Tag: preservação

  • Pesca com botos no sul do Brasil vira patrimônio cultural

    Pesca com botos no sul do Brasil vira patrimônio cultural

    O movimento na praia começa cedo. Homens e mulheres se posicionam às margens do estuário com tarrafas e redes, aguardando o momento certo. Então eles aparecem: um a um, com barbatanas e dorsos cinzentos, saltando para indicar com precisão onde está o cardume. É nesse pacto entre humanos e cetáceos que vive a Pesca com Botos. E desde esta semana essa prática integra oficialmente o Patrimônio Cultural Brasileiro.

    Foto: Iphan

    O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprovou o registro durante o segundo dia da 112ª Reunião Ordinária do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. A atividade entrou no Livro dos Saberes, categoria que reconhece conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.

    Um registro além do humano

    O conselheiro Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, relatou o parecer favorável ao registro. O documento destaca a profundidade histórica da prática, sua complexidade socioecológica e seu valor simbólico. “Trata-se de um saber-fazer tradicional enraizado em territórios específicos, transmitido entre gerações e continuamente recriado pelas comunidades que dele participam”, afirma o texto.

    O parecer vai além: aponta que esse registro amplia os limites do patrimônio cultural para além do humano, “em sintonia com as demandas socioambientais do presente e as novas éticas não-antropocêntricas de coabitação entre espécies”.

    Para o presidente do Iphan, Leandro Grass, o ineditismo do registro está na junção dos olhares social, ambiental e biossocial. “É um chamado a um pensamento holístico, sistêmico, sustentabilista acerca do Patrimônio Cultural, comprometido com esse momento da história em que a humanidade precisa decidir se vai se destruir ou se vai permitir àqueles que ainda não nasceram viver dignamente”, declarou.

    Botos com nome e história

    A pesca cooperativa não acontece com animais anônimos. Cada boto tem nome, geralmente ligado às suas características físicas ou comportamentais. Taffarel era pulador como o jogador homônimo. O Alumínio brilhava tanto sob o sol que lembrava o metal. O Lobisomem recebeu esse apelido por causa da nadadeira comprida.

    A morte de um boto abala toda a comunidade. O Lobisomem e a Caroba, mortos em 2005 e 2022, causaram comoção. A partida da Caroba, a fêmea mais velha de Laguna, motivou a criação de um santuário em homenagem aos animais que já se foram.

    O pescador artesanal Reinaldo Florentino não esconde a preocupação com o futuro. “Se não resolvermos o habitat dos botos, todos vão morrer. São 16 ou 18 botos que interagem hoje com o pescador. Daqui a seis anos não vai existir mais botos, só em fotos. Quando morre um boto, a gente chora. Parece um membro da família. Eu conheço um por um: a Borracha, a Princesa, a Jade, o Fúria, o Natalino, o Cabeça-Feia, a Pomba”, disse emocionado.

    O alerta de Florentino tem respaldo científico. Em 2025, a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) reclassificou o boto-de-Lahille, a espécie envolvida na pesca colaborativa, de vulnerável para em perigo de extinção. A população mundial total estimada é de apenas cerca de 330 indivíduos, a maioria no litoral sul do Brasil.

    Como funciona a pesca

    A prática ocorre em quatro sistemas estuarinos entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os locais de maior frequência são a foz do Rio Tramandaí (RS) e o Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, próximo a Laguna. Ocasionalmente, acontece também nos estuários dos rios Mampituba (RS) e Araranguá (SC).

    Foto: Iphan

    A temporada concentra-se nos meses de maio, junho e julho. Os pescadores se reúnem no estuário e aguardam o sinal dos botos, que direcionam o cardume e o encurralam diante dos humanos. Quando o momento chega, o boto salta, alguns até emitem sons, sinalizando a hora de lançar a rede.

    O processo exige técnica e conhecimento específico: os botos fazem inúmeros movimentos e cabe ao pescador identificar quando o animal está de fato auxiliando a pesca. Somam-se a isso saberes sobre ventos, marés, hábitos dos peixes e geografia local.

    https://www.youtube.com/watch?v=LWGzFcv_jVk

    A prática já era patrimônio imaterial de Santa Catarina, reconhecida pela Fundação Catarinense de Cultura desde 2018. Agora, é patrimônio de todo o Brasil.

