Tag: Semiárido

  • Projeto da CNA leva ‘mar verde do sertão’ para enfrentar a seca

    Projeto da CNA leva ‘mar verde do sertão’ para enfrentar a seca

    A busca por alternativas para garantir alimento aos rebanhos durante os períodos de estiagem tem impulsionado novas tecnologias no agronegócio brasileiro. No Semiárido, espécies como a palma forrageira e capins adaptados à seca estão transformando a produção pecuária e ajudando milhares de produtores a enfrentar os desafios climáticos da região.

    O chamado ‘novo mar verde do sertão’ reúne plantas selecionadas ao longo de quase uma década de pesquisas conduzidas pelo Projeto Forrageiras para o Semiárido, iniciativa da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Desde 2017, o projeto já impactou cerca de 10,4 mil produtores rurais, levando conhecimento e soluções voltadas à produção de alimento para os animais mesmo em períodos de pouca chuva.

    Pesquisa identificou forrageiras mais adaptadas ao Semiárido

    A primeira etapa do projeto avaliou 30 espécies de forrageiras cultivadas em regime de sequeiro. O objetivo era descobrir quais apresentavam melhor desempenho diante das condições típicas do Semiárido, marcadas por altas temperaturas e escassez de água.

    Com os resultados obtidos, os pesquisadores avançaram para uma nova fase, incluindo o pastejo dos animais nas áreas experimentais. Dessa forma, foi possível verificar o comportamento das espécies em situações reais de produção pecuária.

    Segundo a coordenadora do projeto, Alenilda Carvalho, a pesquisa permitiu selecionar gramíneas e plantas forrageiras capazes de oferecer maior segurança alimentar aos rebanhos.

    “Esse projeto nasceu em 2017. Na primeira fase testamos 30 espécies forrageiras em regime de sequeiro. Na fase 2, a gente colocou o componente animal para pastejar as gramíneas que apresentaram os melhores resultados.”

    Tecnologia pode aumentar a produtividade da palma forrageira

    Além da seleção de espécies resistentes à seca, a iniciativa também investe em novas tecnologias para ampliar a produção de alimento para os animais.

    Em parceria com diferentes instituições, pesquisadores estão testando um fertilizante foliar à base de moléculas de carbono aplicado diretamente na palma forrageira, uma das principais fontes de alimentação dos rebanhos no Semiárido.

    A expectativa é aumentar a produtividade da cultura, melhorar o aproveitamento da adubação nitrogenada e elevar a qualidade nutricional do alimento oferecido aos animais.

    “Nós somos hoje os pioneiros nesses testes. Nunca se realizou um teste em regime de sequeiro com adubação foliar na palma.”

    De acordo com Alenilda Carvalho, os estudos também avaliam a possibilidade de reduzir o ciclo de corte da palma. Atualmente, a colheita costuma ocorrer em cerca de 18 meses, mas os pesquisadores acreditam que esse período poderá cair para apenas 12 meses.

    Caso a expectativa se confirme, os produtores poderão ampliar a oferta de alimento para os rebanhos sem a necessidade de expandir as áreas cultivadas.

    “Daqui para dezembro a gente vai realizar o primeiro corte nessa área experimental. A nossa intenção é aumentar a produtividade, reduzir o período de corte e aumentar a qualidade nutritiva desse material, que é a palma forrageira.”

    Os resultados dessa etapa ainda estão em avaliação e devem ser concluídos até dezembro. Somente após a validação dos dados a tecnologia poderá avançar para a fase de disponibilização comercial.

    Projeto surgiu para enfrentar um dos maiores desafios da pecuária nordestina

    Durante a apresentação do Rally Forrageiras para o Semiárido, realizada em Baixa Grande, na Bahia, o presidente da CNA, João Martins, destacou que a iniciativa nasceu da necessidade de desenvolver pesquisas voltadas especificamente para a realidade do Nordeste.

    Segundo ele, apesar dos avanços obtidos pela Embrapa em diversas regiões do país, ainda havia espaço para ampliar os estudos relacionados à produção de forragem adaptada às condições climáticas do Semiárido.

    “Como é que nós temos uma Embrapa que conseguiu transformar uma das regiões mais pobres de solo nas terras mais produtivas do mundo? E por que essa mesma Embrapa até hoje não conseguiu fazer com que o Nordeste tivesse forrageiras, gramíneas que pudessem resistir mais à seca e alimentar os animais durante o período de seca?”

    Martins afirmou que a CNA destinou R$ 5 milhões para dar início às pesquisas, que posteriormente passaram a contar com a participação da Embrapa e de outros parceiros.

    Para o dirigente, a continuidade dos estudos será fundamental para preparar o setor agropecuário diante dos impactos das mudanças climáticas e dos períodos de seca cada vez mais intensos.

    “A pesquisa tem de continuar, vai continuar. Pesquisa é uma coisa constante. Hoje você tem um cenário, amanhã você tem outro. Há 10 anos atrás nós não tínhamos expectativa de ter uma super seca. Hoje estamos dizendo que nós vamos ter uma super seca.”

    Rally vai levar tecnologias para produtores de dez estados

    A nova etapa do projeto será marcada pelo Rally Forrageiras para o Semiárido, que percorrerá dez estados brasileiros para apresentar os resultados obtidos ao longo dos últimos anos.

    A iniciativa busca acelerar a adoção das tecnologias desenvolvidas pela pesquisa, ampliando o uso de forrageiras resistentes à seca, fortalecendo a pecuária do Semiárido e contribuindo para a segurança alimentar dos rebanhos em uma das regiões mais desafiadoras para a produção agropecuária do país.

