A tilapicultura brasileira precisa transformar o aumento da produção em melhores margens para produtores e frigoríficos. O desafio ganhou peso com a oscilação dos preços, a pressão dos custos e a concorrência internacional.
O tema será discutido no painel “Competitividade da tilápia brasileira e suas perspectivas: preços, custos e rentabilidade”, marcado para 3 de setembro, às 8h30, durante o IFC Brasil 2026, em Foz do Iguaçu (PR).
Custos afetam decisões
O debate reunirá o pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) Thiago Bernardino de Carvalho e o mestre em Aquicultura Eduardo Ono, representante da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Os especialistas vão analisar os custos de produção, a eficiência das propriedades, o comportamento dos preços e a remuneração dos diferentes elos da cadeia.
A discussão também deve abordar as condições necessárias para que a tilápia brasileira avance nos mercados interno e externo sem reduzir a rentabilidade de quem produz e processa o pescado.
“Temos potencial produtivo, conhecimento técnico e um mercado com espaço para crescer. O desafio agora é transformar essas vantagens em competitividade real. Isso exige conhecer melhor os custos, aumentar a eficiência, reduzir riscos e criar condições para que o produtor tenha rentabilidade e capacidade de continuar investindo”, afirma Altemir Gregolin, professor da FGV e presidente do IFC Brasil 2026.
Eficiência vai além da fazenda
Para o setor, a competitividade não depende apenas do volume produzido nos viveiros. Crédito, sanidade, tecnologia, processamento, logística e organização da produção também influenciam o resultado final.
Esses fatores afetam diretamente os custos e a capacidade da cadeia de atender mercados mais exigentes. Por isso, decisões sobre investimento e expansão precisam considerar todas as etapas, da criação ao processamento e à distribuição.
“Trazer especialistas ligados à pesquisa econômica e à representação dos produtores permitirá confrontar dados de mercado com a realidade de quem precisa tomar decisões diariamente. Será um debate importante para compreender onde estão os principais custos, os riscos e as oportunidades da tilapicultura brasileira”, diz Eliana Panty, CEO do IFC Brasil.
Serviço
O painel integra a programação do Congresso Internacional de Aquicultura, realizado durante o IFC Brasil 2026.
Evento:IFC Brasil 2026
Painel: “Competitividade da tilápia brasileira e suas perspectivas: preços, custos e rentabilidade”
Data: 3 de setembro
Horário: 8h30
Local: Foz do Iguaçu (PR)
O IFC Brasil 2026 ocorre de 2 a 4 de setembro. Mais informações estão disponíveis no site oficial do evento, pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (49) 9 8845-4767.
O mercado brasileiro de tilápia iniciou o ano em alta, impulsionado pelo aumento da demanda durante a Quaresma e a Semana Santa, mas perdeu força ao longo do segundo trimestre.
A desaceleração sazonal do consumo, somada à chegada do inverno e ao avanço das importações de pescado do Vietnã, ampliou a pressão sobre os preços pagos aos produtores e comprometeu a rentabilidade de parte da cadeia produtiva.
A partir do fim do primeiro semestre, no entanto, as compras externas começaram a perder ritmo. Dados da Embrapa Pesca e Aquicultura mostram que as importações de tilápia do Vietnã atingiram o pico de 1.956 toneladas em março. E recuaram nos meses seguintes, até chegarem a 1.342 toneladas em junho e 957 toneladas em julho. Ou seja, uma queda de aproximadamente 29% em relação ao mês anterior.
O presidente da PEIXE BR, Francisco Medeiros, atribui o comportamento dos preços no primeiro semestre à sazonalidade tradicional do mercado, que combina valorização no início do ano com acomodação nos meses seguintes.
“O primeiro trimestre foi bastante positivo para os produtores. No entanto, a chegada do inverno reduziu a demanda e coincidiu com um aumento expressivo das importações no início do ano, contribuindo para pressionar os preços pagos ao produtor.”
São Paulo, principal mercado consumidor do país, sentiu o efeito com mais intensidade. Segundo Medeiros, o volume de tilápia importada correspondeu a cerca de 30% da produção paulista estimada nos cinco primeiros meses do ano, o que ampliou a concorrência com o produto nacional.
“As importações afetam diretamente a formação dos preços e pressionam a saúde financeira das empresas da cadeia produtiva. É uma concorrência que ocorre justamente em um momento de menor consumo. Tornando o cenário ainda mais desafiador para os produtores brasileiros”, analisa o executivo.