  • Pesquisadores pedem ajuda da população para salvar coruja-buraqueira

    Pesquisadores pedem ajuda da população para salvar coruja-buraqueira

    O avanço da urbanização sobre zonas periurbanas (áreas de transição entre o espaço urbano e o meio rural) ameaça uma das aves mais conhecidas do Brasil. Para enfrentar esse problema, pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP apostam na participação popular como estratégia central de conservação da Athene cunicularia, a coruja-buraqueira.

    A iniciativa parte do Laboratório de Etologia e Bioacústica (Ebac) e inclui monitoramento de ninhos em Ribeirão Preto e no distrito de Bonfim Paulista, com foco na região do Parque Olhos d’Água, onde a urbanização substitui rapidamente áreas rurais e canaviais. Qualquer cidadão pode colaborar: basta preencher um formulário on-line divulgado nas redes do grupo de pesquisa para indicar a localização de tocas.

    Presença visível não significa população saudável

    Embora muitos considerem a coruja-buraqueira uma espécie adaptada ao ambiente urbano, o histórico internacional contradiz essa percepção. Na América do Norte, populações já registraram declínio e até extinção em áreas urbanas consolidadas. No Canadá, o cenário gerou políticas de recuperação com meta mínima de 3 mil pares reprodutores e ações voltadas à proteção de habitat e redução de pesticidas.

    O doutorando Mauro Monteiro Cazentine, pesquisador do Ebac, explica que a classificação da espécie como sinantrópica (associada a ambientes humanos) cria uma falsa sensação de segurança. “A presença visível não garante viabilidade a longo prazo”, afirma. Em Ribeirão Preto, ele observa que a urbanização já provoca mudanças comportamentais nas aves: maior exposição diurna, mais tempo fora do ninho em estado de vigilância, uso de estruturas artificiais como postes e placas de trânsito, e maior tolerância à presença humana.

    A professora Patrícia Ferreira Monticelli, coordenadora do Ebac e orientadora do trabalho, esclarece que essas mudanças decorrem da plasticidade fenotípica. Traduzindo, a capacidade do organismo de ajustar comportamento, fisiologia ou morfologia em resposta ao ambiente, sem alterações genéticas imediatas. “Não se trata de um processo evolutivo”, ressalta. Mas há limites: “Não há plasticidade que vença a frequência com a qual tocas são soterradas pela construção.”

    Filhotes soterrados vivos sem que ninguém saiba

    Um dos riscos mais invisíveis à espécie ocorre durante obras civis. Terrenos licenciados frequentemente ficam desocupados por anos antes do início das construções. É tempo suficiente para as corujas estabelecerem ninhos ativos. Sem nova triagem ambiental obrigatória, as tocas passam por abandonadas.

    “Chega o trator, mexe em toda aquela terra, os filhotes vão ser soterrados vivos e ninguém fica sabendo que animais foram mortos ali por causa dessa falta de informação”, denuncia Patrícia.

    Diante disso, os pesquisadores defendem instrumentos jurídicos específicos para proteger as tocas, nos moldes da legislação já existente para árvores ameaçadas. O argumento vai além da biodiversidade: a coruja-buraqueira presta serviços ecossistêmicos diretos às cidades, alimentando-se de baratas, escorpiões, ratos e camundongos. “A presença de tocas em áreas urbanas pode representar uma troca de serviços entre espécies, com benefício ao controle biológico natural”, afirma a coordenadora.

    As ameaças diretas à espécie incluem atropelamentos, destruição de ninhos por obras, redução de áreas de forrageamento, predação por cães, gatos, gambás e teiús, e até mortes associadas a crenças culturais que atribuem mau agouro à coruja.

    Ciência multidisciplinar para embasar políticas públicas

    O estudo integra bioacústica, genética, análise trófica e ações educativas. Com colaboração da ornitóloga Ana Carla Aquino, o Ebac utiliza análise de isótopos estáveis de carbono e nitrogênio para identificar a dieta das aves por marcas químicas nos tecidos. “O que a coruja come deixa uma marca isotópica nas penas, no sangue ou no regurgito”, explica Cazentine. A técnica permite distinguir presas urbanas, agrícolas e naturais, revelando como a urbanização altera os hábitos alimentares da espécie.

