O movimento na praia começa cedo. Homens e mulheres se posicionam às margens do estuário com tarrafas e redes, aguardando o momento certo. Então eles aparecem: um a um, com barbatanas e dorsos cinzentos, saltando para indicar com precisão onde está o cardume. É nesse pacto entre humanos e cetáceos que vive a Pesca com Botos. E desde esta semana essa prática integra oficialmente o Patrimônio Cultural Brasileiro.

O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprovou o registro durante o segundo dia da 112ª Reunião Ordinária do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. A atividade entrou no Livro dos Saberes, categoria que reconhece conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.
Um registro além do humano
O conselheiro Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, relatou o parecer favorável ao registro. O documento destaca a profundidade histórica da prática, sua complexidade socioecológica e seu valor simbólico. “Trata-se de um saber-fazer tradicional enraizado em territórios específicos, transmitido entre gerações e continuamente recriado pelas comunidades que dele participam”, afirma o texto.
- Operação apreende 550 cabeças de gado em operação em terra indígena
- Onça-pintada resgatada se prepara para voltar para vida selvagem
O parecer vai além: aponta que esse registro amplia os limites do patrimônio cultural para além do humano, “em sintonia com as demandas socioambientais do presente e as novas éticas não-antropocêntricas de coabitação entre espécies”.
Para o presidente do Iphan, Leandro Grass, o ineditismo do registro está na junção dos olhares social, ambiental e biossocial. “É um chamado a um pensamento holístico, sistêmico, sustentabilista acerca do Patrimônio Cultural, comprometido com esse momento da história em que a humanidade precisa decidir se vai se destruir ou se vai permitir àqueles que ainda não nasceram viver dignamente”, declarou.
Botos com nome e história
A pesca cooperativa não acontece com animais anônimos. Cada boto tem nome, geralmente ligado às suas características físicas ou comportamentais. Taffarel era pulador como o jogador homônimo. O Alumínio brilhava tanto sob o sol que lembrava o metal. O Lobisomem recebeu esse apelido por causa da nadadeira comprida.
A morte de um boto abala toda a comunidade. O Lobisomem e a Caroba, mortos em 2005 e 2022, causaram comoção. A partida da Caroba, a fêmea mais velha de Laguna, motivou a criação de um santuário em homenagem aos animais que já se foram.
- Estudo revela o que diferencia os queijos artesanais de Minas Gerais
- Flagrante raro: sucuri caça peixe em lagoa de águas transparentes
O pescador artesanal Reinaldo Florentino não esconde a preocupação com o futuro. “Se não resolvermos o habitat dos botos, todos vão morrer. São 16 ou 18 botos que interagem hoje com o pescador. Daqui a seis anos não vai existir mais botos, só em fotos. Quando morre um boto, a gente chora. Parece um membro da família. Eu conheço um por um: a Borracha, a Princesa, a Jade, o Fúria, o Natalino, o Cabeça-Feia, a Pomba”, disse emocionado.
O alerta de Florentino tem respaldo científico. Em 2025, a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) reclassificou o boto-de-Lahille, a espécie envolvida na pesca colaborativa, de vulnerável para em perigo de extinção. A população mundial total estimada é de apenas cerca de 330 indivíduos, a maioria no litoral sul do Brasil.
Como funciona a pesca
A prática ocorre em quatro sistemas estuarinos entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os locais de maior frequência são a foz do Rio Tramandaí (RS) e o Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, próximo a Laguna. Ocasionalmente, acontece também nos estuários dos rios Mampituba (RS) e Araranguá (SC).

A temporada concentra-se nos meses de maio, junho e julho. Os pescadores se reúnem no estuário e aguardam o sinal dos botos, que direcionam o cardume e o encurralam diante dos humanos. Quando o momento chega, o boto salta, alguns até emitem sons, sinalizando a hora de lançar a rede.
O processo exige técnica e conhecimento específico: os botos fazem inúmeros movimentos e cabe ao pescador identificar quando o animal está de fato auxiliando a pesca. Somam-se a isso saberes sobre ventos, marés, hábitos dos peixes e geografia local.
https://www.youtube.com/watch?v=LWGzFcv_jVk
A prática já era patrimônio imaterial de Santa Catarina, reconhecida pela Fundação Catarinense de Cultura desde 2018. Agora, é patrimônio de todo o Brasil.





