Desaceleração das importações melhora perspectivas para o segundo semestre
A redução das compras externas nos últimos meses abre espaço para uma perspectiva mais positiva na segunda metade do ano. São Paulo e Santa Catarina concentram cerca de 83% das importações acumuladas em 2026, com 4.068 toneladas e 3.433 toneladas, respectivamente. Em julho, porém, Santa Catarina assumiu a liderança nas compras mensais, com 419 toneladas, enquanto São Paulo importou 364 toneladas.
A PEIXE BR projeta recuperação gradual dos preços pagos ao produtor no segundo semestre, sustentada pela retomada sazonal do consumo e pelas medidas adotadas por estados como Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco, que passaram a impor restrições ou exigências à comercialização da tilápia importada do Vietnã.
“A tendência é de manutenção e até de recuperação dos preços ao produtor no segundo semestre. As iniciativas adotadas pelos estados ajudam a reduzir a pressão das importações sobre o mercado interno. E podem contribuir para restabelecer um ambiente mais equilibrado para a produção nacional”, conclui Medeiros.
O Paraná manteve a liderança na produção de tilápia no Brasil em 2025, com 273,1 mil toneladas, segundo dados da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR). O volume representa um crescimento de 9,1% em relação a 2024 e reforça o protagonismo do estado no setor aquícola nacional.
De acordo com o presidente da Peixe BR, Francisco Medeiros, o avanço da produção reflete a atuação conjunta de cooperativas, agroindústrias e empresas privadas, além do uso crescente de tecnologia no campo.
“O movimento liderado por cooperativas e empresas mostra a força do setor no Paraná. Fatores como inovação tecnológica, assistência técnica e organização produtiva têm impulsionado o crescimento de forma consistente nos últimos anos”, afirma.
Após o Paraná, São Paulo ocupa a segunda posição entre os maiores produtores de tilápia do país. Em 2025, o estado alcançou 93,7 mil toneladas, com avanço expressivo de 54% na comparação anual.
Minas Gerais aparece na sequência, com produção de 77,5 mil toneladas, seguido por Santa Catarina (63,4 mil toneladas) e Maranhão (59,6 mil toneladas), que subiu uma posição e fechou o top 5 nacional.
Crescimento regional e destaques do setor
Entre os dez maiores produtores, o Maranhão registrou o maior crescimento percentual em 2025, com alta de 9,36%, superando inclusive o desempenho do Paraná.
“O Maranhão tem mostrado um arranjo produtivo eficiente, que sustenta essa expansão nos últimos anos”, destaca Medeiros.
Santa Catarina e Minas Gerais também apresentaram crescimento relevante, com aumentos de 7,28% e 6,46%, respectivamente.
Outro destaque foi o Ceará, que ampliou sua produção em 29,3% e subiu para a 18ª posição no ranking nacional.
A cadeia da tilapicultura em São Paulo vive um ciclo de expansão e reforça medidas de vigilância sanitária para proteger a produção e garantir a sustentabilidade do setor. O aumento do monitoramento técnico e epidemiológico acompanha o crescimento da atividade, que consolidou o Estado como um dos principais polos produtores do país.
Segundo dados preliminares do Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA), a produção paulista de tilápia atingiu 54,17 mil toneladas em 2025, crescimento de 4% em relação ao ano anterior. O faturamento chegou a R$ 494,11 milhões, sustentado por uma estrutura industrial robusta, com 21 frigoríficos responsáveis por 86% do abate total. Mais de 12 mil tanques-rede operam atualmente em reservatórios paulistas, respondendo pela maior parte do volume produzido.
O avanço produtivo amplia a preocupação com o status sanitário da aquicultura, considerado essencial para a competitividade e a segurança alimentar. Especialistas do setor ressaltam que manter altos padrões de biossegurança é determinante para a estabilidade da cadeia e a proteção dos investimentos.
“Preservar a sanidade da tilapicultura significa garantir crescimento sustentável, segurança alimentar e geração de empregos. As ações de pesquisa e defesa são fundamentais para a continuidade do setor”, afirma Geraldo Melo Filho, secretário da pasta agropecuária paulista.
Riscos sanitários
O monitoramento estadual avalia riscos sanitários relacionados ao comércio internacional de pescado e acompanha as análises conduzidas em nível federal. Em 2024, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) suspendeu temporariamente as importações de tilápia de alguns mercados e iniciou uma Análise de Risco de Importação (ARI) para determinar possíveis ameaças de agentes patogênicos exóticos no país.