    O monitoramento bioacústico complementa a pesquisa: as vocalizações indicam defesa territorial, contato entre parceiros, presença de filhotes e níveis de estresse populacional. Os pesquisadores alertam que o ruído urbano pode interferir na comunicação entre as aves, dificultar encontros reprodutivos e contribuir para o isolamento genético das populações.

    A diversidade genética também preocupa. Uma população saudável produz cerca de três filhotes por ninhada e mantém reprodução frequente. A fragmentação urbana pode aumentar a consanguinidade e tornar a espécie mais vulnerável a doenças, mudanças climáticas e perturbações locais.

    Como ajudar

    A população pode colaborar com o monitoramento indicando a localização de tocas pelo formulário on-line disponível nas redes do Ebac. Os pesquisadores também defendem a retomada de placas informativas nas áreas de ocorrência e a atuação conjunta entre cidadãos e poder público para comunicar perturbações às autoridades ambientais.

    Foto: Wikimedia Commons

    Vale lembrar: perturbar, capturar ou causar danos à fauna silvestre é crime ambiental sujeito a punição.

    Rose Talamone/Jornal da USP

  • Maior reserva ambiental do Piauí protege 560 hectares de Caatinga

    Maior reserva ambiental do Piauí protege 560 hectares de Caatinga

    lgO Piauí acaba de ganhar sua maior Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) de gestão estadual: a RPPN Flor da América, localizada em Colônia do Piauí. Com 560 hectares de Caatinga sob proteção permanente, a nova unidade de conservação representa um avanço histórico para a preservação do bioma, o único exclusivamente brasileiro. E um passo importante para o fortalecimento da conservação privada no país.

    A criação da reserva foi oficializada durante solenidade em Teresina (PI), em celebração ao Dia Nacional das RPPNs, comemorado em 31 de janeiro, data que ressalta o papel estratégico dessas áreas para a proteção da biodiversidade e o incentivo à preservação ambiental em propriedades particulares.

    Refúgio ecológico e legado ambiental

    A RPPN Flor da América, criada pela Auren Energia, funcionará como um verdadeiro santuário ecológico para diversas espécies da fauna e flora típicas do semiárido. Entre os animais protegidos estão aves, mamíferos, répteis e anfíbios que dependem da vegetação nativa para sobreviver.

    Além de abrigar a vida silvestre, a reserva exerce papel fundamental na regulação climática, na conservação do solo e na recarga hídrica da região. Sua localização estratégica contribui para a formação de corredores ecológicos. Permitindo o fluxo genético das espécies e fortalecendo a resiliência ambiental da Caatinga frente às mudanças climáticas.

    Avanço para a conservação do semiárido

    A criação da RPPN Flor da América integra um conjunto de ações voltadas à restauração e ao manejo sustentável da Caatinga no estado. Nessas áreas, monitoramentos recentes registraram mais de 170 espécies nativas, incluindo o periquito-da-caatinga, o pompeu e o gato-do-mato-pequeno. Todos classificados como vulneráveis pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).


    Jarbas Amaro, gerente de Sustentabilidade, e Rafael Campolina, gerente executivo de Sustentabilidade da Auren Energia, participam da cerimônia de assinatura para a criação da RPPN. Foto: Narcílio Costa/ Ascom Semarh/PI

    A iniciativa reforça o compromisso com a preservação de biomas estratégicos e demonstra o papel crescente do setor privado na ampliação das áreas de conservação voluntária no Brasil.

  • Fazendas privadas preservam 29% do território brasileiro, revela estudo da Embrapa

    Fazendas privadas preservam 29% do território brasileiro, revela estudo da Embrapa

    Produtores rurais brasileiros conservam a maior parcela de vegetação nativa do país dentro de suas propriedades. Um levantamento da Embrapa mostra que as fazendas privadas destinam 29% do território nacional à preservação ambiental, superando as áreas de proteção integral, terras indígenas e áreas militares, que juntas representam 19,7% do Brasil.

    O estudo, que a Embrapa apresentará oficialmente em 2026, identifica vegetação nativa em 65,6% do território brasileiro. A empresa divulgou os números preliminares durante a COP30, em Belém, no dia 10 de novembro.

