 2026 supera desafios climáticos na Serra Gaúcha
Enfrentar adversidades climáticas faz parte da rotina da vitivinicultura, e a vindima 2026 não fugiu à regra. Em regiões como Flores da Cunha e Nova Pádua, onde fica a Indicação de Procedência (IP) Altos Montes, as vinícolas avaliam a safra como promissora, com boas condições de maturação.
O enólogo André Tonet, presidente da Altos Montes, aponta o ciclo climático como diferencial. “Tivemos um inverno rigoroso e uma primavera com chuvas dentro da normalidade, o que favoreceu a brotação. O início de 2026 registrou precipitações abaixo da média, permitindo maturação plena das uvas. Vislumbramos uma safra de grande destaque, semelhante à de 2020”, afirma.
O caminho até a colheita, porém, exigiu resiliência. Em dezembro de 2025, um tornado atingiu o interior de Flores da Cunha, na localidade Travessão Alfredo Chaves, danificando vinhedos e estruturas produtivas. A Vinícola Terrasul Vinhos Finos perdeu tanques de armazenagem e parte das instalações. A resposta da comunidade foi rápida: produtores da região, viticultores de outras cidades da Serra e o Exército organizaram mutirões para reconstruir as estruturas e retomar as atividades.
“Mesmo com todos esses desafios, acreditamos que a qualidade da safra 2026 foi muito boa e, no geral, com produção acima da média”, afirma Augusto Salvador, enólogo e proprietário da Terrasul.
Mais de 200 vinícolas brasileiras confirmam presença na WSA 2026
A edição de 2026 da Wine South America deve reunir um número recorde de vinícolas brasileiras. Na edição anterior, em 2025, cerca de 200 marcas nacionais participaram, representando terroirs como Serra e Campanha Gaúcha, Serra do Sudeste, Campos de Cima da Serra, Serra Catarinense, Vales da Uva Goethe, Cerrado Goiano, Vale do São Francisco, Serra da Mantiqueira e Brasília, região que estreou no evento em 2025 e já confirmou retorno.
Foto: Cesar Silvestro/Divulgação
Entre os nomes confirmados para 2026 estão Miolo, Aurora, Don Guerino, Pizzato e Nova Aliança, além de entidades como Aprobelo (Monte Belo do Sul), Afavin (Farroupilha), Aprovale (Vale dos Vinhedos) e Altos Montes (Flores da Cunha). O evento destaca também regiões com certificação de origem, como as Denominações de Origem Vale dos Vinhedos e Pinto Bandeira, e Indicações de Procedência como Altos Montes e Farroupilha. Um sinal do avanço qualitativo da vitivinicultura nacional rumo ao padrão internacional.
Wine South America recebe novos países e amplia alcance internacional
A WSA consolida sua posição como plataforma internacional de negócios. Na edição de 2026, rótulos de mais de 20 países estarão presentes. Incluindo as estreias de Nova Zelândia e Alemanha e o retorno da África do Sul. Itália e Portugal ampliam sua participação, e Chile, Argentina e Uruguai mantêm presença expressiva.
Ao todo, mais de 400 marcas nacionais e internacionais ocuparão o mesmo espaço durante os três dias de feira, conectando produtores, importadores, distribuidores e compradores de diferentes mercados. A diversidade de origens e estilos consolida a Wine South America como um dos principais pontos de encontro do setor vitivinícola na América Latina.
A Vinícola Essenza dá início, neste fim de fevereiro, à colheita que vai originar a safra 2026 de seus vinhos. O processo acontece em vinhedos situados entre 1.200 e 1.910 metros de altitude na Serra da Mantiqueira, reconhecidos como os mais altos do mundo. E segue um modelo adotado por poucas produtoras no Brasil: a colheita de verão, que antecipa etapas do calendário vitivinícola tradicional, normalmente concentrado no inverno.
A decisão de colher fora da época convencional não é uma curiosidade logística. É uma escolha técnica que, segundo o produtor e proprietário Herbert Sales, permite maior controle sobre a maturação das uvas e favorece a preservação das características naturais da fruta. “A colheita de verão exige atenção em todas as fases, porque o clima impõe desafios que só podem ser superados com método e disciplina”, afirma Sales.