No Estado, instituições de pesquisa como o Instituto de Pesca (IP-APTA) e órgãos de defesa agropecuária intensificaram o acompanhamento técnico e epidemiológico. A coordenadora do Instituto de Pesca, Cristiane Neiva, destaca que a prevenção é um dos pilares da sustentabilidade do setor.
“A introdução de enfermidades pode comprometer toda a estrutura industrial e os empregos ligados à aquicultura”, alerta.
O trabalho da Defesa Agropecuária paulista inclui protocolos de biossegurança, rastreabilidade e avaliação contínua de riscos. “As ações preventivas visam manter a tilapicultura competitiva e segura, com benefícios diretos a produtores e consumidores”, explica João Gustavo Pereira Loureiro, coordenador do Centro de Inspeção de Produtos de Origem Animal e Vegetal (CIPOAV).
Tilapia Lake Virus
Entre os principais pontos de atenção está o Tilapia Lake Virus (TiLV), agente infeccioso altamente letal, já registrado em países da Ásia, África e Oriente Médio. O vírus pode causar mortalidade de até 90% nos peixes e representa uma ameaça significativa à produção global de tilápia.
Para o presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, uma eventual introdução do TiLV no Brasil teria “efeitos expressivos” sobre a produção, em especial em regiões de alta densidade produtiva como São Paulo. Ele ressalta que os tanques-rede instalados em reservatórios favorecem a produtividade, mas exigem protocolos rigorosos de biossegurança.
“O modelo brasileiro de produção demanda vigilância constante e medidas de controle robustas para evitar disseminação de doenças”, observa Medeiros.
A tilápia passou, em 2025, a integrar o Valor da Produção Agropecuária (VPA) paulista, indicador usado para planejamento econômico e formulação de políticas agrícolas. A espécie mantém-se como a principal proteína de pescado consumida no Estado, com demanda crescente e boas perspectivas de expansão da produção e do processamento.
A produção de tilápia em São Paulo cresceu 4% em volume durante 2025, segundo dados preliminares do Valor da Produção da Aquicultura Paulista. O estado alcançou 54,17 mil toneladas do pescado e registrou faturamento de R$ 494,11 milhões no período. As informações vêm do Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento.
São Paulo mantém a segunda posição no ranking nacional de produção de tilápia, atrás apenas do Paraná. A piscicultura paulista consolida-se como um dos pilares dinâmicos do agronegócio estadual, com perspectivas otimistas para os próximos meses.
Tanques-rede em reservatórios concentram 75% da produção estadual
A tecnologia de criação em tanques-rede impulsionou o crescimento da produção e da produtividade da tilápia no estado. Atualmente, esse sistema de cultivo concentra-se principalmente nos grandes reservatórios hidrelétricos do oeste paulista e já responde por mais de 75% do volume total produzido.
O levantamento da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) e do IEA contabilizou mais de 12 mil unidades de tanques-rede em operação durante 2024. Os viveiros escavados, por sua vez, mantêm relevância no planalto e na região da Mantiqueira, onde atendem tanto a produção comercial quanto o mercado de pesque-pague.
“Espera-se que as condições climáticas favoráveis de temperatura e luminosidade impulsionem a produção no segundo semestre, podendo reverter a queda no valor total da produção deste cálculo preliminar”, destaca artigo científico publicado no site do IEA.
Frigoríficos paulistas ampliam capacidade de processamento e aproveitamento
A estrutura de processamento paulista mostra-se robusta: 21 frigoríficos concentram 86% do abate estadual. Parte da produção ainda segue para abatedouros em estados vizinhos, como Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
Celso Vegro, diretor da Divisão de Estatística, Economia e Políticas Públicas em Agricultura do IEA, aponta o potencial de expansão do setor. “Colabora imensamente a esse crescimento da produção a instalação de grandes frigoríficos especializados no abate e processamento da tilápia (filetagem) com aproveitamento do couro para outros usos, inclusive, para o tratamento de queimaduras de primeiro grau”, explica.
Pesquisa científica impulsiona produtividade e qualidade dos peixes
O pesquisador do IEA, Eder Pinnati, destaca que a pesquisa científica tem contribuído para a melhoria da produtividade e da qualidade dos peixes criados no estado. “São diversos desafios que vão desde a qualidade da água até a gestão da cadeia que estão sendo estudados concomitantemente, e o IEA inicia o acompanhamento e divulgação de dados e informações da cadeia produtiva da tilápia”, afirma.