    Agropecuária ocupa menos de um terço do país

    As atividades agropecuárias ocupam 31,3% do território nacional. Desse total, a pecuária utiliza 19,4% das terras, enquanto a agricultura consome 10,8% e a silvicultura responde por 1,1%.

    “A integração das análises espaciais de bases governamentais com os dados de sensoriamento remoto resultou neste retrato detalhado do território brasileiro”, explica Carlos Alberto de Carvalho, analista da Embrapa Territorial.

    O Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (SiCAR) registra que os produtores destinam metade da área total de seus imóveis à preservação ambiental. Outros 10,4% do território apresentam vegetação nativa em áreas ainda não cadastradas ou devolutas.

    As Unidades de Conservação de Uso Sustentável, que permitem exploração controlada dos recursos naturais, ocupam 6,5% do país.

    Cerrado e Amazônia apresentam perfis distintos

    No Cerrado, principal região produtora de grãos do Brasil, a preservação e proteção ambiental abrangem 52,2% do bioma. Os produtores declaram 34,7% das terras como áreas preservadas, enquanto a agropecuária opera em 45,9% do território.

    Foto: Embrapa Territorial

    A Amazônia mantém 83,7% de suas terras dedicadas à proteção e preservação. As unidades de conservação, terras indígenas e áreas militares totalizam 34,9% do bioma. Os imóveis rurais preservam 27,4% da região, enquanto as atividades agropecuárias ocupam 14,1% – sendo 12,1% de pastagens e 2% de lavouras.

    Foto: Embrapa Territorial

    Dados orientam políticas públicas

    Lucíola Magalhães, chefe-adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Territorial, destaca que o trabalho utiliza bases oficiais e públicas que passam por atualizações periódicas. “Essas bases sofrem ajustes ao longo do tempo em função de diversos fatores, entre eles a adequação dos limites territoriais”, explica.

    A pesquisadora acredita que o estudo orienta políticas de uso sustentável do solo. “Compreender como o território brasileiro distribui-se entre diferentes atores, públicos e privados, fundamenta decisões mais assertivas. Essas informações apoiam programas de pagamento por serviços ambientais e o planejamento de projetos de monitoramento”, afirma.

    Gustavo Spadotti, chefe-geral da Embrapa Territorial, ressalta que os resultados fortalecem a imagem do Brasil como líder global em uso sustentável da terra. “Estes resultados, apresentados nos palcos da COP30, não apenas qualificam o debate ambiental, mas também fortalecem a posição brasileira”, completa.

  • Lobos do Santuário do Caraça mostram adaptação à presença humana

    Lobos do Santuário do Caraça mostram adaptação à presença humana

    Um estudo recente na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário do Caraça, em Minas Gerais, revelou que os lobos-guarás estão habituados à presença de visitantes sem alterar seus comportamentos naturais.

    https://www.instagram.com/reel/C9xNMZAOTRq/

    A pesquisa, realizada pelo projeto “Turismo de observação do lobo-guará como ferramenta de conservação” e apoiada pelo programa Semente, aponta a convivência pacífica entre animais e turistas, principalmente nas proximidades da Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens.

    Foto: Santuário do Caraça

    Dois casais de lobos-guarás vivem na reserva. Sampaia (8 anos) e Zico (6 anos) ocupam a área central do Santuário, enquanto Petrina (3 anos) e Lourenço (5 anos) habitam uma região mais rural conhecida como “baixada caracense”. As áreas utilizadas pelos casais não se sobrepõem, confirmando o comportamento territorialista típico da espécie.

    O monitoramento por colares GPS e câmeras trap, em operação por 430 dias, mostrou que Sampaia percorreu cerca de 106,21 km², e Zico, 161,67 km². Petrina e Lourenço, acompanhados em períodos menores, circularam por áreas compatíveis com os padrões da espécie em ambiente selvagem. O estudo também indicou que, mesmo quando próximos a humanos, os lobos mantêm independência e preferem áreas preservadas para alimentação e descanso.

    Bernardo Borba, coordenador ambiental do Santuário do Caraça, destacou que o ambiente protegido garante segurança e condições ideais para a reprodução e sobrevivência dos lobos. Ele reforçou que o turismo sustentável é uma aliada da conservação.