  • Como biochar e hidrogel estão transformando a cajucultura no Nordeste

    Como biochar e hidrogel estão transformando a cajucultura no Nordeste

    Pesquisadores da Embrapa Agroindústria Tropical (CE) encontraram uma saída tecnológica acessível para um dos maiores gargalos da cajucultura no Semiárido: a alta mortalidade de mudas na fase de implantação dos pomares.

    Em experimentos com irrigação de salvação, técnica emergencial usada em períodos críticos de seca, o uso de hidrogel garantiu a sobrevivência de 100% das mudas do clone BRS 226 e reduziu os custos de irrigação em 46%. Já o biochar (biocarvão) melhorou a qualidade e o tamanho do pedúnculo, parte do caju conhecida popularmente como maçã.

    Os estudos integram uma linha de pesquisa sobre condicionadores de solo, insumos que melhoram as propriedades físicas, químicas e biológicas do terreno, como estratégia de adaptação às mudanças climáticas na região.

    Mortalidade de mudas: um gargalo técnico e econômico

    Embora o cajueiro tenha reputação de tolerante à seca, o primeiro ano de implantação do pomar é crítico. As mudas enxertadas chegam estressadas da mudança do viveiro para o campo e enfrentam solos arenosos (Neossolos Quartzarênicos) com baixa retenção de umidade, em uma região onde a estação chuvosa é imprevisível em início, quantidade e distribuição.

    “Essa mortalidade tem sido um gargalo técnico e econômico na implantação dos pomares. Tem impacto na produtividade porque requer investimento na aquisição de mudas de reposição e retrabalho no campo”, afirma o pesquisador Rubens Sonsol, responsável pelos estudos.

    Os produtores podem perder até metade das mudas nessa fase. Um prejuízo que recomeça a cada novo plantio.

    Hidrogel: 55 litros por ano bastam para salvar as mudas

    Em experimento com irrigação de salvação, o polímero hidrofílico, um gel agrícola capaz de absorver e liberar água gradualmente para as raízes, demonstrou resultado expressivo. A dose ideal, de 29,56 gramas por cova, manteve todas as mudas do clone BRS 226 vivas com um consumo de apenas 55 litros por planta ao ano.

    A irrigação de salvação convencional recomenda 25 litros por semana. Com o hidrogel, esse volume caiu para 55 litros no ano inteiro.

    Sonsol alerta, porém, para um limite importante: doses acima de 29,5 gramas elevam a demanda hídrica, porque o polímero passa a reter a umidade de forma a torná-la menos disponível para as raízes. O excesso, portanto, produz efeito contrário ao desejado.

    Biochar quadruplica a sobrevivência em condições de sequeiro

    Outro experimento simulou condições extremas de escassez hídrica para avaliar diferentes doses de biochar na sobrevivência de mudas dos clones CCP 76 e BRS 226 no primeiro ano. A aplicação de quatro quilos por cova elevou a taxa de sobrevivência de 26%, resultado do grupo controle, para 68%.

    Uso de biochar melhorou vários parâmetros da produção irrigada de caju, resultando em frutos maiores e mais doces. Foto: Rubens Sonsol

    O biochar é um carvão produzido pela queima controlada de resíduos orgânicos em baixa presença de oxigênio (pirólise). Sua estrutura porosa retém água e nutrientes e ainda melhora a fertilidade do solo, favorece microrganismos benéficos, reduz a acidez e sequestra carbono.

    Uma das vantagens práticas destacadas pelo pesquisador é a acessibilidade do processo: o material pode ser produzido na própria propriedade rural, com resíduos da poda dos cajueiros, em fornos de tijolos rústicos (tipo caieira), sem tecnologia sofisticada.

    Pedúnculo mais doce e mais pesado no clone BRS 226

    Os estudos avançaram para avaliar o biochar em plantas adultas e irrigadas dos clones BRS 226 e CCP 76, os mais cultivados no Ceará. Os resultados variaram significativamente entre os dois genótipos.

    No BRS 226, o aumento das doses de biochar produziu crescimento linear e significativo no peso médio do pedúnculo. Com 4 kg por planta, o clone alcançou peso de pedúnculo semelhante ao do CCP 76, cerca de 140 gramas. O CCP 76, por sua vez, não apresentou alteração no peso do pedúnculo com o tratamento.

    O biochar também tornou o pedúnculo do BRS 226 mais doce e menos ácido. O dado tem relevância comercial: esse clone é valorizado pela tolerância à seca, mas tradicionalmente produz pedúnculos de menor apelo no mercado em comparação ao CCP 76. Com a melhora no perfil sensorial, o BRS 226 passa a competir em nichos de maior valor agregado, como sucos e doces artesanais, o que pode reduzir o desperdício de bagaço e aumentar a renda do agricultor.

    “A eficácia do biochar é dependente do genótipo, o que significa que as recomendações de manejo devem ser específicas para cada clone”, destaca Sonsol.

    Condicionadores de solo como resposta às mudanças climáticas

    Para o pesquisador, o principal significado dos estudos é estratégico: demonstrar que tecnologias de baixo custo e fácil acesso permitem ao cajucultor do Semiárido usar a água com mais eficiência e reduzir sua vulnerabilidade ao clima.

    “A utilização dos condicionadores de solo surge como uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, permitindo o uso mais eficiente da água de irrigação”, conclui Sonsol.

    O que são condicionadores de solo?