Diante da relevância e intensificação da atividade na agropecuária paulista, a tilápia entrou no Valor da Produção Agropecuária (VPA) em 2025. O indicador, elaborado desde 1948, gera um ranking de relevância econômica para os produtos do setor e serve de base para análises, planejamento e formulação de políticas públicas.
O setor segue atraindo novos investimentos, com aumento contínuo no número de criatórios cadastrados pela Coordenadoria de Defesa Agropecuária (CDA). Como a maior parte do abastecimento paulista ainda vem de outros estados, há potencial de expansão bastante favorável para o incremento e intensificação das criações de tilápias, segundo Vegro.
Paulistas consomem tilápia abaixo do recomendado pela OMS
A tilápia lidera a preferência dos paulistas entre os pescados, seguida por salmão, pescada e atum. O alto custo da proteína, porém, limita o consumo. Os dados fazem parte de pesquisa recente do Instituto de Oceanografia (IO) da USP, em parceria com o Instituto de Pesca do Estado de São Paulo (IP-APTA).
O estudo mostra que o consumo de peixes, crustáceos e moluscos no estado está abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em média, os paulistas consomem esses alimentos apenas de uma a três vezes por mês. Enquanto a OMS sugere o consumo pelo menos duas vezes por semana.
Celso Vegro destaca o potencial de crescimento do consumo. “Em razão dessa maior demanda objetiva, a estrutura produtiva paulista está reagindo positivamente em exemplo do clássico econômico em que a demanda faz a oferta”, explica o pesquisador.
A produção de tilápia brasileira alcançou números expressivos em 2024 e se estabeleceu como o principal motor da aquicultura nacional. Segundo dados da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), a produção atingiu 660 mil toneladas no último ano, representando 68% de toda a piscicultura do país. As projeções indicam que esse percentual pode chegar a 80% até o final da década.
O desempenho posiciona o Brasil entre os maiores produtores mundiais de tilápia, reforçando a importância econômica e social da atividade. Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR, destaca o crescimento expressivo do setor: “A tilápia foi a proteína animal que mais cresceu nos últimos 11 anos. Ela fortalece o produtor, dinamiza a indústria e atende a um consumidor cada vez mais atento à saúde e à qualidade dos alimentos”.
Geração de empregos e impacto social da tilapicultura
O setor movimenta mais de 600 mil empregos diretos e indiretos em todo o território nacional, com presença marcante em mais de 110 mil propriedades rurais. A atividade possui características predominantemente familiares, com aproximadamente 98% dos produtores classificados como pequenos empreendedores.
Os principais polos produtivos estão concentrados no Oeste do Paraná, na região dos Grandes Lagos (que abrange São Paulo e Mato Grosso do Sul), em Morada Nova de Minas (MG) e em diversas localidades de Santa Catarina. Essas regiões experimentam desenvolvimento econômico impulsionado pela cadeia produtiva da tilápia.
De acordo com Medeiros, o crescimento brasileiro já altera a configuração da aquicultura mundial. “O Brasil deve encerrar esta década como o terceiro maior produtor de tilápia do mundo, muito próximo do segundo lugar. Os investimentos ao longo de toda a cadeia — da genética ao produto final — já sustentam essa projeção”, afirma o presidente da associação.
Desafios regulatórios limitam expansão do setor
Apesar dos resultados positivos, a tilapicultura brasileira enfrenta obstáculos que comprometem sua competitividade. Atualmente, a atividade é considerada a mais regulamentada do país quando comparada a outras proteínas animais.
Francisco Medeiros aponta que a redução da burocracia e a busca por condições equivalentes às concedidas aos setores de aves e suínos são essenciais para o avanço da piscicultura. “A redução da burocracia e a busca por isonomia com aves e suínos são fundamentais para que o setor avance para um novo patamar”, defende.
A Peixe BR ressalta que a tilapicultura apresenta baixo impacto ambiental e alto potencial de geração de renda, características que conferem ao setor papel estratégico no desenvolvimento sustentável da produção de alimentos no Brasil.
Com investimentos contínuos em tecnologia, genética e processamento, a cadeia produtiva da tilápia se fortalece e projeta crescimento consistente para os próximos anos. Consolidando a posição do país no mercado internacional e ampliando os benefícios socioeconômicos para milhares de famílias brasileiras.
Uma nova tecnologia promete revolucionar a aquicultura brasileira. O sistema de bioflocos (BFT) desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente em parceria com a Itaipu Binacional demonstrou ser capaz de produzir tilápia com uso mínimo de água e redução significativa do impacto ambiental.