Dois terroirs, um único território
A produção da Essenza está distribuída em dois terroirs na Serra da Mantiqueira. O primeiro fica no Refúgio Tuiuva, em Maria da Fé (MG), onde estão concentrados o olival e o vinhedo e onde ocorre boa parte do manejo agrícola. O segundo corresponde à sede da vinícola, instalada a 14 quilômetros de Santo Antônio do Pinhal (SP), que além das áreas de cultivo recebe visitantes para experiências que conectam produção e degustação.
A propriedade ocupa cerca de 51 hectares e cultiva variedades como Alvarinho, Sauvignon Blanc, Shiraz, Merlot, Cabernet Franc, Pinot Noir e Chardonnay. As parreiras têm, em média, cinco anos de idade. Essa fase é considerada estratégica para o equilíbrio entre produtividade e estrutura dos vinhos. “Estamos em um momento em que os vinhedos começam a expressar com mais clareza o perfil que buscamos”, observa Sales.
A divisão entre os dois terroirs é, para o produtor, uma vantagem técnica deliberada. “Ela permite diversificar microclimas, solos e regimes de insolação ao longo do ano. O terroir não é apenas um fator geográfico. Ele define a identidade do produto e orienta nosso trabalho no campo e na adega”, explica.
Crescimento de 40% na produção
Na safra anterior, a Essenza produziu aproximadamente 18 mil litros. Para o ciclo de 2026, a projeção ultrapassa os 25 mil litros. Um crescimento de cerca de 40%, impulsionado pela expansão das áreas produtivas e pela consolidação dos protocolos de manejo. “Esse crescimento reflete planejamento técnico, investimento em campo e amadurecimento da operação”, afirma Sales.
O avanço ocorre em um contexto de estabilidade do mercado consumidor. Dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) e do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) indicam que o consumo per capita de vinho no Brasil permaneceu próximo de 2 litros por habitante em 2025. É abaixo de mercados tradicionais, mas com tendência de recuperação gradual. Para 2026, o setor projeta retomada moderada, sustentada pelo crescimento do enoturismo, pela ampliação da oferta nacional e pelo interesse do consumidor por vinhos de origem identificada.
Do campo à taça, com rastreabilidade
O processo produtivo da safra 2026 inclui colheita manual, seleção criteriosa dos cachos e vinificação adaptada a cada variedade. Os tempos de fermentação e maturação são definidos conforme o perfil pretendido para cada rótulo. “Cada vinho nasce de uma decisão técnica, não de improviso”, ressalta o produtor.
Herbert Sales, proprietário da Vinícola Essenza durante Vindima 2025. Foto: Régis Silva
Essa abordagem integra o conceito central da vinícola: estabelecer conexão direta entre o ambiente de produção e o perfil dos vinhos entregues ao mercado, com origem controlada e rastreabilidade. “A colheita de verão, o trabalho nos dois terroirs e o respeito às condições naturais da Mantiqueira formam a base do que entregamos em cada garrafa. Nosso compromisso é transformar esse território em identidade, não apenas em volume”, conclui Sales.
Vindima aberta ao público em março
A integração entre produção e turismo é parte estrutural da estratégia da Essenza. No dia 1º de março, a vinícola realiza a Vindima Essenza, evento fechado e imersivo em que o público poderá acompanhar etapas da colheita no campo e na adega, com acesso ao processo produtivo e à cultura vitivinícola da região.
A vinícola integra as Rotas do Vinho de São Paulo, rede que reúne 66 vinícolas em todo o estado, e se destaca pela estrutura que combina visita técnica, menu harmonizado e loja de produtos regionais.
Os vinhos da Essenza acumulam reconhecimento em concursos de referência. O Shiraz Rosé recebeu Duplo Ouro no Wine of Brasil Awards, além de premiações no International Wine & Spirit Competition e no Decanter World Wine Awards. Já o Alvarinho Mantikir foi premiado no International Wine Challenge, em Londres — um dos concursos de vinhos mais respeitados do mundo.
A Embrapa Uva e Vinho (RS) apresentou as cultivares BRS Lis e BRS Antonella, duas novas uvas tintureiras que prometem transformar a produção brasileira de sucos e vinhos de mesa. As variedades trazem elevada pigmentação na casca e polpa, característica essencial para a indústria de processamento.