    Condicionadores de solo são insumos que melhoram as propriedades físicas, físico-químicas e biológicas do solo. Entre os que favorecem a retenção hídrica, destacam-se o biochar e o hidrogel.

    • Biochar (biocarvão): carvão produzido pela queima controlada de resíduos orgânicos com pouco ou nenhum oxigênio (pirólise). Sua estrutura porosa retém água e nutrientes. E contribui para a fertilidade do solo, a atividade de microrganismos benéficos, a redução da acidez e o sequestro de carbono. Produtores podem fabricá-lo na propriedade com resíduos de poda, usando fornos de tijolo tipo caieira.
    • Hidrogel (polímero hidrofílico): material sintético ou orgânico capaz de absorver grandes volumes de água e liberá-la gradualmente para as raízes. Quando o solo recebe chuva ou irrigação, o polímero absorve a água; depois, libera a umidade conforme a planta necessita.
  • Expansão da carcinicultura impulsiona debates sobre produção de camarão no Piauí

    Expansão da carcinicultura impulsiona debates sobre produção de camarão no Piauí

    A carcinicultura ganhou destaque no Piauí durante o I Seminário de Carcinicultura em Águas Interiores. O evento ocorreu nesta semana na UFDPar, em Parnaíba. Ele reuniu especialistas, gestores e produtores do setor aquícola.

    O encontro discutiu a expansão da criação de camarão para o interior do estado. O foco principal ficou no semiárido e no sul do Piauí. A iniciativa também buscou fortalecer a produção em águas interiores e salobras.

    A Codevasf promoveu o seminário em parceria com universidades e instituições públicas. A Adapi participou ativamente das discussões. O evento também contou com apoio de entidades ligadas ao setor produtivo.

    O Piauí possui apenas 66 quilômetros de litoral. Esse fator torna a interiorização da atividade estratégica. Por isso, especialistas defenderam o avanço da produção no interior.

    No semiárido, a água de poços apresenta alta salinidade. Além disso, a vazão é considerada adequada para o cultivo de camarão. Esses fatores favorecem a expansão da atividade aquícola.

    No sul do estado, os rios Gurguéia e Parnaíba ampliam as possibilidades de produção. Esses recursos hídricos reforçam o potencial da região. Assim, o setor ganha novas áreas de desenvolvimento.

    Integração e inovação no setor aquícola

    Durante o seminário, os participantes também destacaram o policultivo. Esse sistema integra a criação de camarão e tilápia. Ele aumenta a produtividade e diversifica a renda dos produtores.

    A Adapi participou com técnicos da área de sanidade animal. Entre eles estiveram Idilio Moura e Janílson Lima. Eles acompanharam os debates ao longo dos dois dias de evento.

    Os participantes discutiram sanidade animal, produção e comercialização. Eles também abordaram a expansão da cadeia produtiva. O encontro reforçou a importância da organização do setor.

    Instituições como Embrapa, IFs, UFDPar, UFC e UFPE participaram do evento. O IBGE e outras entidades públicas também estiveram presentes. Produtores e estudantes completaram o público.

    Para os organizadores, a integração entre instituições e produtores é essencial. Essa união pode gerar empregos e renda, além de fortalecer o desenvolvimento econômico do Piauí.

  • Palma forrageira ganha impulso com investimento no Semiárido

    Palma forrageira ganha impulso com investimento no Semiárido

    A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) destinou R$ 2,6 milhões para ampliar a produção de palma forrageira no Semiárido. A iniciativa integra o projeto Sementeiras e prevê a implantação de 18 áreas de multiplicação da cultura em sete estados, com foco em reduzir os impactos da seca sobre a pecuária e garantir alimentação para os rebanhos.

    O projeto já avança em 10 municípios dos estados do Ceará (Quixeramobim e Iguatu), Rio Grande do Norte (Apodi, São José do Seridó e Equador), Paraíba (Congo e São João do Tigre) e Alagoas (Cacimbinhas e Belo Monte). Nessas localidades, o plantio está concluído ou em andamento. A próxima fase começa em junho, com a instalação de novas unidades em Sergipe e Minas Gerais, enquanto Pernambuco ainda terá o cronograma definido.

    Cada área ocupará 0,75 hectare e funcionará como unidade de produção de mudas para abastecer produtores locais. Assim, a estratégia busca estruturar uma rede regional que facilite o acesso a material genético de qualidade, com maior resistência a pragas e adaptação às condições climáticas do Semiárido.

    A Sudene adotou a variedade Orelha de Elefante Mexicana, reconhecida pela resistência à cochonilha-do-carmim, praga que historicamente causa prejuízos à palma forrageira na região.

    Segundo o coordenador-geral de Inovação e Transformação Digital da Sudene, Aildo Sabino, o programa Inova Palma integra tecnologia e assistência técnica direta. “O projeto acompanha todas as etapas, desde a seleção das áreas até o manejo e a distribuição das mudas, além de oferecer capacitação em campo. Isso aumenta a produtividade e reduz riscos para os produtores”, afirma.

    Parceria

    O Instituto Nacional do Semiárido (INSA) executa o projeto em parceria com governos estaduais, prefeituras e instituições locais. A iniciativa deve ampliar a área cultivada, reduzir custos com alimentação animal e fortalecer a resiliência da agropecuária frente às estiagens. Além disso, o programa promove a capacitação técnica de pequenos produtores e busca melhorar indicadores econômicos e sociais na região.