    Parceria

    O projeto contou com parceria do Instituto Pró-Carnívoros e do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação dos Mamíferos Carnívoros (CENAP/ICMBio). Rogério Cunha, coordenador do CENAP, ressaltou o comportamento territorial e a ausência de disputa entre os casais.

    Cascata dentro do Santuário. Foto: Santuário do Caraça

    Além disso, o estudo registrou interações positivas entre lobos e visitantes no adro da igreja. Sampaia demonstrou mais conforto com a presença humana, embora o tempo próximo aos visitantes seja curto. Os lobos também circulam nas trilhas turísticas fora do horário de visitação, reforçando a coexistência harmoniosa.

    O programa Semente, que financiou a pesquisa, conecta o Ministério Público de Minas Gerais a iniciativas socioambientais, viabilizando a conservação por meio do turismo consciente. Assim, a ação fortalece a proteção do lobo-guará, espécie vulnerável, e realça a importância da preservação do Cerrado.

  • Tatu-canastra: o gigante ameaçado do Cerrado Brasileiro

    Tatu-canastra: o gigante ameaçado do Cerrado Brasileiro

    O tatu-canastra (Priodontes maximus) representa um dos mamíferos mais fascinantes e menos conhecidos do Brasil. Considerado o maior tatu do mundo, este gigante da fauna brasileira enfrenta sérias ameaças à sua sobrevivência, sendo classificado como espécie Vulnerável pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).

    O tatu-canastra impressiona por suas dimensões excepcionais. Com mais de 1,5 metro de comprimento total, pode pesar entre 30 a 60 quilos, sendo que exemplares de 40 quilos já foram registrados em pesquisas recentes. Sua carapaça escura e robusta é composta por bandas flexíveis que permitem movimentação, apresentando uma linha branca lateral característica que auxilia na identificação individual dos animais.

    Anatomia especializada

    Uma das características mais marcantes da espécie são suas garras anteriores em formato de foice, extremamente desenvolvidas para escavação. Essas garras são tão grandes que o animal caminha apoiado nas pontas delas. Todo o corpo é coberto por escamas pentagonais rígidas, incluindo pernas, cauda e cabeça, proporcionando proteção natural contra predadores.

    O tatu-canastra possui hábitos noturnos e semifossoriais, passando considerável tempo em tocas subterrâneas que podem atingir mais de 40 centímetros de largura e 30 centímetros de altura. Apesar da aparência robusta, é um animal surpreendentemente ágil, capaz de correr rapidamente e manter equilíbrio sobre as patas traseiras.

    Durante suas atividades noturnas, pode percorrer trajetos superiores a 3 quilômetros em busca de alimento. Seu comportamento solitário e tímido torna a espécie praticamente invisível, dificultando estudos científicos e observações na natureza.

    Alimentação e papel ecológico

    O tatu-canastra é o maior mirmecófago entre os tatus, alimentando-se quase exclusivamente de formigas e cupins. Durante o processo alimentar, destrói completamente os cupinzeiros, deixando-os espalhados e rebaixados ao nível do solo – um sinal característico de sua presença no ambiente.

    Ocasionalmente, complementa sua dieta com outros insetos, aranhas, minhocas, larvas, cobras e carniça. Sua importância ecológica é fundamental para o controle populacional de insetos sociais e manutenção do equilíbrio dos ecossistemas onde habita.

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    A espécie possui ampla distribuição no território brasileiro, ocorrendo principalmente no Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica. Pesquisadores monitoram populações em diferentes regiões, desde o Pantanal sul-mato-grossense até reservas no Espírito Santo, o que demonstra a capacidade de adaptação da espécie a diversos biomas.

    Ameaças e desafios de conservação

    O tatu-canastra enfrenta múltiplas ameaças em seu habitat natural. A destruição de ambientes naturais, expansão agropecuária e atropelamentos em rodovias representam os principais fatores de risco. Dados recentes indicam que entre maio de 2023 e abril de 2024, 2.300 animais foram atropelados em apenas 350 quilômetros da BR-262.

    tatu canastra de pé
    Foto: Kevin Schafer/ICAS

    A natureza tímida e os hábitos noturnos da espécie dificultam estudos científicos abrangentes. O tatu-canastra permanece como um dos mamíferos de grande porte menos conhecidos do Brasil, limitando o desenvolvimento de estratégias de conservação mais eficazes.