O estudo, realizado durante 70 dias em tanques experimentais, comprovou que a técnica utiliza apenas 135 litros de água por quilo de peixe produzido — uma economia expressiva em comparação aos métodos tradicionais.
Durante o período experimental, foram produzidos quase 5 mil alevinos de tilápia em cada tanque circular de 4,2 m³, mantendo alta densidade de 395 peixes por metro cúbico. Os resultados impressionaram os pesquisadores.
“Alcançamos taxa de sobrevivência de 98%, peso médio final de 20,4 gramas e conversão alimentar aparente de apenas 1,05. Isso significa que apenas 1,05 kg de ração foram necessários para produzir 1 kg de peixe”, explica Tainara Blatt, técnica agrícola da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Foz do Iguaçu.
Segundo a especialista, a eficiência está relacionada ao consumo do floco microbiano, que funciona como alimento complementar rico em proteínas e bactérias probióticas.
Redução drástica na liberação de poluentes
Um dos principais destaques da pesquisa foi a redução na carga de nutrientes lançada no ambiente. O sistema BFT reteve 45,4% do nitrogênio, 46,3% do fósforo e 29,7% do carbono fornecidos pela ração.
Biometria de alevinos de tilápia – Foto: Tainara Blatt/Embrapa
“Ao fim do ciclo, a carga residual por tonelada de peixe foi de 10,24 kg de fósforo, 46,63 kg de nitrogênio e 442,47 kg de carbono. Nos sistemas tradicionais, como tanques-rede, esses valores podem chegar a 18,25 kg de fósforo, 77,50 kg de nitrogênio e 700 kg de carbono”, compara Hamilton Hisano, pesquisador da Embrapa.
Como funciona o sistema de bioflocos
A eficiência do BFT se deve à reciclagem de nutrientes pela ação de microrganismos que formam os bioflocos. Os técnicos monitoram continuamente a água dos tanques e controlam com rigor a temperatura, o oxigênio dissolvido, os sólidos suspensos e os nutrientes.
O equilíbrio do sistema é mantido pela adição de açúcar como fonte de carbono, preservando a proporção carbono:nitrogênio em 12:1. Essa estratégia favorece o crescimento bacteriano em detrimento de algas.
Como sistema fechado, o BFT oferece maior controle sobre a produção e os resíduos gerados, reduzindo o risco de escape de espécies e contaminação ambiental.
Desafio energético precisa ser superado
Apesar dos benefícios ambientais, André Watanabe e Celso Buglione, da Itaipu Binacional, identificaram um ponto crítico: o elevado consumo energético, estimado em 114,6 megajoules por quilo de peixe produzido.
“A necessidade de aeração contínua exige muita energia. Para ampliar a adoção do BFT, é urgente investir em fontes renováveis e aprimorar a eficiência dos equipamentos”, afirmam os especialistas.
Outro diferencial é o reaproveitamento dos resíduos sólidos removidos do sistema. Com potencial para serem transformados em fertilizantes ou ingredientes para ração, esses subprodutos podem agregar valor e contribuir para a economia circular.
Solução ideal para regiões com escassez de água
A baixa necessidade de renovação hídrica posiciona o BFT como alternativa estratégica para o semiárido e áreas periurbanas com uso restrito da água. O sistema também amplia a biossegurança e potencializa a produção em regiões urbanas.
O pesquisador colaborador do projeto, Alex Cardoso, destaca que o grupo pode futuramente incorporar ferramentas como a análise do ciclo de vida e o cálculo da pegada de carbono para mensurar com mais precisão os impactos ambientais.
Produtores aprovam tecnologia na prática
Durante o International Fish Congress & Fish Expo Brasil 2025, mais de 30 participantes entre produtores, técnicos e estudantes conheceram a tecnologia em funcionamento na vitrine tecnológica instalada na usina de Itaipu.
Valério Angelozi, produtor participante, demonstrou entusiasmo. “As técnicas de manejo de água são fundamentais para o bem-estar dos peixes e evitam perdas. O sistema reutiliza a água e promove sustentabilidade. Já penso em construir uma unidade experimental na minha propriedade”, revela.
Flávio Cesar Urizzi, da SJ Fish, que já produz tilápia em sistema BFT, confirmou que os pontos críticos da pesquisa coincidem com a vivência dos produtores. “A densidade adequada de peixes por metro cúbico é determinante para viabilizar financeiramente os projetos. O sistema se destaca por manter alimento sempre disponível, resultando em peixes mais fortes e de maior qualidade”, afirma.