    O projeto Sementeiras integra o programa Inova Palma, estratégia da Sudene voltada ao desenvolvimento da cadeia produtiva da palma forrageira e ao estímulo da cooperação entre centros de pesquisa, universidades e produtores no Nordeste e no norte de Minas Gerais.

  • Sindi ganha espaço no Nordeste e impulsiona nova fase da pecuária no semiárido

    Sindi ganha espaço no Nordeste e impulsiona nova fase da pecuária no semiárido

    A pecuária nordestina vive uma transformação importante diante dos desafios climáticos da região. Em meio às longas estiagens e à escassez de pastagens, produtores passaram a investir em modelos mais eficientes e sustentáveis. Assim, a raça Sindi ganhou protagonismo e se consolidou como símbolo da nova pecuária do semiárido.

    Originária da região de Sindh, no atual Paquistão, a raça chegou ao Brasil no século passado e encontrou no Nordeste condições ideais para demonstrar sua rusticidade.

    Os primeiros exemplares da raça Sindi desembarcaram no Brasil há décadas e ajudaram a fortalecer a pecuária em regiões de clima mais seco — (Foto: Reprodução/ABF)

    Além disso, o avanço do Sindi acompanha a evolução técnica da pecuária regional. Com mais investimentos em genética, manejo nutricional e seleção de animais, produtores nordestinos passaram a conquistar maior valorização no mercado nacional.

    Rusticidade e eficiência elevam interesse pela raça

    Em tempos de mudanças climáticas e alta nos custos de produção, a rusticidade virou vantagem econômica. O Sindi se destaca justamente pela elevada tolerância ao calor, boa conversão alimentar e capacidade de aproveitar pastagens mais simples.

    Dessa forma, os produtores conseguem reduzir custos e manter a produtividade mesmo em ambientes mais severos. Outro diferencial importante é o porte moderado dos animais, que favorece a manutenção corporal durante períodos críticos de seca.

    Criadores apostam no Sindi para ampliar produtividade e sustentabilidade da pecuária — (Foto: Reprodução/ABF)

    Além disso, a raça apresenta boa fertilidade e precocidade sexual, fatores diretamente ligados à rentabilidade das fazendas. Não por acaso, especialistas consideram o Sindi uma das raças zebuínas mais promissoras para a pecuária tropical brasileira.

    Sindi fortalece pecuária moderna no semiárido

    Embora tenha forte presença na produção leiteira, o Sindi também vem ganhando espaço na pecuária de corte, principalmente em programas de cruzamento industrial e seleção genética.

    Ao mesmo tempo, o crescimento da raça acompanha uma mudança mais ampla no Nordeste, com produtores investindo cada vez mais em tecnologia, gestão e produtividade.

    Hoje, o Sindi representa muito mais do que resistência. A raça virou referência de eficiência produtiva no semiárido e deve ampliar ainda mais sua presença nos próximos anos, impulsionada pelo interesse crescente dos criadores e pelo fortalecimento dos programas de melhoramento genético.

  • Cooperativismo revoluciona economia na Roliúde Nordestina

    Cooperativismo revoluciona economia na Roliúde Nordestina

    No coração do Cariri paraibano, a pequena Cabaceiras, conhecida como “Roliúde Nordestina”, revela uma história que vai muito além dos cenários de cinema. O portal Agro em Campo acompanhou de perto a rotina da Cooperativa Arteza que encontrou, no couro, na união e na persistência de um povo, a força que mudou o destino de uma cidade inteira. Nesse contexto, o cooperativismo em Cabaceiras se consolida como motor de desenvolvimento.

    Com cerca de 5.500 habitantes, o município, marcado pelo clima seco e pela escassez de chuvas, viu no cooperativismo uma alternativa concreta para enfrentar dificuldades históricas. Assim, construiu um novo caminho de desenvolvimento baseado na coletividade.

    Carlinhos, fundador da Arteza – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    À frente dessa transformação está José Carlos Castro, o Carlinhos, hoje com 70 anos. A trajetória dele se confunde com a própria história da Arteza. Aos 15 anos, após perder o pai em um acidente de moto, assumiu uma pequena produção de chapéus de couro com apenas oito homens. Desde então, iniciou um processo persistente de articulação coletiva. Foram dez anos insistindo na ideia de união até que, em 31 de julho de 1998, a cooperativa saiu do papel com 28 famílias.

    “Graças ao bode, ao couro do bode conseguimos sobreviver e viver bem”, resume.

    Cooperativismo em Cabaceiras transforma o couro em renda

    Antes da organização, o trabalho com couro enfrentava preconceito. A produção acontecia de forma rudimentar, às margens do rio Taperoá, com baixa qualidade e forte odor, o que afastava compradores. Ao mesmo tempo, a falta de chuva castigava lavouras como milho e alho. Por isso, muitos moradores deixavam a cidade em busca de sobrevivência.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Diante desse cenário, Carlinhos decidiu agir. Foi buscar capacitação em Campina Grande e voltou com uma solução prática: eliminar o cheiro do couro e melhorar sua qualidade. Como resultado, em poucos meses, a procura pelos produtos aumentou.

    Ainda assim, convencer outros produtores não foi simples. “O individualismo estava acabando com cada curtume”, relembra.

    A virada ocorreu quando ele passou a compartilhar conhecimento e estabelecer regras claras, como preço único e respeito entre os trabalhadores. Dessa forma, a padronização trouxe força ao grupo e estabilidade ao mercado. Em cerca de seis meses, os resultados já eram visíveis.