O lançamento conjunto destaca a sinergia entre as duas cultivares. Juntas, elas ampliam a eficiência produtiva, reduzem riscos de doenças e melhoram a qualidade dos produtos finais da agroindústria.
O programa de melhoramento genético Uvas do Brasil desenvolveu as cultivares especificamente para a Serra Gaúcha, principal polo brasileiro de uvas para processamento. Os pesquisadores avaliaram as variedades durante mais de dez anos em áreas experimentais da Embrapa e em unidades de validação, com participação ativa de produtores e cooperativas.
A BRS Lis amadurece em ciclo intermediário, com colheita na primeira quinzena de fevereiro. A cultivar tolera o míldio, doença que causa efeitos severos nos vinhedos, e resiste às podridões dos cachos. Além disso, oferece mosto de alta qualidade, acidez equilibrada, coloração intensa e elevado teor de açúcares.
“Seus cachos soltos contribuem para menor incidência de doenças e maior estabilidade produtiva. Favorecendo sistemas de cultivo mais sustentáveis”, analisa a pesquisadora Patrícia Ritschel, coordenadora do programa Uvas do Brasil.
João Dimas Garcia Maia e Patrícia Ritsche, pesquisadores. Foto: Viviane Zanella
A BRS Antonella, por sua vez, apresenta alto potencial produtivo, com rendimento semelhante ou superior às cultivares tradicionais mais plantadas. A variedade fornece volume de produção e intensidade de cor em sucos e vinhos.
“A BRS Antonella tem ciclo intermediário e se adapta bem à Serra Gaúcha, o que possibilita uma integração eficiente aos sistemas produtivos já consolidados”, destaca João Dimas Garcia Maia, também coordenador do programa.
Combinação reduz dependência de cultivares tradicionais
A combinação das duas cultivares permite ajustes finos nos cortes industriais. Os produtores podem unir o volume produtivo da BRS Antonella com a qualidade tecnológica, sanidade e intensidade de cor da BRS Lis. Essa estratégia reduz a dependência de cultivares tradicionais suscetíveis a doenças ou com limitações produtivas.
A vitivinicultura brasileira, especialmente no Rio Grande do Sul, concentra a produção em uvas para sucos e vinhos de mesa. Historicamente, o setor depende de poucas cultivares americanas e híbridas, como Isabel, Bordô e Concord. Essas variedades apresentam vantagens, mas também enfrentam desafios relacionados à sanidade, produtividade e qualidade tecnológica.
“A entrega dessas duas cultivares tem alto potencial de impacto para o setor produtivo. Elas mantêm características positivas das tradicionais e trazem diferenciais que fortalecem a autonomia tecnológica, criam novas possibilidades de manejo, escalonamento de colheita e qualificação dos produtos finais, agregando valor”, destaca o chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho, Adeliano Cargnin.
Sucos e vinhos com maior qualidade sensorial
Mauro Zanus, pesquisador da área de enologia da Embrapa, conduziu vinificações e avaliações sensoriais das novas cultivares. As análises identificaram que os sucos e vinhos elaborados com BRS Lis apresentam acidez equilibrada, elevada intensidade de cor, boa estrutura de taninos e excelente paladar.
“A cultivar produz bastante açúcar, o que resulta em sucos doces e vinhos com teor de álcool natural, dispensando a adição de sacarose externa na fase de fermentação”, destaca o pesquisador.
A BRS Antonella contribui com intensidade de cor e rendimento. A variedade se destaca em cortes industriais, pois eleva o padrão visual e a regularidade dos produtos. “Os sucos e vinhos incorporam mais coloração, aroma característico de uvas americanas, sabor balanceado e boa estrutura de taninos”, pontua Zanus.
Maior concentração de compostos antioxidantes
As cultivares BRS Lis e BRS Antonella apresentam elevado conteúdo de compostos fenólicos, especialmente polifenóis totais e antocianinas, quando comparadas às cultivares tradicionais como Isabel e Concord. Esses compostos respondem diretamente pela intensidade de cor, pela estrutura sensorial dos sucos e vinhos e pelo potencial antioxidante dos produtos.