Os pesquisadores concluem que o sistema BFT oferece uma solução tecnicamente viável e ambientalmente mais segura para a intensificação da aquicultura. Seu uso racional de recursos naturais e a capacidade de reter nutrientes o posicionam como alternativa estratégica frente às pressões por segurança alimentar e preservação dos ecossistemas.
O trabalho com bioflocos na Embrapa Meio Ambiente começou em 2013 e ganhou novo impulso com a parceria da Itaipu Binacional. O estudo atual é uma continuidade de pesquisas iniciadas há três anos que já haviam comprovado vantagens dessa tecnologia.
A Embrapa concluiu um estudo que mapeia o mercado internacional de tilápia e identifica oportunidades estratégicas para produtores brasileiros na Europa e nos Estados Unidos. A tilápia lidera a produção e exportação de pescado no Brasil, consolidando-se como o principal produto da aquicultura nacional, setor que registra crescimento consistente nos últimos anos.
O país ainda possui grande potencial inexplorado, especialmente quando se consideram vantagens naturais como qualidade da água e disponibilidade de áreas produtivas. O mercado brasileiro de tilápia tem margem significativa para expansão internacional.
Consumo nos EUA supera Europa em mais de 10 vezes
Os mercados europeu e americano apresentam cenários completamente distintos para o consumo de tilápia. A Europa registra consumo médio de apenas 39 gramas por habitante ao ano, com a Bélgica liderando o continente com 147 gramas per capita anuais. Os Estados Unidos consomem 460 gramas por habitante ao ano, cifra 11 vezes superior à média europeia.
“No caso dos Estados Unidos, chama a atenção a grande popularidade da tilápia junto aos consumidores em todo o país, o que tem proporcionado o crescimento do consumo de diversos produtos de tilápia, tanto frescos como congelados”, explica Manoel Pedroza, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO).
O mercado europeu concentra o consumo em nichos étnicos específicos: comunidades latino-americanas, árabes, asiáticas e africanas dominam a demanda. Já os Estados Unidos expandiram o consumo desde a década de 1990, transformando a tilápia em um dos peixes mais populares do país e líder entre as carnes brancas.
Tarifaço de Trump reduz exportações em 32%, mas setor resiste
O governo de Donald Trump impôs recentemente tarifas sobre produtos brasileiros, afetando as exportações de tilápia para os Estados Unidos. Os dados de agosto de 2025, primeiro mês com vigência do tarifaço, mostram queda de 32% nas exportações em toneladas comparado a agosto de 2024.
“Especialistas do setor esperavam uma queda maior e esse resultado mostra que o setor continua presente no mercado norte-americano, mesmo no cenário atual”, afirma Pedroza. A resistência do setor surpreendeu analistas que projetavam impacto mais severo.
Produtos congelados representam nova fronteira para exportadores
Pedroza identifica oportunidade concreta para o Brasil expandir exportações de tilápia congelada para os Estados Unidos. Atualmente, os produtores nacionais concentram presença no mercado de filé fresco. O mercado de congelados, embora mais competitivo em preços, possui demanda substancialmente maior.
Nos Estados Unidos, a presença do produto brasileiro é mais forte no mercado de filé fresco do peixe – Foto: Divulgação
“Algumas empresas brasileiras já vinham investindo na exportação de tilápia inteira e de filés congelados para os Estados Unidos, mas o tarifaço atrapalhou esse processo”, complementa o pesquisador.
Europa oferece oportunidades para produtos frescos após reabertura
O mercado europeu apresenta boa oportunidade para exportação de produtos frescos de tilápia brasileira após a conclusão da etapa de reabertura. Pedroza projeta que “os exportadores brasileiros podem se beneficiar da boa reputação do filé fresco de tilápia do Brasil e também aproveitar a grande oferta de voos para diversos países da Europa”.
O transporte aéreo torna-se essencial para produtos frescos, e o Brasil possui vantagem logística nesse aspecto. Porém, o pesquisador ressalta: “será necessário um trabalho robusto de divulgação dos produtos brasileiros e desenvolver a demanda por tilápia fresca, que atualmente é baixa na Europa”.
A pesquisa indica que exportadores brasileiros devem investir em estratégia de diferenciação que destaque a qualidade superior do produto nacional no mercado europeu. O setor precisa expandir além dos nichos étnicos tradicionais e competir com outras espécies de filé branco: panga, polaca do Alasca e perca do Nilo.