    Uma nova realidade no semiárido

    Com o avanço da organização, o impacto foi direto. Se antes as pessoas deixavam Cabaceiras, o movimento começou a se inverter. Aos poucos, o trabalho passou a gerar renda e perspectiva dentro da própria cidade.

    Atualmente, a Arteza reúne mais de 80 cooperados e movimenta uma cadeia que ultrapassa 500 postos de trabalho. A produção, que antes era de 600 peles por mês, alcançou 26 mil peles de cabra e 45 mil quilos de couro bovino mensalmente.

    Além disso, a matéria-prima chega de três estados — Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Depois do curtimento, o couro segue para artesãos locais. Cada profissional desenvolve um tipo de produto, que é comercializado na loja da cooperativa e também pela internet para todo o Brasil.

    O faturamento mensal gira em torno de R$ 700 mil. Consequentemente, o impacto na economia local é significativo. A renda média dos trabalhadores chega a cerca de três salários mínimos.

    Mais do que números, o que se observa é transformação social. “A atividade mudou a nossa realidade”, afirma Carlinhos.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Tradição, sustentabilidade e futuro

    O processo produtivo preserva raízes e respeita o meio ambiente. O curtimento não utiliza produtos químicos. Em vez disso, usa o angico como insumo natural, técnica tradicional da região. Além disso, os resíduos são reaproveitados como fertilizantes, reforçando práticas sustentáveis.

    Com o apoio do Sistema OCB, a cooperativa avançou em gestão, organização e precificação. A partir dessas consultorias, os cooperados passaram a entender melhor o valor do produto. Assim, o modelo evita concorrência interna e fortalece o posicionamento no mercado.

    “O cooperativismo é a junção de pessoas. Nosso maior patrimônio são os associados”, destaca.

    Hoje, a Arteza também incorpora práticas alinhadas a ESG, mantendo viva a cultura local enquanto gera desenvolvimento econômico. Nesse sentido, o cooperativismo em Cabaceiras mostra que valor vai além do dinheiro.

    No fim, o que se encontra na cidade não é apenas uma cooperativa. É a prova de que, mesmo em um território marcado pela seca, a união transforma escassez em oportunidade, trabalho em dignidade e tradição em futuro.

  • Produtores descobrem no umbu gigante nova fonte de lucro no semiárido

    Produtores descobrem no umbu gigante nova fonte de lucro no semiárido

    Dezenas de produtores rurais participaram do 3º Dia do Campo na Fazenda Experimental Pedra Mole, no Distrito de Bate Pé, em Vitória da Conquista. O evento discutiu as vantagens econômicas do umbu gigante, fruto típico do semiárido baiano que promete diversificar a produção e aumentar a renda dos agricultores da região.

    Foto: Seagri/BA

    A Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura da Bahia (Seagri) apresentou estratégias para expandir a cultura do umbu gigante no estado. O encontro reuniu agricultores que buscam alternativas rentáveis para suas propriedades.

    O diretor de Desenvolvimento da Agricultura da Seagri, Assis Pinheiro Filho, destacou o acordo de cooperação técnica que a secretaria assinou com Vitória da Conquista em 2024. A parceria visa criar jardins clonais em outros municípios baianos.

    “Trabalhamos para que o umbu gigante se torne uma cultura acessível a todos os produtores, oferecendo mais uma fonte de renda lucrativa. Queremos mostrar ao país e ao mundo essa maravilha do Nordeste brasileiro”, afirmou Pinheiro Filho.

    Vitória da Conquista amplia produção de mudas e mira liderança nacional

    O secretário de Desenvolvimento Rural de Vitória da Conquista, Breno Farias, revelou que o município planeja dobrar a produção de mudas. Atualmente, a Fazenda Experimental produz cinco mil mudas por ano.

    “Mais da metade do território de Vitória da Conquista está no semiárido, condição ideal para o umbu. Queremos nos tornar o principal produtor de umbu gigante do país e ajudar outros municípios através da cooperação com a Seagri”, declarou Farias.

    O agricultor Nelito Araújo, 70 anos, demonstrou entusiasmo ao receber mudas para plantar em seu sítio no distrito de São Sebastião. O produtor, que tradicionalmente cultiva mandioca e palma, vê no umbu gigante uma chance de diversificar a renda.

    “Me interessei pelo umbu gigante por ser mais produtivo e rentável. O fruto serve para doce, para polpa e pode gerar um dinheiro extra na propriedade”, comemora Araújo.

    Fruto três vezes maior garante maior lucratividade

    O umbu gigante equivale a três frutos do tipo tradicional. A espécie oferece maior quantidade de polpa, que produtores transformam em doces, geleias e bebidas de alto valor agregado.

    O mercado paga R$ 15 por quilo do umbu gigante, enquanto o litro do fruto comum custa R$ 10. A modalidade premium, com frutos acima de 130g, alcança valores ainda maiores.

    A natureza selecionou o umbu gigante de forma natural, sem desenvolvimento em laboratório. Agricultores cultivam a espécie através de enxerto e realizam o plantio no período chuvoso.

    As raízes armazenam água em tubérculos, o que garante resistência durante a seca característica do semiárido. Essa adaptação natural torna o umbu gigante uma opção estratégica para produtores da região.

  • Agricultura familiar gera R$ 20,5 milhões em valor social no São Francisco

    Agricultura familiar gera R$ 20,5 milhões em valor social no São Francisco

    O Projeto Lagos do São Francisco transformou a vida de centenas de agricultores familiares no Semiárido brasileiro e multiplicou por quase três o valor investido. Um estudo do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) comprovou que a iniciativa gerou R$ 2,92 em benefícios sociais para cada R$ 1,00 aplicado. A Embrapa Semiárido (PE) executou o projeto entre 2019 e 2024 e alcançou um valor social total de R$ 20,5 milhões a partir de um investimento de R$ 7 milhões.