Foto: Viviane Zanella / Embrapa
Os estudos da Embrapa mostraram que os índices de polifenóis totais (IPT) dos sucos e vinhos elaborados com BRS Lis equivalem ou superam os da cultivar Bordô. Os valores também se mostraram significativamente maiores do que os observados em Isabel e Concord. A BRS Antonella também apresentou elevados teores de antocianinas, contribuindo de forma consistente para a intensificação da coloração em cortes industriais.
“Essa maior concentração de polifenóis e taninos confere aos produtos finais maior estabilidade de cor, melhor resistência à oxidação e maior valor tecnológico, elevando o padrão visual e sensorial dos sucos e vinhos”, explica Zanus.
Vantagens econômicas para viticultores
O pesquisador José Fernando da Silva Protas, da área de socioeconomia da Embrapa, aponta que o uso combinado das duas cultivares representa uma alternativa estratégica para os produtores.
“As características das novas uvas, aliadas aos seus bons potencial enológico e desempenho industrial, contribuem para a redução dos custos de produção. Especialmente pela menor suscetibilidade a doenças como o míldio e as podridões dos cachos proporcionada pela BRS Lis e maior previsibilidade produtiva da BRS Antonella, favorecendo a rentabilidade por área”, afirma.
Produtores validam novas cultivares em campo
A Embrapa realizou a validação em campo com associados das Cooperativas Aurora, São João e Agroindustrial Paraíso, nos municípios de Bento Gonçalves, Pinto Bandeira, São Valentim do Sul, Farroupilha e Dois Lajeados, todos no Rio Grande do Sul.
René Tonello, presidente da Cooperativa Vinícola Aurora, destaca que as novas cultivares atendem demandas como produtividade e cor, requisitos fundamentais para o setor produtivo.
“Vejo com bastante entusiasmo a condução do trabalho da Empresa, que considera os diferentes microclimas e produtores e realiza testes onde a uva será de fato produzida. Queremos assertividade na hora de implantar o vinhedo”, diz.
O viticultor Fabiano Orsato validou as duas cultivares em sua propriedade. Dos 15 hectares cultivados por sua família, ele já decidiu substituir a uva Isabel pelas cultivares BRS Lis e BRS Antonella em dois hectares.
“Além de receberem um valor semelhante ao das viníferas, a facilidade da colheita da BRS Lis é muito boa para produtores como nós, que contam com pouca mão de obra, na sua maioria familiar”, afirma. O produtor planeja fazer a mudança em outras áreas. “Gostamos muito das novas uvas que a Embrapa lança. Sabemos que logo virão mais novidades e já queremos testá-las”, complementa.
Os viveiristas licenciados pela Embrapa disponibilizam o material propagativo das cultivares BRS Lis e BRS Antonella, garantindo qualidade genética e fitossanitária das mudas. O site da Embrapa Uva e Vinho mantém a relação atualizada de viveiristas autorizados.
O Laboratório de Referência Enológica Evanir da Silva (Laren), vinculado à Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Rio Grande do Sul (Seapi), iniciou as primeiras análises técnicas da safra de vinhos 2026. Com expectativas elevadas para uma das colheitas mais promissoras dos últimos anos, os trabalhos começaram em janeiro na cantina do Laren, em Caxias do Sul.
Laboratório de referência do Estado faz milhares de análises de cada safra de uva. Foto: Elstor Hanzen/Seapi
Nesta primeira etapa, cerca de 30 amostras de uvas foram encaminhadas para microvinificação. O processo transforma pequenos lotes de uvas em vinho, permitindo avaliar características como teor de açúcar, acidez e densidade ainda durante a formação da safra. O plano amostral prevê 252 coletas entre janeiro e março, abrangendo diferentes regiões produtoras do Estado.
De acordo com a fiscal agropecuária e engenheira agrônoma Fernanda Varela Nascimento, responsável pelas microvinificações, o procedimento envolve desde a retirada das bagas do cacho até a fermentação e análises físico-químicas e isotópicas. “Esses dados orientam tanto os produtores quanto os consumidores e formam uma base científica essencial para o setor vitivinícola”, explica.
Segundo o gerente-geral do Laren, Plínio Manosso, a precisão das análises é estratégica para o desempenho das vinícolas. “A qualidade das uvas e a confiabilidade dos resultados serão determinantes para a competitividade dos vinhos gaúchos no Brasil e no exterior”, afirma.