    Importância da Conservação

    A conservação do tatu-canastra é essencial não apenas para a sobrevivência da própria espécie, mas também para manutenção do equilíbrio ecológico de seus habitats. Sua função como controlador de populações de insetos sociais influencia diretamente a dinâmica de outros organismos.

    Como espécie que requer grandes territórios preservados, o tatu-canastra funciona como espécie guarda-chuva, cuja proteção beneficia inúmeras outras espécies que compartilham os mesmos habitats.

    Projeto tatu-canastra: pioneirismo na conservação

    O Projeto Tatu-Canastra teve início em 2010 na Fazenda Baia das Pedras, região da Nhecolândia, no Pantanal sul-mato-grossense. Desenvolvido pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), o projeto representa mais de 14 anos de dedicação à pesquisa e conservação da espécie.

    O objetivo principal é compreender a ecologia, biologia e história natural do tatu-canastra, gerando conhecimento científico essencial para estratégias de preservação eficazes. Atualmente, estima-se a presença de 7 a 8 indivíduos a cada 10 quilômetros quadrados na região de estudo original.

    O projeto utiliza técnicas avançadas de monitoramento, incluindo radiotelemetria e análises genéticas, para acompanhar indivíduos em vida livre. Recentemente, foi registrada a captura do maior tatu-canastra já documentado no Parque Natural Municipal do Pombo, em Três Lagoas, pesando 40 quilos.

    Foto: Prefeitura de Três Lagoas

    As pesquisas revelaram informações cruciais sobre padrões de movimentação, uso de habitat e comportamento reprodutivo da espécie. Uma fêmea monitorada desde 2021 tornou-se embaixadora científica da espécie, contribuindo significativamente para o conhecimento sobre a biologia reprodutiva em ambiente natural.

    Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS)

    O ICAS destaca-se como instituição pioneira na conservação de fauna silvestre brasileira, desenvolvendo projetos científicos que combinam pesquisa de campo com ações de preservação. Além do tatu-canastra, a organização atua na proteção de outras espécies ameaçadas, como o tamanduá-bandeira.

    O instituto mantém parcerias com universidades, como a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e organizações internacionais, ampliando o alcance das pesquisas. Colaborações com o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) fortalecem as ações de conservação em diferentes biomas.

    O ICAS promove regularmente exposições e eventos educativos, como a exposição “Nossos Gigantes” realizada no Bioparque Pantanal, apresentando características e curiosidades sobre o tatu-canastra e outras espécies para o público geral.

    Os esforços contínuos do Projeto Tatu-Canastra e do ICAS representam esperança para o futuro da espécie. Com mais de uma década de pesquisas dedicadas, o conhecimento acumulado fornece base sólida para implementação de medidas de proteção mais eficazes.

    A expansão do projeto para diferentes biomas e o fortalecimento de parcerias institucionais ampliam as possibilidades de sucesso na conservação desta espécie única da fauna brasileira. O trabalho pioneiro desenvolvido serve como modelo para conservação de outras espécies ameaçadas, demonstrando a importância da pesquisa científica de longo prazo na preservação da biodiversidade nacional.

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  • Araras-canindé são reabilitadas antes da liberdade

    Araras-canindé são reabilitadas antes da liberdade

    Vinte e sete araras-canindé (Ara ararauna) foram transferidas para o Centro de Conservação e Manejo de Fauna da Caatinga (Cemafauna), em Petrolin. Isso é parte do Projeto Papagaio da Caatinga. O Ibama, em parceria com a Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH), realizou a ação. E tem como objetivo reabilitar as aves para futura soltura na natureza. Especialmente no sul do Piauí, sua região de origem.

    Quatro Centros de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras) diferentes encaminharam as araras, mantidas nesses locais após o resgate de situações de tráfico, cativeiro ilegal ou maus-tratos. A iniciativa reforça a recuperação de psitacídeos – família que inclui papagaios, araras e periquitos – e amplia os esforços para reintroduzi-las em seu habitat natural.

    Rede Cetas: peça-chave na conservação da fauna

    A Rede Cetas, composta por centros mantidos pelo Ibama e parceiros em todo o país, é fundamental no resgate, tratamento e reabilitação de animais silvestres. Além de assegurar o bem-estar dos animais, a rede ajuda a combater o tráfico de espécies e gera dados essenciais para políticas de conservação.