    A AXIA Energia (antiga Eletrobras Chesf) financiou o programa, com parceria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e apoio das prefeituras locais. O projeto fortaleceu a agricultura familiar e promoveu práticas produtivas sustentáveis em 12 municípios ao redor das barragens do Rio São Francisco, nos estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e Sergipe.

    508 produtores atendidos diretamente

    O projeto atendeu diretamente 508 produtores rurais ao longo de cinco anos. Mais de 5,2 mil pessoas participaram de capacitações, dias de campo e eventos técnicos. Os agricultores, suas famílias e os técnicos agropecuários envolvidos sentiram os impactos positivos das ações.

    A avaliação ouviu 265 produtores e revelou avanços em múltiplas dimensões. Entre os entrevistados, 78% melhoraram a alimentação da família, 85% se sentem mais seguros financeiramente e 74% reduziram a preocupação com dívidas e escassez de recursos.

    Bem-estar e motivação crescem entre agricultores

    Os resultados mostraram transformações profundas no bem-estar individual e social. Entre os beneficiados, 97% relataram satisfação ao compartilhar conhecimentos com outros agricultores, 94% sentiram maior motivação para o trabalho e 91% enxergam com mais otimismo a possibilidade de viver da própria produção.

    O projeto também gerou impactos ambientais significativos. Mais da metade dos participantes (56%) preservou ou reflorestou novas áreas em suas propriedades, incorporando práticas agroecológicas e uso racional da água. Os Campos de Aprendizagem Tecnológica (CATs) impulsionaram essas mudanças. A equipe implantou áreas demonstrativas nas propriedades com apoio técnico e fornecimento de insumos.

    Capacitação em apicultura. Foto: Francisco Evangelista/Embrapa

    Os técnicos agropecuários também relataram benefícios diretos. Todos os entrevistados (100%) declararam aumento na motivação, no reconhecimento profissional e na satisfação pessoal ao contribuir para o desenvolvimento dos produtores.

    Embrapa celebra resultados acima das expectativas

    O pesquisador da Embrapa Semiárido Rebert Coelho coordenou o projeto e afirmou que os resultados superaram as expectativas. “O Lagos do São Francisco teve foco na agricultura familiar, que representa uma parcela essencial dos produtores do País. No Semiárido, esse trabalho ganha ainda mais relevância, por atender comunidades historicamente desassistidas. O projeto mostrou que, com articulação institucional, tecnologias, assistência técnica e protagonismo do produtor, conseguimos gerar renda e promover a convivência produtiva com o Semiárido”, destacou.

    A vice-presidente de Sustentabilidade da AXIA Energia, Camila Araújo, celebrou os resultados práticos das ações de responsabilidade socioambiental da empresa. “Projetos como este reafirmam o nosso compromisso com a performance sustentável, valorizam a agricultura familiar, incentivam o uso responsável dos recursos naturais e promovem impactos duradouros para as pessoas e para o meio ambiente, por meio da capacitação de quem atua nas atividades agropecuárias, ampliando suas oportunidades de renda e qualidade de vida”.

    O relatório do IDIS indicou que 81% do valor social gerado se expressou em melhorias diretas nas condições de vida das famílias. Os agricultores realizaram reformas nas moradias, adquiriram bens, melhoraram a alimentação e reduziram dívidas.

    Campos de Aprendizagem funcionam como laboratórios a céu aberto

    A equipe instalou 508 Campos de Aprendizagem Tecnológica (CATs), espaços demonstrativos que funcionaram como laboratórios a céu aberto. Os técnicos implantaram esses campos em propriedades de produtores selecionados para aplicação e validação de tecnologias adaptadas ao Semiárido.

    Os produtores receberam mudas, sementes e ferramentas nesses ambientes. Eles aprenderam e aplicaram técnicas de manejo em diferentes culturas, respeitando a vocação produtiva de cada município e os macrotemas definidos nos planos de ação do projeto.

    A equipe implantou CATs para cultivo de cebola, tomate, melancia, milho, feijão, mandioca, manga, goiaba, coco, citros e banana. As atividades também incluíram criação de caprinos, ovinos, bovinos, galinhas e abelhas. Esses espaços se tornaram referência em práticas de recuperação ambiental, manejo de solo e uso racional da água.

    As prefeituras e entidades de assistência técnica contribuíram diretamente para a execução das ações em campo. O projeto promoveu diversos eventos de capacitação, alcançando milhares de produtores rurais em toda a região.

    Produtores relatam virada produtiva e pessoal

    O meliponicultor Clênio da Silva, de Pariconha (AL), aprendeu técnicas que elevaram a qualidade e o rendimento do mel. “Sem capacitação, a gente não tem como trabalhar direito. Esses cursos ajudaram demais. Hoje já fazemos colheitas boas, com mais qualidade, e isso tem ajudado na renda da família”, disse.

    O técnico da Emater Isaquiel Dias reforçou o papel da iniciativa na estruturação da cadeia apícola na mesma cidade. “Hoje temos uma cadeia organizada. Isso agrega valor aos agricultores e contribui para a preservação ambiental, porque as abelhas dependem de um ecossistema equilibrado”.