Banco de referência com mais de 15 mil garrafas
Desde 2004, o Laren realiza microvinificações anuais que resultam em um banco de referência único no país. Já foram vinificadas 6.075 amostras de uvas, gerando aproximadamente 15 mil garrafas utilizadas em estudos isotópicos e cromatográficos. O acervo serve para comparações e detecção de fraudes em sucos e vinhos, com base na razão isotópica de carbono e oxigênio.
Foto: Elstor Hanzen/Seapi
Em 2025, o laboratório recebeu mais de 1,6 mil amostras para análises relacionadas à fiscalização e prestação de serviços, totalizando mais de 10 mil exames laboratoriais. O Laren é o único laboratório brasileiro capaz de detectar água exógena no vinho, técnica que identifica a adição de água além da naturalmente presente na fruta.
Safra 2026 deve superar 900 mil toneladas
Conforme projeções da Emater/RS-Ascar, a safra 2025/2026 deve alcançar volume superior a 900 mil toneladas de uvas, um aumento de 5 a 10% em relação a uma colheita considerada normal. O crescimento reflete o bom desempenho climático e a expansão da área cultivada no Estado, que mantém o Rio Grande do Sul como principal referência nacional da vitivinicultura.
O setor continua sendo fundamental para a economia regional. Cerca de 15 mil famílias trabalham diretamente com o cultivo da uva, em uma área de 42,4 mil hectares. A Serra Gaúcha concentra 36,6 mil hectares e continua liderando a produção e o processamento de uvas e vinhos no país.
O Rio Grande do Sul, maior produtor de uvas do Brasil, projeta uma safra de 905.291 toneladas para a temporada 2025/2026, superando a média histórica tanto em volume quanto em regularidade produtiva. O extensionista rural da Emater/RS-Ascar, Thompsson Didone, acompanha o desenvolvimento da cultura no Estado e confirma as perspectivas positivas para a colheita.
A viticultura gaúcha movimenta 15 mil famílias, em sua maioria agricultores familiares, que cultivam diretamente as parreiras. O setor tem forte impacto social e econômico na região.
O Estado cultiva aproximadamente 42,4 mil hectares de uva, sendo que a Serra Gaúcha concentra 36,6 mil hectares dessa área. A região consolida sua posição como o maior polo de produção e processamento de uvas do país.
“A maior parte dessa área destina-se à uva para processamento industrial, que a indústria utiliza na elaboração de vinhos, sucos e espumantes. No entanto, o Estado também conta com uma área expressiva de mais de 3 mil hectares de uva de mesa, voltada ao consumo in natura”, detalha Didone.
O extensionista rural mantém expectativas positivas para a safra atual. “Em termos de quantidade, a safra deve superar uma safra considerada normal. Tivemos um inverno com frio adequado e de boa qualidade, o que é fundamental para o bom desenvolvimento das videiras”, explica.
Inverno com 400 horas de frio impulsiona desenvolvimento das videiras
As condições climáticas do inverno de 2025 determinaram o bom desempenho da safra. Segundo Didone, as videiras necessitam de um número mínimo de horas de frio abaixo de 7,2 °C para garantir brotação uniforme e boa formação dos cachos. As variedades americanas demandam entre 150 e 250 horas, enquanto algumas uvas viníferas exigem até 400 horas de frio.
“Nesse ano, em várias regiões do Estado, superamos as 400 horas de frio, com temperaturas estáveis, sem oscilações bruscas. Isso permitiu uma excelente emissão de brotos e cachos, refletindo diretamente no potencial produtivo da safra”, destaca Didone.
Colheita atrasa 15 dias, mas mantém qualidade elevada
Apesar do bom desenvolvimento das plantas, a colheita começou com um atraso de 10 a 15 dias em relação a uma safra considerada normal. As temperaturas mais baixas e a menor incidência de sol no mês de setembro retardaram o desenvolvimento vegetativo das videiras.
“Esse atraso não interferiu na qualidade da uva. Apenas alongou o ciclo”, ressalta o extensionista rural. As primeiras vinícolas já iniciaram o processo de industrialização, que deve se intensificar nas próximas semanas.