    Uma parceria entre Ibama e CPRH transportou 27 aves para o Cemafauna, em Petrolina, como parte de iniciativa de conservação de psitacídeos. Foto: Ascom/Ibama-PE

    O Ibama destaca que ações como essa reforçam o compromisso com a biodiversidade brasileira, promovendo a reintrodução responsável de animais e a preservação de biomas como a Caatinga.

     

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  • Duelo de gigantes no Pantanal: onça enfrenta jacaré em cena rara

    Duelo de gigantes no Pantanal: onça enfrenta jacaré em cena rara

    No coração do Pantanal, uma cena impressionante registra o momento em que uma onça-pintada e um jacaré travam um verdadeiro duelo pela sobrevivência. O felino, conhecido como Ousado, já superou queimaduras nas patas e hoje mostra sua força em um confronto épico.

    O Pantanal brasileiro é palco de espetáculos da natureza, mas poucos são tão intensos quanto o confronto entre dois dos maiores predadores da região: a onça-pintada e o jacaré. Em uma cena rara, a onça chamada Ousado — famosa por ter sido resgatada com as patas queimadas e depois reintroduzida na natureza — ataca um jacaré, que revida com uma mordida no felino.

    O vídeo, que viralizou nas redes sociais do canal pantanalblog, mostra a força bruta desses animais em uma luta pela sobrevivência. Onças são conhecidas por caçar jacarés, mas a reação do réptil transforma o ataque em um duelo equilibrado. Ousado, símbolo de resiliência, prova mais uma vez sua habilidade como um dos maiores predadores do bioma.

    A história de Ousado: superação e força

    Ousado ganhou notoriedade após ser resgatado com graves queimaduras nas patas, possivelmente causadas por incêndios no Pantanal. Reabilitado por especialistas, ele foi solto novamente na natureza e desde então é monitorado. Sua recuperação é um exemplo de conservação e resistência.

    Cenas como essa reforçam a importância da preservação do Pantanal, um bioma único e essencial para a biodiversidade. Vídeos de animais selvagens em ação têm alto engajamento, atraindo atenção para causas ambientais.

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  • Brasileira vence o Whitley Award, o “Oscar Verde”

    Brasileira vence o Whitley Award, o “Oscar Verde”

    A bióloga brasileira Yara Barros, coordenadora-executiva do Projeto Onças do Iguaçu (POI), recebeu nesta quarta-feira (30), em Londres, o prestigiado Whitley Award, concedido pela Whitley Fund for Nature. Conhecido como o “Oscar Verde”, o prêmio reconhece líderes ambientais do Sul Global e celebra os 30 anos de dedicação da cientista à preservação da fauna brasileira — em especial, da onça-pintada e da ararinha-azul.

    Yara foi uma das seis vencedoras selecionadas entre mais de 100 candidatos de todo o mundo. Cada premiado receberá £50 mil (aproximadamente R$ 380 mil) para investir em seus projetos ao longo de 2025. O reconhecimento internacional antecede outro feito importante: Yara foi anunciada como uma das ganhadoras do prêmio WINGS Women of Discovery 2025, que será entregue em outubro, nos Estados Unidos, destacando mulheres cientistas de impacto global.

     

    À frente do POI desde 2018, Yara Barros lidera esforços para recuperar a população da onça-pintada na Mata Atlântica. Neste bioma, o animal é considerado criticamente ameaçado de extinção. Com base no Parque Nacional do Iguaçu, ela também coordena o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Grandes Felinos (2024–2029), em parceria com o ICMBio e outras entidades.

    Vida dedicada à conservação

    “Esse prêmio é o reconhecimento de uma vida inteira dedicada à conservação”, afirma Yara. A equipe aplicará parte do valor em novas ações de monitoramento, educação ambiental e coexistência com comunidades locais. Com o objetivo de transformar o medo da onça em encantamento e garantir sua proteção a longo prazo.

    O POI atua em dez municípios no entorno do Parque Nacional do Iguaçu, com ações que integram conservação, geração de renda e educação ambiental. Um exemplo é o programa “Crocheteiras da Onça”, que capacita mulheres artesãs e fortalece a economia local por meio de produtos inspirados na fauna regional.