    Em Olho D’Água do Casado (AL), o produtor Cícero Lima viu sua renda dobrar após receber ajuda técnica para implantação de forrageiras. “Antes, o que eu plantava vendia quase de graça. Com o projeto, comecei a investir nas vacas, e elas começaram a dar retorno. Vieram a palma, o sorgo, a BRS Capiaçu, melhorou demais”.

    O técnico da Emater local Nicolas da Costa confirmou o avanço. “Muitos produtores reduziram a compra de insumos, porque agora produzem forragens de alta qualidade dentro da própria propriedade. Isso fortalece a produção e melhora a renda”.

    Tecnologias simples transformam resultados

    Em Paulo Afonso (BA), o agricultor Erisvan Pereira destacou o impacto do uso de tecnologias simples, como o cultivo de tomate sob lona. “Antes, perdíamos metade da produção. Agora, o tomate não apodrece, fica limpo e bonito. Melhorou 100%. Quero continuar crescendo com o apoio do projeto”, afirmou.

    Em Paulo Afonso (BA), o agricultor Erisvan Pereira destaca o impacto do uso de tecnologias simples, como o cultivo de tomate sob lona. Foto: Francisco Evangelista/Embrapa

    Miguel Júnior, produtor de Poço Redondo (SE), recebeu uma CAT de limão e tangerina e define o projeto como “um recomeço cheio de esperança”. “A Embrapa trouxe conhecimento e acompanhamento. Aprendi a irrigar melhor, adubar na hora certa e controlar pragas sem prejudicar o meio ambiente. Isso mudou tudo na forma de trabalhar”.

    Além das frutíferas, Miguel adotou o consórcio com mandioca e feijão, garantindo renda até o início da colheita. “Hoje me sinto um produtor mais profissional. Minha família participa de tudo e acreditamos mais no nosso potencial”.

    Rede de cooperação garante sucesso da iniciativa

    Uma ampla rede de instituições públicas e organizações da sociedade civil garantiu o sucesso do Lagos do São Francisco. A execução envolveu equipes multidisciplinares da Embrapa Semiárido, professores da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), técnicos do Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável de Alagoas (Emater) e prefeituras municipais.

    A secretária de Agricultura de Delmiro Gouveia (AL), Renally Medeiros, iniciou sua trajetória no projeto como técnica de campo e testemunhou as transformações geradas nas comunidades rurais. “Foi uma experiência marcante. Vimos famílias que antes tinham medo de arriscar na produção começarem a acreditar em si mesmas. O Lagos do São Francisco despertou nas pessoas o desejo de aprender e de empreender no campo. Muitos produtores, que antes viviam apenas de programas sociais, hoje têm sua própria renda e vendem para o PAA e o PNAE”, relembra, referindo-se ao Programa de Aquisição de Alimento e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar, iniciativas do Governo Federal.

    O técnico Joaquim Santos, da Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Irrigação (Cohidro), da Secretaria de Estado da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e da Pesca de Sergipe, destacou a contribuição científica da Embrapa. “A Embrapa trouxe base científica e orientação prática, e juntos conseguimos resultados concretos”.

    Segundo ele, as ações promoveram avanços rápidos na produtividade e na consciência ambiental. “Implantamos áreas de fruticultura, distribuímos sementes adaptadas e reflorestamos nascentes. Hoje, vemos propriedades mais verdes, organizadas e produtivas. É um projeto que realmente transformou a região”.

    O Lagos do São Francisco atendeu doze municípios: Petrolândia e Jatobá (PE); Glória, Rodelas e Paulo Afonso (BA); Pariconha, Delmiro Gouveia, Olho D’Água do Casado e Piranhas (AL); Canindé do São Francisco, Poço Redondo e Nossa Senhora da Glória (SE).

  • Brasil e China criam laboratório de IA para o semiárido

    Brasil e China criam laboratório de IA para o semiárido

    Brasil e China lançaram a pedra fundamental de um laboratório voltado ao desenvolvimento de inteligência artificial e maquinário agrícola de pequeno porte destinado à agricultura familiar do semiárido brasileiro. A cerimônia ocorreu na Universidade Agrícola da China (CAU), em Pequim, e simboliza uma nova fase na cooperação científica entre os dois países, que buscam alinhar inovação e sustentabilidade.

    O Laboratório Brasil-China de Mecanização e Inteligência Artificial na Agricultura Familiar funcionará no Instituto Nacional do Semiárido (Insa), em Campina Grande (PB). O órgão, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), concentrará pesquisas sobre monitoramento ambiental, análise de dados e mecanização inteligente, sempre voltadas às necessidades dos pequenos produtores da região.

    Além de reduzir desigualdades regionais, o projeto pretende gerar soluções de baixo custo e alto impacto. Dessa forma, busca ampliar a produtividade sem comprometer os recursos naturais do semiárido.

    Complementaridade entre gigantes agrícolas

    A parceria une dois gigantes agrícolas em diferentes estágios de desenvolvimento. Enquanto o Brasil oferece experiência prática em agricultura tropical, a China contribui com tecnologia avançada, capacidade industrial e ritmo acelerado de inovação.

    Segundo Dayvid Santos, coordenador-geral de Tecnologia Social e Economia Solidária do MCTI, a colaboração representa uma oportunidade histórica. “O Brasil, como um dos maiores produtores de alimentos do mundo, traz sua vasta experiência em agricultura tropical, seu conhecimento em solos e biomas diversos, e a força de seus produtores rurais”, afirmou. “A China, por sua vez, traz sua impressionante capacidade de inovação, sua manufatura de alta tecnologia e sua velocidade na adoção de novas soluções digitais. Somos, portanto, parceiros naturais e complementares”, completou.