A previsão indica uma safra com duração de um mês e meio a dois meses, dependendo das condições climáticas ao longo do período de colheita.
Uvas americanas dominam 85% da produção estadual
Aproximadamente 85% da produção estadual compõe-se de uvas americanas e híbridas, enquanto as viníferas representam entre 12% e 15% da área plantada. As variedades americanas e híbridas apresentam, em geral, produção superior à média.
Entre as viníferas, a produção também se mostra acima do normal, com destaque para a Chardonnay, variedade importante para a elaboração de vinhos finos e, especialmente, de espumantes, um dos principais produtos da Serra Gaúcha.
Thompsson Didone ressalta que as avaliações de qualidade ainda são parciais. “A uva que as vinícolas recebem até o momento apresenta boa qualidade. Ainda é cedo para uma avaliação definitiva, pois a qualidade depende muito das condições climáticas semana a semana, como períodos de chuva ou maior insolação”, explica.
Emater estima aumento de até 10% na safra 2025/2026
A estimativa preliminar da Emater/RS-Ascar indica que a safra 2025/2026 deverá apresentar um acréscimo de 5% a 10% em relação a uma safra normal. Se comparada à safra passada, que já alcançou bons resultados, o aumento deve ficar em torno de 5%.
“São informações iniciais. Ao longo da safra, seguiremos acompanhando e divulgando novos informativos sobre a evolução da colheita e da qualidade da uva”, conclui Didone.
Regularidade climática e desenvolvimento indicam possibilidade de safra histórica
A vindima, que é a colheita da uva, da vinícola Lidio Carraro ainda está em andamento, mas os sinais que vêm do vinhedo animam os produtores. A colheita segue até março e, até agora, o ciclo tem apresentado regularidade, sanidade e um desenvolvimento que agrada quem acompanha a videira de perto.
Foto: Vinhedos Lidio Carraro
Juliano Carraro, diretor comercial da vinícola, avalia positivamente o início do ano. As brotações ocorreram de forma uniforme, a produtividade alcança bons níveis e a sanidade das plantas chama atenção. “Tivemos um comportamento climático favorável em todos os aspectos até o momento, o que indica que podemos ter uma safra com excelentes resultados”, resume.
Vinhedos escapam de granizo que atingiu outras regiões do sul
Mesmo com registros de granizo em outras áreas do Sul do país, os vinhedos da Lidio Carraro passaram ilesos. “Esses eventos não atingiram nossas áreas, felizmente”, explica Juliano. Um detalhe que faz diferença quando se pensa em qualidade lá na frente.
Do ponto de vista técnico, Giovanni Carraro, enólogo da casa, destaca que a safra teve um ritmo muito correto de desenvolvimento, sem extremos. “A videira se desenvolveu nos tempos certos, com uma velocidade média de maturação. Não tivemos períodos prolongados de temperaturas abaixo da média, o que é muito positivo”, explica.
Esse comportamento climático tende a impactar diretamente o estilo dos vinhos. De acordo com Giovanni, a expectativa aponta para uvas com bagas menores e plantas com menor vigor vegetativo. Na prática, isso costuma resultar em vinhos mais concentrados. “Em termos gerais, deveremos ter vinhos com alta concentração aromática e polifenólica”, afirma.
Para as variedades mais tardias, cuja colheita acontece ao longo de março, ainda é cedo para conclusões definitivas. Mas o cenário segue favorável. A tendência, segundo o enólogo, aponta para uma safra acima da média em qualidade e, para muitas uvas, também em produtividade.
Safra 2026 pode entrar para linha especial
Naturalmente, começa a surgir a pergunta que sempre ronda anos promissores: existe chance de termos vinhos da linha Grande Vindima? Na Lidio Carraro, esse selo fica reservado a safras realmente especiais, como 2012, 2013, 2018 e 2020. Giovanni prefere manter a cautela. “Essa definição só pode ocorrer no dia da colheita. São muitos fatores envolvidos. A expectativa é boa, mas só poderemos confirmar nos próximos 60 dias”, pondera.