    Com um orçamento anual de cerca de R$ 800 mil e uma equipe enxuta de seis pessoas, o projeto tem obtido resultados expressivos. De 2009 a 2022, a população de onças na região conhecida como Corredor Verde (fronteira entre Brasil e Argentina) saltou de 40 para 93 indivíduos. No lado brasileiro, o número passou de 11 para 25 felinos monitorados.

    Agora, Yara e sua equipe lideram a criação da Rede de Coexistência da Tríplice Fronteira. Ela unirá esforços de Brasil, Argentina e Paraguai para promover práticas sustentáveis de manejo e convivência entre comunidades humanas e grandes felinos.

    “A sobrevivência da onça-pintada na Mata Atlântica depende da combinação entre ciência, engajamento social e políticas públicas integradas”, afirma a pesquisadora. Com apenas 24% da vegetação original do bioma preservada, a proteção da onça, considerada espécie guarda-chuva, é fundamental para conservar todo o ecossistema.

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  • Crise das abelhas no Texas ameaça produção agrícola

    Crise das abelhas no Texas ameaça produção agrícola

    As abelhas, essenciais para a produção de alimentos, enfrentam uma grave ameaça no Texas. O colapso das colônias preocupa agricultores e especialistas. Atualmente, apicultores do Texas relatam perdas alarmantes em suas populações de abelhas. Segundo a Food & Wine, os produtores comerciais perderam cerca de dois terços das colônias no último ano.

    Além disso, uma pesquisa do Projeto Apis m., organização focada em pesquisas sobre abelhas, confirmou o cenário preocupante. O levantamento revelou que apicultores dos Estados Unidos perderam mais de 60% de suas colônias, causando prejuízos de US$ 635 milhões. “Se um apicultor comercial tem 500 colmeias, ele prevê perdas de aproximadamente 60%”, explicou Dennis Taylor ao Texas News Channel 6 Now. “Isso será um divisor de águas para a recuperação deles”, completou.

    O Texas desempenha papel central no sistema alimentar dos Estados Unidos. O estado é o quarto maior produtor agrícola do país e cultiva mais de 600 culturas especiais. Entre os principais cultivos estão pepinos, melões, abóboras e frutas vermelhas. Muitas dessas culturas dependem diretamente dos polinizadores para gerar frutos.

    Impacto nas prateleiras dos supermercados

    As abelhas polinizam cerca de um terço de tudo o que comemos. Portanto, o declínio populacional pode afetar toda a cadeia de produção de alimentos. “A queda nas populações de abelhas pode reduzir rendimentos, aumentar custos de produção e elevar preços nos supermercados”, alertou a entomologista Tracy Ellis, da FarmSense. Conforme destacou Ellis, vários fatores impulsionam essa crise.

    Entretanto, os ácaros varroa continuam sendo o maior desafio enfrentado pelos apicultores. Esses parasitas atacam as larvas das abelhas e transmitem vírus mortais. Paralelamente, a perda de habitat e eventos climáticos extremos também dificultam a sobrevivência das abelhas no Texas.

    Crise ameaça outros estados e países

    O problema, no entanto, não se limita ao Texas. A Califórnia, maior produtora agrícola dos Estados Unidos, depende das abelhas texanas para polinizar plantações de amêndoas. “Em alguns casos, vamos perder empresas de apicultura”, afirmou Geoffrey Williams, professor de agricultura da Universidade de Auburn.

    Segundo Tracy Ellis, os polinizadores são extremamente móveis. Por isso, uma crise localizada pode rapidamente se espalhar, afetando sistemas alimentares em outros estados e até em outros continentes.

    Como ajudar as abelhas

    Embora o problema pareça distante, todos podem ajudar a proteger as abelhas em seu dia a dia. Uma das principais ações é criar habitats seguros. “Plante árvores floridas, arbustos e plantas nativas para alimentar e proteger os polinizadores”, recomendou Ellis.

    Além disso, evitar pesticidas químicos pode reduzir os danos às já vulneráveis populações de abelhas. Outra forma de apoio é optar por produtos da estação e reduzir o desperdício de alimentos. Por fim, comprar de agricultores locais e apoiar políticas ambientais fortalecem ainda mais a preservação das abelhas a longo prazo.

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