Os preços da tilápia chinesa estão subindo devido a aumentos nos custos de ração e transporte, fator que pode elevar a competitividade de produtos brasileiros exportados para a Europa.
O mercado americano oferece oportunidades em nichos premium que valorizam a qualidade da tilápia brasileira. A crescente demanda por rastreabilidade, a queda na oferta chinesa e de países centro-americanos, o segmento de congelados e a agregação de valor em produtos (novos cortes, empanados, tilápia vermelha e embalagens prontas para consumo) representam oportunidades concretas.
Desafios exigem investimentos em marketing e certificação
Os produtores brasileiros enfrentam desafios específicos em cada mercado. Na Europa, precisam tornar a tilápia mais conhecida através de ações de comunicação e marketing, estabelecer preços competitivos e focar estrategicamente na qualidade como diferencial.
Nos Estados Unidos, os desafios incluem o recente aumento das tarifas de exportação, necessidade de redução de preços, logística ágil para produtos frescos e exigência de certificação internacional.
A produção mundial de tilápia cresceu 43% entre 2013 e 2023, passando de 4,75 milhões para 6,78 milhões de toneladas, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
A China lidera com 1,8 milhão de toneladas (27% da produção global em 2023), seguida por Indonésia com 1,4 milhão de toneladas (21%) e Egito com 960 mil toneladas (14%).
O Brasil ocupa a quarta colocação com produção de 440 mil toneladas, representando 7% da produção mundial em 2023. O crescimento brasileiro impressiona: em 2013, o país produzia 170 mil toneladas, representando variação positiva de 161% em dez anos. O Brasil ocupava a oitava posição em 2013 e alcançou a quarta colocação em 2023.
Tilápia ainda ocupa posição discreta no varejo europeu
A tilápia ficou em sexto lugar entre os peixes brancos mais importados pela Europa em 2024, com 36,6 mil toneladas em um universo de quase 1,4 milhão de toneladas. O volume da tilápia equivale a apenas 11% das importações de polaca do Alasca (323,3 mil toneladas) e 47% das importações de panga (77 mil toneladas).
A publicação da Embrapa indica que “as importações europeias de tilápia têm apresentado estabilidade ao longo dos últimos dez anos, se mantendo em torno de 35 mil toneladas por ano”. Entre 2014 e 2024, as importações dessa espécie cresceram 13,5% em valor e apenas 2,4% em volume.
Dos dez principais países exportadores de tilápia para a Europa, seis atuam como reexportadores, recebendo e repassando o produto a outros países. Os outros quatro são asiáticos: China, Vietnã, Indonésia e Tailândia, conforme dados do European Market Observatory for Fisheries and Aquaculture Products (Eumofa).
Estados Unidos consolidam tilápia como segunda espécie mais importada
Os Estados Unidos importaram mais de 185,5 mil toneladas de tilápia em 2024, equivalendo a 13% do total de peixes importados e garantindo a segunda posição no ranking. O salmão lidera com 468 mil toneladas (34% do total).
Em termos financeiros, a tilápia movimentou mais de US$ 740 mil no mercado americano em 2024, respondendo por 6% do total. O salmão liderou o ranking financeiro com mais de US$ 5,760 milhões (metade do total), seguido pelo atum com mais de US$ 860 mil (7%), segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
China perde participação, Brasil ganha espaço no mercado americano
Entre 2014 e 2024, as importações americanas de tilápia caíram de 232.290 toneladas para 185.522 toneladas, recuo de 20%. Nos últimos anos, as importações se estabilizaram em torno de 180 mil toneladas.
A China domina as importações, mas perde participação. Em termos financeiros, caiu de 69% em 2014 para 52% em 2024. Em peso, passou de 75% para 67% no mesmo período.
O Brasil tornou-se o quarto maior exportador de tilápia para os Estados Unidos em 2024, quando nem figurava entre os dez principais em 2014. Os produtores brasileiros responderam por 7% do valor e 5% do peso importado pelos EUA em 2024.
A Embrapa Pesca e Aquicultura coordena e executa a pesquisa no âmbito do projeto “Fortalecimento das exportações brasileiras da aquicultura”. O financiamento vem de emendas parlamentares de números 45000016 e 31760007. A Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR) apoiou a pesquisa, que gerou dois informativos especiais.
O Brasil consolidou-se, em 2024, como o maior produtor de peixes de cultivo das Américas, ultrapassando o Chile e alcançando a marca de 968 mil toneladas produzidas. O avanço coloca o país na liderança continental e reforça sua ambição de alcançar o topo do ranking mundial da piscicultura até 2040, segundo dados da Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR).