Foto: Vinhedos Lidio Carraro
Além do aspecto técnico, 2026 carrega também um simbolismo especial para a vinícola. O ano marca mais uma Copa do Mundo, e a Lidio Carraro tem uma relação histórica com o futebol. Em 2014, a vinícola forneceu os vinhos oficiais da Copa do Mundo no Brasil, um marco que projetou a marca internacionalmente e reforçou sua vocação para grandes momentos.
O primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu anunciou neste domingo (4) que a França bloqueará a importação de produtos agrícolas da América do Sul que apresentem resíduos de substâncias proibidas na União Europeia. A declaração ocorreu por meio da rede social X e representa mais um capítulo na tensão entre agricultores europeus e o setor produtivo sul-americano.
Segundo o primeiro-ministro, a ministra da Agricultura Annie Genevard preparará uma portaria que será publicada nos próximos dias. O documento estabelecerá critérios para barrar a entrada de frutas que contenham resíduos de quatro defensivos agrícolas: mancozebe, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim – todos vetados pelas normas sanitárias europeias.
Quais frutas serão fiscalizadas
A lista de produtos afetados inclui abacates, mangas, goiabas, frutas cítricas, uvas e maçãs provenientes da América do Sul ou de qualquer outra região. O governo francês criará uma brigada especializada para reforçar a fiscalização e garantir o cumprimento rigoroso da legislação sanitária nacional.
Lecornu classificou a medida como uma “primeira etapa” para proteger as cadeias produtivas e os consumidores franceses. O objetivo também é combater o que o governo chama de “concorrência desleal”, buscando garantir condições equitativas para agricultores locais que seguem regulamentações mais rigorosas.
Protestos e pressão política
A decisão surge em meio a protestos intensos de agricultores franceses que se iniciaram em dezembro de 2024. As manifestações envolvem bloqueios de estradas e ações em diversas regiões do país, principalmente no sudoeste, motivadas por duas questões principais: a política governamental para enfrentar a dermatose nodular contagiosa (DNC) em rebanhos bovinos e a forte oposição ao acordo de livre-comércio entre União Europeia e Mercosul.
Os agricultores franceses temem que produtos do Brasil e Argentina – países que utilizam pesticidas em plantações e antibióticos de crescimento no gado proibidos na Europa – ganhem acesso facilitado ao mercado europeu.
Acordo Mercosul-UE enfrenta resistência
Após mais de 25 anos de negociações, Mercosul e União Europeia concluíram o acordo comercial em dezembro de 2024, mas adiaram a assinatura para janeiro de 2025 diante da resistência da França e da Itália, pressionadas por seus setores agrícolas.
O tratado reuniria cerca de 718 milhões de pessoas e um PIB de aproximadamente 22 trilhões de dólares, criando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Para o Brasil, o acordo representa acesso preferencial para produtos como carne bovina, etanol, açúcar e frutas ao mercado europeu.
Disparidade no uso de agrotóxicos
Estudos recentes revelam uma significativa diferença na regulamentação de pesticidas entre os blocos. A quantidade de resíduo do herbicida glifosato encontrado em amostras de água potável no Brasil é 5 mil vezes maior do que na União Europeia.
Em 2021, o Brasil consumiu cerca de 719 mil toneladas de pesticidas, enquanto os Estados Unidos consumiram 257 mil toneladas e a China 244 mil toneladas. O país possui mais de 3 mil agroquímicos registrados. Desses, 49% são considerados altamente perigosos à saúde.
Impacto na balança comercial
A União Europeia é o segundo principal parceiro comercial do Brasil, com corrente de comércio de aproximadamente 92 bilhões de dólares em 2023. A medida francesa pode criar um precedente para outros países do bloco europeu, potencialmente afetando as exportações brasileiras de frutas.
O governo francês argumenta que a nova regulamentação visa proteger tanto os produtores locais quanto os consumidores. Enquanto críticos apontam que a medida pode ser mais uma barreira protecionista do que uma preocupação genuína com segurança alimentar.
A portaria deverá entrar em vigor nas próximas semanas, estabelecendo um novo paradigma para a importação de produtos agrícolas sul-americanos na França.
Uma colaboração estratégica entre Embrapa, órgãos estaduais e prefeituras paulistas conseguiu reverter uma das piores crises já enfrentadas pela viticultura do estado. O Plano Emergencial de Controle à Podridão Madura da Uva recuperou 95% da produção de uvas Niágara em propriedades do Circuito das Frutas, principal polo vitícola de São Paulo.