    Essa integração, acrescentou Santos, permitirá desenvolver tecnologias que unam eficiência produtiva e sustentabilidade ambiental — combinação essencial para enfrentar as mudanças climáticas.

    Avanço para o semiárido brasileiro

    Para Etham Barbosa, diretor do Insa, o laboratório inaugura um novo ciclo de pesquisa aplicada e formação científica no Nordeste. “Com o laboratório, poderemos explorar melhor a região, que é tão rica em recursos naturais. Além disso, vamos promover o desenvolvimento de tecnologias para a agricultura familiar, baseadas em mecanização, inteligência artificial, digitalização, formação de pesquisadores e construção de capacidade para pesquisa científica”, explicou.

    Barbosa ressaltou que o Insa atuará como ponto de convergência entre universidades, startups e produtores locais. Assim, o conhecimento científico poderá se transformar mais rapidamente em inovação prática no campo.

    Cooperação consolidada

    O projeto é resultado de um memorando de entendimento assinado entre o MCTI e o Ministério da Ciência e Tecnologia da República Popular da China. O documento foi elaborado em novembro de 2024, durante a visita do presidente Xi Jinping ao Brasil. Desde então, ambos os governos vêm intensificando o intercâmbio de pesquisadores e o compartilhamento de dados sobre mecanização adaptada ao clima semiárido.

    O Insa será responsável pela gestão e coordenação das atividades, enquanto a Universidade Agrícola da China fornecerá suporte técnico e equipamentos de pesquisa. O lançamento da pedra fundamental ocorreu durante o Simpósio de Modelos de Desenvolvimento dos Países da Iniciativa Cinturão e Rota, que reforçou o compromisso de cooperação científica e tecnológica entre as nações.

    Com o novo laboratório, Brasil e China fortalecem os laços diplomáticos e renovam a esperança de que a tecnologia transforme o semiárido em um território fértil e produtivo.

  • Agricultores exportam algodão orgânico para marca francesa

    Agricultores exportam algodão orgânico para marca francesa

    Cerca de 150 famílias do semiárido piauiense produzem algodão orgânico que abastece uma exigente empresa francesa de tênis. A matéria-prima cultivada sem agrotóxicos ou produtos químicos conquista as principais vitrines de calçados no Brasil e no exterior.

    A Secretaria da Agricultura Familiar (SAF) adquiriu uma miniusina de beneficiamento em 2024. O equipamento custou R$ 150 mil e chegou aos produtores de São Francisco de Assis do Piauí. A novidade permite que os agricultores entreguem o algodão em fardos ao invés de plumas. Esta mudança aumenta o valor agregado do produto e eleva a renda das famílias. A produção anual gira em torno de 10 toneladas de plumas.

    Embrapa capacita produtores para combater pragas naturalmente

    Os produtores mantêm parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) da Paraíba. O objetivo é capacitar agricultores dos municípios para melhorar os cuidados contra pragas. Como a produção não utiliza químicos, ela fica mais vulnerável ao bicudo, inseto que destrói as plantações.

    “Precisamos compreender a existência de inimigos naturais, como o inseto bicudo do algodoeiro”, explica Antônio Pereira, diretor de Agroecologia e Agricultura Periurbana da SAF. “O manejo adequado inclui cultivo de outras culturas alimentares junto ao algodão, como milho e macaxeira.”

    A estratégia também envolve inseticidas naturais, bioinsumos e técnicas de conservação do solo. Os produtores discutem questões de comercialização e necessidade de selo de verificação. Empresas estrangeiras demonstram interesse crescente pelos algodões agrícolas brasileiros.

    Agricultor de São Raimundo Nonato forma três filhas com renda do algodão

    Manoel Aragão Ribeiro trabalha na produção de algodão agroecológico na localidade Lagoa dos Prazeres, em São Raimundo Nonato. Ele conta como começou a atividade que hoje vende para uma empresa francesa.

    “A associação começou no final de 2010. Em 2011 reunimos os grupos e em 2012 conseguimos registrar em cartório”, relembra o agricultor. “Esse trabalho já vem dos nossos antepassados. Formalizamos a partir do incentivo da Embrapa e da Diaconia.”

    algodão organico
    Manoel Aragão mostra tênis que é fabricado a partir do algodão orgânico cultivado por ele. Foto: Geirlys Silva / SAF

    A iniciativa preserva a área com práticas sustentáveis de conservação do solo. Os produtores utilizam curva de nível, esterco natural de bode e outras técnicas ecológicas.

    Manoel destaca que o trabalho evoluiu com a exportação da matéria-prima. A parceria surgiu através da Diaconia, instituição de Recife responsável pelo mapeamento da empresa francesa. Ele define a atividade como um trabalho que “transforma sonho em realidade”.

    “Sou pai de três meninas, e todas cresceram com a produção de algodão”, conta orgulhoso. “Consegui formar uma em administração em faculdade privada. Ela cursa pedagogia na Universidade Estadual do Piauí (Uespi). Outra se formou técnica em restaurante e a terceira terminou o ensino médio.”

    A área de plantio ganhou destaque mesmo com chuvas irregulares. O trabalho de 30 anos sem queimadas e agrotóxicos criou a melhor área de produção da região. “Hoje eu calço um tênis francês feito com o algodão que eu mesmo produzi”, finaliza Manoel com satisfação.

    A história exemplifica como a agricultura familiar sustentável pode gerar renda, preservar o meio ambiente e conectar pequenos produtores ao mercado internacional.

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