A meta de liderança global está ancorada em investimentos robustos do setor privado, que devem representar cerca de 80% dos aportes no segmento nos próximos anos. O crescimento acelerado da tilapicultura, principal motor do setor, é impulsionado por avanços em genética, nutrição, manejo, equipamentos e sanidade. Além de estratégias para ampliar a comercialização nos mercados interno e externo.
Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR. Foto; reprodução
De acordo com Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR, a participação de empresas já consolidadas em outras cadeias de proteína animal, como aves e suínos, tem gerado sinergias que aceleram o desenvolvimento da piscicultura nacional. Nos últimos 11 anos, o setor registrou crescimento médio anual superior a 10%, evidenciando o potencial brasileiro para atingir a meta de 2040.
Tilapicultura brasileira é referência em tecnologia e produtividade
O Brasil já se destaca internacionalmente pela tilapicultura mais tecnológica do mundo. Segundo Medeiros, a produtividade nacional chega a ser o dobro da média global, resultado direto dos investimentos em inovação em toda a cadeia produtiva. O uso intensivo de ciência, tecnologia e inovação tem permitido ao setor crescer mesmo em cenários econômicos desafiadores, mantendo a competitividade do agronegócio brasileiro.
Apesar do cenário favorável, a piscicultura brasileira enfrenta desafios significativos. A sanidade dos plantéis é apontada como o principal gargalo atual, com aumento de ocorrências e sem sinais de recuo. No ambiente pós-produção, entraves regulatórios e mercadológicos exigem atenção constante para não comprometer o desempenho do setor.
A Peixe BR destaca que o trabalho contínuo da entidade é fundamental para manter o ritmo de expansão. Além de garantir que o Brasil siga atendendo às demandas dos mercados interno e externo. A proteína de pescado, especialmente a de peixes cultivados, já é a mais consumida no mundo. E o país pretende ampliar sua contribuição para a segurança alimentar global.
Minas Gerais se consolida como o terceiro maior produtor nacional de tilápia, com produção de 72,8 mil toneladas em 2024, crescimento de 18,18% em relação a 2023, segundo dados do Anuário da Piscicultura 2025 da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR). A tilápia representa a maior parte da produção estadual, com 68,7 mil toneladas, refletindo o aumento da demanda por pescado no Brasil.
Pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) destacam o potencial de expansão da piscicultura no estado. E desenvolvem técnicas para superar desafios do setor. Entre as iniciativas, está a produção e comercialização de alevinos geneticamente melhorados da linhagem GIFT, predominantemente machos revertidos, no Campo Experimental de Felixlândia, que contribuem para maior produtividade e eficiência na criação.
A piscicultura mineira enfrenta desafios como a necessidade de padronização da qualidade das rações, controle sanitário, infraestrutura para processamento e regularização ambiental. A Epamig conduz pesquisas para avaliação das rações comerciais e replicação de material genético aprimorado. Além da instalação de sistemas de estufas para manter a produção durante o inverno, garantindo oferta contínua de alevinos.
Principal polo produtor
O município de Morada Nova de Minas destaca-se como principal polo produtor, responsável por mais de 50% da produção estadual. Isso graças à forte organização dos produtores e acesso facilitado a crédito rural. Em 2023, foram captados R$ 78 milhões em custeio para piscicultura pela agência local Sicoob Aracoop, impulsionando o crescimento do setor.
Pesquisadores da Epamig apontam potencial de crescimento da piscicultura no estado e técnicas para enfrentar desafios. Foto: Epamig-MG / Divulgação
O consumo per capita de peixes no Brasil cresce anualmente, abrindo espaço para a substituição de importações por produção nacional, especialmente de tilápia. Que, aliás, é o peixe de água doce mais consumido no país devido ao sabor suave e valor nutricional. A expectativa para 2025 é de oferta elevada, com desafios para os preços pagos aos produtores, que deverão enfrentar um cenário de estoques grandes e necessidade de ajustes mercadológicos.
Além do filé, a tilápia gera subprodutos importantes, como pele para tratamento de queimaduras, farinha de peixe para rações e couro para confecção de bolsas e sapatos, ampliando o valor agregado da cadeia produtiva.
Para os produtores interessados, a Epamig oferece alevinos de tilápia-do-nilo com linhagem geneticamente aprimorada, disponíveis mediante consulta prévia por e-mail ([email protected]), fortalecendo a piscicultura mineira com tecnologia e inovação.