Em 2024, a região foi assolada por uma epidemia da podridão da uva madura, causada pelo fungo Glomerella cingulata. A doença dizimou lavouras inteiras em Jundiaí, Louveira, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Indaiatuba e Elias Fausto, com perdas chegando a 100% em algumas propriedades.
“A doença ainda persiste em alguns parreirais, mas com incidência bem menor”, explica Sérgio Mesquita Pompermaier, diretor do Departamento de Agronegócio da Prefeitura de Jundiaí.
O impacto foi tão severo que chegou a ameaçar eventos tradicionais como a Festa da Uva de Jundiaí.
Ciência e técnica como salvação
O plano selecionou 13 propriedades rurais para aplicação de protocolo científico desenvolvido pela Embrapa Uva e Vinho (RS) e Embrapa Territorial (SP). As propriedades que seguiram 100% das orientações técnicas alcançaram índices de recuperação de até 95%, enquanto outras obtiveram melhorias de até 70%.
Lucas Garrido, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, identificou que a epidemia resultou de uma combinação fatal: temperaturas acima da média, umidade constante e presença de restos culturais contaminados. Porém, os prejuízos foram amplificados por falhas no manejo.
“Em alguns casos, o produto certo estava na propriedade, mas não foi utilizado. Ou foi aplicado de forma errada”, destaca Rafael Mingoti, analista da Embrapa Territorial e coordenador da iniciativa.
Do desespero ao sucesso: história de superação
Atalívio Rufino, produtor de Elias Fausto, exemplifica a transformação possível. Em 2024, perdeu quase toda a produção. Assim, ele foi obrigado a dispensar funcionários. Sua propriedade, selecionada para os experimentos da Embrapa, hoje colhe os frutos da mudança de manejo.
Cacho de videira de Niágara rosada com unidades apodrecidas. Foto: Rafael Mingoti/Embrapa
“Antes, retirávamos os galhos e cachos que apodreciam sem tanto zelo. Agora, estamos retirando, queimando ou descartando longe. Também regularizamos o equipamento e aumentamos o volume de calda”, relata o produtor.
Protocolo técnico baseado em evidências
O protocolo desenvolvido inclui práticas integradas de controle:
Eliminação rigorosa de restos culturais infectados
Aplicações preventivas durante dormência hibernal
Uso de fungicidas eficazes em estágios estratégicos (floração, grão-ervilha, pré-fechamento do cacho)
Alternância entre produtos sistêmicos e de contato
Ajuste e calibragem adequada de pulverizadores
Utilização de produtos biológicos na maturação final
Pesquisa avança para protocolo definitivo
Estudos conduzidos pelo Instituto Biológico estão identificando as espécies do fungo Colletotrichum presentes na região. A diversidade encontrada explica a variabilidade de resposta aos tratamentos e reforça a importância do diagnóstico preciso.
“Ainda não é possível afirmar se há resistência a algum fungicida, mas uma possível presença de múltiplas espécies reforça a importância de conhecer bem as causas do problema”, explica Mingoti.
Os dados coletados embasarão uma proposta submetida à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para desenvolvimento de sistema de aviso e protocolo consolidado de manejo integrado.
Capacitação técnica em setembro
Os resultados e recomendações serão apresentados em eventos técnicos nos dias 16 e 18 de setembro. O seminário ocorrerá na Associação Agrícola de Jundiaí (13h30-18h30), enquanto o Dia de Campo acontecerá no Sítio Dois Irmãos, em Elias Fausto (14h-17h).
Equipe da Embrapa e produtor durante acompanhamento de ensaios na propriedade de Atalívio Rufino – Foto: Atalívio Rufino/Embrapa
Apesar do sucesso, os especialistas alertam que não é momento para relaxar. “Não é hora de abaixar a guarda”, reforça Mingoti. “É essencial manter a vigilância, aplicar corretamente os defensivos e eliminar restos culturais. Só assim vamos consolidar os avanços obtidos.”
A recuperação da viticultura paulista demonstra como a parceria entre ciência e produtores pode superar desafios aparentemente impossíveis, garantindo a sustentabilidade de uma atividade econômica centenária e tradicional do estado.